Kitabı oku: «Os segredos de Saffron Hall»

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Editado por HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

Os segredos de Saffron Hall

Título original: The Secrets of Saffron Hall

© Clare Marchant 2020

© 2022, para esta edição HarperCollins Ibérica, S.A.

Publicado originalmente pela Avon, uma divisão da HarperCollins Publishers Limited, UK.

Tradutora: Mariana Mata

Reservados todos os direitos, inclusive os de reprodução total ou parcial em qualquer formato ou suporte.

Esta edição foi publicada com a autorização da HarperCollins Publishers Limited, UK.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos comerciais, acontecimentos ou situações são pura coincidência.

Desenho da capa: Claire Ward © HarperCollinsPublishers Ltd 2020

Imagens da capa: © Lee Avison/Trevillion Images (fundo), Mark Owen/Trevillion Images (mulher)

1ª edição: Abril 2022

ISBN: 978-84-9139-783-0

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Prólogo

Capítulo Um

Capítulo Dois

Capítulo Três

Capítulo Quatro

Capítulo Cinco

Capítulo Seis

Capítulo Sete

Capítulo Oito

Capítulo Nove

Capítulo Dez

Capítulo Onze

Capítulo Doze

Capítulo Treze

Capítulo Catorze

Capítulo Quinze

Capítulo Dezasseis

Capítulo Dezassete

Capítulo Dezoito

Capítulo Dezanove

Capítulo Vinte

Capítulo Vinte e Um

Capítulo Vinte e Dois

Capítulo Vinte e Três

Capítulo Vinte e Quatro

Capítulo Vinte e Cinco

Capítulo Vinte e Seis

Capítulo Vinte e Sete

Capítulo Vinte e Oito

Capítulo Vinte e Nove

Capítulo Trinta

Capítulo Trinta e Um

Capítulo Trinta e Dois

Capítulo Trinta e Três

Capítulo Trinta e Quatro

Capítulo Trinta e Cinco

Capítulo Trinta e Seis

Agradecimentos

Para ti, mãe, que sempre acreditaste em mim.

Prólogo

1541

A mão tremia-lhe enquanto mergulhava a pena na tinta e escrevia as palavras, com letra quase ilegível, enquanto as lágrimas quentes se espalhavam pelo pergaminho e o ensopavam, engrossando as fibras.

Mary, em segurança nos braços de Nosso Senhor, 17 de novembro de 1541

Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa

No exterior, a mancha escura de pesadas nuvens cinzentas estava tão baixa que quase tocava nas copas das árvores nuas. O vento amargo e gelado atirava flocos afiados de neve às janelas, assobiando pelas numerosas frestas para encontrar o seu caminho para o interior e enrolar os dedos crus à volta dos seus ossos exaustos. Pouco importava. Já tinha o coração gelado, como se fosse um caroço duro e doloroso que lhe pesava no peito. Nenhuma quantidade de roupa de lã ou mantos forrados a pelo conseguiriam aquecê-la naquele momento.

Eleanor sabia que as hipóteses de sobrevivência de um bebé tão pequeno, que tinha nascido demasiado cedo, eram reduzidas. Um desejo impossível. Mas ver as feições perfeitas da filha transformarem-se em alabastro poucos minutos depois de ter chegado ao mundo era mais do que conseguia suportar.

E agora estava sentada na torre, de corpo quieto e a postos, enquanto ouvia o retumbar dos cascos que se aproximavam, anunciando a chegada dos homens do rei. Nunca tinha ela precisado tanto do seu amado Greville, mas ele não vinha. As ervas húmidas aos seus pés estavam coladas com os coágulos do sangue que tinha perdido. Todo o corpo lhe doía. Queria deitar-se no chão de pedra fria e deixar a vida escapar-se com o sangue que ainda escorria dela. Manchou-lhe as mãos, escurecendo-as onde secou, esticando bem a pele sobre os nós dos dedos.

Tinham de partir em breve, muito em breve. Já se tinham demorado mais do que pretendia e não havia tempo para fazer o que era preciso. A única coisa a fazer era esperar que, ao deixar aquela mensagem, alguém fosse capaz de decifrar o que estava a pedir e responder ao seu apelo. Os seus olhos percorreram o chão contra a sua vontade, atraídos para o sítio onde Mary agora jazia. Estaria a ouvir alguma coisa? Um gemido? Um choro ténue de aflição? Não, era apenas a sua imaginação febril e as gaivotas em redor fustigadas pelos ventos de inverno do lado de fora da janela a chorarem com ela.

De mãos a tremer, começou a escrever: infans filia sub pedibus nostris requiescit…[1]

Por fim, pegando numa flor prensada de açafrão, juntamente com um raminho de alecrim, pousou-as suavemente entre as páginas e fechou o livro.

[1] Uma filha bebé jaz debaixo dos nossos pés.

Capítulo Um

2019

— Queres que ajude a carregar alguma coisa? — O avô encostou-se à porta do escritório com uma caneca de chá numa mão e um monte de bolachas com creme na outra.

Amber levantou o olhar da caixa empoeirada que estava a esvaziar, empilhando o conteúdo à frente da secretária que rapidamente ficava sem espaço. Tinha o rosto pálido e magro atormentado. As sombras profundas quais nódoas negras debaixo dos olhos refletiam as horas que permanecia acordada à noite, enquanto todos em redor dormiam.

— Avô, não consegues levantá-las. Nem penses nisso! — advertiu-o. Provavelmente as bolachas eram a coisa mais pesada que conseguia atualmente carregar.

— Estás com um ar demasiado pálido. Devias comer mais — comentou.

Amber mergulhou de novo a cabeça na caixa que estava a esvaziar e revirou os olhos. — Estou sempre desta cor. Fica bem com o cabelo ruivo. — Os pais não tinham feito muito uso da imaginação quando lhe deram o nome Amber. Levantando-se, colocou um punhado de velhos guias de Londres em cima de uma pilha periclitante de cópias quase idênticas datadas dos anos 50. — A sério? — Apontou para os guias e ergueu as sobrancelhas. — Estavas a pensar em obter a licença de taxista? — Fez-lhe um sorriso irónico.

Foi a vez de o avô revirar os olhos.

— Não mudes de assunto — disse-lhe, franzindo o sobrolho por debaixo das suas sobrancelhas demasiado grossas, agora quase brancas, mas ainda com vestígios de uma ligeira coloração ruiva.

— Então, preparei uma folha de cálculo para catalogar tudo — continuou ela, como se ele não tivesse falado — e estou a anotar a localização dos livros em casa para que os possas encontrar mais tarde quando decidires o que fazer com eles.

— Isso soa muito eficiente.

— Foi o que combinámos — relembrou-lhe. — As minhas capacidades de arquivista em troca de cama e comida. — E um lugar onde me esconder, deixou ela por dizer. — É bom que fique cá um ano porque desconfio que vou demorar todo esse tempo a registar os teus livros todos. Há milhares deles. Sabia da biblioteca, claro, mas não fazia ideia de que tinhas enchido o sótão com sabe-se lá o quê.

— Bom, é o problema de se ser alfarrabista — defendeu-se ele. — Às vezes, nos leilões, tem de se comprar um lote inteiro de livros quando só se quer um, de facto. Imagino que tudo o que esteja no sótão seja lixo, mas primeiro precisa de ser verificado.

— Hum, lixo é muito provavelmente a palavra certa — comentou Amber, acrescentando mais dois guias à pilha e equilibrando uma cópia esfarrapada d’ O colégio das quatro torres em cima de alguns anuários Jackie. Teve de se controlar para não folhear alguns dos livros que encontrara ou a tarefa gigantesca nunca acabaria. Ao menos havia muito material de leitura para as noites longas e solitárias. Para as horas negras em que era preferível não adormecer, porque depois tinha de acordar e lembrar-se novamente de tudo.

O avô mergulhou uma das bolachas no chá e tentou virar a metade ensopada para a boca. Atualmente, as suas reações não eram tão rápidas como dantes e ouviu-o praguejar entredentes enquanto a bolacha caía de novo no chá, afundando-se para fora de vista. O AVC que o tinha deixado com um coxear impercetível e um ligeiro arrastar das palavras quando estava cansado, tinha feito estragos no braço esquerdo, deixando-o enfraquecido e maioritariamente inútil. E ser esquerdino tornava a deficiência ainda mais acutilante. Depois de uma vida inteira de raciocínio rápido e reações relâmpago, percebia a sua frustração diária quando o novo corpo que habitava lhe falhava.

— E como estás tu? — Hesitava sempre em perguntar, mas ela apagava-se mais a cada dia. As sombras escureciam-lhe o rosto e ele conseguia sem dúvida ver-lhe as veias azuis-claras a cruzarem a testa sempre que ela empurrava as madeixas do seu cabelo curto e fino para trás.

— Ah, estou bem, sabes. — Sabia exatamente ao que ele se referia, mas não estava pronta para falar sobre isso. Ainda não. Sorriu-lhe, embora o estremecimento do canto da boca lhe tenha desmentido a resposta.

— Posso ser velho, mas não sou estúpido — respondeu ele num tom um pouco ríspido demais. — Para além de estares magra como um palito, estás com um ar deslavado. Devias comer comida como deve ser, em vez de só sopa, torradas ou cereais. Ia ajudar, sabes? — A sua boca contorceu-se e ergueu as sobrancelhas. Os olhos enrugaram-se ligeiramente, um pequeno reconhecimento das suas palavras duras. — E sempre que entro na cozinha, encontro chávenas de chá que fizeste, mas não bebeste. O que é que se passa, afinal?

— Não ando a dormir bem. — Encolheu os ombros. — Fazer chá reconforta-me. É uma pequena rotina que posso fazer sem pensar para me ajudar a limpar a cabeça. «Às vezes, mantém os demónios à distância, nem que seja só por uns minutos», refletiu ela em silêncio. — Para ser sincera, não me lembro de os meus hábitos alimentares fazerem parte do nosso acordo. Estou aqui para ter alguma paz e solidão, mas sem chatices, obrigada. — Avançou para outra caixa e começou a atirar o conteúdo para o último canto livre da secretária. Levantou-se uma densa camada de pó cinzento no ar, com uma nuvem de partículas minúsculas de poeira a efervescerem de excitação por terem sido libertadas, dançando à luz fraca do sol que se esforçava por passar pelas janelas imundas. Amber suspeitava que nunca tinham sido limpas nas décadas desde que a avó tinha morrido.

Depois de desdobrar a caixa agora vazia com agressividade a mais, atirou-a para um canto da sala para cima da pequena montanha de cartão igualmente maltratado. O avô observava em silêncio enquanto ela puxava mais uma para si e arrancava a parte de cima, levantando uma mão de cheia de livros e empilhando-os.

— Achei que estares aqui e teres algo com que te distrair… das coisas fosse arrebitar-te, mas ainda não me parece que esteja a acontecer. Talvez… — Ele levantou ligeiramente a mão quando ela abriu a boca para interromper — …estar aqui num local tão remoto não tenha sido boa ideia. Talvez se estivesses com os teus pais, se não queres estar com o Jonathan, fosse melhor para ti? Mais gentil para a tua alma? Às vezes o isolamento em alturas complicadas não é solução.

As sobrancelhas de Amber dispararam até à linha de cabelo.

— Não brinques comigo. Porque é que te escondeste neste casarão velho depois de a avó morrer para gerires o teu negócio à porta fechada? Se bem te lembras, deixaste a mãe com a família da avó e depois fugiste para te vires enterrar no fim do mundo. Por isso, desculpa-me se sigo as tuas passadas. Chama-lhe genética, se quiseres.

Atirou-se para a cadeira de escritório atrás da secretária fazendo-a recuar ligeiramente e tentou não ranger os dentes. A casa estava na família há gerações e fazia parte da sua essência, da sua base. Ecoava com as almas dos seus antepassados ruivos e apenas lhe pareceu natural regressar ali, quando a sua vida foi dilacerada, para se esconder do mundo. Embora amasse os pais, tinham uma relação frequentemente tensa e sentia-se mais próxima do avô. Precisava de estar com ele e na casa naquele momento. Por isso, a última pessoa que esperava que questionasse a sua decisão era o próprio avô.

* * *

Quando Amber se sentou, o avô percebeu que tinha construído uma muralha de livros em cima da secretária em seu redor e que agora estava completamente escondida. Uma barricada atrás da qual se escondia mais uma vez.

— Só porque o fiz, não quer dizer que fosse correto — comentou ele para o vazio onde ela tinha estado. Voltando-se com cuidado, deixando as pernas acompanharem momentaneamente o cérebro, voltou à sala de estar e à corrida das duas e meia em Kempton Park.

Quando teve a certeza de que ele tinha saído da divisão, Amber voltou a pôr-se em pé. Limpou as já familiares lágrimas que tinham começado a cair com a bainha da t-shirt, inclinando o rosto para cima para tentar pará-las, mas era um gesto inútil. Os sulcos estavam-lhe quase permanentemente gravados no rosto, de tantas vezes terem serpenteado até abaixo, para lhe pingarem no queixo pequeno e pontiagudo. Esperava acordar uma manhã com as linhas indelevelmente marcadas nas suas faces para sempre, como tatuagens. Uma mancha visível da sua tristeza, para mostrar ao mundo a pessoa horrível que era, um fracasso. A vida já era suficientemente difícil sem um sermão do avô, o rei das fugas, há sessenta anos escondido naquele mausoléu de casa.

Tinha apenas um ano sabático da universidade durante o qual precisava de resolver a sua vida, de alguma forma. Decidir se ela e Jonathan tinham algo que valesse a pena salvar. O pesar esmagador, agora amigo habitual, pesava-lhe nos ombros enquanto foi até à cozinha para fazer uma chávena de chá que não beberia.

Capítulo Dois

1538

Do seu quarto, Eleanor conseguia ouvir a agitação frenética no pátio abaixo, com homens a gritar aos moços de estrebaria e aos servos, em conjunto com o bater impaciente dos cascos dos cavalos contra a calçada. A animada comitiva que acabara de chegar parecia enorme. Ninguém na casa estava habituado àquele número de convidados e ao barulho que provocavam, Eleanor incluída.

Apesar das suas reservas, sabia o que ditava o protocolo. O seu querido pai tinha-lhe incutido boas maneiras desde tenra idade, pelo que se preparou para descer as escadas e cumprimentar o primo William, agora o proprietário da sua casa. Parecia ter chegado não só com a família, mas também com muitas outras pessoas.

Quando chegou ao cimo da escada de pedra acompanhada por Joan, a sua dama de companhia e melhor amiga, o salão nobre estava cheio de gente, com o fedor da roupa de lã húmida a subir e a fazer-lhe enrugar o nariz. Os seus olhos pairaram sobre eles para verificar qual dos muitos cavalheiros, a maioria dos quais ainda com as grossas capas de cavaleiro vestidas, era o primo. Ao observar o moço da cozinha a apressar-se de um lado para o outro a oferecer canecas de cerveja, o seu olhar prendeu-se num par de olhos claros e cruéis, que se estreitaram e fixaram nos dela quando se cruzaram. A mulher vestia um manto de viagem de veludo verde com muitos bordados e estava ao lado de um homem pequeno e robusto. Eleanor olhou para Joan e ambas ergueram as sobrancelhas. Joan sorriu e fez-lhe um pequeno aceno de encorajamento antes de a deixar e regressar ao quarto. Precisava de fazer aquilo sozinha.

Eleanor fez o seu caminho pelo meio das pessoas que se acotovelavam e mal reparavam na sua forma discreta, até acabar por se encontrar diante do casal que tinha visto da galeria acima. De perto, William era pouco mais alto do que o seu próprio metro e sessenta de altura, com um corpo rotundo encimado por um rosto rosado profusamente suado. Fazendo uma vénia aos dois, saudou-os.

— Meu senhor, minha senhora, bem-vindos a Ixworth. Espero que sejais muito felizes na vossa nova casa.

— Prima Eleanor, como é encantador conhecê-la. — O que lhe faltava em altura, compensava no volume da voz. Eleanor estremeceu ligeiramente quando uma rajada de mau hálito a cerveja lhe assaltou as narinas. Esta é a minha esposa, Lady Margaret.

Eleanor repetiu a vénia de olhar baixo, mas assim que se voltou a endireitar, fitou os estilhaços penetrantes que lhe queimavam os olhos. Porque é que aquela mulher a odiava tanto? A sua animosidade escorria-lhe de todos os poros do seu rosto bexigoso. As suas roupas e peles luxuosas e a fila de pérolas cosidas ao seu capuz francês da moda não conseguiam diminuir a devastação da sua pele. Aquelas pessoas estavam a mudar-se para a sua maravilhosa casa, tirando-lhe tudo o que o seu pai possuía, porque William era o seu herdeiro e Eleanor apenas uma rapariga que muito em breve poderia ficar sem casa ou ser despachada para um convento. Margaret deveria estar a dançar pela sala em deleite, em vez de parecer que se podia estilhaçar num milhão de pedaços a qualquer momento.

— O nosso querido filho, Robert, chegará dentro de alguns dias — continuou William. — Tem apenas um ano e está com uma febre ligeira, pelo que virá de Richmond quando estiver bem, tendo sido aqui instalado um berçário para ele. Viemos diretamente da corte e naturalmente lamentamos não termos conseguido chegar a tempo do funeral do seu pai.

Não soava a alguém com muitos remorsos e, por instantes, passaram-lhe pela visão uma série de imagens da procissão fúnebre escassa atrás do caixão do seu pai enquanto fazia o caminho da casa que amava para a capela onde foi enterrado ao lado da mãe.

— Sir William fará muita falta ao rei — informou-a Margaret — e não consigo imaginar o que faremos nesta região selvagem abandonada por Deus. — Tinha o nariz comprido enrugado e Eleanor começou a aperceber-se porque é que estava com um ar tão fora de si. Mordeu-se para não replicar que eram mais do que bem-vindos a regressar à corte porque não os queria em sua casa. Só que já não era sua. De repente, não conseguia suportar mais a multidão, o calor opressivo e o fedor a corpos por lavar nem mais um instante.

— Por favor, deem-me licença — murmurou antes de se apressar a passar pela massa de gente em direção à porta.

Uma vez lá fora, parou por um momento no ar húmido mais fresco, a inspirar em grandes golfadas. Estava habituada a dezassete anos de isolamento e paz. Como é que ia viver numa casa cheia de barulho e clamor o dia inteiro? Era insuportável.

Olhando através do pasto, os olhos ergueram-se em direção ao arenito creme pálido do muro do priorado que se erguia do terreno pantanoso que rodeava a sua casa. Sob a autoridade do muito maior Priorado de Thetford, aquela era uma instituição mais pequena e autossuficiente, onde os monges tinham, na sua maioria, os próprios códigos e leis. Como sempre, oferecia-lhe o refúgio que ela desejava. Sem pensar duas vezes, juntou e levantou as saias e correu de pés a voar pelo chão na sua direção, através das ervas altas à altura da cintura ao longo do caminho bem trilhado.

Entrando pelo portão de carvalho gasto nos jardins do priorado, Eleanor soltou lentamente a respiração, vendo-a formar-se em vapor à sua frente. Ali estava a salvo. O jardim vazio diante dela encheu-lhe o coração de calma. As árvores de fruto e as filas de ervas e vegetais imaculadamente cultivados pelos monges eram um conforto. Apesar da hora tardia, os andorinhões continuavam a pairar sobre a sua cabeça para apanhar insetos, e um par de tentilhões discutia em voz alta num arbusto frutífero por perto. O que quer que acontecesse em casa, aquele pequeno canto do seu mundo era uma constante. A regularidade reconfortante dos irmãos no seu trabalho diário, o canto da capela enquanto o fluxo da oração em latim a inundava e lhe limpava a alma dos pensamentos pouco caridosos que tinha tido sobre o primo.

Dobrando-se, arrancou um raminho de tomilho, enrolando as minúsculas folhas verdes entre os dedos e o polegar e cheirando o aroma pungente que libertavam. Um ligeiro restolhar perturbou-lhe os pensamentos e, ao levantar o olhar, viu o Irmão Dominic a dirigir-se a ela. Era o seu favorito de todos os irmãos, um querido amigo, e Eleanor não pôde evitar abrir um largo sorriso no rosto, com a sua inocência de criança a fervilhar dentro de si. Um sentimento que quase tinha sido extinto nos últimos meses.

— Está de visita ou a esconder-se? — perguntou o jovem monge quando chegou ao mesmo nível dela. Ele só tinha sido ordenado sacerdote no ano anterior e não era muito mais velho do que a própria Eleanor. Via nele uma alma gémea, alguém que tinha de se conformar às regras estabelecidas, contra o seu melhor julgamento. Os seus olhos, do verde mais claro que ela já tinha visto, brilhavam de forma travessa para ela sob as suas sobrancelhas erguidas, já seguro da resposta à sua pergunta.

— Claro que estou aqui de visita — respondeu ela. — Se ninguém sabe que estou aqui, é apenas uma mera e útil coincidência.

— O seu parente já chegou?

— Chegou juntamente com a esposa e uma grande comitiva de outras pessoas. O salão estava cheio. Cumprimentei-os antes de os deixar para se instalarem nos seus aposentos. Duvido que alguém sinta a minha falta durante algum tempo. Ou de todo.

— Então entre e tome uma chávena de hidromel. O prior ficará satisfeito por ter alguma companhia. Está novamente com dores. Este ar fresco e húmido não lhe convém. Fiz uma cataplasma com cravinho e poejo, mas não pareceu aliviar-lhe as dores.

— Poderia acrescentar um pouco de matricária? Ou óleo de bagas de loureiro, se tiver algum? — sugeriu ela.

— Acho que temos. É uma boa ideia, obrigado. Vou já ver.

Eleanor encontrou o prior, o Padre Gregory, no seu solário privado. Dali, o som do canto simples, o canto melódico profundo dos salmos que ondulava e balançava como árvores ao vento, ouvia-se mais alto, fazendo vibrar a pedra por baixo dos seus chinelos finos. Ele passou-lhe uma taça de barro e ela bebeu o vinho de mel, sentindo o seu calor a invadi-la por dentro.

Empoleirando-se na beira de um banco, fechou os olhos enquanto a paz e a serenidade do edifício a invadiu. Visitava o priorado com o pai quase diariamente desde que tinha memória. E agora era o seu refúgio, um lugar onde o suave apelo da rotina nunca variava. Tudo em redor lhe dizia que a mudança estava a chegar, depenando-lhe a roupa, puxando-a através dos sons dos cascos dos cavalos e dos gritos de homens estranhos. As notícias de Londres tornavam-se mais preocupantes, de que o rei estava a fechar muitos conventos e mosteiros e a ameaçar fazer desaparecer a vida outrora ordenada que conhecia. O que é que o futuro reservaria aos seus amigos? Uma pontada de medo e premonição rastejou-lhe pela coluna.

— Disseram-me que o seu primo chegou? — acabou o prior por perguntar.

— Chegou — respondeu ela, distraída dos pensamentos explicando a comitiva de pessoas que o acompanhavam.

— Talvez seja melhor não o antagonizar — recordou-lhe o Prior Gregory, deixando o resto da frase por dizer. Ela precisava de se manter do lado direito do seu primo: a sua situação era precária e ele era o dono do teto sobre a sua cabeça. Eleanor franziu a testa e acenou com a cabeça. Percebia o que era esperado de si.

Ao olhar para fora da janela, percebeu que as sombras se começavam a alongar. Um ronco suave do Prior Gregory alertou-a para o facto de ter permanecido demasiado tempo e esgueirou-se pela porta para a Capela da Nossa Senhora, onde mergulhou a ponta dos dedos na água benta e fez o sinal da cruz antes de se ajoelhar ao fundo na escuridão. Fechando os olhos, murmurou as vésperas, as familiares orações da noite, enquanto o canto profundo e simples continuava como pano de fundo do seu murmúrio. A luz trémula das velas atirava sombras ondulantes dos irmãos encapuzados através das paredes rugosas e do teto abobadado. Eleanor levantou a cabeça por um momento, deixando os sons da sua infância infiltrarem-se no seu corpo. Estava a equilibrar-se na cúspide de uma nova vida, com tudo o que lhe era familiar prestes a desaparecer.

Levantando-se da posição de joelhos, saiu pela porta voltando para o prado onde o crepúsculo se instalava. Não era sensato sair depois do anoitecer, especialmente quando a casa estava cheia de estranhos. Não tinha qualquer desejo de se encontrar com nenhum deles fora das paredes protetoras da casa.

Capítulo Três

2019

O clima invulgarmente quente do final de setembro agarrou-se aos últimos vestígios de verão, como que relutante em deixá-lo seguir graciosamente até ao outono. Dia após dia de denso calor opressivo deixou o ar denso e húmido, congestionando-lhe os pulmões. Antes de ir para a cama, Amber abriu as janelas tanto quanto se atreveu, preocupada com a sua antiguidade. Não queria que caíssem dos mainéis de pedra. Mas não ajudou. O ar pesado e petrificado pairava imóvel e silencioso tanto no exterior, nos terrenos da casa, como no seu quarto.

Ouviu os sons familiares da casa enquanto rangia e se instalava para a noite. Aos seus pés, Gerald, o gato enorme cor de laranja do avô, já estava enroscado e completamente adormecido, indiferente às condições pegajosas. Pensando que nunca conseguiria dormir, Amber deitou-se em cima do edredão com a t-shirt desconfortavelmente colada à pele.

No entanto, deve ter dormitado, porque foi subitamente acordada por um som tão alto de algo a partir-se que assustou Gerald ao ponto de se tornar numa bola amedrontada de pelo cor de laranja. Quando abriu a porta do quarto, ele saiu disparado. O seu quarto foi iluminado por uma luz azul esbranquiçada, forte e brilhante, que lhe picou os olhos e a fez estremecer. Foi rapidamente seguida por outro som semelhante ao que a tinha acordado, um barulho que soou como se a terra estivesse a ser dividida em duas, seguida de um trovão e de um eco a acontecer à distância. Depois veio o bem-vindo som da chuva, com grandes gotas a salpicarem sobre a hera no exterior. Fechou rapidamente as janelas, mas deixou as cortinas abertas, a observar as correntes de água a correr pelas pequenas vidraças enquanto a tempestade se agitava. Teria apostado dinheiro em como Gerald tinha mudado de ideias sobre ir lá para fora e que tinha encontrado um local seco para se enroscar algures no andar de baixo.

Enquanto o vento uivava em redor do edifício, um raio todo-poderoso atingiu a casa. Amber ouviu um estrondo e um barulho crepitante, como se algo estivesse algures a fritar. Abriu a porta do quarto com cuidado e pôs a cabeça de fora, cheirando o ar em busca de um odor a queimado. A casa estava às escuras, mas não conseguia cheirar nada de mal. Quando acendeu o interruptor da luz do quarto, nada aconteceu. Não havia eletricidade. Ouviu pés a arrastar e resmungos do quarto do avô e avançou com cautela na sua direção. A última coisa que queria era que ele caísse no escuro.

— Avô, estás bem? — chamou ela para o silêncio que se seguiu a outro estrondo de trovão que lhe vibrou debaixo dos pés. — A eletricidade foi-se.

— Sim, estou acordado. Espera. — Ela ouviu a porta a abrir-se um pouco mais ao fundo do corredor e quando o céu se iluminou de novo, conseguiu ver-lhe momentaneamente a silhueta à entrada da porta.

— Não saias do quarto — disse ela bem alto. — Só queria ter a certeza de que estavas bem.

— Estou bem — entoou ele. — Temos um para-raios no cimo da torre. Presumo que tenha sido atingido e esturricado. Não seria a primeira vez. Mas não há nada que possamos fazer até ao amanhecer. Cheira-te a queimado?

Preocupada, Amber voltou a cheirar o ar.

— Não, definitivamente não cheira — confirmou.

— Então, ótimo. Não estamos a arder. — Soou bastante satisfeito, enquanto as suas palavras eram afogadas por mais um estrondo ensurdecedor no exterior e o corredor tornava a iluminar-se.

Amber deu um guincho involuntário. Nunca tinha tido medo de tempestades, mas aquilo era outra coisa.

— Tens a certeza de que estamos seguros aqui? — perguntou quando o seu ritmo cardíaco começou a voltar ao normal.

— Claro que sim. — O avô riu-se. — Esta casa sobreviveu a quinhentos anos de temporais. Vai correr tudo bem. Podemos acabar por perder algumas telhas do telhado. Temos de verificar isso de manhã. Agora tenta dormir um pouco.

Ela ficou em silêncio por um momento, escutando-o a esbarrar contra a mobília, seguido do ranger das molas quando voltou a subir para a cama.

A ideia de dormir no meio do ruído exterior, com a chuva ainda a bater contra a janela, era risível. Depois de voltar para o quarto, quando estava prestes a fechar a porta, ouviu o som de unhas a raspar no chão de parquet. Gerald voltou a correr para dentro e desapareceu debaixo da cama.

Quando começou a amanhecer, a tempestade afastou-se para ser engolida pelo Mar do Norte e Amber conseguiu umas horas de sono irregular antes de ser acordada por Gerald, de bexiga cheia a arranhar a porta, a querer sair novamente. Enfiando-se no roupão, seguiu-o até lá abaixo, onde a sua parte felpuda de trás desaparecia ao sair pela portinhola de gato. Não havia sinal do avô, embora normalmente fosse madrugador e já tivesse amanhecido lá fora.

Empurrando os pés para dentro de um par de galochas demasiado grandes do avô que tinha encontrado ao lado da porta traseira, Amber saiu para a rua. O ar estava mais fresco, limpo e ela inspirou, desfrutando da frescura fria nos pulmões, com o cheiro a terra húmida e à vegetação molhada fustigada na noite anterior. A menta, o cebolinho e as rosas molhadas assaltaram-lhe os sentidos enquanto saltava pelas poças pelo antigo caminho de tijolos partidos que levava à horta. Ficou satisfeita por ver que o vidro da estufa ainda estava intacto. O avô ficaria aliviado.

Os relvados estavam cheios de ramos e galhos, os restos das últimas flores de verão espalhados pela relva, mas Amber mal teve tempo de os registar, enquanto prosseguia com as pesadas botas até à razão do barulho que tinham ouvido na noite anterior. Espalhados pelo chão, na base da torre, supostamente a secção mais antiga do edifício, estavam vários pedaços de alvenaria em bruto. Olhou para a torre e não viu nada de estruturalmente errado, embora suspeitasse que o conservacionista local e os projetistas dos edifícios classificados discordassem dela. O seu trabalho de arquivo teria de entrar em pausa enquanto resolvia aquela questão.

Reconstituiu os seus passos lamacentos até ao interior e começou a fazer chamadas telefónicas para saber quando é que a eletricidade seria restaurada e averiguando qual o protocolo correto a tomar relativamente aos danos na torre.

Quando o avô chegou à cozinha já passava das nove horas e Amber tinha organizado tudo o que podia, embora por essa altura estivesse desesperada por uma bebida quente e uma torrada.

— Não somos só nós que ficámos sem eletricidade — relatou. — Há cabos caídos daqui até ao Downham Market. Podemos ficar sem energia o dia todo, mas eles estão a tratar disso.

— Então não há televisão para mim hoje. — Fez uma cara desanimada enquanto se deixava cair numa cadeira à mesa. — Mas se foram só esses os danos que sofremos, não nos podemos queixar.

— Na verdade, não foram só esses — advertiu ela, explicando-lhe a alvenaria que tinha encontrado na base da torre. — Não consigo ver de onde veio, mas liguei às pessoas dos edifícios classificados da câmara para se arranjar um construtor e vêm cá ver. Se as estradas estiverem desimpedidas, devem vir esta tarde, mas quando falei com eles, não sabiam se havia árvores caídas por aqui.

* * *

Amber ficou encantada quando, pouco antes do almoço, as luzes tremeluziram e depois voltaram a acender-se. O avô e ela aconchegavam-se com sanduíches de bacon e uma segunda chávena de chá quando uma batida na porta da frente anunciou que os funcionários da câmara tinham chegado para inspecionar a torre.

— Tenho de admitir que não estava à espera de que viessem tão cedo — disse-lhes Amber enquanto os levava pelo exterior da casa. — Se puderem, talvez, sugerir um construtor, eu ligo-lhe para vir dar uma vista de olhos. — Foi claramente a coisa errada a dizer. O mais velho dos dois homens parou no caminho, fazendo com que o assistente mais novo quase esbarrasse contra ele.

— Senhora Morton — começou numa voz deliberadamente pausada, como se estivesse a falar com uma criança de cinco anos —, este edifício está classificado como de segundo grau, pouco menos do que um monumento nacional. Pode ser a casa do seu avô, mas também faz parte da História desta nação, e como tal, deve usar um restaurador de edifícios históricos especializado e não um velho caubói qualquer que encontre no Google.

Amber cerrou os dentes enquanto tentava pensar numa resposta que não fosse tão condescendente como a forma como ele estava a falar com ela. O funcionário mais novo parecia claramente envergonhado e olhava em redor do jardim sem cruzar o olhar com ela.

— Estou bem ciente da História e proveniência da minha casa de família, obrigada — respondeu num tom frio e modulado —, razão pela qual vos pedi para virem cá ver os danos e para sugerirem alguém a quem possa telefonar. Não tenho qualquer intenção de procurar alguém na Internet. — Afastou-se caminhando pela relva até à torre, pisando os pedaços dos destroços ainda caídos no relvado, deixando os dois homens a seguirem-lhe os passos.

— Portanto, aqui está a alvenaria, mas não consigo perceber de onde vem. — Falou diretamente para o homem mais novo, enquanto ele e o colega retiravam monóculos dos bolsos e os usavam para examinar silenciosamente o topo da torre. Eventualmente, pigarreou e respondeu.

— Suspeito que as ameias tenham sido diretamente atingidas por um raio ontem à noite — disse-lhe. — Vejo que uma delas está partida, mas esse parece ser o menor dos seus problemas. Há uma fenda a partir do telhado com cerca de um terço do comprimento ao longo da fachada deste lado. Desce até ao caixilho da janela. Precisa que vejam aquilo urgentemente.

— Então, pode sugerir alguém que possa dar uma olhadela?

— Vamos deixar-lhe uma lista de empreiteiros aprovados. Terão de colocar primeiro o andaime para poderem ver bem. Não vai ser barato. — Tinha sido o homem mais velho a falar e quase com satisfação. A vontade que Amber tinha de lhe dar uma bofetada aumentou. Fechou as mãos em punhos.

— Sem problema. Haverá seguro para cobrir os gastos — respondeu airosamente enquanto esperava fervorosamente que a sua suposição estivesse certa.

No espaço de dois dias, Kenny Clarke, um especialista em restauração que trabalhava juntamente com o filho Pete, chegou com uma carrinha carregada de andaimes. Ficaram empilhados na rua durante três dias enquanto eles, e o que parecia ser uma dúzia de trabalhadores, bateram e rebateram, assobiaram, riram-se e gritaram enquanto erguiam lentamente uma jaula de metal enorme à volta da torre. Amber tentou esconder-se no escritório, tendo percebido no primeiro dia que, se fosse vista na cozinha, alguém apareceria na porta das traseiras com o seu tabuleiro de canecas e um sorriso esperançoso. Normalmente era Pete, que tinha uns olhos azuis intensos que brilhavam de cada vez que sorria. Não eram precisos prémios para adivinhar porque é que os outros trabalhadores o enviavam sempre para pedir as chávenas de chá, embora quando tentasse envolvê-lo em conversa, descobrisse que, por detrás da sua robusta boa aparência, era muito tímido.

Agora, sentada em frente ao portátil, com um monte de romances policiais gastos e empoeirados dos anos cinquenta ao seu lado, não se conseguia concentrar. A divisão parecia estranha, no entanto, não conseguia apontar o que estava diferente. Tanto quanto podia ver, nenhum dos móveis tinha sido movido, e dada a profundidade do pó que cobria tudo, seria fácil de detetar se alguma das decorações tivesse sido alterada. De facto, havia algo de estranho pela casa, e o que quer que fosse, conseguia senti-lo mais fortemente na biblioteca, na base da torre. Com a luz fraca das pequenas janelas agora ainda mais obscurecidas pela miríade dos postes dos andaimes, a divisão parecia estranha, inquieta. Como se não estivesse contente com o trabalho a decorrer no exterior, o que era uma noção ridícula, disse para si. No entanto, a atmosfera tinha sido perturbada e por vezes tinha a certeza de que alguém a observava, embora uma rápida verificação à sala provasse o que ela já sabia, que estava sozinha.

Poucas horas após os dois homens terem iniciado as suas investigações, Kenny apareceu na porta das traseiras com um pequeno pacote a perguntar se podia falar com ela e com o avô. A sua jovialidade habitual tinha-o abandonado e, depois de o ter convidado a entrar na cozinha e de lhe ter oferecido uma cadeira à mesa, foi à procura do avô.

— É muito pior do que eu conseguia ver do chão — começou assim que todos se sentaram com mais uma chávena de chá. — Há algum trabalho estrutural de fundo que precisa de ser empreendido. A fenda que avistámos é maior do que eu inicialmente pensava e continuará a abrir pela parede da torre até que toda a esquina se desfaça e se venha a desmoronar. O caixilho da janela está tão solto que tivemos de o remover antes que caísse e todo aquele vidro antigo se partisse. Pete encontrou isto no parapeito da janela. — Pôs o pacote que trazia em cima da mesa diante de Amber.

Mesmo antes de lhe pegar, ela sabia ser algo especial e passou-lhe um formigueiro acentuado ao longo dos braços, fazendo-lhe os pelos eriçarem-se. Era um pequeno bloco retangular, grosseiramente embrulhado num pedaço de linho castanho, bordado e desfiado nas pontas. Estava envolto num cheiro a mofo, com um toque a especiarias e incenso, lembrando instantaneamente Amber da sua casa e de Jonathan e da antiga igreja vizinha. Quando lhe pegou, conseguiu sentir o ar à sua volta a arrepiar-se e distorcer-se por um instante. Deslizando-o para o colo, tentou ouvir a conversa entre os outros dois. O que quer que estivesse contido no velho pedaço de pano tinha-lhe despertado o interesse, mas queria olhar para ele quando estivesse sozinha.

Após mais discussões sobre o trabalho necessário, e de despachar Kenny de volta para o exterior com mais chá e um pouco de bolo de chocolate para ele e Pete, Amber foi até ao escritório a segurar o pacote firmemente contra o peito. Pousando-o sobre a secretária, levantou gentilmente o embrulho de linho, agora castanho, com manchas escuras e amarelado pelo tempo. Quando começou a desembrulhá-lo, os seus sentidos foram alertados para o cheiro pungente e evocativo a livros decrépitos e a ervas amargas que a invadiram, fazendo-a fechar os olhos por um instante. Infiltrou-se na divisão como um espírito, como se estivesse ali, mas não estivesse.

O ar perfumado lembrou-lhe momentaneamente de Jonathan e da sua igreja. Da sua ordenação e das vozes agudas dos meninos de coro enquanto cantavam Ubi Caritas, as palavras a rodarem pelo teto abobadado em veneração, enquanto o seu marido, nas suas vestes negras, se estendia no chão que vibrava com as notas profundas e poderosas do órgão. A luz colorida que entrava pelos vitrais brilhava através do fumo do incenso, criando um arco-íris enevoado. Ela nunca tinha compreendido a sua paixão intensa pela teologia e a sólida crença na fé, mas agora desejava, mais do que tudo, ter também algo sólido a que se agarrar e que pudesse salvá-la. Fechou os olhos por um momento, deixando a ténue fragrância assentar sobre ela. Era sustentada por um toque acentuado, quase metálico, de uma especiaria pungente que não conseguia identificar.

Amber virou o tecido nas mãos, examinando o bordado pesado. Parecia antigo. Desembrulhando-o cuidadosamente, retirou-o do objeto que cobria. Inspirou com força, apercebendo-se com choque do que estava a segurar. Era um livro minúsculo de orações encadernado em pele, com uma capa espessa que encerrava páginas finas.

Dentro da capa, rodeada de iluminuras coloridas, requintadas ilustrações religiosas ainda tão vivas como no dia em que foram concluídas, e escrito num inglês medieval estilizado que fez Amber franzir os olhos, lia-se:

Sir Greville Richard Lutton, nascido em junho de 1508

Eleanor Lutton, nascida a 29 de novembro no ano de Nosso Senhor de 1520

Por baixo, em veia semelhante e com decoração, estava escrito:

Jane Elizabeth Lutton nascida a 7 de agosto de 1534

Henry Greville Lutton nascido a 15 de maio de 1539

Uma entrada adicional, menos ilustrada dizia apenas:

Thomas Lutton julho de 1539

Por baixo da entrada de Thomas, lia-se:

Mary, em segurança nos braços de Nosso Senhor, 17 de novembro de 1541

Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa

Engoliu em seco. Parecia que Mary, tal como a sua própria filha, a sua minúscula Saffron, não tinha sobrevivido à nascença. A pior experiência por que alguma mãe ou pai poderia passar. Uma dor inscrita no seu coração para sempre. E porque é que a autora dessas palavras tinha acrescentado Mea culpa? Como é que poderia alguma vez pensar que a culpa era sua? Embora Amber soubesse exatamente como é que era essa culpa que tudo consumia. Em frente ao frontispício, aquela primeira página com a lista de nascimentos, havia outra coisa escrita em latim, mas rabiscada desordenadamente como se tivesse sido escrita com rapidez, sem nenhuma da arte que decorava a outra página. Os olhos de Amber fixaram-se na primeira linha que, devido à sua profissão e para sua satisfação, foi capaz de traduzir.

infans filia sub pedibus nostris requiescit

«Uma filha bebé jaz debaixo dos nossos pés»

O que significava a inscrição? Era um epitáfio para Mary? Conseguia sentir o coração a bater com mais força. Era como se o livro a tivesse encontrado, como se tivesse estado à espera dela na torre para que se unisse a ele. Ela e Eleanor, a proprietária original há centenas de anos, tinham uma ligação pela mais dolorosa das razões, duas mães de luto. As suas suspeitas foram confirmadas: aquele livro era definitivamente muito antigo. Teria estado sempre ali em Saffron Hall?

Embora a casa fosse uma fração do tamanho que outrora teve, ela sabia pelos registos e pesquisas já feitas que nos tempos medievais tinha sido um castelo de tamanho considerável. Um livro de horas, um pequeno livro pessoal de orações como aquele, escrito à mão e não impresso, era provavelmente datado do século XV, talvez até anterior. Deve ter sido muito especial para Eleanor. Que achado. O ar à sua volta crepitou e por um instante pensou ter ouvido um sussurro enquanto o tecido do edifício suspirou e se mexeu ligeiramente, quase em antecipação. Estava desesperada para decifrar o resto da passagem em latim, para descobrir se se referia a Mary.

Capítulo Quatro

1538

— Sir William pediu para vê-la — anunciou Joan sem fôlego enquanto se apressava a entrar no quarto de Eleanor, onde ela se tinha escondido durante a maior parte do dia a jogar às cartas e a observar a chuva implacável lá fora a atirar-se contra a janela, como que a exigir entrar. Bateu outra carta em cima da mesa.

— Porquê? — Não levantou a cabeça. Desde que o seu primo chegou, há uma semana, tinha havido muitas entradas e saídas de pessoas que ela nunca tinha visto, mas ninguém a tinha incomodado. Esperava que se tivessem esquecido de que estava ali, mas claramente que não.

Joan encolheu os ombros.

— Não sei — respondeu a abanar os braços como se quisesse fazer a sua companhia mover-se com mais pressa —, mas foi mais uma ordem do que um pedido, por isso é melhor não o fazer esperar. Sabe como é importante para nós as duas mantermo-nos do lado certo. Estamos agora aqui como suas convidadas. Já não temos quaisquer direitos.

Eleanor aconchegou as madeixas rebeldes do seu cabelo ruivo espesso debaixo da touca de linho e empurrou os pés para dentro dos chinelos de couro macio antes de descer para o salão nobre com passos medidos e firmes. Não havia necessidade de temer um encontro com o primo, disse para si, embora todos os pelos da sua pele se tivessem eriçado em apreensão e a sua respiração trémula desmentisse a sua aparente confiança. Joan tinha dito palavras sábias: estavam agora à mercê do primo e, embora ela odiasse a situação, precisava de se lembrar disso. Sentiu uma tensão no ar como se todos estivessem em posição e à escuta, à espera de que algo de terrível acontecesse, e não gostou.

Encontrou o primo sentado diante da lareira com Lady Margaret. No outro canto da sala, estavam a ser dispostas bandejas sobre a mesa para o jantar e o seu estômago roncou alto. Desde que tinham chegado todos, tinha escolhido comer na cozinha depois das refeições, em vez de no salão nobre, e normalmente já não havia muita comida decente quando chegava a altura de comer. O cheiro acentuado a gordura queimada e a carne assada espalhava-se pela vasta divisão em direção a eles, fazendo-a salivar.

Eleanor fez uma vénia breve e ficou à espera de que William falasse, de olhos fixos no chão.

Ele contraiu ligeiramente a cabeça em reconhecimento.

— Eleanor, finalmente honra-nos com a sua presença.

Ela não conseguiu pensar numa resposta, duvidando que ele tivesse de facto notado, para além da missa, que ela estava ausente o mais frequentemente possível, por isso manteve os lábios cerrados e não disse nada. Estava sentado no cadeirão preferido do pai e Eleanor mordeu a boca por dentro para impedir que as lágrimas ferozes se derramassem enquanto ele indicava o banco ao seu lado e ela se sentava nele. Os juncos, as ervas secas espalhadas nas lajes para o asseio perto do local onde estava sentado estavam húmidas da cerveja derramada e começavam a cheirar mal. Eleanor não pôde deixar de enrugar o nariz em repugnância. O seu pai tinha sido sempre meticuloso em manter as ervas e a lavanda secas e frescas, com um cheiro doce, e aliviou-a ele já não estar ali para ver o que estava a acontecer à sua casa. William pigarreou ruidosamente e ela ficou contente por ver que até Margaret estremeceu com o som repugnante.

— Eleanor, o meu filho Robert chegará dentro de uma semana. É mesmo do que esta casa precisa, de uma família para a encher. Compreende que já não é a sua casa.

Ela abriu a boca para assinalar que ele era agora a família mais próxima que tinha e depois fechou-a de novo sem dizer uma palavra. Percebia pelo seu tom de voz que ela era uma inconveniência a ser descartada o mais depressa possível. Tal como tinha suspeitado. O convento pairava em grande plano no horizonte.

— Felizmente para si, fiz um acordo para que se casasse com Sir Greville Lutton. É um rico mercador e cortesão, com terras vastas em Norfolk e está preparado para a desposar, apesar da falta de dote deixado pelo seu pai.

Horrorizada, Eleanor não abriu a boca para argumentar, ficando em silêncio com o choque. Ficou sentada imóvel sem respirar durante alguns segundos. Casar? Ela? E quem era aquele Sir Greville Lutton de quem ele falava?

Sabia que muitas raparigas se tinham casado aos dezassete anos, mas esperava ser consultada, que lhe tivesse sido dada uma escolha, conforme a sua posição ditava, como o seu pai teria desejado. Como barão que se tinha distinguido na Batalha de Flodden, e que mais tarde tinha sido nomeado alto xerife, era de esperar que fizesse isso por ela. Se não tivesse morrido tão subitamente. Para seu espanto, Sir William acenou a um homem na periferia de um grupo no outro extremo do salão, que se levantou e se aproximou até estar diante de Eleanor, fazendo de seguida uma vénia profunda. Ele estava ali, naquele momento?

— Prima Eleanor, Sir Greville Lutton. — William fez as apresentações como se estivesse supremamente orgulhoso de si próprio. Provavelmente estava, tendo-se livrado com sucesso de uma parente que lhe atafulhava a sua nova casa. Levantou o olhar para o desconhecido. Era consideravelmente mais alto do que William e mais magro, com ombros fortes e largos. Tinha o cabelo preto cortado rente, tal como a barba, e olhava para ela com preocupação. As rugas espalhavam-se a partir dos seus olhos castanhos-escuros e ela quase conseguia distinguir as sobrancelhas pesadas. Parecia consideravelmente mais velho do que ela.

William e Margaret fizeram uma grande demonstração de magia ao desaparecerem para se juntarem aos amigos para jantar, mas de repente o apetite de Eleanor tinha-a abandonado. Em vez disso, achou que podia muito bem vomitar a qualquer momento. Greville sentou-se no lugar que William tinha acabado de desocupar e inclinou-se para a frente, de antebraços pousados sobre os joelhos. A sua jaqueta, gibão e meia-calça eram integralmente em preto, dando-lhe um ar ameaçador.

— Eu sei que isto é um choque para si. — Tinha uma voz profunda, mas surpreendentemente gentil e culta. Mais parecida com a do seu pai do que com a do primo. — Mas não tem nada a temer. Posso dar-lhe um lar seguro e uma boa vida. Sou viúvo e tenho uma filha pequena, a Jane. Tem quase três anos e vive na minha casa em Norfolk. Depois de casarmos, levo-a para lá e espero que aprenda a gostar dela tanto quanto eu. Infelizmente, não posso lá passar tanto tempo quanto gostaria. Tenho negócios a tratar em Londres. Tenho um negócio bem-sucedido de importação de tecidos e especiarias do Extremo Oriente e tenho de passar tempo na corte.

As suas palavras passaram por ela sem que tivesse assimilado nada. Aquele estranho ia ser seu marido e ela não tinha uma palavra a dizer sobre o assunto. Ninguém se importava se queria ou não casar com ele. Eventualmente, deixou escapar a questão mais prevalecente na sua mente.

— Que idade tem, senhor?

Deu um risinho profundo, a partir da garganta.

— Tenho vinte e nove anos — respondeu. — Casei com a minha falecida esposa aos vinte e quatro anos. Ela morreu ao dar à luz. Agora, preciso de uma nova esposa para gerir a minha casa e para me dar filhos. Você é… — Ele fez uma pausa e passou os olhos pela sua figura leve no seu vestido cortado de um monótono algodão pesado castanho-escuro usado deliberadamente para a tornar quase invisível entre os visitantes finamente vestidos, amontoados desoladamente diante dele. — É mais jovem do que eu teria preferido, dado eu ter uma casa e bens que têm de ser geridos na minha ausência, mas suspeito que seja mais forte do que parece. E organizou esta casa para o seu pai, por isso vai sair-se muito bem. Amanhã visitarei o prior, solicitarei a leitura das proibições e estaremos casados dentro de três semanas. Terei apenas tempo suficiente para a acompanhar a Milfleet antes de ter de regressar à corte. E agora, jantar. — Levantou-se e ofereceu-lhe o braço.

Eleanor abanou a cabeça.

— Não quero comer, obrigada, senhor. — Manteve um tom calmo, mas até ela conseguia ouvir a oscilação de angústia na voz. Levantando-se lentamente e mantendo as costas direitas, caminhou cuidadosa e serenamente até às escadas e ao santuário do seu quarto.

Capítulo Cinco

1538

Na escuridão do amanhecer, as brasas incandescentes da lareira lançam um brilho acobreado e polido à volta do quarto. Eleanor sabia que se chamasse Joan, adormecida no divã ao canto do quarto, voltaria imediatamente a acender a lareira, mas Eleanor não estava com frio. Na verdade, a raiva ardia no seu interior com o fulgor de qualquer fornalha. Indo até à janela, sentou-se no banco, afastando as cortinas pesadas. Encostou a testa ao vidro frio e viu uma coruja a voar silenciosa e baixa através do prado antes de desaparecer momentaneamente de vista para reaparecer depois empoleirada num dos muitos carvalhos espalhados pelo parque. Aquele era o seu mundo, o único lugar que alguma vez conhecera. E era o dia do seu casamento.

Sabia onde ficava Norfolk, a sua nova casa, não muito longe da sua Suffolk natal. Mas com as histórias assustadoras que o seu pai lhe contou sobre os pastos pantanosos varridos pelo vento e as pastagens selvagens, bem que podia ser do outro lado do país, pois no dia seguinte, quando deixasse Ixworth, não haveria regresso. Sir William não estava a impedi-la de levar Joan consigo, mas todos os outros na sua vida seriam deixados para trás: os servos e os pacatos monges com as suas vidas gentis, muitos dos quais ela considerava como queridos amigos. O seu pai tinha morrido e agora a sua vida ali tinha acabado.

Quando o amanhecer começou a branquear o céu, com o sol como uma bola vermelha dependurada baixa e firmemente a cintilar no horizonte, ela ainda estava sentada no banco da janela. Pela casa vieram os sons de fogos a serem acesos e da preparação para o banquete de casamento mais tarde. Ela mal tinha visto o noivo desde a apresentação inicial. Ele tinha passado a maior parte do tempo a caçar com os outros convidados. Sem dúvida que todos estavam desejosos de escapar à casa e aos gritos furiosos do pequeno Robert, que tinha chegado dez dias antes e tinha dado a conhecer a sua presença, dia e noite. Não havia lugar no salão para escapar aos constantes gritos de raiva do bebé. Sir William limitava-se a rir e depois desaparecia o dia inteiro no seu cavalo. Não admirava que a sua esposa tivesse um ar carrancudo permanente. Provavelmente também tinha dor de cabeça. Ao menos quando ele e Margaret estavam na corte, ela conseguia fugir do barulho. Ali em Ixworth era muito mais difícil.

Joan apareceu silenciosamente à sua porta com uma taça com água fumegante e pétalas de rosa a flutuar, e depois de Eleanor se ter acabado de lavar, ajudou-a a vestir-se antes de ambas se esgueirarem até ao priorado para as preces da manhã. No seu coração, Eleanor sabia que seria daquilo que sentiria mais falta.

Ajoelhada no chão frio de pedra, de olhos fechados, estava consciente da respiração constante de Joan ao seu lado à medida que as orações familiares em latim passavam por ela, de respostas automaticamente murmuradas, os dedos a passar pelas contas do terço enquanto permitia que a mente vagueasse. Estaria Joan tão preocupada quanto ela com o tumulto das suas vidas? O seu primo tinha prontamente concordado quando Eleanor insistiu que a dama de companhia fosse com ela. Mas para Joan aquilo não era novidade. Tinha vindo da sua própria família, de parentes distantes da mãe de Eleanor, para ser sua confidente, pois foi considerado que Eleanor precisava de uma companhia feminina gentil. Embora Joan fosse a mais calma das duas, Eleanor sabia que a sua amiga tinha uma força interior que raramente revelava, o que as ajudaria a ambas na nova vida que estavam prestes a começar.

Mas Ixworth não era a casa de Joan e ela não estava prestes a tornar-se esposa de alguém, com tudo o que isso implicaria. Eleanor engoliu com força em seco. Sabia o que era esperado no leito matrimonial e Greville não era um rapaz da sua idade. Teria expetativas, não tinha dúvidas quanto a isso. Portanto, não, respondendo à sua própria pergunta, Joan tinha muito pouco com que se preocupar.

As vozes dos monges ergueram-se na parte final do hino Te Deum subindo até ao teto abobadado enquanto o cheiro pesado e enjoativo do incenso vagueava pela nave e a missa terminava. Estaria de volta dali a seis horas e já tinha sido informada de que partiriam para Norfolk na manhã seguinte bem cedo. Era aquela a última vez que estaria sozinha para se despedir.

— Vá indo. Estarei de volta em breve — disse-lhe.

Joan pareceu insegura. Será que pensava que Eleanor ia fugir? Se houvesse outro lugar para onde ir, já teria fugido.

— Quero fazer agora as minhas despedidas — acrescentou.

O rosto de Joan serenou e sorriu suavemente, acenando com a cabeça. Deu um ligeiro aperto no braço de Eleanor.

— Precisamos de acabar de empacotar os seus últimos pertences — lembrou-lhe.

— Não me esqueci. Estarei de volta a tempo. Vai ser um longo dia.

Joan desapareceu pela porta da capela, deixando Eleanor sentada ao fundo em silêncio à meia-luz da manhã sombria. Por essa altura, os padres tinham todos dispersado para as suas tarefas restando apenas dois que apagavam as velas e limpavam os sacramentos. Os seus movimentos eram fluidos como se estivessem contidos numa antiga dança religiosa, com os seus hábitos ásperos de lã a suspirarem contra o chão como único som. Finalmente também eles partiram e ela ficou sozinha, com a solidão e o silêncio que a envolveram num manto reconfortante e familiar. Mas teve pouco tempo para parar e apreciar. O seu tempo tinha-se esgotado.

No exterior, após uma breve visita à campa dos pais — não houve ali despedidas; sentia a falta deles, mas tinha aceitado que tinham desaparecido para sempre —, prosseguiu até chegar ao jardim físico do priorado. Cuidadosamente colocados em secções dispostas como raios de sol a partir de um canteiro central, cada canteiro continha ervas para curar doenças para uma parte diferente do corpo. Atrás dela, num canteiro separado, estavam as plantas necessárias para criar pigmentos para as tintas coloridas que os monges utilizavam. Como se estivesse à sua espera, o prior já lá estava, a puxar suavemente a parte de cima dos novos rebentos num arbusto de matricária. Endireitou-se, sorriu quando a viu e caminharam juntos até um banco de madeira encostado ao muro de pedra do jardim. Era o banco onde o seu pai costumava descansar enquanto a observava a ajudar os monges no jardim. Ou nos muitos dias em que ela estava lá dentro com os escribas a observar e a copiar os seus textos cuidadosamente intrincados com iluminuras.

O par sentou-se em silêncio acompanhado por alguns minutos até ele finalmente perguntar:

— Está pronta para o seu casamento e para a parte seguinte da sua jornada?

Eleanor encolheu os ombros.

— Suponho que sim. Sentirei muita a falta de estar aqui, mas nada permanece igual para sempre, pois não? — Conseguiu fazer um pequeno sorriso como se estivesse a tentar tranquilizá-lo e não a si própria, e a sua velha mão, com as veias salientes e a pele fina como papel, deu uma palmadinha na dela.

— Diz palavras sábias. Mesmo aqui, na nossa piedosa solidão onde nada mudou durante séculos, os sinos da mudança podem em breve estar a tocar às nossas portas — respondeu ele. Ela sabia que ele estava a falar dos comissários do rei que andavam a fechar mosteiros. Ninguém sabia onde poderiam aparecer a seguir. Um ar de apreensão e pavor constantes pairava sobre eles, agarrando-se silenciosamente ao tecido das suas vidas. — Agora — continuou ele, mudando de assunto —, tenho um presente para vós. Não um presente de casamento, mas algo especialmente para si. Venha comigo. — Levantando-se de forma vacilante, indicou o caminho até a um abrigo de madeira encostado ao muro oposto que continha as ferramentas de jardinagem dos monges. Chegando ao interior, retirou um cofre de madeira esculpida e colocou-o nas mãos dela. Era pesado e Eleanor pousou-o no chão para poder abri-lo e espreitar lá para dentro. Parecia estar cheio de pequenas cebolas com casca. Ela olhou para ele de forma inquiridora.

— Bolbos de açafrão — disse-lhe —, para que possa cultivar o seu próprio açafrão na sua nova casa. Viu como o cultivamos aqui na nossa horta, ajudou muitas vezes na colheita e secagem e aprecia o valor que o açafrão tem, tanto em termos monetários como na sua utilização. Este é o seu dote do priorado. — Olhou para ela e sorriu com gentileza. O sorriso de um pai para uma filha que nunca teve.

— Obrigada, é muito amável da sua parte. São preciosos para mim. — Fechando a tampa, deixou a caixa aos pés, baixando um joelho e beijando-lhe o anel na mão. — Ficará para sempre nos meus pensamentos — prometeu-lhe antes de recolher o presente e abandonar o jardim. Determinada a não olhar para trás, a sua visão foi dificultada pelas lágrimas nos olhos.

O resto da manhã passou com rapidez. Os cheiros e ruídos das cozinhas confirmavam o grande entusiasmo dos servos por finalmente terem uma ocasião feliz para preparar, após a tristeza dos meses anteriores. O casamento era motivo de celebração para eles, mesmo que não para Eleanor, e estavam determinados a dar-lhe um banquete nupcial impressionante. Tinham passado dias a cozinhar cisne, gansinho e javali, com as prateleiras frescas da despensa cheias de conservas de fruta, biscoitos, tartes e pudins, juntamente com um bolo magnífico.

No seu quarto, com a última arca aberta para embalar as peças finais, Eleanor estava sentada em silêncio enquanto Joan lhe decorava o cabelo. Para quando fosse descoberto, com flores e pérolas tecidas em tranças apertadas e desconfortáveis contra a sua cabeça. Finalmente, o fino véu rendado que tinha sido usado pela mãe foi-lhe colocado na cabeça. Ela já estava a sofrer, nos seus pensamentos e no seu coração. Usou o seu melhor vestido, de uma lã azul-clara e a cobertura perfeita para o resplendor do seu cabelo que brilhava como se estivesse aceso. Os olhos continuavam a desviar-se em direção à cama atrás de si, onde as cortinas puxadas para trás exibiam a colcha bordada que a sua mãe tinha cosido durante os primeiros anos de casamento, antes da chegada de Eleanor. O seu pai tinha-lhe assegurado muitas vezes que a mãe tinha ficado encantada por ir ter um bebé.

Apenas alguns dias antes, Lady Margaret tinha entrado no seu quarto sem ser convidada e inspecionou o mobiliário e a disposição, explicando que usaria o quarto depois de Eleanor se ir embora. Tinha desdenhado ligeiramente ao dedilhar as colchas e Eleanor tinha decidido imediatamente que para além de tudo o que estivesse embalado na sua bagagem, a colcha ia com ela. O quarto já não se parecia com o seu e nessa noite o seu marido iria juntar-se a ela naquela cama. Estremeceu e Joan manifestou-se quando um alfinete de cabelo caiu no chão.

— Fique quieta — repreendeu ela.

Eventualmente, não podia adiar mais o inevitável. Lá em baixo, o ruído anterior e a agitação estridente tinham diminuído, tendo as pessoas da casa já saído para se alinharem no percurso até à capela. A casa estava silenciosa e Eleanor conseguia ouvir cada respiração trémula que inspirava enquanto o coração lhe batia com força no peito, com um ligeiro brilho de suor a aparecer-lhe na testa que lhe colava o véu à cara.

Se tinha estado a rezar por intervenção divina, agora era o momento em que reconhecia que Deus a tinha desiludido. Mesmo muito. O Prior Gregory tinha-lhe dito muitas vezes que algumas coisas, tais como a morte do pai, faziam parte do grande plano do Senhor, mas era difícil compreender como é que o Senhor pensava que aquilo iria melhorar-lhe a vida.

— Não fique tão desanimada — tranquilizou-a Joan enquanto lhe entregava um pequeno ramalhete de lavanda que Eleanor enfiou na saia por baixo do vestido. — Muitas raparigas ficariam encantadas por ter um marido bonito e um novo lar à espera.

Eleanor olhou atentamente para a amiga, compreendendo de repente que, aos olhos de Joan, ela tinha mais do que merecia, embora até mesmo essa noção não lhe conseguisse levantar o negro estado de espírito.

Joan caminhou à frente, segurando um ramo de rosmaninho, e Eleanor seguiu-a lentamente de pernas trémulas, mas com os ombros para trás e a cabeça bem erguida à medida que se aproximavam da igreja. Todas as pessoas da casa estavam agrupadas no exterior à espera, incluindo os servos que ela tinha conhecido toda a vida, os convidados do primo e, claro, William e Margaret. Como se a presença deles garantisse que ela prosseguiria com o casamento. O que faria. Era demasiado cobarde para fugir ou ir para um convento. Parado ao pé da pesada porta de madeira estava o prior, juntamente com Greville vestido no seu negro habitual, mas desta vez com lampejos de escarlate vivo profundo e rico em inserções nas mangas da jaqueta. Os seus olhos escuros encontraram os dela e sorriu encorajadoramente. Eleanor, ainda a tremer, baixou os olhos e olhou fixamente para as suas botas brilhantes de couro, tão grandes comparadas com os seus pequenos pés escorregadios.

As palavras da cerimónia passaram pela sua cabeça baixa e em minutos tudo acabou. Foi-lhe enfiado no dedo um anel de ouro pesado, cravejado de esmeraldas e rubis, e saíram juntos para dentro da igreja para assistir à missa de casamento. Greville ofereceu-lhe o braço e embora quisesse evitá-lo, Eleanor apoiou-se nele até conseguir prosternar-se de joelhos trémulos. Já não podia ocupar o banco da frente, o espaço de família agora ocupado pelo primo enquanto ela e Greville se ajoelhavam diante do altar.

Pela primeira vez, a familiaridade da missa não a reconfortou e passou pelos movimentos em aturdimento. Era aquilo. Estava casada com um homem que lhe era estranho e no dia seguinte estaria a deixar a única casa que alguma vez conhecera. E aquela era a sua noite de núpcias. As suas entranhas contraíram-se dolorosamente.

De repente, a missa acabou e estavam de volta ao exterior, seguidos pelo resto do grupo que estava de bom humor enquanto regressavam à casa na tarde fresca à medida que o crepúsculo se instalava. No interior, eram trazidas travessa após travessa de carnes assadas, legumes e doces para os convidados. O ar enchia-se de vozes altas à medida que a cerveja e o vinho fluíam livremente. Eleanor teria ficado surpreendida com a generosidade do primo ao proporcionar tal banquete, mas o cozinheiro já lhe tinha dito que Greville tinha pagado por tudo. Brincava com um pedaço de manchet, o melhor pão branco que o cozinheiro poderia fazer, desfazendo-o em migalhas. A mão parecia-lhe estranha e desconfortável com o peso da aliança de ouro agora enfiada no seu terceiro dedo. Greville continuou a colocar lascas finas de carne no seu prato, mas ela fazia-as deslizar para fora e para o chão para onde os cães estavam, debaixo da mesa, facilitando-lhes o trabalho.

Por fim, foi trazido um grande bolo feito de maçapão cravejado de confeitos coloridos que Eleanor tinha ajudado a fazer, e as celebrações dissolveram-se em festejos bêbados e indisciplinados. Alguém tocava um alaúde e o barulho aumentava à medida que mais vinho era consumido. Por fim, chegou o momento que temia, quando os foliões começaram a insistir que os noivos fossem levados para a cama nupcial. Bem-disposto, Greville levantou-se e estendeu a mão a Eleanor, quase a levantando da cadeira. Como se conseguisse sentir a relutância que emanava dela em ondas, deu-lhe um suave aperto de mão para a tranquilizar.

Levou-a para cima e o resto dos convidados seguiu-os, empurrando-os para a frente e gritando sugestões grosseiras, ao que, notou ela, o marido franzia o sobrolho em vez de se juntar. O grupo precipitou-se para o quarto ainda a cantar alto, mas para surpresa deles, Greville levantou as mãos para acalmá-los — Eleanor pôde ver que a sua altura e ombros largos tinham decididamente vantagens — e anunciou que todos poderiam continuar a celebrar lá em baixo porque ele não precisava de mais nenhuma assistência nos aposentos.

A resposta não foi educada enquanto ele apressava, e nalguns casos manobrava, os convidados desiludidos para fora do quarto até finalmente só restarem os dois. Atirou outro tronco para o fogo já a arder, causando faíscas que salpicaram pela chaminé acima com as chamas a elevaram-se, iluminando-lhe um dos lados do rosto. Naquele breve momento, pareceu o próprio Belzebu e Eleanor resistiu à tentação de fazer o sinal da cruz. Andando pelo quarto, acendeu as velas nas suas arandelas, enquanto Eleanor ficou imóvel a observar cada movimento, como um coelho que tinha subitamente avistado uma raposa. Joan tinha saído com todos os outros e perguntava-se como é que se ia despir sozinha.

Em silêncio, começou a desatar as mangas. Sentiu, em vez de ver, Greville a mover-se para trás dela e parou, sustendo a respiração antes de se encolher quando os dedos dele se enlaçaram no seu cabelo, removendo gentilmente os alfinetes que o tinham mantido firmemente entrançado ao seu couro cabeludo durante todo o dia. As flores, agora murchas e moles, espalharam-se pelo chão. Com dois hábeis puxões dos cordões nas suas costas, o seu vestido ficou suficientemente solto para sair e Greville colocou-o sobre o baú aberto ainda à espera das últimas peças a serem embaladas. Eleanor tirou a saia e ficou parada a tremer na sua camisa de linho, apesar do fogo abrasador, observando-lhe cada movimento.

O seu novo marido tirou as botas e as meias-calças, com as suas pernas magras a parecerem compridas e pálidas à luz do fogo. Atirou o gibão descuidadamente para cima do vestido dela e em segundos também ele ficou só de túnica, que lhe desceu misericordiosamente até aos joelhos. Eleanor evitou-lhe o olhar, só por precaução. Levantando as colchas da cama para trás, ele fez-lhe um sorriso encorajador antes de indicar que ela devia entrar na cama. Ela apressou-se a ir para o outro lado e enfiou-se entre os lençóis de linho frescos, puxando-os até ao pescoço, e deitou-se de olhos fechados, esperando o mergulho do colchão enquanto ele subia para o seu lado. Não aconteceu. Em vez disso, sentiu o peso das mantas nas pernas a deslocar-se, e espreitando por debaixo das pálpebras, viu Greville a debater-se com a sua colcha enquanto a puxava da cama. O que é que ele estava a fazer?

Observou por entre os olhos semicerrados enquanto continuava a lutar com a colcha até estar caída no chão.

— Sei que está a observar-me — comentou ele e ela abriu completamente os olhos de forma relutante.

— O que é que está a fazer? — perguntou ela, por fim, enquanto ele se embrulhava na manta. Não antes de ela lhe ter visto as coxas musculadas a desaparecerem por debaixo. Desviou rapidamente o olhar. Ele instalou-se no cadeirão ao lado da lareira, de rosto brilhante à luz do fogo. Os seus olhos escuros cruzaram-se com os dela.

— Durma — disse-lhe. — Temos uma viagem muito comprida ao longo dos próximos dias. Quero fazer o menor número possível de paragens no caminho para casa. — E nisto, apagou a última vela, deixando apenas a luz fraca das poucas brasas na lareira.

Eleanor rolou para ficar de costas e olhou para o dossel acima dela. Sabia o que era esperado dela na noite de núpcias e decididamente não era estar ali deitada sozinha na sua cama. Pigarreou.

— Porque é que vai dormir no cadeirão?

— Acabei de lhe dizer. Temos um longo dia amanhã e partiremos ao amanhecer. Tem os seus pertences todos embalados?

— Sim — confirmou ela —, para além da manta onde está embrulhado. A minha mãe bordou-a para mim antes de eu nascer, e não a vou deixar para Lady Margaret. Aparentemente, vai usar este quarto quando eu me for embora. — Mas ele ainda não tinha respondido à sua pergunta. — Mas não é suposto dormir na cama comigo agora que somos casados?

Ela ouviu-o a rir.

— Já é tarde e ambos tivemos um longo dia. Temos o resto das nossas vidas pela frente. Uma noite… — ele calou-se por um momento — a quantidade de noites que sejam precisas não farão diferença. Agora, faça o que lhe é dito. Durma. — Estupefacta, Eleanor rolou de lado levando os joelhos ao peito e abraçando-os contra si enquanto ficava deitada no escuro, de olhos bem abertos. Não esperava aquilo na sua noite de núpcias. Tinha andado o dia todo preocupada com o que iria acontecer no quarto e agora nada. Não podia deixar de sentir uma sensação de alívio e surpresa por estar deitada sozinha na cama. Mas era, recordou-se, uma mera suspensão da execução. Do outro lado do quarto veio uma respiração lenta e constante. Não tinha demorado muito a adormecer e ela também precisava de dormir, mas as celebrações do dia, se é que se podiam chamar assim, pairavam-lhe às voltas na cabeça. Não se sentia remotamente cansada e amanhã começaria a viagem até à sua nova vida em Norfolk.

Capítulo Seis

1538

Eleanor deve ter finalmente adormecido e, antes de dar por isso, Greville abanava-lhe o ombro, exortando-a a acordar. Havia um tronco novo na lareira a estalar e a crepitar, embora o quarto ainda estivesse escuro. Ele já estava vestido e tinha colocado a sua manta dobrada em cima do baú.

— Temos de ir embora — disse-lhe. — Vou chamar a Joan. Quer comer alguma coisa antes de irmos? — Eleanor abanou a cabeça e observou-o a sair do quarto, deixando a porta entreaberta. Ouviu vozes sussurradas lá fora e depois Joan entrou, acendendo as velas à volta do quarto até ficar inundado por uma luz suave. Vestia a sua roupa de viagem e Eleanor perguntou-se se tinha dormido nela, dado que não parecia preocupada com a precoce alvorada.

Em pouco tempo, Eleanor também estava vestida com a sua roupa mais quente e robusta para a viagem que tinha pela frente. Empacotaram as últimas peças dos seus pertences, tendo o resto das suas roupas já sido enviado com antecedência na semana anterior. Lá em baixo, os servos fizeram uma pausa nas suas tarefas para se despedirem das duas mulheres. Alguns deles conheciam Eleanor desde que nasceu e havia imensas lágrimas. Tanto por ela como pela pacata e devota Joan. Não havia sinais de William ou Margaret, e os próprios olhos de Eleanor encheram-se de lágrimas quando deu um último olhar em redor do salão nobre, ainda envolto nas suas sombras noturnas. Imaginou ter visto o fantasma do pai sentado no seu cadeirão a sorrir e a acenar-lhe encorajadoramente, como se lhe desse permissão para iniciar este novo capítulo da sua vida. Estava a virar uma página, um novo começo.

— Adeus, papá — sussurrou, enquanto ouvia o som de botas pesadas a aproximarem-se. O marido pegou-lhe nos ombros e virou-a, envolvendo-a nos seus braços fortes, abraçando-a por um instante. O seu rosto foi pressionado contra a lã áspera do seu manto. Tinha andado dentro e fora enquanto os cavalos estavam a ser preparados e havia uma camada de fino orvalho matinal em cima dele, fazendo-lhe o cabelo curto encaracolar-se em tentáculos contra o pescoço, com a roupa e pele húmida. Eleanor afastou-se.

— Venha, vista o seu manto — disse-lhe, balançando-o nas costas dela e prendendo-o à frente — e vamos embora. Temos um dia difícil pela frente. Hoje não é um dia para finais e despedidas, mas sim um tempo para novos começos. Venha. — Pegando-lhe na pequena mão com a sua muito maior, levou-a para o exterior onde dois cavalos esperavam, batendo os cascos impacientemente. Ela esperava a sua própria montada e procurou-a em redor.

— Onde é que está o meu pónei? — perguntou. — Não o vou deixar aqui.

— Não se preocupe, já foi à frente. Partiu ontem — tranquilizou-a ele —, mas precisa de algo maior e mais resistente para a longa viagem, por isso mandei trazer um dos meus cavalos de Milfleet. — A besta que ele indicou tinha bom ar, com linhas fortes e um corpo largo e robusto. Tinha um focinho suave e fungava calmamente, com pequenas nuvens brancas a soprar das narinas enquanto ela lhe dava palmadinhas no nariz macio. Também era enorme, pelo menos o dobro do tamanho do seu pónei. A pedido de Greville, ela colocou a canela nas suas mãos em concha e levantou-a para cima do flanco largo do cavalo como se ela não pesasse absolutamente nada. Da sua perspetiva, o chão parecia estar a uma longa distância e desejou estar empoleirada na ponta da carroça com Joan.

O amanhecer instalava-se lentamente sobre o horizonte, com feixes suaves de luz a começarem a acenar-lhes para avançarem. Atrás dela, a casa e a abadia além dela erguiam-se numa silhueta escura contra a linha do horizonte e, de coração pesado, Eleanor picou o cavalo para avançar. Greville seguiu atrás dela enquanto cavalgavam para fora do pátio e ela decidiu não olhar para trás.

A viagem de quatro dias até Milfleet foi tão árdua e horrível como Eleanor suspeitava que seria. Dificilmente poderia culpar Greville por a ter enganado, uma vez que ele lhe tinha dado um justo aviso, mas mesmo assim o seu estado de ânimo piorava a cada quilómetro que passavam. A paisagem mal se alterava, uma vastidão plana de terreno húmido e pantanoso que se estendia até onde a vista alcançava, ocasionalmente cortada por algumas casas ou casebres grosseiros em terrenos mais altos. No início, Greville tinha proferido comentários recorrentes, mas à medida que o rosto de Eleanor se ensombrava, acabou por desistir, cavalgando ao seu lado em silêncio.

Quando finalmente chegaram, já passava da meia-noite. Por duas vezes a montada de Eleanor tinha tropeçado no escuro, e numa delas quase escorregou do cavalo enquanto lutava contra o sono. O seu estado de espírito não tinha melhorado. A lua cheia tinha-os ajudado a manterem-se no estreito caminho poeirento e agora brilhava em cima do casarão parecido com um castelo, por detrás do qual jaziam lagoas de água parada a brilhar ao luar como se fossem de vidro. Lá em cima, ouviu-se o som de correntes e de homens a gritar enquanto os enormes portões de madeira se baixavam para permitir ao grupo o acesso ao pátio adiante. Parecia estar cheio de pessoas à espera deles.

Agradecida, Eleanor deslizou do cavalo para o chão, parando momentaneamente enquanto sentia as grandes mãos de Greville à volta da cintura a segurarem-na. Após tantas horas na sela, tinha as pernas dormentes e geladas, e sem ele ali, tinha a certeza de que teria tropeçado. Manteve o olhar firme, vendo os seus profundos olhos castanhos rodeados de pestanas grossas nas quais não tinha antes reparado e tentou não mostrar o medo que lhe corria pelas veias. Quando ele lhe ofereceu o braço, tomou-o sem dizer uma palavra e ele encaminhou-a para o salão nobre.

O interior estava iluminado por velas ardentes, acesas em cada canto e alcova, e o que parecia ser uma dúzia ou mais de cães a rondarem as pernas de todos. Pareciam encantados por ver o amo, empurrando-se uns aos outros enquanto espetavam a cabeça contra Greville, fazendo-o rir alto enquanto os guiava para fora do caminho.

O salão nobre era diferente de tudo o que a Eleanor alguma vez tinha visto ou imaginado. O espaço enorme eclipsava de longe o de Ixworth. O teto elevava-se até decorações elaboradas e vigas esculpidas, não as rústicas com as quais estava familiarizada, e até as arandelas nas paredes eram ornamentadas. As paredes estavam cobertas de tapeçarias espessas e profundas com representações de cenas de caça e deuses romanos em batalha. Numa extremidade da sala havia uma mesa comprida de cavalete, sem toalha, ao longo da qual brilhavam castiçais de estanho. Tudo parecia tão enorme em comparação com tudo aquilo a que estava habituada e Eleanor sentiu-se pequena e insignificante. Perguntava-se como iria alguma vez viver naquela catedral de casa. Era completamente exagerada. Começou a perceber que as suas ideias preconcebidas em relação à casa de Greville, à sua riqueza e estatura, e Norfolk em geral poderiam estar incorretas. Apesar das belas roupas e cavalos de Greville, tinha-se convencido de que a sua casa seria sombria e austera, com poucos adereços de luxo, espelhando a paisagem na qual ele vivia.

Alguém lhe ofereceu uma caneca de cerveja, que bebeu com rapidez sem se aperceber da sede que tinha. Joan apareceu ao lado do seu cotovelo e ajudou-a a tirar o manto de viagem. Sem ele, sentiu-se exposta e a tremer, apesar do enorme fogo que rugia na lareira larga que ocupava quase metade de uma parede. Enrolou os braços em seu redor.

— Tem frio? — perguntou Greville, orientando-a para a lareira. — Fique aqui onde está mais quente. Está com fome?

Ela abanou a cabeça.

— Deixe-me então mostrar-lhe o seu quarto. Pode conhecer todos amanhã, quando não estiver tão cansada. — Colocando o braço à volta do seu corpo para a guiar através da multidão de pessoas — todos os que viviam na propriedade pareciam ter aparecido para conhecer a sua nova noiva, apesar da hora tardia —, Eleanor viu-se a subir um lanço de escadas de madeira polida escura, com os florões e corrimões intrincadamente esculpidos em folhas de carvalho e frutos de outono, todos a brilhar como castanhas acabadas de descascar. Reparou em Joan a segui-los, juntamente com um grande cão de caça peludo que lhe pareceu bastante apegado a ela, apesar das suas tentativas frenéticas de o mandar embora. Greville apenas se riu, aparentemente imperturbável por a besta estar lá em cima.

Abrindo uma porta, conduziu os dois para um quarto muito maior do que aquele que Eleanor ocupava em Ixworth.

Ali havia outra lareira em chamas e Greville acendeu rapidamente as velas. Numa parede estavam tapeçarias grossas dependuradas, na outra três painéis com revestimento de linho que brilhavam à luz do fogo. Num canto, ele puxou uma cortina pesada para o lado e indicou uma grande antecâmara que continha uma cama embutida na parede.

— Há aqui uma cama para a Joan — apontou ele, antes de indicar o canto oposto — e através daquela porta fica o meu quarto.

Eleanor nem conseguia perceber onde é que os painéis terminavam e a porta começava, mas a sua surpresa por ele ter um quarto separado ficou-lhe estampada no rosto. Tinha previsto que, apesar da longa viagem, ele estaria à espera de partilhar a cama dela naquela noite. Aparentemente, estava errada.

— Antes de a deixar, tenho um presente de casamento para si.

Atravessou a porta divisória para o seu próprio quarto e reapareceu segundos depois com algo pequeno, que colocou nas mãos de Eleanor. Era liso e tinha um ligeiro odor a pele tratada. O cheiro acentuado lembrava-lhe de estar sentada com os escribas na abadia, enquanto passavam horas laboriosas a escrever textos e a iluminá-los com tintas de cores brilhantes e folha de ouro. Ela sentava-se e praticava muitas vezes ao lado deles com penas descartadas e restos de pergaminho ou papel velino que já não era necessário. Nunca teria a mão firme ou o olho para os detalhes que eles faziam, mas era capaz de completar ilustrações razoáveis, se bem que bastante ingénuas. Era uma forma agradável de passar os longos dias de inverno, quando o mau tempo podia mantê-los confinados durante semanas a fio. E tinha adquirido muito conhecimento enquanto conversava com eles, aprendendo com as suas experiências no boticário e na enfermaria. A sua caligrafia, com toda a prática que tinha, era pequena e elegante. Uma habilidade que sem dúvida seria útil quando estivesse a ajudar Greville.

Virou o objeto, examinando-o cuidadosamente. Um livro pequeno e pesado que era pouco maior do que o tamanho da sua mão. A capa de couro tinha sido ornamentada com padrões elaborados e espirais que se pareciam com fetos novos, enrolados à volta de um brasão decorado com cores brilhantes. Abriu-o devagar e olhou para as palavras inscritas em latim no interior.

— É um livro de orações? — perguntou ela, encantada. — É lindo, obrigada.

— É. — Ele acenou com a cabeça. — Um livro de horas. Veja aqui, tem as estações da cruz. — Mostrou-lhe as imagens ricamente ilustradas da viagem da Sexta-feira Santa e das orações que a acompanhavam. — E aqui… — virou algumas páginas — tem os dias santos e as festividades. Era da minha mãe, oferecido pelo meu pai no dia do casamento. Há páginas em branco ao longo do livro. Ele mandou acrescentá-las para que ela escrevesse o que quisesse, os seus pensamentos ou orações. Mas ela não as utilizou, por isso o livro continua à espera de que alguém o use devidamente. Espero que satisfaça os desejos do meu pai.

Eleanor sorriu. Estava certa de que não teria problemas em fazer isso.

— Este é o seu brasão? — perguntou ela ao tocar no desenho em relevo da capa.

— Sim — confirmou ele —, e agora também é seu. Dado ao meu avô, juntamente com esta casa, como agradecimento pela sua lealdade a Edward IV. Veja aqui, tem juncos para simbolizar os pântanos onde vivemos e também aqui, uma garça. Este é o nosso lema de família. — Tomando a mão de Eleanor, passou-lhe os dedos sobre a inscrição em latim na parte inferior.

— Dum Spiro Spero — leu ela. — Enquanto há vida, há esperança.

— É isso mesmo — concordou ele. — Há momentos em todas as nossas vidas quando tudo parece sombrio ou mal — disse-lhe ele —, mas nunca devemos perder a esperança de que as coisas voltem a melhorar. — Olhou-a profundamente nos olhos como se estivesse a revistar-lhe a alma e a ler o que lá estava escrito. Talvez percebesse mais o sofrimento dela, como se sentia perdida e sozinha, do que ela pensava. Eleanor recompôs-se um pouco e arrancou os olhos dos dele.

— Obrigada, vou guardá-lo com cuidado — disse-lhe.

— Caso se esteja a perguntar, a mãe da Jane tinha o seu próprio livro de orações, que é a razão de, por acaso, eu ainda ter este livro. Acho que encontrará mais utilidade para ele. — A sua barba, sempre arranjada apesar dos longos dias de viagem, fez-lhe cócegas quando se curvou para a beijar na face, quente contra a sua pele fria, e depois foi-se embora.

Em redor dos cantos do quarto estavam empilhados os vários baús que as duas mulheres tinham passado os últimos dez dias a embalar, mas Eleanor estava demasiado cansada para encontrar uma camisa de dormir. Assim que Joan a ajudou a despir, enfiou-se debaixo dos cobertores da sua nova cama com a túnica e deitou-se, extenuada, enquanto Joan puxava os cortinados à sua volta. Não ouviu os sons da dama de companhia a afundar-se com gratidão no seu próprio colchão, enquanto caía num sono exausto e sem sonhos.

Capítulo Sete

2019

O telefone de Amber apitou com a chegada de uma mensagem. Baixando o olhar para o ecrã, suspirou, batendo repetidamente no botão de ligar com frustração até o ecrã finalmente escurecer. O que tinha começado como uma indagação ocasional sobre o seu bem-estar, começava agora a parecer ligeiramente prepotente e desconfortável. Sabia que Jonathan estava preocupado e precisava mesmo de falar com ele para lhe acalmar as preocupações. Até porque se não o fizesse, ele começaria a ligar para o telefone da casa para falar com o avô, e o desgraçado do velhote levava dez minutos só para sair da poltrona e cambalear até ao telefone.

Ele não a ia deixar em paz. Ela já lhe tinha explicado em numerosas ocasiões que não o tinha deixado ou abandonado o casamento, mas não podia estar em casa com ele no vicariato naquele momento. Tudo o que lá estava apenas lhe lembrava do que não estava. Ele tinha desimpedido o berçário e colocado tudo no sótão, a achar que iria ajudar, mas na realidade só tinha piorado as coisas. Como se Saffron nunca tivesse existido. Mas ela era uma pessoa real, a sua filha. Foi uma gravidez surpresa após uma tomada de antibióticos que fez com que a pílula não funcionasse. Amber tinha ficado horrorizada quando viu pela primeira vez as duas linhas azuis a aparecerem no teste. Jonathan, como sempre, tinha sido muito mais pragmático e, em poucos dias, tinha passado de prudente a extremamente entusiasmado. Tinha demorado vários meses até Amber aceitar o que estava a acontecer e ter começado a aguardar ansiosamente a nova adição à sua família e a partilhar da excitação crescente de Jonathan. Agora, estava crucificada com a culpa da sua falta de felicidade inicial.

Amber sabia que se estivesse à janela do berçário agora vazio, tinha vista para a campa onde a sua bebé jazia. Jonathan achou que era um conforto estar tão perto. Visitava a campa todas as manhãs antes de abrir a igreja. Ela tinha-o visto da janela, os lábios a mexer enquanto falava com a filha. Ou talvez estivesse a rezar. Ela não podia perguntar porque não queria admitir que tinha estado a observá-lo. No início, tinha andado a pairar pela paróquia num nevoeiro, incapaz de se concentrar no que quer que fosse. Pegava em livros e voltava a pousá-los, por ler. Fazia chávenas de chá que não bebia. Até que, passados alguns meses, sabia que tinha de encontrar um sítio onde pudesse voltar a respirar. Um lugar familiar que a chamava.

Era apenas uma viagem de noventa minutos de carro de casa até ao avô. Inicialmente, tinha concordado em regressar a casa aos fins de semana, mas isso depressa chegou ao fim. Jonathan estava sempre a trabalhar aos domingos e geralmente a preparar-se para as missas no dia anterior, e era uma longa viagem de carro apenas para cozinhar um assado para o jantar e passarem pouco tempo juntos.

E agora que ele não era capaz de acompanhar pessoalmente o seu declínio físico e mental, tinha começado a enviar mensagens escritas várias vezes por semana. Ela tinha-o convencido de que era melhor se ela lhe telefonasse a uma hora conveniente para não incomodar o avô, mas as mensagens de texto estavam agora a aumentar. Só queria ter alguma paz para respirar e chorar a sua filha da maneira que se sentia capaz.

O avô estava a dar o seu passeio matinal, embora Amber tivesse descoberto que isso significava apenas caminhar da porta das traseiras até à estufa. Sentava-se ali todos os dias no seu banco de jardinagem, independentemente do estado do tempo, a olhar para a sua extensa horta que agora estava completamente infestada de ervas daninhas. As plantas problemáticas e indisciplinadas tinham crescido, desde que ela se lembrava, ao longo dos canteiros cuidadosamente regulados nos quais, ao longo dos anos, ele tinha cultivado vegetais suficientes para alimentar todo o exército britânico. Contra o tijolo claro do jardim murado, as figueiras espaldeiras ainda produziam baldes de fruta todos os anos, a maioria das quais caía ao chão, um banquete para os insetos antes das chuvas de outono os transformarem num melaço pegajoso de composto.

Mas já não era capaz de fazer o trabalho físico. Ela sabia que ele odiava a fraqueza com que tinha ficado após o derrame, e duvidava que alguma vez tivesse realmente aceitado a forma como as coisas eram agora. Ainda fazia planos de coisas para fazer quando voltasse a estar bem e ela não tinha coragem de lhe dizer que esse dia talvez nunca chegasse.

Aproveitando-se de ter a casa só para ela e sabendo que devia responder às mensagens de Jonathan, Amber voltou a ligar o telefone e andou pela casa em busca de um sítio com rede decente. Era decididamente melhor na parte da frente da casa, mas mesmo assim não era grande coisa. Uma vez tinha sugerido ao avô subir à torre para encontrar sinal decente de rede, mas ele tinha sido veemente na sua resposta, chocando-a. E agora, com o andaime em cima, estava estruturalmente inseguro e a porta das escadas permanecia trancada, como sempre. Nada o dissuadia da sua decisão. Admitiu que estava inacessível desde que se lembrava e que ninguém sabia onde estava a chave, mas ela tinha a certeza de que havia mais alguma coisa que ele não lhe estava a contar.

A biblioteca, contudo, era a divisão com cobertura de rede melhor. Não era um sítio que ela normalmente frequentasse, com as vidraças antigas de chumbo a deixarem entrar dezenas de minúsculas correntes de ar. Pequenos punhais afiados de gelo. Era esse o problema de um edifício classificado como o Saffron Hall: nada podia ser substituído, pelo que não havia hipótese de haver vidros duplos adequados e eficientes e a família tinha de viver com o frio consequente. Não admirava que no inverno o avô se sentasse na escuridão a maior parte do dia com as cortinas velhas e grossas corridas para manter o calor lá dentro.

O seu telefone finalmente apanhou um sinal fraco e vibrou. Olhando para o ecrã, descobriu não uma, mas quatro mensagens e uma chamada não atendida de Jonathan.

— Pelo amor de Deus — murmurou ela rolando pelas mensagens. Começavam a perguntar educadamente sobre a sua saúde e a perguntar se podiam conversar, mas à quarta dizia severamente: LIGA-ME, AMBER. LIGA-ME, QUE RAIO! Ele poderia hesitar em usar o nome do Senhor em vão, mas Jonathan não era esquisito na questão de praguejar, se achasse que a ocasião o merecia. Pressionando o seu nome no registo de chamadas recentes — de facto, o único nome no registo de chamadas — segurou o telefone contra o ouvido, ouvindo o barulho enquanto fazia a ligação, imaginando-o sentado no seu escritório a agarrar o telefone e quase a deixá-lo cair na sua pressa de o atender. Jonathan estava no primeiro patamar dos desajeitados.

— Olá, Amber? — Parecia estar sem fôlego.

— Sim, sou eu. É boa altura? — Pegou numa caneta abandonada no aparador ao seu lado e começou a clicar na tampa para cima e para baixo sem parar.

— Claro, sim. Estava só a cortar algumas das últimas dálias para dar às mulheres da rota de flores desta semana. Foram um pouco agitadas pelo vento, mas servem. As flores, digo, não as voluntárias. Desculpa, estou a divagar. Como estás? — A voz dele fugiu e ela sentiu-se compelida a preencher o silêncio que sabia que se instalaria entre eles até ela falar. Conseguia visualizá-lo, a olhar de um lado para o outro como se isso o ajudasse a encontrar palavras para dizer.

Tinham tido uma parceria tão boa desde a primeira vez que se encontraram quando ela estava a desbloquear a sua bicicleta no exterior das escavações em Cambridge e ele estava lá parado a desbloquear a dele. Tinha feito imediatamente um comentário favorável acerca das suas brilhantes botas Doc Martens amarelas, embora só muito mais tarde ela lhe tenha explicado a ligação entre o tom vibrante do seu calçado e o nome da sua casa ancestral. O avô tinha-lhas comprado pelo seu décimo oitavo aniversário e ela adorou-as. Não demorou muito tempo até se sentir acalorada ao ouvir a sua profunda voz melódica e tinha-o convidado para um concerto que alguns amigos iam dar no bar da faculdade nessa noite. Desde esse dia, nunca tinham tido um momento em que não soubessem o que dizer um ao outro. Até àquele.

— Oh, bem, já sabes, o mesmo de sempre. Ainda a trabalhar arduamente nos livros do avô. — Prosseguiu explicando os recentes danos na torre. — Não tem havido muito tempo para fazer mais nada. Tenho saído para dar um passeio quando está sol, mas isso não acontece com muita frequência.

— Sim, o tempo tem estado muito parecido aqui. — Podiam ambos obter um certificado em conversa fiada.

— E tu? Alguma coisa excitante em Little Walpole?

— Bem, há algo que te quero dizer e é por isso que queria falar contigo, em vez de estar a mandar mensagens infernais. Isto é algo que precisa de ser dito em voz alta.

Por um segundo, o coração de Amber bateu-lhe loucamente no peito e o acentuado nervoso miudinho fez-lhe passar o calor pelo rosto, apesar da corrente de ar frio da janela. Jonathan raramente tinha algo importante para lhe dizer. Ter-se-ia fartado de esperar que ela voltasse ao seu antigo eu, a Amber que costumava ser? Ia pedir para acabar com o seu retiro, ou com ela e o casamento? Tinha sido sugestão dela tirar um tempo e ficar com o avô para desanuviar a cabeça. Ele não tinha gostado da ideia, mas quando o avô sugeriu que ela catalogasse a sua coleção de livros, Jonathan tinha vacilado e acabou por concordar que talvez isso ajudasse.

Percebeu que tinha perdido as primeiras palavras enquanto se tentava sintonizar novamente no que ele estava a dizer.

— …Por isso, achei que não te importasses se avançássemos e a mandássemos erguer. O Tony veio ontem à tarde e eu ajudei-o a fazê-lo. Pareceu-me importante estar envolvido, pela Saffron. E parece-me correto. Acho que vais ficar contente com ela. O Yeats que escolheste é absolutamente perfeito.

Amber percebeu com um abanão que ele estava a falar da pedra tumular para a campa de Saffron. Sentiu que a tinham escolhido há tanto tempo que se esqueceu que ainda precisava de ser colocada no sítio. Os olhos arderam-lhe enquanto as lágrimas familiares lhe brotaram e rolaram pela cara abaixo. A vista da janela, a extensão dos campos planos por baixo do pesaroso céu molhado embaciado num quadro oscilante de cinzento e sépia como uma pintura impressionista.

— Não tinha percebido que já estaria pronta — admitiu ela a fungar alto — ou que o solo já tivesse assentado.

— Vens a casa para ver? Acho que vai ajudar. Sei que a mim me ajudou. É mais permanente e um símbolo apropriado de que ela esteve cá. É dizer ao mundo que tínhamos — temos — uma filha.

— Sim, claro, gostava disso — respondeu Amber. Quase conseguia ouvir o sorriso no rosto de Jonathan como se estivesse à espera de uma resposta diferente. Sugeriu um dia na semana seguinte em que ele não tinha trabalho para poderem também almoçar. Amber estremeceu. Achava que não ia conseguir enfrentar as horas de conversa fiada que ele esperava. Ela já não era a mesma pessoa. Tinha mudado para sempre. Se ao menos Jonathan conseguisse perceber isso. O avô estava habituado a uma vida calma e raramente se entregava a conversas sem rumo, por isso, desde que chegou, a sua capacidade de conduzir longas conversas sem sentido tinha diminuído para quase nenhuma. Antes de desligar, concordou relutantemente em encontrar-se com ele no vicariato ao final da manhã no dia que tinha sugerido.

A lápide de Saffron. Tudo parecia tão definitivo, como se todos os outros, Jonathan incluído, estivessem a seguir em frente. Só que ela não conseguia. Estava a descair no seu próprio purgatório pessoal. Uma pausa entre a sua vida e nenhuma vida, apenas a escuridão que habitava todos os dias. Ainda não tinham qualquer explicação oficial para o facto de o coração da sua preciosa filha ter parado de bater. Um dia estava tudo bem, ela estava uma semana atrasada em relação à data do parto, o bebé dava bons pontapés, e no dia seguinte nada. Tinham passado várias horas até ter percebido que não tinha sentido quaisquer movimentos. Se ao menos tivesse reparado mais cedo e tivesse ido para o hospital, então poderiam ter sido capazes de fazer alguma coisa. A culpa foi dela, tudo culpa dela.

A quietude que os rodeou quando o médico levantou o olhar do ecógrafo e lhes disse que não havia batimento cardíaco. Que o bebé deles estava morto. Um silêncio aberto a sugar o ar da sala deixando-os em vácuo enquanto processavam a informação. Depois houve uma precipitação nos seus ouvidos, um barulho estridente que percebeu estar a sair-lhe da boca, mas que ainda assim não sabia como silenciar. E esse som podia agora ser interior, mas ainda não conseguia fazê-lo parar.

Amber deixou-se descair contra a janela e fechou os olhos. Era culpa dela que, em vez de estar em licença de maternidade com a sua bela filha, estivesse em ano de sabática, numa licença misericordiosa enquanto tentava aprender a viver aquela nova vida. Aquela vida com um enorme buraco cavernoso por não ter insistido que os médicos lhe induzissem o parto assim que a sua data limite chegou. Enquanto Saffron ainda estava viva. Por aceitar as garantias médicas de que até dez dias de atraso era perfeitamente seguro. Mas sete dias depois tinham descoberto que não.

Passando os dedos pelo cabelo curto, agarrou-o nos punhos, puxando o cabelo esticado sem sentir a dor. Estava dormente, gelada. Não conseguia ver uma maneira de voltar a sentir-se normal. Ao esfregar as mãos com força nos olhos, espalhou a humidade e o sal pela cara e teve um arrepio. A sala parecia ainda mais fria do que antes. Quando se virou em direção à porta, parou. Houve uma mudança no ar. Uma sensação momentânea de que não estava sozinha na divisão, ainda que conseguisse ver claramente que estava. Era semelhante à forma como os braços às vezes lhe doíam por ter a certeza de poder sentir o peso de Saffron deitada neles, embora soubesse ser impossível. Estavam vazios.

Parecia tão real que alguém tivesse estado na sala com ela durante um breve instante. E havia só uma pitada de um cheiro estranho. A mel e a algo metálico. Estaria a começar a perder o juízo? Tinha feito alguma terapia depois de Saffron e foi-lhe dito que no luto tudo era possível. Era simplesmente o seu cérebro confuso a pregar-lhe partidas, não era?

Capítulo Oito

2019

— A que horas vais sair? — perguntou o avô.

— Por volta das dez horas, acho eu. O trânsito estará lento, se este tempo não melhorar.

— Não te preocupes com o jantar desta noite, se quiseres ficar em casa com o Jonathan. Há muita coisa no congelador para mim. — Tirou um pedaço de doce do frasco com a faca e ambos observaram a sua viagem instável até à torrada.

— Não, de certeza que volto. Só concordei almoçar porque a meio da tarde posso estar na viagem de regresso. O Jonathan sabe que eu não gosto de conduzir de noite. Vou trabalhar agora uma hora antes de partir. Assim não desperdicei o dia todo.

O avô levantou as sobrancelhas.

— Tenho a certeza de que «desperdicei» não é a palavra certa.

— Bem, não, não quando vou visitar a Saffron. Mas não sei de mais nada. — Amber olhou para baixo para a chávena de chá à sua frente, com uma camada cintilante a começar a formar-se no topo. Tinha passado a maior parte da noite a tentar afastar os pensamentos sombrios que lhe povoavam a cabeça. Aquele era um dia que ela não podia evitar. A dada altura teria de ver a lápide de Saffron. Já estava a sofrer tanto que dificilmente a conseguiria fazer sentir-se pior. E depois, um almoço tenso com Jonathan. Apesar de o amar e de ter saudades dele, contrariamente ao esperado, não queria vê-lo. Para falar sobre tudo — com certeza que se esperava que ela discutisse o seu estado mental. Ou respondesse a perguntas difíceis sobre quanto mais tempo ficaria com o avô, ou até onde tinha chegado no arquivo dos livros. Mesmo nas profundezas do seu desespero, sabia que não estava a ser justa com Jonathan, excluindo-o quando ele precisava dela, mas não conseguia encontrar uma forma de o deixar entrar.

Ao levantar-se, puxou automaticamente as calças para cima. Mesmo com uma elevada percentagem de elastano, as calças pretas elásticas ainda lhe estavam largas na cintura, e a camisola cinzenta que usava mostrava buracos profundos por debaixo dos colarinhos, pois quase lhe escorregava dos ombros. Tinha perdido mais peso do que se tinha apercebido.

Estava frio no escritório, mas decidiu não ligar o aquecimento, pois não valia a pena quando só estaria a trabalhar por pouco tempo. Ao ligar o portátil, pesquisou os livros ainda deixados na secretária à espera de serem catalogados. Havia várias primeiras edições que deviam mesmo estar na biblioteca, embora, felizmente, o facto de estarem guardadas em caixas de chá e de cartão não lhes tivesse feito muito mal.

No entanto, ignorando o que estava disposto à sua frente, sabia qual era o livro que não podia esperar mais um minuto para ser investigado. Aquele pelo qual se sentia atraída e no qual tinha estado a pensar durante as longas horas de insónia da noite, quando a escuridão a pressionava por dentro. Com cuidado, Amber tirou o precioso livro do cofre. Tinha feito algumas pesquisas iniciais que lhe tinham confirmado a suposição de se tratar de um livro de horas, um livro de orações pessoal medieval pertencente a uma senhora importante. Colocou-o no expositor de veludo para livros que tinha trazido consigo quando se mudou. Não tinha esperado que nada tão excitante assim fosse precisar da sua atenção especializada.

Depois de puxar as luvas, de um branco brilhante na sua frescura imaculada, voltou a desembrulhar o revestimento grosseiro, olhando desta vez com mais cuidado para o que pensava ter sido originalmente apenas um trapo. Embora os têxteis não fossem a sua especialidade, suspeitava fortemente que o tecido era de linho e que parecia bastante fino, de alta classe e não material áspero de trabalhador. Aquele era composto por um delicado bordado que parecia ter sido outrora um trabalho em preto, o simples bordado geométrico em seda preta que era usado para decorar as pontas das camisas e aventais na época medieval, ao longo de uma margem. Numa época em que todos os tecidos eram caros, teriam ainda utilizado uma peça estragada com o que parecia ser uma mancha escura como invólucro. Perguntou-se porque é que uma cobertura danificada tinha acabado em torno de um livro tão precioso como aquele.

Passou a ponta dos dedos sobre a espessa capa de couro castanho-escura, delicadamente ornamentada e gravada com um brasão de armas, embora estivesse agora brilhante e desgastada nalguns sítios. Parecia ter sido originalmente colorida, mas também isso quase se tinha desgastado, havendo apenas pequenos vestígios de amarelo e vermelho visíveis. Passando as mãos por cima dele, tateando suavemente com a ponta dos dedos como se lesse Braille, era quase impossível determinar o que tinha estado lá originalmente. Virou cuidadosamente a primeira página e os seus olhos caíram sobre a escrita que tinha observado no dia anterior. Mais uma vez, um arrepio de angústia correu-lhe pela espinha e fê-la estremecer. Tentou não olhar para a inscrição sobre Mary, mas abriu um novo documento no seu portátil e começou a tomar notas. Quando entregasse, por fim, o livro aos seus colegas do Museu Fitzwilliam, gostaria de também lhes dar um trabalho de pesquisa completo.

«Lista de nascimentos e mortes», anotou rapidamente, «mas uma — Thomas Lutton — não tem data de nascimento adequada, apenas um mês e ano ao lado da sua entrada».

Diante da lista de nomes, encontravam-se as linhas rabiscadas em latim. Eram quase impossíveis de decifrar. Tinha apanhado uma pequena quantidade delas dos projetos para os quais tinha sido designada no trabalho, mas só conseguia reconhecer as palavras e frases mais populares e frequentemente utilizadas. Tirando a sua lupa da gaveta da secretária, tentou ver se ajudaria tornar as palavras maiores. Franziu o sobrolho enquanto semicerrava os olhos. O que é que aquilo significava?

Um rápido olhar ao canto do ecrã do portátil confirmou o que suspeitava. Precisava de ir embora ou chegaria atrasada. As suas investigações teriam de esperar. Depois de voltar a embrulhar cuidadosamente o livro, colocou-o no cofre no canto da sala. Havia uma pequena agitação no fundo do seu estômago, a mais pequena asa de borboleta de interesse atiçado. Após semanas e semanas a vaguear pela coleção do avô, talvez tivesse encontrado algo excecionalmente especial.

Amber parou o carro em Swaffham. Conduzir à chuva tinha-lhe feito sentir os olhos a arder e o seu estado de espírito, que tinha melhorado um pouco depois do trabalho no livro de horas, estava agora tão húmido quanto o tempo na rua.

Pensava que conseguia fazer aquilo. Ver Jonathan, fazer conversa, evitar falar sobre os assuntos que ele claramente queria discutir, mas que nunca o fazia porque tinha demasiado medo de colocar o dedo na ferida. Para visitar a campa de Saffron e ver a nova lápide, um lembrete visível em perpetuidade de que ela não foi capaz de fazer a maioria das coisas básicas e manter o seu bebé a salvo dentro de si. Agora, tinha vontade de voltar para trás, voltar para a casa do avô e esconder-se. Mas não podia fugir para sempre. E tinha esperança de que fosse catártico colocar umas flores para Saffron.

Depois de sair do carro, saltou pela High Street abaixo tentando esquivar-se às poças e apressou-se a entrar na florista. Havia apenas uma florista na cidade, caso contrário teria ido a outro sítio. Ali era o sítio onde Jonathan a tinha levado para escolher flores para o funeral. Só voltar a entrar na loja, com o cheiro avassalador a flores e ramos, a vida nova, ameaçou empurrá-la até ao limite.

Felizmente, a jovem atrás do balcão era uma florista diferente, por isso não havia problema de ser lembrada e ter de mantter uma conversa desconfortável. Em vez disso, depois de ter trocado umas palavras agradáveis sobre o mau tempo, Amber pôde pedir um buquê de gipsofila e sair com a compra, colocando suavemente as flores de pequenas e frágeis pétalas brancas no banco do carro ao seu lado. Era a flor que tinham escolhido para ser colocada no minúsculo caixão de vime branco no funeral dela e Amber não conseguiu pensar em nenhuma outra para comprar.

Por fim, chegou ao estacionamento ao lado da igreja. As mãos tremiam-lhe quando limpou as palmas húmidas às calças. Sabia que devia ter estacionado o carro em casa — o vicariato ficava mesmo ao lado da igreja. Através das árvores conseguia ver os seus tijolos amarelos baços enroscados pela hera. Mas de momento não queria alertar Jonathan para a sua chegada.

Dantes, nessa outra vida anterior a Saffron, tinha adorado estar naquela casa. Era o seu esconderijo do mundo. Tinha tido muitas refeições animadas com os amigos que se prolongavam ao longo da noite. Os seus colegas académicos de Cambridge davam-se bem com os eclesiásticos de Jonathan, juntamente com os velhos amigos da escola e casais da aldeia, alguns com filhos pequenos ou à espera dos seus próprios bebés.

A chuva tinha finalmente parado, com o céu lentamente a abrir à medida que os pingos constantes das árvores lhe saltavam da cabeça e dos ombros enquanto caminhava lentamente em direção à igreja. Talvez devesse estar a fazer aquilo com Jonathan, mas queria paz e silêncio para estar sozinha com os seus pensamentos.

Seguiu o caminho à volta das traseiras e depois atravessou a relva recém-cortada, mas encharcada da chuva, com os restos das ervas a colarem-se aos sapatos. A zona para as campas das crianças ficava no canto mais afastado, instalada um pouco mais longe das restantes. Um pequeno aglomerado de tristeza. Algumas das sepulturas estavam decoradas com moinhos de vento de plástico, peluches ensopados e coelhos de cerâmica. Todos lidavam com a perda à sua própria maneira.

A lápide creme de Saffron, com as letras douradas a resplandecerem debaixo das gotas de chuva que a decoravam, brilhavam sob a fraca luz do sol empurrado pelas nuvens. Ajoelhando-se ao seu lado, Amber passou os dedos por cima das palavras gravadas.

Saffron Morton, nascida adormecida a 18 de fevereiro de 2019

E as estrelas que trepam ao céu de orvalho,

Só vivem para iluminar os teus pés que passam

Era tão permanente como ela tinha imaginado. E doía vê-la, tanto quanto ela sabia que iria doer. Colocou as flores que tinha trazido com gentileza sobre o pequeno montículo de relva em frente à lápide.

— Lamento muito — sussurrou. — Lamento que não estejas aqui connosco como tínhamos planeado. Sinto a tua falta todos os dias e sei que o teu papá também. — Falar com a filha foi mais fácil do que tinha imaginado e teve uma pequena visão de como Jonathan conseguia encontrar conforto ao visitar a sepultura e falar com Saffron todas as manhãs. Levantou-se e refez os seus passos em direção ao carro. Sabia o que precisava de fazer naquele momento, aquilo com que tinha concordado, mas não conseguia lidar com isso. Era demasiado difícil. Noutra altura, iria ver Jonathan noutra altura. Tinha a certeza de que ele compreenderia porque é que ela não conseguia fazer aquilo naquele momento.

Parado à janela do berçário vazio, Jonathan observava-a a ajoelhar-se à beira da campa antes de se levantar lentamente e de se afastar, de cabeça curvada. Minutos mais tarde, ouviu o seu carro a arrancar e afastar-se. Esfregou as mãos com força contra os olhos, a tentar impedir que as lágrimas quentes lhe caíssem pela cara abaixo.

Capítulo Nove

2019

No dia seguinte, Amber ficou surpreendida por não ter mensagens. Nenhuma chamada não atendida ou gravação de mensagem, nenhuma mensagem escrita. Nada. Será que se tinha enganado no dia? Não teria Jonathan estado à sua espera no dia anterior, quando ela tinha corrido de volta ao refúgio do avô e a Saffron Hall como se tivesse o diabo no seu encalço? Teria sorte se não apanhasse uma multa por excesso de velocidade.

Voltou a verificar a agenda. Tinha decididamente ido no dia certo, por isso, porque é que ele não tinha telefonado para descobrir a razão de ela não ter chegado para almoçar? Depois das suas várias mensagens anteriores, parecia-lhe estranho. E talvez tivesse ficado um pouco dececionada por não ter havido uma única mensagem a perguntar, admitiu. Até ela conseguia perceber que estava a ser do contra.

Felizmente que o avô não a tinha interrogado quando regressou, o seu hesitante «chegaste mais cedo do que estava à espera» foi recebido com um tenso «sim, cheguei» e isso foi o fim da conversa.

Amber decidiu pôr todos os pensamentos sobre Jonathan de lado, pelo menos durante algumas horas. Se não tivesse notícias dele até à hora do almoço, enviaria um pedido de desculpa e uma explicação. Antes de mais, estava deserta por começar algumas investigações aprofundadas sobre o pequeno livro de orações ancestral sem interrupções. O coração batia-lhe mais depressa de cada vez que pensava nisso, mas não quis iniciar o exame no dia anterior, depois de ter ficado perturbada e após a viagem para casa. Aquele objeto precioso exigia uma cabeça equilibrada. Calçou as luvas brancas.

No entanto, antes de ter hipótese de começar a abordar o latim, foi perturbada por uma batida forte na porta da frente, seguida do toque da campainha.

Praguejando entredentes — tinha a certeza de que o avô estava lá fora na estufa — tirou as luvas e marchou até ao hall de entrada, abrindo a porta.

— Oh. Estava à espera de que ligasses e não que conduzisses até aqui. — O seu choque ao encontrar Jonathan à porta fez com que ela disparasse um menos do que educado cumprimento.

— Se Maomé não vem à montanha… — Ele inclinou a cabeça para um lado e fez-lhe um breve sorriso apologético, com os olhos a enrugarem-se da forma que sempre lhe tinha provocado borboletas na barriga. Sentiu uma onda de vergonha pelo seu comportamento do dia anterior enquanto abria mais a porta para que ele pudesse entrar.

— Entra. Café? — perguntou. — Temo que só haja instantâneo.

— Eu aguento, obrigado. — A sua necessidade de beber café forte simples e acabado de fazer, tanto de dia como de noite, era uma fonte constante de piadas entre eles. — Não tinha percebido que os danos na torre que mencionaste eram tão maus. Vi o andaime em redor enquanto subia de carro vindo da aldeia.

Caminhando até à cozinha, ela explicou os problemas que Kenny e Pete tinham descoberto. Encheu a chaleira e pegou em chávenas, café e um saco de chá para ela do armário.

— Devo-te um pedido de desculpa — admitiu ela, por fim, obrigando-se a enfrentá-lo. — Ia ligar-te quando achasse que estavas em casa e não muito ocupado. Peço desculpa por ontem. Tudo aquilo me impressionou e não sabia o que te dizer. Ainda não sei. Visitei a campa da Saffron. A lápide parece…bem. Bom, não bem. Como é que algo sobre ela estar ali e não connosco pode estar bem? Mas sabes? Parece-se com aquilo que eu esperava que fosse. E continuo a gostar da citação de Yeats. Fico contente por termos escolhido aquela. — Sorriu-lhe com gentileza, suavizando as feições.

— Eu vi-te — admitiu ele.

— Desculpa? Viste-me? Onde? — Ela ficou confusa.

— Com a Saffron. Estava a observar-te da janela do quarto das traseiras. — Ela reparou que ele já não lhe chamava berçário. — Não estava a espiar. Por acaso olhei de relance e ali estavas. Depois foste embora e não apareceste à nossa porta, por isso supus que tivesses mudado de ideias.

Ela passou-lhe a bebida e espremeu o saco de chá na sua caneca, atirando-o para o recipiente de compostagem de comida. Não admira que as ervas daninhas crescessem tão profusamente no jardim, dado o tamanho da pilha de compostagem que o avô estava a construir.

— Não mudei de ideias — protestou ela, imediatamente na defensiva. Ele devia estar tão cansado da sua atitude picuinhas, pois estava claramente a esgotá-la a ela. Puxava-a para baixo, para um lugar onde ela não queria estar. — Fazes com que soe tão caprichoso. Eu simplesmente não consegui lidar com aquilo. Estava perturbada e não queria falar.

— Sobre a Saffron ou sobre nós? — Os seus ombros estavam tensos enquanto exalava acentuadamente.

— Não sei. — Encolheu os ombros. — Talvez ambos.

— Vamos ter de falar a dada altura, Amber. — A voz subiu-lhe de tom e ficou com os nós dos dedos brancos, que se apertavam na chávena. — Não podemos simplesmente andar assim à deriva para sempre.

— Eu sei, eu sei, mas não neste momento, por favor. Não é o momento certo. Ainda não. Recebemos alguma carta com marcação para o especialista? Lembras-te de terem dito que iríamos receber uma? — Mudando bruscamente de assunto, deitou leite no chá e sentou-se diante dele.

— Não, vou telefonar-lhes para ver o que se passa. — Bebeu um gole do seu café e olhou pela janela. — Já viste a Becky desde que chegaste? — Becky, a sua melhor amiga e colega de trabalho mais próxima. Ambas tinham começado a trabalhar na universidade com diferença de alguns meses, Becky como professora de História da Arte Medieval e Amber como arquivista no mesmo departamento, trabalhando frequentemente juntas em projetos. Poucas horas depois de se terem encontrado, tinham descoberto que Becky vivia na mesma aldeia que o avô, e essa tinha sido uma de muitas coincidências.

— Não, ainda não — confessou ela. — Telefonou-me quando aqui cheguei e eu disse que lhe ligaria, mas ainda não o fiz. Continuo a acobardar-me. Quanto menos falo com as pessoas, menos me sinto capaz de fazê-lo.

— Olha, eu sei que é difícil contactar e falar com as pessoas, mas pode ajudar. Ela é tua amiga e vai querer ajudar-te. Se não consegues falar comigo, talvez consigas com ela? Não tenhas vistas curtas, vai e conversa, mesmo que seja só para ter um ombro onde chorar.

— Mas chorar não é a resposta, pois não? — A sua mão desceu bruscamente sobre a mesa. — Passo metade da vida a chorar, mas isso não vai trazer a nossa bebé de volta e falar com alguém também não. Como é que posso fingir ser a velha Amber sorridente e feliz quando essa pessoa desapareceu e nunca mais vai voltar?

— Não sei, Amber, não tenho todas as respostas. Mas sei que tenho saudades de te ter em casa. Parece tão vazia, como se tivesses ido embora para sempre. Quero que as nossas vidas avancem de alguma forma. Quanto tempo é que ainda vai demorar o arquivamento dos livros aqui? — Ele ergueu-lhe as sobrancelhas. Dessa feita, era a vez de Amber admitir que não tinha quaisquer respostas.

— Ainda tenho mais de metade por catalogar — explicou. Quase lhe falou do precioso livro de horas, mas depois recuou. Queria guardá-lo para si só por mais algum tempo, pelo menos até ter desvendado os segredos que encerrava. — Ainda não posso voltar para casa. Sinto-me tão perturbada ali, com recordações em todo o lado. Aqui sinto-me mais calma, mais segura. Saffron Hall sempre foi especial para mim, sabes disso. Ambos decidimos chamar dar o nome deste lugar à nossa filha por causa da ligação que tenho com ele e neste momento sinto-me como se me estivesse a proteger do mundo.

— Sei como te faz sentir, mas será que te está também a proteger de mim? Não tens o monopólio da tristeza.

— Claro que de ti não. — Quando o disse, não teve a certeza se as palavras eram verdadeiras, mas odiava vê-lo assim, de ombros caídos enquanto se inclinava sobre a mesa, um homem abatido. — Mas tu tens a igreja e a tua vocação, uma razão para seguires em frente. De momento, não tenho isso. Não tenho nada.

— Tens algo. Tens-me a mim. Ficar aqui para sempre e chafurdar no desgosto não é a resposta, Amber. Carregaste no botão de «pausa» em ambas as nossas vidas, mas temos de tentar encontrar uma solução, de alguma forma. — Jonathan pôs as mãos sobre a mesa da cozinha, de palmas viradas para cima.

— Não estou a «chafurdar» — ripostou ela a fazer o sinal de aspas no ar com os dedos —, só preciso de uma pausa da vida por um bocadinho. Por vezes pergunto-me se me conheces de todo. Se alguma vez me conheceste. — Lamentou as palavras no momento em que lhe saíram da boca e ficou devastada quando Jonathan, o seu rochedo, sempre a sua torre de força, concordou com ela.

— Também eu, Amber, também eu. — Levantando-se, voltou a vestir o casaco, deixando o café em cima da mesa. — Não estamos a chegar a lado nenhum. Talvez tivesses razão em não ter ficado para almoçar ontem. Desculpa, não devia ter vindo. — Mexendo dentro dos bolsos, sempre cheios dos detritos da vida, localizou as chaves do carro. Deu a volta à mesa para lhe dar um beijo breve na face, os seus lábios secos e frescos ali e depois já não, tão breve que mal o sentiu. Moveu-se para abraçá-lo, mas ele já não estava. A porta da frente abriu-se e houve um momento de silêncio como se tivesse parado por um instante. Depois fechou-se e ela ouviu o motor do carro a arrancar. A casa voltou a ficar em silêncio, com cada fragmento dela a suster a respiração, de tão chocada que estava.

Amber deitou a chávena de chá no lava-loiça e começou de imediato a fazer outra. Agora desejava ter ido almoçar com ele no dia anterior. Se tivessem estado em público, nenhum deles se teria sentido capaz de lançar acusações um ao outro como tinham acabado de fazer. Sentia-se mais afastada dele do que nunca. Ainda o amava, amava-o de verdade, mas por detrás das barreiras que tinha erguido em seu redor, já não sabia como lho mostrar. Não tinha mais força para tentar.

Deixando o chá ao lado da chaleira, voltou para o escritório fazendo uma nota mental para ligar a Becky e ver se podiam ir tomar um café. Pelo menos aí teria feito uma pequena coisa que Jonathan lhe tinha pedido.

O livro de horas ainda estava a descansar no expositor onde o tinha deixado quando Jonathan bateu à porta. Sentou-se de novo diante dele, pegando nas luvas mas sem as calçar. Recostando-se na cadeira, olhou pela janela, mas a vasta extensão de nuvens claras e a luz brilhante de Norfolk, tão amada pelos artistas, não lhe ofereciam quaisquer respostas.

Por fim, dando a si mesma uma pequena sacudidela, virou-se para o livro. Não tinha quaisquer soluções, mas esperava que pudesse proporcionar-lhe alguma distração. Abriu-o na primeira página para reler a inscrição em latim que agora tinha transcrito na íntegra e na qual não conseguia parar de pensar.

infans filia sub pedibus nostris requiescit

nunc mihi tempus fugit

oro vos et spero in vobis

pro illa

ut ea in pace requiescat

O que é que aquilo significava? Abriu a aplicação de tradução que normalmente utilizava. Reconhecia algumas palavras, mas não o suficiente para fazer sentido. A tradução não era propriamente linear e eventualmente Amber tinha perante ela uma passagem de que ainda estava incerta. Os pelos eriçaram-se ao longo dos braços enquanto a lia e teve um arrepio involuntário.

Uma filha bebé jaz debaixo dos nossos pés

o tempo escapa-me agora

Suplico-vos e deposito a minha confiança

por ela

para que possa ficar em paz

O que é que Eleanor estava a pedir? Aquele livro tinha centenas de anos e, no entanto, Amber tinha a estranha sensação de que aquilo era uma mensagem pessoal para si que tinha atravessado séculos. Se ao menos soubesse o que Eleanor queria. Era desconcertante e, no entanto, havia uma ligação. Um depenar dos filamentos do tempo a tentar chamar-lhe a atenção.

Deixando a passagem por um momento, virou cuidadosamente a página. Ofegou de deleite com as miniaturas que se destacaram, com o seu brilho e cores, em vermelhos ricos e tons vibrantes de azul, com manchas de ouro brilhante. Parecia que o livro não tinha sido aberto desde que tinha sido originalmente escrito. Aquelas ilustrações eram santos, tinha a certeza, embora não fizesse ideia de quais. Becky certamente saberia. Virando de novo a página, estava desejosa de descobrir que outros segredos encerrava o livro entre as suas capas. Apesar do latim, reconheceu as primeiras palavras do Invitatório de outros livros de orações que tinha estudado, seguidas do Salmo noventa e quatro decorado com uma iluminura ainda mais delicada que rodeava não só a letra inicial, mas quase metade da página. Ou o escriba que trabalhou nela tinha sido pago à hora e quis arrastar o tempo que a demorou a fazer, ou era realmente dedicado ao seu trabalho. Seja como for, era requintada e estava incrivelmente bem conservada.

As duas páginas seguintes eram menos decorativas e continham um calendário de festividades da igreja, tal como esperava, mas arregalou os olhos e levou a mão à boca quando virou para a página seguinte e descobriu não mais orações, mas o que parecia ser uma entrada de um diário escrito por uma mão diferente. A página estava decorada à volta da margem com uma tentativa cuidadosa de alguma arte de iluminura em azuis e amarelos, embora não tão boa quanto a das páginas anteriores.

Escrita na mesma caligrafia distinta que as entradas no frontispício do livro, Amber achou quase tão difícil de decifrar como o latim que ela se tinha esforçado por compreender na primeira página, mas com o passar do tempo, achava mais fácil reconhecer as letras individuais. Quem quer que o tivesse escrito tinha de ser bem instruído — a escrita tinha sido executada com precisão. Por fim, com a ajuda da sua aplicação, conseguiu ler tudo, escrevendo no seu portátil enquanto repetia em voz alta.

«Eleanor Lutton, nascida a 29 de novembro do ano de Nosso Senhor de 1520. Casada neste 21 de março de 1538 com Sir Greville Lutton. Espero que o meu marido me ame e seja gentil para comigo.»

Aquele livro de orações devia ser também o diário de Eleanor. Os nomes no início e as datas correspondiam. Virou suavemente para a primeira página para verificar, enquanto fazia cálculos mentais. Em 1538, Eleanor teria dezassete anos, portanto, mais do que idade para casar. Greville teria quase trinta anos, por isso bastante mais velho. E a data de nascimento de Jane era 1534, então teria Eleanor já tido um filho? Viúva aos dezassete anos, teria tido Jane com catorze, o que não era inédito no século XVI. Mas a entrada dizia Jane Lutton, por isso parecia mais provável que Greville fosse o viúvo e a menina sua filha.

Porque é que ela esperava que ele fosse gentil com ela? Havia qualquer coisa na forma como o escreveu. Parecia assustada e preocupada, um pouco insegura. Amber teve um arrepio. Nos tempos Tudor, lembrou-se ela, alguém tão instruído quanto Eleanor deve ter sido, para ser capaz de escrever tanto em inglês como em latim, teria sido casada por razões familiares, políticas ou por dinheiro. Não por amor.

Devia ter estado a murmurar em voz alta enquanto trabalhava, pois o avô apareceu à porta, trazendo-a de volta ao presente e fazendo-a dar um pulo.

— Achei ter-te ouvido a falar. Perguntava-me se tinhas visitas — disse.

— Estava a trabalhar. Espera até eu te mostrar. Vais adorar isto. Mas sim, tive uma visita antes. O Jonathan esteve aqui.

O avô levantou as sobrancelhas.

— E?

— E nada. Discutimos, ele saiu disparado. Sinto-me tão culpada. Neste momento, parecemos não conseguir concordar em nada. Ele sugeriu que eu fosse visitar a Becky, para ver se isso ajuda.

— Devias ligar-lhe. É a tua melhor amiga e está apenas a cerca de um quilómetro de distância. Fechares-te aqui comigo e com os meus livros o tempo todo não te vai fazer bem nenhum. Tens de sair e ver outras pessoas de vez em quando. Conversar, desabafar. Ou convidá-la outra vez para jantar? — Ele lembrou-lhe da altura em que Becky tinha vindo jantar e fazer uma visita guiada à casa quando se aperceberam de que vivia na mesma aldeia que o avô.

— Veremos. Só concordei para agradar ao Jonathan. De qualquer modo, vem, senta-te na minha cadeira e deixa-me mostrar-te o que estava naquele pacote que o Pete encontrou na torre. Isto é realmente emocionante.

Colocando-se de pé num pulo, segurou a cadeira no sítio com as duas mãos, prendendo-a com a anca enquanto ele se sentava com cuidado. Ele pousou as mãos sobre a secretária e espreitou para o livro no expositor.

— Um genuíno livro de horas, perfeitamente preservado. Não é um Voynich. Acho que é mais tardio do que isso, embora esteja escrito à mão e não impresso. Mas a melhor parte é que também foi utilizado como diário. Há algumas datas de nascimento no frontispício, mas aqui, quatro páginas mais à frente, está a inscrição do casamento da dona, Eleanor, com um tal Greville Lutton. Não é espantoso? Como é que isto estava lá em cima na torre? Achas que esteve aqui o tempo todo? Sabes quem eram os Lutton? Com certeza que alguém esteve lá em cima e tê-lo-ia encontrado antes.

O avô abanou lentamente a cabeça.

— Tinha-me esquecido de que o Pete tinha encontrado aquele pacote. Que espantoso! Já te disse antes que sempre houve uma suspeita na família sobre a torre. Sempre pensei que fosse uma tontice. O meu pai disse-me que nunca ninguém deveria tentar subir à torre, que poderia estar assombrada ou amaldiçoada. Não que o seu aviso me tenha impedido. — Riu-se. — Quando eu era adolescente, fiz um esforço concertado para encontrar a chave. Alguns amigos voltaram comigo da escola para passar tempo e vasculhámos a casa, tentando encontrar uma forma de lá chegar. Uma ousadia, imagino que tenha sido isso, mas quando o meu pai descobriu o que andávamos a tramar, enlouqueceu por completo. Nunca o tinha visto tão zangado. Nunca mais senti o desejo de ir lá acima. Ele colocou-me o temor a Deus em cima. Parece que as histórias estavam corretas, embora duvide que o livro esteja amaldiçoado.

— Claro que não está. E deveria estar num museu, de facto. Podemos doá-lo ao Fitzwilliam quando estivermos prontos, mas importas-te que eu faça alguma pesquisa primeiro? Pergunto-me que tipo de ligação tem com a nossa família, se é que há alguma. Sei que Saffron Hall está na família há muito tempo, mas não achei que tivéssemos vivido aqui há tanto tempo como as datas deste livro.

— Não tenho qualquer problema que o investigues. Não te vejo tão animada desde… — Fez uma pausa. — …desde que vieste para ficar cá. Mas certifica-te de que fica guardado no cofre.

Amber concordou, ajudando-o a pôr-se de pé e oferecendo-se para aquecer sopa para o almoço. Depois de ter embrulhado cuidadosamente o livro na sua mortalha desfiada, trancou-o no cofre.

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Yaş sınırı:
0+
Litres'teki yayın tarihi:
23 ekim 2024
Hacim:
391 s. 2 illüstrasyon
ISBN:
9788491397830
Telif hakkı:
Bookwire
İndirme biçimi:

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