Kitabı oku: «Pero da Covilhan: Episodio Romantico do Seculo XV»

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Zephyrino Brandão

Pero da Covilhan: Episodio Romantico do Seculo XV


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066410797

Índice de conteúdo

ADVERTENCIA

I

DESPEDIDA

II

CONSPIRAÇÃO

III

NOVO ESCUDEIRO

IV

JORNADA INFELIZ

V

ADVENTO DA UNIDADE HESPANHOLA

VI

PESQUIZAS

VII

EM RHODES

VIII

BOAS NOVAS

IX

CONSTANCIA

X

TENTANDO AS AZAS...

XI

PEREGRINAÇÃO

XII

NA ABYSSINIA

XIII

REMATE

A

B

C

D

E

F

G

H

I

J

ADVERTENCIA

Índice de conteúdo

O episodio, que vae ler-se, é, como todos os episodios romanticos, um pequeno espelho. Procurei dispô-lo em termos de reflectir uma luz calma e pura, como o céo transparente e sereno, e não reprezentar a vasa de lodaçaes, d'essas miserias, que são a mais viva chaga social de todos os tempos, o terrivel problema a resolver, o alpha e o omega das civilisações.

Sem sacrificar nem a sombra da verdade historica, não tive de roçar por impudencias, nem de envolver-me em meandros asquerosos, salvo no incidente da successão á corôa de Castella.{XVIII}

Não accuso de immoraes os que revolvem o lôdo.

A quem deixa estagnar a agua, pertence mórmente a responsabilidade na formação dos atoleiros. Mas alguns escriptores teem olhos de lynce para descobrir o mal, e de toupeira para enxergar o bem: uma cegueira lamentavel em ambos os casos.

No reinado de D. João II, em que se passa quasi totalmente o episodio, houve, como em todas as épocas, grandes virtudes e grandes vicios. D'estes não cuidei, porque não podia ir buscar a um meio, onde nunca estiveram, os meus dois protagonistas, que são verdadeiros no sentido eterno da palavra, antes de o serem no sentido historico.

—E como faze-los reprezentar tambem papeis violentos em dramas ou tragedias, que despertassem interesse, reconhecendo eu que a historia, á qual subordinei a sua acção, cortaria implacavelmente as azas da minha phantasia?

Era porventura mais impressivo, ou ao menos mais accommodado ao gosto hodierno, um enredo cheio de peripecias fabulosas. No colorido,{XIX} porém, d'esses quadros phantasticos deveria empregar as tintas modernas, e nem eu sabia pinta-los, nem elles eram authenticos.

Commemóro emfim, conforme sei e pósso, o quarto centenario do descobrimento do caminho maritimo da India.

Zephyrino Brandão

{XX}

{1}

I

Índice de conteúdo

DESPEDIDA

Índice de conteúdo

O leitor já visitou Sevilha? Pois se nunca a enxergou sequér, affirmam por lá os nossos visinhos, que não vio maravilha.

Os attractivos da vida sevilhana seduzem-nos tanto, que nos offerecem crêr no velho proverbio andaluz, e compensam certamente a princeza do Guadalquivir do muito que lhe falta em monumentos para ser admirada, e em melhoramentos materiaes para rivalisar vantajosamente com as cidades modernas.

O leitor e eu vamos percorre-la no terceiro quartel do seculo XV, em um dia calmoso do estio.

Abrasa tanto calor!...

Em breve zombaremos d'elle.

Os arabes, que faziam de seus palacios pequenos paraizos, rodeavam-n'os de jardins e fontes,{2} no intuito de refrescar as regiões ardentes, que povoavam, e até no interior dos proprios edificios possuiam esses mesmos refrigerios. Ora as casas de Sevilha traduzem fielmente os costumes de seus antigos senhores; e, como temos de entrar em uma d'ellas, poupar-nos-hemos a insolações.

Cingem Sevilha fortes muralhas, do alto das quaes se contempla a extensa planicie do vastissimo contorno, povoado de vistosas e alegres alquerias.

Pela porta de Triana sae-se ao importante arrabalde d'este nome, e com elle se communica por uma ponte de madeira fundada sobre grandes barcas, que com grossas cadeias de ferro a sustentam, amarradas no castello. Sob esta corre caudaloso o Guadalquivir, que parece envaidecido da sua justa nomeada, não só por dar ancoradouro seguro ás maiores naves, que sulcam os mares, senão por facilitar assim as relações commerciaes, e animar a florescente industria fabril dos sevilhanos;—o que torna riquissima de população e haveres a formosa metropole andaluza.

Cêrca do rio ergue-se a torre, que, pelo primor da fabrica, se denomina do Ouro.

Á cathedral, cuja edificação começou quasi ao entrar do seculo, em que a estamos vendo, sobre os alicerces da antiga mesquita, chama-se vulgarmente a grande, como á de Toledo a rica, á de Salamanca a forte e á de Leão a bella.{3}

Ao lado d'essa immensa móle altea-se suberba a torre de tijolo côr de rosa, que coroava a mesquita, e é rematada por outra de menores dimensões com variedade de pinturas mui singulares em todo seu circuito. Este minarete, o mais notavel monumento arabe, da sua classe, na peninsula, foi construido pelo celebre alchimista e architecto Géber, a quem se attribuio, sem fundamento, a invenção da algebra.

—Não olvide o leitor, que estamos no decimoquinto seculo, em que não existe ainda o Giraldillo, e por isso a torre não é conhecida pelo nome de Giralda.

Numerosa a casaria da praça; alguns edificios podem comparar-se em tudo com palacios realengos.

As mulheres prezam-se de caminhar com garbo e passo curto; de fallar com graça e vivacidade; de vestir com louçania e riqueza; de dançar e cantar ao som das castanholas e das guitarras com elegancia e desenvoltura; de encobrir com a mantilha um dos seus formosissimos olhos por tal arte, que parece terem cravado na face um diamante negro, a reflectir a luz fulgorosissima do bello sol da Andaluzia.

O sevilhano passa por nós muito ancho da sua pessoa, e da sua Sevilha, que não só possue os titulos de mui leal, mui nobre e mui heroica, senão que é patria de notabilissimos santos; por isso até um poeta exclama patrioticamente:{4}

«Que Dios, Sevilla, en tu preciosas venas

Para el Cielo crió tantos tesoros,

Cuantas el ancho mar esconde arenas,

Cuantas estrellas los celestes coros!»

Sem embargo de tamanha gloria, a cidade de Maria Padilla tem sido tambem algo peccadora...

A nobreza opulenta de rendas de seus vastos dominios ruraes, em que abundam frutos e gados, sustenta luzidas tropas de escudeiros fidalgos, que põe ao seu serviço e ao dos reis, alentando os impulsos das proprias ambições e prosapias.

Nas suas casas tem grandes depositos de armas, e nas suas cavallariças centenares de cavallos. Empara em vida os de sua hoste, e deixa-lhes fartos legados em seus testamentos.

Um d'esses grandes senhores é o duque de Medina Sidonia; ou de Sevilha, como tambem o tratam.

Entremos no seu palacio.

Este grandioso edificio, exteriormente austero e nú, ostenta no interior uma riqueza enorme, um luxo deslumbrante e voluptuoso, que determina a influencia exercida em Hespanha pela civilisação arabe. Póde considerar-se uma vivenda semi-oriental, como todas as do estylo mudejar, a que pertence, para a construcção das quaes as duas artes, christã e mahometana, se dão as mãos com tal engenho, que se harmonisam perfeitamente os dois elementos de manifestações tão diversas.

—Como sabido anda, os arabes que ficaram{5} com os christãos, depois de certos tratados, em virtude dos quaes se lhes permittia conservar suas leis, religião e costumes, chamavam-se mudejares, e nas edificações, em que eram empregados, imitavam o luxo e magnificencia dos povos, que os da sua raça haviam conquistado, especialmente da Persia.

Tornando, porém, ao ponto: na disposição geral do palacio adoptou-se o estylo arabe, estabelecendo-se amplos pateos, e galerias, em volta das quaes demoram as habitações.

A sala principal pertence ao terceiro periodo arabe puro. As paredes d'ella recordam os ricos tecidos orientaes da Persia, assim por seus desenhos primorosos, como pelo brilhantismo do colorido. O pavimento acha-se coberto com uma alcatifa persa de um avelludado suavissimo. No tecto, o elemento decorativo predominante são estalactites e laçarias, tudo realçado com applicação de côres e douraduras.

Os peregrinos ornatos d'esta sala bastam, para confirmar a frondosa imaginação dos artistas mahometanos, e o respeito por elles tributado ás suas tradições gloriosas.

Móvel não se vê, a não ser uma larga cadeira de espaldar, com sobrecéo e estôfo de brocado. No centro da espalda, o brazão dos Medina Sidonia. Uma riquissima almofada de setim bordada a ouro está collocada aos pés d'esta cadeira, em que sómente costuma sentar-se o duque, ou algum extrangeiro{6} de distincção, que o visita, e a quem elle offerece esse lugar de honra.

Em outras salas, paredes forradas de pannos de Arraz e de Flandres, representando episodios da vida de Christo, assumptos mysticos, batalhas, torneios e scenas de caça; ou cobertas de tapetes turcos, imitando persas, guadamecins e azulejos, tendo os sóccos revestidos de mosaicos esmaltados. Os tectos, estucados e pintados, com imitações mais ou menos exactas da flora. Alguns pavimentos, alcatifados.

Nos aposentos dos duques pendem das paredes quadros de Giotto e da sua escola, de João Van-Eyck, Roger van der Weyden, e do patriarcha da pintura sevilhana, Juan Sanchez de Castro, que poucos annos antes fundára a sua escola. As paredes e tectos da ante-camara, armados e toldados de riquissimos lambeis. Os móveis, de páu-santo, primorosamente entalhados e forrados de brocado e ouro.

Na sala da duqueza vê-se um magnifico relicario, d'estes que o clero manda executar sobre desenhos proprios para maravilhar os fieis, tal é a perfeita intelligencia, que elle tem do seu tempo. Em cima de uma credencia com tres compartimentos em fórma de degráus, cobertos de setim e rendas de Flandres, repousam varios objectos de uso senhoril, uns de ouro, outros de prata e crystal de Veneza. Sobre um bufete de abano, coberto com um bancal de velludo, tendo ao meio bordadas{7} as armas da duqueza, acham-se livros de horas luxuosamente encadernados e brochados de prata, uma escrevaninha de ouro, flores em vasos de crystal e castiçaes de ouro. Nos angulos da sala, açucenas em amphoras preciosas proclamam a sua candura triumphal, e roseiras enroladas em columnas de onyx exhalam a sua fragancia suavissima.

As paredes da sala de armas do duque exhibem trophéos de armas arabes, despojo rico das batalhas das Navas e do Salado, como: rodellas, adargas, onde se lêem lemmas bordados a fio de ouro e a matiz, lanças em fórma de meia lua, espadas, gomias, tridentes e alfanges de dois fios.

Amplas colgaduras, tendo bordadas as armas da casa, encobrem completamente as estreitas portas de alerse.

O mobiliario do palacio, em geral, consiste: em cadeiras de espaldar coroado por dentilhões, tendo entalhado o brazão das armas de Niebla, titulo da familia Medina Sidonia, ou simplesmente a corôa ducal; algumas cadeiras ainda, lavradas com atauxias de ouro, marfim, prata ou cobre, e umas e outras com escabellos fixos ou moveis; almofadas de seda, sobrepostas duas a duas, e servindo de assento na sala de recepção da duqueza; faldistorios, tamboretes de espaldar, bancos longos e de espaldas, almofadados de tela de ouro e velludo; bancos de thezoura, bufetes de ebano artisticamente entalhados de prata, candelabros dourados, arcas para assentos, armario, cofre e até mesa de{8} escrever, todas de madeiras preciosas e guarnecidas de prata, ferro ou bronze; relogios de parede em luxuosas caixas, umas de madeira, outras de ferro. Muito d'este mobiliario é coberto de ricas tapeçarias orientaes, que lhe dão um aspecto delicado e alegre com as côres vivas de seus bordados caprichosos. Emfim, mesas de prata, de ouro e de bronze, quadradas, de um pé só, além de outras de madeira, iguaes áquellas no formato, e sobre que se vêem magnificos vasos de flores, cravejados de pedras preciosas, outros vasos de prata lavrada, salvas e floreiras.

Não entremos na ante-camara do duque, onde elle conversa agora com D. Juan de Guzman, que tem sido o seu irmão predilecto.

Conforme o costume, a duqueza saiu logo de manhã para o jardim com as dez donzellas, suas familiares, levando, como cada uma d'estas, na mão um rosario e um livro de missa.

Á sombra do copado arvoredo alli rezam no mais edificante recolhimento. Terminada a oração as donzellas correm alegremente a colher flores, com que na volta ao palacio enfeitam o altar da virgem.

Na capella é esperada a duqueza com o seu sequito gentilissimo pelas moças da camara, e pelo sacerdote, que celebra a missa, ouvida por aquella pequena côrte.

Em seguida serve-se o almoço, depois do qual a duqueza, acompanhada de suas donzellas e de{9} alguns fidalgos, dos mais apontados em garbos de cavallarias, em esmeros de atavios, e em chistes de conversadores, passeia a cavallo no seu suberbo palafrem. Hoje, todavia, recolheu-se aos seus aposentos, e não deu o seu passeio habitual.

Deixemos, pois, entregue ás suas meditações a virtuosa senhora. Naturalmente algum novo acto de caridade projecta, para juntar aos muitos, que tão justamente lhe tem grangeado o santo e doce nome de mãe dos pobres.

E, emquanto o duque falla com o irmão, acompanhe-me o leitor ao pateo principal do palacio.

É um quadrilongo regular, cercado de galerias, superior e inferiormente, decoradas com arabescos do mais fino gosto, sendo seus arcos em fórma de ferradura, graciosamente entalhados e sustentados por dezenas de columnas de ordem composita e de marmore alvissimo. O pateo é ajardinado, tendo no centro uma fonte, cuja agua crystalina cáe dentro de um tanque largo que a circumda; e os canteiros são separados uns dos outros por lousas de marmore branco.

Na galeria superior sente-se rir e folgar. São as donzellas da duqueza. O sol não as incommoda, porque todo o vão do pateo está coberto com um grande toldo. Uma d'ellas, desviando-se das companheiras, vê no jardim, perto do tanque, um pagem, e pergunta-lhe com ineffavel meiguice:

—Estais a despedir-vos das flores, Perico?...

—Quem sabe, se tornarei a vê-las!...—respondeo{10} o pagem com pronunciado acento de tristeza.

—Pois porque não haveis de voltar?...

—Deus o sabe; mas diz-me o coração, que nunca mais verei Sevilha!...

—Tem cousas o vosso coração!... Deixai-o cá, para não vos ir atormentando com presagios pelo caminho...

As outras donzellas, que tiveram curiosidade de saber, com quem a sua companheira conversava, accorreram no momento em que Pero fazia esta pergunta á sua interlocutora:

—Se eu podésse arrancar o coração do peito, de quem poderia confia-lo, na certeza de que ficaria bem guardado?

—De mim!—exclamam todas a um tempo.

—Como elle não póde repartir-se,—ponderou o pagem—entrega-lo-hia a Beatriz.

—Sois mui gentil, Perico!—tornou esta. Graças pela preferencia...

—Não fostes vós, quem me propôz não o levar comigo?...

—Sem duvida!... É, porém, essa a unica razão da vossa escolha?...

—Não m'o pergunteis... Se tivesse aqui um alaúde, cantar-vos-ia agora ao som d'elle:

Con dos cuidados guerreo que me dan pena y sospiro; el uno quando no os veo, el otro quando vos miro.[1]

{11}

—Bellissimo, Perico!...—bradaram as donzellas com viva demonstração de alegria.

—Que gracioso sois!—accrescentou Beatriz e perguntou: mas porque esquecestes a guitarra, que é mais maneira, e vos lembrastes do corpulento alaúde, como lhe chamava o arcipreste de Hita?

—Vejo, que conheceis os versos de Juan Ruiz...—observou o pagem.

—Quem haverá ahi, que os não tenha ouvido recitar aos trovadores e aos jograes?!... A proposito vinha agora recordar aquelles, em que o arcipreste descreve a recepção de D. Amor... Se quereis ter uma igual, quando regressardes, recitai-os, Perico!...

—Careceis dos nossos rogos?...—atalharam as outras donzellas.

Convem notar, que os duques de Medina Sidonia, á similhança dos reis de Castella, mantêem uma côrte poetica. Fazer versos está na moda, por isso são poetas os grandes senhores: almirantes, condestaveis, duques, marquezes, condes e reis. A verdadeira e legitima poesia conservava-se no estado latente, desde o reinado de D. Pedro, o Cruel. Passou depois á côrte, e fez-se cortezã. Com tudo não havia perdido completamente o favor popular o romance brioso e sentido.

Os melhores poetas, que frequentam a casa Medina Sidonia, são versados na lingua arabe, e{12} sabem numerosas lendas d'este povo de poetas. Conhecem a escola provençal, e é-lhes familiar a litteratura. Os romances castelhanos, e as mais bellas composições poeticas de Hespanha, anteriores ao presente seculo XV, todos os cavalleiros d'aquella côrte sevilhana recitam com applauso de damas e donzellas. O marquez de Santilhana, que por lá surge de quando em quando, ao passo que por todos é escutado com affectuoso enthusiasmo, estimula os moços, repetindo-lhes esta maxima: «a sciencia não embóta o ferro da lança, nem afrouxa a espada na mão do cavalleiro.»

N'este meio social tão distincto, é que tem sido educado o pagem, e a familia Medina Sidonia dispensa-lhe os maiores carinhos.

Tirado, pois, a terreiro pelas donzellas, assume um certo ar de gravidade, parecendo ao mesmo tempo, que do seu olhar vivissimo saltam chispas de luz e de graça, e exclama:

—Attenção!... Vae fallar Juan Ruiz!...

Quando, porém, se propunha recitar o engraçado episodio, pôz termo ao animado colloquio o apparecimento do irmão do duque a uma porta da galeria inferior.

O pagem dirigiu-se logo a D. Juan, de quem recebeu uma ordem, e em virtude d'ella saiu apressadamente do pateo. As donzellas retiraram tambem logo da galeria.

Junto das cavallariças um velho mendigo, de compridas barbas brancas, de olhar scintillante e{13} modos altaneiros, em que se traduz o seu orgulho de raça, inflexivel sempre, até sob o jugo do infortunio, tem feito as delicias de eguariços e lacaios, ora tocando sanfona, ora narrando historias de bandidos e de feitiços dos mouros de Granada. A famulagem tinha tempo para tudo. Não se tratava então de apparelhar ginetes, para ir no encalço dos Ponces, inimigos irreconciliaveis dos Guzman, apesar do seu proximo parentesco; unicamente cincoenta cavallos estavam arreados, e promptos a enfrear á primeira voz.

São quasi cinco horas da tarde. D. Juan de Guzman despede-se do irmão, que lhe mostra uma carta de D. Diogo Lopes Pacheco, marquez de Vilhena, recebida momentos antes, e abraçando-o diz-lhe: «D. Affonso que conte com dois mil cavallos».

Passados poucos minutos as donzellas da duqueza sóbem a um torreão do palacio, para vêr sair a garrida cavalgada, em que vae caminho de Portugal D. Juan de Guzman.

Para maior luzimento do numeroso prestito de escudeiros e lacaios, com o qual D. Juan pompeava, o duque não só pôz ao seu serviço o discreto pagem, que o leitor conhece, mas deu-lhe tambem por companheiro um dos mais disértos trovadores da sua côrte.

Ao lado dos azemeis, que conduzem possantes mulas pittorescamente ajaezadas e carregadas de bahús com a bagagem, caminham uns romeiros,{14} encostados ao seu bordão, e com a murça da esclavinha ornada de conchas e vieiras. Por intervenção da duqueza, haviam alcançado licença de jornadear com D. Juan até Portugal, devendo d'aqui passar a Santiago de Compostella, onde se dirigem, e d'este modo evitar os caminhos de Hespanha ora tão infestados de bandidos e salteadores.

As donzellas demoraram-se no torreão até se desfazer, lá ao largo, a ultima nuvem da poeira, que envolvia cavalleiros e peões; mas já não logravam distinguir um só d'elles.

—Quem sabe, se Beatriz desejaria descortinar unicamente o pagem?... Talvez. Nada, porém, communicou ás companheiras, que podésse denunciar esse desejo.

—E Perico?... Levaria porventura gravada no coração a imagem de Beatriz?... Começaria a feri-lo deliciosamente o espinho da saudade?... Ou a lembrança de entrar no seu paiz, que, desde muito creança não tornára a vêr, e em cuja côrte teria ensejo de exhibir as singulares prendas, de que era dotado, apagar-lhe-ia da memoria os venturosos dias de Sevilha?...

Ao leitor cordato afiguram-se decerto inopportunas taes perguntas, feitas com o fundamento unico da scena, que presenceámos no pateo.

Tem razão. Esse galanteio innocente, proprio da mocidade dos participes, dos costumes da época, e até da indole das encantadoras filhas da Andaluzia,{15} não auctoriza a procurar mysterios no que tão natural se apresenta.

—Sabe o leitor o que logo ao começar da jornada está provocando os gabos de experimentados escudeiros?

—É a destreza, com que Pero, o gentil pagem, manda o rinchão fouveiro que monta. A cada galão do corcel sorri-se desdenhosamente, e com seus ditos joviaes e maliciosos é o enlevo da comitiva.

Ditosa mocidade!...

Se voltassemos ao palacio dos duques, encontrariamos talvez Beatriz a exercer o galante ministerio de juiza em alguma côrte de amor.

E cá fóra veriamos o velho mendigo no mesmo lugar ainda, cantando ao som da sanfona:

«Rosa fresca, rosa fresca,

tan garrida y con amor;

quando vos tuve em mis braços,

no vos supe servir, no,

y agora que os serviria

no vos puedo aver no.[2] ............................ ............................

{16}

{17}

II

Índice de conteúdo

CONSPIRAÇÃO

Índice de conteúdo

Se o leitor tem folheado a historia de Henrique IV, de Castella, póde poupar-se á leitura d'este enfadonho capitulo, no qual vamos condensa-la, para melhor intelligencia do que mais ao deante se dirá.

Esteve Henrique IV casado sete annos com D. Joanna, irmã do rei de Portugal D. Affonso V, sem ter successão; até que, em 1462, a rainha deu á luz uma menina. Foi baptisada esta com muita pompa, e geraes demonstrações de regosijo, pelo arcebispo de Toledo, D. Affonso Carrillo, sendo madrinha a infanta D. Isabel, irmã do rei, e padrinho, por procuração, Luiz XI de França. Pouco depois, reunidas côrtes em Madrid, n'estas foi jurada herdeira do throno a recem-nascida, a que se havia dado o nome de Joanna, e ninguem protestou contra o juramento.{18}

Era a esse tempo mordomo-mór do palacio D. Beltran de la Cueva, que de pagem da lança passou logo a exercer essa alta dignidade, havendo sido igualmente agraciado com o titulo de conde de Ledesma. Mostrava-se este mui solicito no serviço da rainha, mas não fazia mais do que cumprir as ordens do monarcha, de cujo favor e privança gozava com inveja e despeito de muitos, que não queriam reconhecer-lhe meritos para tanto.

Os negocios do Estado eram dirigidos pelo arcebispo de Sevilha;—o verdadeiro soberano, pois que D. Henrique passava seus dias caçando e divertindo-se.

D. João II, rei de Aragão, andava em guerra com seu filho D. Carlos de Viana, a quem não queria entregar o senhorio de Navarra, que pertencia a este, por morte de sua mãe; e com Luiz XI, para retomar o Roussillon, que lhe havia empenhado por avultada somma de dinheiro.

Aos parciaes da justa causa de D. Carlos pertencia Henrique IV, e aos do rei usurpador, o arcebispo de Toledo e alguns grandes de Castella.

O marquez de Vilhena, D. João Pacheco, dizia-se amigo de Henrique IV; e, como era mui artificioso e dado a soltar só meias palavras, foi a Saragoça tratar da paz e boas relações de Aragão com Castella.

No seu regresso a este reino convidou, sem detenças, o arcebispo de Toledo e seus sequazes,{19} para uma reunião secreta, que se realizou em um valle proximo de Alcalá de Henares.

Ahi o marquez rompeu, sem mais preambulos:

—É forçoso guerrear sem treguas Beltran de la Cueva.

—Não se me afigura empresa difficil...—acudio em tom pausado e sisudo o arcebispo de Toledo.

—Convenho;—replicou Vilhena—mas ainda é numerosa a parcialidade do rei, e tem á sua frente o arcebispo de Sevilha...

—E a nós,—atalhou, recachando-se, o prelado toledano—embóra inferiores na quantidade, ninguem sobrelevará na coragem e na perseverança com que luctaremos. Demais... o rei é fraco, e o arcebispo de Sevilha...

—Sim, esse...—condescendeo o marquez, engulindo um pensamento, cuja execução de ninguem confiava.—Lembrai, pois, um plano, e contai com o rei de Aragão.

—Quereis um, que fira mortalmente o rei e o valido?... Ahi váe em poucas palavras: invistamos contra a honra da rainha!

Advirta-se, que o arcebispo de Toledo era um d'aquelles prelados da edade media, nascidos antes para brandir a espada acerada do guerreiro, do que para menear o cajado pacifico do apostolo.

O marquez de Vilhena comprehendeo logo toda a perfidia do seu interlocutor, e, occultando cautelosamente{20} o assombro, que lhe produziram as suas palavras, perguntou sem hesitação:

—Como?...

—Divulgando, que a infanta D. Joanna é filha de Beltran de la Cueva—respondeo serenamente o arcebispo.

—E acredita-lo-hão?... Talvez muitos o ponham em duvida... Como sabeis, o facto de ter o rei estado sem successão, durante sete annos, póde explicar-se com o similhante de seu avô Henrique III, que esteve oito. Álem d'isso a todos é bem prezente ainda a scena de ciume da rainha, que, batendo com um chapim na sua dama D. Guiomar de Castro, expulsou-a ao mesmo tempo do alcaçar de Madrid, sem evitar, que a sua rival esteja vivendo hoje tão entonada, por ser amante do rei, e dispensadora de mercês, aos que preferem ganha-las com humilhações perante tal mulher, a conquista-las ás lançadas aos mouros...

—E d'esses factos o que se conclue?... O primeiro á lembrança de ninguem acóde. O segundo tem uma explicação natural no orgulho offendido. Álem de que o vulgo não deixa de crêr ás cegas em todas as accusações feitas aos potentados, e até as avulta enormemente... Accresce, que para o genero d'esta não ha defensa possivel, e, dado o escandalo, já o monarcha se não attreve a mostrar-se em publico, sem correr o risco de ser apupado...

—N'essas circumstancias deixará a infanta de{21} ser a herdeira presumptiva da corôa...—contestou pausadamente o marquez.

—Sem duvida!—atalhou de prompto o arcebispo, a quem pareceo divisar no marquez de Vilhena certo ar de indecisão.

—Melhor é, pois, desthronar já D. Henrique!...

—Óra até que chegámos ao ponto, por onde deviamos ter começado!—exclamou o arcebispo com mal contido júbilo, e, compondo o aspecto, de seu natural severo, accrescentou: e quem hade impedir-nos de o realizar?...

—Pois bem!... Mas antes de tudo o monarcha assignará as pazes com o rei de Aragão, afim de evitar, que continue a suspeita de qualquer accordo nosso com a côrte aragoneza...

—É habil esse lance!...—ponderou o arcebispo—Comtudo não vos esqueçais do arcebispo de Sevilha...

—Seguramente...

—Vejo, que nos comprehendemos...

—Resta saber, quem nos convirá no throno, cuja dignidade tratamos de restaurar...

—O infante D. Affonso; por isso mesmo que é uma creança tão debil e apoucada, como seu irmão. Agrada-vos?...—concluio o arcebispo, sorrindo ironicamente.

—É uma creança que substitue outra...—observou Vilhena.

—É; mas D. Henrique retirou-nos a sua confiança,{22} e D. Affonso hade obedecer ás nossas inspirações...

Das reticencias d'este dialogo é licito inferir, que os interlocutores não confiavam demasiadamente um no outro. O arcebispo de Toledo era insolente e audacioso. O marquez de Vilhena, mui solérte em intrigas palacianas, fazia consistir a sua força na brandura da sua linguagem, e sabia-lhe melhor ganhar a victoria por meio de traças ardilosas, e palavras melicas. Não pretendia álem d'isso desaggravos tão cruentos, como o arcebispo; mas teve de concordar com elle, e com os outros conjurados, em espalhar pela lama as jóias mais bellas de uma corôa, para a tornar ludibrio do mundo!

O que mais resolveram tão inclitos varões, em seu conluio, i-lo-hão mostrando elles para gloria sua.

Henrique IV, apesar dos reparos, que pôz na concordia com o rei de Aragão, assignou as pazes propostas pelo marquez de Vilhena. Parece, porém, ter-lhe servido de aculeo a sua condescendencia, para manifestar, mais do que nunca a sua intimidade com o conde de Ledesma.

Foi novo aggravo aos conspiradores; por isso correo logo de bocca em bocca o nome de Beltraneja, posto por elles á innocente infanta, e perfida injuria disparada ao pundonor de sua mãe.

Os amigos do monarcha, cobertos de pejo, indignaram-se de ver caidos na baixeza, de propalar{23} em tamanha infamia aquelles, que se diziam grandes de Castella!

Procurou o rei attrahir de novo ao seu partido o marquez de Vilhena, por saber quão perigosa era a sua inimisade, e este aproveitou o ensejo, para lhe propôr a demissão do metropolitano de Sevilha. Não só conveio n'isto o timido monarcha, mas ordenou tambem a prisão do prelado. O marquez avisou do rescripto a sua victima, que passou logo para o bando dos descontentes!

Seguidamente intentavam os conjurados surprehender o rei em Madrid e apoderar-se d'elle. A vigilancia do conde de Ledesma frustrou a tentativa. Acudiram de outra vez a Segovia, quando o monarcha alli foi; compraram a camareira Maria Padilla, que velava junto do dormitorio, e pareceu-lhes ageitado o lance; mas baldou-se ainda o attrevido designio.

De Burgos dirigiram ao desditoso rei uma reprezentação, em que lhe diziam, com inqualificavel despejo, have-lo induzido o conde de Ledesma a fazer jurar por herdeira do throno D. Joanna, chamando-a princeza sem o ser; pois que não era sua filha bem o sabiam elle e o conde!

O rei tremeo ao lêr estas palavras. Afigurou-se-lhe conjurar todos os perigos, concertando o enlace de sua filha com o infante D. Affonso, e accedendo, a que Beltran de la Cueva renunciasse o mestrado de Samtiago, por que tanto suspirava o marquez de Vilhena.{24}

Consentio, pois, em que fosse jurado herdeiro da corôa seu irmão, uma vez que casasse com a princeza D. Joanna; e o conde de Ledesma, por seu turno, entregou nas mãos do rei a sua demissão de mestre de Samtiago, não por se considerar indigno de exercer esse alto cargo, mas para em tudo servir D. Henrique. Em compensação foi elevado a duque de Albuquerque.

Tão alta mercê exasperou mais a protervia dos colligados, que logo ergueram em uma planicie, cerca dos muros da cidade de Avila, um cadafalso, sobre o qual collocaram uma cadeira, em que assentaram um manequim, figurando D. Henrique de sceptro na mão e corôa na cabeça. Leram muitas queixas contra o rei, e em seguida o arcebispo de Toledo tirou a corôa do boneco; o marquez de Vilhena, o sceptro; o conde de Plasencia, a espada; o mestre de Alcantara, o conde de Benavente e o de Paredes, os restantes ornatos da realeza; e todos arrojaram, a pontapés, do cadafalso abaixo o vulto desataviado!

O infante D. Affonso foi posto por elles no mesmo lugar, todos lhe beijaram a mão, e aclamaram rei de Castella e Leão.

Pobre creança, que não tinha a consciencia de ser n'aquelle acto um mero instrumento da villania dos turbulentos vassallos de seu irmão!

Em outros paizes menos familiarisados com as rebelliões, esta teria abalado profundamente a opinião publica; e, se não fôra a inepcia e covardia{25} de Henrique IV, que era o desespero dos bravos, a parte sensata do reino teria feito estalar a sua indignação contra os conjurados.

Esse apparato theatral de Avila produziu um grande escandalo, sem dar um grande golpe, e logo depois mallogrou-o completamente a recepção enthusiastica, feita á princeza D. Joanna em Saragoça.

Começou o marquez de Vilhena por esta razão a nadar entre duas aguas, mostrando-se desejoso de dar conselhos ao rei; e, como o arcebispo de Toledo lhe lançasse em rosto esse procedimento, fingio-se doente, a ponto de receber o sagrado viatico, nomear aquelle prelado seu testamenteiro, e pedir-lhe, que fosse patrono de seus filhos. Deixou assim de arrogar-se, em seu entender, a responsabilidade de certos actos, e preparou novas alicantinas.

O irrequieto arcebispo foi pôr cerco a Simancas; mas do alto das muralhas da velha cidade os sitiados escarneceram-n'o, chamando-lhe D. Opas;—o que significava compara-lo com o typo mais repugnante dos homens conhecidos por traidores.

Outros grandes de Castella, embora pouco satisfeitos com a marcha dos negocios do Estado, acudiram ao serviço do rei, por comprehenderem que se ventilava um processo de honra publica; todavia não pudéram evitar, que Henrique IV caisse na fraqueza de tratar com os sublevados uma suspensão de armas por cinco mezes, dando{26} azo a despedir-se das duas parcialidades gente, que foi infestar as povoações, a ponto de provocar a fundação das Hermandades, para perseguir os malfeitores.

Os povos passavam de um partido ao outro, com uma volubilidade sómente comparavel á dos magnates. Tudo era confusão no meio da cafila de potentados, cobiçosos de dar leis, e pouco amigos de sujeitar-se a ellas.

O arcebispo de Sevilha e o marquez de Vilhena offereceram ao rei os seus serviços, se elle consentisse, em que a infanta D. Isabel, sua irmã, casasse com D. Pedro Giron, irmão do marquez. Com a filha de Vilhena, D. Beatriz Pacheco, estava ajustado o casamento do principe D. Fernando, filho do rei de Aragão, que estimava esse enlace, o qual se não realizou por se oppôr tenazmente o almirante de Castella, avô materno do principe.

A infanta D. Isabel começou a seguir os rebeldes por toda a parte, sem fazer esforço algum de voltar para onde estava seu legitimo rei.

O legado pontificio fulminou sentença de excommunhão contra os nobres e senhores, que não prestassem desde logo obediencia á auctoridade real, deixando de impedir, seu livre e expedito exercicio; mas o arcebispo de Toledo, principal caudilho dos sediciosos, rio-se com elles do interdicto, dizendo, que appellariam para um concilio. E mandaram logo a Paulo II uma embaixada,{27} participando-lhe, que tinham acclamado o infante D. Affonso rei de Castella e de Leão. O papa respondeo, que em vez de attrairem as bençãos do Céo sobre o infante, chamavam sobre elle os castigos eternos e a morte; e que com o seu exemplo a liga provocava todas as classes á desobediencia.

D. Affonso falleceo de repente, na tenra edade de quinze annos, e os conjurados offereceram a coroa á infanta D. Isabel, que a não aceitou, por não poder intitular-se rainha, em quanto seu irmão D. Henrique vivesse... Entretanto, porém, desejava ser jurada herdeira do throno, em competencia com D. Joanna, a quem chamou supposta filha do monarcha.

Annuio D. Henrique a effectuar-se esse juramento, com a condição de sua irmã não casar sem elle o consentir. Sacrificou d'este modo a propria honra e a da rainha, sua mulher, sendo injustamente postergados os interesses da innocente infanta, sua filha.

Do juramento anteriormente feito a D. Joanna, foi absolvido o reino pelo legado pontificio, o qual não attendeo os protestos da rainha contra tudo quanto se accordou em opposição aos direitos de sua filha, porque havia recebido o encargo de apaziguar dois litigantes, e, sendo-lhe impossivel desatar um nó, julgou mais prudente corta-lo.

Agora todo o ardor dos turbulentos se concentrou na escolha de marido para D. Isabel.{28}

O almirante de Castella queria, que a infanta se desposasse com o seu neto D. Fernando, para ter em Aragão um auxiliar poderoso; o marquez de Vilhena oppunha-se, não para obstar á união das duas corôas, senão para olhar pelo engrandecimento da propria casa, pois lhe haviam proposto antes o enlace d'aquelle principe com uma filha sua. De sorte que, ainda mal apagadas umas discordias, surgiam logo outras.

Era esta a politica dos magnates rebeldes. Convinha-lhes ter sempre a corôa sob a sua influencia, por isso eternisavam as parcialidades, buscavam em tudo elementos de perturbação, e a auctoridade real era incessantemente um joguete em suas mãos.

Podésse muito embóra a pusilanimidade de Henrique IV, ou a sua falta de previsão e dignidade no poder, fomentar o germen das sedições; nada d'isso, porém, as justificava: serviram unicamente de deixar na historia de um povo illustre uma pagina indecorosa.

O casamento de Fernando com Isabel foi para o pae d'esse principe uma nova campanha, que tratava de vencer, comprando a pêso de ouro os grandes de Castella.

Entretanto Henrique IV partia com o marquez de Vilhena para Andaluzia, afim de receber umas cidades, que se administravam por seu proprio arbitrio; e depois de ter feito jurar solemnemente a sua irmã, que não casaria, fosse com quem fosse,{29} antes de elle regressar. A infanta, porém, aconselhada pelo arcebispo de Toledo, protestou secreta e intimamente, que faria o que bem lhe parecesse; e logo escreveo ao rei de Aragão, dizendo-lhe, que consentia em unir-se a seu filho, mediante certas condições, que seriam propostas pelos emissarios, de quem ella encarregára a negociação. Mui vexatorias para o decoro do reino e do principe as consideravam os conselheiros do soberano aragonez; com tudo o matrimonio realisou-se. Correo logo que não estava valido, por se ter celebrado sem a dispensa pontificia, tão reclamada pelo proximo parentesco dos conjuges; mas como não havia escrupulos, nem difficuldades para o arcebispo de Toledo, este não hesitou em faltar á verdade, affirmando, que a curia romana lhe enviára muito a tempo o breve indispensavel.

Quando Henrique IV recolheo a Madrid, recebeu dos sublevados uma exposição, na qual lhe participavam o consorcio da infanta, e as condições, em que se effectuára; sem deixarem, para maior ludibrio, de solicitar o perdão do seu rei, por haverem, sem seu beneplacito, preparado e conseguido tão auspiciosa união. Ao mesmo tempo Isabel dirigio a seu irmão uma carta affectuosissima, em que lhe communicava a sua mudança de estado.

Era o cumulo da insubordinação e da impudencia!

O desforço de Henrique IV consistio em reunir{30} um simulacro de côrtes no valle de Lozoya, onde, perante a rainha e sua filha, fez declarar solemnemente, que era irrito e nullo o acto de se haver jurado em Toros de Guisando, a infanta D. Isabel por herdeira do throno, em virtude de concessão feita por elle monarcha, pois lhe fôra esta arrancada á força, e offendia os direitos de sua legitima filha. Assistiram a essa assembleia alguns delegados de Luiz XI, que celebraram por procuração o casamento de D. Joanna com o irmão d'aquelle soberano. As cidades, que se prezavam de leaes, sendo Sevilha uma das primeiras, deram a tudo seu assentimento; mas o noivo da princeza não chegou a cumprir a palavra, que por meio de poderes especiaes havia empenhado.

Por conselho do marquez de Vilhena, Henrique IV voltou-se para D. Affonso V, a quem propôz o casamento com D. Joanna, a qual levaria em dote os reinos de Leão e Castella; porém, o monarcha portuguez, mais receoso dos artificios de Vilhena do que das difficuldades do assumpto, deo largas ao negocio, e Henrique IV entretanto tentou ainda procurar para genro o infante D. Henrique de Aragão, filho de outro, que, cincoenta annos antes, havia sido o primeiro perturbador de Castella.

Começou o anno de 1474.

Henrique IV estava em Segovia, e o alcaide d'esta cidade, Andrés de Cabrera, teve artes de fazer, com que o soberano se avistasse no alcaçar{31} com a infanta D. Isabel. O rei, por sua natural bonhomia, recebeo a irmã, que não solicitou, nem esperou permissão para apresentar-lhe o marido. Era D. Isabel, na phrase de um legado de Sixto IV, sobradamente animosa e discreta, para deixar de conseguir o que desejasse, por isso não tratou de desculpar-se, senão de commover o irmão a ponto de lograr induzi-lo, a que no dia de Reis lhe désse e ao marido uma prova publica de affecto, indo á missa com elles, e voltando com grande comitiva ao alcaçar. Aqui tinha o alcaide farto e delicado almoço. O rei comeo com sua irmã e cunhado, e ao cair da tarde sentio-se tão mal, que foi mister leva-lo em braços para o palacio. Em quanto esteve de cama não cessaram as deligencias, para que declarasse sua irmã por herdeira do throno. Negou-se a isso constantemente. O marquez de Vilhena advogava a causa de D. Joanna, o arcebispo de Toledo a de D. Isabel; e ao passo que esta infanta se mostrava tranquilla e disposta a sustentar a todo o transe suas pretensões á successão, D. Fernando pelo contrario, não parava em parte alguma, como quem sentia na consciencia um pêso, de que não podia alliviar-se.

Depois do almoço de Segovia, Henrique IV nunca mais gozou saude, até que falleceo em 12 de dezembro do anno a que nos estamos referindo. Dois mezes antes tinha morrido o marquez de Vilhena, a quem succedeo seu filho D. Diogo,{32} que assistio com o cardeal Mendoza, o conde de Benavente e o prior de S. Jeronymo, fr. João de Macuelo, aos ultimos momentos do rei em Madrid.

Apenas o prior confessou e ministrou a Sagrada Eucharistia ao monarcha moribundo, perguntou a este o cardeal:

—V. A. deixa testamento?

—Deixo—respondeo Henrique IV.—O meu secretario Juan de Oviedo o apresentará.

—E quem são os vossos testamenteiros?—continuou o cardeal.

—Á excepção do prior de S. Jeronymo, ficam nomeados os presentes e o conde de Plasencia.

—E a quem deixa V. A. por herdeira do throno?—insistio ainda Mendoza.

—A minha filha D. Joanna—replicou o monarcha serena e firmemente.

Seria grave offensa á memoria de Henrique IV suppôr, que na hora tremenda, em que elle se preparava, conforme a sua fé, para dar conta das suas fraquezas ao Omnipotente, saisse de seus labios uma mentira!

Ainda quentes os restos do mallogrado monarcha, D. Isabel fez-se acclamar, em Segovia, rainha de Castella e Leão, mandando celebrar um solemne Te-Deum, como se acabasse de alcançar o maior triumpho. Seguidamente foi áquelle mesmo alcaçar, onde havia entrado mezes antes em companhia de seu esposo e do rei defunto, sentou-se{33} junto d'aquella mesa, em volta da qual os tres almoçaram, e prezenteou o alcaide Andrés de Cabrera com o mesmo copo de ouro, de que se servira D. Henrique.

Parece um sarcasmo!

Em geral os historiadores e chronistas hespanhoes defendem e exalçam a successão de Isabel a Catholica, servindo-se, para combater a legitimidade e o direito da princeza Joanna, dos mesmos pretextos, de que lançaram mão os rebeldes.

Não é d'este modo, que deve comprehender-se a missão da historia.

Póde o historiador alardear a sua erudição e os seus talentos; se o seu criterio, porém, não fôr imparcial e desapaixonado, sacrificará a verdade, que é a alma, a belleza da historia, e a honra suprema, de quem a escreve.

O facto de ter D. Fernando o Catholico, depois de viuvo, pretendido desposar-se com a princeza D. Joanna, por si só bastaria, para lavar a nodoa, com que macularam a reputação da mulher de D. Henrique.

Mas a tumida onda sediciosa não envolveu unicamente os povos de Castella; saltou a fronteira portugueza, e arrastou na resaca o nosso D. Affonso V, que no conceito de Camões,

Fôra por certo invicto cavalleiro, Se não quizera ir ver a terra Iberica.

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Litres'teki yayın tarihi:
16 ocak 2025
Hacim:
200 s. 1 illüstrasyon
ISBN:
4064066410797
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