Kitabı oku: «Recordações de um amor - Uma amante temporária»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

N.º 108 - janeiro 2021

© 2009 Spencer Books Limited

Recordações de um amor

Título original: The Costanzo Baby Secret

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

© 2010 Emma Darcy

Uma amante temporária

Título original: The Billionaire’s Housekeeper Mistress

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2010

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), acontecimientos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.

As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Dreamstime.com

I.S.B.N.: 978-84-1375-274-7

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Recordações de um amor

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Uma amante temporária

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

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Capítulo 1

Às dez da manhã de segunda-feira, dia 4 de Setembro, exactamente um mês depois do acidente, Dario Costanzo recebeu a chamada de telefone que temera não receber.

– Tenho notícias, signor Costanzo – anunciou Arturo Peruzzi, o chefe de neurologia que se ocupava do caso de Maeve. – Esta manhã a sua esposa despertou do coma.

Intuindo pelo tom do cirurgião que havia mais alguma coisa, Dario teve de fazer um esforço para permanecer calmo. Durante as últimas semanas lera e estudara o suficiente para saber que os danos neurológicos devido a um golpe na cabeça poderiam ter muitas consequências, nenhuma delas era boa.

– Mas alguma coisa não está bem, não é assim, doutor?

– Receio que sim.

Dario acreditara estar preparado, mas descobriu que na verdade, não estava. A última vez que vira Maeve, com a cabeça cheia de ligaduras e ligada a uma série de máquinas e tubos para a manterem viva, contrastava horrivelmente com o seu aspecto antes do acidente: bonita, elegante, cheia de encanto.

Era um raio de sol.

Era sua. E agora?

Abruptamente, Dario deixou-se cair em frente da sua secretária, receando que as pernas não o segurassem.

– Pode dizer-me o que se passa?

– Fisicamente mostra muitos sinais de recuperação. Naturalmente, ainda está muito fraca, mas com a fisioterapia adequada estamos certos de que recuperará e poderá voltar para casa. O problema, signor Costanzo, é a sua mente.

Oh, Dio, isso não! Não queria sequer imaginar que Maeve se transformara num vegetal.

– …Não quero alarmá-lo inutilmente – continuou o neurologista. – É uma coisa comum depois de um traumatismo crânio-encefálico e não é tão grave como se possa imaginar.

Pensando que tinha tirado a pior conclusão possível, Dario decidiu ouvir o neurologista.

– O que está a sugerir, doutor Peruzzi?

– Não estou a sugerir nada, estou a dizer que a sua esposa sofre de amnésia. Resumindo, não tem lembranças… do seu passado recente.

A hesitação do doutor foi breve, mas bastante significativa para despertar, de novo, os medos de Dario.

– Até que momento? Não se recorda do acidente?

– Isso é o que torna esta amnésia fora do comum. Em geral, a amnésia retrógrada refere-se só aos eventos que tiveram lugar imediatamente antes do trauma. Neste caso, no entanto, a perda de memória da sua esposa estende-se a um período mais longo. Lamento dizer-lhe que parece não se recordar de si nem da sua vida de casada.

Amnésia retrógrada, amnésia psicogénica, amnésia histérica… termos que não tinham significado nada para Dario um mês antes, mas com os quais se familiarizara neste último mês.

– Está a dizer que a amnésia é psicológica em vez de fisiológica?

– É o que parece – respondeu o doutor Peruzzi. – Mas a boa notícia é que raramente é uma condição permanente. Com o tempo, é praticamente certo que a sua esposa recuperará a memória.

– Quanto tempo?

– Isso não podemos prever. Pode recordar-se de tudo assim que voltar a um sítio que lhe seja familiar, mas certamente demorará dias ou talvez semanas, com lembranças ou retalhos de lembranças que voltarão a pouco e pouco. O que deve perceber é que não vai ganhar nada tentando forçá-la a recordar-se seja do que for, seja por que razão for, não consegue recordar-se de nada. Fazê-lo seria em detrimento do seu bem-estar. Mas isto, signor Costanzo, leva-me ao aspecto mais importante desta conversa: nós já fizemos a nossa parte. Agora você deve fazer a sua.

– Como?

Como. Esta palavra açoitara-o durante um mês, suplicando respostas que ninguém lhe podia dar. Como pudera ignorar o descontentamento de Maeve? Como, afinal de contas, eles se tinham comprometido um com o outro quando ela poderia ter procurado outro homem? Como podia ter demonstrado tão pouca fé nele, no seu marido?

– A paciência é a chave para o sucesso. Pode levá-la para casa, mas não deve expô-la imediatamente a estranhos. Deve fazer com que se sinta segura e a salvo consigo.

– Como vou fazer isso se ela nem sequer se lembra de mim?

– Quando ela tiver recuperado um pouco explicar-lhe-emos quem você é. Não temos outro remédio senão fazê-lo porque deve saber que não está sozinha no mundo. Mas perdeu um ano da sua vida, uma experiência aterradora para qualquer um. Faça-a ver que se importa com a pessoa que ela recorda que é. E depois, quando tiver um pouco mais de confiança, vá-lhe apresentando a pouco e pouco o resto dos membros da família.

– O resto da minha família inclui o nosso filho de dezassete meses. O que sugere que faça com ele até lá? Devo dizer-lhe que é filho da empregada?

– O sentimento de culpa ao descobrir que tem um filho do qual não se recorda poderia deixar-lhe cicatrizes emocionais permanentes. Esse assunto é o mais delicado de todos porque vai contra a natureza de uma mulher ter esquecido que teve um filho.

– Estou a ver.

E era verdade, sem dúvida: Maeve tinha despertado do coma, mas não estava curada.

– Mais alguma coisa?

– Sim – respondeu o neurologista. – Neste momento, não espere que Maeve seja sua esposa em todos os sentidos. A intimidade com um homem que, embora seja o seu marido, para ela é um completo estranho é uma complicação que devemos evitar a qualquer custo.

Fantástico. Não podia fazer uso da única coisa que sempre funcionara entre eles. E, além disso, teria de mandar Sebastiano para casa da sua irmã.

– Posso fazer mais alguma coisa, além de dormir noutro quarto e enviar o meu filho para outro sítio?

– Claro que sim – respondeu Peruzzi. – A sua mulher perdeu a memória não o intelecto, de modo que lhe fará perguntas. Responda honestamente, mas não elabore as respostas e, sobretudo, não tente apressá-la. Pense em cada dado que lhe revelar como um traço na tela vazia da sua memória. Quando tiver preenchido traços suficientes, ela começará a preencher o resto por si mesma.

– E se não gostar do que for descobrindo?

– Então será imperativo que você, signor Costanzo, continue a apoiá-la. Maeve deve saber que pode confiar em si, independentemente do que tenha ocorrido no passado. Pode fazer isso?

– Sim – respondeu ele. – Enquanto isso, posso visitá-la?

– Não posso proibi-lo, mas sugiro-lhe que não o faça. Agora o importante é que ela recupere fisicamente e o seu aparecimento só serviria para comprometer essa recuperação.

– Entendo – murmurou Dario. – E agradeço-lhe muito que me tenha telefonado.

– Oxalá tivesse notícias tão boas para todos os meus pacientes – suspirou o médico. – Voltarei a ligar-lhe quando Maeve estiver preparada para voltar para casa. Enquanto isso, pode ligar-me quando quiser para pedir informações sobre os progressos da sua esposa. A mim ou a qualquer membro da equipa. Ciao, signor Costanzo, e boa sorte!

– Grazie e ciao!

Depois de desligar, Dario aproximou-se da janela, pensativo. No jardim da casa, em frente ao seu escritório, estava Marietta Pavia, a ama que contratara depois do acidente, sentada sobre uma manta, a brincar com Sebastiano.

Que uma mulher pudesse esquecer um marido de quem estava cansada era compreensível, embora não muito lisonjeador, mas como era possível que Maeve tivesse esquecido o seu filho?

Atrás dele, uma voz autoritária interrompeu os seus pensamentos:

– Ouvi o suficiente para saber que Maeve está melhor.

Dario voltou-se para enfrentar a sua visitante. Com o cabelo preto preso num coque perfeito, um imaculado vestido de cor creme e um colar de pérolas ao pescoço, Celeste Costanzo poderia ter passado por uma mulher de quarenta e cinco anos quando na verdade estava prestes a fazer sessenta.

– Pareces vestida para uma festa, mas deverias estar a relaxar na ilha, mãe.

– Estar fora do olhar público em Pantelleria não é razão para não me vestir bem… e não mudes de assunto. O que te disse o neurologista?

– Que Maeve saiu do coma e espera que se recupere completamente.

– Então vai sobreviver?

– Tenta disfarçar a tua desilusão – suspirou Dario. – Afinal de contas, é a mãe do teu neto.

– Depois do que se passou, não entendo porque é que continuas a defendê-la.

– Mas essa é a questão, mãe, não sabemos o que aconteceu. Das duas pessoas que poderiam saber, uma está morta e a outra perdeu a memória.

– Ah, então esse é o jogo dela agora, não é? Fingir que não se recorda de nada, que não tinha tentado deixar-te e levar a criança – a mãe fez um gesto de desprezo. – Que conveniente para ela!

– Isso é uma tolice e tu sabes. Maeve não está em posição de fingir e mesmo que assim fosse, os médicos têm demasiada experiência para não se aperceberem.

– Então tu acreditas nesse diagnóstico?

– Tenho que acreditar e tu também.

– Receio que não, filho.

– Aconselho-te a que repenses a tua posição, se queres ser bem-vinda a minha casa – respondeu Dario.

Celeste empalideceu.

– Sou a tua mãe!

– E Maeve continua a ser a minha mulher.

– Durante quanto tempo? Até que decida voltar a partir? Até que um dia descubras que Sebastiano vive no outro lado do mundo e chama «papá» a outro homem? Diz-me o que tenho de fazer para que vejas que tipo de mulher ela é…

– É a mãe do meu filho – interrompeu ele. – E faz o favor de não repetires que não te parece uma boa mãe ou uma boa esposa.

– Não terei de fazê-lo, Dario. Maeve recordar-te-á isso em breve.

Todos na clínica, desde o enfermeiro ao médico, se foram despedir dela.

Quando lhes perguntou o que se tinha passado, só respondiam que tinha tido um acidente de trânsito e que não devia preocupar-se porque recuperaria a memória mais cedo ou mais tarde.

Eles negavam-se a dizer-lhe quem pagava as contas do hospital ou enviava as flores… todos excepto uma jovem auxiliar a quem lhe tinha escapado que era «ele» antes que a chefe das enfermeiras a fulminasse com o olhar.

Quem era «ele»?, queria perguntar Maeve. Embora soubesse que não conseguiria obter respostas.

– Posso perguntar pelo menos para onde vou quando sair daqui?

– É claro – respondeu a enfermeira, adoptando o tom que usaria com uma criança. – Para o sítio onde vivia antes, para o pé das pessoas que a amam.

Onde seria esse sítio e quem seria essa gente?, questionou-se Maeve.

Uns dias antes de os médicos lhe darem alta, disseram-lhe que passaria a sua convalescença num lugar chamado Pantelleria, do qual ela nunca ouvira falar.

– Quem é que estará ali à minha espera?

– Dario Costanzo…

Também nunca tinha ouvido falar dele.

– O seu marido – disse o médico então.

Isso tinha-a deixado sem fala.

Reunidos agora ao redor da limusina preta que esperava à porta do hospital, todos lhe desejaram uma rápida recuperação.

– Sentiremos saudades.

– Venha visitar-nos quando quiser, mas desta vez pelo seu próprio pé.

E, de repente, depois de tantos dias em que a única coisa que queria era sair do hospital, Maeve começou a sentir medo. Aquela gente era a sua âncora ao presente. Tudo o que ocorrera antes era um vazio, um borrão negro, um capítulo perdido da sua vida. Estar prestes a redescobri-lo, e ao homem com quem, aparentemente, se casara, deveria enchê-la de felicidade. Em vez disso, estava aterrorizada.

Reparando no seu pânico, uma jovem enfermeira tocou-lhe no braço.

– Não se alarme, eu acompanho-a até ao aeroporto.

A ideia de se misturar com gente assustava-a. Olhou-se ao espelho e sabia que, apesar do exercício, da boa alimentação e das horas que tinha passado no jardim do hospital, estava muito magra e muito pálida. O seu cabelo, outrora longo e espesso, agora era curto e mal cobria a cicatriz sobre a sua orelha esquerda. A roupa caía-lhe como se tivesse perdido uma tonelada de peso ou sofresse de alguma doença terrível.

Mas não podia fazer nada.

Em vez de se dirigir ao terminal, a limusina seguiu um caminho que levava a uma pista onde a esperava um jacto privado, com um assistente de bordo uniformizado à porta.

Que tipo de homem era o seu marido?, questionou-se Maeve. Ela tinha crescido num bairro operário em Vancouver, era filha única de um canalizador e de uma operadora de caixa de supermercado.

Recordando os seus pais, e quanto tinham amado a menina que nasceu quando já tinham perdido toda a esperança, fez com que os seus olhos se enchessem de lágrimas.

Se continuassem vivos teria ido para casa deles, naquela rua ladeada por árvores, a meio quarteirão do parque onde aprendera a andar de bicicleta.

A sua mãe far-lhe-ia um bolo de framboesa e o seu pai voltaria a dizer-lhe como estava orgulhoso dela. Mas os dois tinham morrido; o seu pai umas semanas depois de se reformar, a sua mãe três anos depois. A casa fora vendida.

E por isso Maeve, física e emocionalmente esgotada, via-se presa no elegante assento de couro do luxuoso jacto privado, dirigindo-se para uma vida que para ela não passava de um grande ponto de interrogação.

Capítulo 2

Embora não fosse exactamente mentira, quando Maeve lhe perguntara pelo sítio para onde se dirigiam, o assistente de bordo mostrou-se menos reservado do que o pessoal do hospital.

– Chama-se Pantelleria – respondeu, enquanto lhe servia o almoço

– Foi isso que me disseram, mas o nome não me é familiar.

– É uma ilha, conhecida também como «A pérola negra do Mediterrâneo».

– Em Itália?

– Sim, signora. A uns cem quilómetros da Sicília e a menos de oitenta da Tunísia.

– Fale-me desse lugar.

– É uma ilha pequena e isolada com ventos muito fortes. A estrada que a rodeia é um desastre, mas as uvas são doces, o mar é de um azul transparente… pode mergulhar-se nele. E o pôr-do-sol é magnífico.

Parecia um pequeno paraíso. Ou uma prisão.

– Vive lá muita gente?

– Além dos turistas, muito pouca.

– Eu vivi lá durante muito tempo?

O homem ergueu-se, como se estivesse num desfile militar.

– Posso oferecer-lhe alguma coisa para beber, signora?

Maeve sorriu, tentando sacar-lhe mais alguma revelação.

– O que costumava beber?

Mas o seu esforço não serviu de nada.

– Temos vinho, sumos, leite e água mineral com gás. Ou, se quiser, posso fazer-lhe um café.

– Água mineral – suspirou Maeve, pensando que quem quer que fosse recebê-la ao aeroporto teria de lhe dar alguma resposta porque estava a começar a ficar cansada daquela conspiração de silêncio.

Mas todas as perguntas que queria fazer desapareceram da sua mente quando o jacto aterrou e viu o homem que estava à sua espera.

Se Pantelleria era a pérola negra do Mediterrâneo, ele devia ser o príncipe dos diamantes: alto, bronzeado, de ombros largos e tão bonito que Maeve teve de afastar os olhos quando lhe apertou a mão.

– Ciao, Maeve. Sou o teu marido – disse. – Estou muito feliz por voltar a ver-te e que estejas tão bem.

O cabelo preto bem cortado, o queixo cuidadosamente barbeado… usava umas calças de linho, uma camisa azul e um relógio Bulgari no pulso. Em comparação, ela devia parecer uma expatriada e deslocada ao lado daquele estranho tão elegante.

E ele devia pensar o mesmo porque quando olhou para os seus olhos cinzentos viu neles o mesmo brilho de compaixão que a açoitara quando era adolescente.

Desesperados por dar à sua filha o que eles não tinham tido, os seus pais gastaram todas as suas economias para a enviarem para um dos melhores colégios privados de Vancouver, sem se darem conta da angústia que o seu sacrifício provocava em Maeve. As suas companheiras, todas filhas de famílias ricas, criticavam-na sem piedade e esses comentários tinham-lhe deixado mais cicatrizes do que o acidente de carro.

«Pobrezinha, já viste os dentes dela? É normal que se esconda atrás de tanto cabelo».

«Sinto-me mal por não a convidar para a minha festa, mas ela não se integraria».

Anos depois, uma ortodontia deixara-lhe os dentes perfeitos e, sorrindo agora para disfarçar a timidez que sentia quando se encontrava em desvantagem, Maeve disse:

– Terás de me perdoar, mas esqueci-me do teu nome.

Deviam ser as palavras mais absurdas que alguma vez pronunciara, mas ele também sorriu.

– Dario.

– Dario – repetiu Maeve, copiando a sua entoação, como se desse modo o nome pudesse ser-lhe familiar. Mas não foi assim.

Ele indicou-lhe o carro que os esperava, um Porsche Cayenne Turbo, que Maeve sabia que era muito caro.

– Vamos para o carro, o vento é infernal.

Sim, de facto era. O seu cabelo, ou o que restava dele, levantava-se como um campo de trigo e tinha a testa coberta de suor. E, embora o voo não tivesse durado mais do que algumas horas, a angústia do que a esperava deixara-a esgotada.

Como Dario não parecia muito inclinado a falar, Maeve foi olhando para a paisagem pela janela, rezando para que qualquer coisa despertasse uma lembrança, por mais pequena que fosse.

À esquerda havia vinhedos protegidos por muros de pedra e grupos de oliveiras que abraçavam a terra como se pudessem evitar que o forte vento os atirasse ao mar.

À direita, ondas de cor turquesa acariciavam rochas vulcânicas de cor preta. Daí o nome da ilha, sem dúvida.

Pouco depois passaram por uma vila de pescadores, com casinhas pequenas em forma de cubo, juntas umas às outras com uns telhados estranhos.

– Para aproveitar a água da chuva – explicou Dario quando lhe perguntou porque é que eram assim. – Pantelleria é uma ilha vulcânica com muitas nascentes, mas o sulfureto que a água contém faz com que não seja potável.

Essa informação também não lhe despertava lembrança alguma, de modo que Maeve se viu obrigada a continuar a fazer perguntas se quisesse chegar ao seu destino tendo alguma referência.

– O assistente de bordo disse-me que a ilha era muito pequena.

– Sim.

– Então a tua casa não fica muito longe.

– Nada fica muito longe aqui. Pantelleria só tem catorze quilómetros e meio.

– Então chegaremos em breve?

– Sim.

– Ouvi dizer que eu vivia aqui antes do acidente.

Maeve viu que ele cerrava os lábios.

– Sim.

Era um homem de poucas palavras, certamente.

– Há quanto tempo estamos casados?

– Há pouco mais de um ano.

– E somos felizes?

Dario ficou visivelmente tenso.

– Aparentemente, não.

Surpreendida, Maeve virou a cabeça para olhar para ele.

– Porquê?

Ele encolheu os ombros, apertando o volante com mais força. Tinha umas mãos lindas, grandes e elegantes. Mas não usava aliança.

– A nossa situação não era… a ideal.

Maeve quis perguntar-lhe o que significava isso, mas havia tal reserva no seu tom de voz que decidiu continuar a olhar pela janela.

Pouco depois, Dario seguiu por um caminho estreito que levava até um grupo de casas sobre uma colina. Por meio de algum método que não conhecia, um portão de ferro forjado abrira-se quando o carro se aproximara e voltara a fechar-se depois, silenciosamente.

Um caminho ladeado de palmeiras levava até uma residência que, embora seguindo o que parecia o estilo arquitectónico da ilha, era muito maior do que as restantes e tinha um inegável ar de opulência. De um só andar, estendia-se numa série de terraços, com um telhado sobre a zona central.

Dario parou em frente de uma enorme porta de madeira e desligou o carro.

– É aqui?

– É aqui – disse ele. – Bem-vinda a casa, Maeve.

O vento espalhara o cheiro dos pinheiros, iluminados agora com a luz malva do entardecer, enchia o ar, misturando-se com o cheiro do mar.

Fechando os olhos, Maeve respirou profundamente, perguntando-se como podia não se recordar daquele lugar.

Dario apoiou-se no carro, olhando para ela. A sua silhueta, recortada contra a luz do entardecer, surpreendeu-o tanto como quando a viu descer do avião. Nessa altura desejara envolvê-la nos seus braços, mas ao recordar a advertência de Peruzzi parou. Isso e o medo de lhe partir alguma costela sem querer.

Maeve sempre tinha sido magra, mas nunca ao ponto de permitir que o vento siroco a atirasse ao mar se se aventurasse a aproximar-se da beira de alguma ravina. Estava tão frágil que parecia quase transparente. O conselho do neurologista era que fosse paciente e o mais lógico naquela situação. A primeira coisa a fazer era devolver-lhe a saúde. O resto, a sua história, o acidente e os eventos que o provocaram, teria de esperar.

Sem se aperceber, já lhe revelara mais do que queria, mas não voltaria a cometer esse erro. Não tinha chegado ao topo de um império multimilionário sem aprender a ser discreto quando era necessário. E agora era mais necessário do que nunca.

– Queres ficar aqui fora, por um momento? – perguntou-lhe. – Podes dar um passeio pelo jardim para esticar as pernas.

Ela passou os dedos pelo cabelo curto.

– Não, obrigada. Embora seja cedo, estou muito cansada.

– Então anda. Direi à governanta que te acompanhe ao teu quarto.

– Eu conheço-a?

– Não, começou a trabalhar aqui a semana passada. A sua predecessora foi-se embora para Palermo para estar com os netos.

Dario pegou na mala dela e abriu a porta, dando um passo atrás para a deixar entrar no hall.

Maeve inspeccionou o enorme lustre de cristal suspenso do tecto, as paredes brancas, o chão de mármore preto…

– Vives sempre aqui?

– Não, normalmente venho só aos fins-de-semana para relaxar.

– Então, a partir de manhã estarei aqui sozinha?

– Não, Maeve. Ficarei contigo até que te sintas um pouco mais cómoda em casa.

– E dormiremos no mesmo quarto?

«É isso que queres?», queria perguntar Dario. Outrora tinham sentido uma insaciável paixão um pelo outro…

– Não, terás o teu próprio quarto enquanto assim o desejares. Mas eu nunca estarei muito longe, para o caso de precisares – respondeu, felicitando-se a si mesmo por dar uma resposta que não fechava a porta à ideia de retomar a sua relação. Peruzzi ficaria orgulhoso dele.

– Ah, sim – murmurou Maeve. – Bom, é muito atencioso da tua parte. Obrigada.

– Prego.

– As minhas coisas estão aqui?

– Sim – garantiu ele. – Está tudo exactamente com o deixaste… olha, esta é a Antonia, ela leva-te ao teu quarto. Pede-lhe tudo o que precisares.

– Obrigada outra vez, por tudo o que fizeste por mim – murmurou Maeve.

– Não é nada. Dorme bem, vemo-nos amanhã.

Assim que as duas mulheres, uma tão bem constituída, a outra tão frágil, desapareceram pelo corredor para os quartos, Dario foi para o seu escritório para ligar a Giuliana, a sua irmã, que vivia na casa ao lado.

– A Maeve chegou?

– Sim.

– E como é que ela está? É tão terrível como esperávamos?

– Está tão frágil… – Dario sentiu uma quebra na voz. – A viagem deixou-a esgotada. Foi para a cama mal assim que chegou.

– Pobrezinha. Oxalá pudesse ir dizer-lhe como gosto dela e que estou muito feliz por ter voltado.

– Eu também gostaria. E trazer o menino para que ela o visse, mas infelizmente ainda não é o momento.

– Sim, eu sei.

– Mas escapou-me que o nosso casamento não passava pela sua melhor fase e essa não é a melhor maneira de começar outra vez – suspirou Dario.

– Podem recomeçar se ainda se amarem como antes. A questão é… ainda se amam, Dario?

– Eu não posso falar por ela.

– Então fala por ti mesmo. Sei que te casaste com Maeve porque te pareceu que era o mais honrado, mas a mim parecia-me que corria tudo bem.

– Até que começou a correr tudo mal.

E aí estava o problema. Será que poderiam esquecer o que se tinha passado alguma vez e voltarem a confiar um no outro?

– Maeve ama-te, Dario. Tenho a certeza disso.

– Oxalá eu também a tivesse. Mas não te estou a ligar para te sobrecarregar com os meus problemas, ligava-te para te perguntar por Sebastiano.

– Estamos todos muito bem. Marietta é uma ajuda enorme. E quanto a Cristina, está encantada com o primo e está sempre a brincar com ele. Além disso, Sebastiano é uma criança maravilhosa; só chora quando tem fome ou quando há que lhe mudar a fralda.

– É a única coisa boa em todo este desafortunado assunto.

– E Sebastiano é demasiado pequeno para entender o que aconteceu.

– Esperemos que nunca saiba – Dario fez uma pausa. – Alguém da família foi vê-lo?

– Se te referes à nossa mãe, sim. Veio esta manhã e depois à tarde outra vez. Insiste em que deveria estar com ela e eu insisto em que deve estar comigo.

– Pensei que tinha voltado para Milão com o papá. A última coisa que Maeve precisa neste momento é de se encontrar com ela.

– Infelizmente, parece decidida a ficar. Mas não te preocupes, eu posso lutar com ela. E Lorenzo também, portanto não deixaremos que se intrometa.

Dario sabia que era verdade.

– Agradeço-vos muito aos dois que me estejam a ajudar tanto. Dá um beijo ao Sebastiano por mim, eh? Ia vê-lo, mas…

– Não – interrompeu a irmã. – É importante que esta noite fiques em casa com Maeve. Seria horrível se despertasse a meio da noite e não soubesse onde está.

Quanto tempo duraria aquilo?, questionou-se Dario depois de desligar. O doutor Peruzzi aconselhara paciência, mas ele nunca tinha sido um homem particularmente paciente. Estava há demasiados dias afastado do seu trabalho porque não conseguia concentrar-se, passava as tardes com um copo de uísque como companhia e demasiadas noites sozinho, numa cama feita para dois.

Irritado, saiu para a varanda para respirar um pouco de ar fresco. A noite tinha caído e uma dúzia de candeeiros ao redor da piscina brilhavam suavemente na escuridão.

Uma vez, não há muito tempo atrás, Maeve desejara-o como ele a desejava. E, à noite, na piscina, faziam amor com uma urgência que alcançava o desespero. Ele enterrava a sua boca na de Maeve por medo de que alguém a ouvisse gritar de prazer… ele continha-se, esperando prolongar o encontro até que não pudesse aguentar mais. E depois deixava-se ir, com uma urgência e um ardor que quase faziam com que o seu coração parasse.

Então, porque é que estava sozinho agora? Porque é que Maeve estava a dormir num quarto que não era o do casal?

Um som quebrou o silêncio da noite, mais próximo do que o murmúrio das ondas, um passo tão hesitante que poderia ter pensado que era a sua imaginação se não viesse acompanhado por uma fragrância que conhecia tão bem: bergamota, junípero e tangerina siciliana com um toque de alecrim. A fragrância de Maeve. Sabia porque ele mesmo a tinha comprado para ela.

Quando voltou a cabeça encontrou-a na soleira da porta, usava uma roupa larga que a fazia parecer ainda mais frágil. Nunca lhe tinha parecido mais etérea, mais desejável.

– Pensei que estavas a dormir.

– Não conseguia dormir.

– Demasiadas emoções?

– Talvez – Maeve deu um passo em frente. – Ou talvez tenha dormido demasiado e já esteja na hora acordar.

Capítulo 3

Dario permanecera imóvel, olhando para ela com uma expressão tão indecifrável que Maeve quase perdera a coragem e voltara para o seu quarto. Para a sua suíte, decorada em tons suaves, a mais luxuosa que alguma vez vira. A casa de banho tinha um banho turco e uma banheira suficientemente grande para duas pessoas. Entre a casa de banho e o quarto havia uma sala e lá fora, no jardim, em frente ao mar, um jacuzzi.

Um oásis de tranquilidade e, no entanto, Maeve não era capaz de a encontrar. Desde que entrara na casa sentia-se embargada por uma sensação desoladora. Sentia-se vazia, sozinha.

Alguma coisa horrível tinha acontecido ali, alguma coisa que ia além de um casamento com problemas. E a sensação de que tinha havido uma tragédia, alguma coisa que nem sequer queria contemplar, perseguia-a. Aquela villa espectacular ocultava um segredo terrível e Maeve estava decidida a descobrir qual era.

E quisesse ou não, o seu marido teria de lho revelar.

– Não me vais oferecer uma bebida? – perguntou-lhe, embora tivesse o pulso tão acelerado que mal conseguia respirar. Nada de novo, certamente. Tinha vivido grande parte da sua vida com um medo que tinha aprendido a disfarçar.

– Não sei se podes beber álcool.

– Porque não? Era alcoólica?

Dario riu, um som agradável, masculino.

– Não, absolutamente.

– Ah, que alívio. Por um momento receei que fosse uma dessas raparigas que começam a dançar sobre a mesa depois de beber uma cerveja.

– Eu não sabia que bebias cerveja. Preferes champanhe e nunca mais de um copo ou dois. Além disso, também nunca te vi a dançar sobre uma mesa.

– Então porque é que não me queres dar uma bebida?

– Não é bom misturar a medicação com o álcool.

– Não estou a tomar nenhuma medicação. Há semanas que não tomo nada.

– Estou a ver – murmurou Dario, passando uma mão pelo queixo. – Nesse caso, fazemos um trato: vamos jantar e abro uma garrafa do teu champanhe favorito.

– Muito bem. Além disso, tenho fome.

– Óptimo! – ele sorriu. – Se me perdoares um momento, direi à cozinheira que seremos dois para jantar.

– Sim, claro.

Maeve saiu para o jardim, com as pernas trémulas, e deixou-se cair sobre uma rede.

Dali podia ver uma enorme piscina infinity estrategicamente colocada de forma a parecer que ia agarrar-se à beira de um precipício. Uma ilusão, é claro, que só os muito ricos podiam permitir-se. Mas a profusão de buganvílias em redor era obra da natureza.

Dario voltou alguns minutos depois com uma garrafa de champanhe e, depois de o servir, tocou com o seu copo no dela.

– Salute.

– Salute. E obrigada.

– Porquê?

– Por tudo o que fizeste por mim. No hospital disseram-me que enviavas flores todos os dias e que pagavas as contas.

– Sou o teu marido, Maeve.

– Sim, bom, sobre isso…

– Relaxa, cara. Não mencionei a nossa relação como um prelúdio para exigir os meus direitos conjugais.

– Ah! – murmurou Maeve, engolindo a desilusão juntamente com um gole de champanhe. Não queria fazer amor com um homem que não conhecia, mas que ele se mostrasse tão disposto a manter as distâncias também não era exactamente lisonjeador. Por outro lado, o que podia esperar?

– Posso não me recordar de ter estado casada contigo, mas não sou tola. Sei que pareço um espantalho…

– Estás a recuperar de um acidente que quase te custou a vida. Não podes esperar ter o mesmo aspecto que tinhas antes.

– Mas o meu cabelo… – Maeve tocou nos patéticos restos do que uma vez fora uma linda cabeleira.

Quando Dario lhe estendeu uma mão para agarrar a dela, o toque provocou uma espécie de descargas eléctricas num lugar íntimo que a fez fechar as pernas, como uma virgem a defender a sua inocência.

Felizmente, ele não podia ler os seus pensamentos ou, se podia, não gostou da direcção que tinham tomado porque soltou a sua mão em seguida.

– Tens um cabelo lindo. Faz-me recordar o amanhecer ou o cetim.

– Está demasiado curto.

– Eu gosto de o ver curto… assim vê-se mais a tua cara que, como o resto em ti, é linda.

Maeve sabia que não era verdade porque, depois de tomar banho, tinha procurado alguma coisa que lhe ficasse bem e ficava-lhe tudo largo. Havia roupa interior em gavetas com tampa de vidro, prateleiras para sapatos. Muitos vestidos, saias e calças, tudo posto em cabides forrados. A julgar pela quantidade de roupa informal, Pantelleria não parecia ser um lugar onde fosse necessário andar demasiado arranjado.

A qualidade da roupa, no entanto, era inegável. Todos os vestidos eram de marca, com um corte elegante e feitos com tecidos caros. Maeve tinha a moda no sangue e, embora tivesse esquecido tudo o resto, continuava a ter bom olho para o estilo. Que a maioria dos vestidos lhe ficassem grandes poderia ter sido um problema para uma pessoa que não tivesse experiência no mundo da moda, mas quando se tratava de ter bom aspecto, ela estava em terreno familiar. Por isso escolhera um conjunto de roupa interior de algodão e uma túnica cor-de-rosa que caía sobre o seu corpo como a brisa, disfarçando as suas ancas magras.

Mas, embora isso lhe tivesse dado coragem para tentar sacar informação a Dario, agora que o tinha tão perto começou a retrair-se.

– Estás a tentar animar-me.

– Estás tão encantadora como sempre – sorriu. – E não sou o primeiro homem a dizer-te isso.

– Não, o meu pai também estava sempre a dizer-me a mesma coisa, mas isso é lógico – disse Maeve. – Na verdade, quando era adolescente eu era um patinho feio.

– Acredito.

– Ah, sim?

– Certamente. Se não fosses um patinho feio como é que poderias ter-te transformado num cisne?

Estava a brincar e, de repente, Maeve também começou a rir.

Tinha passado tanto tempo desde a última vez que rira alegremente… e o resultado era incrível, como se tivesse aberto uma porta oculta. Pela primeira vez em semanas sentia-se leve e podia rir outra vez.

– Obrigada por dizeres isso. És muito amável.

– Tu és demasiado crítica contigo própria – disse ele, acariciando a sua mão. – Porquê, Maeve?

– Imagino que, estando nós casados, tu saberás a resposta.

– É possível, mas como estamos a começar de novo… conta-me outra vez.

Maeve deixou escapar um suspiro.

– Sempre fui tímida, mas nunca tanto como quando cheguei à adolescência. Sentia-me paralisada quando estava rodeada de gente.

– Não acontecia com todos nós a essa idade?

– Suponho que sim, mas a minha adolescência foi pior porque, quando fiz treze anos, os meus pais mandaram-me para uma prestigiada escola privada. No dia em que entrei ali, entrei num mundo diferente e desconhecido para mim… um lugar onde era uma estranha.

– Não fizeste amigos?

– Não, a verdade é que não fiz. As adolescentes podem ser muito cruéis. Algumas toleravam-me, outras ignoravam-me por completo e eu compensava isso tornando-me invisível, uma coisa que não é fácil quando se é mais alta que as outras e horrivelmente tímida. Imagino que foi nessa altura que fiquei obcecada por usar o cabelo comprido. Escondia-me atrás do cabelo.

Maeve tomou outro gole de champanhe enquanto olhava para o mar, recordando aquele tempo tão deprimente.

– Eu queria ser diferente, mais corajosa, mais decidida, mais interessante. Como as outras raparigas, que pareciam tão seguras de si mesmas. Mas eu era eu, uma rapariga normal, aborrecida. Tirava boas notas, mas socialmente era um desastre.

– E quando é que isso mudou?

– Como sabes que mudou?

– Porque a pessoa que estás a descrever não é a que eu conheço.

Talvez não por fora e normalmente por dentro também não. Até que alguém começou a mexer cruelmente nessas feridas, fazendo-as sangrar. E então voltou a ser essa menina outra vez, a que não era suficientemente boa, a que não encontrava o seu lugar.

– O que aconteceu, começaste a ver-te a ti mesma de outra maneira?

Maeve recordava-se como se tivesse ocorrido na semana anterior.

– Tudo mudou no dia em que a directora de turma me pediu que subisse ao palco do salão nobre para que todas as alunas olhassem bem para Maeve Montgomery e se fixassem bem nela. Pensando que ia castigar-me por alguma coisa que eu tivesse feito e para disfarçar que estava a tremer, pus-me no centro do palco muito direita e olhei para aquele mar de caras sem pestanejar.

– E?

– E o que ela disse foi: quando as pessoas virem uma aluna desta escola a caminhar pela rua ou à espera na paragem do autocarro, é uma pessoa assim que espero que vejam, alguém que não tem necessidade de levantar a voz para chamar a atenção, alguém que se comporta com dignidade. Uma pessoa orgulhosa de usar o nosso uniforme, com a blusa metida dentro da saia, os sapatos brilhantes e o cabelo bem penteado – Maeve parou para olhar para ele. – Para o caso de estares a perguntar-te, isto aconteceu no último ano e, nessa altura, fazia todos os dias uma trança em vez de usar o cabelo na cara.

– De modo que a rapariga que se via como uma estranha, no final, encontrou o seu lugar.

– Suponho que sim. Não sei se era exemplo para alguém ou se a directora de turma se apercebeu de que precisava de um empurrão e se essa foi a sua maneira de me ajudar mas, depois desse dia, o resto das alunas passaram a olhar-me de outra forma, com uma espécie de respeito.

– O que importa, cara, é como tu te vias a ti mesma.

– Diferente – admitiu ela.

Nessa noite olhara-se ao espelho, uma coisa que normalmente evitava fazer, e descobriu, não uma adolescente desajeitada de peito plano, mas uma rapariga de pernas longas e curvas suaves, dentes perfeitos e olhos azuis.

Mas não o disse a Dario porque teria mostrado ser demasiado vaidosa.

– Nessa altura percebi que devia deixar de ter vergonha de mim mesma e devia enfrentar o mundo com coragem. Era o momento de viver os ideais que os meus pais me tinham inculcado. Por outras palavras, prometi a mim mesma valorizar a honestidade, a lealdade e a decência.

– Mas as pessoas não costumam cumprir as suas promessas, não te parece?

Surpreendida pela nota de amargura que havia na sua voz, Maeve respondeu:

– Não posso falar pelas outras pessoas, mas garanto-te que eu sempre tentei cumprir as minhas.

Ele olhou para ela, em silêncio, durante alguns segundos, a sua expressão era tão indecifrável como se o seu rosto fosse feito de granito.

– Se tu o dizes, querida – murmurou depois, o seu tom era tão distante e frio como as estrelas. – Está uma noite tão bonita que pedi que nos servissem o jantar cá fora. Espero que não te importes.

– Não, de todo, mas importa-me que tenhas mudado de assunto tão bruscamente.

Dario encolheu os ombros.

– Era para falar de alguma coisa.

– Não faças isso – suplicou Maeve.

– A que te referes?

– Parecias dizer que estava a mentir e quero saber porquê. O que é que eu fiz para não acreditares em mim?

Antes que ele pudesse responder a governanta apareceu para anunciar que o jantar estava pronto. Evidentemente aliviado pela interrupção, Dario deu-lhe o braço para a levar para uma zona do terraço protegida da chuva e do vento por um toldo, em que a governanta tinha posto uma mesa para dois.

Era como ela imaginara, como uma cena das mil e uma noites. Sobre a mesa havia flores e velas em taças de vidro, guardanapos de linho e talheres de prata. Uma música suave saía de umas colunas de som escondidas na parede, mas a beleza do momento parecia manchada pela tensão que havia entre eles.

Antonia começou a servir o jantar: uma salada de tomate, cebola e alcaparras com azeite e queijo fresco seguida de peixe-espada grelhado. E, como permaneceu perto deles, a oportunidade de perguntar a Dario o porquê dessa mudança de humor teria de esperar.

Felizmente, depois de jantar ficaram sozinhos de novo e Maeve interrompeu-o quando estavam a falar dos efeitos terapêuticos dos mananciais da ilha.

– Muito bem, agora estamos sozinhos e quero que respondas à pergunta que te fiz antes… e advirto-te que estou farta de que as pessoas não sejam sinceras comigo.

Dario deixou escapar um suspiro.

– Conheci muitos empresários cuja ideia de um acordo entre cavalheiros é tão falsa como um aperto de mãos – disse ele, olhando para o conteúdo do seu copo. – É uma pena, mas isso fez com que deixasse de acreditar em muitas coisas. Peço-te desculpas se te insultei, Maeve. Não era essa a minha intenção e entendo perfeitamente se me deres um pontapé por baixo da mesa.

– Perdoo-te com uma condição – ela sorriu. – Fui eu quem mais falou, mas gostaria de saber mais coisas sobre ti.

– Muito bem.

– E não me importaria de dar um passeio enquanto falamos.

– Tens a certeza de que não estás cansada? É o teu primeiro dia fora do hospital.

– Desde que não tenha de correr uma maratona ou escalar uma montanha, estou perfeitamente bem.

– Então vamos dar um passeio.

Dario levou-a até um caminho de cascalho que rodeava a villa e que se perdia por uma série de jardins.

– Porque é que estão divididos assim?

– Para os proteger do vento. Estes limoeiros, por exemplo, nunca sobreviveriam se estivessem expostos ao siroco.

Certamente ela saberia isso, pensou Maeve, tal com milhares de coisas corriqueiras que faziam parte da vida diária de uma pessoa, mas tudo isso podia esperar. Neste momento devia descobrir o que era realmente importante.

– Vejo que tenho muito que aprender, portanto vamos começar.

– Por onde começo?

– Pela tua família, que agora é também a minha família. Vivem em Pantelleria?

– Sim.

– Estão aqui agora?

– Sim.

– Mas não vi ninguém.

– Não vivem na minha casa.

– Ah, muito bem. E onde vivem?

– Somos vizinhos. A minha irmã vive na casa do lado e meus pais muito perto.

– E quando não estás na ilha onde vives?

– Temos casa em Milão, onde fica a sede da minha empresa. Mas não vivemos perto uns de outros como aqui. Na cidade, tu e eu temos um apartamento e a minha irmã e o marido vivem nos arredores da cidade.

– Só tens uma irmã?

– Sim.

– E ela tem filhos?

– Sim, mas penso que não é boa ideia confundir-te agora com tantos nomes – murmurou Dario, sem olhar para ela.

– Bom, fala-me da tua empresa. A que te dedicas?

– Começou por ser uma empresa familiar: Costanzo Industrie del Ricorso Internazionali. Pode ser que tenhas ouvido falar dela.

– Não, parece-me que não.

– Foi criada pelo meu bisavô há noventa anos. Depois da destruição da I Guerra Mundial, jurou ajudar aqueles que viviam na pobreza e começou a comprar terras aqui, em Itália, e a fazer parques em zonas que antes eram becos infestados de ratos.

– Ah, então sabes que, pelo menos, um homem cumpriu a sua palavra.

– Sim, é verdade – concordou Dario. – Com o tempo, o meu bisavô começou a levantar acampamentos para crianças necessitadas e, para pagar tudo isso, investiu em campos de golfe, estações de esqui, hotéis…

– Eu teria gostado de o conhecer. Devia ser uma pessoa extraordinária.

– Sim, certamente. Quando morreu em meados dos anos sessenta, a CIR Internazionali era um nome muito reconhecido em Itália. Hoje é conhecida no mundo inteiro e apoia muitas organizações que ajudam crianças necessitadas.

– E o que fazes tu na empresa?

– O meu pai é o presidente e eu sou o vice-presidente. Especificamente, encarrego-me das operações na Europa e nos Estados Unidos.

– Então estou casada com um gigante das finanças.

– Sim, algo parecido – tinham chegado a uns degraus de pedra e Dario deu-lhe a mão. – Tem cuidado aqui.

Excepto as luzes da casa e os candeeiros que iluminavam o caminho, todo o resto estava na penumbra, criando tal sensação de isolamento que, instintivamente, Maeve apertou a sua mão.

– Parece que somos as únicas pessoas no mundo.

Ele apertou a sua outra mão um pouco mais. Estavam tão perto que, embora os seus corpos não se tocassem, sentiu como se uma corrente eléctrica os percorresse.

– Incomodas-te se entrarmos?

– Não – respondeu Maeve, levantando a cara. – Não me ocorre outra pessoa com quem eu gostasse de estar sozinha no mundo.

Dario fez então o que desejava fazer desde que a vira descer do avião: inclinou a cabeça e beijou-a. Não na face como tinha feito antes, mas na boca. Não friamente, como uma pessoa a cumprimentar outra, mas como um homem possuído por uma ansiedade que não podia conter.

E Maeve fechou os olhos, ao sentir o toque da sua língua, saboreando o seu desejo. O de Dario, o dela, mais embriagador do que o champanhe. E durante o tempo que durou o beijo, o vazio que havia dentro dela desde que chegara à villa desapareceu.

Mas voltou em seguida, assim que a soltou. Levantando a cabeça, Dario afastou-se um pouco, respirando agitadamente.

– Penso que já sabes o suficiente sobre mim.

– Não, não é verdade – murmurou Maeve. – Tenho de te fazer mais uma pergunta.

– Qual?

– Se nos beijamos assim, como é possível que o nosso casamento não fosse feliz?

Capítulo 4

Peruzzi não ficaria contente. O neurologista pedira-lhe que respondesse com sinceridade às perguntas de Maeve, mas só sobre as questões que ela queria saber. E dissera-lhe que não devia ter pressa para retomar a relação…

Em teoria, todo isto parecia simples. Na verdade, aplicar os seus conselhos era como caminhar por um campo minado. E beijá-la apressava as coisas. Estava louco de desejo por uma mulher que não o reconheceria se se cruzasse com ele na rua e não sabia como responder àquela última pergunta.

Procurando tempo, disse-lhe:

– Porque é que achas que não fomos felizes?

– Foste tu que me disseste isso.

Infelizmente assim era e Dario desejou ter tido a sensatez suficiente para ter fechado a boca.

– Estávamos prestes a divorciar-nos? – insistiu ela.

Estavam? Só Maeve sabia a resposta a essa pergunta.

– Não – respondeu. Afinal de contas, nenhum dos dois apresentara o pedido de divórcio, não convocaram os advogados para dividir as suas posses ou estabelecer os direitos de custódia sobre Sebastiano.

– Então qual era o problema?

– Um casamento… – Dario procurou uma resposta que estivesse perto da verdade – passa por momentos difíceis.

– Mas estávamos casados há muito pouco tempo; ainda deveríamos estar na nossa lua-de-mel.

Falar da lua-de-mel e das circunstâncias do seu casamento não seria seguir o conselho de Peruzzi…

– Não penses que lá porque estávamos a passar por um mau momento o nosso casamento era um fracasso. Por cada desilusão havia mil alegrias e para mim ter-te de novo em casa é a maior de todas.

– Se te importas tanto comigo, porque é que não me foste ver ao hospital?

– Claro que fui, Maeve. Estive ao teu lado dia e noite durante semanas depois do acidente, rezando para que sobrevivesses.

– Mas depois deixaste de ir. Porquê?

«Porque temos um filho que também estava hospitalizado e que precisava de mim».

– Tu não sabias que eu estava ali e, como não podia fazer nada, concentrei-me no que podia fazer.

– Foste trabalhar para esqueceres o problema, queres tu dizer?

– Sim – mentiu Dario porque não podia contar-lhe a verdade.

– E quando despertei do coma?

– Teria ido ver-te imediatamente, mas o doutor Peruzzi recomendou-me que não o fizesse. Não queriam que nada interferisse com a tua recuperação.

– Desde quando é que ver o marido interfere com a recuperação de uma mulher?

– Desde que ela não se recorda dele.

– Ah, claro – murmurou Maeve.

Dario decidiu levar a conversa para áreas mais seguras.

– Embora te seja difícil, temos de ir devagar. A última vez que falámos, o doutor Peruzzi advertiu-me que não devíamos apressar-nos. Se ele estivesse aqui agora, garanto-te que ficaria horrorizado por ver que não estás na cama.

– Mas há tantas coisas que preciso de saber!

– E temos muitos dias para descobrir tudo isso. Agora tens que descansar.

Quando chegaram a casa, Dario deu-lhe um beijo casto na face, mas até essa carícia o excitou. O tecido do vestido sussurrava-lhe como um convite, recordando-lhe a pele suave e cremosa que havia por baixo dele. E a cor, tão rosada como a meia-noite nos trópicos, fazia com que os seus lindos olhos parecessem cor de ametista.

– Vou lembrar-me do nosso casamento mais cedo ou mais tarde, não é verdade? – perguntou Maeve, com a voz entrecortada.

– Sim, com certeza que sim.

– Prometes-me isso?

– Dou-te a minha palavra – ele sorriu. – Dorme bem. Vemo-nos amanhã.

Quando Maeve desapareceu, Dario entrou no seu escritório e serviu-se de um copo de grappa. O álcool queimou-lhe a garganta, mas não conseguiu saciar o desejo que o consumia.

Não chegara ao topo graças à indecisão, pensou depois, mas utilizando a sensatez e a habilidade para analisar os outros. Ele podia ver a fraqueza, detectar a falta de integridade no oponente. No entanto, Maeve deixava-o cheio de dúvidas.

Ter-se-ia rendido ao beijo porque o desejava tanto como ele ou era uma maneira de suplicar o seu perdão pelo que se passara antes do acidente?

Quando falara de cumprir as promessas e que ele lhe dera a entender que não era assim, a sua angústia teria sido sincera ou enganadora?

Não tinha respostas. Nem para Maeve nem para si mesmo.

Nessa noite sonhou com a sua casa… mas já não era a sua casa mas de outras pessoas. E ela estava em frente à campa dos seus pais, com todas as suas posses guardadas em caixas e baús.

– Parto para não voltar – disse-lhes, – mas estarão sempre no meu coração.

As folhas das árvores mexiam-se com o vento.

– Não podes ir. Este é o teu lugar.

– Tenho de ir – protestava ela, assinalando uma figura à distância. – Ele precisa de mim. Está a chamar-me…

– Não – os ramos das árvores inclinaram-se, enredando-se ao seu redor, afogando-a, retendo-a.

Maeve despertou banhada em suor e com o coração a pulsar descontroladamente. A luz do sol enchia o quarto…

Tentava agarrar-se ao sonho, intuindo que estivera prestes a recordar-se de alguma coisa. Com os olhos fechados, tentava ver essa imagem longínqua, mas as nuvens que ocupavam o seu cérebro depois do acidente fecharam-se de novo, impedindo a visão. Talvez no dia seguinte…

Então ouviu uma pancadinha na porta. Seria Dario?

Nervosa, saltou da cama e correu para a abrir.

– Espera um momento – murmurou, passando as mãos pelo cabelo. Outrora, a sua cabeleira ter-lhe-ia caído sobre os ombros, mas agora não passava de um monte de madeixas rígidas, como se tivesse recebido uma descarga eléctrica.

Quando abriu a porta não se encontrou com o seu marido, mas com Antonia, que trazia uma bandeja com café e fruta fresca.

A governanta sorriu amavelmente enquanto colocava a bandeja numa mesa do terraço. Falava num dialecto italiano tão cerrado que Maeve mal podia comunicar com ela mas, ajudada por gestos, conseguiu entender que o signor tinha tomado o pequeno-almoço horas antes e não estava em casa.

Maeve olhou para o relógio, surpreendida ao ver que eram quase onze horas. Ela estava habituada a levantar-se cedo, mas devia estar demasiado cansada.

Com a chávena de café na mão passeou pelo jardim, parando ocasionalmente para admirar o mar ou provar as uvas pretas e a fruta que Antonia lhe levara.

Onde estava Dario?, perguntava-se. E qual era o significado do seu sonho? Quanto tempo demoraria para recuperar a memória?

Suspirando, decidiu tomar um banho na piscina. Nem sequer tinha de usar biquíni porque estava sozinha na casa e os muros que a isolavam da estrada mediam mais de três metros de altura.

Rapidamente, antes de perder a coragem, tirou a camisa de dormir e lançou-se à água.

Era maravilhoso, como cetim a enredar-se nos seus membros. Maeve percorreu a piscina de um lado ao outro pelo menos oito vezes. Depois, esgotada pelo exercício, começou a flutuar, desfrutando daquela sensação de bem-estar.

Mas, de repente, intuiu que não estava sozinha. Não sabia porquê, talvez um reflexo na água ou por que a porta que dava para a piscina estava aberta quando ela a deixara fechada… ou o frio repentino no ambiente, como se uma sombra ameaçadora se interpusesse entre ela e o sol. Mas nada disso importava; o que importava era que alguém a estava a ver nua.

Maeve meteu-se debaixo da água e nadou para o lado onde estava o intruso. Uma vez ali, ficou numa esquina, ao lado dos degraus, com os braços cruzados sobre o peito e os joelhos levantados.

– É um pouco tarde para te tornares tão modesta, querida – disse a sua inesperada visita, tirando os óculos de sol. – Claro que a modéstia, um dia, foi o teu forte, não foi?

– Eu… não esperava companhia – Maeve sentia-se tão mortificada que desejaria que o fundo da piscina se abrisse, levando-a com ela.

– Aparentemente, não.

– Imagino que nos conhecemos.

A mulher suspirou.

– Infelizmente, sim.

– Estou a ver – murmurou Maeve. Fosse quem fosse, aquela estranha não era sua amiga, certamente. – Lamento dizer que não me lembro de si.

– Eu gostaria de dizer o mesmo, mas não é assim. Eu recordo-me demasiado bem.

– E por alguma razão, não gosta de mim. Posso perguntar-lhe porquê?

– Tu não és uma de nós e nunca serás. Nunca entenderei o que é que o meu filho viu em ti.

Aquela mulher era a sua sogra?

A indignidade do momento, ela a tentar tapar-se diante de um adversário que olhava para ela com ódio, Maeve reviveu um velho desespero.

– Importa-se de me passar uma toalha?

A mulher pegou numa toalha e atirou-a depreciativamente para a beira da piscina. Maeve, sem dizer nada, cobriu-se com ela para sair da água. Como traje não podia comparar-se com o elegante fato da sua sogra, mas era melhor do que estar nua.

– Lamento conhecê-la nestas circunstâncias mas, para evitar que volte a acontecer, talvez, no futuro, possa ter a amabilidade de não aparecer sem avisar com antecipação.

– Ou talvez no futuro – ouviram uma voz masculina – esperes que te convide para vir, mãe.

Ah, perfeito, caso o assunto não fosse já suficientemente humilhante, agora tinha de aparecer Dario.

As mulheres de carácter, lera uma vez, nunca escapavam a um desafio. Mas Maeve, a quem naquele momento não lhe importava o que faziam as mulheres de carácter, foi para a casa.

Tomando a sua mãe pelo braço, Dario levou-a para a entrada da villa, tentando conter a sua raiva.

– Estás zangado?

– Zangado é pouco, mãe. O que está a fazer aqui?

– Garanto-te que as minhas intenções eram completamente inocentes. Só passei para a cumprimentar…

– Disse-te que não viesses – interrompeu ele. – O que lhe disseste?

– Não tanto como deveria.

– Não tens o direito de lhe dizer uma única palavra. Não deves confundi-la. Depois de todas as minhas advertências, como podes fazer-me isto? Em que estavas a pensar?

– Que poderia tê-la julgado mal e, para te agradar, deveria dar-lhe outra oportunidade. Foi só isso, mas ela… estava nua na piscina, a mostrar-se sem vergonha. Podes imaginar?

Claramente. Maeve parecia uma ninfa e se ele tivesse chegado antes da sua mãe teria tirado a roupa para se meter na água com ela.

– Onde está o pecado, mãe? Esta casa é dela.

– Qualquer um poderia tê-la visto… a governanta, as criadas. E o que achas que teriam feito?

– O que tu deverias ter feito, partir e deixá-la em paz.

– Bom, como não tenho o menor interesse em voltar a ver este espectáculo, não penso incomodá-la de novo.

– Não, claro que não – Dario abriu a porta do seu carro. – Lamento muito ter de tomar medidas tão drásticas, mas enquanto a minha mulher estiver a recuperar ficas em tua casa e não vens aqui.

– Estou a ver.

– Estás mesmo? Tens algum interesse em saber o mal que lhe poderias ter causado vindo aqui? Se lhe falaste de Sebastiano…

– Não lhe disse nada sobre a criança. Mas se me desses ouvidos, Maeve partiria daqui sem saber que teve um filho…

– É precisamente por isso que não vais voltar aqui até a minha mulher recuperar a memória – interrompeu Dario.

– E tu, meu filho? Tu poderás afastar-te dela ou voltarás a deixar-te enganar pelos seus encantos uma vez mais?

A mãe dele foi-se embora e Dario abanou a cabeça. Sabia que ela tomara aquilo como um insulto, mas não tinha a menor intenção de deixar que sabotasse o seu casamento.

Maeve não respondeu quando bateu à porta do seu quarto, mas quando a encontrou sentada no terraço, com um vestido em vários tons de cor-de-rosa, parecia uma borboleta pousada sobre a cadeira.

– Bonito vestido – comentou, tentando aliviar a tensão – embora também me agradasse muito o que usavas antes.

Ela deixou escapar um suspiro.

– Lamento muito o que se passou.

– Porquê? Não foste tu que apareceste aqui sem seres convidada.

– Mesmo assim, receio ter causado má impressão. E também reforcei a má opinião que a tua mãe tem de mim. O que fiz para que me odeie tanto?

– Casaste-te comigo – suspirou Dario. – As mães italianas têm dificuldade em aceitar as mulheres dos seus filhos. Mas mudará de atitude quando te conhecer melhor.

– Talvez quando tivermos família…

Dario, que estava a tomar um gole de vinho, engasgou-se.

– Possivelmente – conseguiu dizer, – mas haverá tempo para te preocupares com isso quando estiveres bem.

– Sim, imagino que sim – Maeve mordeu os lábios. – Estive a pensar muito desde ontem à noite.

– Sobre o quê?

– Ontem disseste que gerias o sector da tua empresa na América do Norte. Isso inclui o Canadá?

– Sim, claro. Porquê?

– Alguma vez estiveste em Vancouver? Foi lá que nos conhecemos?

– Estive em Vancouver, mas não nos conhecemos lá.

– Então onde foi?

Dario hesitou. Menos de dez minutos na sua companhia e já estava de novo a atravessar um campo de minas.

– Tu estavas de férias em Itália.

– Sozinha?

– Não, com uma amiga.

– Em que zona da Itália?

– Em Portofino.

– Tu também estavas de férias?

– Poderia dizer-se que sim. Tenho um iate em Portofino e ia lá com frequência com os meus amigos.

– Antes de te casares comigo?

– Claro.

– E conhecemo-nos no teu iate? O que estava eu a fazer ali?

– Não, conhecemo-nos no casino – Dario sorriu ao ver a sua cara de surpresa. – Na mesa da roleta.

– O quê? Mas eu nunca gostei de jogar.

Também não gostava naquela noite, pensou Dario. Por isso pudera afastá-la da mesa e convidá-la para tomar um copo de champanhe. Nessa altura ele era um mulherengo e parecera-lhe divertido passar a noite com uma rapariga tão bonita. O que não esperara era ficar preso a ela para o resto da vida.

Capítulo 5

Ela chamara imediatamente a atenção dele. Com um leve vestido preto e um discreto colar de pérolas, aquela loira movia-se com a elegância e a dignidade de uma duquesa. Mas o que capturara o seu interesse não fora o seu estilo, mas a indiferença que viu nos seus olhos azuis quando o descobriu a olhar para ela.

Dario não estava habituado a ser ignorado pelo sexo oposto, especialmente no seu território.

A mulher que estava com ela, com um vestido muito chamativo, parecia a típica turista norte-americana, demasiado produzida e que chamava demasiado a atenção.

– Guarda-me o lugar, Maeve – pediu-lhe, reunindo as suas fichas. – Vou à casa de banho retocar a maquilhagem.

– É verdade que as mulheres vão mesmo retocar a maquilhagem? – perguntou Dario, sentando-se no lugar que ficara vago.

– Desculpe? – perguntara-lhe a duquesa.

– É mesmo verdade que as mulheres vão mesmo retocar a maquilhagem?

– Não faço ideia – respondeu ela. – E esse lugar está ocupado.

– Pela sua amiga, eu sei. Eu guardo-o até ela voltar – sorriu Dario. – Não vai apostar?

– Não, estou aqui para fazer companhia a Pamela e não tenho fichas.

Dario empurrou uma pilha de fichas na direcção dela.

– Agora já tem.

– Não posso aceitar. Nem sequer o conheço…

Divertido, e picado pela sua sinceridade, ele apresentou-se:

– Sou Dario Costanzo, um nome absolutamente respeitável, como poderá constatar.

A jovem ficou corada.

– Não queria ofendê-lo.

– Eu sei.

– Mas não posso aceitar o seu dinheiro.

– Não é dinheiro, são fichas.

– Mas não penso apostar porque não faço sequer ideia de como se joga a isto.

– Eu posso ensinar-lhe.

– Não, obrigada.

– Não se está a divertir muito, pois não?

– Não – admitiu ela. – Não estaria aqui se não fosse por causa da minha amiga. Eu não gosto de casinos.

– E de que lugares gosta?

– Lugares menos barulhentos e com menos gente.

– Então venha comigo, conheço o lugar perfeito.

A resposta a tal convite foi um olhar que teria deixado petrificado qualquer homem menos decidido.

– Não, obrigada.

– Continua a pensar que sou o estrangulador de Portofino?

Ela cerrou os lábios, mas não pôde disfarçar um sorriso.

– Tinha-me ocorrido, sim.

– Então permita-me que corrija o seu erro – Dario chamou o gerente do casino, um homem de cabelo branco e aspecto respeitável que o conhecia desde sempre. – Frederico, importas-te de dizer a esta jovenzinha que sou uma pessoa decente? Parece que não confia em mim.

Frederico encolheu os ombros.

– O signor Costanzo é um dos nossos melhores clientes, signora. Garanto-lhe que está em perfeita companhia.

– E então? – Dario sorriu enquanto o gerente se afastava. – Isto fez com que mude de opinião?

– Admito que me sentiria tentada se não fosse por Pamela. Não posso deixar a minha amiga sozinha.

Mas Pamela, com Dario imaginava, já tinha encontrado diversão com um homem que poderia ser seu pai e aproximou-se da mesa para se despedir.

– Vemo-nos mais tarde… ou amanhã, não tenho a certeza.

– Muito bem – murmurou a duquesa.

Dario sorriu.

– Podemos ir dar um passeio agora?

– É uma boa ideia. Aqui dentro não consigo respirar.

Embora o seu objectivo fosse levá-la para o iate, primeiro levou-a a um restaurante situado na piazzetta. O empregado, que o conhecia bem, acompanhou-os até uma mesa no pátio.

– Melhor, agora? – perguntou.

– Muito melhor – ela suspirou, tirando as sandálias de salto alto.

Encantado, Dario tirara a gravata e desabotoara o primeiro botão da sua camisa antes de pedir uma garrafa de champanhe.

E, felizmente, o champanhe desatara-lhe a língua. Contara-lhe que se chamava Maeve Montgomery e que era de Vancouver, Canadá. Depois de dois anos na universidade tinha começado a trabalhar numa loja de noivas e aos vinte e dois anos fora promovida a gerente. Mas encontrara o trabalho dos seus sonhos ao tornar-se conselheira de moda para clientes com muito dinheiro e muito mau gosto. Adorava a roupa, fazia muitos dos seus vestidos e vivia num apartamento de onde se via o estreito da Georgia.

Era muito unida aos seus pais, que tinham morrido há cinco anos. O seu pai sofrera um aneurisma enquanto via televisão e morrera antes de puderem chamar a ambulância. Trinta e quatro meses depois, a sua mãe, que sofria de asma, morrera de uma pneumonia.

– Sinto a falta deles – confessou.

Ir a Itália fora uma decisão de última hora e uma espécie de presente da senhora Elliott-Rhys, uma cliente agradecida que, além disso, era mãe da Pamela.

– A amiga que devia ter vindo com ela partiu uma perna na semana passada e a senhora Elliott-Rhys convenceu-me a vir com Pamela porque não queria que a filha viajasse sozinha.

– E quanto tempo ficarás em Portofino? – perguntou, tratando-a por tu.

– Cinco dias. Voltamos para casa na próxima quarta-feira.

Perfeito. O tempo suficiente para se divertir sem receio a compromissos.

– Mais champanhe? – sugeriu Dario.

– Não, obrigada. Eu não gosto de beber demasiado.

– Será possível beber demasiado de uma coisa tão boa?

– Não sei, mas se não te importas prefiro passear.

– Como queiras – Dario levantou-se da cadeira e inclinou-se para lhe calçar as sandálias, um gesto que Maeve agradeceu e a fez corar.

Passearam pelas ruas empedradas até ao porto e ela não pôs nenhuma objecção quando a levou pela rampa do porto.

– Tem cuidado. Esses saltos não foram feitos para caminhar por aqui e não quero que escorregues.

– Preocupa-me mais que nos prendam – confiou ela, olhando para a frota de luxuosos iates. – Tens a certeza de que podemos estar aqui?

– Claro que podemos. O meu iate está ancorado no porto.

– Se o teu iate se parecer com algum destes, acho que não estou no meu elemento.

– Não deixes que te impressionem, a maioria são alugados – sorriu Dario. Embora não se preocupasse em explicar-lhe que o seu era o maior de todos.

Ancorava-o sempre o mais longe possível do porto, uma decisão inteligente porque quando sentia vontade de navegar era mais fácil chegar a mar aberto. E quando o que queria era seduzir uma mulher bonita, tinha mais intimidade. E naquela noite, definitivamente, precisava de intimidade.

Assim que entraram na lancha Dario arrancou e, uma vez no iate, começara a preparar o ambiente de sedução: champanhe, música suave e uma luz acesa na coberta para não tropeçar.

Ele não vivia no iate, mas passara muitos dias ali a fazer um cruzeiro pelo Mediterrâneo. E levá-la-ia a navegar no dia seguinte se Maeve desejasse. Enquanto isso, convidou-a para dançar.

– Se puder dançar descalça…

Poderia despir-se se preferisse, pensara Dario. Embora, é claro, não o dissesse em voz alta. A noite estava a começar, logo haveria tempo para isso mais tarde.

– Claro que sim – respondeu, agarrando-a pela cintura.

Ao princípio ela mostrara-se um pouco rígida, mas Dario tinha escolhido bem a música. Agora os nomes importantes são outros, mas para uma noite de sedução não há como Nat King Cole.

Com um metro e oitenta e oito, era mais alto do que a maioria dos italianos, mas Maeve também era alta, com um metro setenta e sete pelo menos… sem os saltos.

Enquanto o encanto eterno da música os envolvia, ela relaxara o suficiente para se deixar levar. O seu cabelo cheirava a bergamota e a tomilho, a sua pele era suave e quente como a pétala de uma gardénia acariciada pelo sol.

Dario pôs uma mão nas suas costas e apertou-a contra o seu corpo para que sentisse a erecção que não se incomodava em esconder… e, ao fazê-lo, sentiu a respiração de Maeve sobre o colarinho da camisa, o toque das suas pestanas na sua face.

A música acabou e, levantando a sua cara com um dedo, procurou os seus olhos, deixando que o silêncio os envolvesse; a tensão sexual entre eles era tão poderosa que, quando por fim a beijou, Maeve derreteu-se entre os seus braços.

Como ele nunca apressava os seus prazeres, e sem a menor dúvida Maeve era a promessa de um prazer extraordinário, voltou a beijar a sua têmpora, o seu nariz, a sua garganta. E quando voltou a procurar a sua boca, sentindo que se rendia perante a dele, soube que tinha a vitória na mão.

Mesmo assim, não tinha pressa. De que serviria apressar-se a comer o bolo todo de uma vez, se tinha a noite toda pela frente?

Dario voltou a beijá-la, mais profundamente desta vez, passando a língua pelos seus lábios que se abriram para ele. Tinham o sabor do champanhe, embriagadores, irresistíve. Mas ele queria mais. Muito mais.

Lentamente desabotoara o seu vestido, que caiu ao chão, ao redor dos seus pés. Não usava sutiã e as cuecas eram tão pequenas que até ele, que julgava conhecer todos os mistérios da roupa interior feminina, não podia imaginar como se seguravam. Mas, colocando um dedo sob o elástico, livrou-se da roupa com um simples puxão.

Obedientemente, Maeve levantou os pés para se libertar do vestido. Vestida era linda, nua era de cortar a respiração: pernas longas, cintura estreita e curva suaves, pura simetria, com uma pele tão suave como o seu colar de pérolas.

E, de repente, olhá-la não era suficiente. Desejava-a toda e desejava-a com uma urgência que deveria havê-lo envergonhado.

O desejo de seduzi-la a pouco e pouco mergulhou nas profundezas do mar e Dario tirou a roupa com toda a pressa, atirando-a ao chão. Pensara beijar cada centímetro da sua pele até que ela lhe suplicasse que fizessem amor, em vez disso, encontrou-se a si mesmo a suplicar-lhe a ela, a sua voz estava rouca de desejo enquanto a urgia a tocá-lo intimamente.

Maeve fê-lo, os seus dedos fechavam-se sobre o seu membro com tal suavidade que esteve prestes a explodir… quando planeava levá-la ao orgasmo com a língua.

Isso não ia acontecer. Estava demasiado perto do final para adiar o inevitável. De modo que, ou se arriscava a fazer uma figura ridícula ou faziam amor imediatamente, rezando para se aguentar o suficiente.

Escolheu a última opção. Sentando-a sobre um banco acolchoado, Dario pôs-se sobre ela, abrindo-lhe as suas pernas com um joelho. Num momento de loucura roçou-a entre as pernas com a ponta, mas foi tão excitante sentir o seu calor que apenas teve tempo de colocar um preservativo antes de entrar nela.

Inesperadamente, encontrou-se com uma barreira e sentiu que Maeve se agarrava convulsivamente aos seus ombros. Isso dizia-lhe tudo o que precisava de saber e, se tivesse alguma integridade, ter-se-ia afastado. Mas Dario tinha passado o ponto de retorno e, esquecendo a decência, empurrou com mais força e tremeu dentro dela uns segundos depois.

E ela? Maeve tremia, os seus olhos eram como dois lagos escuros na penumbra.

– Mi dispiace – murmurou quando voltou a falar, acariciando o seu cabelo. – Maeve, lamento… Eu não fazia ideia…

Ela virou a cara para beijar a sua mão.

– Não deves lamentar. Fico feliz que tu tenhas sido o primeiro.

Amaldiçoando-se a si mesmo em voz baixa, Dario levantou-se e voltou pouco depois com dois roupões de banho.

– Como estás? – perguntou, envolvendo-a num deles. – Magoei-te?

– Não, não – Maeve enterrou a cara no seu peito como uma menina.

– Quantos anos tens?

– Vinte e oito.

Ele deixou escapar um suspiro de alívio… e de surpresa.

– E continuas virgem aos vinte e oito anos?

– Nunca tive tempo para uma relação séria.

Dario começou a ouvir o alarme a disparar na sua mente. Pensaria Maeve que fazer amor equivalia a uma relação? Não, certamente que não. Aos vinte e oito anos não podia estar tão afastada da realidade.

– A primeira vez de uma mulher deveria ser uma coisa especial. Imagino que eu te decepcionei.

– Não, pelo contrário – ela sorriu. – Recordarei esta noite enquanto viver.

E assim seria, mas não pelas razões que ele imaginara.

Um relógio nalguma parte do iate bateu as horas e Dario deixou escapar um suspiro antes de procurar os seus lábios num beijo cheio de ternura.

– Foi uma noite muito longa e deves estar esgotada – sorriu, inclinando-se para apanhar o vestido do chão. – Anda, vou mostrar-te onde te podes vestir e depois levo-te ao hotel.

– Ah, claro.

A desilusão que havia na sua voz era evidente, mas Dario levou-a a um dos camarotes.

– Não precisas de ter pressa. Espero-te na coberta.

O motor da lancha já estava a trabalhar quando ela saiu do camarote e ele não perdeu um segundo a levá-la ao porto. Desejava despedir-se. Não porque depois de fazer amor com ela não quisesse voltar a vê-la, mas porque se sentia como um verme e não se atrevia a olhá-la na cara.

Dario acompanhou-a à porta do hotel Splendido Mare, mas não entrou com ela. Porque se Maeve o convidasse a entrar não seria capaz de recusar.

– Obrigada por esta noite tão especial – murmurou, beijando-a em ambas as faces. – Dorme bem, Maeve. Buona notte.

– A que horas é que nos encontramos amanhã?

– Amanhã? – repetiu ele.

– Disseste que me ias levar a navegar, lembras-te?

Infelizmente tinha-o feito. Se fosse outra mulher ter-lhe-ia ocorrido alguma desculpa, mas Maeve olhava para ele com tanta expectativa que não teve coragem para lhe dizer que não.

– Às duas no porto?

– Óptimo. Vemo-nos então.

– Sim – murmurou Dario. – A domani.

No dia seguinte, às duas, tinha reunido um grupo de amigos e a tripulação do iate andava de um lado para o outro a servir copos e aperitivos.

Uma vez superada a sua timidez inicial, Maeve misturou-se com os convidados, conversando alegremente com todos… apesar das suas humildes origens, movia-se e agia como se fizesse parte da alta sociedade.

– São muito simpáticos os teus amigos – disse depois de jantar, quando o resto dos convidados, talvez para lhes dar um pouco de intimidade, tinham saído para a coberta. – Obrigada por me os teres apresentado. Agora tenho a impressão de te conhecer melhor.

– Eles também gostaram muito de ti, especialmente Eduardo. Não te surpreendas se te pedir que saias com ele antes de te ires embora de Itália.

– Como se eu aceitasse!

– Porque não? Ele conhece a história da zona muito melhor do que eu e pode mostrar-te lugares que não aparecem nos guias turísticos.

– E não te importarias que saísse com ele?

– Eu não tenho o direito de dizer nada… não és propriedade minha.

Maeve não pôde disfarçar a sua desilusão.

– Não, claro que não – murmurou, afastando o olhar. – Mas… parece-me que apanhei demasiado o sol e dói-me um pouco a cabeça. É melhor voltar para o hotel.

– Tens a certeza?

– Sim.

– Nesse caso, acompanho-te.

Maeve não disse mais nada até que chegaram ao porto.

– Adeus, Dario.

– Espera um momento. Não queres que te acompanhe?

– Posso ir sozinha para o hotel.

– Mas insisto em acompanhar-te…

– Não – disse ela, negando com a cabeça. – Não sou uma criança, Dario. E embora certamente tu penses que sou pouco sofisticada, não sou ingénua de todo. Passámos um bom momento e já não queres saber nada de mim. Entendo perfeitamente.

Ele sentiu-se envergonhado.

– Não sei como responder a isso.

– Então vou facilitar-te as coisas: fizemos amor, ou o que quer que fosse, por consentimento mútuo. Foi uma coisa de uma noite, portanto vamos despedir-nos sem rancores.

Poderia não ter experiência em assuntos sexuais, mas era uma profissional quando era preciso fazer com que um homem se sentisse como um canalha.

– Se te sentes enganada, lamento muitíssimo. Em minha defesa devo dizer que tu também me enganaste, embora não fosse essa a tua intenção.

– Porque não te adverti de que era virgem?

– Sim.

– Isso e teria mudado alguma coisa?

– É claro que sim – respondeu ele. – Não te teria tocado, por mais desejável que te achasse.

Maeve pestanejou várias vezes para controlar as lágrimas.

– Nunca pensei que lamentasse ter esperado até que aparecesse o homem adequado.

– Infelizmente, eu não sou o homem adequado para ti.

– E eu não tenho intenção de ser o brinquedo de um playboy – Maeve inclinou-se para lhe dar um beijo na face. – Adeus, Dario. Obrigada por tudo.

Estava enganada, pensou Dario, contendo o impulso de correr atrás dela. Ele não via as mulheres como brinquedos. Sentia um grande respeito por elas e, em geral, mantinha sempre boas relações com as suas ex-amantes.

Embora procurasse um certo nível de sofisticação nas suas relações. Era directo e não fazia promessas que não tencionasse cumprir. Quando uma aventura acabava esperava que ela aceitasse o facto sem discussões, sem lágrimas, sem cenas.

E, por essa razão, uma rapariga encantadora e ingénua não era para ele. Pelo menos não tinha sido até que Maeve Montgomery apareceu na sua vida.

Capítulo 6

– Dario? Ele abanou a cabeça, tentando voltar para o presente.

– Desculpa… disseste alguma coisa?

– Em que estavas a pensar? – perguntou Maeve.

– Estava a recordar uma coisa…

– A recordar o quê?

– Nada de especial.

– Nada agradável a julgar pela tua expressão. Vais dizer-me em que estavas a pensar?

– Não – respondeu Dario. – Não te interessaria.

– Porque não deixas que seja eu a julgar?

Ele levantou-se para se servir de outro copo.

– Há meses que não uso o iate e estava a pensar que deveria ir a Portofino para ver se está tudo bem.

Maeve não acreditou, mas sabia que ele não ia contar-lhe a verdade. Evidentemente, o assunto estava encerrado.

De momento, talvez. Mas não seria assim para sempre.

Os dias seguintes passaram com total tranquilidade. Demasiada tranquilidade. Embora amável e atento quando estavam juntos, que não era tanto tempo como Maeve desejaria, Dario recusava-se a revelar-lhe detalhes do seu passado.

No entanto, dispunha de algumas informações. Ele tinha um MBA em Direcção de Empresas tirado na Universidade de Harvard e a sua irmã Giuliana frequentara o curso de História na Universidade de Sorbonne. E como se isto não fosse suficiente, o seu cunhado estudara Economia na Universidade de Oxford.

De certo modo era compreensível que a sua mãe se mostrasse tão hostil, pensou Maeve. Uma licenciatura numa universidade pública, que era a única coisa que ela podia mostrar, não se compara a tão impressionantes créditos.

Teria chegado Dario à mesma conclusão?, questionou-se. Pensaria que fora um erro ter-se casado com ela? Seria por isso que não voltara a beijá-la?

O máximo que se permitia era um beijinho na face para lhe desejar boa noite e o resto do tempo mantinha-se distante física e emocionalmente. Por vezes parecia-lhe ver um brilho de desejo nos seus olhos, mas conseguia sempre apagá-lo quando se apercebia de que ela estava a olhar para ele.

De manhã tomava o pequeno-almoço sozinha no terraço, passeava pelo jardim e dava uma olhadela a alguma revista. À tarde dormia uma hora ou duas e, às cinco, tomava um chá com mostazzoli panteschi, uns pastéis recheados que a cozinheira fazia especialmente para ela porque uma vez dissera que os adorava.

De facto, por muito descontente que estivesse com outros aspectos da sua nova vida, a comida era uma coisa da qual não se podia queixar.

À noite vestia-se para jantar com Dario, com uma mistura de nervos e medo. Seria aquela a noite em que descobriria a razão por que sentia aquele vazio no seu interior, como se lhe tivessem arrebatado alguma coisa?

Mas isso nunca acontecia e normalmente ia para a cama antes da meia-noite, esgotada. Ou procurava um escape no sono para não ter de enfrentar os demónios que a perseguiam?

Perguntas, tantas perguntas. E nenhuma resposta.

Além de almoçar e jantar com ela, Dario passava o tempo todo no seu escritório, agarrado ao computador, ou a discutir assuntos da empresa com os seus familiares. Pelo menos, era isso que ela pensava porque nunca lhe contava onde ia nem a convidava para o acompanhar.

Embora também não a deixasse totalmente sozinha porque o pessoal de serviço estava constantemente atento às suas necessidades. Mas, finalmente, farta de esperar, Maeve decidiu pôr as cartas sobre a mesa e deu-lhe a desculpa perfeita durante o almoço.

– Tenho de ir a Milão amanhã.

– Vais a Milão? Óptimo, quero ir contigo.

– Não – respondeu ele. – Acabarias por ficar esgotada. Precisas de repouso…

– Mas se temos um apartamento…

– Aqui temos uma casa e só estarei fora alguns dias. Não quero ter de me preocupar contigo enquanto estou em reuniões.

– E o que é que eu devo fazer entretanto?

– Relaxar e recuperar…

– Não fiz mais nada do que relaxar e recuperar desde que aqui cheguei e estou farta. Não faço mais nada além de deixar passar o tempo quando o que quero é retomar a minha vida onde a deixei antes do acidente.

Dario encolheu os ombros.

– Estás de volta a casa com o teu marido. Isso não é isso suficiente?

– Não, falta-me alguma coisa.

– Imagino que não queiras ter relações com um homem com quem não te recordas de te teres casado.

Na verdade, isso não era de todo verdade. Não se recordava de se ter casado, mas quanto mais tempo estava com ele mais entendia por que se casara com Dario. O seu sorriso fazia com que as pernas lhe tremessem, a sua voz vibrava por todo o seu corpo. E quando a tocava, o seu interior transformava-se em lava ardente.

Depressa percebera que, além de ser um homem muito bonito, também era um homem inteligente, íntegro e decente. Tratava-a com paciência e respeito, esperando que recuperasse completamente a sua memória.

– Não acredites que é fácil viver contigo e não me deixar levar pelos meus instintos mais básicos, Maeve. Sou um homem, não um santo.

Ah, aleluia! Então não era apenas ela, que cada noite na cama desejava não estar sozinha.

– Há mais uma coisa – começou a dizer. – Uma coisa que anda às voltas na minha cabeça, mas que não consigo entender… – ficou com a voz enfraquecida nesse momento e não conseguiu continuar.

– Calma, Maeve.

– Sinto um vazio que nada, nem sequer tu, podes preencher – conseguiu dizer ela uns segundos depois. – Senti-o desde que cheguei a esta casa.

Dario tomou-a entre os seus braços, acariciando o seu cabelo.

– Esforças-te demasiado e, no final, sentes-te frustrada.

– E o que queres que faça? Há um limite e penso que eu cheguei ao limite.

– Tu não gostas que cuidem de ti?

– Será que Napoleão gostava de estar exilado na ilha de Elba?

– Tu não és uma prisioneira, Maeve.

– Mas é como se fosse. Não posso pestanejar sem que alguém se dê conta. E não posso passear livremente pela casa ou discutir o menu semanal com a cozinheira porque «eu não devo fazer tais coisas». Basicamente, estou confinada ao quarto a menos que esteja contigo. É como viver num acampamento militar!

Dario riu, tão relaxado, tão encantador.

– Não pode ser assim tão mau.

Pior, na verdade. Tratavam-na como se fosse uma visita e esse era o problema. Ela não era uma visita, era a senhora da casa ou pelo menos deveria sê-lo. Mas, a única vez que lhe ocorreu entrar na cozinha, a cozinheira tirou-a dali amavelmente, como se fosse uma menina.

– Hoje, por exemplo, quando decidi dar um passeio até ao outro lado do imóvel, uma criada disse-me que não deveria cansar-me tanto. E depois fui encontrando gente… jardineiros, empregados de manutenção, todos me advertiam que não deveria aproximar-me da falésia.

– E o que fizeste?

– Cheguei até ao portão, mas estava fechado. E quando perguntei a um jardineiro porque é que estava fechado, o homem fingiu não me entender, embora lhe falasse em italiano.

– Não me surpreende – disse Dario. – Certamente só fala o dialecto local, que é muito diferente do italiano que tu conheces. Inclusive os italianos têm problemas para se entenderem com as gentes da ilha.

– Dario…

– Queres um campari?

Maeve abanou a cabeça.

– Olha, entendo que queiras evitar que os estranhos entrem no imóvel, mas eu deveria poder sair. Mas até a porta da piscina está fechada agora!

– Eu sei, eu pedi que a fechassem depois da visita da minha mãe.

– Estou aqui há uma semana e estou a sufocar – protestou Maeve. – Sinto-me como um hamster, a correr na roda sem chegar a lugar nenhum.

– O que te parece se tirar a tarde livre e formos dar um passeio de barco pela ilha? Até poderíamos parar na tua gruta favorita para mergulhar. Gostas da ideia?

Gostaria que fosse sincero com ela em vez de ganhar tempo. Porque tinha visto um brilho de angústia nos seus olhos quando lhe contara que sentia um vazio estranho no seu interior e intuía que ele sabia o que o causava. E se pensava que nadar eliminaria a sua angústia, estava muito enganado. Ou Dario lhe dava as respostas que procurava ou encontraria outra pessoa que o fizesse.

Mas depois de se queixar que estava aborrecida e confinada não podia rejeitar o seu convite e talvez indo àquele lugar que, segundo Dario, fora importante para ela, despertasse alguma lembrança.

– Muito bem – suspirou, engolindo a frustração. – De acordo.

Ver Pantelleria do barco deu-lhe uma nova perspectiva da ilha, rodeada de falésias. Algumas das praias eram de pedras, noutras havia enormes rochas de lava que saíam do Mediterrâneo criando lagoas naturais.

Montagna Grande guardava os vales férteis e nas suas colinas cresciam juníperos e urzes.

– Quando o vento sopra de oeste cheira tudo maravilhosamente – disse Dario.

Passaram à frente de várias quintas isoladas e uma minúscula vila pendurada numa falésia com uma gloriosa vista panorâmica. Mas, embora tudo aquilo fosse fabuloso, o homem que estava junto dela fazia-lhe ferver o sangue.

Dario com umas calças escuras e uma camisa branca era uma visão que aceleraria o coração de qualquer mulher, mas com uns calções de banho, com o vento a despentear-lhe o cabelo, era o suficiente para a pulsação de qualquer elemento do sexo feminino disparar.

Sentada ao seu lado no barco, Maeve quase tivera de se beliscar para acreditar que aquele homem era mesmo o seu marido. E que de todas as mulheres que ele poderia ter escolhido, escolhera-a a ela.

O seu peito bronzeado brilhava ao sol enquanto navegava pela costa de Pantelleria, dirigindo o leme do barco com aquelas mãos grandes. Umas mãos que uma vez a tocaram intimamente, pensou.

E a sua boca… teria feito o mesmo? Ou aquela repentina excitação devia-se aos seus próprios desejos?

– Relaxa, Maeve – Dario deve ter interpretado mal a sua expressão pensativa. – Sei o que faço, não vamos encalhar.

– Não estava a olhar para ti, estava a admirar a paisagem.

– Então estás a olhar para o lado errado. Olha para ali – disse ele então, assinalando com a mão para a direita.

Maeve virou a cabeça e deixou escapar um grito de surpresa. A vinte metros do barco havia um grupo de golfinhos a saltar na água.

– Adorava ser como eles. São tudo o que eu queria ser: elegantes, lindos, divertidos.

– Tu também és linda, Maeve. Disse-te isso na primeira noite e não mudei de opinião desde então.

– Não, não entendes. Estou a falar do espírito. Eles têm uma alegria de viver que eu perdi. Estou no limbo… sou uma estranha dentro da minha própria pele.

– Para mim, não és – murmurou Dario, aproximando-se tanto que Maeve podia sentir a sua respiração na cara. – Tu és a mulher com quem me casei.

– Conta-me como nos casamos… foi muita gente ao casamento?

Ele hesitou durante um segundo.

– Não, foi um casamento íntimo.

– Porquê?

– Porque nos casámos em Vancouver. Eu só podia estar lá alguns dias antes de voltar para Itália, de modo que não pudemos organizar uma grande cerimónia.

– Foi uma decisão repentina?

– Mais ou menos. Apanhou-te de surpresa… portanto só tiveste tempo de ir comprar um vestido.

– De que cor?

– Azul, o mesmo tom dos teus olhos.

– E as flores?

– Levavas um ramo de lírios brancos e cor-de-rosa.

– As minhas flores favoritas!

– Claro.

– Quem foi ao casamento?

– Houve duas testemunhas, uma antiga colega tua cujo nome não me recordo e um dos meus sócios.

– Trocámos alianças?

– Sim, de ouro branco, a tua com diamantes.

– E onde estão agora?

– O gerente da clínica deu-me a tua para que a guardasse.

– E a nossa lua-de-mel?

– Foram só alguns dias no iate. Eu não tinha mais tempo.

Maeve olhou para a mão direita.

– Eu gostaria de usar a aliança outra vez. Está em casa?

– Não, estão em Milão. Mas trago-as quando voltar. Por agora temos coisas com que nos entretermos por aqui.

Dario continuou a mostrar-lhe a ilha e, finalmente, ancoraram numa baía tranquila.

Colocaram as máscaras e as barbatanas de mergulho, lançaram-se à água cristalina para desfrutar da fauna marinha da zona: cardumes de peixes moviam-se entre as rochas, estrelas-do-mar agarravam-se às rochas vulcânicas, minúsculos crustáceos escondiam-se nas algas…

Quando se aproximaram da entrada da gruta, Maeve viu uma ânfora antiga, relíquia de algum naufrágio que tivera lugar séculos antes.

Depois de mais de uma hora a mergulhar, o sol começava a esconder-se no horizonte e, cansada e contente envolta numa toalha, Maeve apertou-se contra o ombro de Dario enquanto levantavam a âncora e voltavam para casa.

Como sempre, jantaram no terraço. Nessa noite Maeve vestira-se com particular cuidado antes de se juntar a ele. Embora se tivesse divertido, não conseguira o resultado que esperava. Não se recordava de ter estado ali antes, assim como não se recordava de se ter casado com Dario e estava decidida a não deixar passar outra noite sem fazer algum progresso.

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