Kitabı oku: «Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume primeiro»

Yazı tipi:

Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto

Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume primeiro


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066406493

Índice de conteúdo

BENGUELLA Á CONTRA-COSTA.

A-TRAVÈS REGIÕES DESCONHECIDAS;

DETERMINAÇÕES GEOGRAPHICAS E ESTUDOS ETHNOGRAPHICOS.

A SUA EXCELLENCIA, O CONSELHEIRO JOÃO D'ANDRADE CORVO.

TRIBUTO DE GRATIDÃO.

O LIVRO.

O TÌTULO DO LIVRO.

CONTEÜDO.

PRÒLOGO.

CAPÌTULO I.

CAPÌTULO II.

CAPÌTULO III.

CAPÌTULO IV.

CAPÌTULO V.

CAPÌTULO VI.

CAPÌTULO VII.

CAPÌTULO VIII.

LISTA DAS ILLUSTRAÇÕES.

MAPPAS NO VOLUME PRIMEIRO.

COMO EU ATRAVESSEI A ÀFRICA.

Primeira Parte.--A CARABINA D'EL-REI.

PRÒLOGO.

I.--Como eu fui Explorador.

II.--Como foi Preparada a Expedição.

CAPÌTULO I.

EM BUSCA DE CARREGADORES.

CAPÌTULO II.

AINDA EM BUSCA DE CARREGADORES.

CAPÌTULO III.

HISTORIA DE UM CARNEIRO.

CAPÌTULO IV.

POR TERRAS AVASSALLADAS.

CAPÌTULO V.

VINTE DIAS DE AGONIA.

CAPÌTULO VI.

PEREIRA DE MELLO E SILVA PORTO.

CAPÌTULO VII.

ENTRE OS GANGUELAS.

CAPÌTULO VIII.

AS FILHAS DO REI DOS AMBUELAS.

BENGUELLA Á CONTRA-COSTA.
A-TRAVÈS REGIÕES DESCONHECIDAS;

Índice de conteúdo

DETERMINAÇÕES GEOGRAPHICAS E ESTUDOS ETHNOGRAPHICOS.

Índice de conteúdo

Por SERPA PINTO.


Dois Volumes.



Contendo 15 mappas e facsimiles, e 133 gravuras feitas dos desenhos do

autor.



VOLUME PRIMEIRO.


Primeira Parte--A CARABINA D'EL-REI.



LONDRES:

SAMPSON LOW, MARSTON, SEARLE, e RIVINGTON,

EDITORES,

CROWN BUILDINGS, 188 FLEET STREET.

1881.


[Tôdos os direitos sam reservados.]



LONDRES:

NA TYPOGRAPHIA DE GUILHERME CLOWES E FILHOS (COMPANHIA LIMITADA),

STAMFORD STREET E CHARING CROSS.




A SUA MAGESTADE EL-REI D. LUIZ 1^o,


COM PRÈVIA LICENÇA


OFFERECE ESTE LIVRO


O AUTÔR.




SENHOR,


Não foi um sentimento de adulação servil que me levou a pedir licença a Vossa Magestade para lhe dedicar este livro, foi o reconhecimento de uma dupla dìvida de justiça e de gratidão: de justiça ao Monarcha intelligente e illustrado que firmou o decreto creando recursos para a primeira expedição scientìfica Portugueza d'este sèculo á Àfrica Central; de gratidão, ao prìncipe cujos dotes de coração e de espìrito disputam primazias ás suas elevadas qualidades de um dos primeiros reis constitucionaes da Europa contemporànea.


Deu-me Vossa Magestade ensejo de prender indissoluvelmente o meu obscuro nome de soldado Portuguez, a uma das mais felizes e auspiciosas tentativas modernamente feitas por Portugal; por isso esse livro pertence a Vossa Magestade como legìtimo tìtulo da minha immensa gratidão. Ouso rogar respeitosamente a Vossa Magestade queira aceitar a minha humilde offerta com a mesma benevolencia com que se dignou dar-me incitamentos para uma empresa, da qual, depois de realisada, fôram ainda os favôres de Vossa Magestade a mais sincera e não regateada recompensa.


O Vosso ajudante de campo

E o mais dedicado dos

Vossos sùbditos,


Alexandre de Serpa Pinto.



Londres, 61 Gower Street,

5 de Dezembro de 1880.






A SUA EXCELLENCIA, O CONSELHEIRO JOÃO D'ANDRADE CORVO.

Índice de conteúdo


Ill^{mo.} e Ex^{mo.} S^{nr.},


Com propor o meu nome, em 1877, na Commissão Central Permanente de Geographia, para fazer parte da expedição Portugueza ao interior d'Àfrica, assumio Vossa Excellencia a responsabilidade da minha nomeação.


Foi para mim pensamento constante, dar a Vossa Excellencia satisfação plena do encargo que tomou indigitando-me para tão àrdua tarefa.


Este livro contem, de envolta com a narrativa das minhas aventuras, os resultados dos meus trabalhos e estudos.


Não sei se corresponderá ao que Vossa Excellencia esperava de mim; como não sei se cumpri os deveres que Vossa Excellencia, em nome do paiz, me impoz.


Tenho a consciencia de que trabalhei quanto pude, e que segui, tanto quanto em fôrças humanas cabia, o pensamento e as instrucções de Vossa Excellencia.


A leitura da minha narrativa mostrará a Vossa Excellencia, com quantas difficuldades lutei, e de quão minguados recursos dispuz.


Se, porem, os meus trabalhos corresponderem á confiança com que Vossa Excellencia me quiz honrar, será isso o maior prèmio a que pode aspirar, o mais respeitoso admirador do talento, vasto saber e elevadas qualidades de Vossa Excellencia,


Alexandre de Serpa Pinto.


Londres, 61 Gower Street,

28 de Novembro de 1880.





TRIBUTO DE GRATIDÃO.

Índice de conteúdo


Vou citar nomes. É difficil e perigosa tarefa. Ha sempre o receio de ferir modestias, ou levantar susceptibilidades. Não importa; sigo avante.


Será grande a lista, por serem multiplicados os favôres; e posso bem peccar por omissão, filha de memoria preguiçosa.


Que me perdôem os que desejariam esconder êsses favôres na mais velada modestia, como aquelles a quem um lapso de reminiscencia deixasse no olvido.


Seguindo a ordem chronològica dos factos, procurarei no profundo sentimento de gratidão a lembrança dos serviços e favôres recebidos.


Cabe á Commissão Central de Geographia o primeiro logar no meu reconhecimento; por me ter distinguido com a sua escôlha para instrumento da exploração que decidio fazer em Àfrica.


Proposto pelo S^{nr.} Conselheiro Andrade Corvo, fui unànimemente aceito, e attendido nas propostas que apresentei para a organização da emprêsa. Falando da Commissão Central de Geographia, não posso omittir de citar nomes; porque, recebendo obsèquios de tôdos, fui particularmente auxiliado por muitos.


O D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, Marquez de Souza-Hollstein, Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos, sam nomes que as lousas tumulares dos seus jazigos, não podem occultar á minha gratidão.


O D^{or.} Julio Rodriguez, Luciano Cordeiro, o D^{or.} Bocage, Conde de Ficalho, Carlos Testa, Pereira da Silva, Jorge Figaniere, e Francisco da Costa e Silva, fôram os cavalheiros que, no seio da Commissão, mais se esforçáram por me encher de favôres.


Outro, que só annos depois conheci pessoalmente (ausente em quanto se organizou a expedição), não deixou de concorrer com o sem consêlho abalizado para a parte scientìfica d'ella. Refiro-me ao S^{nr.} Brito Limpo.


Fora da Commissão, prestáram-me valiôso auxilio, os meus particulares amigos Marrecas Ferreira e João Botto.


Vem depois da Commissão Central, a Sociedade de Geographia de Lisboa; e com ella mais em evidencia, os seus Presidentes, D^{or.} Bocage e Vizconde de S. Januario, e os seus Secretarios Luciano Cordeiro e Rodrigo Pequito.


Segue-se o jornalismo Portuguez, a quem cordialmente agradêço tôdos os favôres que me dispensou, e a maneira por que acolheu a minha nomeação.


Fora do paiz prestáram-me valiôso auxilio, o S^{nr.} Mendes Leal, Antonio d'Abbadie, e Ferdinand de Lesseps, em Paris; o Vizconde de Duprat e o Tenente Pinto da Fonseca Vaz, em Londres; sendo que á

cooperação d'estes cavalheiros, e só a ella, podémos eu e Capello ter dado conta do encargo que tomámos de organizar em um mez o material da expedição.


Antes de ter deixado Portugal, ha que citar ainda dois cavalheiros, que concorrêram poderosamente para a realização da nossa emprêsa.


Sam o Conselheiro José de Mello e Gouvea, que então governava nos negocios do Ultramar, e Francisco Costa, o Director Geral do Ministerio das Colonias.


Pedro d'Almeida Tito, e Avelino Fernandes, dispensáram-me taes favôres em viagem, que não posso deixar de escrever aqui os seus nomes.


Vem, em seguida, o do Governador de Cabo Vêrde, Vasco Guedes, e o do Governador d'Angola, Caetano d'Albuquerque; que ambos me dispensáram innùmeras finezas.


Em Loanda, José Maria do Prado, Urbano de Castro, o Consul Newton, a Associação Commercial, e sôbre tudo os officiaes e Commandante da CanhoneiraTâmega, sam crèdores do meu mais profundo reconhecimento.


Apparece agora um nome que n'esse tempo echoava por todas as partes do mundo, e assombrava com as suas façanhas o orbe inteiro:


Henrique Moreland Stanley.


O grande explorador, o ousado viajante, que acabava de fazer a mais prodigiosa viagem dos tempos modernos, foi meu amigo, e meu conselheiro, e d'elle recebi proveitosas lições. Melhor mestre não poderia ter. Que elle recêba n'estas curtas linhas o mais sincero tributo da grande admiração que nutro por elle, e a mais franca expressão da minha estima, e da gratidão que lhe consagro.


Em Benguella, Pereira de Mello e Silva Porto occupam o primeiro logar; e nem me detenho a falar d'elles, que mais alto falam por mim os seus actos narrados n'este livro. Antonio Ferreira Marquez, o Tenente Seraphim, o pharmacèutico Monteiro, e Vieira da Silva, sam outros tantos cavalheiros que não posso esquècer.


Santos Reis, o meu hospedeiro do Dombe Grande, e o Tenente Roza de Quillengues, sam mais dois crèdores á minha gratidão.


Vou dar um salto enorme, e sem me deter a falar do D^{or.} Bradshaw e da familia Coillard, transpòrto-me ao Bamanguato, aShoshong (Xoxon), onde os favôres do rei Kama, e sobre tudo os de M^{r.} e Madame Taylor, me obrigam a não olvidar os seus nomes.


Vai começar para mim um embaraço enorme. Estou em Pretoria; estou na primeira terra do mundo civilisado que encontro depois de Benguella; e ali sam tantos os favôres que se me prodigalizam, que não sei como sahir do embaraço que elles me causam para os agradecer.


M^{r.} Swart, o thesoureiro do Govêrno, foi o primeiro a obsequiar-me, e será o primeiro citado.


Vem em seguida os nomes de Fred. Jeppe, Secretario Osborne, D^{or.} Bissik, M^{r.} Kisch, Major Tylor e Capitão Saunders, e tôdos os officiaes do Regimento 80.


A Baronêza Van-Levetzow, Madame Imink e Madame Kisch, e emfim o Coronel Lanyan.


Sir Bartle-Frere veio logo em meu auxilio, e não se demorou o nosso Consul Portuguez no Cabo, o S^{nr.} Carvalho.


Se dêvo muita gratidão ao Governador Inglez, não dêvo menos ao Consul Portuguez, que, por telegrammas immediatos, veio prestar-me a maior assistencia.


Monseigneur Jolivet, o sabio Bispo de Natal, então residindo em Pretoria, não foi dos ùltimos a encher-me de favôres.


Em caminho para Durban, recebi um obsequio grande de M^{r.} Goodliffe, e em Maritzburgo multiplicáram-se os obsequios do Coronel Baker, Capitão Whalley e Madame Saunders, e M^{r.} Furs.


Em Durban, M^{r.} Snell, o Consul Portuguez, e M^{r.} e Madame B. H. de Waal, chefe da Handels Company em Àfrica Oriental, muito se distinguíram em favôres prestados.


Agora é que se torna verdadeiramente embaraçosa a minha missão. Vou regressar á Europa, tendo terminado a minha viagem, e accumùlam-se os obsèquios que recêbo a cada momento.


Em Lourenço Marquez, sam Castilho, Machado, Maia e Fonseca. Em Moçambique, o Governador Cunha, Torrezão e tôdos.


Em Zanzibar, o D^{or.} e Madame Kirk, Widmar, e sôbre tôdos o Capitão Draper do 'Danubio' daUnion Steamship Company, que de Durban me transportou ali.


No Cairo, ainda Widmar me presta grandes favôres. Em Alexandria, sobressáe a tôdos o Conde e a Condêssa de Caprara.


Ainda antes de chegar a Lisbôa, recêbo um serviço importante do Barão de Mendonça, em Bordeos.


Em Lisbôa, o Govêrno, primeiro, e amigos velhos e conhecidos novos, porfiam em obsequiar-me.


Estou ali apenas dez dias, em que mal tive tempo para receber favôres, e em que me não sobejou um minuto para os agradecer.


Quizéram que eu fizesse uma conferencia, mal repousado ainda das fadigas da viagem; e sem o poderôso concurso que me prestáram Pequito, Sarrea Prado, Batalha Reis e D^{or.} Bocage, impossivel me seria fazel-a.


Não querendo, não podendo mesmo, citar nomes, tantos seriam elles, não deixo de agradecer, com o mais sincero reconhecimento, á Sociedade de Geographia de Lisboa tudo o que por mim fez.


Á Associação Commercial e ao seu digno Presidente, o S^{nr.} Chamisso, que sempre tomou o maior interesse pela exploração de que eu fiz parte.


Sube em Lisbôa um facto que não posso deixar de consignar aqui com um nome.


Agradêço ao S^{nr.} Thomas Ribeiro as ordens que deu como Ministro da Marinha, para que me fôssem enviados soccorros de Moçambique para o interior d'Àfrica.


Ao Côrpo Diplomàtico residente em Lisbôa expresso os meus sentimentos de gratidão, e sobre todos aos S^{nrs.} Morier, Barão de P. Hegeurt, Laboulay, Marquez d'Oldoini, e Ruata.


Á Associação Commercial do Porto, aos bombeiros voluntarios d'aquella cidade, á Sociedade Euterpe e á Sociedade de Instrucção, aos municipios e mais instituições do paiz que me obsequiáram, consigno aqui um testemunho de agradecimento.


Ás Associações Portuguezas no Brazil, aos meus conterraneos que longe da patria me saudáram, a elles que nada poupáram para mim em honras e distincções, envio um fraternal protesto de immensa gratidão.


Sobre todos áquelles que formáram uma sociedade com o meu nome, e que de Pernambuco me offerecêram um mimoso presente, de tal distincção, que nunca os poderei esquècer.


Cabe agora, pela ordem dos factos, agradecer aos Soberanos estrangeiros as altas honras com que me distinguíram, sôbre tôdos ao Monarcha Belga, ao Illustrado e sabio Rei Leopoldo, ao grande impulsor do movimento geogràphico Africano moderno, que, a par da mais alta honra com que me podia enobrecer, me dispensou a mais cordial estima, e me mostrou o mais affectuoso interesse.

Ás Sociedades de Geographia da França, principalmente ás de Paris, onde o Almirante La Roncière leNoury, Ferdinand de Lesseps, MM. Daubré, Maunoir, d'Abbadie, de Quatrefages e Duveyrier, meenchêram de favôres; de Marselha, que me conferio uma subida distincção, e cujo Presidente,M^{r.} Babaut, muito me obsequiou; e á Commercial de Paris, onde distingo o seu digno Secretario Geral, M^{r.} Gauthiot.

Ainda em Paris, tenho a nomear a Colonia Portugueza, e nella os S^{nrs.} Mendes Leal, Conde de S. Miguel, Camillo de Moraes, Pereira Leite, Garrido, e D^{or.} Aguiar, de quem nunca poderei olvidar os favôres recebidos.


Ás Sociedades de Geographia Belga, e á de Anvers, nomeadamente aos seus Presidentes, o General Liagne e Coronel Wauvermans; e àlém d'estes cavalheiros, não posso deixar de falar, em um paiz onde tôdos me obsequiáram, nos nomes dos S^{nrs.} du Fief, Bamps, e Coronel Strauch, e ainda mais alto no Conde de Thomar, cujos favôres repetidos e cordialidade de trato convertêram em verdadeira amizade a sincera estima das primeiras relações.


Cabe, pela ordem dos factos, o ùltimo lugar á Inglaterra, que seria talvez a primeira pêlo nùmero de favôres dispensados.


Principiou nas colonias Inglezas da Àfrica do Sul a ter juz á minha gratidão este paiz, onde depois se me tinham de multiplicar os obsequios.


Á Sociedade de Geographia de Londres, ao seu Presidente o Conde de Northbrook, aos seusSecretarios Clements Markham e Bates, aos seus Membros Sir Rutherford Alcock, Lord Arthur Russell, Visconde de Duprat, e muitos outros que impossivel seria nomear, deixo aqui escritos os meus

sentimentos de reconhecimento.

Ao S^{nr.} Frederico Youle, ao D^{or.} Peacock, aos S^{nrs.} M. d'Antas, Sampaio, Fonseca Vaz, Quillinan, Duprat, e Ribeiro Saraiva, a estes que alem de subidos favôres me dispensáram grandes serviços durante a minha grave doença, não posso deixar de lavrar um bem pùblico testimunho de gratidão.

Ainda me falta citar o nome de M^{r.} David Ward, o Mayor de Sheffield, e do meu particular amigo, o grande e eminente explorador Verney Lovett Cameron, para fechar a lista, que seria interminavel a não tomar a resolução de a fechar aqui.

Ás Sociedades Scientìficas dos outros paizes, e a tôdos aquelles que não posso citar, e que me cobríram de favôres, agradêço tudo quanto por mim fizéram, e agradêço tanto mais sinceramente, quanto me custa não os poder personalizar.

Major Alexandre de Serpa Pinto.


Londres,5 de Dezembro de 1880.





O LIVRO.

Índice de conteúdo


Não tem pretenções a obra de literatura este livro.


Escrito sem preoccupação da forma, é a fiel reproducção do meu diario de viagem.


Cortei n'elle muitos episòdios de caçadas, e outros, que um dia no descanso, produzirám um volume de caracter especial. Busquei sôbre tudo fazer realçar o que mais interessante se tornava para os estudos geogràphicos e ethnogràphicos, e se não me pude eximir a narrar um ou outro dos muitos episòdios dramàticos que abundáram na minha fadigosa empresa, foi quando a êsses episòdios se ligavam factos consequentes, de importancia, ja para alterar o itinerario projectado, já determinando demoras, ou marchas precipitadas, que seriam incomprehensiveis sem a exposição das causas determinantes.


Á Europa, e em geral ao homem que nunca viajou nos sertões do interior d'Àfrica, não é dado comprehender o que se soffre ali, quaes as difficuldades a vencer a cada instante, qual o trabalho de ferro não interrompido para o explorador.


As narrações de Livingstone, Cameron, Stanley, Burton, Grant, Savorgnan de Brazza, d'Abbadie, Ed. Mohr e muitos outros, estam longe de pintar os soffrimentos do viajante Africano. Difficil é comprehendel-o a quem o não o experimentou; áquelle que o experimentou difficil é descrevel-o.


Não tento mesmo pintar o que soffri, não procuro mostrar o quanto trabalhei, que me façam ou não a justiça de que me julgo merecedor aquelles que examinarem os meus trabalhos, hôje é isso para mim indifferente; porque me convenci, de que só posso ser bem comprehendido pêlos que como eu pisáram os longìnquos sertões do continente nêgro, e passáram os maos tratos que eu por lá passei.


Assim como só o homem que, sendo pai, pode comprehender a dôr pungente da pêrda de um filho, assim tambem só o homem que foi explorador pode comprehender as atribulações de um explorador. Ha sentimentos que se não podem avaliar sem se haverem experimentado.


Os factos narrados n'este livro sam a expressão da verdade.


Verdade triste muitas vêzes, mas que seria um crime occultar.


Procurei apresentar nêlle os resultados de um trabalho aturado de muitos mêzes, e garanto o que digo sôbre geographia Africana, porque só eu sou autoridade para falar n'ella na parte respectiva á minha viagem, em quanto outro não houvér seguido os meus passos atravéz d'Àfrica, e não me convencer do contrario.


As minhas opiniões genèricas sôbre um ou outro problema podem ser erròneas, sam sujeitas á crìtica, podem cahir por terra com uma demonstração pràtica das futuras viagens, como tem acontecido a asserções de muitos dos meus antecessores os mais illustres; mas o que não tem nem pode ter contestação, sam os factos que eu vi, sam aquelles que se referem aos paizes que percorri, e que descrêvo n'este livro com a consciencia que deve sempre dictar as acções do explorador.


Não fui á Àfrica ganhar dinheiro. Tive a mesquinha paga de official do exèrcito e não quiz outra.


Abandonei uma familia extremosamente querida; deixei a pàtria e tudo para trabalhar, e só para trabalhar, em cooperação com os outros paizes, na grande obra do estudo do continente desconhecido, e tenho a consciencia de que fiz tanto quanto podia fazer.


Deixo aos homens de sciencia e áquelles que sam autoridades em tal materia o avalial-o.


Ponho ponto n'este assumpto que parecerá filho de um orgulho que não tenho, mas factos insòlitos apparecidos no decurso dos primeiros mêzes da minha residencia na Europa, depois de ter completado a fadigosa jornada d'Àfrica, dictáram as palavras que escrevi.


Ha um anno que principiei a coordenar em livro os resultados dos meus trabalhos Africanos, mas uma pertinaz doença por vêzes interrompeu a vontade que nutria de dar á estampa esses trabalhos.


Principiado em Londres em Setembro de 1879, o meu livro foi quasi tôdo escrito nos mêzes de Setembro e Outubro, de 1880, na Figueira da Foz, em Portugal.


A pressa com que foi terminado contribuirá de certo muito para a incorrecção da forma.


A publicação d'elle é feita em Londres, onde encontrei na grande casa editora Sampson Low, Marston, Searle and Rivington, todas as facilidades que não pude obter fora d'ella.


Estes cavalheiros não recuáram ante a enorme despesa a fazer com uma tão difficil e custosa publicação, e leváram a sua condescendencia a fazer imprimir em Inglaterra a edição Portugueza; trabalho difficilimo, porque a differença das lìnguas dos dois paizes obrigou até á fundição de typo, por causa dos signaes e accentos privativos do nossa idioma.


Devo-lhes a maior gratidão pêlo interesse que t[~e]m dedicado a esta publicação, para o mèrito da qual, se é que ella tivér algum mèrito, elles de certo concorrêram muito.


O S^{nr.} Antonio Ribeiro Saraiva, que, a pesar dos seus trabalhos e da sua avançada idade, me quiz fazer o favor especial de rever as provas do livro; o S^{nr.} E. Weller, o cartògrapho, que se encarregou da gravura das minhas cartas geogràphicas; o S^{nr.} Cooper, que interpretou magnìficamente os meus esbocêtos de viagem nas gravuras que illustram a obra, concorrêram tambem de certo muito para o valor d'ella.


Ahi vai, pois, o livro, e só desejo que elle corresponda e sirva á curiosidade de uns e ao estudo de outros; e venha dar novos incitamentos á grande e sublime cruzada do sèculo XIX., a cruzada da civilisação do Continente Nêgro.


Londres, 61 Gower Street,

5 de Dezembro de 1880.





O TÌTULO DO LIVRO.

Índice de conteúdo

Hôje, depois de jantar, sahi a dar um passeio, e de volta a casa, encontrei sôbre a minha mêsa de trabalho, pregado com um alfinete, um pedacinho de papel, recortado não sei de que jornal, que dizia assim:

"OAthenaeum diz, que o Major Serpa Pinto, restabelecido da sua prolongada doença, chegou a Londres, para terminar a publicação do livro descriptivo da sua jornada atravez d'Àfrica. Dá-nos grande satisfação o saber, que o tìtulo d'elle foi alterado, de 'Carabina d'El-Rei,' para o de 'Como eu Atravessei Àfrica.' 'A Carabina d'El-Rei' pode ser um magnìfico tìtulo para um livro de aventuras de rapazes, por Mayne Reid ou Gustave Aimard; mas parece um pouco deslocado na pàgina tìtulo de um livro sèrio de explorador Africano."

É meia noute, e eu sinto necessidade de me deitar; mas antes d'isso não posso deixar de escrever duas palavras sôbre o assumpto.

A consideração tinha e não tinha razão de ser.

As viagens n'Àfrica produzem sempre um romance, e algumas vêzes tambem um livro de sciencia.

A minha, se, como todas, é um verdadeiro romance, não deixa por isso de conter trabalhos geogràphicos de alguma importancia.

Formei logo o projecto, que hôje executo, de misturar em a narrativa esses trabalhos com as minhas aventuras, como elles tinham sido misturados nos sertões Africanos.

A respeito do tìtulo para o livro, nada me preoccupei d'isso.

Sendo salva a expedição, e por isso tôdos os trabalhos que a ella se ligavam, pêla Carabina d'El-Rei, pensei em dar aquelle tìtulo á obra tôda. Não me davam cuidado juizos dos crìticos severos. A minha justificação estaria no correr da narrativa.

Veio porem uma consideração modificar o meu projecto.

Um homem, um ùnico homem no mundo, incapaz de me increpar em pùblico pêlo exclusivismo do tìtulo, de certo pensaria um momento em que eu tinha sido injusto para com elle em fazer sobressahir no meu livro o facto de ter sido salva a expedição pêla Carabina d'El-Rei, quando elle teria igual juz á minha gratidão, tendo-me salvo por seu turno.

Pesou-me aquelle primeiro tìtulo escolhido, como uma injustiça que fazia a Francisco Coillard, quando esse tìtulo me tinha sido dictado sòmente por um sentimento de justiça, porque sou pouco propenso a expressões de adulação.

Resolvi immediatamente conservar o tìtulo de Carabina d'El-Rei á primeira parte da minha narrativa, e dar á segunda o nome de Francisco Coillard, o homem que, salvando-me, salvou os trabalhos da expedição que eu dirigia. Cumpria um devêr.

Mas desde esse momento, era preciso dar um tìtulo geral á obra, e esse não é nunca difficil de se encontrar quando se tem atravessado um continente de mar a mar.

Eis porque o meu livro se chama hoje:--"Como eu atravessei Àfrica."

Sei que pouco deve importar ao pùblico o tìtulo, qualquér, de uma obra d'estas. É preciso chamar-se-lhe alguma cousa, e eu chamei-lhe assim.

Pesar-me-ha se elle desagradar a alguns, mas ainda assim não me preoccupo com isso a ponto de não me ir deitar já, esperando ter um sono profundo durante a noite.

Londres, 61 Gower Street,

12 de Dezembro de 1880, á meia noite.

CONTEÜDO.

Índice de conteúdo

PRÒLOGO.

Índice de conteúdo

I.--Como eu Fui Exploradôr II.--Como foi Preparada a Expedição

CAPÌTULO I.

Índice de conteúdo

EM BUSCA DE CARREGADÔRES.

Chegada a Loanda--O Governador Albuquerque--Não hacarregadôres--Vou ao Zaire--O Ambriz--Chêgo ao Porto da Lenha--Osresgatados--Sei da chegada de Stanley--Vou a Cabinda--Tomo Stanleya bôrdo daTâmega--Os officiaes da canhoneira--Stanley meuhòspede--O nosso itinerario--Chegada do Ivens

CAPÌTULO II.

Índice de conteúdo

AINDA EM BUSCA DE CARREGADÔRES.

O Governadôr, Alfredo Pereira de Mello--A casa doGovernadôr--Cousas de que não tem culpa o Governo da Metròpoli--Oque é Benguella--O commercio--Sou roubado--Outro roubo--A Catumbela--Obtenho carregadôres--Chegada de Capello e Ivens--Novaalteração de itinerario--Outra difficuldade--Silva Porto, o velhosertanejo--Apparecem novos obstàculos--O Capello vai ao Dombe--Partida--O que é o Dombe--Novas difficuldades--Partimosemfim

CAPÌTULO III.

Índice de conteúdo

HISTORIA DE UM CARNEIRO.

Nove dias no deserto--Falta de àgua--O ex-chefe de Quillengues--Euperco-me nas brenhas--Dois tiros a tempo--Perde-se um muleque eu euma prêta--Perde-se um burro--Quillengues emfim--Morte do carneiro

CAPÌTULO IV.

Índice de conteúdo

POR TERRAS AVASSALLADAS.

Jornada a Ngola--O sova Chimbarandongo--Belleza do caminho--Chegadaa Caconda--José d'Anchieta--Nada de correspondencia--Chegada doChefe--Vamos aos carregadôres--Ivens vai ao Cunene e eu vou aoCunene--Volta de casa do Bandeira--Falham os carregadôres--O meu juizo

CAPÌTULO V.

Índice de conteúdo

VINTE DIAS DE AGONIA.

Parto de Caconda--O sova Quissembe--Quingola e o sova Cáimbo--40carregadôres--Febre--O Huambo, o sova Bilombo e seu filhoCapôco--80 carregadôres--Cartas e noticias--Quasi perdido!--Sigoavante--Grave questão no Chaca Quimbamba--Os rios Caláe, Cahungamuae Cunene--Nova e séria questão no Sambo--O Cubango--Chuvas etemporaes--Grave doença--Uma aventura horrivel--O Bihé finalmente!

CAPÌTULO VI.

Índice de conteúdo

PEREIRA DE MELLO, E SILVA PORTO.

No Bihé--Doença--Melhoras--A casa de Belmonte--Decido ir ao altoZambeze--Cartas ao Governo--Como se organiza uma expedição noBihé--Difficuldades, e como se vencem--Noticia sôbre o Bihé--Osmeus trabalhos--Novas difficuldades--Deixo Belmonte--Até aoCuanza--Escravatura

Rapido Golpe-de-Vista Retrospectivo

CAPÌTULO VII.

Índice de conteúdo

ENTRE OS GANGUELAS.

Passagem do Cuanza--Os Quimbandes--O sova Mavanda--Os rios Varea eOnda--Fetus arbòreos--Atribulações--Escravos--O rio Cuito--OsLuchazes--Emigração de Quibocos--Cambuta--O Cuando--Leopardos--OsAmbuelas--O sova Moem-Cahenda--Descida do rio Cubangui--Os Quichobos--Peripecias--Parto para o Cuchibi

CAPÌTULO VIII.

Índice de conteúdo

AS FILHAS DO REI DOS AMBUELAS.

O Cuchibi--O sova Caú-eu-hue--Os Mucassequeres--Opudo eCapeu--Abundancia--Bondade dos indìgenas--Povoações e costumes--Umvao no Cuchibi--O rio Chicului--Caçada--Feras--O Rio Chalongo--Umajornada atroz--As Nascentes do Ninda--O tùmulo de Luiz Albino--Aplanicie do Nhengo--Trabalhos e fome--O Zambeze a final

LISTA DAS ILLUSTRAÇÕES.

Índice de conteúdo

FIG.

1.--Mulheres Mundombes, vendedeiras de carvão 2.--Mulheres e Donzellas, Mundombes 3.--Homens Mundombes (De uma photo. de Monteiro) 4.--Homem e Mulhér do Huambo 5.--Mulhér do Sambo 6.--O meu Acampamento entre o Sambo e o Bihé 7.--Ponte de Cassanha sôbre o rio Cubango 8.--O Secúlo que me deu um Pôrco 9.--Mulheres Ganguelas das margens do Cubango 10.--Termites na margem do rio Cutato dos Ganguelas 11.--Monte termìtico, de 4 metros de altura, nas margens do Rio Cutato dos Ganguelas, coberto de vegetação 12.--Sepultura de Secúlo 13.--Ferreiros Caquingues 14.--1. Folles; 2. Bocal de Barro; 3. Bigorna; 4. Martello 15.--Objectos fabricados pelo gentio entre a Costa e o Bihé 16.--Casa de Belmonte 17.--Vista exterior da povoação de Belmonte, no Bihé 18.--Planta da povoação de Belmonte, no Bihé 19.--Mulhér do Bihé cavando 20.--Carregador Biheno em marcha 21.--Palissada sôlta; Palissada amarrada com Casca de àrvore; Palissada travada com Forquilhas 22.--Planta de uma Libata de gentio no Bihé 23.--Fora da Porta das Libatas ha isto 24.--Objectos fabricados por Bihenos 25.--Quinda, cêsta de palha que não deixa passar a àgua; Peneiro para secar a farinha (fuba); Peneiro de peneirar; Cabaça para tirar àgua á capata 26.--Uma Casquilha do Bihé 27.--Mulheres do Bihé pisando Milho 28.--Mulheres Ganguelas Luimbas e Loenas. Modo por que cortam os Dentes incisivos 29.--Montes termìticos, dos terrenos entre a Costa e o Bihé 29A.--Viagem ao Cunene 30.--Passagem do Cuanza 31.--Homem e Mulhér Quimbandes 32.--Raparigas Quimbandes 33.--Os Bihenos construindo as Barracas nos Acampamentos 34.--Esqueleto da Barraca 35.--Barraca concluida em uma hora 35A.--Ganguelas e Quimbandes 36.--O Sova Mavanda vem dançar mascarado ao meu Campo 37.--Mulhér Quimbande carregada 38.--1. Cachimbo; 2. Facas; 3. Cacêtes de guerra 39.--Ditassoa, peixe do rio Onda 40.--Fetus arbòreos das margens do rio Onda 41.--Mulhér de Cabango com o ferro de coçar a cabeça 42.--Homem de Cabango 43.--Homem de Cabango 44.--O Lago Liguri 45.--Luchaze das margens do rio Cuito 46.--Mulhér Luchaze carregada 47.--Isqueiro dos Luchazes, Caixa da isca e Fuzil 48.--Atundo, Planta e Fruto 49.--Povoação de Cambuta, Luchaze 50.--Mulhér Luchaze de Cambuta 51.--Homem Luchaze de Cambuta 52.--Objectos fabricados pelos Luchazes 53.--Mulhér Luchaze do Cutangjo 54.--Cachimbo Luchaze 55.--Capoeira dos Luchazes 56.--Urivi, Armadilha para caça 57.--Luchaze do Cutangjo 58.--Objectos Luchazes 59.--O Cuchibi 60.--Fôlha e Fruto do Cuchibi 61.--O Mapole, Àrvore e Fôlha 62.--Mapole, Fruto e disposição dos Ramos 63.--Moene-Cahenda, Sova de Cangamba 64.--Chimbenzengue. Machado dos Ambuelas do Cangamba 65.--Cachimbo Ambuela 66.--O Quichôbo 67.--Oúco 68.--Opumbulume 69.--O Rato mencionado 70.--Songue; 70A.--Rasto do Songue 71.--Muene-Caú-eu-hue, Chefe dos Ambuelas 72.--Mulhér Ambuela 73.--Opudo 74.--Capêu 75.--Barco e Remo do Cuchibi 76.--Tambor das festas Ambuelas 77.--Caú-eu-hue 78.--O Irmão do Sova 79.--Caçador Ambuela 80.--Chinguene 81.--Lincumba 82.--Chipulo ou Nhele 83.--O Vao do Cuchibi 84.--Azagaias dos Ambuelas 85.--Ferros de frechas dos Ambuelas 86.--Malanca 87.--1. Cornos vistos de frente; 2. Rasto da Malanca 88.--O Bùfalo Africano 89.--Escudo dos Luinas 90.--O Chefe Cicota 91.--Termites do Nhengo 92.--1 e 2. Casas Luinas de 1^{m.} 5 de altura; 3. Celeiro; 4. Enxada do Lui 93.--Corte vertical de uma Casa Luina da aldea da Tapa

MAPPAS NO VOLUME PRIMEIRO.

Índice de conteúdo

Mappa No. 1.--Africa Tropical e Austral

" " 2.--De Benguella ao Bihé " " 3.--Entre Cubango e Cuanza " " 4.--O Paiz dos Quimbandes " " 5.--Disposição da àgua em Cangala " " 6.--De Cambuta ao Cubangué " " 7.--Paúl da nascente do Cuando " " 8.--De Cangamba ao Cuchibi

COMO EU ATRAVESSEI A ÀFRICA.
Primeira Parte.--A CARABINA D'EL-REI.

Índice de conteúdo

PRÒLOGO.

Índice de conteúdo

I.--Como eu fui Explorador.

Índice de conteúdo

No correr do anno de 1869, fiz parte da columna de operações que no baixo Zambeze sustentou cruenta guerra contra os indìgenas de Massangano. O S^{nr.} José Maria Latino Coelho, então Ministro da Marinha e Ultramar, dera ordem ao Governador de Moçambique, para que, finda a guerra, me proporcionasse os meios de subir o Zambeze, a fazer um detalhado reconhecimento do paiz, tão longe quanto me fôsse possivel.

A ordem foi dada, mas não foi cumprida; e depois de vãs instancias, e de um ligeiro passeio pelas terras Portuguezas d'Àfrica Oriental, voltei á Europa, com mais desejo que antes, de estudar o interior d'aquelle continente, que mal tinha entrevisto.

Razões particulares de familia fizéram adiar, se não aniquiláram, os meus projectos.

Official do exèrcito, sempre de guarnição em pequenas terras de provincia, fazia das minhas horas de òcio horas de trabalho; e ainda que mal antevia a possibilidade de ir á Àfrica, era o estudo das questões

Africanas o meu ùnico e exclusivo passatempo.

As sublimes questões de astronomia não eram por mim desprezadas, e o muito tempo que me deixava a vida da caserna era repartido entre o estudo da Àfrica e do ceo.

Servia em Caçadores 12 no correr de 1875, e ali tive por camarada um dos mais intelligentes homens que tenho conhecido, o Capitão Daniel Simões Soares.

Pouco depois de havermos feito conhecimento, èramos ligados por estreita amizade.

O quarto mesquinho do illustrado official, na caserna da Ilha da Madeira, reunia-nos durante as horas em que o regulamento nos obrigava a viver ali; e quantas vezes, estando um de nós de serviço, têve a companhia do outro! Àfrica, e sempre Àfrica, era o nosso assumpto de conversação. Apraz-me recordar esse tempo, essas horas que fazìamos correr velozes, debatendo questões, que eu mal pensava seria chamado a resolver um dia.

Em fins de 1875, redigi uma memoria, que submetti á crìtica de Simões Soares, e de outro meu camarada, o Capitão Camacho; memoria filha das nossas interminaveis palestras Africanas.

Propunha eu um meio de estudar parcialmente o interior das nossas colonias de Àfrica Oriental, e isso com a maior economía para o Estado.

Depois de muito debatida a questão por nós tres, foi a memoria enviada ao Governo de Sua Magestade; mas sube depois que nunca chegara ás mãos do Ministro da Marinha.

A esse tempo, eu pensava outra vez em voltar á Àfrica, apesar de ser chefe de familia, e de me prenderem a Portugal interesses de subida importancia.

Por fins de 1876 voltei a Lisboa, e conheci que as questões Africanas tinham ali tomado grande interesse com a creação da Commissão Central Permanente de Geographia, e com a fundação da Sociedade de Geographia de Lisboa.

Falava-se muito n'uma grande expedição geogràphica ao interior d'Àfrica Austral.

Fui procurar immediatamente o Ministro das Colonias. Era o S^{nr.} João d'Andrade Corvo. Se não é facil explorar a Àfrica, não é menos difficil falar ao Ministro, e sôbre tudo se esse Ministro é o S^{nr.} João d'Andrade Corvo. Sua Excellencia tinha a seu cargo duas pastas, Marinha e Estrangeiros, e o tempo não lhe sobejava para falar aos importunos.

Persegui-o uns oito dias, e na vèspera da minha partida de Lisboa, obtive uma audiencia do Ministro dos Negocios Estrangeiros.

Sua Excellencia recebeu-me com secura, dizendo-me, que podia dispôr de pouco tempo, e perguntando-me, ¿o que eu queria?

Travou-se entre nós o seguinte diàlogo:--

"Ouvi dizer, que V. Ex^{a.} pensa em enviar á Àfrica uma expedição geogràphica; e sôbre isto venho falar."

O Ministro mudou logo de tom para comigo, e mandou-me sentar com toda afabilidade.

"¿Já estêve em Àfrica?" me perguntou elle.

"Já estive em Àfrica, conheço um pouco o modo de viajar ali, e tenho-me occupado muito em estudar questões Africanas."

"¿Quer ir fazer uma longa viagem na Àfrica Austral?"

Declaro que hesitei um momento em responder. "Estou prompto a ir," disse por fim.

"Bem;" me disse elle, "penso em enviar uma grande expedição á Àfrica, bem provida de recursos; e quando tratar de organizar o pessoal, não esquècerei o seu nome."

"É verdade"; me disse, quando eu já ia a sahir, "¿que condições e que vantagens pede por esse serviço?"--"Nenhumas," lhe respondi eu, e sahi.

Fui do Ministerio dos Negocios Estrangeiros á Calçada da Gloria, N^{o.} 3, e procurei o D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, Vice-presidente da Commissão Central Permanente de Geographia. Tivémos larga conferencia, e o distincto sabio, então todo entregue a questões geogràphicas, disse-me, que já tinha pensado em um distincto Official da nossa Marinha de Guerra, Hermenigildo Capello, para fazer parte da expedição.

No dia seguinte parti para o Norte. A viagem e os ares do campo fizéram arrefècer um pouco o febril enthusiasmo que se apossara de mim em Lisboa, e pensando maduramente, resolvi não ir explorar em Àfrica.

Minha mulhér e minha filha eram laços difficeis de romper, e cada vez que a idéa de me privar das caricias da meiga criança me passava pela mente, arrefècia completamente em mim o ardor das explorações.

De um lado, a familia, e do outro a Àfrica, eram dois poderosos atractivos que me tinham perplexo. Encontrei um meio de resolver a questão. Se eu fosse nomeado Governador de um districto, podia ir estudar uma parte d'Àfrica, sem me separar da familia. Fui collocado no 4 de Caçadores, e na minha viagem para o Algarve, passei alguns dias em Lisboa. Não se falava mais em expedição exploratoria, e apenas um enthusiasta, Luciano Cordeiro, não tinha descrido de que ella se faria; e na sociedade de geographia, de que era Secretario, tinha levantado um alto brado a favor d'ella. O D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, já de idade provecta, tinha cedido ao peso do seu incessante labutar, e sentia já os primeiros symptomas do mal que, pouco depois, arrancando-lhe a vida, devia arrancar a Portugal e ao mundo uma das maiores illustrações Portuguezas do sèculo 19.

Eu não conhecia a esse tempo o homem ardente e illustrado a quem hoje me prende verdadeira amizade--Luciano Cordeiro.

Todos aquelles a quem falava de exploração, me diziam ser cousa adiada. Ao passo que o estado em que encontrei as cousas em Lisboa me compungia, pois que via perder-se a luz que um momento brilhara, para dar um impulso harmònico ás explorações Portuguezas em Àfrica; por outro lado, sentia um certo prazer em ver-me, por esse meio, libertado do meu compromisso; compromisso que me separaria dos entes que me sam caros.

Nutri então a idéa de ir governar, e de me estabelecer em Àfrica, n'essa Àfrica em que eu queria trabalhar, sem por isso me separar dos meus.

Fui falar ao Ministro.

D'essa vez fui logo cordialmente recebido. Estranhei o caso, não se falando já de explorações.

"¿O que o traz por aqui?"--"Venho pedir a V. Ex^{a.} o governo de Quillimane, que está vago." O S^{nr.} Corvo rio-se. "Tenho missão de maior monta a confiar-lhe;" me disse; "preciso de si para cousa

differente de governar um districto em Àfrica; e por isso não lhe dou o governo de Quillimane."--

"¿Então V. Ex^{a.} ainda pensa em fazer explorar a Àfrica? Eu com franqueza digo, que hoje não creio que a idéa se realize."--

"Dou-lhe a minha palavra de honra," me disse o Ministro, "que ou hei de deixar de ser João de Andrade Corvo, ou na pròxima primavera, uma expedição organizada como ainda se não organizou expedição alguma na Europa, ha de partir de Lisboa para a Àfrica Austral."--

"¿E conta comigo?"--

"Conto comsigo," me disse, "e em breve terá noticias minhas."

Sahi aterrado do Gabinete do Ministro.

Cheguei ao Hotel Central, e escrevi o seguinte: "Não tenho a honra de o conhecer, mas preciso falar-lhe, e peço-lhe uma entrevista." Sôbreescritei, a "Hermenigildo Carlos de Brito Capello--Official de

guarnição a bordo do couraçadoVasco de Gama."

No dia immediato, recebi a seguinte resposta:--"Estou hoje no Café Martinho, ás 3 horas.--Capello."

Ás tres horas entrava no Café Martinho, e vi que as mesas estavam completamente desertas. Só a uma dellas estava sentado um primeiro tenente de marinha, que eu não conhecia mesmo de vista. Devia ser o meu homem. Bebia pausadamente um grog, e tinha a cabeça descoberta.

Era de mediana estatura, tanto quanto eu pude avaliar estando elle sentado. Moreno, de olhar plàcido; o cabello raro, e grisalho, o pequeno bigode já esbranquiçado, davam-lhe um ar de velhice, que era desmentido pela tez desenrugada, e apresentando o lustre da juventude.

"¿É o S^{nr.} Capello?"--

"Sou; ¿é o S^{nr.} Serpa Pinto? já o esperava, e sei que, provavelmente, vem falar-me d'Àfrica."--

"É verdade. ¿Então está decidido a fazer parte da expedição?"--

"Estou; e já n'isso falei ao D^{or.} Bernardino Antonio Gomes."--

"Foi elle que me falou no S^{nr.}; ¿que compromissos tem?"--

"Nenhuns. Não sei bem o que o Governo quer; falei duas vezes com o D^{or.} Gomes; ainda não vi o Ministro, e apenas lhe posso dizer, que, se for á Àfrica, escolherei para companheiro um meu amigo, e camarada na armada, Roberto Ivens. ¿Conhece-o?"--

"Não o conheço. Falei ao Ministro e elle disse-me, que contava comigo para a expedição."--

"N'esse caso, uma vez que já tem compromissos com o Ministro, eu desisto de ir."--

"¡Ora essa!... então desisto eu."--

"Mesmo, eu não creio que a cousa vá a effeito."--

"Nem eu creio muito; mas emfim, se for a effeito, ¿porque não havemos de ir ambos? Não nos conhecemos, é verdade; mas em breve travaremos ìntimas relações, e creio bem chegaremos a ser amigos."--

"¿E porque não? Então, se a expedição for ávante, iremos juntos, e escolheremos para nosso companheiro ao meu amigo Roberto Ivens."--

"Esta dito. ¿Pensa sèriamente que o Governo votará uma tão grande verba como a que é precisa para uma empresa d'estas?"--

"Não sei, duvido; e agora ùltimamente fala-se menos na expedição."

Conversámos largamente, e separámo-nos; tendo a ìntima convicção de que a expedição nunca se realizaría.

Ainda me encontrei com Capello nos dias seguintes, e depois separámo-nos. Elle seguio viagem no couraçado Vasco da Gama para Inglaterra; e eu fui tomar o commando da minha companhia em Caçadores 4, no Algarve.

Com o descanço da vida de guarnição, voltei ao estudo, e tive a felicidade de encontrar um amigo no Algarve, Marrecas Ferreira, distincto official de Engenheiros, que, meu companheiro nas mesas do trabalho, tinha sempre um bom conselho a dar-me, nas questões mathemàticas, que elle maneja com intelligencia superior. Foi por seu intermedio que travei relações epistolares com Luciano Cordeiro, a quem depois me devia ligar estreita amizade.

Por esse tempo, redigi duas pequenas memorias, que por intermedio de Luciano Cordeiro chegáram ás mãos do Ministro da Marinha, em que tratava do modo de organizar uma expedição de exploração na Àfrica Austral.

Passáram-se mezes, e não mais me faláram de expedição.

Recebi duas cartas do Capello, em que me mostrava a sua completa descrença em que a cousa fosse a effeito. Eu mesmo nutria igual descrença. Na Commissão Permanente de Geographia discutiam-se varios projectos de expedições; mas tudo ficava em discussões.

Um dia, vi nos jornaes, que o Ministro, o S^{nr.} João d'Andrade Corvo, apresentara no parlamento um projecto, pedindo um crèdito de 30 contos para uma expedição em Àfrica; mas, pouco depois, cahio o Ministerio, e foi o S^{nr.} José de Mello Gouvea encarregado da Pasta das Colonias; quando o projecto ainda não tinha sido votado no parlamento.

Tornava-se a falar da projectada exploração; mas os jornaes davam por escolhidos exploradores que eu não conhecia, e ás vezes apenas falavam em Capello.

Eu então estava em Faro, e se me não descurava dos meus estudos astronòmicos e Africanos, ouvindo os conselhos de João Botto, distincto professor da escola de Pilotos de Faro, não nutria já idéas de viajar. O meu tempo era passado entre as caricias da familia e os meus livros de estudo, e sentia-me muito feliz, nos conchêgos do lar domèstico, para pensar em trocar a minha vida plàcida pelo bulicio e azares das viagens.

Seguia com interesse nos jornaes as noticias de Lisboa, e vi que o nôvo ministro, José de Mello Gouvea, havia no parlamento apoiado a proposta de João d'Andrade Corvo, e que fôra votada a somma de 30 contos para uma exploração. A morte de Bernardino Antonio Gomes, vìctima, talves, do muito interesse que dedicou ao estudo das questões Africanas, n'uma idade em que as fadigas passadas lhe aconselhavam completo repouso de espìrito, a morte d'esse eminente sabio, veio produzir um grande vàcuo na Commissão Central de Geographia. Outros, é verdade, tomando grande interesse nas questões palpitantes, levantavam a voz no seio da commissão; mas discussões repetidas iam adiando a pràctica urgente.

Eu, apesar de se ter votado a verba no parlamento, já não via possibilidade de se levar a effeito a expedição em 1877; e em vista do que sabia pela imprensa, não pensava que se lembrassem de mim, se

aquella fosse a affeito; e devo dizel-o, dava-me isso um certo prazer.

O Algarve é um paiz delicioso; reina ali uma atmosphera oriental, e as copas elegantes das palmeiras que se inclinam sôbre as casas em terraços, faz-nos, ás vezes, esquècer de que vivemos no prosaïsmo da Europa. Eu era ali o commandante militar, quer dizer, que afazeres poucos tinha.

O convivio de uma sociedade escolhida; os carinhos da familia; os meus livros de estudo, e os meus instrumentos de observações, faziam-me passar horas bem felizes, d'essa plàcida felicidade que a muitos não é dado conhecer. O lar caseiro, o xambre e os pantufos chegáram a ser para mim o ideal do bem-estar.

Findara o mez d'Abril, e com o de Maio viera o calor, que se faz fortemente sentir em Faro; e eu fazia projectos para o verão; quando, um dia, recebo um telegrama em que me ordenavam de me apresentar immediatamente ao General commandante da Divisão; e ali achei uma ordem para me apresentar sem perda de tempo ao Ministro das Colonias.

Adeos casa, adeos xambre, adeos pantufos, adeos vida tranquilla e plàcida junto dos meus; ahi vôlvo a correr mundo.

Quatro dias depois, em torno de uma grande mesa, n'uma grande sala do Ministerio da Marinha, uma duzia de graves personagens, uns d'òculos, outros sem òculos, uns velhos outros nôvos, todos conhecidos, ou pelas sciencias, ou pelas letras, ou pelos seus serviços pùblicos, tratavam de questões Africanas. Presidía a esta solemne sessão o Ministro José de Mello Gouvêa.

Eram Secretarios D^{or.} José Julio Rodrigues e Luciano Cordeiro. Conde de Ficalho, Marquez de Souza, D^{or.} Bocage, Carlos Testa, Jorge Figaniere, Francisco Costa, o Conselheiro Silva, e Antonio Teixeira de Vasconcellos, lembra-me que estavam ali.

Lá no fundo da mesa a um canto, encaixado na poltrona, estava um homem de basto cabello e basto bigode grisalho, a olhar para mim por entre os vidros da luneta de tartaruga. Era João de Andrade Corvo, que me dizia com o olhar: "Eu bem lhe afiancei que a cousa se havia de fazer."

Junto de mim estava Capello, e ao cabo de duas horas sahìamos d'ali, com as instrucções precisas para a nossa viagem. Tìnhamos escolhido um terceiro socio, e esse era o tenente Roberto Ivens, o amigo de Capello, que eu não conhecia, e que a esse tempo estava em Loanda a bordo do seu navio de guerra. Estàvamos a 25 de Maio, e tomámos o compromisso de partir a 5 de Julho. Era muito, porque tìnhamos que vir preparar a expedição a França e Inglaterra, e só dispùnhamos de um mez para isso.

Então Francisco Costa, Director Geral do Ministerio, tomou a peito desfazer todos os obstàculos que os indispensaveis caminhos burocràticos nos podiam trazer; e andou de modo, que a 28 de Maio eu e Capello partìamos para Paris e Londres, a comprar o que se nos tornava necessario. Levàvamos um crèdito de oito contos de réis.

II.--Como foi Preparada a Expedição.

Índice de conteúdo

Em Paris fomos logo procurar a M. d'Abbadie, o grande explorador da Abissinia, e M. Ferdinand de Lesseps.

D'elles ouvímos conselhos e recebémos os maiores obsequios.

Infelizmente, não encontrámos no mercado, nem instrumentos, nem armas, nem artigos de viagem, taes como os desejávamos.

Foi preciso encommendar tudo.

Com uma recommendação especial de M. d'Abbadie, fomos procurar os constructores de instrumentos, e durante 10 ou 12 dias, Lorieux, Baudin e Radiguet trabalhàram para nós.

Walker tinha-se encarregado dos artigos de viagem, Lepage (Fauré) das armas, Tissier do calçado, e Ducet jeune da roupa.

Feitas as encommendas em Paris, seguimos para Londres, e ali comprámos os chronòmetros, em casa de Dent, e alguns instrumentos em casa de Casella; uma boa provisão de sulfato de quinino, e muitos objectos de cautchouc na casa Macintosh, entre elles dous barcos e algumas banheiras.

Procurámos de balde em Londres, como tìnhamos de balde procurado em Paris, um theodolito que tivesse as condições necessarias para uma viagem de tal ordem qual ìamos emprehender. Uns, òptimos para observações terrestres, não tinham as condições precisas para as observações astronòmicas; outros, que reuniam as condições requeridas, eram intransportàveis, já pelo peso, já pelo volume.

Não havia tempo para fazer construir um de propòsito, e de volta a Paris, tivémos de aceitar aquelle que já antes nos tinha sido offerecido por M. d'Abbadie.

Recolhémos, em Paris, tudo o que tìnhamos encommendado, e que tinha sido fabricado em nossa curta ausencia; e no dia 1 de Julho, desembarcàvamos eu e Capello em Lisboa, completamente preparados para a nossa viagem; podendo assim cumprir o nosso compromisso, de partir para Loanda no paquete de 5. Tìnhamos feito os preparativos em 19 dias.

Quando eu estudava o modo de me preparar para uma longa viagem em Àfrica, tinha procurado sem resultado em livros de viagens, o modo porque se haviam preparado outros viajantes.

Em todas as narrativas havia escassez de informações a esse respeito, e lembra-me ainda o quanto isso me enfadou.

Resolvi logo, se um dia chegasse a fazer uma viagem em Àfrica, e se d'ella escrevesse a narrativa, não ser omisso n'essa parte, e dizendo quaes os objectos de que me provi, dizer quaes os que me prestáram

serviços reaes, e quaes os que me fôram carga inutil.

A historia das explorações d'Àfrica está no seu comêço.

Muitos exploradores me succederám em Àfrica, como eu succedi a muitos, e creio fazer um bom serviço áquelles que depois de mim se aventurarem no inhòspito continente, apresentando-lhes agora uma relação dos objectos de que me provi; e logo, no correr da minha narrativa, as vantagens ou os inconvenientes que n'elles encontrei.

Segundo as instrucções que do Governo tinha recebido, podia demorar-me tres annos em viagem, e para isso me preparei.

A experiencia tinha-me mostrado, o grave inconveniente de me sôbrecarregar de bagagens; e francamente declaro, que fiquei aterrado quando, em Lisboa, vi o enorme trem comprado em Paris e Londres.

Só malas tìnhamos 17! todas das mesmas dimensões, 0^m,3 x 0^m,3 x 0^m,6.

Uma era toucador perfeito, contendo um grande espelho, uma bacia, caixas para escovas e mais objectos competentes; outra continha um serviço de meza e chá para tres pessôas; e uma terceira o trem de cozinha.

Tres outras malas de forte sola deviam conter cada uma o seguinte:--4 frascos de quinino, uma pequena pharmacia, um sextante, um horizonte artificial, um chronòmetro, umas tàbuas logarìthmicas, umas ephemèrides, um aneroide, um hypsòmetro, um thermòmetro, uma bùssola prismàtica, uma bùssola simples, um livro em branco, lapis, papél e tinta; 50 cartuxos para cada arma; um vestuario completo, e tres mudas de roupa branca; isca, fusil, pederneiras, e alguns pequenos objectos de uso pessôal.

Cada uma d'estas malas tinha na parte superior um estojo de costura, escrivaninha e logar para papél. Eram pessôaes, e pertencia cada uma a um de nós.

As outras 10 malas continham indistinctamente roupas, calçado, instrumentos, e outros objectos de reserva. Todas tinham fechaduras iguaes e abriam com a mesma chave.

A nossa barraca era umatente marquise de 3 metros de lado por 2^m, 3 de alto. As camas eram de ferro, fortes e còmmodas. As mesas de tezoura, os bancos e cadeiras de lona.

Todos estes artigos fôram da fàbrica de Walker.

Cada um de nós tinha uma carabina magnìfica de calibre 16, cujos canos, forjados por Leopoldo Bernard, tinham sido cuidadosamente montados por Fauré Lepage.

Uma espingarda do mesmo calibre da fàbrica de Devisme, uma Winchester de 8 tiros, um revólver e uma faca de mato completavam o nosso armamento.

Em Lisboa tinha eu encommendado na Confeitaria Ultramarina 24 caixas, das mesmas dimensões das malas, contendo, em latas cuidadosamente soldadas, chá, café, assucar, hortaliças secas, e farinhas substanciaes. Hoje devo aqui lavrar um alto agradecimento ao S^{nr.} Oliveira, proprietario da mesma fàbrica, pelo escrùpulo que têve na escôlha dos gèneros que nos forneceu, e que muito nos servìram no comêço da viagem.

Os instrumentos que levámos fôram os seguintes: 3 sextantes, sendo um de Casella, de Londres; um de Secretan, e um de Lorieux, verdadeiro primor. Dois cìrculos de Pistor, fabricados por Lorieux, com dois horizontes de espelho, e os competentes nivéis. Um horizonte de mercurio de Secretan. Tres lunetas astronòmicas de grande fôrça, duas de Bardou e uma de Casella. Tres pequenos aneroides, dois de Secretan e um de Casella; 4 pedòmetros, dois de Secretan e dois de Casella. 6 bùssolas de algibeira; 1 bùssola Bournier de Secretan; 3 outras azimutaes, duas de Berlin e uma de Casella; 2 agulhas circulares Duchemin; 6 hypsòmetros Baudin, 1 de Casella, 3 de Celsius de Berlin, dois mais muito sensiveis de Baudin; 12 thermòmetros de Baudin, Celsius e Casella; 1 baròmetro Marioti-Casella; 1 anemòmetro Casella; 2 binòculos Bardou; 1 bùssola de inclinação, e um apparelho de fôrça magnètica, que nos fôram obsequiosamente emprestados pelo Capitão Evans, por entremedio de M^{r.} d'Abbadie. E finalmente, o theodolito universal d'Abbadie, que tem o nome deAba, e que tão cavalheirosamente nos foi cedido pelo seu inventor.

Armas, instrumentos, bagagens, todos os artigos, enfim, tinham gravado o seguinte letreiro--Expedição Portugueza ao interior d'Àfrica Austral, em 1877.

Duas caixas, contendo o necessario para conservar exemplares zoològicos e botànicos nos fôram enviadas pelos S^{nrs.} D^{or.} Bocage e Conde de Ficalho.

Ferramentas dos diversos officios augmentavam este enorme trem, com que ìamos deixar Lisboa, para nos internarmos nos sertões desconhecidos da Àfrica Austral.

CAPÌTULO I.

Índice de conteúdo

EM BUSCA DE CARREGADORES.

Índice de conteúdo

Chegada a Loanda--O Governador Albuquerque--Não hacarregadores--Vou ao Zaire--O Ambriz--Chego ao Porto da Lenha--Osresgatados--Sei da chegada de Stanley--Vou a Cabinda--Tomo Stanleya bordo daTâmega--Os officiaes da canhoneira--Stanley meuhòspede--O nosso itinerario--Chegada do Ivens.

No dia 6 de Agosto de 1877, chegàvamos a Loanda, no vaporZaire, do commando de Pedro d'Almeida Tito, a quem aqui lavro um testemunho affectuoso de muita gratidão, pelos favores que me dispensou durante a viagem.

Desde a minha saïda de Lisboa, uma preoccupação constante me perseguia. A nossa bagagem era enorme, e tinha de ser ainda muito aumentada, com fazendas, missangas e outros gèneros, que seriam a nossa moeda no sertão.

Em todos os livros de viagens, n'esta parte do continente Africano, li eu as difficuldades em que se encontráram muitos exploradores, por não poderem obter o nùmero sufficiente de carregadores para as cargas indispensaveis. ¿Como os obteria eu? Em Cabo-Verde sube, que uma carta que eu e Capello tìnhamos dirigido ao Ivens não fôra por elle recebida; pois que sube ali, por um telegrama, que Ivens estava em Lisboa, e por isso não podia ter satisfeito ao pedido que n'aquella carta lhe fazìamos, de estudar a questão, e ver se nos obtinha em Loanda os auxiliares precisos. Uma tentativa feita em Cabo-de-Palmas ficou sem resultado, e apesar do apoio que nos prestou o Capitão Tito, nem um só keruboy podémos ajustar ali.

Chegámos finalmente a Loanda, e fomos hospedar-nos em casa do S^{nr.} José Maria do Prado, um dos primeiros proprietàrios e capitalistas da Provincia de Angola, que immediatamente poz á nossa disposição, uma das muitas casas que possue na cidade; casa com accommodações bastantes para receber o enorme trem da expedição.

Do S^{nr.} Prado recebemos innùmeros favores. Na noite do dia 6, fomos procurados por um dos ajudantes-de-campo de Sua Excellència o Governador-Geral, que vinha, em nome do S^{nr.} Albuquerque, fazer-nos os mais cordiaes offerecimentos.

No dia 7, procurámos o Ex^{mo.} Governador, que nos recebeu affectuosamente, mostrando a maior benevolencia em desculpar os meus trajos, que, òptimos para a vida do mato, eram, a não poder ser mais, ridìculos para uma visita ceremoniosa.

O S^{nr.} Albuquerque, depois de nos assegurar, que nos daria a maior assistencia nas terras do seu governo, concluio por nos mostrar a impossibilidade de obtermos carregadores.

Creio que nada mais desagradavel pode haver para quem quer viajar em Àfrica, e tem 400 cargas, do-que dizer-se-lhe:Não ha carregadores.

Decidí immediatamente ir ao Norte da provincia ver se por ali os poderia contratar; e n'esse sentido pedi ao S^{nr.} Albuquerque, me mandasse transportar ao Zaire.

O só navio de guerra que podia ser posto á minha disposição andava cruzando na foz do Zaire; resolvi d'ir procural-o, e no dia 8, parti n'um escalér, tripulado por 8 prêtos cabindas, que me foi fornecido pela

capitanía do Porto. Levava ordens do Governo para o commandante da canhoneira. Não ha nada mais desagradavel do-que fazer uma viagem de 120 milhas em um escalér. De Loanda ao Ambriz comi apenas umas sardinhas e bolachas. Tendo resolvido fazer a viagem no escalér no mesmo dia da partida, não tive tempo de fazer preparativos.

No dia 9, ao anoitecer, chegava ao Ambriz, bonita villa assente no planalto de um còmoro, cujas escarpas, de 25 metros, sam cortadas a prumo sôbre o mar.

Fazia as vêzes de chefe, um empregado de fazenda, o S^{nr.} Tavares, que caprichou em obsequiar-me, assim como tôdos os habitantes da villa, mormente o S^{nr.} Cordeiro, em casa de quem estive hospedado.

Esperava-me no Ambriz Avelino Fernandes. Tive a felicidade de conhêcer Avelino Fernandes a bordo do vaporZaire, e relações ìntimas se estabelecêram entre nós.

É filho das margens do Zaire, e tem grande paixão por esse rico solo, onde as àrvores gigantescas da floresta virgem lhe assombráram o berço. Tem 24 annos. A côr morena e o cabello crespo indicam que nas suas veias, de envolta com o sangue Europêu, gira o sangue Africano. Rico, dotado de uma esmerada educação, adquirida nos principaes centros da Europa, e que uma intelligencia superior soube desenvolver, é o verdadeiro typo do cavalheiro palaciano, que não se pôde conhêcer sem que a elle nos prenda logo verdadeira sympathìa. As muitas relações que elle tinha no Zaire podiam facilitar-me os meios de arranjar ali carregadores.

Sube no Ambriz que a canhoneiraTâmega devia chegar áquelle ponto dentro de dois dias; e por isso resolvi esperal-a.

A viagem de Loanda no escalér não me tinha deixado recordações tão fàgueiras, para que eu persistisse em continuar para o norte da mesma forma.

No dia 10, fui visitar a villa e seus suburbios, e em dois traços vou narrar o que vi.

Do planalto em que assenta a povoação Europêa, desce-se para a praia por um caminho em zigzag, que estava sendo reconstruido por alguns grilhetas. Na praia, entre dois soberbos edificios, que sam armazens das casas commerciaes Franceza e Hollandeza, ostenta-se um albergue, meio-derrocado pêla velhice, meio-em-construcção recente não-continuada, que é a Alfàndega; Alfàndega sem depòsitos, onde as fazendas, arrumadas á porta sôbre o areal, pagam um irrisòrio tributo de armazenagem. A N.N.E. da villa, muitos hectares de terreno sam occupados por um pàntano, inferior de 3 metros e 12 centìmetros ao maior preamár; e na encosta da escarpa que do planalto da villa desce ao pàntano, assentam as cubatas da povoação indìgena, nas peiores condições de salubridade. Ao sul da villa, entre umas moitas de mato virgem, é o cemiterio--onde os cadàveres enterrados de dia, sam pasto das hyenas á noite.

A ponte de desembarque, construida de ferro e madeira, está prestes a ser inutilizada; porque a oxidação do ferro em contacto com o ar e a àgua, produz-se cêdo; e a ponte não foi pintada, não ha verba para sua conservação, nem alguem que por ella vigie.

A casa do chefe é um pardieiro derrocado, onde ha verdadeiro perigo em habitar.

O paio ameaçava ruina; e isso fêz-me impressão, porque elle contém a pòlvora do commercio, que não rende menos de duzentos mil réis mensaes para o Estado.

É bem de esperar, que nos dois annos decorridos depois da minha visita ao Ambriz, se tenham dado mais cuidados áquella bonita villa, cuja importancia é patente, sendo um grande centro de commercio.

Um kilòmetro ao N. da ponte de desembarque, lança no Atlàntico as suas àguas o rio Loge, cuja foz é obstruida por um banco de areia, que lhe dá difficil accesso, mas que depois é navegavel por uns trinta kilòmetros.

No dia 11, fui visitar a importante propriedade agrìcula, fundada pêlo cèlebre Jacintho do Ambriz, e hôje pertença de seu filho Nicolao. Esta propriedade representa um dos maiores esfôrços feitos na provincia de Angola, para o desenvolvimento da agricultura.

Jacintho do Ambriz foi levado á Àfrica por uma desgraça ìntima. Filho do povo, sem a menor instrucção, não sabendo mesmo ler ou escrever (mas dotado de uma razão clara, de um espìrito fino, e de muita felicidade), chêgou a fazer uma grande fortuna. Jacintho casou no Ambriz com uma mulhér da sua igualha. Era a tia Leonarda, mais conhêcida portia Lina, natural da Beira-Alta; e em 1877, a conhêci eu vestida sempre á moda das camponezas da Beira, falando a linguagem vulgar que fala o pôvo

d'aquella provincia, como se de lá tivêsse chêgado. Na sua casa comi um jantar beirense, e por um momento julguei-me transportado a uma das hospitaleiras casas dos nossos lavradores do Norte. A tia Lina entrou muito na felicidade que levou Jacintho á riqueza.

Jacintho fazia o commercio, e esse commercio, na Àfrica, obriga a dois distinctos ramos:

Adquirir dos brancos fazendas, e vender-lhes os productos do paiz; e adquirir dos prêtos esses productos, vendendo-lhes as fazendas.

Era Jacintho que fazia o commercio com os brancos, e a tia Lina com os prêtos.

Jacintho, dotado de uma alma generosa, era muitas vêzes vìctima da sua boa fé, e das extorções de alguns chefes; o que provocava uma phrase á tia Lina, que eu muitas vêzes ouvi repetir: "Ah! Jacintho, os brancos esmagam-te; mas eu esmago os prêtos!"

O verbo empregado pêla tia Lina não era precisamente o verboesmagar, mas, por muito enèrgico, substituo-lhe outro algo semelhante.

Um dia, Jacintho deu em ser lavrador. Era a costumeira de criança que puxava por elle. Comprou terreno, e lançou os fundamentos d'essa vastissima propriedade que é digna de ser visitada; e á qual dedicou o seu trabalho e a sua bôlça, até ao ùltimo momento de vida que têve.

Era Jacintho conhecido por estropiar as palavras, e citam-se d'elle tolices engraçadissimas, pêlo mao emprego de um ou de outro vocàbulo que decorara, mas cuja significação não conhecia bem; com tudo, tinha muito espìrito, e ha d'elle anecdotas engraçadas. Esta por exemplo:

Já elle se achava estabelecido na sua propriedade do Loge; mas, logo que ao porto chêgava navio de guerra Portuguez, ia a bordo fazer offerecimentos aos officiaes; que de genio era franco.

Um dia que elle fôra a bordo, o commandante pediu-lhe um macaco. "¿Quantos quizér?" lhe respondeu Jacintho; "mande ámanhã um escalér, pelo Loge até minha casa, buscal-os."

No dia seguinte, um escalér, tripulado por seis homens, encostava ao muro do jardim de Jacintho. Fêz elle subir o escalér até dois kilòmetros mais, e chêgando á vertente de um monte coberto de gigantes baobabs, em cujos ramos horizontaes pulavam centos de macacos, disse aos marinheiros: "Tôdos estes macacos sam meus, vivem cá dentro da minha propriedade; tendes licença de apanhar quantos quizerdes e leval-os ao commandante."

Os marinheiros encaráram com os cimos elevadissimos das enormes àrvores, cujos troncos, de espantoso diàmetro, não lhes permitiam a subida; e depois de alguns vãos esfôrços, retiráram desanimados, perseguidos pêla grita e pêlas caretas da macacaria.

"Eu dei-lhos; se os não levam, não é culpa minha," dizia o Jacintho, rindo ás gargalhadas.

Visitei a propriedade, e uma cousa que me impressionou foi ver, que, màchinas, apparelhos, instrumentos, etc., tudo era de fàbrica Portugueza.

Nada Jacintho admitia que não fôsse Portuguez, e, custassem-lhe o dôbro, fazia elle fabricar em Lisboa tôdos os seus artigos, já para a agricultura, já para a industria.

A memoria d'esse homem obscuro--mais conhêcido pêlos disparates que dizia, do-que pêlas muitas cousas acertadas que fêz--dêve ser respeitada por tôdos os que se interessam pêlo desenvolvimento Africano; porque elle foi o homem que, nos modernos tempos, maior serviço fêz, para desenvolver a agricultura em colonia Portugueza, empregando n'isso a sua immensa fortuna, e trabalhando até ao seu ùltimo dia.

Na margem esquêrda do Loge, assenta outra propriedade agrìcula, tambem importante, pertencente ao S^{nr.} Augusto Garrido. Não tive tempo de a visitar, porque, no dia que ali passei, não pude esquivar-me aos muitos favores de Nicolao e tia Lina, e tudo o tempo foi pouco para admirar o que ali, no brejo agreste, a vontade do homem tinha feito.

No dia seguinte, chêgou a canhoneiraTâmega, e sube, indo a bordo, que se achava sem mantimentos, e com grande nùmero de praças doentes; motivo por que combinei com o commandante, o S^{nr.} Marques da Silva, esperal-o no Ambriz, em quanto ia a Loanda refrescar.

Três dias depois chêgou aTâmega de volta de Loanda; indo eu logo para bordo, com Avelino Fernandes, seguímos viagem no mesmo dia para o Zaire.

Eu tinha adoecido com uma bronchites aguda, de que felizmente melhorei logo que comêçou a viagem.

Subímos o Zaire até ao Porto da Lenha, onde desembarquei com Avelino Fernandes, que me apresentou aos seus amigos d'ali. Falei logo em carregadores. Disséram-me, que seria, talvêz, possivel obtel-os, se os chefes indìgenas me quizêssem auxiliar; mas que, o melhor meio para mim, era resgatar escravos, e em seguida contratal-os para o serviço que eu exigia.

Repugnou-me a idéa de comprar homens, embora fôsse para os libertar em seguida. E depois, ¿quem sabe se elles me quereriam acompanhar sendo livres?

Resolvi immediatamente não proceder d'este modo, embora não obtivêsse um só carregador ali.

Na casa em que estava sube que tinha chêgado a Boma, no dia 9, o grande explorador Stanley, que descera tudo o curso do Zaire. Stanley tinha seguido para Cabinda.

Voltei a bordo e combinei com o Commandante irmos a Cabinda offerecer os nossos serviços ao arrojado viajeiro. Partímos, e logo que ancorámos no porto, fui a terra, com Avelino Fernandes e alguns officiaes da canhoneira.

Foi commovido que apertei a mão de Stanley, homem de pequena estatura, que a meus olhos assumia proporções de vulto colossal.

Offereci-lhe os meus serviços, em nome do Governo Portuguez, e disse-lhe, que se quizêsse ir a Loanda, d'onde mais facilmente poderia obter transporte para a Europa, o Commandante Marques lhe offerecia transporte a elle e aos seus a bordo da canhoneira. Em nome do Governo Portuguez puz á sua disposição o dinheiro de que carecêsse.

Stanley respondeu-me com um vigoroso aperto-de-mão.

Os officiaes daTâmega confirmáram os meus offerecimentos em nome do seu Commandante.

Stanley aceitou, e desde esse momento, ficou a canhoneira á sua disposição.

Como bem se pôde calcular, eu e Avelino Fernandes não deixàvamos Stanley, e àvidos de ouvir a narração da sua viagem, o tempo que elle tinha preso, era por nós passado a questionar os seus homens.

No dia 19, os officiaes daTâmega déram um soberbo banquête ao intrèpido explorador, para o qual convidáram o Commandante Marques, Fernandes e a mim.

No dia 20, partímos para Loanda, levando a bordo tôda a comitiva de Stanley, que se compunha de 114 pessôas, entre ellas 12 mulhéres e algumas crianças.

Stanley, em Loanda, foi hospedar-se em minha casa; distincção a que eu fui muito sensivel, porque recusou, para isso, os muitos convites que têve, e com elles commodidades que eu não podia offerecer-lhe, n'uma casa onde tinha por mobilia os meus utensilios de viajeiro.

O Governador mandou logo comprimentar o ilustre Americano, e offereceu-lhe um banquête, a que assisti. De volta a casa, perguntei a Stanley, ¿qual a impressão que trazia do S^{nr.} Albuquerque? E elle disse-me apenas: "He is a very cold gentleman." ("É um cavalheiro mui frio.")

O Consul Americano, o S^{nr.} Newton, deu-nos um almôço, e muitos favores nos dispensou.

Haviam festas e banquêtes; mas, a 23 de Agôsto, ainda não tìnhamos um só carregador; e na noite do jantar offerecido a Stanley pêlo Governador, me repetira sua Excellencia, que não me seria possivel obtel-os, sôbre tudo em Loanda; mostrando-me a difficuldade em que se encontrara o Major Gorjão, que apenas tinha podido obter metade do nùmero de homens de queprecisava, para estudar a linha ferrovial do Cuanza.

É tempo de falar dos nossos projectos, segundo a lei, e as instrucções do Governo.

O Parlamento votara uma somma de 30 contos de réis para se estudarem as relações hydrogràphicas entre as bacias do Congo e Zambeze, e os paizes comprehendidos entre as Colònias Portuguezas de uma e outra costa d'Àfrica Austral.

Umas instrucções subsequentes indicavam mais particularmente o estudar-se o rio Cuango, nas suas relações com o Zaire; o estudo dos paizes comprehendidos entre as nascentes do Cuanza, Cunene, Cubango, até ao Zambeze superior; indicando, que, se possivel fôsse, deveria estudar-se o curso do Cunene.

O que fôra designado na lei do Parlamento, elaborada pêlo S^{nr.} Corvo, parece ao principioproblema vasto de mais para uma só expedição, e uma verba de trinta contos de réis; mas a lei foi bem redigida. O S^{nr.} Corvo sabía, que o viajante em Àfrica, não só nem sempre é senhor dos seus passos, mas tambem, que no seu caminho pôde encontrar um não-previsto problema, que julgue de importancia superior á do que lhe foi designado; e por isso deixou a maior latitude aos exploradores.

Quanto ás instrucções, fôram ellas mais restrictas, mas ainda assim, deixavam bastante largos os movimentos da expedição.

O ponto de entrada, como dependia essencialmente do logar onde obtivèssemos carregadores, ficou indeterminado.

Tìnhamos eu e Capello pensado em entrar por Loanda, seguir a leste, até encontrar o Cuango; descer este rio por dois graos; passarmos ao Cassibi, que intentàvamos descer até ao Zaire; e finalmente, reconhêcer o Zaire até á sua foz.

Com a chêgada de Stanley, tendo elle feito uma parte do trabalho que nós propunhamos fazer, e sôbre tudo a impossibilidade de obter carregadores em Loanda, tivémos de modificar completamente o nosso plano.

Decidímos, que fôsse eu ao Sul procurar carregadores em Benguella; e que, se ali os obtivêsse, entràssemos pêla foz do rio Cunene, subindo-o até ás suas nascentes; e depois seguìssemos com os nossos estudos para S.E., até ao Zambeze.

Como não podìamos ter grande confiança na gente que ajustàssemos, lembrámo-nos de pedir ao Governador um certo nùmero de soldados, que fôssem, por assim dizer, a escolta de vigia. Sua Excellencia accedeu e mandou saber aos regimentos, se alguns soldados nos quereriam acompanhar; porque, não sendo aquelle serviço regular, não podia compellir os soldados a irem.

Ficou, pois, decidido, que eu partisse para Benguella no vapor que no principio de Setembro devia chêgar de Lisboa.

N'esse vapor veio o Ivens, que pêla primeira vêz eu via. Sympàthico, ardente, dotado de grande verbosidade, e muito enthusiasmado pêlas viagens difficeis, depressa me ligou a elle a amizade. Narrámos-lhe tudo o que resolvêramos fazer, e as difficuldades que tìnhamos encontrado até então. Ivens concordou com-nosco, e ficou definitivamente resolvida a minha partida para Benguella, no dia 6.

Preparei-me logo para partir, e fui dar parte d'isso ao Governador.

Durante a minha ausencia os meus companheiros deviam preparar as bagagens, que estavam em grande desarranjo, com a nossa precipitada partida da Europa.

Cabe aqui contar um episodio que me aborreceu bastante; porque poderia ter feito, que Stanley julgasse do caracter meu e dos meus companheiros, differentemente do que o devia fazer.

No dia 5, ao almôço, conversàvamos eu, Capello, Ivens, Stanley e Avelino Fernandes, a respeito da escravatura, e mostràvamos a Stanley o espìrito das leis Portuguezas sôbre o infame tráfico; notando-lhe a falsidade de asserções de estrangeiros a nosso respeito; e a impossibilidade de fazer então escravos onde o Governo tinha força. Discorrìamos ácerca do assumpto, quando Capello têve de ir a Palacio falar ao Governador.

Voltou uma hora depois, e logo em seguida recebia Stanley uma carta official do S^{nr.} Albuquerque, a pedir que lhe certificasse, ¿se nas terras do seu governo se fazia escravatura? Stanley veio sorprendido

mostrar-me a carta, e não menos sorprendidos ficámos eu, os meus companheiros, e Avelino Fernandes. Effectivamente, a nossa conversação ao almôço, e aquella carta depois de um de nós ir a Palacio, pareceria ao illustre viajante uma comedia habilmente preparada.

Stanley podia certificar a sua Excellencia, que a bordo daTâmega, em minha casa, em casa de sua Excellencia, e na do Consul Newton, não tinha visto fazer escravatura. Fora d'isto, Stanley, como sua Excellencia muito bem sabía, só por informações nossas poderia falar, convivendo quasi exclusivamente com-nosco, e não tendo visitado ponto algum do paiz governado pêlo S^{nr.} Albuquerque. Era querer o S^{nr.} Governador viesse Stanley a pagar caro um jantar e os seus favores, pedir-lhe um certificado que elle Stanley nunca deveria ter passado.

Stanley, creio eu, fêz-nos a justiça de pensar que èramos estranhos áquella carta.

No dia 6, parti para Benguella, levando cartas do S^{nr.} José Maria do Prado para alguns particulares, e nem uma recommendação para o Governador do Districto, que eu não conhecia.

Ia outra vêz á busca de carregadores, que eu, Portuguez, não tinha podido obter em Loanda, e que, 4 mezes depois, tinha ali obtido um estrangeiro, o explorador Schutt, que não encontrou as menores difficuldades, para seguir o primeiro caminho que nós tìnhamos tencionado seguir.

Em viagem conheci um passageiro que me disse ser possivel obter alguns carregadores em Nôvo Redondo, e que se comprometteu a contratar ali uns 20 ou 30.

Foi já um pouco animado com esta promessa, que chêguei a Benguella, no dia 7 á noite; e ainda que levava cartas de recommendação para alguns negociantes, fui procurar o Governador, e pedir-lhe hospedagem.

CAPÌTULO II.

Índice de conteúdo

AINDA EM BUSCA DE CARREGADORES.

Índice de conteúdo

O Governador, Alfredo Pereira de Mello--A casa doGovernador--Cousas de que não tem culpa o Governo da Metròpoli--Oque é Benguella--O commercio--Sou roubado--Outro roubo--A Catumbela--Obtenho carregadores--Chêgada de Capello e Ivens--Nôvaalteração de itinerario--Outra difficuldade--Silva Porto, o velhosertanejo--Apparecem nôvos obstàculos--O Capello vai ao Dombe--Partida--O que é o Dombe--Nôvas difficuldades--Partimosemfim.

Alfredo Pereira de Mello,[1] Governador de Benguella, ao ouvir o meu pedido de hospedagem, mostrou um embaraço que percebi, e disse-me, que não tinha meio de me receber em sua casa. Sorprendeu-me o caso, sabendo eu que o Governador era bizarro de genio e de natureza franco. Tive convites, logo á minha chegada, já de Antonio Ferreira Marques, já de Cauchoix; mas persisti no intento de hospedar-me em casa do Governador. Elle disse-me, que não tinha cama a offerecer-me, e eu mostrei-lhe a minha cama de viagem; porque fui logo pondo em casa d'elle a minha bagagem. Disse-me, que não tinha quarto; apontei-lhe para um canto da sala em que estàvamos, onde ficaria òptimamente. Não havia mais que dizer, e fiquei. Aguçava-me a curiosidade a resistencia do Governador em negar-me a hospitalidade que pedia; mas cêdo desvendei o misterio. Alfredo Pereira de Mello era homem nôvo, ainda que tinha já uma patente superior na armada. Sympàthico e intelligente, é estimado por tôdos aquelles que o conhêcem de perto; porque a uma finissima educação, reune grande rectidão de caracter, e a energía peculiár a tudo bom marinheiro. Serviu na marinha Ingleza, e tem de viagens larga pràtica. Vio as Amèricas, e antes de ir para Àfrica como Ajudante-de-Campo do Governador Andrade, tinha visitado a India, a China e o Japão. O Governador, que já me conhêcia de nome, ao ouvir o meu pedido, esquèceu que tinha diante de si o explorador, para só se lembrar do homem habituado a viver no meio do luxo e das commodidades. Pereira de Mello têve vergonha de hospedar-me. Um Governador de Benguella, se é recto e probo, vive mesquinhamente com a paga que recebe. A casa do governo é arrendada. A mobilia, um pouco menos de modesta, guarnece a sala e um quarto. Na sala, destoa da mobilia, ricamente amoldurado, um retrato d'El-Rei, o melhor que tenho visto. E com-tudo a este porto, v[~e]m repetidas vêzes navios de guerra estrangeiros, cujos officiaes visitam o Governador, regalam-n-o a bordo; e elle nem um copo d'àgua lhes pôde offerecer em sua casa, porque a prêta ou o muleque tem de trazer o côpo n'um prato velho. O serviço de mesa era, creio eu, a espada de Damocles suspensa sôbre a cabêça de Pereira de Mello, ao ouvir a minha teimozía em ficar. Não tinha razão. O asseio que presidía a tudo, suppría o vidrado da louça gasto com o tempo, e os manjares simples, mas bem cozinhados, avivavam o appetite já derrancado pêlos ares Africanos; e não se offenda o cozinheiro do Hotel Central em Lisboa, se eu lhe dizer, que comi melhór em casa do Governador de Benguella do que comia dos seus opìparos manjares, ainda que a prêta Conceição, cozinheira do Governador, nunca ouvio falar do heroe das caçarolas, o cèlebre Brillat-Savarin. Pereira de Mello, logo ao primeiro dia de convivencia, abrio-me o seu coração, mostrando-me a menos que singeleza da sua vida interior. Três officios dirigidos ao Governo da Provincia, em que pedia autorização para fazer algumas reformas caseiras, tinham ficado sem resposta. Isto não é de estranhar, porque foi sempre assim. Em um copiador de correspondencia, que existe nos archivos do Governo de Benguella, li eu uns officios datados de 1790, em que o Governador de então já se queixava a El-Rei das mesmas faltas; por a ellas lhe não dar remedio o Governador Geral da Provincia, e entre outras cousas que pede com urgencia, figuram os reparos para duas peças de bronze que designa, e que ainda hôje os carecem. Sam as mesmas de que fala Cameron; o que elle vai saber agora é, que os reparos já fôram encommendados e não podem tardar em chegar; porque, sendo a encommenda d'elles feita em 1790, dêve estar quasi concluida a sua construcção. Benguella é uma bonita cidade, que se estende desde a praia do Atlàntico até ao sopé das montanhas que formam o primeiro degrao do planalto da Àfrica tropical. É cercada de uma espessa floresta, a Mata do Cavaco, ainda hoje povoada de feras; e isso não admira, que os Portuguezes, em geral, de caçadores não t[~e]m manhas. As habitações dos Europêos occupam uma grande àrea, porque todas as casas t[~e]m grandes quintaes e dependencias. Os quintaes sam cuidados; produzem todas as hortaliças da Europa, e muitos frutos tropicaes. Vastos pàteos cercados de alpendres servem para dar guarida ás grandes caravanas que do sertão descem á costa em viagem de tràfico, e que repousam três dias na casa onde effeituam as permutações. Um rio, que na estação estía apenas é larga fita de àrea branca, que se desenrola das montanhas ao mar, a travez da floresta do Cavaco, é ainda assim a grande fonte de Benguella, que os poços ali cavados dam àgua boa philtrada pêlas àreas calcàreas. Nas ruas da cidade, largas e direitas, crecem dois renques de àrvores, pela maior parte figueiras sycòmoros, de pouco arraigadas, e por isso ainda pequenas. As praças sam vastas, e em uma ajardinada, crescem bonitas plantas de vistoso aspecto. As casas, todas terreas, sam construidas de adôbes, e os pavimentos sam, em umas de tijolos, e de madeira em outras. A alfàndega é bom edificio, recentemente construido, e tem vastos armazens para as mercadorias do tràfico. Esta alfàndega, e o largo ajardinado, como outros melhoramentos de Benguella, fôram de um Governador, Leite Mendes, que de si deixou rasto. Uma ponte magnìfica de architraves de ferro, creio que encommendada pêlo mesmo Leite Mendes, mas muito posteriormente montada pêlo Governador Teixeira da Silva, é guarnecida por dois guindastes e carrís, por onde, em vagonetes, se transportam as mercadorias das lanchas á alfàndega. Eu aqui commetti um erro de grammàtica, escrevendo o verbo transportar no presente do indicativo, quando no condicional é que era. Transportariam, se houvesse pessôal para isso; mas não transportam, porque o não ha. Tem a cidade um templo decente, e um cemiterio bem collocado e murado. A povoação Europêa é cercada, por todos os lados, desenzalas, ou povoações de prêtos, e mesmo entre a povoação branca ha pequenas senzalas, em quintaes abandonados. O seu aspecto geral é agradavel e aceiado. Tem Benguella má fama entre as terras Portuguezas de Àfrica; e supõem muitos, ser aquillo um paiz infecto, que exhala de miasmàticos pàntanos a peste, e com a peste a morte. Não é assim. Eu não conhêci Benguella como ella fôra em tempos passados; mas hôje, não é nem melhor nem peior do que outros muitos pontos d'Àfrica. O aceio e as plantações de arvoredo, de certo t[~e]m. modificado muito as suas anteriores condições hygiènicas, e com uma pouca de boa vontade, não seria difficil o seu saneamento; o que estou certo se fará, porque não pôde deixar de merecer verdadeira attenção um ponto de tão subida importancia commercial, e em facil contacto com tão ricas terras nos sertões. Os principaes productos que alimentam o commercio de Benguella sam cêra, marfim, borracha e urzella, que chêgam á cidade trazidos pêlas caravanas dos sertões. Estas caravanas sam de duas espècies. Umas, dirigidas por agentes das casas commerciaes, trazem ás mesmas casas que os despacham os productos do seu tràfico no interior; outras, exclusivamente compostas de gentio, descem a negociar por canta propria, onde melhor ganho encontram. O tràfico com o gentío faz-se por permutação directa do gènero por fazenda de algodão, branco, riscado ou pintado. Os outros productos Europêos sam objecto de uma segunda permutação pêla fazenda recebida; e assim, depois da primeira troca do marfim ou cêra pelo algodão, é este trocado por armas, pòlvora, àgua-ardente, missanga, etc., á vontade do comprador; porque a fazenda de algodão é, por assim dizer, a moeda corrente n'este tràfico. O commercio está entre mãos de Europêos e crioulos, e felizmente já ali encontrámos muitos d'esses rapazes que, aventurosos, deixam patria e familia, para ir em terras longinquas buscar fortuna. Alguns deportados de menor importancia tambem negociam, já por conta propria, já como empregados de casa alheia. Os maiores criminosos do Reino, os condenados por tôda a vida, sam deportados para Benguella, do que resulta, encontrar-se ali quantidade de patifes, de que é bom resguardar-se; não os confundindo com a gente digna e capaz, que a ha. A policia é confiada á fôrça militar, que um dos regimentos destaca para Benguella; sendo que de Benguella ainda sam espalhadas differentes fôrças nos concêlhos do interior; desfalcando a guarnição da cidade, já de si pequena. Nós temos dois exèrcitos, um na Metròpoli, outro nas colonias, que nenhuma relação t[~e]m entre si. O nosso exèrcito da Metròpoli é bom, porque o Portuguez é bom soldado; o nosso exèrcito das colonias é mao, porque o prêto é mao soldado; e os brancos que ali servem de mistura com prêtos, sam peiores ainda do que estes. Deportados por crimes que os excluíram da sociedade, fazendo-lhes perder na Europa o fôro de cidadãos, vam desempenhar em Àfrica o posto nobre do soldado; sendo a nossa autonomía Africana, e a segurança pùblica e particular, confiada á defeza de homens, que dam por garantía um detestavel passado. Dahi as contìnuas scenas de caracter vergonhoso que se presenceiam ali. Durante a minha permanencia em Benguella, houve um grande roubo com arrombamento, no cofre militar. O Governador houve-se com a maior energía na maneira porque procedeu para descobrimento dos culpados, sendo muito coadjuvado pêlo seu Secretario, o Capitão Barata, que conseguio descobrir os ladrões, e haver o dinheiro roubado. Fôra o roubo planeado pêlo proprio sargento do destacamento, e levado a effeito por elle e alguns soldados!!! Se o nosso exèrcito Metropolitano não se presta á censura do homem mais pichoso, as nossas fôrças coloniaes sam vìctimas das merecidas chufas de tôdos os estrangeiros, que as observam. Por mais que tenha cogitado, nunca pôde attingir ao prèstimo de tal exèrcito em nossas colonias, que para policia não serve; servindo menos para a guerra, que da minha lembrança tenho visto ser feita por côrpos voluntarios, levantados no reino, e que àlém vam servir por certo praso. Hôje mesmo, em Lisboa, três batalhões estam sempre prontos a marchar para as colonias, e já lá t[~e]m ido; o que prova sabermos nós, que o ter exèrcito no ultramar, tal como elle é, não passa de velha costumeira. Na noite da minha chegada a Benguella, fiz o conhêcimento do Juiz de Direito Caldeira, que se associou ao Governador para me certificar, que, como elle, empregaria tôda a sua influencia para que eu não tivêsse vindo de balde a Benguella, e assim o fêz. O Governador convocou os moradores importantes a uma reunião em sua casa, e expondo-lhes os motivos da minha viagem, e o meu projectado itinerario, pediu-lhes que o coadjuvâssem na empresa de arranjar carregadores; para que eu podêsse levar a cabo a expedição. Todos assim o prometêram. O Governador Pereira de Mello, e o Juiz Caldeira, fôram incansaveis, e no dia 17, dia em que este ùltimo se retirou para Lisboa, tinha eu o nùmero de carregadores que pedira, cincoenta, que, com trinta esperados de Nôvo Redondo, prefaziam um total de oitenta; tantos quantos eu havia julgado precisos para subir da foz do Cunene ao Bihé. O velho sertanejo, Silva Porto, encarregara-se de fazer transportar ao Bihé o grôsso das bagagens, que nós encontrarìamos n'aquelle ponto; onde deverìamos contratar mais carregadores para seguir ávante. N'esse dia mudei eu para a casa que antes occupava o juiz, continuando a ir jantar com o Governador, ou com Antonio Ferreira Marques, da Casa Ferreira e Gonçalves, que porfiavam em obsequiar-me. No dia seguinte, um prêto meu serviçal furtou-me uns 75 mil réis, e desappareceu, sem que d'elle mais se soubesse. A 19 chegáram os meus companheiros na canhoneiraTâmega, e n'esse mesmo dia resolveu-se, que não irìamos á foz do Cunene, mas sim entraríamos directamente ao Bihé. Esta nôva resolução que tomámos, alterava o que havia contratado com os carregadores, e àlém d'isso, a gente de Benguella, que, transportada a paiz distante, não pensaría em desertar, não me inspirava garantía, viajando logo no comêço em paiz de que conhêcia a língua e os costumes. Comêçou nôva campanha. Eu tinha presentes as narrações de Cameron e Stanley a respeito dos embaraços causados por deserções, e até as do proprio Livingstone, que foi abandonado por trinta homens na viagem de Tete com o D^{or.} Kirk. Logo depois da chêgada dos meus companheiros, combinámos em ser o Ivens encarregado dos trabalhos geográphicos, o Capello de Meteorologia e Sciencias Naturaes, e eu do pessôal auxiliar da expedição, coadjuvando-nos mutuamente. Assim, pois, tive de me pôr logo em campo, e o primeiro passo que dei, foi ir tomar consêlho de Silva Porto. Narrei-lhe a nôva decisão que havìamos tomado, de seguir directamente ao Bihé, e expuz-lhe o meu embaraço. Silva Porto veio a Benguella comigo, pois que a sua casa da Bemposta dista 6 kilòmetros da cidade, e precorrémos as casas onde haviam caravanas de Bailundos, sem que elles quizêssem annuir a levar as cargas ao Bihé. Á casa Cauchoix tinha chêgado uma grande caravana, e este cavalheiro chêgou a offerecer uma avultada gratificação ao chefe, e paga dupla aos carregadores, se quizêssem conduzir as nossas bagagens, mas nada conseguío. Cabe aqui narrar um facto muito curioso. Os Bihenos sam os primeiros viajantes d'Àfrica, e nenhum outro pôvo estende mais longe as suas correrias, nem se lhe iguala em arrojo e robustez de caminheiros; mas os Bihenos viajam só do Bihé para o interior como assalariados; e se de maravilha v[~e]m á costa, é por conta propria. Os Bailundos alugam os seus serviços entre a costa e o Bihé, e não vam ao interior para leste; mas ao norte estendem suas viagens até ao Dondo e Loanda. Assim, pois, os negociantes sertanejos fazem transportar as mercadorias de Benguella ao Bihé por Bailundos, e d'ali aos pontos remotos do interior por Bihenos, que voltam, com os productos permutados, ao Bihé. D'este ponto á costa tornam a servir-se dos Bailundos. Depois de informado d'isto, só me restava mandar assalariar Bailundos, para me virem buscar as cargas; e d'isso se encarregou Silva Porto, despachando logo cinco prêtos ao Bailundo, a ir buscar a gente. O velho sertanejo disse-me logo, que elles teriam muita demora, porque os enviados levavam 15 dias a chêgar ao paiz, e outro tanto tempo, pêlo menos, gastariam a reunir os carregadores, e estes, 15 dias para vir; fazendo uma somma de 45 dias; afiançando-me elle, que antes não os teria. Nós estàvamos em fins de Setembro, e por isso só poderìamos partir por meado de Novembro.[2] Vim participar isto aos meus companheiros, e depois de conferenciar com elles, resolvémos não perder tanto tempo em Benguella; e entregando as cargas a Silva Porto, para que nol-as enviasse pelos Bailundos, partirmos immediatamente com as cargas indispensaveis, indo esperar no Bihé; tempo que aproveitarìamos no arranjar de carregadores ali para seguir ávante. Dos carregadores contratados em Benguella apenas uns 30 mereciam alguma confiança para seguir tal caminho; e estes, com 36 de Nôvo Redondo, faziam um total de 66 homens. Tìnhamos, àlém d'isso, 14 soldados; os meus muleques pequenos de serviço; uns Cabindas de serviço de Capello, e Ivens; e 2 chefes prêtos, um contratado por mim na Catumbella, o prêto Barros, e outro por Capello, em Nôvo Redondo, o Catão. Em tôda esta gente não tìnhamos um só homem de confiança. Tratámos de separar as cargas julgadas indispensaveis, e conhêcémos que eram 87; isto é, tìnhamos 21 cargas mais do que carregadores. Foi de balde que trabalhei para os haver, não me foi possivel obter um só. Os prêtos, não comprehendendo o que ìamos fazer, ao sertão, estavam receiosos, e com a sua desconfiança natural, imaginavam loucuras e recusavam-se. Chêgou o fim de Outubro sem nada termos adiantado. Resolvi, por consêlho de Silva Porto, ir ao Dombe, experimentar se os Mundombes faríam menos difficuldades, do que a gente de Benguella; mas, sentindo-me incommodado, pedi ao Capello ali fôsse por mim. No dia 29, partio o Capello, e voltou no dia 3 de Novembro. Nada fêz. Os Mundombes prestam-se com facilidade a ir a Quilengues por caminho conhêcido d'elles; mas, fora d'isso, não fazem outras viagens; e recusáram as pagas avultadas que lhes offerecìamos para irem ao Bihé. Tornava-se necessario tomar uma resolução, e essa foi logo tomada; seguirìamos sempre para o Bihé, mas tomarìamos por Quillenges e Caconda. O Governador Pereira de Mello deu logo ordem ao chefe do Dombe, que tivesse prontos 50 carregadores, para seguirem com-nosco para Quillengues. Silva Porto encarregou-se das cargas que deviam ser mandadas ao Bihé, e eram umas 400. Poz o Governador á nossa disposição uma lancha, para transportar por mar ao Cuio (Dombe Grande) as cargas que d'ali deviam ser carregadas até Quillenges, e alguns carregadores de Benguella que estavam doentes. No dia 11 de Novembro, estàvamos prontos a deixar a costa, e fixámos a partida para o dia 12. Nesse dia fugíram 4 carregadores de Nôvo Redondo, e no seguinte 5 de Benguella. Emfim, no dia 12 deixàvamos a Cidade, depois das mais cordiaes despedidas dos amigos, que se reuníram para nos dizer adeos. Pouco antes tinha eu ido á praia, e por muito tempo tive os olhos fixos na vastidão do Atlàntico, d'esse mar enorme que ia perder de vista; e mal cogitava então, que só o volveria a ver dois annos depois, na França, em Bordeos. Não sei se a outros tem acontecido o mesmo; eu, no momento da partida, senti uma pungente mágoa, uma indefinivel saudade, uma dôr profunda, que me produzíram como que uma embriaguez, e confesso que não tenho muito a consciencia de ter deixado Benguella. A bandeira das Quinas estava desenrolada, e afastavase da cidade ao passo cadenciado da caravana; seguí-a. No dia 13, chegàvamos ao Dombe, tendo feito uma jornada de 64 kilòmetros. Tìnhamos com-nosco 69 pessôas, e seis jumentos, que fôram, homens e burros, alojados na fortaleza. Nós três, com os nossos muleques de serviço, fomos obsequiosamente hospedados em casa de Manuel Antonio de Santos Reis, distincto cavalheiro que porfiou em obsequiar-nos. Dois dias depois, chegáram as cargas que tinham vindo por mar, e inventariando tudo, conhêci, que para seu transporte precisava de 100 homens, àlém dos effectivos que comigo tinha. Isto proveio de termos abusado da facilidade que nos offereceu a lancha, mettendo a bordo mais cargas do que tìnhamos julgado absolutamente necessarias. Decidímos partir a 18, depois de recebermos cartas da Europa, porque o paquete, de costume, está em Benguella a 14; mas a 18 nem o vapor tinha ainda chegado, nem o chefe tinha tambem assalariado um só homem. A 21 chêgou a mala, mas de gente só tìnhamos a trazida de Benguella. O chefe declarou-nos, que no dia 26 poderìamos partir; mas, precisando nós de 100 homens, apenas nos mandou n'esse dia 19. No seguinte dia aparecêram mais 27; e eu, receioso que elles viessem a debandar se os fizesse esperar, despachei-os logo para Quillengues, acompanhados por dois soldados dos que comigo tinha. O chefe declara-me que lhe é impossivel conseguir mais gente. Faço reunir na fortaleza os três Sobas do Dombe, no dia 28, e fui eu mesmo tratar com elles. Sam três typos magnìficos. Um chama-se Brito, nome que tomou de um dos Governadores de Benguella, que o restaurou no poder; outro, Bahita; o terceiro é Batara. Os meus companheiros perdem o assistir a esta scena joco-seria, porque desde o dia 24 estam com febre. O Soba Brito apresenta-se com três saias de chita, pintada de ramageus, muito enxovalhadas; veste uma farda de capitão de infanteria, desabotoada, deixando ver o peito nú, porque camisa não usa; e na cabêça, sôbre um barrete de lã vermelha, põe nobremente um chapéo armado de estado-maiór. O Bahita traja saias de lã de vistosas côres, uma rica farda de Par do Reino, quasi nôva, e na cabêça, sôbre o indispensavel barrete, uma barretina de caçadores 5. O Batara está literalmente coberto de andrajos, e traz á cinta um espadão enorme. Estes illustres e graves personagens estam rodeados dos séculos e altos dignitarios das suas negras côrtes, que tomam assento no chão em torno da cadeira do soberano. O Bahita era acompanhado de um menestrel, que tirava de uma marimba, monòtona toada. Esta marimba é formada de dois paos de 1 metro de comprido, ligeiramente curvos, em que assentam em cordas de tripa taboinhas pequenas de madeira, cada uma das quaes é uma nota da escala. O som é reforçado por uma fila de cabaças collocadas inferiormente, sendo a que corresponde á nota mais baixa da capacidade de 3 a 4 litros, e á mais alta 3 a 4 decilitros. Os Sobas portáram-se com grande seriedade, e eu fingi tambem que os tamava a sério. Depois de me prometterem carregadores, viéram acompanhar-me a casa, que distava uns dois kilòmetros da fortaleza; e como eu desse uma garrafa de àgua-ardente a cada um, mandáram elles dançar a sua fidalgaria, e o Bahita mandou entrar na dança umas raparigas que haviam ficado de parte. Eu pedi-lhes que dançassem elles; mas respondéram-me, que a sua dignidade lh'o não permittia; sendo isso contra as pragmàticas estabelecidas. Eu ardia em desejo de ver o Bahita dançando, de saias e farda de Par; e conhêcedor do imperio da àgua-ardente nos prêtos, mandei dar outra garrafa aos sobas. Foi o bastante. Atropeláram as suas leis, e eil-os saltando em brutesça dança no meio do seu pôvo, que enthusiasmado por tal honra, redobra de contorsões e momices, que chegam a atingir o delirio. O Bahita é magnìfico, e com certeza o typo do rei Bobeche foi creado sobre este molde. Fala continuamente em mandar cortar cabêças, sentenças estas que os seus escutam com a maior submissão, mas de que interiormente se riem, porque bem sabem o Governo Portuguez lh'o não consente. O Dombe Grande é um fertilissimo valle, que se estende primeiro do Sul ao N., e depois a Oeste, quasi em àngulo recto, até ao mar. É enquadrado por dois systemas de montanhas, um por oeste, que borda a costa, e outro por leste, em cujo sopé corre o rioDombe,Coporolo, ouQuiporolo, e até riode S. Francisco--que todos estes nomes tem.


Figura 1.--Mulhéres Mundombes, vendedeiras de carvão.

(De uma photographia do pharmaceutico Monteiro.)

É rio que de inverno traz muita àgua, mas de verão é sêco; sendo que, mesmo nas maiores estiagens, àgua se encontra cavando poços; o que acontece em tudo o valle do Dombe, onde não é preciso profundar mais de 3 metros para a obter. Junto das montanhas de Oeste na parte em que o valle se estende N. S., ha uma lagôa, de 50 metros de largo por 1 kilòmetro de extenção, e da forma de S. Esta lagôa é curiosa, porque não é formada por depòsitos pluviaes, mas sim alimentada por uma forte nascente subterranea, por nunca alterar o seu nivel, e produzir infiltrações, que, um kilòmetro abaixo, vam formar nascentes, que sam aproveitadas na rega de uma propriedade. Dizem que tem peixe bagre, tainha e muitos crocodilos.


Tenho-a visitado muitas vêzes, e nunca vi ali crocodilos ou peixe; mas é certo que os ha, porque m'o afiançou o meu hospedeiro, dizendo-me mesmo, que sam muito vorazes; e que, tendo sido, em 1876, a sua propriedade atacada por um bando de salteadores de Quilengues, estes, rechaçados pêlos seus prêtos, tentáram na fuga atravessar a nado a lagôa, não logrando um só atingir á outra margem, porque tôdos fôram prêsa dos vorazes amphibios.


Nas montanhas de oeste junto á lagôa, montanhas formadas de carbonato calcàreo e algum sulfato de cal, existem algumas grutas, uma das quaes nos afiançou o nosso hospedeiro, nunca ter sido visitada, ser enorme, e parecer, tanto quanto por fóra se podia observar, que contém extensas galerias.


Fomos visital-a, eu, Capello, e o nosso hospedeiro Reis, e verificámos não ter ella merecimento.


É um salão pròximamente circular, de 14 metros de diàmetro, architectado pêla natureza na immensa mole de calcàreo, que forma a montanha. Parece ser guarida habitual de feras, que o dá a entender o ar saturado do fedôr almiscarado de certos animaes, bem como as traças de leão impressas no pó impalpavel que cobre o chão, onde encontrámos alguns espinhos do Hystrix Africano.


No valle do Dombe ha algumas feitorias agrìcolas importantes, sendo as principaes a do Loache, a de Paula Barboza, e a do nosso hospedeiro Santos Reis. Esta ùltima conta apenas três annos de existencia, e produz cana de açucar de que extrahe para cima de 40 mil litros de àgua-ardente; e note-se, que o terreno era antes mato, e foi desbravado ha só três annos. É uma feitoria que começa, tudo ali está ainda em construcção; mas pêlo resultado já obtido se pôde aquilatar a riqueza do solo ali.


Tudo o valle é cultivado de mandioca, pêlos indìgenas, e tão fertil é, que depois de três annos de falta de chuva, não tem deixado de ter producção regular, exportando cerca de 70 mil decalitros de farinha por anno. É o celeiro de Benguella. Os indìgenas ali não permutam as fazendas, mas sim vendem a dinheiro, cujo valor já conhêcem.


Figura 2.--Mulhéres e Donzellas, Mundombes. (De uma photo. de Monteiro.)

A demora que ali tivémos foi prejudicialissima á ordem, e disciplina da minha gente.


Tôdos os dias apresentavam nôvas exigencias, tôdos os dias levantavam querellas entre si; e eu não podia ser demasiado severo, de receio que me desertassem tôdos.


Vendéram os pannos para comprar àgua-ardente, e chegáram a vender as rações de comida para se embriagarem.


Os soldados eram os peiores. Os sobas não mandáram gente, e eu principiei a ver a repetição das scenas de Benguella. Não podìamos seguir.


Figura 3.--Homens Mundombes. (De uma photo. de Monteiro.)

No dia 1 de Dezembro, chegáram ao Dombe 30 homens mandados de Quillengues pêlo chefe militar, a buscar bagagem sua; mas eu lancei mão d'elles, e decidi com os meus companheiros partirmos no dia 4.


Tinha havido mais três deserções, dois homens de Nôvo Redondo e um de Benguella.


Os nossos burros eram muito manhosos, e não havia ensinal-os; todavia resolvêmos conserval-os.





Ücretsiz ön izlemeyi tamamladınız.

Türler ve etiketler

Yaş sınırı:
0+
Litres'teki yayın tarihi:
16 ocak 2025
Hacim:
395 s. 110 illüstrasyon
ISBN:
4064066406493
Yayıncı:
Telif hakkı:
Bookwire
İndirme biçimi:

Benzer kitaplar