Kitabı oku: «O filho inesperado do xeque»

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© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
O filho inesperado do xeque, n.º 1853 - março 2021
Título original: Claimed for the Sheikh’s Shock Son
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
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Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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I.S.B.N.: 978-84-1375-480-2
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Epílogo
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Capítulo 1
– Vai intervir no funeral, Alteza?
As perguntas dos paparazzi começaram ainda antes de o príncipe Khalid de Al-Zahan ter saído do seu carro.
O funeral de Jobe Devereux iria decorrer no dia seguinte e os jornalistas e a televisão tinham-se aglomerado muito perto da sua casa na Quinta Avenida para captarem as imagens de quem chegava para apresentar as condolências. Khalid tinha voado para Nova Iorque desde Al-Zahan e, a pedido da família, fora diretamente do seu avião privado para a casa de Jobe.
Ele iria ao funeral com a barba bem feita, bem penteado e de fato, mas naquela noite, acabado de chegar de um longínquo lugar do deserto, vinha com a barba por fazer e vestido com umas roupas escuras. Khalid era um homem impactante: alto e magro, mas forte. Contudo, apesar do impressionante físico, dirigia-se de um modo elegante e calmo para a casa que tão bem conhecia, sem se dignar a responder a todas aquelas perguntas, já que tinha a mente noutra coisa. Não só acabava de perder um sócio nos negócios, como também uma pessoa que valorizava e respeitava.
– A Chantelle ficará sentada com a família?
– Haverá algum convidado inesperado?
– Alteza, é verdade que o rei de Al-Zahan vai anunciar em breve o seu casamento?
A última pergunta conseguiu perturbá-lo, embora ele tivesse conseguido disfarçar. A pressão que sofria no seu país para que casasse era imensa. Mas o facto de essa mesma pressão se repetir ali, em Nova Iorque, o lugar que ele considerava o seu refúgio, era-lhe insuportável.
A governanta abriu a porta e ao entrar constatou que, ainda antes do funeral, a morte de Jobe tinha já tinha juntado muita gente. Havia grupos espalhados pela casa, em conversas em pé com um copo na mão, quase como se o funeral já tivesse acontecido.
Mas ele não estava ali para conversar, por isso foi conduzido diretamente ao escritório de Jobe.
– Vou dizer ao Ethan que o senhor já chegou – disse a governanta. – Está a falar com o senador.
– Diz-lhe que não há pressa.
– Posso oferecer-lhe algo?
– Estou bem – respondeu ele, mas, quando a governanta já estava para sair da sala, chamou-a. – Barb, lamento muito a tua perda.
A mulher respondeu-lhe com um sorriso triste.
– Obrigada, Khalid.
Era um alívio estar ali, longe das hordas. Não estava com espírito para conversa fiada.
Era curioso que um aposento que pertencia a uma casa que ficava tão longe da sua pudesse conter tantas memórias. O globo terrestre de Jobe sempre exercera nele uma poderosa atração. Já era uma antiguidade quando o comprou e gostava de contemplar os países desaparecidos enquanto a sua ilha, longe do continente, permanecia.
E também ali, naquele mesmo bar caseiro, experimentara álcool pela primeira vez. Naquela mesa tinha sido feito o primeiro desenho do hotel Royal Al-Zahan e agora só faltava um ano para a inauguração.
Um sonho impossível que, porém, nasceu naquele escritório.
Agarrou um pesado pisa-papéis e recordou Jobe, estranhamente desconfortável, a passá-lo de uma mão para a outra quando ele abriu a porta do escritório. Voltou a recordar esse momento:
– Queria ver-me, senhor?
– Quantas vezes tenho de dizer-te que me trates por Jobe? Até os meus próprios filhos o fazem.
Mas ele tratava o seu próprio pai pelo título e tinha de inclinar-se quando este entrava ou saía, por isso era-lhe difícil aceitar a informalidade com que se tratavam uns aos outros na casa Devereux.
– Senta-te, filho.
Aceitou o convite, embora até tivesse preferido ficar em pé. Estava convencido de que iria receber uma reprimenda. Tinha dezasseis anos, estava há quase um em Nova Iorque, e ele e Ethan tinham descoberto como arranjar bilhetes de identidade falsos de adultos. E as raparigas.
– Não há um modo fácil de dizer-te isto – começou Jobe por dizer, depois de limpar a garganta. – Khalid, tens de ligar já para tua casa.
– Passa-se alguma coisa com os gémeos?
A sua mãe estava quase a dar à luz.
– Não. A tua mãe deu à luz esta manhã, mas houve complicações. Não conseguiram salvá-la, Khalid. Lamento muito ter de dizer-te isto, mas a tua mãe morreu.
Foi como se todo o oxigénio tivesse desaparecido da sala. E ele, apesar de esforçar-se para não o mostrar, sentiu que não conseguia respirar. Não podia ser. A sua mãe era uma mulher tão viva que, ao contrário do seu pai, estava sempre a rir e amava a vida… A rainha Dalila era a razão pela qual ele estava em Nova Iorque.
– Liga para casa – repetiu Jobe. – Diz ao teu pai que podemos ir agora mesmo ao aeroporto e que eu te acompanharei até Al-Zahan.
– Não – respondeu ele. Jobe não percebia que ele teria de chegar a bordo do avião real. – Mas obrigado pela oferta.
– Khalid – Jobe suspirou, exasperado, – permite-te sofrer.
– Com todo o respeito, senhor, sei bem o que me é permitido. Vou ligar ao rei agora mesmo.
Khalid esperava que ele o deixasse sozinho, mas, em vez disso, Jobe fez algo que nunca teria esperado: apoiou os cotovelos na mesa de mogno e escondeu a cara entre as mãos. Porque tinha sido duro para ele ter de dar-lhe a notícia e sentia a morte da sua mãe e a dor que ia sofrer Hussain, o seu irmão de dois anos, e os gémeos recém-nascidos.
Então, ouviu a voz do seu pai.
– Alab – disse, chamando-lhe pai. Um erro.
– Antes de ser teu pai, sou teu rei – recordou-lhe. – Nunca o esqueças, nem sequer por um instante, e sobretudo nos tempos difíceis.
– É verdade? A mãe morreu?
O rei confirmou-lhe a notícia, mas também lhe disse que encontrava consolo no facto de se ter salvo outro herdeiro.
– Celebramos esta manhã ter vindo ao mundo outro herdeiro ao trono de Al-Zahan.
– Ela teve um menino e uma menina?
– Exato.
– Chegou a vê-los? Pôde tê-los nos seus braços? Ela sabia o que tinha tido?
– Khalid, que tipo de pergunta é essa? Eu não estava com ela.
Que nem sequer se tivesse dado ao trabalho de averiguar aquilo deprimiu-o. E um estremecimento de agonia soltou-se dos seus lábios.
– Não vais chorar – avisou-o o pai. – És um príncipe, não uma princesa. As pessoas precisam de ver força, e não de verem o seu futuro rei a portar-se como se fosse um camponês que geme e chora.
Jobe aproximou-se dele e pôs uma mão no seu ombro. Desconhecia o que se estava a dizer, já que a conversa era em árabe, mas a sua mão continuou ali pousada já depois do telefonema ter terminado.
– Lamento, filho. Mas vais superá-lo. O Abe e o Ethan também perderam a mãe.
– Mas eles tinham-no a si.
– Tu também me tens, Khalid.
E ali, naquele escritório, chorou pela sua mãe.
Durante algum tempo andou assustado, desesperado e triste, e Jobe permitiu-lho. Ele foi a única pessoa que o viu chorar porque as lágrimas não lhe eram permitidas. Nem quando era uma criança.
Mas quando o avião real chegou para levá-lo, a máscara estava de novo no seu lugar e nunca mais voltou a deixar de o estar.
– Khalid?
Não tinha ouvido Ethan entrar, mas voltou-se para dar-lhe as condolências. Ele era seu sócio nos negócios e um amigo, embora não se pudesse dizer que fossem muito unidos.
Ele não estava muito unido a ninguém.
– Obrigado por vires, Khalid.
– Nunca teria deixado de comparecer ao funeral de Jobe.
– Refiro-me a esta noite. Agradeço-te. Quanto tempo vais ficar?
– Até depois de amanhã.
– Tens de partir tão depressa?
– Precisam sempre de mim em casa.
– Bom, fico contente por teres vindo.
– Deixa-te de simpatias e vai direto ao assunto. Que se passa?
– Muita coisa – admitiu Ethan. – E ninguém pode saber.
– Já sabes que dos meus lábios nada sairá.
A vida de Jobe Devereux tinha sido interessante, digamos, e a imprensa contara muitos detalhes. Os seus filhos, Abe e Ethan, já tinham visto de tudo.
Ou assim pensavam.
– Ele tinha uma conta da que não sabíamos nada.
Khalid ouviu o relato de como Jobe tinha um fraco pelo jogo e pelas mulheres dos cabarés. Aparentemente, aqueles longos fins de semana de ausência nem sempre eram passados nos Hamptons. Muitas vezes ia diretamente para Las Vegas, a Cidade do Pecado.
– Tinha dívidas?
– Não, não há dívidas, mas não se tratava de algo ocasional. Tinha muitas mulheres e… um casamento de que não sabíamos nada.
– Um casamento?
– Entre o casamento com a sua primeira mulher e o casamento com a minha mãe, afinal esteve casado com uma tal de Brandy durante setenta e duas horas.
– História antiga e sem importância – disse Khalid.
– É possível, mas trata-se de uma história antiga que pode bem ressurgir manhã.
– A reputação do Jobe está acima de tudo isso – respondeu Khalid, tranquilo, tentando acalmar aquelas águas turbulentas. – E a vossa, também. Se fosse algo recente, aí sim, poderia ser difícil de assumir para a sua companheira atual. Ele voltou para a Chantelle antes de morrer?
– Na verdade não, mas estiveram juntos, de um modo intermitente, durante alguns anos.
– Ethan, toda a gente tem um lado escuro – respondeu-lhe Khalid com calma. – E que o Jobe tivesse amantes, ou que estivesse casado por umas horas, não será uma grande surpresa. O Jobe levou uma vida intensa e todos sabemos como gostava das mulheres.
– Das mulheres, sim – Ethan suspirou e Khalid viu como estava incomodado. Agora sim, ia ouvir a verdadeira razão pela qual lhe tinham pedido que viesse antes do funeral. – Durante os últimos quatro anos, o meu pai enviou uma soma mensal muito considerável a uma Aubrey Johnson.
Isso sim, era uma surpresa.
– O Jobe tinha uma aventura com um homem?
E, naquela noite sombria, Ethan começou a rir.
– Não, Khalid. O Jobe não era gay.
– Mas Aubrey é um nome masculino.
– Não. Digamos que é unissexo. Garantidamente, a Aubrey Johnson não é um homem.
Ele entregou-lhe algumas fotos.
Não, Aubrey não era um homem. Na verdade, parecia ser algo mais do que uma simples mulher.
Aubrey Johnson tinha um espesso cabelo loiro e uns expressivos olhos azuis, mas as suas delicadas feições ficavam um pouco alteradas por uma maquilhagem muito marcada, com pestanas postiças e os lábios muito pintados de vermelho. A sua bela figura aparecia envolta numa única peça, uma malha vermelha de lantejoulas.
– Quantos anos tem? – perguntou Khalid, com um tom de desilusão na voz. Jobe tinha setenta e quatro anos.
– Vinte e dois. É dançarina.
– Imagino que não te refiras a dançarina num salão de baile.
A imagem seguinte respondeu à sua pergunta. Aparecia junto a um grupo de mulheres com um vestido muito reduzido e muito revelador. E, novamente, com muita maquilhagem.
– E é trapezista – acrescentou Ethan enquanto Khalid continuava a ver as fotos. – Embora não muito boa. A menina Johnson vive num parque de caravanas e é frequentadora habitual das mesas de jogo. Quando não está a atuar, parece que ela e o meu pai… – não conseguiu terminar. – Mal tinha dezoito anos quando começaram os pagamentos.
Em que raios estaria o Jobe a pensar?
Khalid não conseguia acreditar que o homem que tanto admirava tivesse mantido uma relação com alguém tão jovem.
Não. Não podia aceitar algo assim de Jobe.
– Poderá haver outra explicação?
– Se há, estamos a fazer tudo o que é possível para a encontrar – Ethan moveu a cabeça. – Mas não aparece.
– Não poderia ser filha dele? – insistiu Khalid, reticente e a pensar o pior.
– Não. O meu pai era um homem generoso e, se soubesse que ela era sua filha, nunca teria permitido que estivesse a viver num parque de caravanas. E, se o dinheiro fosse por uma qualquer razão benevolente, tinha fideicomissos e colaborava com organizações de beneficência. Mas os pagamentos à menina Johnson saíram de uma conta oculta, que ele não queria que alguém soubesse.
– Ainda bem que ficaste a saber antes que se tornasse público.
– Se houver algum escândalo, eu e o Abe tratamos do assunto, mas não queremos que se saiba amanhã no funeral. Queremos que o nosso pai tenha uma despedida digna.
– Claro.
– Comunicámos os nomes destas mulheres aos seguranças para que as mantenham afastadas de…
– Não, não – interrompeu-o Khalid. – Vocês têm de as deixar entrar no funeral.
– De modo algum. Não vamos transformar a sua despedida num espetáculo de Vegas.
– Ethan, pensava que me tinhas feito vir cá para pedir-me conselhos.
– Sim, mas…
– Queres armar uma cena com as câmaras fora do teu controle?
– Claro que não.
– Então, acrescenta essas mulheres à lista de convidados. Se chegarem, põe os seguranças a vigiá-las. Eu também farei com que os meus estejam atentos. Vocês foquem-se em despedirem-se do vosso pai e não te esqueças que, se alguma aparecer, será para apresentar os seus respeitos. E isso não se nega a ninguém.
– Não – Ethan suspirou.
– E deverás convidá-las para a homenagem privada.
– Não! Isso é apenas para a família e para os amigos próximos.
– Não deveria precisar recordar-te que deves manter perto os teus inimigos, Ethan.
– E arriscar-me a que tudo acabe por tornar-se num circo? – explodiu Ethan, mas sabia que Khalid nunca dava um conselho sem refletir, por isso acabou por assentir. – Falarei com o Abe.
– Tudo se esclarecerá – tranquilizou-o Khalid. – É possível que o teu pai guardasse alguns segredos, mas era um bom homem.
– Eu sei. Obrigado por estares aqui. Para o meu pai significaria muito.
– O teu pai significava muito para mim.
E continuaram a falar dos detalhes do que ia acontecer no dia seguinte. O título de príncipe de Khalid tinha sido suprimido do serviço por seu expresso desejo.
– Tens a certeza disso? – insistiu Ethan quando Khalid se preparava para retirar-se.
– Completamente. Foi uma das melhores coisas do tempo que passei aqui – admitiu Khalid. – Ninguém me tratava como príncipe ou como herdeiro da coroa. Aqui era apenas o Khalid. Amanhã deves focar-te em recordar o teu pai. Eu ocupo-me dos problemas que possam surgir.
Ethan assentiu agradecido e ambos saíram do escritório.
– E tu, Khalid?
– Eu o quê?
– Se toda a gente tem um lado escuro, qual é o teu?
– Não esperarás realmente que te responda a essa pergunta, pois não? Claro que não, porque na verdade ninguém conhecia Khalid.
A imprensa descrevia-o como um homem que gostava de brincar com as mulheres, mas nada mais longe da realidade: ele não brincava.
A nada.
As suas emoções estavam sempre sob estrito controle e não permitia que ninguém se aproximasse, nem sequer na cama.
Particularmente na cama.
Tinha tomado a decisão de não ter um harém. Detestava ver como a sua mãe sofria quando o seu pai visitava o harém. E como depois a acusava, quando nascia outra criança de uma das amantes, dizendo que a culpa por não conseguir dar-lhe outro herdeiro varão era dela.
As crianças assim nascidas não tinham o mesmo estatuto dos filhos do casamento, nem eram considerados da família. Ele não queria comportar-se assim, por isso tinha recusado o harém. Mas em Nova Iorque saía com mulheres sofisticadas e experientes que aceitavam a ausência de ternura fingida.
Era apenas sexo.
A sua absoluta ausência de afeto pagava-a com diamantes, presentes e, às vezes, até com dinheiro puro e duro. Naquela noite, levava uma boa maquia no bolso.
Capítulo 2
Nova Iorque, a Cidade dos Sonhos. E para Aubrey Johnson, a cidade do que poderia ter sido.
Oxalá estivesse ali noutras circunstâncias. Oxalá tivesse posto os pés em Manhattan para estudar música como sempre sonhara, mas estava ali para dizer adeus ao homem que lhe dera uma oportunidade.
Uma oportunidade que ela não tinha aproveitado.
O dia mal acabava de começar e já estava cansada. Sofrera uma infeção num ouvido e o voo de Las Vegas durara toda a noite, o que não tinha ajudado muito.
O funeral seria ao meio-dia e, embora fosse um evento íntimo e só para ilustres, era-lhe indiferente que não tivesse sido convidada. Sabia alguns truques e tentaria entrar às escondidas, mas, se não conseguisse, apresentaria o seu respeito a uma distância conveniente.
Parecia-lhe importante estar ali.
Na casa de banho do aeroporto, despiu as velhas calças de ganga e o top e substituí-os por um vestido preto de cocktail que uma amiga lhe emprestara. Ficava-lhe um pouco grande, mas disfarçaria com o xaile.
Foi de comboio e depois apanhou o metro. Seguindo as instruções que lhe dera a amiga, deu por si em Manhattan, numa rua muito concorrida num soalheiro dia de primavera.
Por um momento ficou com a cabeça caída para trás a contemplar ensimesmada os altos edifícios, mas depressa se viu atropelada por um mar de gente que caminhava com rapidez. Entrou nuns grandes armazéns e subiu para o segundo piso para beber um café, que bem o merecia. Mas o seu orçamento para aquele dia era muito curto.
Tinha visto na televisão que Jobe estava muito doente, por isso nas últimas semanas tentara fazer algumas poupanças, o que não tinha sido fácil, já que a infeção no ouvido a impedia de trabalhar no trapézio, e as gorjetas das mesas que servia tinham diminuído. Ainda assim, conseguira comprar dois bilhetes baratos de ida e volta para que ela e a mãe pudessem estar presentes no funeral.
Mas a sua mãe recusara-se a ir.
Stella adorava Las Vegas e tinha vivido intensamente a cidade, mas agora mal saía da sua caravana, e nunca durante o dia.
Tentou prolongar o café que estava a beber e, quando acabou, tomou o antibiótico e desceu as escadas para a área de cosmética. Distraiu-se a experimentar batons no dorso da mão, até que a empregada se aproximou para perguntar-lhe se podia ajudar.
– Assim espero – Aubrey suspirou. – Na verdade, não sei o que estou a procurar. Não costumo maquilhar-me.
Não era verdade porque, em cada noite que subia ao palco, usava uma espessa camada de maquilhagem, mas, se a sua amiga estava certa, a empregada iria oferecer-se para maquilhá-la. E assim foi.
Mas Aubrey hesitou. Não lhe parecia correto.
– Só me maquilho quando subo ao palco – admitiu.
– Então, procura um look mais natural?
– Sim, mas… – Aubrey respirou fundo. A empregada era mais ou menos da sua idade e, sem dúvida, esperava que ela comprasse algo para ganhar a sua comissão. – Na verdade não posso permitir-me comprar nada – admitiu.
A jovem olhou-a por um momento e depois sorriu.
– Pelo menos és sincera. De qualquer modo, deixa-me maquilhar-te. Com sorte, as pessoas virão espreitar e assim saímos as duas a ganhar – sentou-a num banquinho alto. – Onde vais? – perguntou. – A um funeral? – adivinhou, vendo-a vestida de negro.
– Sim. Um amigo da família. É um evento de alto nível e não quero chamar as atenções.
– Hoje deve ser o dia dos funerais. O de Jobe Devereux, o de… – interrompeu-se ao ver que Aubrey corava. – É a esse funeral que vais?
Jobe pertencia à realeza de Nova Iorque e, quando Aubrey assentiu, a jovem soube exatamente o que ela ia enfrentar.
– Então, vamos trabalhar. Ah, chamo-me Vanda.
– Aubrey.
Vanda tirou vários ferros de cabelo e alisou o ondulado cabelo loiro a Aubrey antes de analisar o seu rosto.
– Tens uma estrutura óssea incrível.
– Devias ver a minha mãe. Tinha umas maçãs do rosto maravilhosas.
– Tinha?
Aubrey não respondeu. A mãe fazia questão de não falar das suas mágoas e, mesmo estando longe de Las Vegas, preferiu não referir como o rosto da mãe tinha ficado marcado pelo fogo.
– Bom… – prosseguiu Vanda enquanto trabalhava, – dizes que usas maquilhagem no palco. A que te dedicas?
– Faço um pouco de tudo. Danço em alguns espetáculos, sou trapezista e…
– Não posso!
– Nada de glamouroso, acredita. Um pouco de tudo.
Um pouco de tudo para evitar dedicar-se à profissão mais velha do mundo. E quando devia a renda, quando não tinha horas extras para fazer… mas a sua mãe precisava dos medicamentos. Ainda bem que tinha encontrado outro modo de pagar as contas a cada mês.
O dinheiro de Jobe Devereux chegava pontualmente à sua conta e era também pontualmente que a sua generosa contribuição era gasta.
Fizera-o acreditar que estava a estudar música e Jobe, que não sabia nada da sua mãe e que era um homem muito ocupado, nem investigara. O dinheiro, em vez de ir para os seus estudos, acabava em operações, contas da clínica, medicamentos, reabilitação, mais operações…
Até a sua mãe pensava que era prostituta. Nunca lho tinha dito abertamente, claro, mas era Aubrey que pagava as contas e a mãe nunca lhe perguntara de onde vinha o dinheiro.
Tivera várias ofertas, mas declinara-as todas. A verdade era que desconfiava dos homens. A sua mãe trabalhara como acompanhante e ela era o fruto desse trabalho, mas, quando a mãe começou a ter menos marcações, tornou-se difícil pagar as contas a cada mês.
Até que Jobe apareceu na vida de Stella. Pela casa dela tinha passado um verdadeiro desfile de homens, o que a tornou cínica e receosa em tudo o que dizia respeito ao sexo. Apesar dos vestidos reduzidos e dos movimentos provocantes, nunca tinha sido beijada, e muito menos tudo o resto.
– Não permitas que a história se repita – dissera-lhe Jobe.
Na verdade, essa possibilidade aterrorizava-a, embora a necessidade começasse a tornar-se premente, já que Jobe tinha morrido e o dinheiro deixaria de chegar.
Esse pensamento levou-a a fechar fortemente os olhos, o que não era boa ideia tendo em conta que lhe estavam a aplicar o eyeliner.
– Um segundo – disse, e respirou fundo para tentar recompor-se.
– Não te preocupes – respondeu Vanda. – Já está quase. Deixa-me só dar-te um retoque nos lábios.
Aubrey abriu os olhos e descobriu que uma pequena multidão se tinha formado para presenciar a transformação. E era mesmo uma transformação.
Vanda aproximou-lhe um espelho e Aubrey esbugalhou os olhos ao ver-se.
– Estou…
– Incrível – Vanda sorriu.
– Não – respondeu Aubrey. Tinha de encontrar a palavra adequada. A maquilhagem era subtil e os seus olhos pareciam muito grandes e azuis. A boca, maquilhada num suave tom bege, projetava uma imagem doce, tão diferente do vermelho a que estava habituada. – Estou sofisticada.
– Vais encaixar na perfeição – disse Vanda, olhando brevemente para o vestido barato que levava, mas quanto a isso não podia fazer nada. – Vou dar-te uma amostra de lápis de lábios para que possas retocar-te antes do serviço fúnebre.
– Deixa, não precisas de fazer isso.
– Já viste quantas clientes tenho agora? Espero que o dia te corra tão bem como parece que me vai correr a mim.
Assim o esperava Aubrey porque, no fundo, estava aterrorizada.
Havia uma multidão às portas e o controlo de segurança era férreo, mas isso não a deteve. Caminhou para a barreira e dirigiu-se a um agente de segurança.
– O meu motorista deixou-me no local errado – tentou-o, mas o guarda lançou-lhe uma pergunta rápida.
– Nome?
– Aubrey – murmurou ela. – Aubrey Johnson.
– Espere aqui.
Não ia conseguir entrar. O seu nome não estaria na lista de convidados. Ainda assim estava habituada a entrar de penetra em concertos e coisas assim, e acalentava a esperança de conseguir contornar o segurança, ou de juntar-se a um grupo de convidados.
Mas não ia ter tal sorte.
O guarda falava pelo microfone com alguém e sabendo que não estava na lista, olhou em volta, tentando encontrar um ponto de onde, pelo menos, conseguisse ver o caixão. Queria dizer-lhe adeus. E não só em nome da sua mãe, mas também em seu nome.
– Por aqui, menina Johnson.
Ao ouvir o seu nome pestanejou várias vezes enquanto a fita de veludo era retirada. Devia ser um engano. Johnson era um apelido corrente.
– Siga aquele grupo – disse-lhe o guarda.
Aubrey assim fez. Subiu as escadas de pedra e assinou o livro de condolências antes de entrar, mantendo sempre a cabeça baixa, receando que o agente desse conta do seu erro.
E foi assim que Khalid a viu pela primeira vez.
Ele fora avisado de que uma das mulheres misteriosas já chegara e que estava à espera para assinar o livro de condolências. Ele examinou a fila, passou por ela duas vezes sem a ver, até que por fim um homem se afastou e ele a avistou.
Pelo que tinha ouvido falar sobre ela e pelas fotos que tinha visto, esperava uma figura menos delicada. Era pequena. Muito pequenina. Tinha a cabeça inclinada e sobre os ombros levava um xaile de renda que agarrava com uma mão.
Khalid começou a andar para ela.
– Desculpe – foi dizendo a quem estava no seu caminho, com todos a afastarem-se. Ninguém protestou, e não porque fosse um funeral, mas porque embora tivesse acabado de fazer a barba e estivesse com um fato negro, emanava dele um ar autoritário que levava as pessoas a afastarem-se instintivamente.
No seu país, ter-se-iam ajoelhado.
Aubrey estava demasiado preocupada para dar-se conta daquela agitação na fila. A primeira coisa que sentiu foi o perfume dele.
Khalid cheirava sempre divinamente. Al-lubān, ou incenso, misturado subtilmente com óleo de guaiacol de uma árvore de pau santo que tinham oferecido ao palácio. A essa mistura acrescentavam-lhe uma nota de bergamota, cardamomo e açafrão, tudo misturado no deserto de Al-Zahan por um místico e em exclusivo para Khalid.
Era subtil, mas cativante, a um ponto que, quando chegou a Aubrey, ela teve de levantar a cabeça como um suricata e virar-se para procurar a origem. Um homem muito mais alto do que ela aproximou-se. E era realmente tão alto que ao princípio só viu a sua gravata negra. Depois foi subindo para a camisa branca, o queixo forte e no final… aquele olhar ardente que a fez esquecer tudo o que sabia.
Esqueceu-se de que não devia estabelecer contacto visual. E esqueceu-se de que não confiava nos homens.
Assim que os seus olhares se encontraram, ela simplesmente esqueceu tudo.
A expressão de Khalid permaneceu impassível, embora tivesse sentido de imediato o seu poder de atração. Desde os seus olhos de porcelana azul até à sua boca sensual e carnuda, era cativante. Levava muito menos maquilhagem que naquelas fotos de mau gosto. Talvez apenas sobrasse um pouco de blush, mas Aubrey era mesmo excecionalmente bela. Era fácil de perceber como um homem poderia facilmente ficar fascinado por ela.
A ele não ia acontecer tal coisa.
– Acho que é a tua vez de assinar – disse-lhe.
A sua voz era profunda, rica e com pronúncia, e as suas palavras não fizeram sentido para ela por um instante, mas por fim lembrou-se. O livro de condolências! Agarrou uma pesada caneta de prata. A mão tremia-lhe ao escrever o seu nome.
Aubrey Johnson
Quanto à sua morada… era melhor pôr só Las Vegas. E a mensagem? Que podia dizer?
«Obrigada por fazer com que a minha mãe se sentisse como uma rainha, pelas viagens e pelos momentos divertidos…» Isso não podia escrever. A longa relação que mantivera com a sua mãe fora mantida em segredo.
«Obrigada por teres acreditado em mim…»
Teria gostado de escrever isso, mas também não o podia fazer. Ou…
«Lamento ter-te mentido».
Jobe tinha feito questão de que ela aproveitasse a oportunidade e que não seguisse o caminho do resto da família, já que tanto a sua mãe como a sua tia Carmel ganhavam a vida da mesma maneira. Perdoar-lhe-ia que tivesse gastado o dinheiro da bolsa nos tratamentos da sua mãe? Nunca o saberia.
Queridíssimo Jobe, obrigada por tudo. Foste maravilhoso. Beijos.
Khalid aproximou-se para ler o que tinha escrito, mas a ideia de que ela pudesse ter estado com Jobe revolveu-lhe o estômago.
Agarrou a caneta e escreveu o que teria escrito antes dos seus olhos se terem encontrado com os de Aubrey.
Allah yerhamo.
Que Deus se apiadasse dele.
Essas palavras pareciam-lhe mais apropriadas.
Capítulo 3
Aubrey foi conduzida a um banco e sorriu para uma mulher excessivamente arranjada antes de se sentar ao seu lado e contemplar o caixão de madeira escura coberto por imensas rosas vermelhas.
Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas ao pensar naquele homem único e tão querido. E era evidente que não era a única a pensar assim. Nunca tinha visto um grupo tão diferente como aquele. A comunidade ali reunida para se despedir dele era bastante eclética: de kippahs a hijabs. De fardas militares a pessoal médico, além da elite da polícia de Nova Iorque e, sem dúvida, uns quantos delinquentes.
O seu olhar pousou na última pessoa que entrou. Como não? Toda a gente olhava para ela.
Era uma mulher toda ela pernas e, embora vestida de negro, à altura do decote tinha bastante carne à vista. O cabelo, loiro falso, usava-o apanhado atrás, e nos ombros brilhava uma boa de plumas que, tal como a sua dona, já conhecera melhores dias.
Conhecia-a. Tinha a certeza. Tentou recordar o seu nome. Brandy. Era isso. Uma lenda de Las Vegas da época da sua mãe, uma corista que agora tinha uma escola de dança.
Toda a gente pareceu conter o fôlego em uníssono, mas ela nem ligou, continuando a caminhar com as suas intermináveis pernas até chegar ao banco situado mesmo atrás do de Aubrey.
Ao voltar a olhar, reconheceu outra das mulheres. E depois de dedicar outro olhar à que estava ao seu lado, perguntou-se se não seria outra das ex de Jobe. Por isso a tinham posto a ela também naquele banco. Santo Deus! Toda a Las Vegas estava naquela igreja!
Sentiu vontade de começar a rir, mas quando ia para cobrir a boca com a mão sentiu que a estavam a observar, e deparou-se com os olhos daquele surpreendente desconhecido.
Era realmente um homem tremendamente belo. Mais do que qualquer outro que já tivesse visto. Estava sentado numa das fileiras reservadas à família. Extraordinariamente bem vestido, com o brilhante cabelo negro penteado para trás, Aubrey examinou o seu rosto. Pele cor de caramelo, nariz aquilino, maçãs do rosto prominentes suavizados por uma boca sensual, mas séria.
Alguém falou com ele e afastou o olhar, mas ela parecia ter ficado como que em transe e era incapaz de parar de observá-lo.
Ethan e Abe tinham chegado acompanhados pelas suas sofisticadas esposas, que ela tinha visto nas revistas. Que relação teria aquele belo estrangeiro com a família? Não se tinham cumprimentado calorosamente, mas todos pareciam sentirem-se aliviados ao vê-lo.
A companheira de Jobe, Chantelle, sentou-se. Os diamantes com que se enfeitava faziam-na brilhar e o casaco preto que levava era perfeito para receber a longa cabeleira dourada, tão impressionante e tão perfeita que o olho experiente de Aubrey a levou a suspeitar que se tratava de uma peruca.
Sim, ela sabia mais de Chantelle do que o resto do clã Devereux. Aquela mulher tinha sido a causa do fim da relação de Jobe com a sua mãe.
O serviço começou e foi muito comovente, tanto que sentiu os olhos cheios de lágrimas. Mas não devia chorar ali. Não queria chamar a atenção. Abe tinha lido o elogio fúnebre e Ethan um poema, e naquele momento o surpreendente estrangeiro levantou-se.
Ia falar.
Deus, que alto era. E o seu fato preto, entre centenas de fatos pretos, destacava-se pelo seu esplêndido corte e por como lhe ficava bem. Quando moveu o microfone para ajustá-lo à sua estatura, viu que usava botões de punho, algo que não via frequentemente.
Demorou alguns momentos a falar e o silêncio tornou-se tão pesado que mesmo um bebé que estava a chorar se calou. Não levava notas.
– O Jobe abriu-me as portas da sua casa num certo Dia de Ação de Graças – começou. – Eu era o colega do Ethan, que me disse que o seu pai fazia questão de que eu não passasse o dia sozinho. Todos conhecemos o poder das calorosas boas-vindas do Jobe. Era um homem generoso e respeitoso em muitos sentidos, e a julgar pelos sorrisos que tenho visto aqui hoje, fez muita gente feliz. No entanto, sei que não me perdoaria se não dissesse também que era incisivo, implacável, arrogante…
As pessoas começaram a rir e Aubrey agradeceu ter a oportunidade de observar um pouco mais aquele homem tão surpreendente que tinha feito rir os assistentes, mas que permanecia sério.
Parecia totalmente sereno, controlado. Talvez até mesmo distante. No entanto, as suas palavras eram como uma caricia necessária no final de um dia esgotante, algo a que uma pessoa podia agarrar-se para não se desmoronar.
– O Jobe ajudou muitas pessoas a encontrarem a sua própria luz – prosseguiu, e as recordações seguiram-se, velozes. Férias. A sua mãe feliz, a rir. O violino que ele lhe comprou continuava a ser a sua propriedade mais preciosa.
Estava tão convencida de que não ia chorar que não tinha levado lenço, mas, quando Khalid leu um poema em árabe, veio-se abaixo. Não pretendia chamar a atenção. Só queria apresentar os seus respeitos a Jobe, mas as flores, as pessoas, as recordações de dias melhores… antes de Chantelle, antes que o fogo destroçasse a cara da sua mãe. Antes, quando ainda tinha sonhos.
«Antes».
E Khalid, enquanto traduzia o poema, olhou para ela.
Voltava a ter a cabeça baixa, mas via-a nervosa, em busca de algo para secar as lágrimas e recorrendo à ponta do seu xaile. Desejou poder aproximar-se dela para ver se estava bem. Era ridículo, claro, mas não gostou de vê-la ali sentada, tão sozinha e tão agoniada. Ainda bem que uma das mulheres de Vegas tirou um lenço do seu generoso decote, tocou no ombro de Aubrey e lho entregou, deixando ali a sua mão no ombro em jeito de consolo.
O mesmo que Jobe fez por ele numa ocasião.
Mas a sua voz não tremeu, nem se tornou mais rouca enquanto traduzia o poema na perfeição.
Afinal, tinha já trinta anos, e com dezasseis tinha lido o elogio no funeral da sua mãe perante os líderes do mundo. Tinha sido treinado para realizar esse tipo de tarefas desde o berço e para ele faziam parte da sua natureza.
Desceu do púlpito, inclinou a cabeça à frente do caixão e ocupou o seu lugar junto à família. Impecável. Irrepreensível. Fechado.
Khalid estava alojado no mesmo hotel em que se celebrava o velório e depois do serviço foi para o elevador para subir até à sua suite.
Logo em seguida iria descer para receber os convidados e para estar alerta, como tinha prometido a Ethan que estaria, mas para já precisava de uns minutos de solidão.
Era o final de uma era. Não só pelo falecimento de Jobe, mas do tempo que ele passara naquela incrível cidade.
O pai nunca gostara que ele estivesse ali, mas a sua mãe tinha insistido. Usava o seu jato como outros usam táxi e, no entanto, o tempo que passava ali ia diminuindo. Ele e os irmãos Devereux estavam a construir um hotel em Al-Zahan, o que lhe ocupava muitíssimo tempo, e visto que em breve se casaria e assumiria mais deveres da casa real, as viagens seriam cada vez menos.
Naqueles dias sentia-se inusitadamente melancólico, porque contemplar a cidade de Nova Iorque na primavera lhe trazia à memória a perda da sua mãe. Poderia respirar e ser feliz, dizia-lhe a sua mãe, até que o dever o reclamasse para sempre. E o seu coração tinha começado a derreter-se sob o preguiçoso sol de Nova Iorque quando ela morreu.
Tinha tantas saudades dela!
O seu telefone vibrou. Por uma vez não era o palácio, mas Ethan, que queria saber onde estava. Consciente dos seus deveres, tirou umas notas para dar de gorjeta aos motoristas e pessoal do bar e desceu para o velório.
Para o acontecimento, tinha sido convidada a nata do Upper East Side, mas Aubrey apanhou uma grande surpresa quando deu por si conduzida a um carro negro que a levou a um hotel, mais especificamente a uma sala reservada com o cartaz Ato Privado.
Brandy e as outras tinham-se apoderado do bar e Aubrey estava a perguntar-se se não estaria melhor com elas.
Os empregados iam e vinham com bandejas de bebidas e comida com um ar muito apetecível, mas Aubrey não quis comer nada. Tinha o estômago num nó e as mãos demasiado tremelicas para pôr nelas uma taça de cristal.
Sentia as olhares que lhe lançavam e que lhe faziam arder as faces. Tinha feito o possível para não chamar a atenção, mas entre aquela elite era impossível. O vestido da sua amiga tinha uma quantidade excessiva de poliéster e ficava-lhe um pouco grande, tal como os sapatos, também da sua amiga. As pessoas falavam baixinho, mas ela permaneceu sozinha até que um cavalheiro se aproximou.
– De onde conhecias o Jobe? – atirou ele, sem preocupar-se com apresentações.
– Lamento, mas não percebi o seu nome.
O tipo corou um pouco e voltou para junto da sua mulher.
Chantelle ia percorrendo a sala agradecendo a todos por terem comparecido, aceitando as condolências enquanto partilhava pequenos episódios, mas evitou encontrar-se com ela.
Estava a pensar se deveria ir-se embora quando uma mulher muito elegante se aproximou e com uma careta que parecia um sorriso lhe disse:
– Acho que as suas amigas estão todas no bar.
Aquilo foi a gota que fez transbordar o copo. Decidida a ir-se embora, avançava para a porta, mas quis o acaso que os irmãos Devereux, que estavam a conversar com um grupo, escolhessem aquele momento para se voltarem. Deu por si cara a cara com um dos filhos de Jobe que pelas revistas sabia que se chamava Abe.
– Menina Johnson – cumprimentou-a com um ligeiro sorriso e embora lhe tivesse apertado a mão os seus olhos negros enviavam precisamente a mensagem contrária e muito clara: «Não és bem-vinda».
– Lamento muito a sua perda – disse ela, surpreendida por ele saber o seu nome e compreendendo que não tinha sido por casualidade que a tinham convidado para aquele encontro. Talvez estivessem a par do caso da sua mãe com Jobe. – Foi uma cerimónia linda.
Ele não respondeu.
– Estava mesmo de saída.
– Talvez seja o melhor. Deus…
Khalid surgiu ao seu lado, como se fosse um segurança, e isso irritou-a. Era evidente que pensavam que causaria problemas ou que não era boa o suficiente para estar ali.
Sentiu a tentação de agarrar um dos copos da bandeja do empregado que passou naquele momento, só para atirar o líquido à cara de Abe antes de dizer-lhe que o seu pai nunca tinha olhado para ela, ou para a sua mãe, com semelhante desprezo. De repente esteve farta dos Devereux, das suas mentes estreitas, cansada de que olhassem para ela como se tivesse entrado com lama nos sapatos.
Khalid estava a notar a tensão que crescia nela e perguntou-se se o merecia. Afinal, tinha sido muito educada e discreta, e era evidente que se ia embora.
Mas também para isso era já tarde. Chantelle tinha-se aproximado.
Nunca tinha chegado a ser a esposa de Jobe e isso amargurava-a. Ia penteada com a perfeição de sempre, mas tinha as faces coradas do champanhe e, se os diamantes podiam chegar a ser demasiados, esse era o caso de Chantelle.
– Acho que não nos conhecemos – disse a Aubrey. – Sou a Chantelle, a noiva de Jobe.
Khalid apertou os dentes. Chantelle tinha saído com Jobe muitas vezes, sim, mas mantinha-a a uma distância prudente.
– Sou a Aubrey – disse ela, estendendo-lhe a mão. – Lamento muito a sua perda. Ela não lhe apertou a mão.
– O correto nestes casos – sussurrou Chantelle –, é dizeres quem és e qual é a tua relação com o falecido.
– Oh, lamento – respondeu Aubrey. Não estava disposta a deixar que se percebesse como estava aterrorizada. – Não estava a par disso. É o meu primeiro funeral.
Khalid, que raramente sorria, e menos num dia como aquele, deu por si a conter um sorriso, vendo como se tinha esquivado àquela busca de mais informação.
Mas Chantelle estava há uma semana sem poder aceder às conversas dos Devereux e aos seus advogados, uma semana em que lhe tinham dito que poderia estar com a família no funeral, mas que não fazia parte dela.
Os Devereux eram terríveis com todos aqueles que não pertenciam ao seu grupo e Aubrey, sozinha, estava no olho do furacão.
– De onde vens, Aubrey? – perguntou-lhe Chantelle, acertando em que não era do East Side.
– De Vegas.
– Oh.
«Sim. Oh».
«Mas… quantos anos tens?», gritavam os olhos de Chantelle.
– Costumas vir a Manhattan?
– É a minha primeira vez.
– E como conheceste o Jobe?
«Teve uma longa relação com a minha mãe», foi o que teria gostado de dizer. «Adorava-a e tratava-a como uma rainha. Jogavam strip póquer na nossa caravana. Não quando eu estava com eles, claro. Jobe era um cavalheiro. Um a sério. Disso fiquei a saber no outro dia, enquanto a minha mãe falava das suas recordações. Mas estava ali enquanto ele bebia whisky barato e a minha mãe cozinhava asinhas de frango picantes. Era o seu prato favorito, embora imagine que tu não saibas isso».
«Ajudava-me a fazer os trabalhos de casa. Levou-nos à Disney e a ver a Barragem Hoover, e sobrevoámos o Grand Canyon de helicóptero. Eles amavam-se e a minha mãe nunca aceitou nem um tostão dele. Nem quando se queimou, e ficou tão destroçada que nem sequer podia pagar as contas dos tratamentos, não quis que ele soubesse. Queria que a recordasse como a beleza que tinha sido e o amor que outrora partilharam».
Claro, não disse nada disso.
Estava sem forças, não tinha dormido, e de repente sentiu-se um pouco doente e com muita vontade de chorar.
– Pode-se saber quem és? – explodiu Chantelle.
Todas os olhares estavam postos nela. Não sabia o que dizer, e estava a deitar a perder a decisão de assistir ao funeral. Tinha o coração na garganta e queria dar meia volta e correr.
Khalid estava a sentir a sua agonia ali, perante aquela inquisição, e embora devesse proteger os Devereux de Aubrey, o seu instinto levou-o a protegê-la a ela deles.
– A Aubrey veio comigo – disse.
Aubrey pestanejou várias vezes, mas não se atreveu a olhar para ele. Mas viu Chantelle passar da irritação à confusão e depois à vergonha.
– Oh… tenho de pedir desculpa. Não sabia.
– Como ias sabê-lo, Chantelle? – respondeu Khalid. – Nunca falo da minha vida privada.
– E quanto tempo faz que os dois…? – insistiu Chantelle, mas ele não se ia deixar interrogar por ninguém, por isso voltou-se para Aubrey.
– Vamos – disse-lhe.
Que alivio tão tremendo foi sair dali, com Khalid ao lado, sentindo que não podiam magoá-la. Gostava que ele não tivesse tentado dar-lhe a mão ou rodear-lhe a cintura com um braço pelo mero facto de que a cena que tinha criado lho teria permitido.
– Obrigada – disse-lhe ao chegar ao átrio.
– Não há problema.
– É que não sabia o que dizer…
– A mim não me precisas explicar os teus assuntos com o Jobe.
«Assuntos?». A escolha da palavra fê-la franzir o sobrolho porque não sabia o que queria dizer.
– Bom, obrigada, uma vez mais.
E estendeu-lhe a mão. Esse foi o seu erro, porque ele não lha apertou, embora não pelo motivo que teria podido imaginar.
– Não é um pouco formal tendo em conta que é suposto sermos um casal? A Chantelle está a olhar.
– Ah, sim – assentiu Aubrey, e os nervos fizeram-na dizer a maior estupidez que lhe poderia ter ocorrido. – Talvez devesse ter-te beijado.
– Não será necessário.
Aubrey corou, mas ele salvou-a dizendo:
– Aubrey, ainda que fosses minha namorada, não haveria demonstrações públicas de afeto entre nós, e a Chantelle sabe disso.
– Oh… Ok, nada de demonstrações públicas de afeto. Tomo nota.
«Não. Nada de afeto. Ponto». Esteve quase a dizer-lhe, mas isso tê-los-ia conduzido a um terreno perigoso. Estavam num átrio concorrido, mas era como se estivessem sozinhos. Havia uma espécie de calor no ar, uma espécie de ligação demasiado intensa para partilhar com uma desconhecida num velório, para mais tendo em conta que não era o seu tipo de mulher.
E Aubrey ali, de pé, descobriu que queria saber como se chamava o seu perfume, ou que toque tinha a seda do seu fato. Oxalá lhe tivesse passado o braço pela cintura para saber como era ter contacto físico com aquele homem tão imponente. Para ela todas essas sensações eram tão desconhecidas que sentiu a imperiosa necessidade de sair dali, e voltou a agradecer-lhe.
– Um prazer – respondeu ele.
Um prazer tão raro que Aubrey teve de se sentar numa das cadeiras do átrio para recuperar a energia de que ia precisar para a viagem de regresso a casa.
Bom, a casa não. Ia ter de passar a noite no aeroporto. Estava a perguntar-se quanto tempo poderia prolongar o ficar ali sentada antes que a pusessem fora quando viu aquelas pernas num fato escuro a aproximarem-se e, sem levantar os olhos, soube que era ele.
– Estás bem?
– Sim. Só precisava de me sentar.
– Ficas na cidade?
– Não. Vou para o aeroporto – disse ela, algo desconcertada ao ver que se sentava ao seu lado.
– A que horas é o teu voo?
– Às nove.
Não acrescentou que às nove, mas da manhã seguinte.
– É que estou um pouco cansada.
– Será porque não tens comido?
– Sim tenho comido. Havia muita comida…
– Não – interrompeu-a Khalid, surpreendendo-se a si mesmo por ter reparado que ela não tinha aceitado nada do que lhe tinham oferecido os empregados. – Não comeste nada.
– É verdade. É que tinha um nó no estômago.
– Queres que peça que te tragam algo…?
Ele fez intenção de levantar-se, mas ela deteve-o.
– Não, a sério, estou bem. Só um pouco cansada. Tive uma infeção num ouvido e passei a noite no avião para vir até aqui.
Khalid percebia bem que nem toda a gente viajava como ele. Viu-a pôr-se em pé e olhou para os seus sapatos. Ficavam-lhe um pouco grandes. E tinha ficado muito pálida.
– Bom, foi um prazer conhecer-te – despediu-se Aubrey.
Khalid soube que não a queria ver ir-se embora cansada, faminta e triste.
– Espera – chamou-a e, claro, ela voltou-se. Agora tinha de encontrar uma razão para a ter chamado. – Aubrey, queres ir para a cama?
Viu que os seus olhos azuis desconfiavam e compreendeu que tinha interpretado incorretamente as suas palavras. E não podia culpá-la porque mesmo ele tinha dificuldades para qualificar o que acabava de dizer.
– Perdoa-me. O que queria dizer é que a minha suite vai estar vazia durante um par de horas – ela arregalou os olhos. – Tenho de acompanhar a família até à sua casa, depois ficar para um copo e, claro, a dissecar quem era quem no funeral…
– Quem era eu, por exemplo.
– Já lhes disse que estás comigo – respondeu ele. Nem podia acreditar que lhe tivesse oferecido a sua suite. Nem sequer as suas amantes tinham essa liberdade. – És bem-vinda a utilizar o meu quarto durante um par de horas antes de ires para o aeroporto.
Poder deitar-se por um momento soava a música celestial, mas também não tinha nascido ontem.
– Não acho que…
– Tu decides – interrompeu-a ele. – Não me parece que volte cedo esta noite, por isso terás tempo para descansar um pouco.
– Por que farias algo assim?
– A minha função aqui hoje é ocupar-me dos amigos do Jobe, e acho que tu és uma amiga dele.
– Mas por que confiarias em mim?
– Confiar?
– Poderia roubar-te e levar o que tiveres no quarto.
– E por que irias fazer isso?
Parecia tão comedido, tão contido… era como se nada pudesse desconcertá-lo, e surpreendente era que não a desconcertasse a ela. Claro que lhe assaltava os sentidos, e era mais masculino que qualquer outro homem que tivesse conhecido, mas não aparentava ter um pingo de medo, e embora ir para a cama de um desconhecido pudesse parecer uma loucura, era melhor, sem dúvida, do que deitar-se no chão do aeroporto. Além disso, tinha nascido com um radar incorporado.
Era assim que tinha sobrevivido.
Com Khalid não havia bandeiras vermelhas que a avisassem do perigo e Jobe tinha-o em altíssima consideração.
Havia algo mais. Aquele homem intrigava-a. Pelo modo como tinha intervindo para a salvar do interrogatório. E agora, lhe oferecia um descanso.
Ela não confiava nos homens.
Quando era pequena, a sua mãe dizia-lhe que pusesse uma cadeira contra a porta do quarto à noite, e sendo ainda uma criança, tivera de subir para um banquinho para tirar gelo do congelador e aplicá-lo nas feridas da sua mãe.
Khalid fazia-a baixar as defesas, mas era porque ela queria confiar naquele homem.
– Obrigada – disse com a voz um pouco abafada. – Tens a certeza?
– Claro – respondeu ele, entregando-lhe o cartão da sua suite e indicando-lhe o andar. – Se quando voltar já tiveres partido …
Viu-se interrompido por alguém que chamava o seu nome.
– Khalid!
– Sim, Chantelle.
E levantou os olhos para o céu antes de voltar-se. Tinha partilhado com ela a sua irritação. Era como se lhe tivesse entregado o sol.
– Vamos para casa – disse Chantelle. – Aubrey, espero que venhas…
Agora eram as melhores amigas. Khalid ocupou-se rapidamente do convite.
– A Aubrey não vai. Dói-lhe a cabeça – olhou-a nos olhos e, em vez de sol, ofereceu-lhe ouro. – Descansa.
E foi assim, tão facilmente, que Aubrey conseguiu escapar.
Ücretsiz ön izlemeyi tamamladınız.