Kitabı oku: «Tempestade de paixões - Uma segunda vez»
Editado por Harlequin Ibérica.
Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
N.º 117 - outubro 2021
© 2009 Harlequin Books S.A.
Tempestade de paixões
Título original: The Virgin Secretary’s Impossible Boss
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
© 2010 Margaret Mayo
Uma segunda vez
Título original: Married Again to the Millionaire
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2011
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), acontecimientos ou situações são pura coincidência.
® Harlequin e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.
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Imagem de portada utilizada com a permissão de Dreamstime.com
I.S.B.N.: 978-84-1105-028-9
Sumário
Créditos
Sumário
Tempestade de paixões
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Epílogo
Uma segunda vez
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
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PRÓLOGO
– Está combinado?
Andi olhou para o outro lado da sala, para o homem que tinha entrado recentemente na sua vida e na da sua mãe.
– Vá lá, Andi! – insistiu Linus Harrison, com impaciência, enquanto andava de um lado para o outro. – Não pode ser assim tão difícil dares-te conta de que não tens outra opção senão aceitar a minha oferta. Esse era o problema. Andi sabia que não tinha outra opção. E isso não lhe agradava.
Por fora, a sua expressão e a sua atitude permaneciam serenas. Por dentro, era outra história. Que razão poderia ter aquele homem para oferecer à sua mãe, que em breve se veria na rua, um lugar onde viver em troca de Andi aceitar ser secretária dele? Um homem como Linus Harrison, conhecido pela reputação desumana no mundo dos negócios, não podia estar a oferecer-lho simplesmente por ter um bom coração. Andi nem sequer tinha a certeza de que o tivesse. A dureza dos olhos verde-claros naquele rosto anguloso não ajudava a contradizer essa opinião.
Nada em Linus Harrison, da Propriedades Harrison S.A, era reconfortante. Media mais de um metro e oitenta, mais vinte e cinco centímetros do que ela, que media um metro e sessenta e quatro. Tinha o cabelo escuro e ligeiramente comprido, o qual afastava com impaciência da testa. A sua cara era tão angulosa como a de uma escultura. Tinha um nariz direito e arrogante sobre uns lábios que não pareciam sorrir com frequência. Um queixo quadrado que denotava a sua reputação desumana. O fato cinzento-escuro enfatizava a largura dos seus ombros musculados e a sua cintura estreita, à qual se seguiam umas pernas poderosas. Toda a sua pessoa estava imbuída de uma energia inesgotável que lhe parecia asfixiante.
Andi ficou de pé e não mostrou a sua inquietação quando olhou para Linus Harrison com os seus olhos castanhos.
– O meu nome é menina Buttonfield ou Andrea, como prefiro. Só a minha família e os meus amigos próximos podem chamar-me Andi – disse, arqueando as suas sobrancelhas loiras.
A expressão de Linus era brincalhona enquanto a contemplava com admiração. Andrea Buttonfield tinha classe.
Era nove anos mais jovem do que ele, que tinha trinta e cinco. A sua cabeça loira mal lhe chegava ao queixo. O seu cabelo liso, que lhe chegava ao ombro, estava cortado com estilo. A franja emoldurava uns olhos castanhos enormes. Havia olheiras debaixo daqueles olhos. As suas faces estavam ligeiramente encovadas, o seu nariz era pequeno e direito, e a sua boca formava um arco perfeito sobre o seu queixo pontiagudo e teimoso. A sua aparência fria e profissional era completada por uma saia preta e uma blusa de seda branca.
Nos últimos três meses, aquela mulher tinha sofrido uma tragédia atrás da outra e, mesmo assim, Linus só via determinação nos seus olhos enquanto ela o olhava sem pestanejar.
Linus inclinou a cabeça.
– Nesse caso, escolherei «Andrea», por enquanto – disse. – Devo advertir-te que não sou um homem paciente, Andrea – acrescentou, com dureza. – A minha oferta só é válida até às cinco horas em ponto de hoje.
Andrea respondeu ao seu ultimato, abrindo mais um pouco os olhos.
Ele encolheu os ombros.
– É assim que faço negócios, Andrea.
Ela abanou a cabeça.
– Não posso tomar uma decisão tão importante em apenas algumas horas.
– O problema é teu.
– Porquê tanta pressa?
– A minha actual secretária vai-se embora no fim do mês e preciso de uma substituta antes que isso aconteça – Linus sentou-se numa das poltronas de brocado dourado que decoravam aquela sala.
Como Linus já sabia, todas as divisões de Tarrington Park estavam decoradas e mobiladas com o mesmo estilo elegante. Era um estilo que Linus desejava manter quando comprasse Tarrington Park dentro de algumas semanas e a transformasse noutro dos seus hotéis com spa e centros de conferências. Era um estilo que, conforme lhe tinha dito Marjorie Buttonfield, a mãe de Andi, era obra da filha dela.
Aquele estilo aplicava-se a tudo o que estava relacionado com Andrea Buttonfield. Não era de estranhar. Andi tinha crescido na propriedade Tarrington Park e era filha única de Miles e Marjorie Buttonfield. Tivera uma infância de luxo e indulgências. Os colégios internos que tinha frequentado eram os melhores do país. O seu curso de Língua Inglesa pela Universidade de Cambridge era um dos mais prestigiados. Depois da universidade, Andrea tinha-se mudado para Londres e tornara-se secretária de Gerald Wickham, director da Wickham Internacional.
Sim, Andrea Buttonfield tinha estilo.
A infância e a educação de Linus tinham sido muito diferentes das de Andi e fora o seu estilo e a sua classe que invejara desde que a conhecera oito semanas antes, quando tinha vindo ver Tarrington Park com a intenção de a comprar.
O seu pai e o seu noivo, David Simmington-Browne, tinham morrido num acidente de carro, quatro semanas antes. Durante as semanas posteriores, tinham descoberto não só que a empresa do seu pai estava na bancarrota, como também que havia dívidas consideráveis. Vender a casa familiar tornara-se a única solução para saldar essas dívidas.
Linus investigara Tarrington Park, Andrea e a recentemente viúva Marjorie Buttonfield. Sabia que vender a residência familiar deixaria Marjorie sem casa e sem meios para se sustentar, salvo o salário que a sua filha ganhava como secretária de Wickham.
Fora uma racha na armadura de Andrea Buttonfield que Linus não tinha hesitado em usar a seu favor.
– Pensa nisso, Andrea – disse Linus, com um sorriso. – Como minha secretária, ganharás mais. A tua mãe e tu poderão mudar-se para a casa da entrada, o que será menos traumático para ambas, para além de não terem de pagar renda. Poderias continuar a ter o teu cavalo nos estábulos. No que te diz respeito, sairás a ganhar.
Andi já estava ao corrente de todas as vantagens que teria ao aceitar a oferta de Linus Harrison. Eram as desvantagens que a preocupavam. Não conhecia Linus Harrison. Não confiava nele. Mas, sobretudo, não gostava daquele homem.
Dada a reputação de homem desumano nos negócios, Andi não acreditava que fosse um homem impulsivo, o que a fazia pensar que, provavelmente, teria pensado muito no assunto antes de lhe fazer a oferta.
– E o que ganha o senhor com isto? – perguntou.
– Segundo o próprio Gerald Wickham, ganho a melhor secretária do hemisfério ocidental.
– Já falou com Gerald sobre mim? – perguntou Andi, surpreendida. Por isso, sabia que o que lhe oferecia era mais do que o seu salário.
Linus Harrison encolheu os ombros.
– Não pensaria em contratar-te como secretária sem ter falado primeiro com o teu anterior chefe.
– Com o meu actual chefe! – corrigiu-o Andi. – E não tinha nenhum direito de falar com Gerald.
– Tinha todo o direito – respondeu Linus, com frieza. – Não contrataria alguém só porque parece bom, tal como não compraria um carro só por ter umas linhas suaves.
– Não sei se isso é um insulto ou um elogio!
– É simplesmente um facto – respondeu Linus. – Pelo que sabia, poderias ser patética no teu trabalho e simplesmente ir para a cama com Gerald Wickham para manteres o emprego.
Era uma hipótese que não agradava a Linus e distava muito da classe e do estilo que Andrea Buttonfield possuía. Era verdade que, até há três meses, Andrea estava noiva de Simmington-Browne. Mas isso não significava que não fosse para a cama com o chefe. Depois de se reunir com Gerald Wickham, Linus tinha ficado convencido de que ele apenas pensava em Andrea como um tio indulgente pensaria na sobrinha favorita, não como numa amante reservada para o seu deleite físico.
Linus não sabia porque é que essa informação deveria importar-lhe. Era verdade que o seu próprio código de conduta no que se referia às funcionárias fe-mininas ditava que não podia envolver-se com nenhuma delas, mas sabia que muitos homens na sua situação não pensavam o mesmo.
Andi não sabia se devia zangar-se ou indignar-se com a familiaridade da conversa daquele homem. Decidiu que o desdém seria a melhor opção.
– Imagino que Gerald tenha satisfeito a sua curiosidade sobre esse assunto.
– Totalmente – confirmou Linus Harrison.
Andi olhou para ele, frustrada.
– Estou muito satisfeita com o meu actual emprego, senhor Harrison. Ofereceram uma casa na vila à minha mãe. E um dos estábulos da zona acedeu a ficar com o meu cavalo. Portanto, como vê, senhor Harrison...
– Como já disse, não preciso da casa do jardim, portanto, não terias de pagar renda. Também não terias de pagar para que o teu cavalo estivesse aqui. Além disso – continuou, antes que Andi pudesse interrompê-lo, – achas realmente que o estado emocional delicado da tua mãe suportará mudar-se para uma casa na vila onde a tua família sempre foi considerada de bem?
Andi ficou muito quieta. O acidente de carro que acabara com a vida do seu pai e do seu noivo tinha-lhe parecido um golpe quase insuportável na altura. Inicialmente, a única coisa que a tinha feito controlar a sua dor fora a necessidade de se manter concentrada para o bem da sua mãe. Descobrir, poucos dias depois, a falência da empresa do seu pai tinha sido outro golpe que Andi não esperara.
A sua mãe não tinha reagido bem. A perda do marido depois de trinta anos, seguida da certeza de que estava prestes a ficar sem casa, tinha deixado Marjorie à beira do desequilíbrio mental. Mais um golpe e Andi sabia que a sua mãe saltaria do precipício.
As últimas semanas tinham sido um pesadelo enquanto Andi tentava gerir as visitas à sua mãe ao fim-de-semana e o seu trabalho exigente em Londres como secretária de Gerald durante a semana. Era uma pressão que começava a afectar Andi depois de três meses, tanto a nível emocional, como físico.
A verdade era que a sua mãe seria muito mais feliz se Andi voltasse a viver com ela em Hampshire, sobretudo, se lhe permitissem ficar na casa do jardim de Tarrington Park. Andi sentir-se-ia mais feliz sabendo que a sua mãe estava confortável. Era a ideia de se tornar secretária de Linus Harrison que a impedia de se alegrar com a oportunidade que estava a oferecer-lhe.
Isso e o facto de simplesmente não gostar, nem confiar nele.
– Não tenho a certeza de querer trabalhar para um homem que utiliza a fraqueza de outra pessoa para conseguir o que deseja – disse-lhe.
Ele dirigiu-lhe um sorriso brincalhão.
– Não creio que um dos requisitos do cargo seja que gostes de mim – respondeu.
– E poderia dizer-me quais são os requisitos do cargo?
– Obviamente, as mesmas tarefas que executas neste momento. Além disso, quando o trabalho começar, passaremos quase todo o nosso tempo aqui, pelo menos, no próximo ano, a trabalhar na transformação de Tarrington Park num dos hotéis prestigiados e centros de conferências da minha empresa. De vez em quando, terei de ir ao meu escritório em Londres e também terei de visitar os meus outros hotéis. Mas, geralmente, gosto de acompanhar todos os detalhes das alterações do edifício. Não deverá haver muitas, pois esta casa já se parece bastante com o que tenho em mente. Gostaria que te encarregasses da decoração. Normalmente, contrato uma equipa de Londres, mas tu conheces esta casa melhor do que ninguém. A tua contribuição será impagável na altura de decorar e mobilar os quartos com um estilo que se adeqúe às instalações. Com a tua ajuda, Andrea, espero que Tarrington Park se torne um dos hotéis e spas mais luxuosos do país.
Andi sentiu-se emocionada enquanto Linus Harrison explicava os planos para a que tinha sido a casa da sua infância. Como é claro, teria preferido não ter de vender a casa e que a sua mãe pudesse continuar a viver ali, mas, depois dos últimos meses, Andi sabia que isso era impossível. Com a venda de Tarrington Park, poderiam saldar as dívidas do seu pai e, embora Linus Harrison fosse provavelmente a última pessoa a quem Andi gostaria de a vender, a oferta de emprego dele significava que, pelo menos, teria alguma coisa a dizer nas alterações na decoração. A sua mãe poderia continuar na propriedade, embora na casa do jardim e não na mansão.
Linus viu a indecisão no seu olhar.
– Admite, Andrea, tu aprovas a ideia.
– A ideia, talvez – respondeu ela. – A realidade é outra coisa. Não tenho a certeza de que conseguisse trabalhar para si.
– Porque raios não conseguirias? Não, deixa-me adivinhar. Alguém com o teu passado privilegiado estremece perante a ideia de ser contratada por alguém como eu.
Ela pestanejou.
– Alguém como o senhor?
– Tenho a certeza de que tu, como qualquer outra leitora de imprensa cor-de-rosa, estás a par do meu passado – disse Linus.
Durante os anos, a imprensa tinha realçado muito o facto de Linus ter começado a trabalhar há quinze anos, apenas com a sua inteligência e determinação em triunfar. Que, apesar de agora ser multimilionário, era filho de uma mãe solteira, crescera nos subúrbios de Glasgow, deixara a escola aos dezasseis anos para trabalhar na construção.
Em apenas quatro anos, já tinha a sua própria empresa de construção, comprava propriedades em ruínas e transformava-as em hotéis, cada um mais luxuoso do que o anterior. Actualmente, quinze anos depois, Linus possuía dúzias de hotéis por todo o mundo.
Durante os anos, tinha perdido o seu sotaque de Glasgow, tinha aprendido a usar fatos Armani como se tivesse nascido para isso e sentia-se tão confortável na companhia de magnatas como na dos seus próprios trabalhadores.
Andrea Buttonfield sentiu-se confusa com o seu tom acusador.
– Porque deveria importar-me o seu passado?
Linus repreendeu-se imediatamente por revelar aquela pequena racha na sua armadura. No que dizia respeito a Andrea Buttonfield, ela tinha razões suficientes para o desprezar, simplesmente por ser o homem decidido a comprar-lhe a casa familiar e a transformá-la num negócio rentável.
– Decidi que, afinal, não quero esperar pela tua decisão, Andrea – disse, com impaciência. – Qual é a tua resposta? Ou aceitas, ou não.
Andi queria recusar. O seu instinto dizia-lhe que devia fazê-lo. Mas a lembrança de como a sua mãe tinha mudado nos últimos três meses foi suficiente para que pensasse melhor.
A oferta de emprego de Linus Harrison resolveria muitos dos seus problemas no que se referia à sua mãe. Andi sabia que seria parva se rejeitasse aquela oferta só pelo facto de estar na mesma sala que Linus Harrison a deixar nervosa.
Respirou fundo, antes de responder:
– Muito bem, aceito a sua oferta, senhor Harrison. Mas o meu contrato diz que tenho de avisar Gerald com três meses de antecedência, não com um.
Linus Harrison pareceu imperturbável.
– Consigo viver com isso.
Andi só esperava que conseguisse viver com as consequências da sua decisão...
CAPÍTULO 1
– Faz as malas, Andi. Vamos alguns dias para a Escócia!
Andi levantou a cabeça, franziu o sobrolho e olhou para Linus, à porta que separava os seus escritórios no último andar de Tarrington Park. Já sabia que estava ali, no seu apartamento privado no fim do corredor, pois tinha visto o seu carro estacionado à entrada ao chegar para trabalhar naquela manhã. Foi o que disse que fez com que reagisse daquela maneira.
– Para a Escócia?
Linus entrou no escritório e apoiou-se na secretária dela. Usava o cabelo ligeiramente mais curto do que há um ano. O verde-claro dos seus olhos continuava a brilhar com a mesma astúcia sobre os seus traços duros e cinzelados enquanto a olhava.
– Agora que Tarrington Park já abriu as suas portas, estou à procura de outro grande projecto no qual trabalhar. Há um castelo na Escócia que estou a pensar em comprar.
– E queres que vá contigo?
Nunca tinha sugerido levá-la nas suas viagens. Embora também não o tivesse sugerido desta vez. Linus tinha-lhe dito que iam.
– És a minha secretária – recordou-lhe ele.
Andi era muito consciente disso. Tal como tinha consciência de que, nos últimos meses, tinha começado a ver Linus como mais do que o chefe exigente que passava alguns dias por ali para ver os progressos em Tarrington Park e depois regressava à sua vida e ao seu apartamento em Londres.
Esperar que Andi o acompanhasse até à Escócia numa viagem de negócios era bastante razoável. De facto, quando ela trabalhava para Gerald Wickham, acompanhava-o nas viagens de negócios. Mas Linus não era Gerald...
Consciente da reputação desumana de Linus no que se referia às mulheres, Andi prometera a si mesma manter-se afastada dele ao começar a trabalharem juntos, um ano antes. Não era difícil obtê-lo, quando se sentia emocionalmente paralisada depois da morte de David e do seu pai.
Mas, gradualmente, tinha começado a esperar com vontade pelas visitas de Linus. Tinha começado a apreciar o encanto dos seus olhos e a malícia sexy no seu sorriso. Inclusive, reparava na largura dos seus ombros e na força do seu corpo musculado quando caminhava por Tarrington Park a dar ordens.
E, do mesmo modo, tinha consciência da proximidade dele naquele momento, apoiado na sua secretária.
– De que aeroporto partiremos? – perguntou ela, quando Linus se afastou finalmente.
– Estava a pensar em levar o Range Rover.
– Queres ir de carro? – Andi olhou pela janela e viu o céu invernal sombrio. – Não neva na Escócia em Fevereiro?
– Deixa de ser tão susceptível, Andi – respondeu Linus. – Qualquer um diria que não queres ir à Escócia comigo.
E era verdade.
A ideia de estar sozinha na Escócia com Linus durante vários dias fez com que lhe acelerasse o pulso.
– Qual é o teu problema, Andi? Tens outros planos para este fim-de-semana? Um encontro romântico, tal-vez? – acrescentou, com tom brincalhão.
– É claro que não – respondeu ela.
– É claro que não – repetiu ele, com um sorriso. – Passou mais de um ano desde que o santo David Simmington-Browne morreu. Não está na hora de recomeçares a viver? – sobretudo, porque o noivo de Andi não tinha sido absolutamente santo. Durante o último ano, tinha descoberto muitos segredos do outro homem. Segredos dos quais Andi não estava ao corrente...
A sua decisão de contratar Andrea Buttonfield e de lhe dar liberdade na decoração de Tarrington Park tinha sido a melhor jogada empresarial que fizera. Mas o hotel e centro de conferências já tinha aberto há um mês, gerido, com sucesso, por Michael Hall, e já estava na hora de passar para outra coisa. Para os dois.
Andi tinha-se zangado ao ouvir o nome de David.
– A minha vida privada não te diz respeito – disse, com voz gélida.
– Tu não tens vida privada – respondeu ele.
– Então, ainda bem que tu tens de sobra para os dois, não é? – Andi dirigiu-lhe um olhar feroz, sabendo, graças às fotografias que, às vezes, apareciam nos jornais, que a vida de Linus em Londres envolvia noites com uma mulher. Mulheres que raramente despertavam o seu interesse durante mais de dois meses.
– Estás com ciúmes?
Andi levantou-se abruptamente e perguntou:
– Porque haveria de estar com ciúmes? Se essas mulheres são suficientemente estúpidas para aceitarem o pouco que queres dar-lhes, o problema é delas. Garanto-te que não tenho nenhum interesse em aquecer a tua cama!
Andi arrependeu-se das suas palavras ao pronunciá-las, ao dar-se conta de que talvez tivesse revelado demasiado.
Linus olhou-a com os olhos semicerrados, surpreendido com a sua veemência. Só vinha a Tarrington Park de dois em dois meses, mas nunca tinha visto a fria e distante Andi a alterar-se tanto. Aqueles lindos olhos castanhos brilhavam com indignação e tinha as faces vermelhas, as quais eram habitualmente pálidas.
– Talvez devesses esperar que te convidasse antes de dizeres que não – respondeu ele. – Estava a referir-me à tua ausência de vida amorosa, Andi.
Ela pestanejou e regressou à sua aparência profissional e educada enquanto voltava a sentar-se.
– Eu sei – disse.
Linus continuou a olhá-la durante vários segundos, contemplando a sua reacção defensiva.
As coisas tinham sido um pouco tensas entre eles ao começarem a trabalhar juntos, provavelmente devido a algum ressentimento compreensível da parte de Andi ao ver-se praticamente obrigada a trabalhar para ele. Mas, quando Andi tinha aceitado que Linus desejava o seu envolvimento completo no projecto e que as ausências prolongadas dele lhe davam rédea solta no que se referia à decoração interior, o desconforto entre eles começara a desaparecer. Agora, um ano mais tarde, Linus agradecia por Andi ser eficiente e discreta nas questões de negócios, tudo o que poderia desejar numa secretária.
A sua reacção naquele momento também lhe recordou que era uma mulher extremamente bonita. Os fatos que usava não conseguiam disfarçar o facto de ter curvas nos lugares apropriados, com umas pernas compridas e sexys que subiam até ao seu...
– Linus?
– Desculpa – abanou a cabeça e deixou de pensar nos atributos da sua secretária. – Partiremos para a Escócia amanhã. Para além de ver o castelo perto de Edimburgo, tenho de visitar uma pessoa.
– Edimburgo? – repetiu Andi. – Espera – olhou para ele, com perspicácia. – A equipa de râguebi escocesa não joga contra Gales este fim-de-semana?
– Acho que sim – confirmou Linus, com expressão deliberadamente inocente.
– Achas que sim... – repetiu ela.
Sabia que Linus não só jogava a sério, como também que o seu sucesso profissional se devia ao facto de trabalhar arduamente. Mas, independentemente de como fosse rico ou de como estivesse ocupado, Linus tinha mantido o seu amor pelo râguebi e, sempre que lhe era possível, assistia aos jogos da equipa escocesa.
Era impossível que não soubesse que o Torneio das Seis Nações começava naquele fim-de-semana, nem que a Escócia jogaria em casa em Murrayfield, uma zona de Edimburgo, no domingo.
– Sabes que é assim, Linus – disse Andi. – De facto, aposto que tens um bilhete para o jogo.
– Na verdade, tenho dois bilhetes.
– Também esperas que vá contigo a um jogo de râguebi?
– Porque não?
Para começar, o râguebi não lhe interessava absolutamente. Além disso, assistir a um jogo com Linus não constava do seu contrato.
– Se vais visitar amigos e pensas ir a um jogo de râguebi, não entendo para que precisas que vá contigo à Escócia.
– É a primeira vez que te peço que venhas comigo numa viagem de negócios e recusas-te?
– Eu não disse isso.
– Pareceu-me isso.
– Então, deves ter ouvido mal – contra-atacou Andi.
Linus questionou-se se, com efeito, teria ouvido mal. Andi e ele tinham trabalhado bem juntos nas vezes em que tinha vindo a Tarrington Park, mas, no aspecto pessoal, não tinham ido mais além da permissão para lhe chamar «Andi» em vez de «Andrea», como ela tinha insistido ao princípio. Uma situação que Linus considerava conveniente para ambos, até à res-posta de Andi há instantes...
– Irás à Escócia comigo ou não?
– É claro que te acompanharei, se for o que quise-res!
– O que quero de ti, Andi, é a tua contribuição no castelo que há perto de Edimburgo. Fizeste um bom trabalho em Tarrington Park. Dava-me jeito a tua ajuda. Marjorie poderá ficar sozinha durante quatro dias?
– Não está sozinha desde que contrataste a senhora Ferguson como nossa governanta – recordou-lhe Andi.
– Não me digas que continuas incomodada com isso...
Andi tinha-se zangado um pouco quando, numa das suas visitas relâmpago, seis meses antes, Linus lhe tinha informado que tinha contratado uma governanta para a casa do jardim. Não era que houvesse alguma coisa de mal em ter alguém que se ocupasse da casa, mas Andi não queria sentir-se ainda mais em dívida com ele.
A saúde da sua mãe tinha melhorado no último ano. O escândalo da bancarrota que se descobrira depois da morte do seu pai tinha acabado por desaparecer, o que permitira a Marjorie afastar-se do abismo do qual estava a aproximar-se, embora ainda estivesse mais frágil do que Andi gostaria.
Mas a sua mãe e a senhora Ferguson tinham quase a mesma idade e davam-se bem, o que significava que não era preciso que Andi se preocupasse com o facto de deixar Marjorie sozinha alguns dias.
– Não fiquei incomodada – garantiu a Linus. – Só preferia que me tivesses consultado antes de o teres feito, só isso.
– Se o tivesse feito, terias dito que não. Preferi não ter essa discussão. Tu estás muito ocupada aqui e a casa do jardim é demasiado grande para que a tua mãe se encarregue dela sozinha.
– Não te incomodes em tentar explicar-te, Linus – disse Andi. – Ambos sabemos que, aos olhos da minha mãe, tu não podes fazer nada de mal.
– O que posso dizer? Parece que agrado às mulheres de uma certa idade.
Surpreendia-a que Linus visitasse a sua mãe sempre que vinha a Tarrington Park. A atitude dele era sempre quente e atenciosa. O facto de ele ter visto a sua própria mãe a lutar para o sustentar sozinha poderia ser uma das causas do aparente afecto por Marjorie. Fossem quais fossem as razões, a sua mãe parecia gostar dele.
– Segundo os jornais, gostas de todas as mulheres em geral.
– Oh, pára, Andi... – disse ele, com o sobrolho franzido. – Não podes negar que contratar a senhora Ferguson facilitou as coisas a Marjorie.
– Eu não nego nada. A vida é sempre tão fácil para ti? Se alguma coisa não estiver bem, simplesmente, pagas para a resolver?
Criada em Tarrington Park, rodeada dos seus pais, Andi não podia sequer imaginar como teria sido a vida de Linus em criança ou em adolescente. Tinha tido muito amor, primeiro, da mãe e depois, da tia Mae, depois da morte da mãe, quando tinha quinze anos. Mas, certamente, não tivera dinheiro para «resolver» nada. Um dos benefícios da riqueza actual dele era que podia comprar tudo o que quisesse, podia fazer o que quisesse e quando quisesse. E, normalmente, fazia-o...
Andi nunca se queixara das horas extraordinárias que tinha de trabalhar para levar a cabo as alterações em Tarrington Park, mas Linus tinha sido consciente durante as suas visitas de que estava preocupada com o facto de deixar a mãe sozinha durante muito tempo. Tinha sido fácil para ele resolver esse problema, contratando uma governanta. A julgar pela forma como Andi tinha reagido, qualquer um teria pensado que ele pretendia mudar-se para a casa do jardim.
– Nem sempre se trata de dinheiro, Andrea – explicou. – Mas nada do que diga ou faça fará com que deixes de discutir tudo de forma teimosa.
– Sou independente, Linus, não sou teimosa. Há uma diferença.
– Podes permitir-te ter uma governanta? – perguntou ele.
– Sabes que não.
– Então, deixa de te queixar, porque eu posso. Pareceu-me o melhor, sobretudo, com o projecto da Escócia.
– Linus, não esperas que me mude para Edimburgo para fiscalizar as alterações, se comprares o castelo, pois não?
– Claro que não espero que te mudes para a Escócia – respondeu Linus. – Viveres lá durante algumas semanas de vez em quando, talvez, mas não te mudarás para lá.
Andi ficou a olhar para ele, de boca aberta.
– Foi essa a verdadeira razão pela qual contrataste a senhora Ferguson?
– Do que está a falar?
– Contrataste a senhora Ferguson porque sabias que, quando Tarrington Park estivesse aberta, a minha presença constante aqui já não seria necessária.
– A sério? – a voz de Linus era perigosamente suave.
– É claro!
– Andi, não sei o que fiz para te dar a impressão de que todos os meus actos são maquiavélicos.
– Porque não começamos pelo facto de me teres obrigado a trabalhar para ti?
– Isso pode mudar quando quiseres demitir-te.
Andi franziu o sobrolho e olharam-se fixamente.
Foi Andi quem desviou primeiro o olhar.
– Queres que reserve o hotel em Edimburgo para as três noites? – perguntou.
– Não nos hospedaremos num hotel em nenhuma das noites – respondeu Linus. – Já tratei dos preparativos.
– Tenho de saber onde nos hospedaremos para dizer à minha mãe onde estarei.
– Ficaremos em casa da minha tia Mae, perto de Ayr, amanhã à noite. Depois, iremos...
– Em casa da tua tia Mae? – repetiu Andi.
– Tens algum problema com isso?
Não era um problema. Mas uma reserva. Era-lhe fácil manter as distâncias a nível emocional com Linus nas suas visitas a Tarrington Park quando lidava com ele a nível profissional. Mas ficar com ele em casa de um dos seus familiares era demasiado íntimo.
– Não creio que a tua tia queira que uma das tuas empregadas esteja presente durante a tua visita.
– Pelo contrário – disse Linus. – Está desejosa de te conhecer.
– A sério?
– Claro! Quer conhecer a mulher que conseguiu suportar-me durante o último ano.
– Como tua empregada, queres dizer?
– Claro que como empregada! A secretária que mais tempo aguentou trabalhou dez meses para mim.
– Não sabia que... – a sua voz apagou-se. Era verdade que o ritmo de trabalho de Linus era tão exigente como ele, mas Andi não podia negar que o último ano tinha sido absorvente e que tinha culminado num profundo sentimento de satisfação quando Tarrington Park ficara acabada e se tornara um sucesso.
Linus encolheu os ombros.
– Não pensei que fosse importante!
– O que fizeste exactamente às minhas predecessoras? – perguntou ela.
– Absolutamente nada.
– Ah... – Andi assentiu lentamente e sentiu como os músculos do seu estômago ficavam tensos. – Deduzo que esse tenha sido o problema?
– Aparentemente – concordou ele. – Não vou para a cama com as mulheres que trabalham para mim, Andi – acrescentou, abruptamente.
– Então, estamos com sorte, porque eu não tenho nenhum interesse em ter uma relação contigo fora do escritório – respondeu ela, com frieza.
Linus não lhe teria chamado «sorte» exactamente. Andi era uma mulher extraordinariamente bela, mas, ao contratá-la, tinha posto fim à ideia de que pudesse haver alguma coisa entre eles.
Embora não pudesse negar que o seu interesse despertara minutos antes, quando Andi tinha reagido de uma maneira tão defensiva à sugestão de que pudesse haver intimidade entre eles, antes de o ter insultado no que se referia à contratação da senhora Ferguson.
– Estamos com sorte – repetiu ele.
– Certamente, Linus – acrescentou Andi, antes que ele saísse do escritório. – Talvez devesse mencionar que o meu avô materno é galês.
– Isso significa que apoiarás Gales no jogo de domingo?
– Certamente – respondeu ela, com um sorriso. – Pelo que sei, são bons.
– Sabes mais de râguebi do que pensava – murmurou ele.
– Na verdade, não. Mas lembro-me das chamadas do meu avô quando ganhavam um jogo.
– Hum... – disse Linus, franzindo o sobrolho. – Depois de dez anos, está na hora de a Escócia voltar a ganhar.
– Ou a Inglaterra. Jogam contra a Itália no sábado, pelo que sei – acrescentou ela, inocentemente.
– Vejo que nos divertiremos este fim-de-semana.
Andi não pensava o mesmo da ideia de passar quatro dias na Escócia com Linus. Consciente da sua presença física e advertida por ele mesmo de que nunca ia para a cama com as suas empregadas, esses quatro dias prometiam ser muito difíceis...
CAPÍTULO 2
– Pensei que tinhas dito que nem sempre nevava na Escócia em Fevereiro.
– Enganei-me – respondeu Linus, com o sobrolho franzido, sentado ao volante do Range Rover, enquanto tentava ver a estrada através da neve que caía.
Tinham saído de Hampshire muito cedo naquela manhã e tinham parado perto de Manchester para almoçar. Já estava escuro quando a neve recomeçara a cair, quase imediatamente a seguir a atravessarem a fronteira entre a Inglaterra e a Escócia, e tinha começado a cair com mais força à medida que se aproximavam da casa da sua tia em Ayr, na costa oeste.
– Talvez devesse ter visto a previsão meteorológica antes de termos partido – acrescentou ele, com impaciência.
– Talvez? Deu-me a impressão de que tinhas tudo sob controlo – murmurou Andi, secamente.
– Infelizmente, nem sequer eu posso controlar o tempo. – «O tempo está realmente mau», pensou Linus ao dar-se conta de que mal conseguia ver mais de dois metros à frente. Avançavam cada vez mais devagar. – Se não parar em breve, teremos de procurar um lugar onde passar a noite.
– Está assim tão mau? – perguntou ela.
– Podes vê-lo por ti mesma – respondeu ele, assinalando com a cabeça a estrada coberta de neve.
Não era que o Range Rover não estivesse preparado para aquilo, mas Linus não queria continuar a conduzir sem saber por onde ia. O facto de não ver nenhum carro em sentido contrário há algum tempo indicava que a situação seria pior mais adiante.
– Não tenho intenção de dormir no carro, portanto, procura um lugar onde possamos passar a noite – Linus não deixava de olhar para a estrada enquanto falava.
Andi virou a cabeça e começou a procurar através da neve qualquer sinal de pessoas, sobretudo, as luzes de alguma estalagem ou hotel onde pudessem descansar até que a neve parasse. Sentia-se culpada por não ter visto a previsão meteorológica e não estar preparada. Estar zangada com Linus pela possibilidade de ter de passar algumas semanas na Escócia de vez em quando não era desculpa.
– Ali! – gritou, de repente, assinalando uma luz situada à esquerda da estrada. – Pode ser uma estalagem ou... Não, é só uma luz.
– Uma luz significa que é habitado – disse Linus e olhou para onde Andi tinha assinalado. – Sim! Há um caminho. Pelo menos, espero que seja um caminho – franziu o sobrolho e virou o carro em direcção às luzes. A neve cobria tudo e esperava que debaixo daquele manto branco houvesse uma superfície firme. – É uma estalagem – acrescentou, com satisfação, ao ver o letreiro onde se via um cardo e um veado. Colocou o carro onde esperava que fosse o estacionamento deserto e desligou o motor. – Não é muito grande, mas terá de servir. Queres experimentar?
– Temos outra opção? – perguntou ela.
– Não, mas achei que era melhor perguntar – brincou ele, enquanto tirava os casacos do banco traseiro. – Não saias até que venha buscar-te – aconselhou, enquanto se preparava para abrir a porta e enfrentar a tempestade de neve. – Se te perdesses com esta tempestade, talvez não fosse capaz de voltar a encontrar-te.
Andi tremeu ao sentir o frio quando Linus abriu a porta e saiu, antes de voltar a fechá-la. A neve caía com tanta intensidade, que nem sequer conseguiu vê-lo a contornar o carro para abrir a sua porta. Só se apercebeu de que o tinha feito quando a porta se abriu ao seu lado.
– Cuidado, há gelo – disse ele, quando Andi apoiou os pés no chão.
A advertência chegou demasiado tarde, porque os seus pés escorregaram e teve de se agarrar ao casaco de Linus para não cair.
– Desculpa – murmurou, entredentes, enquanto tentava recuperar o equilíbrio. O vento e a neve eram tão frios que já sentia a cara e a queixo gelados. – Isto é horrível! – gritou por cima do rugir do vento e soube que Linus não a tinha ouvido ao vê-lo a abanar a cabeça.
Linus agarrou-a pela mão e virou-se para enfrentar o vento, enquanto caminhavam para a estalagem. Caminhavam devagar e surpreendeu-a ver a distância que faltava quando levantou a cabeça. O vento magoava tanto a cara que parecia que soprava de propósito para lhes impedir a passagem. Quase como se as forças da Natureza não quisessem que chegassem ao refúgio e ao calor que a estalagem prometia.
Andi não conseguia respirar bem pelo nariz e a garganta ardeu-lhe quando tentou respirar pela boca.
– Bolas, assim não vamos a lado nenhum! – Andi mal ouviu a exclamação impaciente de Linus antes de o vento a levar, de modo que se surpreendeu quando ele se virou, lhe pegou ao colo e começou a caminhar com determinação para as luzes da estalagem.
Andi passou-lhe os braços pelo pescoço e baixou a cabeça contra o seu peito para se proteger do vento. Inclusive a humidade do seu casaco era mais agradável do que o ardor na garganta quando tentava respirar.
Era incrível pensar que, embora fizesse frio, o sol tinha tentado brilhar ao saírem de Hampshire naquela manhã. Era como se estivessem noutro mundo.
O que seria deles se Linus não conseguisse chegar à estalagem? Agarrou-se a ele e entrelaçou os dedos gelados. Deveria ter trazido umas luvas. E um gorro.
– Já estamos quase a chegar! – gritou Linus. – Abre a porta – acrescentou, segundos mais tarde.
Andi levantou a cabeça e viu que já tinham chegado à estalagem. A luz brilhava através das janelas congeladas, assim como o que parecia ser uma lareira.
Tinha os dedos tão frios e insensibilizados que lhe custou a afastá-los. A neve desfez-se na manga do seu casaco e depois caiu ao chão quando direccionou o braço para a maçaneta. Os dedos escorregaram-lhe ao princípio, mas finalmente conseguiu agarrá-la e virá-la. Ambos estiveram prestes a cair ao atravessarem a porta do que parecia ser o bar.
O estalajadeiro ficou a olhar para eles, de boca aberta, obviamente perplexo ao ver que havia alguém lá fora com aquele tempo.
– Feche a porta, por favor – disse-lhe Linus, enquanto levava Andi para junto da lareira. Sentou-se sem a largar, pois ela parecia incapaz de largar o seu casaco.
– Está tudo bem, Andi – murmurou ele. – Estamos bem – acrescentou, com satisfação, enquanto o calor do lume começava a desentorpecer-lhe a cara e as mãos.
A sensação de formigueiro que se seguiu foi quase igualmente dolorosa, mas era uma dor agradável, depois da preocupação dos últimos minutos. Realmente, não tinha tido a certeza de conseguir chegar à estalagem no meio da tempestade.
Embora não pensasse dizê-lo a Andi. Sabia por experiência que Andi era uma mulher que normalmente mantinha a calma em qualquer situação. Tinha-o feito depois da morte do seu pai e do seu noivo, durante a venda da casa familiar para saldar as dívidas do seu pai e também ao aceitar trabalhar para ele. Mas, a julgar pela maneira como se agarrava a ele, parecia que tinha chegado ao limite da sua resistência.
Olhou para ela e pareceu-lhe pequena nos seus braços, quase vulnerável, com o cabelo colado à cabeça e à cara, e os olhos muito abertos enquanto olhava para ele. Um homem poderia perder-se naqueles olhos, poderia perder a sua vontade, a sua alma e ser-lhe indiferente, desde que Andi continuasse a olhar para ele com aquele calor.
Nunca tinha reparado no comprimento das suas pestanas espessas e escuras. Um grande contraste com o cabelo loiro. Os seus lábios eram de um cor-de-rosa escuro, carnudos e proeminentes, como se esperassem ser beijados.
– Beba isto, rapaz. E a sua rapariga, também.
Linus desviou o olhar de Andi e fixou-o no estalajadeiro, que estava de pé, junto da poltrona, a segurar dois copos com um líquido cor de âmbar. «Provavelmente, uísque», pensou Linus, enquanto aceitava um dos copos e o levava aos lábios de Andi.
– Bebe – disse-lhe.
Andi engoliu compulsivamente enquanto Linus olhava para ela. Havia qualquer coisa no olhar dele, uma certeza que só serviu para aumentar o seu nervosismo por ter de passar quatro dias a sós com ele na Escócia.
Esteve prestes a engasgar-se, pois não estava habituada a álcool, e o uísque queimou-lhe a garganta. Andi desentorpeceu o suficiente para se dar conta de que estava sentada nas coxas de Linus, entre os seus braços.
Endireitou-se, tirou-lhe o copo de uísque da mão e levantou-se para se afastar. Evitou olhar para ele e ficou a observar o lume enquanto sentia o olhar dele a seguir os seus movimentos.
O que acontecera?
Olhara para Linus e vira... O quê? Consciência. Desejo, talvez. Quase como se Linus estivesse a olhar para ela pela primeira vez. E talvez fosse assim. Andi parecia-se pouco naquele dia com a secretária formal que ia para o escritório. Usava o cabelo solto, as suas calças de ganga e a sua camisola eram muito mais informais do que o que usava no escritório. Sentia-se estranhamente vulnerável sem o escudo dos seus fatos. Sobretudo, se essa mudança também tivesse afectado o modo como Linus a via.
De repente, foi consciente da conversa entre Linus e o estalajadeiro.
– A minha mulher preparará o quarto – murmurou o estalajadeiro, antes de desaparecer por uma porta onde dizia: «Privado».
– Queres as boas ou as más notícias?
Andi virou-se para Linus, com o sobrolho franzido.
– Primeiro, as más – respondeu.
– A má notícia é que isto é um pub, não um hotel, portanto, o proprietário não aluga quartos habitualmente.
– E as boas notícias? – perguntou ela.
– Tem um quarto que pode ceder-nos para passarmos a noite. É o quarto da sua filha, mas ela está na universidade.
– Um quarto, no singular?
– Efectivamente – confirmou Linus.
– Estás a sugerir que partilhemos o quarto? – Andi olhou para ele, furiosa, do outro lado da sala. Os seus olhos castanhos brilhavam com indignação.
Linus respondeu com o sobrolho franzido ao ver a sua reacção. O que pensava? Que ia atirar-se a ela assim que estivessem a sós no quarto?
Não era que se tratasse de uma ideia inaceitável, vendo como estava bonita. Mas Linus não gostava da insinuação de que não conseguia manter as mãos quietas.
– Preferes que voltemos para a tempestade e tentemos arranjar um lugar onde tenham dois quartos disponíveis?
– Não, é claro que não! – respondeu ela. – Mas podias dormir aqui em baixo.
Para além da poltrona onde Linus estava sentado, havia mais uma poltrona e bancos e cadeiras na sala de jantar, postos à volta das mesas vazias.
– Prefiro a comodidade de uma cama – respondeu ele. – Mas não tenho objecção em que tu durmas aqui em baixo, se for o que quiseres. O dono achará estranho, pois parece ter assumido que somos um casal.
– Então, faz com que não o assuma! Não vou partilhar o quarto contigo, Linus.
– Qual é o teu problema, Andi?
– Eu... Tu... Nós... – Andi abanou a cabeça, horrorizada com a ideia de partilhar o quarto com ele, consciente da sua presença. – Tu és o meu chefe. Trabalho para ti!
– E isso impede que partilhemos o quarto?
– Segundo tu, sim! Não dormes com as tuas empregadas, lembras-te?
– Partilharmos o quarto não implica irmos para a cama.
– Não necessariamente.
– Ficarei com as mãos quietas, se quiseres.
– Isso é tão pouco cavalheiresco!
– Não recordo ter dito que era um cavalheiro.
– Tanto faz! És...
– Falaremos disto mais tarde, Andi – respondeu Linus e virou-se para o proprietário quando este regressou.
– A minha mulher já está a aquecer um pouco de sopa – disse o homem. – Pôs pão a cozer para a acompanhar, enquanto prepara a cama no andar de cima.
Era agradável ouvir o sotaque escocês do proprietário, o que fez com que Linus se desse conta de como sentia saudades da sua terra natal e do calor da sua gente.
Linus tinha abandonado a Escócia anos antes. Nunca se tinha arrependido da sua decisão, mas ouvir o sotaque escocês recordava-lhe que aquele continuava a ser o seu lar.
– Quanto tempo acha que durará a tempestade de neve? – perguntou Andi ao proprietário.
– Oh, isto não é uma tempestade de neve! – respondeu o homem. – Não passa de uma pequena queda de neve.
Andi ficou boquiaberta. O que seria deles se se tivessem deparado com uma tempestade de neve?
– Sassenach – disse Linus ao dono em voz baixa.
Andi não sabia o que significava aquela palavra, mas tinha a certeza de que era algo desagradável. Dirigiu a Linus um olhar censor, antes de se virar para o proprietário.
– E quanto tempo acha que durará a queda de neve?
– Apenas alguns dias – respondeu ele.
– Alguns dias?
– Uma tempestade de neve costuma durar uma semana – explicou o homem.
– Que tranquilizador... – murmurou Andi, enquanto se sentava na poltrona situada à frente da de Linus, o qual parecia divertir-se com a situação.
No entanto, ela não conseguia achá-la divertida. Como poderia parecer-lhe divertida, quando a simples ideia de partilhar o quarto com ele fazia com que lhe tremessem os joelhos?
– Vou ver como está a vossa comida – disse o proprietário, nervosamente, depois de contemplar os olhares severos que dirigiam um ao outro numa batalha silenciosa.
Andi inclinou-se para a frente na poltrona quando ficaram a sós.
– Linus, não te dás conta da seriedade de ficarmos aqui e partilharmos o quarto?
Linus tirou o casaco, antes de responder:
– Estou aberto a qualquer sugestão que possas ter. Sugestão viável, é claro. O facto de eu ser um homem e tu seres uma mulher não quer dizer que vá atirar-me a ti assim que ficarmos sozinhos.
– Eu sei – respondeu ela, com as faces coradas.
– Talvez sejas tu quem está tentada a atirar-se a mim.
– Linus – disse ela, com tom ameaçador.
– Andi? – perguntou ele, desafiante.
Ao olhar para Linus nos olhos e ver o brilho no seu olhar, Andi soube que seria pouco inteligente continuar a falar daquilo naquele momento.
A ideia de partilhar o quarto com ele durante a noite era pouco inteligente...
– A culpa é toda tua – disse, finalmente.
– Eu não sou responsável pelo tempo, Andi.
– És responsável por eu estar na Escócia. É razão suficiente para te culpar desta desgraça!
– Que desgraça? Tal como o proprietário disse, não passa de uma pequena queda de neve. Mais alguns dias e poderemos continuar o nosso caminho.
– Mesmo a tempo do teu estúpido jogo de râguebi, suponho. Vinte e dois homens a tentarem partir a cabeça.
– Trinta homens. É râguebi, Andi, não é futebol. E não tentam partir a cabeça. O objectivo do jogo é marcar pontos, correndo com a bola e chegando ao outro lado da linha.
– Sempre que vejo um pouco de algum jogo na televisão, enquanto mudo de canal, é claro...
– É claro!
– Parece-me sempre que é uma confusão de braços, pernas e corpos entrelaçados no chão.
– Isso é porque o outro objectivo do jogo é que uma equipa impeça que os seus adversários marquem pontos.
Andi soprou, com desdém.
– Não me convences, Linus.
– Não estou a tentar convencer-te! – levantou-se, com impaciência. – Obviamente, és inculta no que se refere ao magnífico desporto do râguebi.
– Magnífico! – repetiu ela. – E suponho que tu saibas tudo a esse respeito.
– Sim. Fui quem mais pontos marcou durante o meu último ano na escola.
– Isso explica tudo.
– Importas-te de explicar?
– Sim, importo-me – Andi levantou-se com um movimento fluido e sentiu-se aliviada ao verificar que as suas pernas já tinham aquecido. – «Sassenach»?
Linus encolheu os ombros.
– Alguém de Inglaterra.
Andi continuou a olhar para ele com desconfiança, certa de que aquela palavra significava mais.
– Vou perguntar ao proprietário se tem uma casa de banho onde possa limpar-me um pouco – disse ela, abruptamente. – Se falares a sério sobre passarmos a noite aqui...
– Claro que falo a sério, Andi.
– Pois, as nossas malas continuam lá fora, no carro – disse-lhe ela e sentiu-se satisfeita ao ver a expressão de dor no seu rosto. Linus olhou pela janela e apercebeu-se de que teria de voltar a sair para ir buscar as malas. – Diverte-te! – acrescentou Andi, antes de desaparecer por trás da porta que dizia «Privado».
O seu sorriso desapareceu ao chegar ao corredor e apoiar-se na parede.
Não podia partilhar o quarto com Linus naquela noite. Nem na noite seguinte, se a tempestade não amainasse. De facto, tremia só de pensar nisso.
E a pouca importância que Linus parecia dar ao assunto também não ajudava.
Andi tinha ficado traumatizada durante meses depois da morte de David e do seu pai. Não tinha olhado para outro homem e muito menos se sentira atraída por algum. Mas, a pouco e pouco, tinha-se tornado consciente da presença de Linus. Como podia uma mulher trabalhar com ele regularmente e não reparar na vitalidade daquele corpo e no encanto daqueles traços?
Andi, certamente, não conseguia.
O que não ajudaria a normalizar a situação quando se encontrasse a dormir com ele no mesmo quarto, naquela noite.
CAPÍTULO 3
– Só há uma cama!
– Onde queres chegar? – perguntou Linus, enquanto colocava as malas no quarto que o proprietário lhes tinha oferecido. A lareira estava acesa e os únicos móveis que havia no quarto eram a cama, uma cadeira e uma secretária.
Tinha aproveitado a ausência de Andi para voltar a vestir o casaco e ir buscar as malas. A neve continuava a cair com força e o vento soprava sem piedade. Tinha-se sentido aliviado ao voltar para o pub.
– Não disseste nada sobre só haver uma cama – insistiu Andi, com as faces coradas, sem deixar de olhar para a cama.
– Jim e Jennie têm uma filha, portanto, só há uma cama – explicou ele, enquanto deixava as malas no chão.
– Tu sabias? – perguntou ela.
– Supu-lo – respondeu ele, encolhendo os ombros. – E deixa de ser tão fingida, Andi.
Ela ficou a olhar para ele, com os olhos muito abertos. As emoções que Linus despertava nela eram completamente novas e muito inquietantes. Porque, embora Andi tivesse estado prestes a casar-se com David, nunca se tinha sentido fisicamente atraída por ele como se sentia por Linus. Era tão consciente da sua presença que lhe tremiam as pernas só de pensar em partilhar a cama com ele.
Se tinha aprendido alguma coisa sobre ele durante o último ano fora que não estava interessado em ter uma relação permanente. Sabia que, assim que alguma das mulheres que ocupavam a sua cama mostrava sinais de esperar algum compromisso da sua parte, era excluída da sua vida.
Ele mesmo tinha insinuado no dia anterior que uma exclusão semelhante acontecera com uma das suas secretárias anteriores, que teria mostrado interesse em ter uma relação pessoal com ele.
– Talvez te preocupe que, ao partilharmos a cama, te deixes levar pela luxúria – brincou Linus.
– Dificilmente – respondeu ela.
– Então, não há nenhum problema, pois não?
– Partilhaste a cama com alguma mulher nos últimos vinte anos com quem não tenhas feito amor?
– Claro que... – Linus deixou a frase a meio para pensar na pergunta. – Não, nunca – admitiu, finalmente. – Mas há uma primeira vez para tudo.
– A sério?
– Sabes uma coisa, começas a irritar-me, Andi – disse ele. – Muito bem, és bonita e tens um corpo fantástico, sobretudo, com essas calças de ganga justas e essa camisola verde. Mas isso não significa que vá tentar fazer amor contigo quando estiveres na cama.
Andi sentia-se tonta. Linus achava que era bonita e que tinha um corpo fantástico...
Aquela certeza deu-lhe vontade de gritar. Certamente, fizera-a ganhar consciência das calças de ganga e da camisola que usava naquele momento.
– Bom, isso ajudou a esclarecer a situação – murmurou ela, com ironia. – Dormirei na cadeira.
– Estás a tentar fazer com que me sinta mal, Andi?
– Estou a conseguir?
– Não.
– Bem me parecia.
Andi olhou fixamente para ele e reparou nas rugas de cansaço junto dos seus olhos e da sua boca. Naqueles lábios esculpidos que, sem dúvida, tinham sido feitos para deixar uma mulher louca...
«Pára, Andi!», ordenou a si mesma. Imaginar os lábios de Linus pelo seu corpo não ajudava a encarar a situação.
Porque é que só de olhar para ele tinha consciência do seu próprio corpo?
Suspirou.
– Teria sido muito mais simples se tivesses corrigido o proprietário quando assumiu que éramos um casal.
Linus encolheu os ombros.
– Mesmo que lho tivesse explicado, duvido que tivesse mudado alguma coisa. Só há um quarto. Além disso, és uma mulher bonita, Andi, e eu sou um homem de sangue quente – explicou ele, com impaciência. O sobrolho franzido de Andi não subtraiu beleza ao seu rosto.
O seu cabelo já tinha secado e caía-lhe sobre os ombros. Voltava a ter cor nas faces e nos lábios, e levantava o queixo, desafiante, como sempre.
Andi era bonita. Incrivelmente bonita. Então, porque é que a sua relação se mantivera num nível platónico durante o último ano?
Porque Linus já sabia que Andi era, com efeito, a melhor secretária daquele hemisfério e uma mudança na sua relação pessoal implicaria uma mudança na sua relação profissional, se não o fim da mesma.
Além disso, Andi ainda chorava pela perda de Simmington-Browne.
Ao longo do último ano, Linus tinha-se visto várias vezes tentado a desfazer as suas ilusões sobre o seu falecido noivo. Mas resistia. Não tinha garantias de que Andi acreditasse nele, parecia ter posto Simmington-Browne numa espécie de pedestal, ao ponto de não deixar entrar nenhum homem na sua vida.
Felizmente, os segredos de Simmington-Browne tinham morrido com ele. Era uma certeza que Linus, depois de descobrir a verdade meses depois do acidente, tinha escolhido guardar para si. E continuaria a fazê-lo.
A não ser que Andi o obrigasse a fazer o contrário...
– Mesmo assim, devias ter-lhe explicado qual é a nossa relação – insistiu ela. – Mas, obviamente, já é demasiado tarde.
– Obviamente.
– Sugiro que voltemos para baixo. A comida já deve estar pronta.
– Descerei dentro de alguns minutos – respondeu Linus. – Tal como tu, preciso de me lavar antes de comer – acrescentou, quando Andi parou e olhou inquisitoriamente para ele. – Imagino que partilhemos a casa de banho com os proprietários.
– Assim parece – confirmou Andi. A casa de banho onde tinha ido ficava a meio do corredor e tinha artigos de higiene para homem e mulher. – É muito amável da sua parte deixarem-nos usar o quarto da sua filha desta maneira.
Linus assentiu.
– Sugiro-te que o digas quando desceres.
– Pensava fazê-lo – respondeu ela. – É contigo que estou incomodada, Linus, não com Jim, nem com a sua esposa.
– Que sortudo que eu sou!
– És impossível! – exclamou Andi.
– É o que dizem – respondeu ele, encolhendo os ombros, como se lhe fosse indiferente.
Então, Andi lembrou-se. Teria de conhecer a sua tia Mae nos próximos dias. Sem dúvida, ela não esperaria também que partilhassem o quarto...
– Espero que, pelo menos, a tua tia Mae saiba que dormiremos em quartos separados.
– É claro – respondeu ele. – De facto, acho que a minha tia se surpreenderá contigo.
– Em que sentido?
– Acho que tem a impressão de que és ligeiramente mais velha do que realmente és.
– E porque haveria de pensar isso?
– Provavelmente, porque a descrição «formal, oficiosa e eficiente» soa a uma pessoa mais velha.
– Foi o que lhe disseste sobre mim?
– Não te parece uma descrição adequada?
Bom, sim, era adequada. Mas parecia tão chata... Parecia a descrição de uma mulher com o dobro da idade dela.
Linus vê-la-ia assim? Se fosse assim, Andi não precisava de se preocupar com o facto de partilhar a cama com ele.
– Maravilhoso – murmurou. – Talvez devesses telefonar-lhe e dizer-lhe que nos atrasaremos.
– É muito atencioso da tua parte, Andi, mas telefonei-lhe antes de trazer as malas – respondeu Linus. – Em Ayr também está a nevar muito, portanto, já tinha imaginado que teríamos de parar em algum ponto do caminho.
Aparentemente, Andi era a única que não estava satisfeita com a situação.
Embora se tivesse alegrado ligeiramente ao descobrir que a suposta sopa era, na verdade, uma tigela enorme de carne estufada, acompanhada de pão quente. Os quatro jantaram juntos na pequena sala de jantar adjacente ao bar. A mulher do proprietário, Jennie, era uma mulher roliça de meia-idade, que tinha recebido os seus dois convidados com verdadeiro entusiasmo.
– Nós, os escoceses, somos quentes e amáveis quando se atravessa a nossa brusquidão inicial – respondeu Linus ao comentário de Andi a esse respeito, quando Jim e Jennie se retiraram para a cozinha.
Andi nunca tinha pensado que Linus fosse escocês, mas, chamando-se Linus Harrison, o que mais poderia ser? Embora tivesse notado um certo sotaque na sua voz, que, normalmente, era bem modulada, enquanto conversava com o casal durante o jantar, um sotaque que, obviamente, tinha apagado de forma deliberada durante os anos que tinha passado em Inglaterra.
– Então, é evidente que eu nunca atravessei a tua – disse ela.
– Desejavas fazê-lo?
Andi sentiu que lhe ardiam as faces sob o escrutínio do seu olhar.
– Claro que não – respondeu. – Sou a tua secretária, Linus, portanto, a tua conduta, brusca ou não, não me diz respeito.
Linus arqueou os sobrolhos.
– Creio ter detectado uma certa censura na tua voz.
– Não é verdade.
– Oh, é, Andi! – Limus esticou o braço por cima da mesa e cobriu-lhe a mão com a sua, enquanto a olhava nos olhos. – Claro que sim.
Andi não conseguia desviar o olhar e sentiu-se hipnotizada por aqueles olhos.
– Isto não é boa ideia, Linus... – disse, com voz entrecortada.
«Não, não é», pensou Linus. Por um instante, ao contemplar aqueles olhos castanhos e acariciar-lhe a mão, não conseguia pensar noutra coisa.
– Linus?
A voz de Andi fê-lo deixar de pensar em como os seus lábios lhe pareciam desejáveis.
Andi trabalhava há um ano para ele. Embora Linus talvez tivesse sido consciente da sua beleza desde o início, nunca tinha desejado atravessar a barreira entre chefe e empregada. Até àquele momento.
Acontecera alguma coisa nas últimas horas que tinha alterado isso. Mas o quê?
Nunca lhe tinha tocado. Nunca lhe pegara ao colo. Nunca tinha experimentado a forma como ela se agarrara a ele, uma vez dentro do pub. Nunca tinha acariciado a suavidade daquelas mãos.
– Tens razão – respondeu ele e largou-lhe a mão imediatamente.
Andi sentia um formigueiro nos dedos depois de Linus os ter acariciado e as faces ardiam-lhe. Só porque Linus lhe tinha tocado?
Estaria tão só que a simples carícia de um homem era capaz de despertar os seus sentidos daquela maneira? Porque tinha consciência de tudo só de olhar para ele.
Tinha o cabelo ligeiramente despenteado e era tentador para qualquer mulher deslizar os dedos pela sua cabeleira. Os seus olhos, aqueles olhos verde-claros, pareciam opacos, como se escondessem os seus verdadeiros pensamentos. A sua cara parecia feita de pedra, dura e bonita. Os seus ombros eram largos e fortes sob a sua camisola preta. A sua barriga, plana, as suas ancas, estreitas. E as suas pernas compridas sob as calças de ganga gastas...
Linus Harrison era o homem mais atraente que já tinha visto.
Salvo que, na verdade, não o vira durante o último ano, pois tinha continuado a chorar pela morte de David e do seu pai. Bom, quase o ano inteiro... Durante os últimos seis meses, tinha começado a ver Linus como um homem perigosamente atraente.
De repente, levantou-se.
– Acho que vou para a cama – disse.
– Pensei que tinhas decidido dormir na cadeira.
– Se insistires em dormir na cama, assim o farei – respondeu ela.
– Oh, claro que insisto! – respondeu ele e suspirou ao ver a sua expressão de agonia. – Não tem de ser desta maneira, Andi.
– Parece-me que sim.
– Pelo amor de Deus, Andi, podes construir uma barreira de almofadas a meio da cama, se isso te fizer sentir mais segura!
– Só estou a tentar ser sensata, Linus.
– Estás a comportar-te como uma virgem vitoriana, receosa pela sua inocência.
Talvez porque era verdade. Não a parte de ser vitoriana, mas de ser virgem.
Andi entendia que isso parecesse impossível a Linus, quando ela tinha quase vinte e oito anos e tinha estado noiva. Mas, quando estava na universidade, Andi não tinha querido ter o tipo de relações esporádicas de que as suas amigas tanto pareciam gostar. E o cortejo de David era algo ainda recente quando morrera, portanto, não tinham considerado irem para a cama juntos. Não tinham ido além de alguns beijos apaixonados.
Portanto, ali estava, Andrea Buttonfield, uma virgem de quase vinte e oito anos.
– Não sejas ridículo, Linus – respondeu. – Só estou a tentar manter a formalidade da nossa relação profissional.
– Talvez devesse ditar-te alguma coisa antes de irmos dormir.
– Eu não faço ditados de nenhum tipo! – garantiu-lhe Andi.
– Não, claro que não – concordou Linus. – Está bem, Andi, ganhaste. Eu dormirei na cadeira. Espero que não seja um sorriso triunfal o que vejo nos teus lábios.
– Claro que não – garantiu-lhe ela, com expressão inocente.
«Demasiado inocente», pensou Linus.
– Dado que eu terei de sofrer os desconfortos da cadeira, acho que ficarei mais um pouco aqui em baixo e beberei outro copo de uísque antes de ir dormir.
Na verdade, Linus também não se sentia confortável com a ideia de partilhar o quarto com Andi. Aqueles breves instantes em que se tinham olhado indicavam que não eram tão imunes um ao outro como teria desejado.
A sua pele era suave como o veludo e igualmente sensual. O riso nos seus olhos era estimulante. E a promessa do menear das suas ancas enquanto abandonava a sala para ir dormir era uma tentação à qual Linus não tinha a certeza de conseguir resistir quando estivesse a sós com ela no quarto.
O que raios se passava? Não se sentia necessitado sexualmente. Era verdade que a sua última relação tinha acabado há vários meses, mas isso não explicava o desejo que sentia por Andi, nem os pensamentos tórridos que enchiam a sua cabeça. A fria e distante Andrea Buttonfield...
Salvo que já não parecia fria e muito menos distante...
CAPÍTULO 4
– Podes parar de te mexer e dormir?
Andi ficou quieta na cama.
– Não estou cómoda – a presença de Linus no quarto fazia com que Andi estivesse nervosa.
– Então, talvez eu tenha saído a ganhar – murmurou Linus. – Esta cadeira não é assim tão má.
– Sádico!
Ele riu-se suavemente na escuridão. A única luz do quarto era a que proporcionavam as brasas do lume e a luz da lua reflectida na neve do exterior.
– Queres trocar? – ofereceu Linus, quando Andi começou a mexer-se novamente.
– Então, não ficarias cómodo.
– Antes, não parecias tão preocupada com a minha comodidade – Linus recostou-se e olhou para o tecto. Tentava afastar da sua cabeça a lembrança de Andi aninhada sob a manta, quando ele tinha chegado ao quarto: a cabeleira dourada espalhada sobre a almofada, os olhos escuros e brilhantes enquanto olhava para ele.
– Dei-te uma das mantas – disse ela.
– Uma delas – concordou ele. – Talvez não te tenhas dado conta, Andi, aconchegada sob as mantas como estás, mas está muito frio aqui, apesar da lareira.
Andi endireitou-se e puxou as almofadas para ficar mais confortável, consciente de que o problema não era da cama. Era demasiado consciente da presença de Linus, sentado na cadeira a poucos metros de distância. Podia inclusive ouvir a sua respiração.
E não queria ter consciência disso.
– Andi, podes adormecer de uma vez por todas?
– Tu também não estás a dormir, apesar de teres dito que estavas exausto.
– Se não te acalmares, então, irei para aí.
Andi ficou muito quieta, quase sem respirar, mas, ao mesmo tempo, foi consciente dos batimentos acelerados do seu coração, tão fortes que até Linus poderia ouvi-los.
– Pensei que isso te acalmasse – disse Linus e riu-se na escuridão.
Ela ficou deitada, obrigando-se a não se mexer, a não demonstrar que era plenamente consciente de Linus e da promessa que escondiam as suas palavras.
O que raios se passava? Linus era o seu chefe e ti-nha-o sido durante o último ano. Era verdade que nunca tinham viajado juntos e muito menos tinham tido de partilhar um quarto, mas, mesmo assim, não estava a gerir muito bem a situação.
Andi também tinha consciência de que era ela quem ocupava a cama, enquanto Linus tentava acomodar-se na poltrona. Consciente de que ele era o chefe e ela, a empregada.
Respirou fundo, desejava convidar Linus a partilhar a cama, mas receava o que pudesse acontecer.
Andi emitiu um grito ao ouvir que Linus se levantava e caminhava para a cama.
– Já chega! – exclamou ele, enquanto se deitava ao seu lado.
Andi ficou a olhar para ele, de boca aberta.
– Linus...
– Decidi acabar com isto e talvez assim ambos possamos dormir um pouco.
Com «isto» queria dizer inclinar a cabeça e beijá-la até a deixar sem fôlego. Sem resistência.
Resistência? Assim que os seus lábios se encontraram, quando Linus a rodeou com os braços e a moldou ao seu corpo, apesar dos lençóis que os separavam, Andi derreteu-se por completo, tanto física, como emocionalmente.
Sabia tão bem... Os seus lábios pareciam seguros e poderosos, o seu corpo era duro e forte, o seu peso era agradável enquanto a pressionava contra o colchão e deslizava as mãos pelo corpo dela.
Andi libertou os braços e ofegou ligeiramente quando apalpou com as mãos os seus ombros nus. A sua pele estava quente, os seus músculos, tensos. Não conseguia controlar as mãos enquanto as deslizava pela firmeza do seu corpo, explorando as suas costas e a sua cintura, e mais abaixo, até acariciar as suas nádegas nuas e firmes.
Meu Deus! Linus estava completamente nu!
Andi começou a lutar, a tentar afastá-lo com as mãos.
– O que estás a fazer? – perguntou-lhe, quase sem fôlego.
Aquilo era melhor do que Linus tinha imaginado e dormir era a última coisa que tinha na cabeça.
Afastou-se ligeiramente para olhar para Andi e foi fácil distinguir a sua raiva e o brilho nos seus olhos.
– Não sei quanto a ti, mas não creio que consiga dormir assim – disse-lhe. – A não ser, claro, que te apeteça acabar o que começámos.
– Não, não me apetece acabar o que tu começaste! – respondeu Andi, indignada. E tentou novamente afastá-lo com as mãos. – Para tua informação, não esperava que te atirasses a mim – afastou-se para o outro lado da cama. – Alguma vez te dei razões para pensares que queria que me beijasses?
– Referes-te até agora?
Os olhos de Andi adaptaram-se o suficiente à escuridão para poder ver Linus em todo o seu esplendor. Os seus ombros e o seu peito eram largos e poderosos. A sua cintura era estreita e as suas coxas... Estava excitado!
Andi desviou imediatamente o olhar e olhou para Linus nos olhos.
– Nem sequer então – disse ela. – Beijaste-me.
– E tu devolveste-me o beijo.
– Atiraste-te a mim antes que pudesse protestar.
– Tu também te atiraste a mim. Dos meus ombros até ao meu...
– Não sabia que estavas nu! – defendeu-se.
– Pois, agora, já sabes.
Andi olhou para ele, frustrada.
– Podes sair da cama e voltar para a poltrona?
– Não, não posso.
– Não? – Andi olhou para ele, com incredulidade.
– Baixa a voz, está bem? – sussurrou Linus. – Jim e Jennie pensarão que estamos a ter uma discussão.
– Nós estamos a ter uma discussão!
– Não, Andi, tu estás a ter uma discussão. Eu só quero dormir – mexeu-se ligeiramente para poder meter-se sob os lençóis. – Que bom... – murmurou, enquanto se acomodava sobre as almofadas e punha as mãos atrás da cabeça.
Andi endireitou-se e ficou a olhar para ele.
– Não podes dormir aqui!
– Detesto contradizer-te, Andi, mas é aqui que penso dormir – bocejou, como se quisesse enfatizar as suas palavras.
– Claro que não!
– Quem vai impedir-me?
Andi estava furiosa, indignada com aquela atitude brincalhona. Isso não era a única coisa que a incomodava, mas era a única coisa em que ia concentrar-se naquele momento.
– És desprezível! – exclamou, enquanto saía da cama. – Não posso acreditar que vás fazer-me dormir na poltrona! – ficou de pé junto da cama, olhando-o com ódio, enquanto ele estava comodamente sob os lençóis, tremendo ao sentir o frio que fazia no quarto depois de o lume se ter apagado.
– És tu quem insiste em dormir na poltrona – disse Linus.
– Só porque não és suficientemente cavalheiresco para...
– É a segunda vez que fazes essa acusação – Linus saiu da cama e levantou-se tão depressa que Andi não teve tempo de se afastar e sentiu os seus dedos fortes a agarrarem-lhe os pulsos, enquanto a olhava com fúria. – Imagino que Simmington-Browne tivesse dormido na poltrona, sem pigarrear.
– David era um cavalheiro... Obviamente, teria sido diferente se estivesse aqui com David.
– Queres dizer que não terias hesitado em dormir com ele?
– Não creio que dormir fosse o que quisesses fazer há alguns minutos.
– Tens razão, é verdade – admitiu Linus.
Também não pensava em dormir naquele momento. Talvez tivesse a excitação sob controlo, mas continuava ali. Olhar para Andi, com a sua camisa de dormir, não ajudava muito, embora falar sobre Simmington-Browne fosse bastante desalentador.
Andi parecia ter construído tal lembrança do seu noivo durante o último ano, que era como se o tivesse tornado um deus. Linus tinha a certeza de que, aos olhos de Andi, ele não estava à altura daquela imagem idílica. Nem ele, nem ninguém, a julgar pelo facto de Andi não ter tido um único encontro no último ano.
– Fica com a cama – disse ele. – Acho que, afinal, ficarei com a poltrona.
Ela ficou a olhar para ele, durante vários segundos.
– Que garantia tenho de que não vais mudar de ideias a meio da noite?
– Andi, o que disse ou fiz para te dar a impressão de que te acho assim tão irresistível?
– Não queria dizer que me achavas irresistível.
– Então, a alternativa é que me achas incapaz de partilhar um quarto e muito menos uma cama com uma mulher, sem tentar fazer amor com ela.
– Sugiro que esqueçamos isto e que tentemos dormir um pouco – murmurou Andi, enquanto voltava para a cama. – Tenho a certeza que amanhã de manhã tudo parecerá diferente – também esperava que de manhã a neve tivesse derretido por completo e pudessem continuar com a viagem.
Embora duvidasse que fosse o caso...
E não era.
Andi nem sequer precisou de sair da cama para saber que a neve continuava ali. Soube-o graças ao brilho do sol que se filtrava pelas cortinas. Sabia que a razão daquele brilho era o reflexo da luz sobre a neve. Qualquer som parecia amortecido pela brancura do lugar.
Não tinha dormido bem. Não tinha conseguido deixar de pensar. Como poderia não pensar depois de Linus a ter beijado? Depois de ela lhe ter devolvido o beijo?
Ficara acordada durante o que lhe tinham parecido horas, depois de se certificar de que Linus adormecera, incapaz de esquecer a lembrança daquele beijo. Nem o facto de ela ter respondido. Mais do que respondido, tinha desejado mais. Muito mais. O corpo ainda lhe doía pelo desejo que Linus tinha despertado com um só beijo e pela culpa que começava a sentir pelo seu falecido noivo.
Andi mexeu unicamente os olhos para ver se Linus continuava ou não no quarto.
Estava deitado na poltrona, com a manta à volta do peito e das coxas, deixando a descoberto apenas as pernas e os pés, graças a Deus!
Realmente, era um belo espécime. Quem queria enganar? Linus era absolutamente magnífico! Tinha o cabelo ligeiramente despenteado. Os seus traços estavam relaxados enquanto dormia e faziam com que não aparentasse os trinta e seis anos que tinha.
Andi admirou a perfeição do seu corpo: ombros largos, braços musculados, abdómen plano, coxas poderosas. As pernas nuas eram compridas e continuavam bronzeadas depois das férias nas Bahamas no Natal. Inclusive os seus pés eram atraentes, compridos e magros.
O que raios se passava com ela?
O seu noivado com David, seguido, semanas depois, da morte inesperada dele, contribuía para que Andi se assustasse perante a ideia de se relacionar com homens. E menos ainda com um homem como Linus, que não se esforçava em disfarçar a sua alergia a relações a longo prazo.
Pior ainda, ela era sua secretária e Linus tinha deixado claro que nunca se envolvia emocionalmente com as mulheres que trabalhavam para ele, que isso significaria que deixariam de trabalhar para ele. Consideraria Linus o beijo da noite anterior um «envolvimento»?
E, mais importante ainda, considerá-lo-ia ela um envolvimento?
Linus sentia-se incomodado, cansado e de mau humor quando acordou. O facto de Andi se ter levantado a meio da noite para o tapar com uma segunda manta não ajudava a que se sentisse melhor.
Portanto, era melhor que Andi já tivesse deixado o quarto, provavelmente à procura do pequeno-almoço. Ou talvez à procura de uma saída. Linus duvidava que ela gostasse da ideia de ficar ali mais tempo, a partilhar o quarto com ele.
Ao olhar pela janela, Linus soube que não era o seu dia de sorte. Parecia ter caído mais neve durante a noite. Havia cerca de vinte e cinco centímetros de neve no chão, a qual rodeava o Range Rover.
Linus olhou para a cama. O facto de que estivesse feita não evitou que recordasse os acontecimentos da noite anterior.
Andi tinha a boca mais sexy que jamais tinha beijado, suave, carnuda e sensual. E quanto ao seu corpo curvilíneo...
Linus emitiu um gemido quando o seu corpo despertou ao pensar nisso.
Se quisesse que continuasse a trabalhar para ele, deveria deixar de pensar naquelas coisas naquele preciso instante!
Andi olhou para Linus com desconfiança quando ele entrou na cozinha, onde ela se encontrava a beber a sua segunda chávena de café. A torrada que tinha comido ao pequeno-almoço parecia ter acalmado o nó que sentia no estômago.
Ou, pelo menos, até voltar a ver Linus. Jennie tinha-se desculpado alguns minutos antes para ir acender a lareira do bar, enquanto Jim limpava a neve da entrada.
– Café? – perguntou ela.
– Obrigado – Linus assentiu, antes de se sentar à frente dela.
Andi levantou-se para ir buscar outra chávena e trazer a cafeteira para a mesa.
– Leite e açúcar? – perguntou, enquanto servia o café.
– Durante o ano que trabalhaste para mim, alguma vez quis leite e açúcar?
– Bom... Não – Andi sentiu o rubor nas suas faces. – Só estava a ser educada, Linus.
– A educação vai a ser a ordem do dia? – perguntou ele.
– Acho que sou sempre educada, Linus.
– Ontem à noite, não foste muito educada. E, se bem me lembro, insinuaste que me faltam atributos para ser um cavalheiro.
Andi abanou a cabeça e esqueceu os seus esforços para ser educada quando Linus se mostrava tão provocador.
– Eu não insinuei tal coisa, Linus!
– Também insinuaste que Simmington-Browne se teria comportado de forma muito diferente nas mes-mas circunstâncias.
Mesmo assim, Andi notou o tom de desprezo que aparecia na voz de Linus cada vez que se falava de David.
– Conhecias David? – perguntou.
– Isso não responde à minha pergunta, Andi.
– Tu também não respondeste à minha.
– Eu responderei à tua se tu responderes à minha.
– Tenho a certeza de que David teria dormido na poltrona sem se queixar. De facto, duvido que tivesse insistido em partilhar o quarto comigo. Provavelmente, ter-se-ia oferecido para dormir aqui em baixo, numa das poltronas do bar.
– Não parece muito homem – murmurou Linus.
– Como te atreves?
– Só estou a dizer que parecia não ter sangue quente nas veias.
– Estás a insultar um homem que não está aqui para se defender.
Havia várias coisas que Linus gostaria de dizer a David Simmington-Browne se fosse vivo. Entre as quais que não merecia que uma mulher tão sexy e leal como Andrea Buttonfield se tivesse apaixonado por ele.
– A tua atitude é asquerosa.
– Começo a pensar que tudo em mim te parece nojento – disse Linus, levantando-se. – O que faz com que me pergunte porque trabalhas para mim.
– Se bem me lembro, não me deste muita escolha.
– Queres que te dê escolha agora? – perguntou Linus, apertando os dentes.
Andi franziu o sobrolho, pois sabia, tal como ele, que não tinha escolha. Não só precisava e gostava do trabalho, como também, além disso, assim se certificava de que a sua mãe pudesse continuar a viver na casa do jardim.
– Não creio que seja a melhor altura para discutirmos isto, Linus.
– Talvez devas dizer-me quando achares que é uma boa altura – respondeu ele, antes de se virar e atravessar a sala.
Andi olhou para ele, surpreendida.
– Onde vais?
– Vou ajudar Jim a tirar a neve da entrada, é claro. Com sorte, poderemos sair daqui ainda hoje – e fechou a porta atrás dele com força.
Andi respirou fundo e sentou-se na cadeira, desconcertada com a conversa. Com a raiva que as palavras de ambos escondiam.
Andi conhecia a razão da sua própria raiva. Não era raiva de Linus, mas de si mesma, por ter baixado a guarda na noite anterior ao ponto de não saber como regressar à sua relação anterior entre chefe e empregada.
A causa da raiva de Linus, no entanto, era um mistério para ela. Só sabia que estava ali. Poderosa. Arrasadora. Perigosa...
Ücretsiz ön izlemeyi tamamladınız.