Kitabı oku: «O Assassino de Macario: Comedia em tres actos»

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Camilo Castelo Branco

O Assassino de Macario: Comedia em tres actos


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066408428

Índice de conteúdo

ACTO PRIMEIRO

SCENA I

Barnabé, (só)

SCENA II

Sebastiana e Barnabé

SCENA III

Os mesmos e Itelvina (Abre-se com estrondo a porta do fundo. Itelvina entra afogueada e passeia muito colerica.)

SCENA IV

Barnabé, Itelvina, e depois Sebastiana

SCENA VI

Sebastiana e Liborio

SCENA VII

Liborio

SCENA VIII

Liborio, Itelvina (entrando pela direita)

SCENA IX

Barnabé e Liborio

SCENA X

Os mesmos e Itelvina, que vinha entrando pela direita, e, ao ouvir a ultima phrase, se esconde .

SCENA XI

Itelvina

SCENA XII

Liborio, Barnabé, Itelvina

SCENA XIII

Os mesmos e Sebastiana

FIM DO 1.º ACTO

ACTO SEGUNDO

SCENA I

Itelvina, (só) Liborio, (no leito meio occulto)

SCENA II

Liborio

SCENA III

Sebastiana, Liborio, Barnabé

SCENA IV

Os mesmos e Itelvina

SCENA V

Itelvina, Sebastiana e Liborio

SCENA VI

Itelvina e Liborio

SCENA VII

Os mesmos e Sebastiana

SCENA VIII

Itelvina

SCENA IX

Itelvina e Sebastiana

SCENA X

As mesmas e Liborio

SCENA XI

Liborio e Itelvina (Durante estas ultimas fallas, Itelvina desce serenamente da cadeira, depois desce do leito, e ahi fica fria e impassivel) .

SCENA XII

Liborio

SCENA XIII

Liborio e Barnabé

SCENA XIV

Os mesmos e Itelvina (Itelvina entrando agitadamente pela direita; está em toilette de quem vae a passeio) .

SCENA XV

Barnabé e Itelvina

SCENA XVI

Os mesmos e Liborio

FIM DO ACTO SEGUNDO

ACTO TERCEIRO

SCENA I

Liborio e Barnabé (ao levantar do pano, Barnabé está sentado no colchão, e Liborio, á direita sobre uma cadeira de braços, cahida. Depois de instantes de silencio, Liborio levanta-se e vae á janella) .

SCENA II

Os mesmos e Itelvina (Abre-se a porta do fundo precipitadamente. Itelvina entra muito agitada, fita o pae e o marido, tira o chaile e o chapeu que atira sobre a cama; depois, desce, torna a fitar o marido e o pae, e diz a Barnabé)

SCENA III

Liborio e Itelvina (Itelvina está momentos sem fallar, olhando para o marido que a não encara; depois faz um gesto de impaciencia e diz:)

SCENA IV

Itelvina (fechada) e Barnabé

SCENA V

Sebastiana e Itelvina (Sebastiana entra pela direita, trazendo pratos, talheres, pães e guardanapos)

SCENA VI

Os mesmos e Barnabé

SCENA VII

Barnabé e Liborio

SCENA VIII

Liborio e Itelvina

SCENA IX

Os mesmos e Sebastiana

SCENA X

SCENA XI

Itelvina e Liborio

SCENA XII

Os mesmos e Sebastiana

SCENA XIII

Liborio, Itelvina, Barnabé e Sebastiana

FIM

ACTO PRIMEIRO

Índice de conteúdo

Sala elegante. Porta ao fundo. Portas lateraes no segundo plano. Janella á esquerda, no terceiro plano. Piano encostado á parede direita, no primeiro plano. Canapé á esquerda. Dois contadores pequenos á esquerda e direita. Sophás, cadeiras, e tamborete de piano. Sobre o contador da esquerda utensilios de barbear e espelho. No outro um relogio.

SCENA I

Índice de conteúdo

Barnabé, (só)

Índice de conteúdo

(Entra pela esquerda, trajo da manhan, traz na mão uma chocolateira e toalha. Chama:) Sebastiana!... Isto é que foi dormir alarvemente! (Olhando para o relogio) Já dez horas... e eu sem fazer a barba! (chamando) Sebastiana! Esta creada é uma calaceira!... Não ha d'outras... Tive um sonho... Isto de sonhos é uma tolice... Sonhei que estava pescando á cana... n'uma cazinha campestre, com transparentes verdes... e um repucho!... Ah! o meu sonho d'oiro!... Logo que eu cazar a filha... Um repuxo... (chamando) Sebastiana! Com effeito! (Vai á porta do fundo) Sebastiana! Sebas...

SCENA II

Índice de conteúdo

Sebastiana e Barnabé

Índice de conteúdo

SEBASTIANA

(entrando pelo fundo) Aqui estou, senhor!

BARNABÉ

Não me tinhas ouvido?

SEBASTIANA

Perfeitamente. O senhor chamou-me quatro vezes.

BARNABÉ

Então porque não vieste logo?

SEBASTIANA

Estava a almoçar. Acho que o senhor não pretende que os creados não comam.

BARNABÉ

Não...

SEBASTIANA

Além d'isso, eu sei que o senhor é pachorrento, um paz d'alma...

BARNABÉ

Abusas um pouco do meu temperamento.

SEBASTIANA

Está enganado... eu pelo senhor era capaz de me atirar ao lume...

BARNABÉ

Pois bem, vai atirar ao lume esta chocolateira... Quero barbear-me. (Dá-lh'a)

SEBASTIANA

Dentro de 15 minutos aqui estou. (Vai sahir).

BARNABÉ

(chamando) Olha, Sebastiana...

SEBASTIANA

(tornando) Não me mande fazer duas coisas ao mesmo tempo que me atrapalha, ouviu?

BARNABÉ

(á parte) É uma creada como se quer! Boa bisca... (alto) Olha lá... Noto que vae na caza um socêgo extraordinario! Minha filha estará doente?

SEBASTIANA

Não senhor; sahiu de manhan cedo.

BARNABÉ

Ah! é isso? (Senta-se no canapé).

SEBASTIANA

E, na verdade, a menina faz um estardalhaço! credo!... E é de pasmar como o snr., tão manso, tão socegado, fez uma filha tão...

BARNABÉ

Tão estapafurdia, pódes dizer...

SEBASTIANA

É isso, estapafurdia... é uma trovoada... credo!

BARNABÉ

Tu que queres?... A natureza tem desconcertos... Olha, Sebastiana, eu nem sempre vivi dos meus rendimentos.

SEBASTIANA

Pois sim, sim...

BARNABÉ

Tive uma fabrica de ligas em Fradellos.

SEBASTIANA

De ligas? ora vejam...

BARNABÉ

Fazia pouco negocio... Resolvi ir para o Mexico, por que n'um paiz, n'um paiz quente, bem percebes, mostra-se mais a barriga das pernas... Fundei o meu estabelecimento no Mexico, e grangeei logo toda a freguezia das boas pernas do paiz... com sáias curtas.

SEBASTIANA

Olha que pechincha!...

BARNABÉ

Vais vêr... um par das taes pernas... duas buxas fizeram-me uma impressão profunda... Todas as profissoens tem os seus perigos... Esposei...

SEBASTIANA

As taes buxas?

BARNABÉ

Sim... Ella chamava-se Dolores. Sete mezes depois, tinha uma filha...

SEBASTIANA

Sete mezes só? ora essa!...

BARNABÉ

No Mexico a vegetação cresce muito depressa, é o que é; e isso mesmo te explica o genio impaciente da minha Itelvina... Ella não quiz esperar que se completassem os nove mezes... sahiu...

SEBASTIANA

Não admira, não...

BARNABÉ

E aqui tens tu, Sebastiana, como eu, um portuguez de lei, sou pae d'uma mexicana...

SEBASTIANA

Agora é que eu percebo a differença dos dois genios.

BARNABÉ

O ceo do Mexico! Os costumes d'esse clima de fogo! Minha filha tem nas veias o meu sangue; mas... mais quente... ferve-lhe mais... em fim, tem uma temperatura mais alta...

SEBASTIANA

Acho que sim... intendo.

BARNABÉ

Ha-de haver um anno que passei o negocio e vim para a patria... Estava rico... primeira felicidade; estava viuvo, segunda feli... Emfim, como não nos davamos bem... segunda felicidade, está dito.

SEBASTIANA

Então não se davam bem...

BARNABÉ

Quero dizer... a senhora Barnabé... era muito fogosa... muito atiradiça... e chamava-me... maricas.

SEBASTIANA

Credo!

BARNABÉ

Em fim ella tinha desculpa... Eu bem me conheço... Mesmo hoje, com minha filha, sou uma lesma, um fracalhão... Ahi está ella a querer casar com o valdevinos do Macario.

SEBASTIANA

Mas não basta querer ella.

BARNABÉ

Assim é; mas ella quer á fina força e eu não quero; a final, quem hade vencer é ella, que é a forte, e casará! São favas contadas. Era o mesmo com minha mulher. Dizia-lhe eu «quero»; respondia-me ella «não quero», e eu... moita... nem palavra.

SEBASTIANA

Então estavam sempre de harmonia?

BARNABÉ

Está claro. (Rumor fóra)

SEBASTIANA

(indo á janella) Que será isto?

BARNABÉ

Algum choque do americano com o Rippert.

SEBASTIANA

Nada, parece desordem... Tanta gente defronte da porta...

BARNABÉ

Da nossa?

SEBASTIANA

Sim, snr. Quer que eu vá saber o que é?

BARNABÉ

Não... que me importa a mim?... Olha se me aqueces a agua... anda.

SCENA III

Índice de conteúdo

Os mesmos e Itelvina (Abre-se com estrondo a porta do fundo. Itelvina entra afogueada e passeia muito colerica.)

Índice de conteúdo

BARNABÉ

Ólá!... és tu?

ITELVINA

Sim, sou eu. Bom dia.

BARNABÉ

Tu que tens?

ITELVINA

Estou furiosa! (Passa para a direita.)

BARNABÉ

D'onde vens?

ITELVINA

De pregar uma bofetada n'um sujeito.

BARNABÉ

Fizeste isso?

ITELVINA

N'um atrevido...

BARNABÉ

Talvez imaginasses...

ITELVINA

Qual imaginasse! um grosseirão que ousou dizer-me cara a cara: «a menina é encantadora.»

BARNABÉ

E bateste-lhe por isso? Que farias tu se elle te chamasse estafermo?

ITELVINA

O seu sangue frio, meu pae, quando sou insultada! Castiguei-o, e espero que a scena se não repita.

BARNABÉ

De te chamar encantadora?... Tambem me parece que o homem deve ter modificado a sua opinião a teu respeito... (A Sebastiana) Que fazes tu ahi? a minha agua quente?

SEBASTIANA

Lá vou já, snr. Barnabé. (Á parte) Muito atolambada é esta menina! (Sahe pelo fundo).

SCENA IV

Índice de conteúdo

Barnabé, Itelvina, e depois Sebastiana

Índice de conteúdo

ITELVINA

(depondo o chapeu e o chaile, vae sentar-se ao piano e canta) Trai la ri, trai la ri, trai la ró.

BARNABÉ

Isso é um bota a baixo! Agora é o piano que leva a sua conta...

ITELVINA (Cantando)

«Na primavera da vida

Ambos e dois muito amigos

Suspiravam por um ninho,

Por um ninho entre os trigos.»

BARNABÉ

Que é isso que tu cantas?

ITELVINA

Uma cançoneta moderna, que se chama: Um ninho entre os trigos. (Canta):

E de braço dado juntos

Ao repontar da manhan

Iam fazer o seu ninho

Nos trigos de Campanhan.

BARNABÉ

É mais natural que fôsse nas arvores... Os passaros em geral preferem...

ITELVINA

Mas não se trata de passaros. (Canta):

E depois elle cantava

Pousado nos ramos novos,

E ella aquecia, cantando

No seu ninho os caros ovos.

BARNABÉ

Ah! então não é de passaros que se trata? Lá me parecia que dois passaros de braço dado por Campanhan...

ITELVINA

É uma menina e um rapaz.

BARNABÉ

(pegando na cançoneta com arremesso). Basta! Deixa vêr. (Lê alto as tres quadras que ella cantou). E chama a isto um ninho o tratante do cançoneteiro! Quem diabo fez esta coisa?

ITELVINA

Foi um poeta inspirado. Dê-me cá a muzica, ande!

BARNABÉ

Empresto-t'a para a estudares, de tarde, quando eu estiver a dormir a sésta... (Á parte). Mandem lá ensinar piano ás raparigas n'uma terra em que os poetas inspirados dizem ás meninas que se fazem ninhos nos trigos de Campanhan!... e que se aquecem os ovos... O Porto está peor que o Mexico a respeito de ovos e de ninhos...

SEBASTIANA

(entrando pelo fundo). Ainda havia agua quente. Ella aqui está (Dá-lhe a chocolateira).

BARNABÉ

Bem, vou para o meu quarto (Mudando de ideia). Mas, se estiveres quieta... Um pae póde escanhoar-se na presença da filha (Arranja os utensilios, e remeche o pincel na vasilha do sabonete).

ITELVINA

(a Sebastiana) Veio carta para mim?... de Braga?

SEBASTIANA

Não, minha senhora, o carteiro passou ha muito. (Sahe pela porta do fundo)

ITELVINA

(comsigo mesma) É espantoso! Ha trez dias que Macario foi para Braga, e nada de noticias! Se eu não tivesse inteira confiança no seu amor... Talvez uma catastrophe! Acontecem tantas desgraças nos caminhos de ferro!... (Vae agitadamente para o pae que lhe voltou as costas e se está barbeando) Meu pae! (com intimativa)

BARNABÉ

Que é? cuidado, que por pouco me não cortei... Que temos?

ITELVINA

Acha isto natural?

BARNABÉ

Natural, o quê?

ITELVINA

Trez dias de auzencia sem me escrever?

BARNABÉ

Ah! sim, o Macario? (Á parte) Bem me importa a mim isso... (alto) Se elle foi buscar os papeis a Braga, é preciso dar-lhe tempo. (Torna a escanhoar-se)

ITELVINA

(passeando) Dar-lhe tempo, dar-lhe tempo! Eu não exijo que elle volte; mas que me escreva; não se está assim trez dias... a fazer o quê?... que difficuldades encontrou?

BARNABÉ

Não andes assim n'esse passo que me incommodas. Fazes tremer o sobrado.

ITELVINA

O pae não sabe o que é amor!

BARNABÉ

Soube-o primeiro que tu, e dou-te a minha palavra que depois que a gente sabe o que isso é, e pensa a sangue frio... não vale um caracol o amor... Tu o saberás...

ITELVINA

Ha tres mezes que conheço Macario, e a toda a hora maldigo as formalidades portuguezas, e pergunto de que servem para a gente se casar, papeis, banhos, tabellião, padre, sacristão...

BARNABÉ

Ha pessoas que dispensam tudo isso... mas (com energia) fazem mal... fazem muito mal... Sem tabellião, e banhos, e padre e sacristão não ha honra.

ITELVINA

Finalmente, logo que Macario chegar com os papeis, não haverá impedimentos...

BARNABÉ

Isso lá de impedimentos... veremos.

ITELVINA

(derrubando uma cadeira, e indo direita ao pae) Haverá alguns? diga...

BARNABÉ

(cortando-se) Cá está um... vês tu?

ITELVINA

Um impedimento?

BARNABÉ

Um golpe de navalha... estou acutilado!

ITELVINA

(estancando-lhe o sangue com o lenço) Deixe vêr... Isto não é nada.

BARNABÉ

Arde-me... e bastante...

ITELVINA

Vae passar.

BARNABÉ

Falla-me, se queres, mas lá de longe... Eu só de longe é que ouço bem.

ITELVINA

(afastando-se e levantando a cadeira) Faço-lhe a vontade; mas o pae fallou de um impedimento... desejo conhecêl-o.

BARNABÉ

É o meu consentimento.

ITELVINA

O seu consentimento?

BARNABÉ

Está claro; tu não pódes casar sem eu consentir... A lei é positiva.

ITELVINA

Que arrelia! Isso quer dizer que, se o pae não ama Macario, tambem eu não posso amál-o...

BARNABÉ

Lá tu amál-o pódes... mas não basta...

ITELVINA

Não posso casar com elle, se o pae o não amar?...

BARNABÉ

Não.

ITELVINA

As leis portuguezas dizem isso? Existem absurdos taes n'um povo livre?

BARNABÉ

(limpando a navalha e pondo-a sobre o contador) Tal e qual, minha filha. Ora agora, quanto a Macario...

ITELVINA

(passando para a esquerda) Meu pae, eu amo Macario!

BARNABÉ

Elle não tem chêta.

ITELVINA

Amo Macario!

BARNABÉ

Passa a vida nos bilhares e nas cervejarias.

ITELVINA

Mas eu amo-o.

BARNABÉ

Serás desgraçada com elle.

ITELVINA

Acabemos com isto. Amo Macario!

BARNABÉ

«Amo Macario, amo Macario!» Estás-me cantando o 1.º acto da Favorita. «Eu o amo, eu o amo!»

ITELVINA

Dá ou não dá o consentimento?

BARNABÉ

Não.

ITELVINA

Não? (Pega da navalha) O pae é implacavel, hein?

BARNABÉ

Que é o que ella tem na mão? Ceus! a minha navalha!

ITELVINA

(caminhando e brandindo a navalha e o pae a seguil-a) Trato de me evadir ás leis infames d'este paiz. Suicido-me.

BARNABÉ

Larga a navalha.

ITELVINA

Ultima vez: consente?

BARNABÉ

Consinto: casa com elle.

ITELVINA

(largando a navalha e abraçando-o) Obrigada, meu pae, obrigada!

BARNABÉ

Agora, asfixias-me... (Passa para a direita, levanta a navalha e colloca-a sobre o contador) Cruzes!

ITELVINA

Mas o silencio d'elle assusta-me, meu pae! Trez dias sem noticias! Vou escrever a Macario; e, se me não responder, amanhan parto para Braga. Se lhe tivesse acontecido algum revez! (A Sebastiana, que entra pelo fundo) Sebastiana, não estou em casa para ninguem, absolutamente para ninguem (Entra pela direita)

BARNABÉ

Sou o pae d'esta pombinha... É um anjo... Se eu me vejo livre d'esta ardente creatura do Mexico... Sebastiana, dá-me o casaco e o chapéo.

SEBASTIANA

Sim, senhor. (Sahe pela esquerda)

BARNABÉ

(só) Deixál-a casar com o Macario! O que eu quero, sobre tudo, é paz e socego... O casamento favorece os meus projectos... Fallaram-me d'uma quinta que se vende em S. Mamede de Infesta. O dono mora perto d'aqui; vou tratar com elle; e, se não fôr muito cara, o meu sonho d'esta noite realisa-se... O repuxo! Ah! o repuxo!

SEBASTIANA

(entrando com o casaco e o chapeo) Aqui estão as coisas.

BARNABÉ

(despindo o rob-de-chambre) Obrigado... Ajuda-me... (Vestindo-se) Irei viver sosinho em paz e socego.

SEBASTIANA

O senhor vem jantar?

BARNABÉ

Sim, mas ha de ser tarde. (Sahe pelo fundo repetindo) Em paz e socego...

SEBASTIANA

(só) Muito bom sujeito! (arruma); mas a filha... Ah! tenho pena do tal Macario, se casar com ella! Credo! se eu fôsse homem, e topasse uma creatura assim... ó senhores!... Emfim, isto de homens gostam assim das mulheres que puxem por elles... Mas esta ida a Braga... Quem sabe se o tal Macario... an, an... (Toque fóra) Quem sabe se é elle? (Liborio entra pelo fundo)

SCENA VI

Índice de conteúdo

Sebastiana e Liborio

Índice de conteúdo

SEBASTIANA

Ai! não é elle!

LIBORIO

Não é elle: sou eu.

SEBASTIANA

O senhor que quer?

LIBORIO

A snr.ª D. Itelvina Barnabé, uma mexicana de raça portugueza...

SEBASTIANA

É aqui; mas...

LIBORIO

Ella sahiu? É o que eu quero. (Assenta-se, e apresenta um aspecto risonho) Vou-me ensaiar.

SEBASTIANA

Mas a senhora está em casa.

LIBORIO

(erguendo-se de impeto, e tornando-se grave) Recôlho o meu sorriso; n'esse caso vae dizer a tua ama...

SEBASTIANA

A senhora está a escrever, e prohibiu-me de a interromper.

LIBORIO

(tornando-se a sentar risonho) Muito bem... vou-me ensaiar.

SEBASTIANA

(á parte) A fallar a verdade, a menina é tão exquisita que, se eu a não aviso, é capaz de se escamar. (alto) O senhor como se chama?

LIBORIO

Como me chamo?

SEBASTIANA

Sim... vou avisar a senhora. Quem direi que a procura?

LIBORIO

Annuncia-lhe... um desgraçado! (passa para a esquerda).

SEBASTIANA

Um desgraçado?!

LIBORIO

Não... (á parte) Seria parlapatice de mais...

SEBASTIANA

Então que decide?

LIBORIO

A tua ama é nervosa?

SEBASTIANA

O senhor que diz? olha que pergunta!

LIBORIO

Deve ser nervosa... Olha bem para mim... Vês esta cara melancolica? vês? pois vae dizer á menina Itelvina que está aqui um sujeito com cara de quem chorou...

SEBASTIANA

Como? o senhor quer que eu diga...

LIBORIO

Não, outra coisa... espera...

SEBASTIANA

O senhor não pense que eu vou agora incommodar a menina para lhe fazer o seu retrato.

LIBORIO

Tens rasão; não a incommodes... Esperarei... convem-me esperar...

SEBASTIANA

(á parte) Tem grande têlha o homem!

LIBORIO

Como te chamas?

SEBASTIANA

Para que o quer saber?

LIBORIO

Para quê? É para não estar a chamar-te creada; mas, tens rasão... Que me importa a mim? Eu queria chamar-te Mariquinhas ou Theresinha... Que lindos olhos tu tens, e que cinta!... (Cinge-a pela cintura).

SEBASTIANA

Está bonita a chalaça!... foi para isto que veio cá?

LIBORIO

Não. Tu me impões o cumprimento de um dever. Obrigado, rapariga, obrigado!

SEBASTIANA

(á parte) Elle é doido; mas aparelha bem com a minha ama... Cá se avenham, que eu vou para a cosinha. (Sahe pelo fundo, levando o rob-de-chambre de Barnabé, e os utensilios de barbear.)

SCENA VII

Índice de conteúdo

Liborio

Índice de conteúdo

(só, arrumando á esquerda o chapeu e a bengala) Eis-me a braços, com a minha missão!... Aquelle diabo do Macario!... Acabou-se... Não ha remedio... Hontem á noite, entrei no café Lisbonense, e estava lá o Macario a apostar ao bilhar. Assim que me avistou, veio direito a mim, e disse-me: «Liborio, és meu amigo?» Eu conhecia-o de ter estado com elle no collegio do Six, onde tinhamos rilhado de parceiros algumas raizes de latinidade. Respondi-lhe: «Sim, sou teu amigo para a vida e para a morte.»--«Para a morte? exclamou elle. É o que eu exijo da tua amizade. Se me amas, vaes matar-me!» E em poucas palavras contou-me os seus amores com uma mexicana a quem promettera casamento. «Esta neta de Montezuma, disse elle, não pega como uma obreia--agarra-se á gente como colla forte: é um betume. Quer por força pregar comigo na egreja. Se eu não cazar com ella, mata-me; e eu prefiro antes morrer ás tuas mãos que ás d'ella.» Fallou-me então d'uma fantastica sahida para Braga, e encarregou-me da missão que venho cumprir... Confésso que não me encarregaria d'isto sem umas certas intençoens... O retrato que elle me fez d'essa Itelvina realisa os meus ideaes. Uma rapariga selvagem é ave rara no Porto!... Uma mulher que tem nas veias sangue dos Incas!... alto lá com ella! Está no meu gosto. Resolvi, por tanto, relacionar-me com a pequena; e, se me agradar, tratarei de lhe dar algum alivio, e passo a emprehender a conquista do Mexico. (Olha para o lado direito) Abre-se uma porta... é talvez a pequena... Agora é que são ellas... Firme!...

SCENA VIII

Índice de conteúdo

Liborio, Itelvina (entrando pela direita)

Índice de conteúdo

ITELVINA

(com uma carta na mão) Está feita a carta... já p'ro correio... (avistando Liborio) Um homem!...

LIBORIO

(cumprimentando) Minha senhora... (á parte) Fatia!... rica natureza!

ITELVINA

O senhor quem procura?

LIBORIO

A snr.ª D. Itelvina Barnabé.

ITELVINA

Sou eu.

LIBORIO

(sorrindo) Minha senhora... (á parte) trabalha-se bem no Mexico... (alto) Venho encarregado de lhe transmittir uma importante noticia...

ITELVINA

Noticia?

LIBORIO

(á parte) Circumspecção...

ITELVINA

Queira dizer (apontando-lhe uma cadeira e sentando-se)

LIBORIO

(pegando de uma cadeira do fundo á esquerda e sentando-se) (á parte) Estou atrapalhado... (alto) Minha senhora, acabo de chegar de Braga.

ITELVINA

(erguendo-se, e elle tambem) De Braga?

LIBORIO

(passando para a direita) (á parte) Parece que o cavaco tem de ser de pé. (Alto)... Venho de Braga, onde estive com Macario...

ITELVINA

O senhor é amigo d'elle?

LIBORIO

Sim... isto é... sim... oh! certamente... amigo intimo...

ITELVINA

(com vehemencia) Por que não está elle aqui ao pé de mim como prometteu e jurou? Por que me não escreve? porque é? diga-me o senhor por que é?

LIBORIO

(á parte) Que bonita ella é zangada!

ITELVINA

O senhor não responde?

LIBORIO

Responderei. (á parte) Circumspecção! (alto) Macario ficou em Braga... e encarregou-me de communicar a V. Exc.ª as rasoens que o prendem lá.

ITELVINA

Mas acabe com isso... vamos direitos á questão... Nada de delongas...

LIBORIO

(á parte) Tambem não é feia na impaciencia!... (alto) Minha senhora, o imprevisto é o machinista da existencia... O acaso arranja uns scenarios, umas tramoias que parecem de peça magica...

ITELVINA

Que mais?

LIBORIO

(á parte) Não vamos logo ás do cabo. (alto) Ah! minha senhora... ser joven, bello, amado de uma mulher... isso não é rasão para impedir que um máu destino... pelo contrario é peor...

ITELVINA

Ó senhor! por piedade! Acabe...

LIBORIO

Macario disse a V. Ex.ª, creio eu, que ia a Braga buscar uns papeis...

ITELVINA

E mentiu-me?

LIBORIO

Quanto ao fim da viagem, mentiu. Ninguem hoje vae a Braga senão por dous motivos.

ITELVINA

Quaes?

LIBORIO

Ou se vae ao Bom Jesus vêr os judeus e comer frigideiras, ou terçar no campo da honra dois floretes, desde que os duelos no Porto, por muito repetidos, têm a policia n'uma constante vigilancia.

ITELVINA

Um duelo!?

LIBORIO

Um conflicto de honra...

ITELVINA

Elle foi bater-se? Ficou ferido?

LIBORIO

Minha senhora...

ITELVINA

Ligeiramente ferido, sim? quasi nada? Oh! diga-me que não é nada!

LIBORIO

Minha senhora... Macario... ah!... não posso... Se V. Ex.ª soubesse...

ITELVINA

Ó ceus!... que foi?...

LIBORIO

(á parte) Chegou o momento.

ITELVINA

Macario?...

LIBORIO

Macario...

ITELVINA

Morto! (Liborio está um momento silencioso; depois, ampara a cabeça com as mãos).

ITELVINA

(expedindo um enorme grito) Ah!

LIBORIO

Minha senhora...

ITELVINA

Morto! assassinado... elle!... ah! (Roda sobre si mesma duas vezes e vae desmaiar no canapé).

LIBORIO

Hein! ella desmaia!... ora esta! Não a julgava capaz d'esta tolice! (vae junto d'ella) Menina... Acho que chamo alguem... Mas que historietas se vão arranjar com este caso!... Menina, peço-lhe que recupere os sentidos... Se eu a despertasse... Mas é preciso bolir-lhe nos colchetes... Não, não me atrevo a fazer tanto... O coração bate-lhe... Estou mais socegado... É gentil!... é mais que gentil, é formosa! Isto é bom a valer!... E aquelle parvo do Macario a desdenhar... Ella está ganhando côres... já lhe tremem as azas do nariz... e pestaneja. Volta á vida... Se eu me safasse agora... (Vae a querer sahir e retrocede) Não: já agora fico, succeda o que succeder.

ITELVINA

Onde estou?

LIBORIO

Menina...

ITELVINA

Quem me falla? quem é o senhor? (encarando-o) ah!

LIBORIO

Por quem é, socegue!

ITELVINA

Esta voz... esta cruel voz...

LIBORIO

Que é?

ITELVINA

Recordo-me... Macario, o meu noivo, a minha alma... ah! ah! ah! (recahe sobre o canapé e chora).

LIBORIO

(á parte) Palavra, que me mordem remorsos.... Se eu previsse... Acabou-se... Vou-lhe dizer tudo... (caminha para ella; mas reconsidera) É demais atormentar assim esta mulher com mentiras... Diabo! como ella chora... (avisinha-se) Minha senhora, então, então...

ITELVINA

(erguendo-se energicamente, limpando as lagrimas, e passando para a direita) Basta de fraqueza! Nada mais de prantos! Um scelerado matou Macario... e eu aqui a carpir-me em vez de o vingar! (Vae a Liborio) O senhor foi testemunha do duelo?

LIBORIO

Sem duvida... isto é... sim... fui testemunha (com dôr) Fiz quanto podia; mas...

ITELVINA

Sabe qual foi a causa do duelo?

LIBORIO

A causa? ora, se sei... pois não sei?... (á parte) Ó diabo!... (alto) pois não heide saber a causa? não sei eu outra coisa...

ITELVINA

Então diga lá qual foi?

LIBORIO

Uma questão de carambolas... A paixão do Macario... bem sabe... é o bilhar... Por causa de uma carambola...

ITELVINA

De uma carambola?

LIBORIO

Sim... o parceiro tinha descolado a bola.

ITELVINA

Está bem... não quero saber d'isso... Logo que o motivo não foi outra mulher, o resto não me importa. Como se chama o adversario?

LIBORIO

O adversario?

ITELVINA

O nome d'elle?

LIBORIO

Então quer que eu lh'o diga...

ITELVINA

O nome do assassino. (Liborio hesita) Vamos!

LIBORIO

Ah! sim o nome do assa... Ora espere... Mas é que eu fui padrinho do Macario... e não conheço o outro...

ITELVINA

Ora essa! um padrinho deve conhecer os dois.

LIBORIO

Tem razão; é natural que m'o dissessem; mas a commoção...

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Türler ve etiketler

Yaş sınırı:
0+
Litres'teki yayın tarihi:
16 ocak 2025
Hacim:
70 s. 1 illüstrasyon
ISBN:
4064066408428
Yayıncı:
Telif hakkı:
Bookwire
İndirme biçimi:

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