Kitabı oku: «Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux»

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D'Evreux Yves

Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066412869

Índice de conteúdo

INTRODUCÇÃO.

AO REI

AO REI

ADVERTENCIA AO LEITOR.

PREFACIO A RESPEITO DOS DOIS SEGUINTES TRATADOS.

PRIMEIRO TRATADO.

CAPITULO I

CAPITULO II

CAPITULO III

CAPITULO VII

CAPITULO VIII

CAPITULO IX

CAPITULO X

CAPITULO XIII

CAPITULO XIV

CAPITULO XV

CAPITULO XVI

CAPITULO XVII

CAPITULO XVIII

CAPITULO XIX

CAPITULO XX

CAPITULO XXI

CAPITULO XXII

CAPITULO XXIII

CAPITULO XXV

CAPITULO XXVI

CAPITULO XXVIII

CAPITULO XXIX

CAPITULO XXX

CAPITULO XXXI

CAPITULO XXXII

CAPITULO XXXIII

CAPITULO XXXIV

CAPITULO XXXV

CAPITULO XXXVI

CAPITULO XXXVII

CAPITULO XXXVIII

CAPITULO XXXIX

CAPITULO XL

CAPITULO XLI

CAPITULO XLIII

CAPITULO XLIV

CAPITULO XLV

CAPITULO XLVI

CAPITULO XLVII

CAPITULO XLVIII

CAPITULO XLIX

CAPITULO L

SEGUNDO TRATADO.

CAPITULO I

CAPITULO II

CAPITULO III

CAPITULO IV

CAPITULO V

CAPITULO VI

CAPITULO VII

CAPITULO VIII

CAPITULO IX

CAPITULO XI

CAPITULO XII

CAPITULO XIII

CAPITULO XIV

CAPITULO XVI

CAPITULO XVII

CAPITULO XVIII

CAPITULO XIX

CAPITULO XX

CAPITULO XXI

ADDENDUM.

Congratulação á França pela chegada dos Padres Capuchinhos á nova India da America Meridional do Brazil.

Fidelissima narração, extrahida de seis pares de cartas dos Revds. Padres Claudio d’Abbeville e Arsenio, Prégadores Capuchinhos, escriptas aos Padres da sua Ordem de Pariz, e a outras pessoas do seculo, sendo quatro do Revd. Padre Arsenio, uma do Padre Claudio, e uma para duas pessoas.

Summario de algumas coisas mais particulares, referidas vocalmente aos Padres Capuchinhos de Pariz pelo Sr. de Manoir.

Carta escripta pelos Padres Capuchinhos ao Sr. Fermanet.

Narração de um marinheiro, vindo do mesmo paiz, feita ao Revd. padre Guardião do Havre da Grace, e por este communicada ao Revd. padre Commissario.

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INTRODUCÇÃO.

Índice de conteúdo

O Padre Ivo de Evreux e as primeiras missões do Maranhão.

No tempo de Luiz XIII, o magnifico Convento dos Capuchinhos da rua de Santo Honorato contava entre seos Monges dois religiosos com o mesmo nome—o Padre Ivo de Paris e o Padre Ivo de Evreux. O primeiro, advogado antigo, verboso, ardente na discussão, muito versado nas ideias do seu seculo, gosava pela cidade de alta reputação, e as biographias modernas confirmão ainda sua fama passada: o segundo, amigo reconcentrado do estudo, e mais ainda da humanidade, espirito observador, alma apaixonada pelas bellezas da naturesa, prompto a acudir onde o chamava seo zelo, não se importando da curiosidade que podia despertar, foi completamente esquecido, e de tal forma, que, apezar de seo reconhecido merito, decorreram 250 annos sobre seo humilde tumulo sem que uma voz amiga tenha para elle despertado a attenção publica.

Para que se fallasse n’este obscuro Monge foram necessarias duas cousas, com que não se contava durante sua vida: a transformação em poderoso Imperio dos desertos, que elle percorreo, e o amor apaixonado por certos livros velhos, que se rehabilitam e com razão, pois elles, por si só, narram factos que, sendo desconhecidos, fariam com que a civilisação crescente de certos paizes caminhasse na ignorancia de sua origem.

Tinha então o grande Convento de Pariz muitos homens condemnados á injusto esquecimento.

Fundado em 1575 por Catharina de Medicis,[A] havia em pouco tempo adquerido fama de conter monges doutos em theologia, zelosos, cheios de abnegnação e caritativos nas epidemias, a qual, quasi intacta, conservou durante o decimo sexto seculo.

Era n’elle, que o partido, favoravel aos religiosos regulares, vinha procurar espiritos activos para luctar com o Bispo de Belley.

Era sobre estes vastos terrenos, possuidos apenas pela Casa de Tremouille, que existia essa immensa officina bem conhecida pelo Corpo medico de Pariz, onde os cortesãos, assim como os mais humildes burguezes vinham provêr-se de medicamentos, que só ahi encontravam, ou que se preparavam com incuria notavel nos outros lugares de tão grande cidade.[B]

Fallemos francamente: não era nem a sciencia, então incontestavel, d’esses Religiosos, nem os resultados positivos de sua cuidadosa administração, nem mesmo os beneficios diarios, pelos quaes eram tão uteis ás classes necessitadas, que lhes grangearam o credito unisono, que gosavam em Pariz, pois o deviam sobre tudo as brilhantes conversões, realisadas recentemente no Mosteiro de Santo Honorato.

Foi n’este Convento, que um dos maiores senhores do ultimo reinado, o conde de Bouchage, mais conhecido depois pelo Padre Angelo de Joyeuse, veio trocar as grandezas da Côrte, onde voluntariamente demittio-se dos seos cargos militares, pela vida pobre e obscura que ahi se passava.

Foi n’este sombrio asylo que um dos ramos mais illustres da familia de Pembroke veio abjurar o calvinismo, e, renunciando vida mais brilhante, sugeitou-se ás humildes funcções, que desde o principio do seculo lhes foram impostos, obrigando-se a proseguir sem descanço na missão a que voluntariamente se impozera.

Facil nos seria abundar agora na citação de nomes celebres, e de causar talvez admiração fazendo sobresahir os esquecidos: para ser breve devemos porem cingir-nos ao objecto em questão.[C]

O Padre Ivo d’Evreux e o Padre Ivo de Pariz appareceram, como dissemos, quase ao mesmo tempo; porem a fama, sempre crescente de um, eclypsou completamente a lembrança mui fugitiva, que o outro deixou, e até em bons escriptos são elles confundidos. Tiveram, comtudo, bom é repetir, destino bem differente.

Ivo de Evreux, como dissemos, fugia em geral do bulicio politico, e somente tomava parte nas luctas do seculo quando tinha de sustentar algum ponto de doutrina religiosa: o segundo, muito mais moço na Ordem, que o seo homonymo, sempre prompto a entrar nos combates, que as Ordens Regulares sustentavam algumas vezes contra o poder ecclesiastico, tinha por isto adquirido muita fama, com que bastante se gloriava o Mosteiro.

Era notado não só como orador eloquente, mas tambem como um dos mais fecundos do seu tempo.

A hyperbole do elogio monastico chegou até o ponto de consideral-o como o engenho mais poderoso de sua Ordem.

Foi sempre elle quem representou unicamente seos Superiores: eram d’elle os muitos livros, escriptos quase todos em latim, que foram oppostos, e victoriosamente, ás publicações violentas atiradas contra as Ordens mendicantes.

Da sua antiga occupação de advogado se recordava e se aproveitava das tricas e desordens, proprias da epocha, e até lançava mão da astrologia judiciaria, pelo que se lhe attribuio a authoria do Fatum Mundi, livro absurdo, mas que durante algum tempo preoccupou a attenção publica.

Declarado por unanimidade o oraculo do seu Convento, nem se quer por um momento houve a ideia de associar-se á sua lembrança o nome d’um Religioso, igual ao seo, e que apenas sabia sacrificar-se com o fim de ganhar algumas almas para Deos! O que fazia o nosso modesto amante da natureza diante de tal personagem, tão cercada de gloria, diante da Phenix dos theologos francezes, como então por gosto o appelidavam?[D]

Mas, quem é que se recorda hoje do Padre Ivo de Pariz? Quem cuida hoje nas discussões, cuja vehemencia lhe attribuiram tão viva admiração?

Colloquemos os homens e os factos nos lugares, que devem occupar.

Ivo d’Evreux poude contemplar em sua grandeza primitiva uma terra exuberante de vida e de mocidade: dois seculos de esquecimento passaram sobre sua obra, e hoje em dia brilha elle remoçado, cheio de graça, ao lado de Lery, de Fernando Cardim, de Anchieta, emfim de todas essas almas privilegiadas, que uniam a faculdade da observação á apreciação apurada das bellezas da natureza, e que saudaram, poetas desconhecidos, a aurora de um grande Imperio.

Ivo d’Evreux, diga-se com pezar, teve o destino de quasi todos os historiadores primitivos do novo mundo: sua biographia, embora pouco desenvolvida, ainda está por escrever, e apesar das mais minuciosas e constantes investigações n’estes ultimos tempos, apenas conhecemos as circumstancias mais importantes de sua vida, e assim mesmo nada ao certo saberiamos si não fossem algumas notas colhidas em varios archivos dos antigos Conventos. Foi geral o esquecimento tanto da sua obra, como do seo autor. Pensam os escriptores de sua Ordem haverem dito bastante, lembrando ter elle vivido no seculo XVII, ter sido missionario zeloso, e autor de um livro, continuação obrigada da viagem do Padre Claudio, e até se esquecem de mencionar a sua existencia por espaço de dois annos entre os indios, onde este apenas demorou-se quatro mezes.

Conforme as inducções, que se podem tirar de um folheto manuscripto, conservado na bibliotheca Mazarina, opusculo cheio de datas precisas, relativas aos Capuchinhos do Convento da rua de Santo Honorato, o nosso Missionario devia ter nascido em 1577.

Indica por certo seu sobrenome a cidade onde elle nasceo, porem ignoramos qual foi o nome, que teve no seculo, como então se dizia. Á este respeito os amadores das viagens antigas foram mais bem succedidos quanto ao seo companheiro, o Padre Claudio, que se sabe pertencera a uma excellente familia, a dos Foullon.[E] O que ha de bem averiguado é, que os paes do Padre Ivo o applicaram á estudos excellentes, e que os seus professores não se contentaram de ensinarem-lhe só o latim e sim tambem o grego, e até o hebreu, e inspiraram-lhe tal gosto litterario, sem o qual não ha escriptor habil.

No convento de Ruão passou o seo noviciado, e ahi entrou em 18 de agosto de 1595, não existindo a menor duvida a este respeito.[F]

Depois de ter tomado o habito n’essa Caza, ahi provavelmente demorou-se alguns annos, e devia prégar na maior parte das cidades da alta Normandia.

É provavel, que então se achasse em relações de estudo e de sacerdocio com o joven Francisco de Bourdemare, como elle natural da Normandia, como elle Prégador em sua Provincia, e mais tarde designado para succedel-o na missão do Maranhão.[G]

Distinguido muito cedo pelos seos Superiores, e tendo já o titulo de Prégador, que então só se dava aos Religiosos notaveis, foi designado o Padre Ivo para preencher as funcções de Guardião do Convento de Montfort.

Infelizmente os documentos, que temos á vista e que provam este facto, não dizem qual foi a Cidade onde se passaram a maior parte dos annos de estudo do nosso bom Missionario.

Ha em França mais de treze localidades com este nome e não nos é possivel, absolutamente fallando, dizer onde o nosso viajante se fortaleceu em sua carreira religiosa.

Nos primeiros annos do seculo mudou logo de residencia, e achamol-o no grande Convento de Santo Honorato, no meiado do anno de 1611, no tempo em que era Provincial da Ordem o Padre Leonardo de Pariz,[H] quase na occasião d’este sabio Religioso ter sido pelo Papa nomeado Superior das missões orientaes.

Teremos ainda occasião de fallar no movimento politico, dado ás expedições maritimas, quando ja ia em meio o seculo XVI, e que tinha por fim fazer com que, o nosso comercio partilhasse das vantagens, que a Hespanha e Portugal haviam para si monopolisado. Cincoenta annos mais tarde, embora aproveitando-se das vantagens adquiridas pelas exploraçães dos Varazano, dos Cartier, dos Roberval, e de tantos outros navegantes, que nos deram o que n’aquelle tempo se chamava nova França, todas as attenções se fixavam nas regiões mais favorecidas, que então se pretendia colonisar, e as quaes com enthusiasmo se chamava França equinoccial.

Ja havia desde 1555 uma França Antarctica, a qual, apesar de ter este nome por tão pouco tempo, não deixou comtudo de grangear para nossos homens do mar as sympathias calorosas e dedicadas dos povos indigenas, que então em tribus numerosas occupavam o Brazil em varias partes. Auxiliava tambem estas conquistas pacificas o movimento protestante, bem que não devesse deixar vestigios duradouros n’America do Sul, porque os refugiados e os Missionarios subordinavam a si e procuravam á porfia converter á suas crenças estas nações barbaras.[I]

Sem tratar dos armadores de Dieppe, cujas primeiras explorações pelas costas do Maranhão, datam de 1524, sem mencionar as navegações de Affonso de Xaintongeois até as boccas do Amazonas no anno de 1542, ser-nos-ia facil provar, que 25 annos mais tarde Henrique IV doara a um bravo capitão da religião reformada a immensa extensão de territorio, para a qual devia ir Ivo d’Evreux, sahindo do seu pacifico retiro de Montfort, afim de cathequisar os selvagens.

Vemos com effeito Daniel de la Touche, senhor de Ravardiere, de posse d’essas doações tão vagamente definidas pelas Cartas patentes de julho de 1605.[J]

Adquirimos tambem a certeza, que depois de dois annos, após duas viagens successivas ao norte do Brasil, Ravardiere decidio os Tabajaras e Tupinambás, propriamente ditos, a mandarem uma especie de embaixada ao Rei Christianissimo com o fim de solicitar sua protecção contra as invasões dos portuguezes.

Foi debalde esta missão d’indios, porem como Ravardiere continuasse a residir por muito tempo entre elles, conseguio em 1610, que lhe fossem renovadas as doações feitas cinco annos antes, e assim julgou-se authorisado, logo depois da morte de Henrique IV, a formar uma associação para a definitiva colonisação d’estas regiões abandonadas.[K]

Não foi comtudo aos partidistas de sua Religião, que se dirigio Ravardiere para ser bem succedido n’este empenho: pelo contrario sem hesitar entrou em conferencia com catholicos proeminentes, cuja lealdade perfeitamente conhecia, como sejam, o almirante Francisco de Razilly, uma das mais antigas glorias da França, e Niculau de Harlay, uma de suas summidades financeiras, e elles se lhe associaram para a exploração d’este previlegio.

Em todo o seculo XVII não conhecemos outra transacção, entre catholicos e protestantes, mais leal e desinteressada: foi na verdade uma empresa, digna de contar em si o Padre Ivo d’Evreux, tão sincero como justo.

O titulo de lugar-tenente do Rei, sem a menor questão, foi transferido á Rasilly, que teve toda a liberdade de acção, não deixando comtudo de fazer prevalecer as prerogativas da communhão, que professava.

Em todas as praias onde desembarcassem, devia levantar-se uma cruz com toda a solemnidade, e bem assim missionarios catholicos seriam condusidos para propagação da fe entre o gentilismo.

Estes contractos foram na verdade pontualmente executados, e nem na obra de Claudio d’Abbeville, e nem na de Ivo de Evreux se encontra uma só palavra, que faça suspeitar o menor estremecimento entre os chefes da expedicção.

Fortalecido com o credito, que de ha muito gosava na Corte, ajudado alem disto, por soccorros pecuniarios, e pela verdadeira importancia, que lhe proveio de associar-se com Niculau de Harlay, senhor de Sancy, Barão de Molle e de Grois Bois, o almirante Razilly com toda a prestesa chegou ao fim, que tinha em vista, interessando a Regente no bom exito de uma empreza, ja antecedentemente approvada por Henrique IV.

Por seos rogos escreveo Maria de Medicis ao Padre Leonardo, que n’esse tempo era Guardião do grande Convento dos Capuchinhos da rua de Santo Honorato, pedindo-lhe com toda a instancia quatro religiosos, afim de fundarem um convento da Ordem na Ilha do Maranhão.

Diga-se a verdade: o norte do Brazil que actualmente offerece todos os recursos da civilisação, então se apresentava, até mesmo aos mais doutos da Universidade de Pariz, como um paiz entregue a todos os horrores da vida selvagem; os cosmographos francezes quando d’ella tractavam, exageravam a rusticidade d’esse paiz, deixando comtudo a imaginação o campo inteiramente livre, não marcando nenhum limite exacto, e era sobre essas informações inexactas que Raleigh se deleitava de evocar todos os monstros do mundo antigo.

Nem um só momento exitaram estes Religiosos quando o Padre Provincial lhes leo a Carta regia na occasião em que se achavam no refeitorio: d’entre elles quarenta quizeram ser escolhidos para tão perigosa empresa, e os documentos officiaes, que temos à vista, nos fizeram até conhecer a especie de enthusiasmo que d’elles se apoderou quando souberam o contheudo da mensagem das Tulherias. Offereceram-se a maior parte dos Padres com expontaneo enthusiasmo para esta nova missão, e sendo reprimido o zelo dos mais fervorosos, declarou logo o Padre Leonardo, de accordo com o Definidor da Ordem, que seriam quatro apenas os escolhidos, de conformidade com o pedido.

Eis a lista destes nomes pela ordem, que devem guardar entre si, e os raros historiadores, que d’elles tem tratado teriam evitado alguns erros se, como nós, tivessem consultado os archivos do Convento.

O muito veneravel Padre Ivo d’Evreux, superior.[L]

O muito veneravel Padre Claudio d’Abbeville.

O muito veneravel Padre Arsenio de Paris.

O muito veneravel Padre Ambrosio de Amiens.

Ajoelharam-se os escolhidos diante do Padre Leonardo, e humildemente lhes agradeceram tal honra; foi-lhes annunciada a proximidade da viagem, e desde esse momento para ella se acharam promptos.

Não ha a menor duvida á respeito da qualidade do Religioso, a quem se confiou a direcção das missões do Maranhão, e não se comprehende como Berredo, antigo Governador da Provincia, que foi autoridade no Brazil, deo o titulo de Superior á Claudio d’Abbeville, que occupa na ordem hierarchica o lugar immediato ao digno Missionario director dos trabalhos.

Certamente era necessario que o Padre Ivo ja tivesse adquirido na Ordem credito inabalavel para que fosse preferido aos tres religiosos, seos adjuntos. Eram sacerdotes todos tres; como elle deram provas de possuirem solida instrucção, e o terceiro até, ja muito adiántado na carreira, por varias vezes tinha occupado certos empregos honrosos, signaes evidentes da consideração de seos superiores. O Padre Ambrosio éra alem d’isto dedicado com ardor á todas as obras de caridade, durante as calamidades dos ultimos annos do seculo, sendo muito conhecida sua bondade sempre em acção: suas prédicas fervorosas, bem acolhidas pelo povo, lhe grangearam o apellido de «Apostolo da França.»[M]

Tem a data de 12 de agosto de 1611 as Cartas de obediencia, que os Superiores deram ao Padre Ivo d’Evreux, e lhe ordenaram, que fosse embarcar-se no porto de Caucale n’um navio sob o commando de Rzailly, lugar-tenente do Rei.

Não devemos repetir aqui o que em termos percisos e apropriados contou Claudio d’Abbeville na primeira parte de sua narração a respeito dos pormenores da longa viagem dos missionarios até o Brazil, da separação forçada da flotilha, que os conduzia, e das peripecias d’esta navegação, que durou cinco mezes. O que porem podemos affirmar é que o Padre Ivo não soffreu somente o aborrecimento de uma viagem maritima, cujas difficuldades não se pode agora imaginar, e que aos cuidados de uma installação penosa vieram reunir-se fadigas imprevistas, e depois de desembarcado, dores pungentes, como fossem as que elle experimentou pela morte do digno Padre Ambrosio, e em seguida os soffrimentos provenientes de uma molestia, que o forçou a regressar, e da qual foi victima afinal.

Tudo isto foi narrado com simplicidade e dignidade por tão zeloso missionario, e sem duvida muito melhor do que o fariamos.

O que não disse o pobre Monge, cuja exquisita sensibilidade e admiravel resignação se revelam tantas vezes, foi o pezar, que experimentou quando vio, que da coragem imprudente de Pésieux resultou a morte d’este seo amigo, sem que o valor de Ravardiere podesse ser bastante para sustentar a Colonia; o que tambem não poude contar foi a perda das funcções de Superior da missão, que devia assumir antes do triumpho das armas de Jeronymo d’Albuquerque, e da expulsão definitiva dos francezes. Para explicar essas circumstancias, não mencionadas de forma alguma pelo digno missionario, é indispensavel fallar-se da situação administrativa em que então se achava o grande Convento da rua de Santo Honorato.

O Padre Leonardo, tão afamado entre seos irmãos de habito, em 1614 deixou de ser Provincial, e só poderia ser reeleito no anno de 1615. Foi substituido pelo veneravel Honorato de Champigny,[N] e com razão elogiam-se os melhoramentos de toda a natureza, a actividade, e especialmente a distribuição de soccorros caridosos, postos em pratica durante a sua administração.

N’esta epocha, um Religioso estrangeiro, natural da Escossia, e descendente de uma boa familia, attrahia a si os olhares de seos irmãos, e póde dizer-se até os da propria França, o Padre Archanjo de Pembroke, que veio substituir de alguma forma o Padre Angelo de Joyeuse.

Eleito Provincial em 1609, e não deixando depois d’isto d’exercer importantes encargos, foi este Capuchinho, logo depois da partida do Padre Ivo, nomeiado director dos missões nas Indias orientaes e occidentaes. Os motivos, que fizeram abandonar mais tarde a missão do Maranhão, não foram declarados, ou para melhor dizer, não existiam. Archanjo de Pembroke resolveo ir pessoalmente ao Brasil dar consideravel impulso á pequena missão, que alguns mezes antes havia sido derigida por Francisco de Razilly.

Para este fim escolheo onze religiosos, de cujo zelo podia confiar: infelizmente ignoram-se os seos nomes, e apenas se sabe que entre elles havia um historiador, cuja Narração, nos parece de facto perdida, por não ter sido possivel encontral-a, apezar de todas as pesquizas feitas com constancia e perseverança por muitos mezes em Pariz, Ruão e Madrid.[O]

O Padre Francisco de Bourdemare pertenceo á classe d’esses ricos gentis-homens, que após á saciedade de todas as superfluidades da fortuna, de repente suffocam n’um carcere o que se chama orgulho do seculo e lembranças mundanas.

Havia ja alguns annos, que era viuvo: á seo filho entregou todas as suas herdades, e depois foi sepultar-se nos Mosteiros de Orleans e de Ruão, e d’ahi mudou-se para o Convento da rua de Santo Honorato em Pariz, onde exhibio diariamente, dizem, provas de humildade muito alem da exigida pelos membros da Communidade.

Gentil-homem notavel, não havia muito, pela sua elegancia, na epocha da grandeza, anterior ao fausto de Luiz XIV, então somente trazia vestidos remendados, e ainda á sua pobreza juntava o habito de Capuchinho.

Completar o seu martyrio dedicando-se fervorosamente á conversão dos selvagens, pareceo-lhe coisa tão natural como invejavel; este homem, cuja sociedade tinha sido tão procurada, e cuja instrucção era tão solida á ponto de poder escrever em latim uma obra volumosa, encarou como beneficio dos Definidores da sua Ordem o ser mandado a um paiz deserto, onde faltassem todos os recursos na vida: elle e Archanjo de Pembroke, cuja existencia tinha sido ainda mais brilhante que a sua, embarcaram-se com outros dez Monges n’um navio commandado pelo bravo Pratz, que com tresentos colonos novos ia soccorrer Ravardiere, cuja situação sem duvida era prevista em Pariz como difficil.

Cheios de presentes pelos senhores da Córte de Luiz XIII com os quaes ainda bem recentemente elles entretinham relações diarias, e sobretudo satisfeitos por levarem ao modesto Convento do Maranhão os bellos ornamentos feitos pelas proprias mãos da Duqueza de Guise, partiram do Havre, e pode dizer-se, que para aquelle tempo foi por certo um phenomeno, pois apenas gastaram dois mezes e meio para chegarem á costa do norte do Brazil, porem apenas vellejavam ainda na bahia de Guaxenduba souberam logo do estado lastimoso, em que se achavam os negocios da França n’aquelles lugares.

Não ignoravam os Missionarios, que pelo seo Instituto se achavam ao abrigo das eventualidades politicas, que o resto da expedição podia temer (por exemplo não podiam ser prisioneiros): foram, como que com pompa, para o seo Convento em S. Luiz, e comsigo levaram os presentes da Duqueza de Guise, porem apenas acharam ahi um só religioso, o Padre Arsenio de Pariz,[P] e esse mesmo muito doente.

Mais doente ainda, que seo unico companheiro se achava o Padre Ivo d’Evreux, quando soube, estar substituido como Superior do nascente Mosteiro, e é provavel, que elle embarcasse a bordo d’algum dos navios da esquadra.

Dizem os documentos que temos á vista, que n’esse tempo elle se achava em inacção, victima d’uma paralysia geral, consequencia provavel das fadigas, a que diariamente se entregava no Fórte.

Para explicar a invasão lenta, porem continua, de tão triste molestia, basta recordar agora o que era então a nascente cidade de S. Luiz.

Embora seja hoje, e com razão, esta risonha Capital considerada uma das cidades mais saudaveis do Imperio do Brasil, então apenas surgia do seio das florestas: os miasmas deleterios, que constantemente se desprendiam dos logares recentemente desbravados, a falta absoluta de certos medicamentos energicos, apropriados a combater com decidida vantagem essas influencias paludosas: tudo isto explica como o Padre Ivo d’Evreux não poude esperar pelo resultado da guerra começada, e como se vio coagido a regressar para a Europa, receiando ser pesado á missão depois de haver sido o seu agente mais activo e o seu sustentaculo mais dedicado.

Não sabemos como se effectuou esta viagem, nem si elle foi para Pariz, e nem tão pouco si foi em sua terra natal buscar um azylo no Convento dos Capuchinhos,[Q] fundado apenas alguns mezes depois da sua partida.

Os archivos da cidade d’Evreux, nada dizem a tal respeito, e nem tambem relativamente á missão brasileira, parecendo-nos dever esperar-se do acaso o apparecimento de documentos biographicos, cuja existencia nem se suspeita.

O historico da segunda missão dos Capuchinhos franceses em Maranhão, completamente ignorada por Berredo e outros escriptores portuguezes, não nos deixa na mesma incertesa quanto aos missionarios, que succederam á Ivo d’Evreux e aos seos companheiros.[R]

Sabemos que chegaram em 15 de junho diante da nascente cidade, que cantaram um Te-Deum no dia 22 do mesmo mez, no rustico Convento principiado a edificar por seos antecessores, e tambem não ignoramos hoje, que elles previram o máo exito da missão.

Ignoramos o que fez o Padre Arcanjo no Convento de São Luiz, porem quasi que se pode dizer, que não imitou o zelo dos Padres Ivo d’Evreux e Arsenio de Pariz, sendo tão mal succedido em seos esforços que até appareceo a desunião «entre as coisas da Colonia, augmentada ainda com a chegada dos portuguezes, que se assenhorearam do paiz.»

O piedoso biographo, cuja narração nos serve do guia, diz, que o novo Superior administrou o baptismo a 650 indios, porem accrescenta logo, que sem duvida estes pobres selvagens não ficaram por muito tempo fieis á religião, que abraçaram, voltando a sua antiga idolatria: «não chega a sessenta os christãos sinceros, e n’esse numero estão incluidos vinte meninos.» Si se encontrasse uma biographia cheia de particularidades e de aventuras do Monge escossez, de que tracta o velho historiador da Ordem, taxando-a de muito exagerada, provavelmente n’ella se encontrariam narrações minuciosas de sua missão na America. Infelizmente este livro, se existe em alguma bibliotheca pouco conhecida, é tão raro como o de Francisco de Bourdemare, e temos sido infelizes nas diversas pesquizas, que até hoje fizemos com o fim de offerecer aos nossos leitores um extracto do seo contheudo.[S]

Suspeitamos que o Padre Arcanjo de Pembroke deixou muitos dos seos confrades no Convento dos Capuchinhos recentemente edificado, e que regressou para França ao fim de 1614 no navio do Capitão Pratz, que levou á Paris Gregorio Fragoso, sobrinho de Jeronymo de Albuquerque, incumbido d’uma missão diplomatica, que devia discutir-se em Lisboa.

Recolhido á sua cella no Convento da rua de Santo Honorato, o Padre Ancanjo facilmente esqueceo-se do Brasil[T], tomou parte nos acontecimentos politicos do seu tempo, vieram de novo as dignidades da Ordem procural-o, e viveo no grande mosteiro até o momento, em que Richelieu chegou ao apogeo do seo poder.

Os amadores das viagens antigas, aquelles que prescrutam ainda com interesse as lembranças espalhadas aqui e ali, e com as quaes se deve compôr a historia das nossas Colonias, mais gloriosa do que se pensa, não se demoraram n’essas particularidades, e antes desejaram saber como o Maranhão escapou aos esforços corajosos do bravo Ravardiere.

A Historia Geral do Brasil, publicada ultimamente pelo veridico Sr. Adolpho de Varnhagem lhe responderá com mais promptidão ainda do que o poeta laureado Southey. Ahi lerão como as forças portuguezas, expedidas d’esde outubro de 1612 para expellir os francezes do seu novo estabelecimento, de que tinha ciumes a Corte de Madrid, ainda em Maio de 1613 foram reforçadas por Jeronymo d’Albuquerque vindo do Ceará, onde combinou com Martim Soares nos meios de ser bem succedida essa expedição sob seo commando, a qual se antolhava irriçada de difficuldades.

De Pernambuco ainda vieram reforços indispensaveis, e por isso em 23 d’agosto começou o bloqueio das forças francezas, porem no dia 19 de novembro, Ravardiere á frente de 200 soldados d’infantaria, e de 1500 indios atacou com energia os sitiadores de sua nascente cidade; perdeo-se ahi o bravo Pezieux n’uma imprudente tentativa por não ter executado as ordens do seu chefe mais experiente do que elle.

Tomaram por sua vez a offensiva os portuguezes, e em pouco tempo, apesar da sua reconhecida habilidade e do seu notavel valor, foi obrigado o Chefe da nova Colonia a concordar n’um armisticio, cujo desenlace seria terminado perante as Cortes de Madrid e de Pariz, para as quaes appellaram ambas as partes belligerantes.

Antes de chegar a este ponto vio Ravardiere de seo exercito cem homens mortos e nove prisioneiros. Pode dizer-se, que si sua resistencia foi a de um bravo, como tal ja reconhecido, o procedimento, que então ostentarão seos adversarios, foi em todo o sentido generoso, porem, força é dizer que depois de convenções tão livremente estipuladas, e quando em 3 de Novembro de 1615 entregou Ravardiere com todas as solemnidades o Forte de São Luiz á Alexandre de Moura appareceo um acto de deslealdade manchando esta campanha tão nobremente terminada. Ravardiere deixou o Maranhão e foi em companhia de Alexandre de Moura para Pernambuco, d’onde partio em pouco tempo para Lisboa, e ahi no Forte de Belem soffreo rigorosa prisão, que não durou menos de tres annos.[U]

Pelo que acabamos de dizer vê-se facilmente, que a Cidade de S. Luiz, a florescente Capital de uma das mais ricas Provincias do Brasil, é uma Cidade de origem absolutamente franceza, e a Camara Municipal assim felizmente o comprehendeo por haver ainda ha pouco tempo feito surgir das ruinas os modestos edificios, que attestam esta epocha, provando com isto, e ao mesmo tempo, ausencia de patriotismo mesquinho e sentimento de bom gosto.[V]

Mas voltando ao livro, que nos prende a attenção, façamos conhecer a sorte caprichosa, que o esperava em França. Despertaremos tambem com o bom Religioso algumas reminicencias, com que se pode enfeitar a poesia.

Menos infeliz na apparencia que João de Lery, tão bem classificado com o appellido de «Montaigne dos velhos viajantes,»[W] Ivo d’Evreux durante 15 annos não vio seo manuscripto, extraviado por um infortunio, que o ferio completa e absolutamente.

Enviado aos Superiores da Ordem este livro, complemento do de Claudio d’Abbeville, foi destruido antes de haver apparecido. Impresso por Francisco Huby, em cujas officinas já havia sido edictada a obra do seo companheiro, foi inteiramente dilacerado.

Francisco Huby, dizemos com pezar, deixou-se n’essa occasião seduzir, e esquecendo-se dos deveres inherentes á sua profissão, não se importou em ser o instrumento d’uma vingança politica tão mesquinha.

É de suppôr, que o motivo, que fez prender Ravardiere no Forte de Belem, levantou tambem mãos sacrilegas para destruir na rua de São Thiago o precioso volume, no qual se expunham com admiravel sinceridade as vantagens para a França, provenientes da expedição de 1613.

Entre a impressão da viagem de Claudio d’Abbeville, e a do livro, que é sua continuação, deo-se um acontecimento politico d’alto alcance.

Foi resolvido o casamento de Luiz XIII, ainda menino, com uma princesa hespanhola[X], e um partido inteiro mostrou muito interesse em dissipar qualquer sombra, que prejudicasse a casa de Hespanha.

Os projectos de conquista d’America do Sul não acharam mais apoio, e desde então empregaram-se todos os meios afim de ser esquecido um projecto de conquista, com que ja se havia inquietado a Hespanha, chegando-se até a destruir completamente a simples narração dos incidentes d’essa missão ja passada ha tanto tempo, embora escripta com toda a calma e conveniencia.

Quando se deo este acto arbitrario havia em França um homem, que ligava muito interesse á obra e ao seo auctor.

Felizmente Francisco de Razilly não cahio no captiveiro, que paralisava todos os esforços de Ravardiere, e pode até affirmar-se, que não perdeo de vista, por um só momento, as vantagens, que seo paiz podia tirar de uma Colonia, cujos primeiros passos elle tinha dirigido. Sabendo que hia ser destruido o volume do Padre Ivo d’Evreux, apezar de impresso inteiramente, foi á imprensa de Huby para vêr se obtinha um exemplar: ou porque não fosse com toda a promptidão, ou porque ja se tivesse dado começo a destruição da obra, apenas poude salvar algumas folhas por si ou por meios subtis de um seo agente, as quaes reunidas mostraram a lamentavel perda de diversos fragmentos, e com essas lacunas tão importantes foi impossivel formar um exemplar completo. Mandou o Almirante imprimir o seu protesto em outra parte, e não nas officinas da rua de Sam Thiago, juntou-o ao livro, encadernado com todo o luxo, tendo na frente as armas da casa de França, e foi leval-o, não á Maria de Medicis, antiga protectora da Colonia do Maranhão, e sim a Luiz XIII.

O menino rei ainda na anno antecedente tinha brincado muito com tres pobres selvagens Tupinambás, dos quaes fora padrinho, e suas recordações eram ainda tam frescas, que de vez em quando esboçava os grotescos ornatos, com que se enfeitavam os nossos indios:[Y] leo talvez algumas paginas do bello volume, que Razilly lhe offereceo, e n’isto ficou todo o seo interesse. Richelieu ainda não era Superintendente da sua marinha, e ainda dormiram na Corte por muitos annos os projectos de longas navegações.

O livro do Padre Ivo, junto ao do Padre Claudio, foi posto nas estantes da bibliotheca, e ahi todos os deixaram em paz.

Foi no tempo do digno Van-Praet, no principio de 1835, que o autor d’esta noticia teve a felicidade de encontral-o. Seria occioso o dizer como o feliz descubridor ficou surprehendido lendo esta agradavel narração, tão sincera em suas menores particularidades como preciosa pelas suas uteis noticias. Para comprehender bem o seo valor basta dizer-se, que o nosso bom missionario demorou-se dois annos, onde seo veneravel companheiro apenas demorou-se quatro mezes. Desde então appareceo Ivo d’Evreux n’uma serie de artigos, que publicava a Revista de Pariz a respeito dos antigos viajantes francezes, e na verdade sem desvantagem, ao lado do Padre du Tertre, a quem Chateaubriand justamente chamou o Bernardin de Sant’Pierre do 16º seculo.

Este artigo, cujo menor defeito era sem duvida alguma o ser pouco desenvolvido, formou n’esse mesmo anno uma pequena brochura, publicada em casa de Techener, e immediatamente esgotou-se a edicção.

Desde essa epocha não foi mais Ivo d’Evreux de todo desconhecido aos amadores das viagens antigas, aos homens de bom gosto, que buscam avidos de curiosidade os escriptores esquecidos, percursores do grande seculo. Preoccupado, mais do que se crê na Europa, de suas tradicções poeticas, e de suas nascentes glorias, o Brasil saudou o nome do velho viajante, e lhe deo um lugar entre os homens pouco conhecidos, mas que devem ser consultados quando se tracta dos tempos primitivos.

O Imperador D. Pedro, que occupa um lugar entre os bibliographos mais illustrados, e que tem decidido gosto pelas raridades bibliographicas, que derramam alguma luz sobre as antiguidades do seo vasto Imperio, mandou extrahir uma copia, sendo depois imitado seo exemplo!

O unico exemplar, pertencente á bibliotheca imperial d’ahi em diante foi lido e relido:[Z] uma phalange de escriptores habeis e zelosos, que exhumaram do pó a historia do seo bello paiz, o chamaram em testemunho de suas asserções, Adolpho de Varnhagem, Pereira da Silva, Lisboa o auctor do Timon, e no ultimo lugar o sabio Caetano da Silva, o citaram entre as melhores autoridades, que se pode invocar sobre as crenças dos indios, e assim o fizeram sahir da obscuridade, em que jazia.

Não tinha a França prestado attenção a estes testemunhos de estima para dar ao Padre Ivo d’Evreux o lugar, que merecia. Se Boucher de la Richarderie não tivesse pronunciado seo nome, levantando o mais que poude o de Claudio d’Abbeville, o Sr. Henrique Ternaux Compans não o incluiria na sua preciosa collecção dos viajantes conhecedores da antiga America. O Sr. d’Avezac o cita com destincção e faz sobre-sahir suas boas qualidades.

Todos estes testemunhos de admiração para com o humilde escriptor, que sem ostentação sacrificou sua obra, infelizmente tem concorrido pouco para tirar sua vida da obscuridade, e não sabemos em que auctoridade se baseia um sabio bibliographo para dizer que elle viveo até 1650.[AA]

Á vista d’um volumoso manuscripto da bibliotheca imperial pensamos um dia que ião ser esclarecidas todas as nossas duvidas sobre os principaes pontos da biographia do nosso escriptor, porem assim não aconteceo. Os elogios historicos de todos os grandes homens e de todos os illustres religiosos da Provincia de Pariz infelizmente só dão noticias relativas aos religiosos de Santo Honorato, de Picpus, e de S. Thiago.[AB] Chegou-se até a dizer na obra, que havendo o Padre Paschoal d’Abbeville[AC] separado sua Provincia da Normandia em 1629 não devia procurar-se n’esta compilação o nome dos Religiosos, que não residiram em Pariz.

Não se deve esquecer de todo a excitação puramente litteraria, que se experimentou em França logo depois da chegada dos selvagens brasileiros, que desembarcaram sessenta annos antes em Ruão ou em Pariz. Estes apparecimentos successivos d’indios, seguidos sempre de narrações mais ou menos notaveis, levão evidentemente o espirito a pensar nas bellezas primitivas da natureza, o que produz encantos e amplidão de ideias.

D’esta influencia não se livrou o nosso Montaigne, como elle revellou em algumas palavras espirituosas, que escreveu a proposito d’uma cantiga brasileira.

Os dois maiores poetas d’aquelles tempos, tão differentes entre si e comtudo tão approximados, se abalaram a ponto de dedicarem particular attenção a esses habitantes das grandes florestas, por acaso misturados com os cortezãos de França, que invejavam seos gosos pacificos, e a tranquillidade de suas existencias.

Ronsard não é de parecer que estes homens, que lembram a origem do Mundo, percam sua feliz innocencia, e por isso insta com os visitantes para que não troquem a sua ignorancia pelos cuidados da civilisação.[AD]

Malherbe tambem a respeito d’elles entreteve por muito tempo o douto Peiresc, por meio de cartas, onde dizia que a paz e a alegria estava em imital-os.

Suas dansas inspiraram os mais delicados cortesãos, e um dos mais habeis artistas de Pariz fez com as suas arias uma especie de dança muito agradavel, cuja descripção nos deixou o poeta.[AE]

Poderiamos ainda citar outros exemplos d’esta subita predilecção pela independencia dos pobres indios, e especialmente pelo magnifico paiz, que habitam.

Conforme estes poetas, a cuja frente deve collocar-se Bartas,[AF] é n’esta fonte vital, que pode restaurar-se por novas comparações um estro quasi a exhaurir-se.

Sem duvida alguma todos estes antigos viajantes, completamente esquecidos durante um seculo, exerceram real influencia no seo tempo, e ainda mais alem, como se pode provar á vista dos escriptos de Chateaubriand: a singelesa de suas narrações e a frescura de suas pinturas inspiraram os grandes escriptores, já cuidadosos de abandonarem nas suas descripções os typos ajustados ou estudados, e de influirem ou attrahirem só pela verdade.

Ivo d’Evreux não foi somente um pintor habil, um narrador sincero, e sim tambem um observador perspicaz dos costumes de uma raça, para assim dizer extincta, e que não se poderia consultar frequentemente.

Para escolher um só exemplo entre muitos, que elle offerece, basta dizer-se, que foi o unico, que descreveo os verdadeiros idolos, modelados em cera, ou esculpidos em madeira pelos indios.

Hans-Staden, Thevet, Lery e o proprio Gabriel Soares, tão prolixos á respeito do culto do maracá, guardam silencio relativamente ao que então se rendia á essas estatuasinhas modeladas grosseiramente, sem duvida, pelos habitantes nomades das grandes florestas, as quaes com tudo servem para mostrar um principio da pratica nascente da arte: assim elle o confessa n’estas palavras: «Este mau costume crescia e estendia-se pelas aldeias proximas de Juniparão.» Depois accrescentou, que seo companheiro o Revd. Padre Arsenio encontrou estes idolos na visinhança dos bosques.... Ora, pode-se deduzir d’este trecho curiosa inducção, não sem interesse para a archeologia futura de um grande Imperio, e vem a ser, que no começo do XVII seculo notavel mudança se tinha já feito nas ideias religiosas do grande povo da costa.

Sem duvida, n’esse tempo ja os Piagas tinham visto imagens nas igrejas, que se edificavam em varias partes do litoral: com a maravilhosa facilidade d’imitação, innata nos indios, ja no fim do XVI seculo tinham representado em estatuas alguns dos numerosos genios de suas florestas. Estes primeiros idolos foram infelizmente modelados em madeira, e embora houvesse grande copia d’elles, nenhum, ao menos que o saibamos, é conservado nos museos ethnographicos do novo Mundo, estabelecidos em varias localidades. Os Tupinambás, apenas chegaram na visinhança do rio das Amazonas, receberam ideias mais adiantadas de povos mais civilisados que elles: a poderosa nação dos Omaguas, por exemplo, cujas tribus vinham das regiões peruviannas, poderia ter influido sobre a arte grosseira, de que entre elles encontraram se tão curiosos especimens. Note-se, que estes importantes factos são, em geral, absolutamente despresados pelos escriptores portuguezes, e por isso não é pequena gloria para a nossa litteratura antiga, o ter possuido escriptores, dotados de genio tão observador á ponto de prestarem muita attenção ao estudo d’estes objectos.

Entre os que se misturaram com estas nações infelizes, no principio do seculo XVII, não conhecemos, na verdade, senão um unico viajante portuguez, cuja narração encantadora deve estar ao lado das de João de Lery e do Padre Ivo d’Evreux.[AG]

Foi Fernando Cardin, Superior dos Jesuitas ainda em 1609, e que visitou os indios do Sul depois de haver por muito tempo administrado as aldeias dos Ilheos e da Bahia. Bem que este Missionario não possa, pela importancia de documentos, comparar-se a Gabriel Soares,[AH] a quem se deve recorrer sempre que se queira, ter ideia exacta da nacionalidade dos indios, e da emigração das suas tribus, comtudo muito se lhe assimelha pelo seo estylo: como elle despresa os preconceitos, ama os selvagens, e com animação pinta admiravelmente o indio na sua aldeia, dando-nos a saber a grandesa, cheia de sinceridade, do seo caracter.

A descripção do Padre Ivo d’Evreux não é, somente, mais um documento de grande importancia, que se ajunta á historia do Brasil com o fim de provar unicamente factos tendentes á fundação da Cidade de S. Luiz e sim para os francezes tem outro genero de merecimento.

Pela sincera elegancia de sua dicção, pela cor habilmente destribuida de seo estylo, pela perspicacia de suas observações, e, pode tambem dizer-se, pelo sentimento apurado das bellesas da naturesa, que mostra o seu autor, ella pertence á serie de escriptores francezes, continuadores da epocha de Montaigne, e prognosticadores do grande seculo. Ivo d’Evreux, si fosse lido, teria nesse tempo influido, como alguns annos antes, João de Lery, que descreveo scenas analogas áquellas que elle tão bem soube pintar. Claudio d’Abbeville, escriptor muito menos habil do que elle, foi o continuador d’esta influencia litteraria.

Si no retiro, por elle escolhido, e que cremos, não sem fundamento, ter sido em Ruão ou Evreux, ou mesmo no arrebalde de Sant’Eloy, soubesse o Padre Ivo qual foi a sorte definitiva dos seos charos indios, sua alma se teria entristecido profundamente.

Depois de expulsos os francezes, foi Jeronymo d’Albuquerque nomeiado capitão-mór do Maranhão sendo Francisco Caldeira Castello Branco designado para continuar os descobrimentos e conquistas nas regiões do Pará.

Dos esforços combinados destes dois officiaes resultou a fundação da risonha Cidade de S. Luiz e da de Belem.

Estas duas Cidades edificaram-se pacificamente, sem opposição alguma da parte dos indios, que até ajudaram os consideraveis trabalhos, exigidos para a construcção d’ellas, e muitos d’elles acompanharam até um Official chamado Bento Maciel ás margens do rio Pindaré em busca de immensas riquezas metalicas, que se desconfiava existirem por ahi algures: fatal expedicção, cujo resultado foi somente a destruição dos Guajajaras.

Os Tupinambás inegavelmente não eram mais hostis aos portuguezes, e viviam sob a direcção de Mathias d’Albuquerque, filho do governador; mas nem por isso deixavam elles de lastimar a ausencia de seos antigos alliados. Ja não residiam nos arrebaldes da cidade nova, e sim no districto de Cumã em numerosas aldeias. Indo um dia o seo chefe europeo ter com seo pae, que o mandou chamar, passaram por Tapuitapera alguns indios vindos do Pará, trasendo cartas para o capitão-mór de S. Luiz. Um Tupinambá convertido ao christianismo, por nome Amaro, aproveitou-se da passagem dos seos compatriotas para executar um plano terrivel.

Tomou uma das cartas, abrio-a, e fingindo lel-a[AI] dirigio-se aos chefes das aldeias, e declarou-lhes que o fim d’estas missivas era uma abominavel trahição, urdida pelos portuguezes, que tinham resolvido, atreveo-se elle a dizer, reduzil-os á condicção d’escravos.

Terrivel carnificina, onde pereceram todos os brancos, foi o resultado d’esta astucia do indio, bem facil de ser acreditada á vista dos acontecimentos precedentes.

Espalhou-se pelo littoral a noticia d’este facto. Mathias de Albuquerque promptamente regressou ao campo onde se deram scenas tão tristes, e vingou seos compatriotas exterminando sem piedade os Tupinambás.

As tribus, que moravam mais longe, insurgiram-se, e formaram entre si indissoluvel alliança, animando-as implacavel vingança, apezar de serem á principio tão pacificas, e de se acharem tão dispostas á abraçar a nova fé, que lhe tinha prégado o Padre Ivo d’Evreux. Levantaram-se tambem, e espontaneamente, aldeias mui longinquas.

Jeronymo d’Albuquerque expedio contra ellas tropas aguerridas, e em breve o incendio e a morte substituio as festas, que faziam com toda a segurança e boa fé.

Tinham apenas passado tres annos depois da partida dos capuchinhos francezes, e por isso era no principio do anno de 1617. A Cidade de S. Luiz do Maranhão, activamente edificada, começou a tomar o aspecto de uma Cidade européa.

Este progresso inquietava os selvagens, que á custa de seos soffrimentos tornaram-se previdentes; forçados á deixar o sul do Brazil procuraram grandes florestas, e abrigados em seos seios esperavam recobrar sua independencia, e para isto só tinham um pensamento—a destruição completa de uma raça invasora, que não poude ser expellida pelos seos antepassados.

Formaram os chefes Tupinambás uma liga desde os desertos de Cumã até ás margens do Amazonas: pretendiam assaltar de surpreza a nova colonia, e n’um dia convencionado matariam todos os habitantes. N’esse tempo não havia quasi indio, que não arrostasse sem medo as descargas de mosquetaria.

Em quanto se ouvia este plano, e se trabalhava na sua execução, estava em Tapuitapera Mathias d’Albuquerque, com pequeno numero de soldados, descuidado de si e dos seos: entre os indios appareceu um trahidor, que descobrio o projecto dos chefes dos selvagens ao commandante portuguez, que não se assustando com o numero dos seos terriveis inimigos, travou-se com elles no primeiro combate, e levou-os de vencida até á distancia de 50 legoas, ajudado em tão atrevida acção pelo bravo official Manoel Pires.

Ainda vivia, porem bem proximo do termo de sua existencia o antagonista de Razilly e de la Ravardière: sem sahir da nova Cidade de S. Luiz muito ajudou seo filho com seos conselhos e com remessa de soldados que tinha em reserva.

Não se assustou Mathias de Albuquerque com as difficuldades de todo o genero, que encontrava seo pequeno exercito n’esses immensos desertos; foi batendo os indios pouco á pouco até que em 3 de Fevereiro de 1617 derrotou-os completamente, e obrigou-os a procurar refugio no seio das florestas. Só então, depois de exterminadas as tribus mais temiveis, é que o velho general se recolheo á Cidade de S. Luiz, e o que elle havia feito nos desertos do Maranhão tinha tambem posto em pratica Francisco Caldeira nas solidões do Pará, onde se edificava a Cidade de Belem.

Não eram estes, por certo, os sonhos de Ivo de Evreux e de seos tres companheiros para com o Maranhão: em suas almas haviam imaginado a fundação de uma Cidade nova, onde os corações innocentes dos indios se lhes reuniriam para em commum louvar o Deos da paz. Ordens de exterminio, em vez de orações, faziam em redor dos colonos um deserto que causava terror. Seriamos injustos, se não dissesemos, que os Religiosos trasidos por Jeronimo d’Albuquerque continuaram a missão dos Padres francezes. Como Ivo d’Evreux e Claudio d’Abbeville, os Padres portuguezes Frei Cosme de São Damião e Frei Manoel da Piedade, eram da Ordem dos Capuchinhos desde 1617, isto é, desde o momento em que a guerra se tornou mais cruel, e Bourdemare publicou seo livro: á Corte de Madrid pediram religiosos activos, acostumados a todas as fadigas, e por isso capazes de affrontal-as e de os ajudar. No dia 22 de julho chegaram mais quatro religiosos a essas terras, não para o pequeno Convento de São Luiz, e sim foram residir nas circumvisinhanças da Cidade de Belem, e d’ahi começou a cathequese no Pará.[AJ]

Não se sabe com certesa, se estes factos historicos, que de ora em diante terão lugar importante nos Annaes do Brasil, chegaram aos ouvidos dos missionarios dedicados que tantas fadigas soffreram para a conversão dos indios; a Europa gastou mais de dois seculos olhando para elles com indifferença, e ainda passaram mais vinte annos depois d’elles terminados, para então ver-se a continuação corajosa da obra dos seos antecessores[AK] por alguns Capuchinhos do Convento de Pariz: n’esse tempo estava Ivo d’Evreux bem proximo do termo de sua existencia, se é que ja não se tinha acabado tão dura perigrinação para elle.

Tudo emfim estava acabado para os povos, nossos fieis alliados por algum tempo, e aos quaes procuramos fazer comprehender as luzes do Evangelho. Achavam-se ja embrenhados nas margens desertas do Xingù, do Tocantins, e do Araguaya: ahi, bem longe dos colonos europeos se perpetuaram sob os nomes de Apiacas, de Gés e de Mundurucus, outrora tão temidos e hoje tão pouco, e até pelo contrario favorecidos por uma administração humana.[AL]

Estes primitivos senhores do Brasil fallam ainda o idioma puro dos Tupys, cujos vestigios nos foram conservados por Ivo d’Evreux e Thevet, e especialmente por João de Lery, antes de ter reunido por meio de laboriosas fadigas os elementos do seo livro.

Foi nas margens destes grandes rios, ja citados, que ha quarenta annos o illustre Martius observou tantas tribus desimadas.

Ainda agora se lastimaria muito o sabio viajante sabendo, que até hoje ninguem colheo as ultimas lembranças, guardadas como legado por esses indios. Quando o governo brasileiro pensou, ha pouco tempo, na creação d’uma commissão scientifica, composta de sabios nacionaes, encarregada de visitar os pontos mais longinquos d’esse immenso Imperio, que não conta menos de 36° do Oriente ao Ocidente, forão o Ceará, o Maranhão, o Pará e o Rio de Janeiro os primeiros lugares designados para a exploração. Comprehendeo muito bem, que se havia nestas terras virgens admiraveis productos da natureza a colher, tambem existia uma mythologia e uma serie de tradicções historicas á salvar-se do esquecimento, em quanto Freire Allemão, Capanema e Gabaglia faziam collecções de preciosos materiaes sobre historia natural, geographia e meteorologia, que formaram o objecto d’uma vasta publicação.[AM]

Um poeta historiador, estimado pelo seo paiz, corajosamente embrenhava-se n’essas solidões incognitas para conhecer os segredos da vida intima dos indios. Antonio Gonçalves Dias, nascido no interior da provincia do Maranhão, familiarisado desde a infancia com as legendas americanas, fallando a lingoa geral, incumbia-se de alguma forma da execução do programma de Martius.

Bem cedo as legendas americanas, não nos animamos a dizer os mythos religiosos dos grandes povos do littoral, nos appareceram, taes quaes tem sido perpetuadas no interior, (graças talvez ao exilio) e quando chegar o momento de estudar-se com afinco a ethnographia, então se comprehenderá todo o valor das narrações sinceras de Lery, de Hans Staden, e de Ivo d’Evreux.

Seria injustiça muito censuravel o negar-se as antigas tentativas feitas pelos Religiosos portuguezes para a cathequese dos povos selvagens, habitantes das regiões do Amazonas: graças a elles, em 1607, principiou a exploração do Maranhão por essas viagens, corajosamente emprehendidas por Missionarios vindos dos Conventos de Pernambuco. Estas tentativas não foram perdidas para a geographia, mas quanto ao proveito do Christianismo, ellas se terminaram em um martyrio inutil. Mais tarde, sem duvida, a obra dos Figueiras e dos Pintos produsio seos fructos, assim como os grandes trabalhos evangelicos suavisaram a posição dos indios do Maranhão.[AN]

Foi ainda um escriptor francez, quase desconhecido, contemporaneo dos nossos bons missionarios, que com muito zelo, e pode até dizer-se com cuidado verdadeiramente piedoso, traçou o itinerario seguido por estes homens corajosos, de tempo do Padre Ivo, e sem duvida seos conhecidos, mas que não possuiam nem a bondade e nem a sinceridade d’elle.[AO]

Conta-nos Pedro du Jarric como as immensas regiões do Brasil, cubiçadas pela França, foram percorridas por dois Religiosos de sua Ordem, quase no mesmo tempo, em que Ravardiere pela primeira vez explorava o littoral.

N’essa occasião Francisco Pinto e Luiz Figueira tinham grande vantagem moral sobre os francezes, porque sabiam muito bem a lingoa dos povos, que buscavam converter.

Muito mais moço do que o seo companheiro, martyr no apostolado, o Padre Luiz Figueira iniciou-se, então mais do que nunca, nos segredos de uma lingoa, já visivelmente alterada no littoral, porem pura no seio das florestas.

Cinco annos após a impressão do volume do Padre Ivo, elle publicou a sua Arte de Grammatica, e pela primeira vez depois de alguns ensaios incompletos do seculo XVI conheceu-se os principios de um idioma, que ainda fallava um povo corajoso, porem prestes a morrer.[AP]

Voltemos ao nosso piedoso viajante.

Se vivesse ainda, como é bem provavel, alem da epocha em que se deram estes acontecimentos, em 1619 por exemplo, Ivo d’Evreux certamente não fazia mais parte do grande Mosteiro d’onde outrora sahio com destino ao novo mundo.

Póde suppôr-se, que o seo homonimo de Pariz principiava a eclipsal-o, e por isso vivia elle longe da grande Communidade: se residisse no Convento da rua de Santo Honorato, não é provavel que fosse de todo esquecido nas pequenas biographias, escriptas tão liberalmente á respeito de Religiosos, que nada escreveram, como seja, entre outros, Ivo de Corbeil, simples irmão leigo, fallescido em 1623, apenas conhecido na Ordem pelo seo amor á humanidade.

Temos alem d’isto a certesa de ter se recolhido o Padre Ivo d’Evreux ao modesto Convento de sua terra natal: em 1620 estava elle em Santo Eloy,[AQ] e suppomos ter escolhido esta residencia por ser proxima ao Convento de Andelys.

N’estas ferteis campinas, onde se despertou o genio de Poussin, ainda o nosso bom Missionario teve descanço bastante para admirar os risos da natureza e a frescura das paisagens.

É possivel que em outra occasião tivesse elle oportunidade para conservar-nos suas minuciosas observações, que hoje talvez o fizessem distincto naturalista, mas depois da emoção impressa em seo pensamento pela magestosa solidão das florestas seculares do Brasil, somente se deixou captivar pelas calorosas discussões da theologia.

Um livro ainda difficil de ser obtido (a cada momento topamos com raridades tão difficeis de serem alcançadas como a Viagem) nos prova, que no seo retiro não poude resistir ao espirito do seculo.

Não tendo mais indios a converter se pôz a discutir com protestantes, e coisa estranha, foi um dos seos compatriotas, personagem muito estimado pelos seos correligionarios, a quem elle atacou ou talvez a quem respondeu somente.

Ignoramos o titulo do primeiro opusculo, que elle arremessou ao seu adversario, porem um sabio bibliographo da Normandia, o Sr. Frére, nos deo o segundo, para nós uma especie de revelação.

É este o titulo do folheto «Supplemento necessario ao escripto que o Capuchinho Ivo fez imprimir relativamente as conferencias entre elle e João Maximiliano Delangle.» Ruão, David Jeuffroy. 1618 em 8.º[AR]

Este escripto, attribuido pelo douto bibliographo ao nosso missionario, bem puderia não ser devido á sua propria penna, porem prova o apparecimento de outra obra mais desenvolvida, e a existencia de serias discussões oraes entre elle e os dissidentes. Mais agradaveis sem duvida lhe foram sinceras discussões, que havia pouco tempo teve com Japi-Açu na Ilha do Maranhão, onde as continuas predicas feitas no Forte de S. Luiz, em presença de grande assembleia de indios, somente eram interrompidas pela severa polidez, que lhes prescrevia escutar o orador em quanto quizessem que elle fallasse, circumstancia, diga-se de passagem, que bem poderia em algumas occasiões enganar um zeloso missionario sobre o exito de seos esforços.

Ivo d’Evreux então achava-se a braços com um dos homens mais firmes e mais estimados entre os protestantes, e o escripto do Religioso foi denunciado ao parlamento.

João Maximiliano de Baux, senhor de Langle, era um ministro, joven, ardente, natural de Evreux como o Padre Ivo, morador em Quevilly, pequena Cidade de 1:500 a 1:600 habitantes á pequena distancia de Ruão.[AS]

Ignoramos qual o objecto da discussão, e embora todas as nossas deligencias não vimos uma só peça do processo, porem é certo que o ultimo escripto, revelado pelo Sr. Frère, excitou de maneira notavel a attenção da autoridade, porque em 8 d’Abril de 1620 proferio o parlamento uma sentença a esse respeito condemnando David Jeuffroy a pagar uma multa de 50 libras por haver publicado sem licença previa o livro denunciado.[AT] Como se vê, não alcançou esta decisão o nosso Missionario, e sim limitou-se ao impressor, por elle escolhido, embora contenha uma censura indirecta ao livro suppondo-se, que o nosso bom Missionario, pelo ardor da questão, se deixasse arrebatar a ponto de fazer allusões pessoaes dignas de censura.

Á este respeito havia pouco escrupulo em 1618, e afinal se pensava que seria interrompida a carreira do joven ministro, atacado pelo Padre Ivo: bem longe d’isto, porque em 1623 foi pelos seos correligionarios nomeado deputado ao synodo nacional de Charenton, e quatro annos depois tambem fez parte do da Normandia, na villa de Alençon.

De 1620 em diante perdemos todos os vestigios do Padre Ivo d’Evreux; comtudo muitos escriptores ecclesiasticos depois d’isto registaram seo nome em seos vastos obituarios, multiplicando erros, e assim provando que nunca viram a obra do Padre Ivo.

Boverio de Salluzo,[AU] Marcellino de Piza,[AV] Wading,[AW] ordinariamente tão exacto, o Padre Diniz de Gênes,[AX] ou só dão particularidades geraes, mui approximadas relativamente á sua obra, sem mencionar a data d’ella, ou grosseiramente alteram o millesimo do anno da impressão. Este ultimo, por exemplo, diz que foi em 1654, erro bem claro, proveniente d’um primeiro erro typographico, repetido por Masseville,[AY] e até por Moreri Normando.[AZ] O Padre Francisco Martin, da Ordem dos Franciscanos, cujo manuscripto se guarda em Caen, por seo motu proprio a colloca no anno de 1659, dando sempre como lugar da impressão a cidade de Ruão.

O Epithome da la bibliotheca oriental y occidental de Leon Pinello, livro reeditado por Barcia no seculo XVIII, é o unico, que n’aquelle tempo mencionou com exactidão a Viagem, que reimprimimos, embora o seo titulo fosse tão alterado pelo bibliographo hespanhol a ponto de por elle ser difficil reconhecer-se o habil continuador do Padre Claudio d’Abbeville, devido isto a influencia de Diniz de Gênes.[BA]

Quasi que temos certesa, á vista dos manuscriptos doados pelo grande Convento da rua de Santo Honorato, de ter vivido o Padre Ivo d’Evreux alem de 1629, já esquecido porque n’aquelle tempo havia firme proposito de desviar o Rei de Hespanha das tentativas feitas, não havia muito, á respeito do Maranhão.

É verdade, que os antigos chefes da expedição não poderam renovar tão vasta empreza, onde se achavam seos maiores interesses.

Embora a estima, que parecia gosar na corte o Almirante Rasilly, foi mal succedido em todos os seos projectos com este fim, e depois que o bravo Ravardiere, preso no Castello de Belem, recobrou a sua liberdade, nunca mais regressou á America do sul.

Apparecem ainda estes dois nomes na historia da nossa marinha[BB] e de maneira gloriosa, porem na Africa, n’essas praias doentias, onde para segurança do commercio deviam ser castigados de vez em quando atrevidos piratas.

Ravardiere, como acabamos de vêr, empregou gloriosamente os ultimos annos de sua vida tão activa em favor do Christianismo, assim como já o tinha feito em prol de sua patria, faltando-lhe apenas tempo para redigir a Narração de suas viagens pela America do sul.

Sabemos com certesa ter ordenado, que se escrevesse em 1614 um Relatorio minucioso de sua expedição pelo Amazonas. Até nós não chegou esta especie de jornal, que alem de esclarecer muitas coisas, seria tambem de muito interesse para ser comparado com os documentos fornecidos n’essa epocha por um francez, cujas viagens mereceo as honras da impressão.

Na verdade, dez annos antes, no meiado de 1604, João Mocquet, o guarda das curiosidades de Henrique IV e de Luiz XIII, percorreo as margens do Amazonas, e exforçou-se para fazer conhecer aos seos compatriotas este grande rio. Infelizmente este pobre cirurgião d’aldeia tinha mais zelo do que luzes, e por isso não podiam ser suas observações confrontadas com as de um homem, tão conhecido pela sua instrucção, como pela sua lealdade.

A viagem de Ravardiere pelo Amazonas e Maranhão deve estar minuciosamente descripta na grande chronica dos Padres da Companhia, existente em Evora.

Consultando os sabios trabalhos bibliographicos do Sr. Rivara, n’elles adquirimos esta certesa, pois o Cap. 111 d’este vasto Cathalogo tracta especialmente do dominio dos francezes n’essas regiões. Não podemos pessoalmente examinal-o. Graças ao espirito investigador de tantos sabios historiadores, ainda não perdemos de todo a esperança de encontrar o escripto em questão.

Diariamente emprega o Brazil os mais louvaveis exforços para colligir documentos inedictos, fontes da sua historia, e se em alguma livraria por ahi algures fosse descuberta a Viagem de Ravardiere, serviria, com os escriptos de Claudio d’Abbeville e de Ivo d’Evreux, de guia seguro para se consultar relativamente a estas Provincias do norte, das quaes só se conhecem as explendidas solidões, e cujo passado nos foi, para assim dizer, revelado pelo nosso Missionario.


NOTAS

Índice de conteúdo

[A] A ordem constitutiva do Mosteiro tem a data de 28 de Novembro. O lugar da escolha foi concedido no anno precedente por Catharina de Medicis aos Capuchinhos, vindos da Italia, e a doação foi confirmada por Henrique III em 24 de setembro de 1574. Vide Boverio, Annali di Frati minori.

[B] O Mercure-Galant deo á luz uma descripção, muito curiosa, da grande botica do Convento.

[C] Em 1617 contavam-se 655 Religiosos nas duas Custodias de Pariz e de Roão, e entre elles 209 clerigos.

Em 1685 haviam em França 5:681 Capuchinhos.

[D] Não inventamos: um dos seos mais ardentes admiradores, tambem Capuchinho, falla d’elle nestes termos: Tantarum segete scientiarum, factus est dives ut Galliæ Phœnix hac nostra ætate communiter sit appelatus. Vide o vasto Repertorio de Diniz de Gênes. Bibliotheca scriptorum ordinis minorum Sancti Francisci capucinorum.

Wading, mais moderado, contenta-se em chamar o Padre Ivo de Pariz—egregius concinnator, insignis Capuccinus.

O autor anonymo dos elogios manuscriptos dos Capuchinhos da Cidade de Pariz não pôz limites ao seu enthusiasmo, quando disse: «a natureza parece ter querido exgotar-se, quando cedeo a tão grande personagem tudo quanto podia dar-lhe com abundancia de grandeza, tão rara quam admiravel.»

Nasceo em 1590, Ivo de Pariz, tomou o habito religioso em 27 de setembro de 1620, seis annos depois que o Padre Ivo de Evreux regressou doente do Brazil, e afinal falleceo em 14 de ouctubro de 1678.

Este religioso conseguio imprimir vinte e oito obras de sua lavra, cujos titulos principaes vamos reproduzir seguindo a ordem chronologica de suas publicações.

Os felizes resultados da piedade, ou os triumphos da vida religiosa sobre o mundo, e contra a heresia. 4.ª edicção, Pariz 1634. 2 vol. em 12.

Da indifferença. 2.ª edicção. Pariz. 1640. em 8.º

A theologia natural. Pariz. 1640-1643. 4 T. em 4.º

Astrologiæ novæ methodus et fatum universi observatum, a Franc Allaeo Arabe Christiano. Pariz. 1654. Temeo este Capuchinho, apesar de atrevido e credulo, publicar este livro com o seo nome, e por isso deo-o á luz sob o titulo Fatum Mundi.

Jus naturale rebus creatis á Deo constitutum etc. etc. Parisiis. 1658 in folio.

O Fatum Mundi foi reimpresso em 1658, e no anno seguinte appareceu esta obra.

Dissertatio de libro præcedenti ad amplissimos viros senatus Britanniæ Armoricæ. Parisiis. 1659. in folio.

Digestum sapientiæ in quo hebetur scientiarum omnium rerum divinarum et humanarum nexus etc. etc. 1654-1659. 3 vol. in fol, reimpressos com augmentos em 1661.

O Magistrado christão, coordenado pelo Padre Ivo, seo sobrinho. Pariz. 1688 em 12.

As falsas opiniões do Mundo. Pariz 1688 em 12 etc. etc.

Vê-se, que não ha analogia alguma entre os estudos d’estes dois Capuchinhos.

Uma das obras do Padre Ivo de Pariz foi queimada pela mão do carrasco.

[E] E não Silvére, como por descuido disse em sua biographia o veneravel Eyriés. (Vid Mr. Prarond. Les hommes utiles de l’arrondissement d’Abbeville. 1858—in 8.º)

[F] Vid o Manuscripto da Bibliotheca mazarina, ja citada, que tem este titulo «Annales des R. P. Capucins de la Province de Paris, la mer et la source de toutes celles de ça les monts.» N. 2879 pet in 4.º

[G] Francisco de Bourdemare, ou Boudemard, natural de Ruão, deixou a Provincia, onde gosava sua familia de muita consideração para em Orleans fazer-se Capuchinho. Como noviço entrou no Convento d’esta Cidade, em 2 de outubro de 1603, porem é muito provavel, que voltasse para a Normandia antes de ir residir no grande Convento da rua de Santo Honorato.

[H] O Padre Leonardo morreu em Pariz com 72 annos de idade, no dia 4 de setembro de 1640. Antonio Fauro, seo pae, era conselheiro do parlamento de Pariz.

O livro dos Elogios-historicos, manuscripto da Bibliotheca Imperial, o qualifica como «o maior homem, que ja teve, e que nunca mais terá, a Religião dos Capuchinhos.» Encontra-se elle outra vez Provincial na rua de Santo Honorato no anno de 1615.

[I] Vide à respeito da expedicção protestante do Sr. Villegagnon, as Relações circunstanciadas de Niculau Barre, de João de Lery e do Anonymo conhecido por Chrispim. É certo que estabeleceram os Calvinistas seo predominio na Bahia do Rio de Janeiro, porem á elle se podem oppôr diversos pamphletos, escriptos por causa do Chefe da empresa. Estas peças satyricas fazem parte das ricas collecções da Bibliotheca do Arsenal.

[J] Como se verá em outro lugar, logo após a publicação da primeira parte da viagem, a antiga expedição de Ravardière foi precedida pelas de Riffault em 1594, e de De-Vaux, o companheiro d’este ultimo, que misturando-se com os Indios dedicou-se muito ao descobrimento d’este paiz.

[K] Julgamos dever reproduzir aqui o texto d’esta concessão renovada: não conhecemos o primeiro. «Luiz, a todos os que virem a presente. Saude. O defunto Rei Henrique, o grande, nosso muito honrado senhor e pae, a quem Deos perdoe, tendo por Cartas patentes de julho de 1605 constituido e estabelecido o Sr. de Revardiere de la Touche, seo lugar-tenente general na America, desde o rio do Amazonas até a Ilha da Trindade, e havendo elle feito duas viagens ás Indias para descobrir as enseadas e rios proprios para o desembarque e estabelecimento de colonias, no que seria bem succedido, pois apenas chegou n’esse paiz soube predispôr os habitantes das ilhas do Maranhão e terra firme, os Tupinambás e Tobajaras, e outros a procurarem nossa protecção e sugeitarem-se á nossa authoridade, tanto por seo generoso e prudente procedimento, como pela affeição e inclinação natural, que n’estes povos se encontram para com a nação franceza, bem conhecida por elles pela remessa que fizeram dos seos embaixadores, que morreram apenas chegaram ao porto de Caucalle, e dos quaes teriamos ainda recebido iguaes protestos, segundo as narrações feitas pelo Sr. de Ravardiere, tudo isto depois nos daria occasião de lhe fazer expedir nossas Cartas patentes de outubro de 1610 para regressar, como Chefe, ao dito paiz, continuar seos progressos, como teria feito, e ahi demorar-se-ia dois annos e meio em paz, e 18 mezes tanto em guerra como em treguas com os portuguezes etc. etc.»

Guardamos para a proxima publicação do livro de Claudio d’Abbeville, de que este é o complemento, todas as occorrencias politicas, relativas á expedicção, e reservamos tambem para ella os traços biographicos de Razilly, de Ravardiere e de Pezieux.

[L] Pode-se ler tudo isto minuciosamente na Carta de obediencia dada ao Padre Ivo na Chronologia historica dos Capuchinhos da Cidade de Paris pag. 193. Tem a data de 27 de agosto de 1611, e começa assim: «Venerando in Christo Patri Ivoni Ebroiense predicatori ordinis fratrum minorum Sancti Francisci Capucinorum, frater Leonardus pariensis ejusdem ordinis in Provincia parisiensi licet immeritus salutem in domino, in eo qui est nostra salus».

[M] Descançam seos restos mortaes no Brazil, pois foi o unico de seos companheiros, que não voltou á Europa. O padre Ambrosio de Amiens, pelos seos estudos, tinha-se distinguido na Sorbona, e quando ia requerer licença para seguir a carreira da magistratura, ou dedicar-se simplesmente á advocacia, resolveo em 1575 entrar na Ordem dos Capuchinhos: foi um dos primeiros irmãos, que tomou o habito no Convento da rua de Santo Honorato, onde por diversas vezes exerceo o cargo de Guardião.

Deve-se collocar entre os annos de 1584 e 1586 a epocha das corajosas dedicações, em que elle afrontou os horrores do contagio para soccorrer a população parisiense, que então lhe deo o sobrenome pelo qual era conhecido. A sua idade, ja avançada, devia isental-o d’esta viagem, porem não foi possivel resistir-se ás suas instancias, e nem a todos os meios, que empregou para fazer parte d’essa missão, que foi de grande utilidade.

Vêde o Manuscripto da Bibliotheca Imperial intitulado «Eloges historiques de tous les grands hommes, et de tous les illustres religieux de la Province de Pariz.»

[N] O Padre Honorato de Champigny morreo com cheiro de Santidade em 1621.

[O] Sabemos d’esta obra por Guibert apenas, pois nenhuma outra bibliographia especial a menciona. Bourdemare publicou suas observações sob o titulo Relatio de populis brasiliensibus. Madrid. 1617 in 4.º Leon Pinelli falla de Frei J. Francisco de Burdemar (assim escreveo elle) como falla de Ivo d’Evreux por ouvir dizer. Affirma o Livro dos elogios ter emprehendido duas viagens á America, e afinal que morrera como forasteiro n’um dos Conventos da sua Ordem em Hespanha, um anno antes da publicação do seo livro. Parece-nos, que a expressão pelo biographo usada da palavra espanhola—forasteiro, quer dizer pura e simplesmente—estrangeiro.

[P] O Padre Arsenio de Pariz tambem não tardou em deixar o Brasil, porem o triste resultado dos negocios do Maranhão não arrefeceu o seo zelo pelas missões. Foi para o Canadá onde prégou aos Hurons depois de haver convertido os Tupinambás.

Foi Superior das missões da America do Norte por cinco annos e depois morreo no grande Convento de Pariz, em 20 de Junho de 1645 contando 46 annos de habito. É muito provavel, que tivesse por successor na America o Padre Angelo de Luynes, Guardião de Noyon, pois foi Commissario e Superior das missões do Canadá em 1646.

[Q] O Convento dos Capuchinhos da Cidade d’Evreux foi edificado em 1612 «na extremidade de um suburbio da cidade do lado do meio dia, devido em parte aos cuidados e á liberalidade de João le Jau, então grande penitenciario e vigario geral da diocese.» Vide Histoire civile et ecclesiastique du comté d’Evreux, pag. 365. O abbade Lebeurier, cujas luzes e zelo archiologico são conhecidos, prestou-se a fazer a este respeito todas as pesquizas possiveis, porem, infelizmente, debalde.

[R] O manuscripto que temos á vista, e que dá conta summaria da viagem de Arcanjo de Pemuroke, não nos diz claramente o nome da localidade onde saltaram os Missionarios, e por isso nos limitamos a transcrever a narração do seo desembarque: «foram alguns soldados á terra, e acharam diversos obstaculos, que nos pareceram máos prognosticos, como fossem alguns portuguezes e um sacerdote secular, que assolavão os gentios contra os francezes, e do Forte souberam nossos soldados, que os portuguezes projectavam tomar a costa do Maranhão, e d’ella expellir os francezes, o que fez suspeitar aos Padres que poucos fructos aqui colheriam:» Ms. da herdade dos Capuchinhos da rua de Santo Honorato.

[S] Circumscripto a um pequeno quadro, apenas podemos dar mui summariamente a descripção dos acontecimentos, que deram em resultado o abandono do Maranhão pelos francezes.

Acabou-se tudo em 21 de novembro de 1614, depois da batalha onde falleceu o infeliz Pézieux.

Alem da grande Memoria publicada pela Academia Real das Sciencias de Lisboa á respeito d’esta expedicção, encontram-se mais amplas informações sobre este periodo da historia do Maranhão e suas missões pelos Jesuitas na vasta e preciosa publicação do Dr. A. J. de Mello Moraes, intitulada «Corographia historica, chronologica, genealogica, nobiliaria e politica do Imperio do Brasil.» (Vide o Tomo 3º, publicado em 1860).

[T] Sua morte está marcada nos Obituarios da Ordem no dia 29 d’Agosto de 1632, isto é, no anno em que foi celebrado o tractado de Castelnaudary.

Contava n’esse tempo 47 annos de Religião, e n’ella sempre foi conhecido pelo Religioso escossez, embora pertencesse realmente a uma familia gaulesa.

[U] Ordinariamente calam os historiadores esta ultima circumstancia, e não se encontra nem se quer referida summariamente e sem commentarios senão na collecção diplomatica (Quadro elementar) do Visconde de Santarem. A Carta authographa, que prova o captiveiro de Ravardiere existe na Bibliotheca da rua Richelieu, onde a vimos. Ella contraria, repita-se, o que se passou um anno antes no campo de Jeronymo d’Albuquerque. Está escripta com muita moderação, e foi derigida a M. de Puysieux (Vid fonds franç.—Nº 228—15 p. 197.)

[V] Informações inexactas sem duvida fizeram com que Mr. Ferdinand Diniz mencionasse aqui este facto, nunca acontecido.—Do traductor.

[W] Lembro-me com prazer duma delicada expressão do sabio Augusto de Saint Hilaire.

Lery, como se sabe, viajou pelo Rio de Janeiro no tempo de Villegagnon, isto é em 1556. A primeira edicção da sua interessante narrativa somente appareceu em 1571. Nosso Ivo d’Evreux, cujo estylo tem tantos pontos de contacto com o d’este escriptor, leria seo livro? N’elle nada encontramos, que nos leve a responder pela afirmativa. Multiplicaram-se porem as edicções de Lery e a tal ponto, que a quinquagesima e ultima foi em 1611.

[X] Este projecto de dupla aliança entre as duas corôas ja era de 1612, porem foi annunciado officialmente em 25 de Março do mesmo anno, mas só foi executado d’ahi ha tres annos.

Partiram os Missionarios a 19 de Março. Os esponsaes do rei de França com a infanta ainda não preocupavam os espiritos como depois aconteceo, por exemplo, em 1615.

Todos os factos relativos aos dois reinados são minuciosamente descriptos no livro intitulado «Inventaire generale de l’histoire de France par Jean de Serre, commençant á Pharamond et finissant á Louis XIII. Paris, Mathurin Henault, in 18. (Vid o T. VIII).

[Y] Podia ainda ver-se, ha alguns mezes atraz, na casa de um vendedor de curiosidades, da rua do Petit Leon, um desenho attribuido a Luiz XIII, quando menino, representando muito bem a figura d’um Tupinambá enfeitado com pinturas exquisitas.

[Z] Devo ainda a Mr. Ferdinand Diniz a seguinte communicação, feita em carta, por mim sempre muito presada, de 16 de setembro de 1873.

«O segundo exemplar conhecido da obra do Padre Ivo d’Evreux pertence ao Sr. Dr. Court, habil e zeloso bibliographo e possuidor, por sua fortuna, de grandes raridades.

«Tive em minhas mãos este precioso exemplar, que custou 800 francos.

«Tem mais duas ou tres folhas do que o da Bibliotheca Imperial.

«O feliz possuidor do exemplar conhecido mora em Pariz, rue du Centre n. 4; actualmente anda viajando em beneficio da saude alterada de um seo irmão, porem quando elle voltar, irei de novo visitar seo thesouro.»—Do traductor.

[AA] É geral a obscuridade, que reina sobre a biographia d’estes antigos viajantes, tão importantes debaixo do ponto de vista da historia. O veneravel Eyriés, que citamos as vezes, é bem pouco baseiado em suas ideias, por exemplo, quando affirma que Claudio d’Abbeville viveo até 1632, quando os Manuscriptos da casa de Santo Honorato o dão por fallecido em Ruão no anno de 1616 com 23 annos de religião.

Tambem não é exacto o attribuir-se-lhe a Vida da bemaventurada Coletta, virgem da Ordem de Santa Clara, pois appareceo este livro em 1616, em 12, e em 1628 em 8º: as iniciaes, que traz no frontespicio bem poderiam evitar este engano, na verdade pequeno.

O opusculo, de que estamos tractando, acha-se na Bibliotheca do Arsenal, onde o examinamos.

[AB] Essa compilação, verdadeiramente curiosa, começou em 18 de novembro de 1709, e se compunha outr’ora de 3 vol. em 4.º. O T. 1º, infelizmente perdido, continha os Annaes da Provincia, e provavelmente ficamos privados de algumas preciosas particularidades sobre a missão do Padre Ivo: tinha o titulo de—Capuchinhos da rua de Santo Honorato, 4.º (Ter.)

[AC] O Padre Pascoal d’Abbeville foi eleito 19º Provincial do Convento da rua de Santo Honorato: a divisão havida em 1629 foi provavelmente por causa do numero sempre crescente de Religiosos nos tres Conventos de Pariz.

[AD] Em geral não são conhecidos estes versos de Ronsard, derigidos ao fundador da França antarctica, a essa personagem voluvel, ora huguenote, ora fervoroso catholico; cujas severidades excentricas Lery evitou fugindo para as mais longinquas florestas:

Douto Villegaignon, como te enganas!

Tu pretendes em vão tornar ameno

D’America o viver estranho e rude...

Acaso não vês tu que a nova gente

Tão nua é no trajar como no peito

É nua de malicia?—que não sabe

Ao vicio e á virtude o nome ao menos?

—Que não sonha com Reis nem com Senados,

E, isenta do temor, das leis ao jugo,

Á mercè das paixões a vida passa?

Ignoras, por ventura, que ahi mostra-se

Cada homem de si livre senhor;

e Leis, Senádos, Reis, em si resume?

Não é a terra e o ar commum a todos?

Vê-se, áquella, cobrir ferro importuno

O seio virginal de longos sulcos?...

Commum é tudo ahi, como dos rios

São as aguas perennes que trasbordam

Sem processo intentar de plena posse.

Oh, não queiras, por isso, dessa gente

O repouso turbar dos velhos usos!

Si ha remorso em tua alma, em paz os deixa;

Não procures, p’ra os campos estenderem.

Ensinar-lhes á terra pôr limites!

Choverão os processos, e a fraude

Á amisáde terá então de unir-se!

Logo após, d’ambição o duro espinho

(Como a nòs acontece, desgraçados!)

Tormento lhes será—negro, incessante.

—Seu repouso não quebres: são felizes;

Elles gosam na terra a edade d’oiro.

(Traducção do Sr. J. T. de Souza.)

[AE] Vide a «Correspondencia e a Collecção Peiresc.»

[AF] Este estimavel escriptor deo d’isto uma prova no seo poema da primeira semana, somente impresso em 1610 embora fallecesse seo auctor em 1599.

Ja o ardente Cocuyo á Nova Espanha

Vai nas azas dois fachos conduzindo,

Outros dois flamejando ergue na fronte.

Á luz d’este esplendor de regios leitos

Nos cortinados arabescos pintam-se,

Á luz d’este esplendor em noite negra

O habil artesão o marfim pule,

Conta o avaro, no cofre, seu thesouro,

Veloz o escriptor a penna guia.

Traducção do Sr. J. T. de Souza.

[AG] Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuitica pela Bahia, Porto Seguro, Pernambuco, Espirito Santo, Rio de Janeiro, etc. escripta em duas cartas ao Padre Provincial em Portugal. Lisboa. 1847 em 8.º

[AH] Tratado descriptivo do Brasil em 1587, etc. Rio de Janeiro, 1851 em 8.º Foram estas duas obras exhumadas pelo Sr. F. A. de Varnhagem, historiador tão conhecido do Brasil. Esta ultima obra, de que existe um Manuscripto na bibliotheca imperial de Pariz foi tambem reproduzida por seo habil edictor na Revista trimensal. Morreo Gabriel Soares em 1591 n’uma praia deserta, após deploravel naufragio: como se vê foi quasi contemporaneo de Ivo d’Evreux.

[AI] Affirma Berredo ser este indio um amigo dedicado dos franceses, porem melhor informado o Jornal de Timon nos deo o nome deste selvagem, educado nas missões do Sul. Ja se vê, que não podia ter muita affeição aos francezes.

Para urdir este horrivel estratagema, basta somente o odio, que nutriam certos indios contra os dominadores do seo paiz, não sendo necessario ser filho de Ruão ou de Rochelles.

[AJ] Vide Berredo, Annaes historicos do Maranhão, e tambem o Jornal de Timon de J. Lisboa, ns. 11 e 12, 1858, Lisboa. Diz este escriptor ter fallecido Jeronimo d’Albuquerque em 1618 succedendo-lhe no governo seo filho Antonio d’Albuquerque.

[AK] Partiram para Goiana em 1635 os Missionarios da Ordem dos Capuchinhos, cujos trabalhos podem ser vistos nos manuscriptos legados pelo grande Convento de Pariz.

[AL] Vide a respeito d’estes povos a rapida visita, que lhes fez Castelnau em 1851: Expedicção scientifica nas partes centraes d’America do Sul. T. 2º pag. 316.

[AM] Vide Trabalhos da Commissão scientifica de exploração. Rio de Janeiro. Typ. de Laemmert—1862 in 4.º

[AN] Na Corographia historica do Dr. Mello Moraes encontram-se noticias minuciosas sobre as missões dos jesuitas e administração dos indios no Maranhão. Desde o principio do seo T. 3º teve este escriptor o cuidado de confessar o immenso auxilio, que lhe prestaram as obras doadas ao Instituto Historico do Rio de Janeiro pelo conselheiro Antonio de Vasconcellos de Drumond e Menezes. Em suas longas viagens, o diplomata, a quem se deve tão preciosas informações sobre a Africa, não se limitou a estas investigações, pois ainda colheu muitos manuscriptos á respeito do Brazil, que hoje servem de base ao historiador.

Cego ha muitos annos, faz ainda muita honra á sua patria.

[AO] Tres annos antes da partida dos Capuchinhos para Maranhão, o padre du Jarric dedicava ao Rei menino o seguinte livro: «Segunda parte da historia das coisas mais memoraveis, acontecidas tanto nas indias orientaes como nos outros paizes descubertos pelos portuguezes, no estabelecimento e progresso da fé christan e catholica, e principalmente do que fizeram e soffreram os religiosos da companhia de Jesus para este fim ate o anno de 1600» pelo Padre Pedro du Jarric, da mesma companhia em Bordeaux, Simon Mellange. 1610 em 4.º Tudo quanto diz respeito ao Brazil acha-se n’este vasto resumo desde pag. 248 até 359, porem deve procurar-se os factos curiosos, citados n’esta noticia no livro 5º do que o auctor chamou Historia das Indias Orientaes, parte 3ª pag. 490.

[AP] Desta primeira edicção, publicada em 1621, tornou-se, para assim dizer, impossivel ser encontrado um sò exemplar.

A segunda edicção sahio com o titulo Arte de grammatica da lingua brasilica do padre Luiz Figueira, Theologo da Companhia de Jesus. Lisboa, Miguel Deslande, anno 1687, pet. em 12.º O sabio bibliographo portuguez o Sr. Innocencio Francisco da Silva não reproduz exactamente este titulo, porem menciona uma edicção da Bahia em 1851 pelo Sr. João Joaquim da Silva Guimarães, cujo titulo é muito extenso.

A grammatica do Padre Anchieta—Arte da grammatica da lingua mais usada na costa do Brasil, appareceo em Coimbra no anno de 1595, em 8º, e d’ella em Portugal apenas se conhece um exemplar.

[AQ] Santo Eloy, perto de Gisors, no destricto de Euro, é uma povoação de 381 habitantes, á 25 kil. de Andelys.

Ha tambem Santo Eloy de Fourques, aldeia do Euro, a 25 kil. de Bernay.

Estamos propensos a crer, que foi na primeira, onde residio o nosso Missionario.

[AR] Vide Bibliographia Normanda.

Derigimo-nos directamente á douta officiosidade do Sr. Frère afim de obtermos o conhecimento do Supplemento necessario, porem apesar de constantes investigações vio-se na impossibilidade de nos dar outras noticias alem das que colhemos em sua excellente obra.

[AS] Quevilly, Clavilleum, povoação do Senna inferior, distante de Ruão apenas 6 kil. e faz parte do districto de Grande Couronne.

[AT] Mais tarde foi chamado Maximiliano de Baux para encarregar-se da egreja do culto reformado em Ruão, viveo até a idade de 84 annos, e falleceo em 1674 deixando reputação de homem recto, e de costumes austeros.

Vide os irmãos Haag, a França protestante.

[AU] Cupucinorum Annales. Lugduni, 1632, em fol. e depois a traducção italianna—Annali di Fratri minori Cappucini etc. Venetia 1643 em 4.º

[AV] Annales seu sacrarum historiarum ordinis minorum sancti Francisci qui Capucini nuncupantur etc. Lugduni. 1676.

[AW] Annales ordinis minorum. 2.ª edic., Roma, 1731. Depois os Scriptores ordinis minorum. 1650, em fol.

[AX] Bibliotheca scriptorum ordinis minorum, Genova, 1680 em 4.º, reimp. em 1691 in fol. Este ultimo depois de algumas linhas, em que fallou do merecimento de Ivo Ebroycensis, vulgo de Evreux, dá tambem noticia do seu livro: scripsit gallicé Relationem sui itineris et navigationis sociorum que Capucinorum ad regnum Marangani: cui etiam adjunxit historiam de moribus illarum nationum. Rothomagi. 1654. Vid T. 1º em 4.º

[AY] Historia da Normandia. T. VI pag. 414. Masseville prova com toda a evidencia ter se contentado com traduzir o Padre Diniz de Gênes, pois disse ter o nosso Missionario, «dado uma Relação geographica das regiões, por onde se embrenhou, e particularmente do paiz do Marangan». Regni Marangani, escreveo seo predecessor.

[AZ] Vede este precioso manuscripto na Bibliotheca de Caen. Uma bibliotheca americana organisada pelo coronel Antonio de Alcedo. Madrid. 1791, 2 vol. em 8º, não menciona o Padre Ivo, causando-nos tal omissão pouco desgosto, á vista de se dizer ahi haver o Padre Claudio d’Abbeville, seu companheiro, convertido com infatigavel zelo os selvagens do Canadá!

[BA] A primeira edicção do Epitome, hoje rarissima por ter sido suprimida por ordem da Inquisição, só traz no seu titulo aberto a gravura o anno da impressão 1629 e o nome de Antonio de Léon, e não o de Pinelo. Não falla de Ivo d’Evreux, isto é, deste livro, que pertence a Bibliotheca de Santa Genoveva. Na edicção em 3 vol. pequenos em fol., por Barcia, assim menciona invertendo o seu titulo: Fr. Ivon d’Evreux, capuchino. Relacion de su viage al Reino de Marangano, com sus companeros: historia de los costumbres de aquellas naciones. Imp. em 1654 em 4º francez.

[BB] Isaac de Razilly, cavalleiro da ordem de São João de Jerusalem, primeiro capitão do almirantado de França, chefe d’esquadra da armada real na provincia da Bretanha, foi nomeiado almirante da frota real, em expedicção nas costas da Barbaria no anno de 1630, e adjunto de Ravardière: em 3 de septembro d’esse mesmo anno estava elle em Safy resgatando captivos.

CONTINUAÇÃO

DA HISTORIA

DAS COISAS MAIS MEMORAVEIS

HAVIDAS EM

MARANHÃO[1] NOS ANNOS DE 1613 A 1614

SEGUNDO TRATADO

PARIZ.

IMPRENSA DE FRANCISCO HUBY

RUA DE SÃO THIAGO, NA BIBLIA DE OIRO, E NA SUA OFFICINA

NO PALACIO DA GALERIA DOS PRESIONEIROS

MDCXV

COM PRIVILEGIO DO REI

AO REI

Índice de conteúdo

Senhor.

O que eu pude por meios subtis saber á respeito do livro do Rvd. Padre Ivo d’Evreux, supprimido por fraude e impiedade mediante certa quantia dada ao impressor Francisco Huby,[2] ponho agora na presença de V. Magestade, dois annos e meio depois do seu apparecimento, tão injustamente supprimida apenas veio a luz, afim de que V. M. e a Rainha sua Mãe, então regente, não visse a verdade tão clara, como ahi estava, e fosse mais facilmente illudida sua boa fé, por meio de falsas informações para que, contra suas santas e boas intenções, deixasse morrer a empresa, mais cheia de piedade e honra, que então se podia executar no novo Mundo, como se conhecerá tanto pela obra do Padre Claudio d’Abbeville, como por esta, embora incompleta por faltar a maior parte do Prefacio e alguns capitulos no fim.

Praticaram estes actos com intenção de perder V. M. o titulo de Rei Christianissimo forçando-o a abandonar os sacrificios, e as obrigações contrahidas para com os novos christãos, a reputação de suas armas e bandeiras, a utilidade vossa e de vossos subditos, proveniente de um paiz tão rico e fertil, um porto tão importante como proprio á navegação de longo curso, hoje deteriorado, e tudo o mais adquerido com muitas despezas e cuidados.

Para chegar-se a este ponto necessario foi recorrer á duas imposturas, muito bem conhecidas por pessoas de bom senso: uma foi de dizer-se que este paiz nada produzia, e nem tinha riqueza alguma, contra a verdade geralmente sabida: a outra foi de serem os indios incapazes de receberem a luz do Christianismo em opposição á palavra de Deos e á doutrina universal da Igreja.

Eis como, Senhor, acabou-se esta excellente empresa tão bem começada, sendo tão triste resultado devido a fraude e a malicia d’aquelles, que, desejando occultar seos defeitos, os atiravam sobre o paiz, que por negligencia dos maus francezes, cuidadosos só do seo proveito e interesse particular, se esqueceram do de V. M., embaraçando perda tão notavel, ludibrio hoje de todas as nações estrangeiras, menoscabo de vossa auctoridade real em toda a Europa, e de dôr a todos os vossos bons subditos. Quando V. M. quizer sahir d’estas illusões, aconselhado por pessoas honradas, e reconhecidas pelo seu zelo ao augmento da gloria de Deos, e do vosso reinado, eu vos offereço ainda a minha vida e a de meus irmãos, fazendo conhecer, com a nossa pouca pratica e experiencia, por todos os cantos do novo Mundo, que em toda a christandade não ha um Monarcha tão grande e poderoso, como um Rei de França, quando elle quizer empregar não seo poder, e sim apenas sua authoridade.

Eis, Senhor, tudo o que pode um dos vossos mais humildes subditos, que, embora tenha soffrido, durante vossa minoridade, maos tractos, perda de bens e de fortuna, ainda tem coragem bastante para vos servir com dedicação.

Estou certo de acolherdes meos serviços, e o voto solemne, que faço de ser até o fim de minha vida,

Vosso humillissimo e obedientissimo servo e subdito

Francisco de Rasilly.


AO REI

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Senhor.

A principal razão, que moveo os antigos a collocar entre os Deoses a maior parte dos seos Imperadores, foi o espirito religioso d’elles manifestado durante a vida.

Coisa notavel na historia: ainda que alguns imperadores levantados da infima classe até ao cume do poder, se tenham mostrado crueis e sanguinarios para com seos subditos, comtudo alcançaram, após sua morte, o nome de Deoses, tiveram Templos e altares, sacrificios e sacerdotes, creados e nomeados pelo senado em virtude da piedade e da religião, que conservaram inalteraveis no meio dos seos muitos defeitos.

Estes monarchas, grandes em dominio e pequenos no conhecimento do verdadeiro Deos, tinham innato em seo coração o amor pela Magestade divina, de que são viva imagem todos os monarchas, e por isso lhes pertence estender o reino de Deos como seos Loco-tenentes.

Com esta intenção espalhavam arcos e tropheos, columnas e imagens para o ensino da religião, e á posteridade legavam chapas e laminas de metaes indistructiveis, como sejam o bronze, o ouro, e a prata, onde se viam gravadas as suas imagens, e com ellas alguns vestigios da sua piedade, cuja memoria o tempo não póde destruir.

Antonino, o pio, assim deixou buriladas em bronze e prata, sua caridade e religião representadas na imagem de uma mulher, vestida como Deosa, tendo em frente um altar onde se achava um pouco de fogo ardendo constantemente, e no qual ella derramava á todo o instante, como em sacrificio, oleos odoriferos, mostrando com isto a Piedade e Religião, que consagrava aos Deoses.

Si a inclinação natural, sem o auxilio da graça e da luz sobrenatural, podesse tanto no coração d’estes monarchas, o que podemos dizer e pensar quando Deos inspira o coração dos reis illustrados e ricos da verdadeira religião?

Luiz 4.º, imperador, principe virtuoso e geralmente estimado á todas as suas occupações preferia a Religião, e para animar todos os seos subditos á imital-o, mandou cunhar o dinheiro com a figura de um templo atravessado por uma cruz, e ao redor lia-se a inscripção—Christiana Religio.

O que excedeo, Senhor, a todos os Monarchas do Mundo, em piedade, e religião, foi São Luiz, a honra dos francezes, e de quem herdastes sangue e sceptro, nome e imitação de suas virtudes, porque não só empregou seos thesouros e sua nobresa, mas tambem sua pessoa, atravessando mares, (mares, que, como a morte, não fazem distincção quando querem involver alguem nas suas ondas) afim de erguer a piedade e a religião, abatidas pela crueldade dos infieis, e n’esta tarefa morreu.

Até hoje ainda não houve seculo algum de Rei, tão parecido com o do bom São Luiz, como o vosso, Senhor, e deixando á parte o que não vem a proposito, eu tomarei somente este bello feito, com que imitastes sua piedade e religião, para com esses pobres selvagens, desejosos em extremo de conhecerem a Deos, e de viverem á sombra de vossas luzes, como sejam os habitantes de Maranhão, de Tapuytapera, de Cumã, de Cayté, do Pará, alem dos Tabaiares e os Cabellos-compridos e muitas outras Nações, que muito ambicionavam aproximarem-se dos Padres, como direi adiante.

Tudo isto, Senhor, só vós podeis, porque os indios naturalmente gostam dos francezes e aborrecem os portuguezes: os nossos religiosos apenas podem arriscar suas vidas para convertel-os, porem pouco duraria isto a não ser a vossa real piedade.

Não é empresa tão difficil como se calcula, e nem tão cheia de cuidados e de gostos, como se suppõe: não serão precisos 500 ou 1:000 escudos, pois basta mediocre liberalidade, porem bem administrada para a sustentação do seminario, onde se devem educar os filhos dos selvagens, unica esperança da firmesa da religião n’aquelle paiz.

Si V. M., Senhor, se resolver a fazer isto, asseguro-vos que o vosso exemplo será imitado por muitos Principes e Princezas, Senhores e Damas, que contribuirão com alguma coisa para o augmento da fé n’aquelles logares.

Para que eu não canse a V. M. com desagradavel prolixidade, acabarei com esta historia evangelica da pobre Chananea, reputada como cadella, a qual pedia, para livrar sua filha do poder do Diabo, apenas as migalhas, que cahiam da meza real do Redemptor.

Descende do mesmo Pae de Chananéa esta nação de selvagens, e seos filhos estão no dominio do diabo, como infieis: ella não pede nem vossos thesouros, e nem grande quantia, e sim apenas as migalhas superfluas, que cahem, aqui e ali, da vossa real grandesa.

Por tudo isto, Senhor, eu humildemente vos supplico, que olheis com bons olhos para esta pobre Nação, e que recebaes com animo bem disposto este pequeno Tratado das coisas mais notaveis acontecidas durante a minha residencia entre elles por espaço de dois annos, conforme as ordens da Rainha vossa Mãe, dadas aos nossos Rvds. Padres, que procurei cumprir tanto quanto me foi possivel, como vereis quando lerdes essa minha obra, cujo trabalho, si merecer a vossa approvação, dar-me-hei por muito bem recompensado em quanto viver, e toda a existencia, que por Deos me fôr concedida, eu a empregarei em servir fielmente a V. M., como aquelle que é e sempre será de

V. M. subdito muito humilde e fiel,

Frei Ivo d’Evreux, Capuchinho.

ADVERTENCIA AO LEITOR.

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Amigo leitor.

Advirto-vos, que não repetirei aqui coisas ja escriptas pelo Padre Claudio d’Abbeville na sua Historia, e somente accrescentarei o que mais do que elle soube por experiencia, pois eu estive em Maranhão dois annos completos e elle apenas quatro mezes: verificareis esta verdade, comparando os nossos escriptos, e facilmente descobrireis o que augmentei.


PREFACIO
A RESPEITO DOS DOIS SEGUINTES TRATADOS.

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A Sapiencia nos Proverbios 29, apresenta um ensino allegorico, muito bonito, n’estas palavras: pauper et dives obviaverunt sibi, utriusque illuminator est Dominus: vi o pobre sahindo do Hospital cuberto de chagas e ulceras, carregado, e não vestido, de trapos, caminhar pela praça publica e entrar no Templo do Senhor pela porta do meio-dia: na mesma occasião vi o rico sahir do seu palacio, vestido de seda e carregado de ouro, prata, e pedras preciosas, caminhando pela estrada que vae dar á porta do Tabernaculo pelo lado do Septentrião, tão a proposito, que um e outro, o pobre e o rico, se encontraram frente a frente, bem no centro da grande cortina do Sancta Sanctorum, onde a face do Senhor espalha tão bella claridade, que o rosto d’estas duas pessoas brilhavam com o mesmo esplendor divino.

Vejamos o que quer dizer a Sapiencia na obscuridade d’estas palavras.

Deixemos as diversas explicações mysticas e espirituaes, que d’ellas se podem deduzir, e tomemos somente a que nos pode servir em relação ao que escrevemos no frontespicio do nosso livro.

O pobre é o padre São Francisco e os Religiosos da sua Ordem: o rico é o poder real de Vossa Magestade Christianissima, proveniente do ramo sagrado do Rei São Luiz. Quando e onde se encontraram este pobre e este rico? Foi sem a menor duvida na missão evangelica para converter os indios. Entre os dois estava Deos, o grande illuminador dos peccadores nas trevas da morte.

O pobre São Francisco na conversão dos gentios fez nas Indias o que disse São Paulo:—ego plantavi, plantei a fé entre os selvagens do Maranhão: São Luiz, protector da França, e avô do nosso Rei, quando nos mettemos n’esta empresa, respondeo—Rigabo—eu a regarei, e não consentirei que ella murche á falta de cuidados. De nada serviria a planta, si em sua raiz não se deitasse agua para ella florescer, por que em pouco tempo o rigor do sol a seccaria, e o nosso Deos, que sempre prescruta a inclinação dos seos subditos, affirma que infalivelmente a augmentará—incrementum dabo: e por uma luz, sempre crescente de dia para dia, derramada entre os indios á respeito dos mysterios da nossa fé, espancareis as trevas da ignorancia, porque o Senhor é o illuminador de ambos, utriusque illuminator est Dominus.

Quem melhor o pode saber que os selvagens aos quaes baptisamos e lhes promettemos fazel-os christãos?

Si invocassemos o seo testemunho, elles responderiam—credimus.

Oh! Piedade Real, não perdestes vosso tempo enviando-nos como Mensageiros do Evangelho.


Continuação da historia das coisas mais memoraveis, acontecidas no Maranhão em 1613 e 1614.

PRIMEIRO TRATADO.

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CAPITULO I

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Da construcção das capellas de S. Francisco e S. Luiz do Maranhão.[3]

O Psalmista Rei David, no seo Psalmo 28, composto em acção de graças pelo acabamento do Tabernaculo, disse—Afferte Domino fili Dei, afferte Domino filios arietum.

«Trazei ao Senhor, ó filhos de Deos, trazei cordeiros ao Senhor,» o que Rabbi Jonathas assim explicou—Tribuite coram Domino laudem cœtus Angelorum, tribuite coram Domino gloriam et fortitudinem—«dae louvores ao Senhor, ó choros angelicos, dae ao Senhor gloria e força:» queria elle dizer, que os Anjos bemaventurados auxiliam os homens em todos os seos santos projectos, e especialmente quando se trata de procurar a salvação das almas, porque caminham adiante estes felizes espiritos e rompem a turba dos diabos, inimigos da salvação afim de soccorrerem os homens apostolicos, incumbidos de salvarem as almas errantes nos desertos da infidelidade, ahi comparados aos filhos dos Carneiros que saltam aqui e ali pelos rochedos da dureza do coração, porem afagados pelas doçuras do Evangelho se deixam guiar brandamente até a porta do Tabernaculo de Deos, levados no grande mar do baptismo, e offerecidos á face do Sancta Sanctorum.

Os primeiros sacrificios, que Deos recebeo do povo de Israel, em procura da terra da promissão, d’onde expellio a infidelidade, foram sob as tendas e pavilhões do Tabernaculo, porem depois edificou-se o templo, e ahi continuaram os mesmos sacrificios.

Coisa similhante nos aconteceo quando fomos a esse paiz, cheio de infidelidade e ignorancia de Deos, carregado de demonios, insolentes tyrannos d’essas pobres almas captivas, levar a luz do Evangelho, banir as falsas crenças, expellir os demonios, plantar e construir a Igreja de Deos: durante mais de quatro mezes celebramos os santos sacrificios n’uma bonita tenda, no meio de arvores verdejantes: partindo depois alguns da nossa comitiva para a França em busca de auxilio, e ficando o resto para fundar a Colonia; fizemos edificar a Capella de São Francisco do Maranhão em um bello e agradavel lugar, junto do mar, proximo de uma bella e inexgotavel fonte, e ahi escolhi minha moradia, que um dia tinha de servir de Convento aos Religiosos, que eu esperava para me ajudarem.

Acabou-se esta Capella na vespera de Natal e muito a proposito pela devoção, que sempre teve o Seraphico Padre São Francisco, a quem era dedicada.

Alem de todas as festas do anno celebrava a noite, estrellada e sem trevas, do nascimento do verdadeiro Sol, Jesus-Christo, e tinha este santo Padre o costume de fazer um presepio, a cujo lado passava toda a noite contemplando o profundo mysterio da Encarnação, e da vinda tão estranha do Altissimo á terra.

Na verdade enchia-me de immenso prazer vendo n’esta capellinha, feita de madeira, coberta de folhas de palmeiras, mais similhante ao presepio de Belem do que esses grandes e preciosos templos da Europa, os nossos compatriotas francezes cantarem os psalmos e matinas d’esta noite, e depois de purificados pelo Sacramento da penitencia receberem o mesmo Filho de Deos no presepio dos seos corações, envolvido nas faixas do Santissimo Sacramento do altar.

Festejamos tambem o dia de natal; a noite prégamos, o que sempre fizemos depois das festas e nos domingos, e com prazer, embora muito soffressemos no principio: em quanto durou esta devoção corria o tempo tão depressa, que o dia parecia ter somente duas horas; e assim achando-se o nosso espirito preoccupado com obras piedosas sentia a morte vir tão depressa.

Não fui eu só que senti isto, muitas outras pessoas depois me disseram o mesmo, e em quanto me permittio a saude, observou-se, e sem enfado, este uso.

Augmentou-se ainda mais esta devoção quando se edificou no Forte a Capella de São Luiz,[4] á imitação das Igrejas dos nossos Conventos, com madeira, cercada e cuberta de ramos fortes, cortados das arvores chamadas Acaiukantin.

Ahi celebrei missas, cantei vesperas, préguei e baptisei os cathecumenos.

A tarde tocava o sino, todos se reuniam n’esta capella, onde se cantava a saudação angelica, implorava-se a graça divina, e depois cada um ia para onde queria.

CAPITULO II

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Do estado do poder temporal em sua primitiva.

Compõe-se o homem de espirito e corpo; devendo zelar em primeiro lugar aquelle como mais nobre e depois este; pareceu-nos de muita razão cuidar a principio nas Capellas para n’ellas abastecer o espirito com a palavra de Deos, e do SS. Sacramento, e depois no que diz respeito áo temporal.

Assim como uma terra, ainda inculta não dá grande contentamento á seu dono, e si elle não tivesse pão, que lhe viesse d’algures, por certo que morreria de fome, assim tambem era sem commodidades o lugar escolhido para a edificação da fortaleza de São Luiz, n’uma ponta de rocha, habitada outr’ora por selvagens, que a cultivaram a seu modo, ou para melhor dizer a esterilisaram, visto que depois de tres annos faltaram-lhe forças para produzir couza alguma, alem de matto agreste, sendo necessario descançar por muitos annos.

Foi a causa dos nossos soffrimentos no principio, pois apenas tinhamos farinha de mandioca para fazer mingau, isto é, uma especie de papa com sal, agua e pimenta, chamada pelos indios Yonker, e assim passavamos a vida.

Quem não podia comer esta farinha secca, desmanchava-a n’agoa, e assim alimentava-se com ella.

Os que em França somente usavam de comidas delicadas, n’aquelle paiz apenas achavam legumes bem agradaveis.

Conto isto para louvar a paciencia dos francezes em serviço do seo Rei, para destruir essa macula, que ordinariamente lhes lanção, de impacientes, imprudentes e desobedientes, porque na verdade eu só vi o contrario.

Os que desejarem muito ir para aquelle paiz, não se admirem de ouvir fallar em tanta pobresa, porque não soffrerão mais do que nós, visto a terra ir melhorando diariamente, e os viveres se augmentarem gradualmente.

Para remediar esta falta, resolveo-se mandar pescar peixe-boi[5], á 30 ou 40 legoas distante da ilha: estes peixes tem a testa como os bois, porem sem cornos, duas patas adiante debaixo das mamas, párem filhos como as vaccas, nutrem-nos com seo leite, mas a cria tem a propriedade notavel de abraçar a mãe pelas costas com suas patinhas, e nunca as deixa embora mortas, pelo que alguns são agarrados vivos, e assim trazidos para a Ilha: são muito delicados.

Sirva isto d’instrucção aos meninos, cumprindo a Lei de Deos, que manda honrar Pae e Mãe, isto é, amar e respeitar, e de advertencia aos catholicos para ficarem firmes e unidos no seio da Igreja, sua Mãe, d’onde perseguição alguma as possa arrancar, amando todos os bons francezes, seo Rei e sua Patria.

São apanhados estes peixes-bois nos pastos, ou nas hervas que crescem nas praias.

Vão os selvagens remando mansamente suas canôas por detraz d’ellas, atiram-lhe duas ou tres setas, e apenas mortas são puxadas para terra, retalhadas e salgadas.

Coisa igual acontece aos glutões, que no meio dos banquetes são surprehendidos e n’um instante lá vão para o inferno.

Encontra-se o sal necessario ás commodidades da vida, na distancia de 40 legoas da Ilha, em terrenos arenosos, onde se mostra naturalmente, em forma de gelo, duro e luzente como cristal, por occasião do fluxo e refluxo do mar, e quando este se retira o sol o cresta e é melhor que o sal de França e de Hespanha.

È necessario apanhal-o antes da estação das chuvas para que ellas lavem o lugar onde elle estava.

Chegado a este ponto, dispersou-se uma parte dos francezes pelas aldeias, conforme o costume do paiz, que é ter Chetuasaps, isto é, hospedes ou compadres, aos quaes por pagamento se dava generos em vez de dinheiro.

Esta hospitalidade ou compadresco é entre elles muito intima, porque estimam seos hospedes, como se fossem seos proprios filhos, vão caçar e pescar para elles e conforme o seo costume entregam-lhes as filhas, que desde então se chamam Maria, e tem por sobrenome o do Francez a quem se ligam, de sorte que dizendo-se Maria de tal sabe-se logo de quem é concubina.

Com certesa não sei porque dão este nome ás concubinas: mostrei um certo dia a um selvagem um registro da Mãe de Deos, e lhe disse Koai Tupan Marie, «eis a Mãe de Deos,» ché ai Tupan Arobiar Marie, «creio e conheço, que Maria é a Mãe de Deos,» e Maria chamamos nossas filhas que damos aos Caraibas.

Este costume foi prohibido aos francezes, e si ha alguma falta á este respeito é occultamente, e os proprios selvagens que no principio d’esta prohibição desconfiaram da fidelidade e da amisade dos francezes, apenas souberam, que Deos só permittia a posse da mulher por meio do casamento, e que os Padres, Missionarios de Deos, assim o prégavam e prohibiam por ordem do Maioral, mostram-se escandalisados quando vêem o contrario, que denunciam logo a este e a nós, de maneira que qualquer francez deve fazer seos negocios mui occultamente si não quizer ser conhecido.

CAPITULO III

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Da construcção do Forte de São Luiz, e do interesse dos selvagens em carregar terra.

Chegado o tempo proprio de trabalhar nas fortificações da praça designada á defeza dos francezes, fincada a madeira segundo o plano dado para servir de cercadura ao Forte, e de sustentar as terras, mandou-se então avisar por todas as aldeias da ilha e da provincia de Tapuytapera,[6] que viessem Indios uns após outros conduzir a terra tirada dos fossos para os terraços das cortinas, esporões e plata-formas, depois cobertas por grandes e grossas Apparituries, «mangues» arvores duras como ferro e incorruptiveis; de forma que seria contra ella quasi inutil o tiro do canhão, e mui difficil a escalada: assim se disse e assim se fez: de todas as aldeias pouco a pouco vinham os selvagens com suas mulheres e filhos, trazendo viveres para o tempo, que calculavam demorar-se no trabalho, e sempre debaixo das ordens dos seos Principaes, costume que geralmente observam, trazendo-os sempre na frente da Companhia, fazendo-lhes a natureza conhecer, que o exemplo dos superiores anima infinitamente os inferiores.

Mais do que nós são elles fieis á natureza, pois vemos o contrario na Republica Christã, d’onde provem os erros e a corrupção dos costumes, porque ainda que devamos prestar attenção somente á doutrina e não entregarmo-nos a má vida, os fracos fazem o que querem sem cuidar do máo nome, que adquirem.

Apenas chegavam estes selvagens entregavam-se ao trabalho com incomparavel dedicação, mostrando na voz e nos gestos admiravel coragem, parecendo antes que iam á um festejo de casamento do que para o serviço, rindo e brincando uns com os outros, correndo dos fossos para os terraços com uma especie de emulação para vêr quem dava mais caminhadas, e conduzia maior numero de cestos de terra.

Notareis agora, que não ha ninguem no mundo mais infatigavel do que elles, quando de boa vontade trabalham em qualquer coisa; não cuidam em comer e beber com tanto que tenham á sua frente o seu chefe, e quando encontram difficuldades, por maiores que sejam, riem, cantam e gritam para se animarem reciprocamente.

Se ao contrario o tractardes com asperesa e ameaças, nada farão que preste, e conhecendo o seo natural nunca constrangem seos filhos e nem seos escravos, e antes os governam com doçura.

O francez, especialmente os nobres, tem igual naturesa; não soffrem constrangimento, porem não duvidam expôr sua vida, afim de comprirem as doces ordens dos seos Principes: bello argumento para convencer os que governam, que mais vale a doçura e clemencia do que o rigor e a força, respeitando assim o natural da Nação francesa.

Não trabalhavam somente os homens e sim tambem as mulheres e os filhinhos, aos quaes elles davam pequenos cestos, para carregar terra conforme suas forças.

Vi muitos meninos, apenas com dois ou tres annos d’idade, fazer a carga com suas mãosinhas e não ter força para conduzil-a.

Perguntei a alguns velhos porque consentiam que trabalhassem os meninos, servindo isto para distrahir os que os vigiavam, especialmente seos paes, que assim não podiam adiantar a tarefa, achando-se elles sempre em perigo, ou por estarem nùs apezar de tenrinhos, ou por poderem ser feridos pelo desabamento de algum pedaço de terra, ou por alguma pedra, que se desprendesse do monte.

Respondeo-me assim o interprete. Temos muito prazer vendo nossos filhos comnosco trabalhando n’este Forte, para que um dia digam á seos filhos e estes a seos descendentes «eis a Fortalesa, que nós e nossos paes fizemos para os Francezes, que trouxeram Padres, que levantaram casas a Deos, e que vieram defender-nos de nossos inimigos.»

É mui commum esta maneira de communicar á seos filhos o que entre elles se passa, já que por escriptos não podem fazel-o aos vindouros, e ir assim á posteridade.

Para nada esquecer, como que gravam na memoria as occorrencias, e só d’esta maneira se pode explicar como contam muitas coisas passadas nos seculos, em que viveram seos avós, ou no tempo da sua mocidade: vão passando por esta forma o que sabem a seos filhos, como ainda diremos ádiante.

Desejaria muito, que nossos Paes assim se empenhassem para gravar no coração de seos descendentes...

... mente e em abundancia, os selvagens lançam fogo nos espinhaes e moutas, onde se recolhem esses reptis.

Ha de tres qualidades:[7] uma de terra, que mora nos mattos; outra de agoa doce, que mora nas margens dos rios e lugares pantanosos: a ultima, é do mar, e a que vem pôr seos ovos na areia, que fica bem perto, e onde os occultam com geito. Parece-se muito com os ovos de galinhas, menos na casca, que não é tão dura, e sim mais flexivel e molle, nem tão grossos e agudos, e sim mais redondos, porem muito saborosos, quer comidos na casca, quer de outra qualquer maneira.

Nas margens d’este rio encontram-se arvores medicinaes, muito melhores do que as que se achavam commummente, como eu e muitos dos meos companheiros verificamos: alem d’esta virtude, são mais fortes que as do Levante, mostrando a experiencia que uma onça d’estas faz tanto effeito como duas d’aquelle paiz. Sendo bem preparadas certas composições são excellentes laxantes, e assim conservam o corpo para seo beneficio. Existem bellos prados, largos e compridos á perder de vista, que produzem herva fina e macia. Encontra-se a piteira, de cujos productos se fazem na China muitos tafetás: crescem seos ramos como a cauda de um cavallo, tem a bellesa da seda e é ainda mais forte. A terra é forte e feraz e produz com mais certesa, que a do Maranhão, ou de suas visinhanças, e dizem-me que dá duas colheitas annualmente. As florestas são altas, virgens, e ricas de muitas especies de madeiras, quer proprias á tincturaria, quer á medicina, e asseguram-nos os selvagens, que lá moram, a existencia ahi do pau brazil. No meio d’estas florestas, ha muitos viados, capivaras, cabras, vaccas bravas[8] e javalis, e em poucas horas matareis tantas quantas precisardes, e para que não me accusem de hyperbolico, invoco o testemunho dos que viajaram pelo Miary, e hoje se acham em França: se lerem isto, dirão que são estas as informações, que me deram, e que os selvagens, remadores das suas canoas, lhes traziam tanta caça, que d’ella não sabiam o que fazer.

Contou-me um fidalgo, que andou n’essa viagem, haver morto com um só tiro tres javalis,[9] o que não poderia acontecer se estivessem espalhados.

Ha muitas arvores carregadas de cortiço de mel de abelhas, as quaes são mais pequenas e franzinas do que as nossas, porem mais industriosas, pois fabricam mel excellente, liquido, e tão claro como agua potavel pura, guardado em pequenas celulas de cera da grossura da casca de um ovo, similhantes na forma á nossas garrafinhas de vidro, e penduradas com alguma ordem n’uma arvoresinha de cera, que se acha encostada ou presa pelos ramos ao tronco, ou nas cavidades das arvores das florestas ou dos prados.

Com este mel fabrica-se vinho muito forte e quente para o estomago, similhante na côr e no gosto ao de Canaria. Nossa gente, quando por lá andou, fez algum vinho, e com elle embebedou-se.

Existe tambem ahi uma especie de mel, impropriamente, assim chamado, porque é tão azedo, como vinagre, e fabricado por outra especie de abelhas.

Alguns dias depois que ahi chegou nossa gente, procuraram os Tabajares,[10] e suas habitações: encontraram, não os que procuravam, e sim os Aiupaues,[11] e caminhos recentemente abertos.

Vendo que diminuia a farinha, da qual apenas poderia ter quanto bastasse para regressar a Maranhão, essa mesma muito pouca, deliberou regressar com os seos selvagens, deixando ahi somente dois escravos Tabajares, a quem deram farinha para um mez, e diversos generos, promettendo-lhes liberdade com certesa, e boa recompensa si fossem procurar e achassem seos similhantes, o que acceitaram e cumpriram aproximando-se das suas aldeias e gritando para não serem flexados, visto andar esta Nação em guerra com uma outra visinha. Aos seos gritos accudiram muitos, aos quaes contaram o que traziam, como estavam em Maranhão os francezes bem fortificados, que entre elles se achavam os Padres, que os foram procurar; mas que se viram obrigados a retirar-se por falta de farinha, sendo elles escolhidos para ir procural-os, e dando-lhes os presentes fortaleciam mais as suas palavras, mormente sendo proferidas por dois individuos, seos conhecidos, que foram escravisados na guerra pelos Tupinambás.

Bem podeis calcular como elles ficaram alegres com as noticias dadas pelos Tabajares. Ahi descançaram por tres ou quatro mezes para contarem tudo bem a sua vontade, e regressamos com nossa gente para a Ilha.

CAPITULO VII

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Dos preparativos dos Tupinambás para uma viagem ao Amazonas.

Apenas voltou esta expedição do Mearim, fallou-se com enthusiasmo de uma viagem, em breves dias, ao Amazonas.[12]

Já antes se havia fallado n’ella, porem com tal friesa, que poucos acreditavam, não havendo probabilidade de deixar-se a Ilha, sendo nós tão poucos para defendel a contra as aggressões dos portuguezes, que nos ameaçavam ha muito tempo.

Ao divulgar-se esta noticia levantaram-se a ilha e as provincias visinhas, porque, como é geralmente sabido, não ha no Mundo nação alguma mais inclinada á guerra e á viagens pelo desconhecido como estes selvagens brasileiros.

Quatrocentas ou quinhentas legoas nada são para elles quando vão atacar seos inimigos e fazel-os escravos. Com quanto sejam por naturesa timidos e medrosos, nos combates ganham calor, não abandonam o campo, e quando perdem as armas pelejam com unhas e dentes.

Suas guerras são feitas, pela maior parte por surpresa e astucias; ao romper do dia assaltam seos inimigos dentro de suas aldeias: salvam-se de ordinario os que tem boas pernas, sendo aprisionados os velhos, as mulheres, e os meninos, e condusidos como escravos para as terras dos Tupinambás. Tambem sob o pretexto de negocio, vão elles pelas praias, onde moram seos inimigos, promettem-lhes muito, mostram-lhes suas mercadorias em caramemos ou paneiros, onde arranjam o que tem de melhor, e quando os veem entretidos, lançam-se sobre elles, pobres ingenuos, matam uns, aprisionam e captivam outros: por este motivo todas as nações do Brasil, desconfiam d’elles, julgam-nos traidores, e nem querem sua paz.

São muito afoitos quando estão com os francezes, e querem que estes vão sempre adiante, e se acontece voltar um francez para traz, ninguem corre melhor e mais veloz do que elles. D’isto se conclue quanto valle a opinião que se forma de certas pessoas, que não passa de uma loucura e vaidade d’este mundo, acontecendo muitas vezes ficarem atraz os bons e virtuosos ou serem queridos e levados os viciosos e corrompidos.

Indaguei e procurei saber muito o modo como se preparavam para a guerra, não me contentando só com as informações.

Em primeiro lugar as mulheres e as suas filhas preparam a farinha de munição,[13] e em abundancia, por saberem, naturalmente, que um soldado bem nutrido valle por dois, que a fome é a coisa mais perigosa n’um exercito, por transformar os mais valentes em covardes, e fracos, os quaes em vez de atacarem o inimigo, buscam meios de viver.

É differente da usual esta farinha de munição, por ser mais bem cozida, e misturada com cariman para durar mais tempo, embora menos saborosa, porem mais san e fresca.

Em segundo lugar empregam-se os homens em fazer canoas, ou concertar as que já possuem proprias para este fim, por que é necessario, que sejam compridas e largas para levarem muitas pessoas, suas armas e provisões, e comtudo são feitas de uma arvore, cortada bem perto da raiz, sem galhos e ramos, ficando apenas o tronco bem direito em toda a sua extensão, e então tiram-lhe a casca, e racham n’a dando-lhe meio pé de largura e profundidade: n’este caso lançam-lhe fogo n’essa fenda por meio de cavacos bem seccos, e vão queimando pouco a pouco o interior do tronco, raspam com uma chapa de aço, e assim vão fazendo até que o tronco esteja todo cavado, deixando apenas duas pollegadas d’espessura, e depois com alavancas dão-lhe fórma e largura: estas canoas conduzem as vezes 200 ou 300 pessoas[14] com as suas competentes munições. São conduzidas por mancebos fortes e robustos, escolhidos de proposito, por meio de remos de pás de tres pés cada um, que cortam as agoas a pique e não de travessia.

Em terceiro lugar preparam suas pennas, tanto para a cabeça, braços, e rins, como para as armas. Para a cabeça usam de uma peruca ou cabelleira de pennas de cores vermelhas, amarellas, verde-gaio e violetas, que prendem aos cabellos com uma especie de colla ou grude.

Enfeitam a testa com grandes pennas de araras, e outros passaros similhantes, de cores variadas, e dispostas á maneira de mitra, que amarram atraz da cabeça.

Nos braços atam braceletes tambem de pennas de diversas cores, tecidas com fio de algodão, similhante á mitra de que acabamos de fallar.

Nos rins usam de uma roda de pennas da cauda de ema,[15] presa por dois fios d’algodão, tinctos de vermelho, cruzando-se pelos hombros a maneira de suspensorios, de sorte que ao vel-os emplumados, dir-se-hia que são emas, que só tem pennas nestas tres partes do corpo.

Na verdade, quando os vejo assim lembro-me do que antigamente disse Job no cap. 39. Penna struthionis similis est pennis Erodii et Accipitris: a penna de ema é igual a da garça real e do gavião: esta passagem é claramente explicada por diversas licções ou versões dos Gregos e dos Romanos, que tinham por costume apresentarem os coroneis aos capitães e soldados pennas d’ema para collocarem em seos capacetes e morriões afim de animal-os á guerra.

Quiz saber por intermedio do meu interprete porque traziam sobre os rins estas pennas de ema: responderam-me, que seos paes lhes deixaram este costume para ensinar-lhes como deviam proceder na guerra, imitando a ema, pois quando ella se sente mais forte ataca atrevidamente o seo perseguidor, e quando mais fraca abre suas azas, despede o vôo e arremessa com os pés areia e pedras sobre seos inimigos: assim devemos fazer, accrescentavam elles. Reconheci este costume da ema, vendo uma pequena, creada na aldeia de Vsaap, que era perseguida diariamente por todos os rapasinhos do lugar: quando eram só dois ou tres, ella os accommettia, e dando-lhes com o peito, atirava-os por terra, porem quando era maior o numero preferia fugir.

Estou certo, que muitas pessoas se admirarão, não só do que acabo de dizer, mas tambem como é possivel buscarem estes selvagens, meios de governarem-se entre as praticas animaes: si se lembrarem porem que o conhecimento das hervas medicinaes foi ensinado aos homens pela cegonha, pela pomba; pelo viado e pelo cabrito; que a maneira de fazer a guerra e postar sentinellas foi colhida das aves chamadas grous; que a bondade do estado monarchico foi a principio observado entre as abelhas; que os architectos com as andorinhas aprenderam a fazer abobadas; que o proprio Jesus-Christo nos mandou observar o milhafre, o abutre, a aguia e o pardal, desapparecerá a admiração, e especialmente si acreditarem, que estes selvagens imitam com a maior perfeição possivel os passaros e animaes do seo paiz, o que elles exaltam nos cantos que recitam em suas festas.

Por que nos passaros de sua terra predominam as cores verde-gaio, vermelho e amarello elles gostam de pannos e vestidos destas tres cores.

Por que as onças e os javalis são os animaes mais ferozes do mundo, elles arrancam os seos dentes e os trazem nos labios e orelhas afim de parecerem mais terriveis.

As pennas das armas são postas nas extremidades dos arcos e das flexas.

Assim preparados bebem publicamente o vinho de muay, e dizem adeos aos que ficam.

CAPITULO VIII

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Partida dos francezes para o Amazonas em companhia dos selvagens.

Antes que entre na materia, convem narrar o que me disseram os selvagens relativamente á verdade da existencia das Amazonas, porque é questão de todos os dias se n’esses lugares ha Amazonas, e si são similhantes ás descriptas pelos historiadores?

É voz geral e commum entre os selvagens, que ha Amazonas, e que habitam n’uma ilha muito grande, cercada pelo grande rio do Maranhão, ou das Amazonas, que desembocca no mar por um espaço de 50 legoas de largura: que essas Amazonas foram antigamente mulheres e filhas dos Tupinambás, que se retiraram da companhia e do dominio d’elles—seduzidas e guiadas por uma d’ellas: que internando-se pelo paiz ao longo d’esta costa, descobriram á final uma linda ilha, ahi se recolheram, e em certas estações do anno acceitam por companheiros os homens das habitações mais proximas.

Si párem um menino pertence ao pae, que d’elle cuida logo depois de desmamado: si porem é uma menina fica com a mãe em casa. Eis a voz geral e commum.

N’um dia, quando os francezes andavam n’esta viagem, fui visitado por um grande Principal, que morava muito acima n’este rio. Depois dos seos cumprimentos, que descreverei mais adiante, me disse morar nas ultimas terras dos Tupinambás, e que só em duas luas podia voltar do rio Maranhão á sua aldeia, e então lhe respondi admirando-me do trabalho que tomou vindo de tão longe. Replicou-me «fui ao Pará vêr meos parentes, quando foram os francezes guerrear nossos inimigos, e ouvindo fallar de vós e dos outros Padres, quiz vel-os pessoalmente para dar noticias certas aos meos companheiros.»

Por intermedio do meo interprete lhe perguntei si sua residencia era muito longe da das Amazonas, e elle respondeo-me «uma lua,» isto é, um mez para ir.

Repliquei-lhe, si tinha estado entre ellas, e si as tinha visto, e respondeu-me «que nem uma coisa nem outra», pois nas canoas de guerra, onde andou, se desviou da ilha onde ellas residiam.

Esta palavra Amasonas lhes foi imposta pelos portuguezes e francezes[16] pela similhança, que ellas tinham com as antigas Amazonas por causa de sua separação dos homens; porem não cortam a mama direita, e nem imitam a coragem d’essas afamadas guerreiras, mas vivem como as outras mulheres selvagens, ageis e dextras no manejo do arco, e nuas se defendem dos seos inimigos, como podem.

No dia 8 de julho de 1613 do porto de Santa Maria do Maranhão, partio o Sr. Ravardiere ao som de muitos tiros de artilharia e mosquetaria, com que o saudou o Forte de S. Luiz segundo é costume entre os militares.

Levou em sua companhia 40 soldados valentes, e 10 marinheiros, e por cautella tambem 20 dos principaes selvagens, tanto da Ilha do Maranhão e de Tapuytapera, como de Cumã.

Seguio para Cumã[17] onde o esperavam muitas canoas de indios, e provendo-se de farinha seguio para Caieté onde haviam 20 aldeias de Tupinambás, e ahi se demorando mais de um mez, reforçou a tripolação de sua embarcação com mais 60 escravos que lhe deram.

No dia 17 de agosto partio de Caieté com muitos habitantes d’essa localidade, e dirigio-se para a aldeia Meron, onde em grandes canoas embarcou selvagens e francezes, e seguio para a embocadura do rio Pará: em viagem morreo afogado um francez por ter se virado a canoa em que elle ia, porem salvaram-se seos companheiros trepados no dorso da mesma.

O rio Pará desde a sua emboccadura para cima é muito povoado de Tupinambás; chegando á ultima aldeia, situada á 60 legoas da sua emboccadura, todos os principaes d’esses lugares lhe pediram com instancia, que fosse guerrear os Camarapins,[18] os quaes são muito ferozes, não querem paz, e por isso não poupam seos inimigos, pois quando os captivam, matam-nos e comem-nos: poucos dias antes tinham matado tres filhinhos d’um dos principaes dos Tupinambás d’aquellas regiões, e guardaram os ossos d’elles para mostrar aos paes afim de causar-lhes mais dó.

Este exercito de francezes e de Tupinambás, em numero de 1200, sahio do Pará, entrou no rio de Pacajares, d’ahi dirigio-se ao de Parisop,[19] onde encontraram Vuacété ou Vuac-Uaçú, que simpathisando com este movimento offereceo para reforçal-o 1200 dos seos companheiros.

Acceitou-se apenas um pequeno numero de selvagens, que elle mesmo acompanhou, e os encaminhou ao lugar, onde residiam os inimigos, o qual era nas Iuras,[20] que são casas feitas á imitação das «Ponte aux changes,» de S. Miguel de Paris, collocadas no cume de grossas arvores plantadas n’agoa.

Foram immediatamente cercados pelos nossos, que os saudaram com 1000 ou 1200 tiros de mosquetaria em tres horas: defenderam-se porem elles valorosamente de sorte que sobre os nossos cahiam as flexas como chuva ou saraiva, ferindo alguns francezes e Tupinambás, porem não matando um só.

Sobre alguns dispararam-se tiros de morteiro, e de canhão, incendiaram-se-lhes tres Iuras morrendo n’essa occasião 60 indios d’elles, o que somente servio para mais augmentar-lhes o desespero pois antes queriam morrer do que cahir nas mãos dos Tupinambás.

Á vista d’isto resolveo-se abandonal-os com intenção de ver, si n’outra occasião, tratados com doçura podiam ser domesticados.

Durante o medonho combate dos mosqueteiros, usaram os selvagens d’uma traça singular pendurando os seos mortos no parapeito de suas Iuras, e por meio de uma corda de algodão amarrada aos pés faziam com que elles se mexessem.

Pelas fendas ou frestas viam os francezes estes corpos, e julgando-os vivos contra elles faziam fogo tres e quatro vezes a ponto de ficarem despedaçados, o que provocava os gritos e zombarias d’estes canalhas, e somente terminou-se esta triste scena quando uma mulher acenando com um pano branco á maneira dos parlamentares, fez com que cessasse o fogo, e então ella gritou «Vuac, Vuac.» Porque trouxeste estas boccas de fogo, (fallava dos francezes por causa da luz, que sahia das caçoletas de suas armas) para arruinar-nos, e destruir a terra?

«Pensas contar-nos no numero dos teos escravos, eis os ossos dos teos amigos e dos teos alliados, cuja carne comi, e ainda espero comer a tua e a dos teos.»

Pelos interpretes se lhe disse, que se entregasse afim de salvar o resto, que havia.

Não, não, respondeo ella, nunca nos entregaremos aos Tupinambás, elles são traidores. Eis aqui os nossos principaes, que morreram victimas d’essas boccas de fogo de gente, que nunca vimos: si fôr necessario morreremos todos, voluntariamente, como fizeram nossos grandes guerreiros. Nossa nação é grande, e ahi fica para vingar nossa morte.

Um dos seos principaes veio n’uma canoa collocar-se á frente do nosso exercito, trazendo n’uma das mãos um feixe de flexas, e na outra o arco, disse: «Vinde, vinde ao combate, nada tememos, somos valentes, e eu só por mim atravessarei a muitos.»

Chegando-se porem muito perto dos nossos soldados, um d’elles acertou-lhe com uma balla na testa, que o atirou n’agoa ja morto.

Eram tão dextros no manejo das flexas, que atirando-as ao ar vinham cahir na galeota, onde estavam nossos soldados, e nas canoas dos indios, ferindo muitos.

Por isto avaliareis a coragem d’estes selvagens, maus somente pela naturesa.

O que seriam si fossem policiados, ou conduzidos e instruidos pela disciplina militar?

CAPITULO IX

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Do que aconteceu na Ilha durante esta viagem, e principalmente das astucias de um selvagem chamado Capitão.

Em quanto uma parte dos nossos francezes, e muitos dos principaes selvagens estavam no Pará e em suas circumvisinhanças passaram-se na Ilha muitas coisas notaveis, que contarei nos seguintes capitulos.

Tratarei em primeiro lugar de um indio agradavel e astucioso intitulado Capitão,[21] irmão da mãe de um principal, muito amigo dos francezes, chamado Ianuaravaête, que quer dizer cão grande ou cão furioso.

Este Capitão astuciosamente aproximou-se de nós, dizendo por intermedio do interprete, que desejava ser christão, aprender a ler, e a escrever, fallar francez e fazer cortesias, gestos e ceremonias dos francezes.

Acreditaram nas suas palavras, e alguns até cercaram-lhe de muitas attenções.

Passou alguns mezes em nossa visinhança, e mostrando-se com desejos de ter vestidos como os nossos paramentos sagrados, com os quaes diziamos missa; por sua mulher nos mandou pedir, o que negamos.

Não nos deixou por esta recusa, porem algum tempo depois, disfarçando muito bem seo descontentamento, ia á sua aldeia e voltava, até que poude espalhar pela Ilha o boato de que os francezes pretendiam escravisar os Tupinambás, e por tanto que era necessario fugir e abandonal-os.

Alguns acreditaram, e por isso deixaram suas aldeias e foram para outras, onde podessem fugir com mais prestesa si assim fosse necessario.

Julgou chegada a occasião de se fazer valer entre os seos: pois tinha extremo desejo de ser grande, e não podia chegar a sel-o, porque fogem as honras d’aquelles que as procuram com methodo, o que vemos em todas as condicções, e foi este o seo fim e intenção quando de nós se aproximou, servindo-se de nosso concurso para realisar seo desideratum, visto o ambicioso nada poupar, nem mesmo as coisas sagradas, para obter o que deseja.

Principiou visitando as aldeias da Ilha, onde desconfiava ter descontentes, e ahi nas cabanas e na casa-grande, costumava batendo nas coxas grandes palmadas, harengar assim—Ché, Ché, Ché, auaête. Ché, Ché, Ché. Pagy Uaçú, Ché, Ché, Ché, Aiuka pais &: quer isto dizer, eu, eu, eu, sou furioso e valente. Eu, eu, eu, sou um grande feiticeiro. Fui eu, fui eu, fui eu que matei os Padres, etc. Fiz morrer o Padre, que está enterrado em Yuiret, onde mora o Pay Uaçú, o grande Padre a quem reenviei todos os males, que tem causado,[22] e a quem matarei como o outro.

Atormentarei os Francezes com molestias, e lhe darei tantos bixos nas pernas e nos pés, que elles se verão na necessidade de regressar a sua patria. Farei morrer suas plantações e assim morrerão de fome: já com elles morei, comi com elles muitas vezes, e vi o que praticavam quando serviam a Tupan, e reconheci que nada sabiam á vista de nós outros Pagés, feiticeiros.

Á vista disto não devemos temel-os, saiamos, quero caminhar na frente, porque sou forte e valente.

Perto de dois mezes gastou elle percorrendo assim a Ilha sem que de nada soubessemos, porque quando os negocios são secretos e de interesse publico, não são descobertos como acontece quando se trata de utilidade particular.

Japy-açú o reprehendeo e mui acremente por estes discursos, bem como Piraiuua; porem seo irmão o Cão-grande o denunciou, e alem d’isso pedio licença para ir em pessoa agarral-o e prendel-o.

Chegaram promptamente estas noticias aos ouvidos de Capitão, que começou a tremer como si tivesse febre, e não dizia mais Ché auo-êtê, nem Ché Pagi uaçú, ou Ché Aiuca Pay, porem ao contrario diante dos seos, tremendo de medo, dizia: «Ché assequegai seta, ypocku Tupinambo, ypocku decatugué: giriragoy Topinamho giriragoy seta atupaué: ypocku ianuara vaeté, ypocku decatugné giriragoy ianuara vaeté giriragoy seta atupaué.»

Ah! que medo tenho, oh! quanto são malvados os Tupinambás, perfeitos malvados:[23] mentiram os Tupinambás, mentiram muito e muito: o Cão grande, é um malvado, malvado completo: mentio o Cão-grande, mentio tambem muito e muito, etc. Nada disto eu disse, não causei a morte do Padre, não disse que queria fazer morrer o Padre-grande, e nem que lhe dei molestias.

Tambem não disse, que quero atormentar os Francezes, e fazer seccar suas plantas, porque não sou e nem fui feiticeiro, e assim quero ser filho dos Padres, quero voltar e trabalhar para elles, e si os deixei foi para colher meo milho: quero ir ja onde está o Padre-Grande, levar-lhe o meo milho, o meo peixe, e a minha caça, e dar-lhe um dos meos escravos para apaziguar o chefe dos francezes afim delle não crer no Cão grande, que sempre me quer mal embora eu seja seo irmão: muitas vezes me quiz matar, e si o Muruuichaue, quer dizer o «Principal dos Francezes» lhe der uma vez ordem de prender-me, elle me matará sem duvida alguma.

Por estas palavras conhecereis a indole d’estes selvagens, que não dizem a verdade quando necessitam defender-se.

Este miseravel Capitão, fugio e escondeo-se nos mattos, e depois foi para uma aldeia chamada Giroparieta, quer dizer aldeia de todos os diabos, ao pé da praia, e d’ahi enviou-me um dos seos parentes pedir-me paz, e que obtivesse do Maioral o seu perdão.

Mandou-me um seu escravo forte e robusto, bom pescador, e caçador: elle, sua mulher e mais pessoas da familia, me vieram ver, trazendo-me milho, peixe, e caça, e tanto elle como sua mulher muito fallaram para me persuadir de que eu não devia crer o que se dissesse d’elle, chamando os Tupinambás e o Cão-grande,—mentirosos e outros nomes feios, asseverando que era bom amigo, que desejava ser christão, e que si o Maioral, e eu tambem nos esquecessemos de tudo, elle e sua mulher regressariam contentes.

CAPITULO X

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Da chegada de uma barca portugueza á Maranhão.

Quando menos pensavamos, achando-se a Ilha sem indios e sem francezes, por terem aquelles ido viajar pelo Amazonas, e estes pela segunda vez ao Miary, de que brevemente trataremos, por espaço de um mez fomos incommodados com mil noticias, ora de selvagens residentes perto do mar, ora de francezes moradores nos fortes, que diziam ter ouvido tiros de peça para o lado da costa da pequena Ilha de Santa Anna, e da de Tabucuru,[24] e ter visto tres navios velejando ao redor da Ilha, eis que se apresentou uma barca, commandada por um capitão portuguez, chamado Martin Soares.

Vinha da Ilha de Santa Anna, onde tinha desembarcado, tomado posse d’ella para o Rei Catholico, plantado uma grande Cruz, e levantado um marco com uma inscripção, de que logo fallaremos.

Andou este navio por todo o porto de Caurs, saltando sua tripulação sempre que lhe approuve para vêr e escolher lugares proprios á plantação de canas e ao fabrico do assucar, especialmente no lugar chamado Ianuarapin, onde foi erguida uma Cruz com o fim de crear-se uma bella habitação de portuguezes, e construir-se muitos engenhos de assucar.

Approximaram-se depois da enseiada de Caurs, uma das entradas da Ilha, onde depois da sua vinda, se edificaram dois bellos fortes afim de impedir o desembarque.

Elles davam alguns tiros de peça para chamar os selvagens da Ilha: nenhum lá foi, menos o Principal de Itaparis, suspeito por traidor: perguntaram-lhe muita coisa, e ignora-se o que respondeo: deram-lhe machados e fouces, e depois veio para a Ilha.

Os portuguezes traziam comsigo os indios Canibaes,[25] moradores em Mocuru, e parentes de outros do mesmo nome refugiados em Maranhão, os quaes elles mandaram á terra para tomar conhecimento, e informações, si na Ilha haviam muitos francezes, si estavam fortificados, e si tinham canhões.

Felizmente dirigiram-se aos Tupinambás, que lhes disseram não haver na Ilha um só francez, um só forte, um só navio, barca, nem canhão, e com tal segurança principiaram a comer, e os Tupinambás mandaram immediatamente ao forte de S. Luiz contar tudo isto.

Expedio-se logo uma barca, bem esquipada, com o fim de prender os portuguezes; porem aconteceo, que um traidor Canibal, inimigo rancoroso dos francezes, e a quem já se tinha muitas vezes perdoado castigos, em que havia incorrido, sabendo da noticia da vinda dos outros, foi procural-os furtivamente, e em segredo lhes disse—«que fazeis aqui, fugi depressa para o mar, regressae ao vosso navio, porque os francezes tem na Ilha um bello forte, canôas, navios, e canhões.»

Mal ouviram isto, levantaram-se ás pressas, e disseram aos seos hospedes Tupinambás, que os divertiam—Ah! maus, enganaes vossos camaradas—e assim dizendo á passos apressados foram com o traidor para a sua canôa, e em breve chegaram a barca, ancorada n’uma enseiada um pouco adiante.

Vendo isto os portuguezes, desconfiaram logo que os francezes estavam na Ilha, e que não deixariam de os perseguir, e apenas tinham levantado ancoras, descobriram a barca dos francezes, e estes a d’elles, apressaram-se a tomar a dianteira dos portuguezes, navegando á bolina, muito bem, quebrando os rolos d’agoa, pelos bancos d’area, pouco pensando em encalhar comtanto que conseguissem apresional-a do que lhes resultaria muita commodidade, visto conhecer-se a intenção dos portuguezes, descoberta pela bôa vontade dos...

... todas as Nações, e nós vemos por experiencia em varios lugares da França, d’onde veio o proverbio—chorar de alegria.

Chegados ao Forte depois de descançarem como poderam, conservaram-se serios e reservados sem entregarem-se á vivacidade e impulso da curiosidade, e sendo a imperfeição unica dos francezes o fazer tudo ás pressas, buscando todos os meios de conseguir seos fins, foram elles ter com o Maioral, aos quaes assim fallaram:

«Conforme as noticias que déstes a dois dos nossos, escravos entre os Tupinambás, para nos transmittirem fielmente a respeito da tua vinda e da dos Padres n’estes lugares afim de defender-nos dos Peros, e ensinar-nos a conhecer o verdadeiro Deos, dar-nos machados e outras ferramentas para facilitar a nossa vida, fallamos n’isto em muitas reuniões, e recordando-nos de que os francezes sempre nos fôram fieis, vivendo em paz comnosco, e acompanhando-nos á guerra, onde alguns morreram, todos os meos similhantes mostraram-se contentes e resolveram, de combinação com o nosso chefe, obedecer-te e em tudo fazer-te a vontade: eis porque me mandaram expressamente afim de pedir-te alguns francezes para acompanhar-nos e guardar-nos até voltarmos do lugar, por ti indicado.»

Respondeo-se-lhe com palavras de amisade, e que se lhes daria os francezes.

Sahindo d’ahi foram procurar-me em minha casa, onde tambem me exposeram a sua missão, de que fallarei quando for occasião.

Pediram-me o meu pequeno interprete para ir com elles assegurar ao Thion, seo chefe, e a todos os seos companheiros, que eu os receberia como filhos de Deos, e que podiam vir afoitamente confiados na protecção dos Padres.

Acompanhados por muitos francezes e pelo meo interprete, a quem dei algumas imagens como mimos, a Thion, elles embarcaram para o Mearim em busca de suas casas.

Foram recebidos com muitos applausos, choros, lagrymas, e danças de dia e de noite.

Prepararam vinhos em abundancia, presentearam os francezes com muitos porcos do matto e outras caças, e offereceram-lhes muitas raparigas das mais bonitas, o que regeitaram dizendo que Deos não queria, e que os Padres prohibiam, e se quizessem agradar os Padres, quando fossem para a Ilha, deviam levar Cruzes para expellir o Giropary[26] do meio d’elles: assim o disseram, assim o fizeram, plantando muitas Cruzes, em varios lugares na frente de suas casas, como ainda hoje se vê, e que ficaram como prova de habitação antiga, d’onde foram chamados para ir á outra terra, já illuminada pelo conhecimento de Deos, e enriquecida com os Sacrosantos Sacramentos da Igreja, como aconteceo outr’ora com a nação do povo de Israel, que sahio do Egypto em busca da terra da Promissão.

Dispostas estas coisas, cada um cuidou em arrumar-se e fazer sua colheita, destruir as roças, e preparar bom farnél, pois deviam em pouco tempo deixar e abandonar este lugar: indagavam muito de varias coisas tendentes á sua salvação, e eram satisfeitas as suas perguntas.

Aproveitaram-se os Francezes da occasião e facilidade, que lhes offerecia para conquistar a nação proxima de indios inimigos, da aldeia de Thion, e causava pena ouvil-os dizer, que haviam comido a muitos, porque eram mais fortes, tinham maior numero de aldeiamentos e de homens, e o Principal d’elles, chamado Farinha-grossa, valente na guerra, alegre, e muito propenso ao Christianismo, como fallaremos n’outro lugar, dizia com garbo, «si eu quizesse comer os inimigos, não ficaria um só, porem conservei-os para satisfazer minha vontade, uns após outros, entreter meo apetite, e exercitar diariamente minha gente na guerra: e de que serviria matal-os todos de uma só vez quando não havia quem os comesse? Alem d’isto não tendo minha gente com quem bater-se, se desuniriam, e separar-se-iam como aconteceo á Thion.» Assim disse, porque antes estas duas nações formavam uma só, morando juntas, em lugares longinquos e distantes dos inimigos, contra os quaes podiam exercitar-se na guerra, e apezar de tudo atacaram-se reciprocamente.

Tal proceder confirma a bella maxima do Estado—quem deseja conservar o interior em paz, deve empregar os sediciosos fóra d’ahi, especialmente contra os inimigos da fé, e fallando em sentido moral—quem quer salvár o coração de todo o vicio e imperfeição deve resguardal-o das impressões exteriores.

Como condições de paz estabeleceo-se o esquecimento reciproco de todas as injurias, mortes e banquetes com os corpos dos inimigos: que devia revestir-se de paciencia quem mais perdesse: que não devia havêr exprobrações de parte á parte, e quando recolhidos a Ilha, morariam separados uns dos outros, e todos seriam fieis aos Francezes.

Chegada a occasião foram enviadas muitas canoas e barcos, nas quaes vieram para a Ilha.

Foram bem recebidos, o seo chefe Thion saudado com cinco tiros de peça, e duas descargas de mosquetaria, passando por meio de soldados francezes, dispostos conforme as ceremonias da guerra, assim entrou no Forte, onde o Sr. Pesieux e eu o acolhemos, e o condusimos á sua casa para descançar.

Em lugar proprio contarei o que elle nos disse.

CAPITULO XIII

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Do valor e dos costumes dos selvagens do Miary.

Conversando familiarmente com esta nação, descubri muitas de suas particularidades, e tambem outras, pertencentes tanto á elles como á todos os Tupinambás, ainda não escriptas por pessoa alguma, ou ao menos mencionadas sufficientemente, e como são bellas e raras tractarei d’ellas mais detidamente.

Estes povos, antes de reunidos, eram chamados Tabajares pelos Tupinambás.[27]

Este nome é appelativo e commum para designar toda a sorte de inimigos, e tanto assim é, que esta mesma nação de Tabajares chamava os Tupinambás da ilha Tabajares, Topinambas, embora pacificados e amigos. Os Topinambas os chamavam Mearinenses, quer dizer vindos do Miary,[28] ou habitantes do Miary, assim como os Dinamarquezes, que vieram occupar a Neustria, Provincia antiga e dependente da Corôa de França, foram chamados Normandos, e sendo ella conservada em homenagem pelos Reis de França, perdeo seo antigo nome, e conservou o de Normandia.

Os francezes os chamam Pedras-verdes[29] por causa de uma montanha, não muito longe de sua antiga habitação, onde se acham mui bellas e preciosas pedras verdes, dotadas de muitas propriedades, especialmente contra doenças do baço, e frouxo de sangue, e tambem me disseram haver ahi esmeraldas muito finas: ahi hiam os selvagens buscar estas pedras verdes tanto para collocal-as em seos labios, como para negocio com as nações visinhas.

Os Tupinambás e os Tapuias dão muito apreço a estas pedras:[30] vi por uma pedra para o beiço dar o valor de mais de vinte escudos de mercadorias um Tupinambá á um Miarinense, em nossa casa de São Francisco, no Maranhão.

Um certo Cabelo comprido veio ter comnosco, ornado com seos enfeites mais lindos, que consistiam em dois chifres de bodes, e quatro dentes de corça, muito cumpridos, em vez de brincos, de que muito se orgulhava por havel-os alcançado com industria, ao passo que era commum, especialmente entre as mulheres, trasel-os de madeira, redondos, muito toscos, e da grossura de dois dedos: calculae o buraco, que fazem nas orelhas: a maior porem de suas ostentações era uma destas pedras verdes, de comprimento, pelo menos, de quatro dedos, bem redonda, o que me agradou tanto á ponto de desejar trazel-a para a França. Perguntei-lhe o que queria que lhe désse por esta pedra: respondeo-me, «dê-me um Navio de França, carregado de machados, de foices, de vestidos, de espadas e de arcabuses.»

Outro Tupinambá, já muito velho, trazia uma pedra destas em seo labio inferior: era oval e tão larga como o concavo da mão, e como a tivesse trasido por muito tempo ahi, sem nunca tiral-a, estava como que encaixilhada no seo queixo, ja tendo a carne se dobrado sobre os bordos da pedra e tomado a sua propria forma.

Narrei tudo isto afim de demonstrar o valor destas pedras verdes.

Estes Miarinenses são ordinariamente de boa estatura, bem conformados, e valentes na guerra: sendo bem guiados não recuam e nem fogem como os outros Tupinambás, explicando-se isto pelo facto de serem criados entre os combates, sempre travados contra os portuguezes, aos quaes atacaram outr’ora, escalaram suas fortalezas, tomaram suas bandeiras e nunca mais abandonaram sua primeira habitação, como nos contou Thion, seo Principal, quando veio do Forte de São Luiz, se a falta de canhões não obrigasse os francezes, que estavam com elles, a cederem á força e á superioridade do numero dos portuguezes.

Causa gosto ver o zelo e o cuidado, com que trazem as espadas, que lhes dão os francezes, sempre a seo lado, sem nunca tiral-as senão quando se deitam, e quando trabalham em suas roças, penduram-nas junto a si em algum ramo de arvore, fazendo-me lembrar a historia de Nehemias, na reparação dos muros de Jerusalem, quando os seos habitantes trasiam n’uma das mãos as armas e na outra os instrumentos do trabalho.

Gostam muito de traser as espadas tão limpas como cristal, e para isso as esfregam com areia fina e azeite de mamona, amolam-nas repetidas vezes para estarem sempre cortantes, aguçam as pontas, quando estão gastas pela ferrugem muito commum na zona tórrida.

Acostumam-se a bem manejal-as, fazendo marchas e contra-marchas, á maneira dos suissos quando esgrimam.

Alem de serem corajosos e bons soldados, trabalham muito bem, e antes quero uma hora de tarefa d’elles do que um dia dos Tupinambás.

Seos Principaes trabalham tanto quanto os seos subordinados de menor representação, porem o serviço está bem regulado, porque ao romper do dia levantam-se, almoçam, e depois vão elles mulher e filhos, conjunctamente, alegres risonhos, cantando trabalhar em suas roças, e quando o sol principia a chegar ao seo maior auge do calor, que é perto das dez horas, deixam a lida, vão comer e dormir, e duas horas depois do meio dia, quando o sol principia a declinar voltam outra vez ao trabalho, onde se conservam até ao anoitecer.

Os Principaes, que ordinariamente tem mesa franca, para o que necessitam de roças maiores, preparam um Cauin geral, e como todos partilham d’elle, se incumbem de cuidar nas plantações, o que fazem com alegria n’uma ou duas manhãs, e depois vão beber na casa d’aquelle para quem trabalharam, bebendo cada um quando chega a sua vez, e quando o acham bom o gabam com todas as suas forças, compõem cantigas adequadas, que entoam ao redor da casa ao som do Maracá, pronunciando estas ou outras similhantes palavras: «oh! o vinho, o bom vinho, nunca elle teve igual; oh! o vinho, o bom vinho, nós o beberemos á vontade, oh! o vinho, o bom vinho, n’elle não acharemos preguiça.»

Chamam o vinho preguiçoso quando não tem força bastante para embriagal-os immediatamente, e que não lhes provocam o vomito por mais que bebam.

Tomam as raparigas parte n’esta festa, onde se dança e canta-se á fartar, deitam-se os que se embriagam logo e raras vezes apparecem questões: são alegres e agradaveis n’essa occasião, especialmente as mulheres, que fazem mil macaquices á ponto de provocarem grande hilaridade, até a individuos mais tristes e melancolicos. Por mim confesso, que nunca em minha vida me ri tanto como quando estas mulheres altercavam umas com as outras, empunhando copos de madeira cheios de vinho, bebendo ora um, ora outro, fazendo muitas macaquices e tregeitos.

Dão com muita facilidade o que mais presam, como sejam suas filhas e suas mulheres, porque observei quando se cuidou na segunda viagem do Miary que muitos Tupinambás tanto da Ilha do Maranhão, como de Tapuitapera, foram de proposito com os Francezes para pedirem filhas e mulheres dos Miarinenses, o que facilmente obtiveram, como muitas outras coisas, que só fazem estes povos, e por isso mesmo muito caros e preciosos entre os Tupinambás.

Tambem tem por costume, que igualmente observei entre os Tupinambás, o trazerem assobios e flautas, feitos dos ossos das pernas, coxas e braços de seos inimigos, dos quaes arrancam sons fortes, agudos e claros, e ao som d’elles entoam seos cantos usuaes, especialmente quando estão nos Cauins, ou quando vão a guerra.

As raparigas não se despresam em casar com velhos e grisalhos, como praticam as dos Tupinambás, e sim antes querem esposar um velho, especialmente quando é Principal, e admirei-me, como coisa desagradavel, o vêr muitas jovens, de quinze a deseseis annos, casadas com velhos, e o contrario praticam as raparigas dos Tupinambás, as quaes passam a sua mocidade livremente, e depois acceitam um marido.

O que acabei de dizer, só tem por fim o mostrar a cegueira das almas captivadas pelo espirito immundo, que não se descuida de perdel-as por meio de suas traças.

CAPITULO XIV

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Das incisões, que fazem estes selvagens em seos corpos e como escravisam seos inimigos.

Estes povos, e não só elles, porem geralmente todos os Indios do Brazil, tem por costume cortar o corpo, e recortal-o tão lindamente, que os costureiros e alfaiates, embora habeis em sua profissão, buscam imital-os no córte dos seos vestidos.

Este costume não é só privativo dos homens, e sim tambem das mulheres, com a differença unica de que os homens se cortam por todo o corpo, e as mulheres apenas desde o umbigo até as coxas, o que praticam por meio de um dente de Cutia, muito agudo, e uma especie de gomma queimada, reduzida á carvão, applicada sobre a chaga, e nunca se apagam os córtes.

Digo de passagem e não para demorar-me, e sim apenas para descubrir a origem deste antigo costume, que me parece ser fundado pela naturesa, visto ser praticado, já ha muitos annos, por nações civilisadas, cujo conhecimento por falta de communicação não podia ter esta Nação barbara, e assim inventou-o e d’elle usou.

Soube d’estes selvagens, que duas razões os levam a cortar assim seos corpos, uma significa o pesar e o sentimento, que tem pela morte de seos paes, assassinados pelos seos inimigos, e outra representa o protesto de vingança, que contra estes promettem elles, como valentes e fortes, parecendo quererem dizer por estes córtes dolorosos, que não pouparam nem seo sangue e nem sua vida para vingal-os, e na verdade quanto mais estigmatisados mais valentes e corajosos são reputados, no que tambem são imitados pelas mulheres de iguaes qualidades.

Para mostrar a origem anterior d’este costume, não necessito remontar-me ás historias profanas, no que seria prolixo, e sim contentar-me-hei fazendo vêr em diversos trechos das escripturas sanctas quanto Deos reprova este uso barbaro e selvagem. No Levitico 19. Super mortuo non incidetis carnem vestram, nec figuras aliquas, aut stigmatas facietis vobis. Sobre a vossa carne não fareis incisões, figuras ou signaes. No cap. 21. Necque in carnibus suis facient incisuras: e não farão incisões na sua carne. No Deut. 14. Non vos incidetis, necfacietis calvitiem super mortuo. No morto não fareis incisões e nem cortareis os cabellos.

Á respeito d’estas passagens interpretam os Padres, como fazem os gentios e os idolatras, e de maneira notavel este trecho—não fareis incisões e nem cortareis os cabellos, por que se vêem juntas estas duas coisas, que os indios sempre separam restrictamente: quanto á incisão, já sabeis o que ella significa, mas quanto ao arrancamento do cabello ficae sabendo, que apenas as mulheres e as moças sabem do captiveiro ou morte na guerra dos seos Paes ou maridos, cortam os cabellos, gritam e lamentam-se horrivelmente, excitando seos similhantes á vingança, á tomar as armas e a perseguir seos inimigos, como farei vêr quando narrar a Historia dos Tremembeses.

Dos escravos, que me deram n’aquelle paiz para trabalharem á bem da minha subsistencia soube da maneira como faziam prisioneiros e escravos.

N’um certo dia reprehendi a preguiça d’um d’elles, fórte e valente, que me fora dado por um Tupinambá, e elle para minha advertencia me deo a seguinte resposta, embora branda (bem sei o que é necessario observar para com esta nação, que as reprehensões consideram como chagas e feridas, e aos castigos preferem a morte,[31] e por esta forma desejam antes morrer com honra, segundo dizem, no meio das assembleias, como ja muito bem descreveo o Padre Claudio d’Abbeville): eil-a «na guerra não me pozeste a mão sobre a espadua,[32] como fez aquelle que me deo a ti para agora me reprehenderes.» Nasceo-me logo a curiosidade de saber por intermedio do meu interprete o que elle queria dizer, e então fiquei sciente de ser uma ceremonia de guerra entre estas nações, quando um é prisioneiro do outro, bater-lhe este com a mão sobre a espadua e dizer-lhe—faço-te meo escravo—e desde então este infeliz captivo, por maior que seja entre os seos, se reconhece escravo e vencido, acompanha o vencedor, serve-o fielmente sem que seo senhor ande vigiando-o, tendo liberdade para andar por onde quiser, só fazendo o que fôr de sua vontade, e de ordinario casa-se com a filha ou a irmã do seo senhor, e assim vive até o dia em que deve ser morto e comido, o que não se pratica mais em Maranhão, Tapuitapera e em Cumã, e só raras vezes em Caieté.

Estas nações me despertaram a lembrança do que li outr’ora nos livros sagrados e na Historia dos Romanos, quando procediam ao captiveiro dos prisioneiros, e para bem entender-se bom é notar-se, que foram as ceremonias externas inventadas para representarem com sinceridade as affeições do interior: por exemplo, dobrar o joelho, beijar a mão, descubrir a cabeça, quando saudamos alguem, que estimamos, são outros tantos testemunhos de apreço interno em que o temos: outr’ora as espadas tinham hierogliphos representando o mysterio occulto das acções internas e externas dos homens.

Deixando de parte o que não serve ao meo fim contento-me em referir os dois seguintes casos:—o sceptro apoiado sobre a espadua significa o poder regio: a alabarda sobre a espadua declara o poder dos chefes de guerra: as maças de ouro e prata—o poder dos Senados e dos Pontifices: os machados com ramos de parreira enroscadas—o poder dos consulados e dos governadores das provincias. Observe-se o que foi escripto por Isaias cap. 9. Factus est Principatus super humerum ejus, seo dominio foi posto sobre sua espadua, e no cap. 22. Dabo clavem domus Davis super humerum ejus, e porei a chave da casa de David sobre sua espadua, quer dizer o—sceptro de David.

Ao contrario, pôr uma canga, como trazem os bois ou cavallos quando no trabalho, ou então passar debaixo de uma lança, atravessada sobre duas outras fixadas perpendicularmente, ou receber sobre a espadua nua uma vergastada era o signal da escravidão, como muito bem o patenteiou Isaias, cap. 9. Jugum oneris ejus et virgam humeris ejus, et sceptrum exactoris ejus superasti: venceste o jugo do teu fardo e a vara de sua espada, o sceptro do seu exactor, fallando do captiveiro da Gentilidade, libertada pelo Salvador: assim tambem estes selvagens batendo sobre o hombro de seus prisioneiros, significavam serem elles seos captivos, e na verdade encontro uma bella profecia, toda litteral, narrando esta desgraça, á qual estão sujeitos estes pobres selvagens de Chanaan, por juizo impenetravel da sabedoria divina, e participação da antiga maldição de Channan, seo Pae: é em Isaias, cap. 47—Tolle molam, et mole farinam: denuda turpitudinem tuam, discooperi humerum, revela crura, transit flumina, toma a mó, e móe a farinha, descobre tua torpesa e tua espadua, mostra tuas coxas e passa o rio.

Tomam estes selvagens a mó, e a farinha, não tendo ferramenta alguma para trabalhar, quer nos bosques quer nas roças, servem-se unicamente de machados de pedra para cortar arvores, fazer suas casas e canoas, aguçar paus, cultivar a terra, semeiar, plantar raizes, e por unica recompensa de seos trabalhos só comem farinha, e raizes passadas por um rallador, feito de pedrinhas agudas, engastadas n’uma taboa da largura de meio pé.

Cosinham a farinha n’uma grande panella de barro, ao fogo, como amplamente está escripto na Historia do R. Padre Claudio d’Abbeville.

É tão patente sua torpesa, que suas mulheres e filhas, embora honestas, sentem repugnancia de se vestirem. Trazem o hombro descuberto, sujeito á este grande captiveiro, commum a todas as nações. Mostram suas coxas, e a falta de castidade está em uso entre elles sem reprovação, menos o adulterio.

Passam rios buscando ilhas incognitas atraz de segurança.

CAPITULO XV

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Leis do Captiveiro.

Já que estamos fallando dos escravos bom é tratar das leis do captiveiro, isto é, das que devem guardar os escravos.

Primeiramente não devem tocar na mulher do seo senhor, sob pena de serem flexados logo, e a mulher morta ou pelo menos bem açoitada, e entregue a seos Paes, resultando-lhe muita vergonha de ser companheira de um dos seos servos.

Notae, que as raparigas não são despresadas por se entregarem a quem muito bem lhes parece em quanto solteiras, logo porem que recebem um marido, si se entregam a outro, alem da injuria de serem chamadas Patakeres, quer dizer, prostitutas, tem seos maridos o poder de matal-as, açoital-as e repudial-as.

É bem verdade terem os francezes abrandado esta lei tão rude, não dando permissão aos maridos de matar tanto o escravo como a mulher adultera, ordenando que fossem conduzidos ao Forte de São Luiz para vêr punil-as, ou elle mesmo infringir-lhes o castigo, como vi acontecer, entre outros factos, no adulterio commettido entre a mulher do Principal Uyrapyran, e um escravo, bonito rapaz.

Tinha o referido escravo muito amor a esta mulher, e depois de ter cogitado todos os meios de gosal-a, vio-a ir um dia á fonte, muito longe da aldeia, foi logo atraz expôr-lhe sua vontade, e depois agarrando-a com violencia entranhou-se com ella n’um bosque, onde saciou seos desejos, e como ella era de boa familia não quiz gritar para não ser diffamada, e ainda em cima pedio segredo ao escravo.

Enfadado o marido com a grande demora da mulher, e desconfiando de alguma cousa por ser bonita e agradavel, foi á fonte, onde encontrou junto a borda o pote de sua mulher cheio d’agoa, e lançando a vista ao redor, como costumam a praticar os homens ciumentos, vio sahir sua mulher de um lado do bosque e o escravo de outro. Agarrou o escravo pelo colleirinho, e confiou-o à guarda dos seos amigos, e levou sua mulher para casa de seos paes, que se comprometteram a entregal-a quando pedisse.

Na manhã seguinte, em companhia dos seos, levou este escravo á minha casa, expondo-me o facto como acima referi, acrescentando que si não fosse o respeito ás recommendações dos Padres e dos Francezes, elle teria matado o escravo, perdoando comtudo a sua mulher visto ter sido forçada, a qual ja havia entregado a seos parentes com intenção de repudial-a.

Louvei a sua obediencia e respeito: era na verdade um homem bem feito, de bonito rosto, e bom corpo, fallando bem e em bons termos, mostrando tanto nas maneiras como no corpo, generosidade e nobresa de coragem.

Mandei-o á presença do senhor de Pezieux, loco-tenente de Sua Magestade na ausencia do Sr. de la Ravardiere, que tendo ouvido a queixa, mandou carregar de ferros os pés do escravo, promettendo ao Principal fazer a justiça, que elle quizesse.

Replicou-lhe o Principal que desejava vel-o morto como era costume: respondeo o senhor de Pezieux, que Deos tinha ordenado em sua lei, que deviam morrer tanto o homem como a mulher adultera.

Sim, disse o Principal, porem ella foi constrangida.

«Não, respondeo o senhor de Pezieux, a mulher não pode ser forçada por um só homem, ou pelo menos deve gritar, e não pedir segredo ao selvagem, o que é tacito consentimento:» dizia tudo isto para salvar o escravo da morte, por que muito bem sabia não concordar o Principal na morte de sua mulher visto os muitos parentes que ella tinha.

Conseguio-o logo, porque elle pedio ao Sr. de Pezieux, que não matasse o escravo, mas sim que o prendesse na golilha, e que lhe fosse permittido açoital-o á vontade.

«Sim, disse-lhe o Sr. de Pezieux, com tanto que dês quatro açoites com cordas em tua mulher, diante de todas as mulheres, que se acharem no Forte, e ao som da corneta.»

Acordes n’isto, na manhã seguinte, foi a mulher conduzida e confrontada com o escravo, reconheceo-se que o facto deo-se como ja referi, foram ambos conduzidos á praça publica do Forte, onde se fincou o esteio e a golilha: ahi o marido representou o papel de verdugo, escolheo tres ou quatro cordas bem duras, que enrolou em seo braço, e voltou em sua mão direita, e com ellas açoitou sua mulher por quatro vezes, deixando-lhes vergões bem grossos e cumpridos, impressos sobre seos rins, ventre e costas, não sem derramar muitas lagrimas, que lhe corriam ao longo das faces, e sem exhalar profundos suspiros: sua mulher tambem gemia, com a vista baixa, envergonhada de assim se vêr rodeiada por tantas mulheres, que, como ella, tambem choravam tanto por compaixão, como apprehensivas de que para o futuro não lhes acontecesse o mesmo.

Os homens ao contrario mostravam-se alegres diante de tão boa justiça, e gracejando diziam á suas mulheres—ah! se te pilho!

Durante todo o dia estiveram tristes as mulheres dos Tabajares.

Depois de haver açoitado sua mulher, este bom marido lhe disse «eu não tinha desejos de castigar-te, fiz o que pude perante o Maioral dos Francezes para salvar-te, porem vae, enchuga tuas lagrimas, e tornar-te hei a tomar por mulher, e te levarei para casa quando acabar de castigar este escravo.»

Sabe Deos, se o pesar que elle teve pelos açoites, que deo a mulher, melhorou a sorte do pobre escravo, porque pondo-o na praça ou no largo, fez um circulo do tamanho do seo chicote, separado todos, um por um.

Tinha o escravo ferros nos pés, estava em pé, nu como a palma da mão, e assim soffreu o castigo, sem dizer uma palavra e sem mecher-se: por tres vezes cansado e sem poder respirar descançou, depois de fortalecido recommeçou e de tal maneira, que não poupou uma só parte do corpo.

Começou pelos pés, seguio pelas pernas, coxas, partes naturaes, rins, ventre, espaduas, peito, e acabou pelo rosto e testa.

Esteve muito tempo doente por este castigo, sempre com ferros nos pés, conforme pedio o Principal, porem passado algum tempo consentio que lhos tirassem, á pedido do senhor de Pezieux, que desejava satisfazer os desejos dos seos Principaes para melhor obrigal-os a serem fieis aos Francezes.

Acabado isto, tomou conta da mulher, que já não chorava, e sim principiava a rir-se, e assim voltaram para casa como se nada tivesse acontecido.

CAPITULO XVI

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Outras leis para os escravos.

Consistem as outras leis, em não poderem os escravos, de ambos os sexos, casarem-se senão á vontade dos seos senhores, porque tanto uns como outros moram juntos e seos descendentes pertencem ao mesmo domno.

Os selvagens Tupinambás tomam ordinariamente para mulher as raparigas captivas, e dão suas proprias filhas ou irmans aos mancebos escravos afim de cuidarem no arranjo da casa e da cozinha.

Praticam o contrario os francezes, porque compram homens e mulheres escravas para casal-os, ficando a mulher com o dever de cuidar no arranjo da casa, e o marido com o de ir pescar e caçar.

Se acontece um francez comprar alguma rapariga escrava, mostra-a a algum joven Tupinambá, que morre de amores pelas que são bellas, depois promette-lhe que será seo genro pois ama sua escrava como si fosse sua propria filha para assim vir o Tupinambá morar com elle, casar com a rapariga, e por esta forma ter por uma escrava dois escravos, a quem trata por filha e genro, e elles o chamam seo Cheru, isto é, seo Pae.

As raparigas escravas, que não se casão, dispoem de si como querem, si por ventura seos senhores não lhe prohibem relações com certos e determinados individuos, porque então em caso contrario soffrem muito; mas quando seos senhores lhe impoem completa abstinencia, ellas lhe dizem bem claramente, que então as tomem por mulheres visto não querer, que alguem as ame.

Devem os escravos trazer fielmente o resultado da sua pescaria e caçada, e depôl-o aos pés do seo senhor ou senhora, para elles escolherem e depois lhes darem o resto.

Não podem trabalhar para outrem sem consentimento do seo senhor, e nem dar seo rebanho, que lhes deo o senhor, sem lhe dizerem antes uma palavra, pois de outra forma pode ser tomado como coisa, que não pertence legitimamente aos escravos.

Não devem passar atravez da parede das casas, somente feita de pindoba, ou de ramos de palmeira, ao contrario são criminosos de morte, porque devem passar pela porta, commum, ou atravez da parede de palmas.

Não devem fugir, porque quando são agarrados, está tudo perdido, visto que são comidos: n’este caso já não pertencem ao senhor, e sim a todos, e para este fim quando se prende um escravo fugido, sahem da aldeia as velhas, vão ao seu encontro, e gritando dizem «é nosso, entregae-nos, queremos comel-o», e batendo com a mão na bocca, gritam uns para os outros com certa expressão «nós o comeremos, nós o comeremos, é nosso.»

Vou dar-lhes um exemplo:

Um guerreiro Principal da ilha do Maranhão, chamado Ybuira Pointan,[33] quer dizer, Pau brasil, ao regressar da guerra trouxe comsigo alguns escravos, dos quaes um procurou salvar-se pela fuga, porem sendo agarrado, foram as velhas ao seu encontro batendo na bocca com as mãos, e dizendo «é nosso, entregae-o, é necessario que seja comido».

Houve muita difficuldade em salval-o apezar da prohibição de não se comerem os escravos, e si não se empregassem ameaças, elle seria devorado pelas velhas.

Si acontece morrerem de molestias estes escravos, sendo assim privados do leito de honra, isto é, de serem mortos e comidos publicamente, um pouco antes do seo fallecimento levam-nos para o matto, lá partem-lhe a cabeça, espalham o cerebro, e deixam o corpo insepulto e entregue a certas aves grandes, similhantes aos nossos corvos, que comem os enforcados e os rodados.

Quando são achados mortos em seos leitos, atiram-nos em terra, arrastam-nos pelos pés até o matto, onde lhes racham a cabeça, como acima disse, o que ja não se pratica na Ilha e nem em suas circumvisinhanças, senão raras vezes e occultamente.

Gozam tambem de muitos privilegios, que os levam a residir voluntariamente entre os Tupinambás, sem desejar fugir, considerando seos senhores e senhoras como paes e mães, pela docilidade com que os tratam cumprindo assim seo dever; não ralham com elles e nem os offendem, não os espancam, desculpam-nos em muita coisa contanto que não offenda os seos costumes: são muito compadecidos, e chegam a chorar quando os francezes tratam os seos com aspereza, e si outros se lastimam do procedimento dos francezes prestam-lhe todo o credito ao que dizem.

Quando fogem dos francezes elles os occultam, levam-lhes o sustento nos mattos, vão vesital-os, as raparigas vão dormir com elles, contam-lhes o que se passa, aconselham-nos sobre o que devem fazer, e de tal sorte que é muito difficil agarral-os, embora vão atraz d’elles uns vinte homens, e isto não fazem para com os escravos dos seos similhantes.

Vem a proposito o contar que um dia perguntei a um dos escravos, que tinha em meu poder, si não estava satisfeito vivendo commigo, não só porque lhe ensinei a temer a Deos, como tambem pela certesa, que tinha, de não ser comido, e que, quando christão, seria livre, morando com os padres como si fosse filho d’elles.

Pelo interprete respondeo-me julgar-se feliz por haver cahido nas mãos dos Padres, tanto por conhecer á Deos como por viver com elles, e si fosse para o poder de outro chefe, não estaria socegado e nem descançado de não ser comido, porque, acrescentava elle, quando se morre, nada mais se sente, quer elles comam ou não, e o mesmo para o morto: amofinar-me-ia de morrer na minha cama, e não á maneira dos grandes no meio das danças e dos Cauins, afim de vingar-me antes de morrer, dos que iriam comer-me.

Quando penso, que sou filho de um dos grandes do meo paiz, que meo pae é homem moderado, que todos o cercavam para escutal-o quando elle ia á casa grande,[34] vendo-me agora escravo, sem pintura no corpo, sem cocar, sem enfeites nos braços, e nem nos pulsos, como acontece aos filhos dos grandes das nossas terras, antes queria ser morto especialmente quando me lembro, que fui agarrado ainda menino, com minha mãe, lá na minha terra, e trazido para Comã, onde vi matar e comer minha mãe, com quem desejei morrer, porque ella me amava muito, e por isso não posso senão lamentar minha vida.

Proferindo estas palavras, chorou muito, a ponto de pungir-me o coração, visto saber por experiencia quanto são amorosos estes selvagens, para com seos paes, e estes para com elles.

Accrescentou, que depois de ter sido sua mãe morta e comida, seo senhor e sua senhora o adoptaram por filho, e elle os tratava por pae e mãe: quando fallava d’elles era com affeição inexplicavel, embora tivessem comido sua propria mãe, e ja fosse resolvido o comel-o tambem pouco tempo antes de chegarmos á Ilha.

Seo senhor e senhora tomavam o trabalho de vir vel-o em nossa casa, embora fosse necessario vencer a distancia de 50 legoas, desde sua aldeia até aqui.

Gozam ainda de muitos outros privilegios, porque lhes é permittido o namorar as raparigas livres, sem risco algum, olhar mesmo para as raparigas de seo senhor e senhora, si quizerem, e n’isto não ha muita recusa, comtudo ellas buscam os mattos e em certas cabanazinhas os esperam em hora marcada, para evitar pequeno remoque que costumam a fazer das moças de boa raça, quando se entregam a escravos, o que serve antes de riso do que de deshonra.

Vão livremente aos Cauins, e dansas publicas, enfeitando de mil maneiras o seo corpo quer com pinturas, quer com pennas, quando podem, pois estas são muito caras.

Vivem com os filhos de seos senhores, como si fossem irmãos, e em breve tempo gozam muita liberdade no seo captiveiro.

CAPITULO XVII

Índice de conteúdo

Quanto são misericordiosos os selvagens para com os criminosos por acaso e sem malicia.

Entre as perfeições naturaes que a experiencia me tem mostrado n’estes selvagens, nota-se uma justa misericordia, isto é, desejam a punição dos maus, quando por maldade praticam algum crime, e ao contrario são compadecidos e pedem misericordia para aquelles, que por acaso ou inadvertidamente incorrem n’alguma falta, e isto vou provar á vista do seguinte exemplo.

Maioba é uma grande aldeia, distante tres leguas do Forte de São Luiz: o seo Principal é um bom homem, amado pelos francezes, e veio fazer a nossa casa.

Tinha dois filhos fortes e robustos, ambos casados, e duas filhas, uma casada e outra solteira, bonitas e engraçadas, muito amadas por seo Pae e Mãe, de tal forma que eram perdidos por ellas e o assumpto predilecto de suas conversações, e guardavam a solteira para um francez quando voltassem os navios, diziam elles, e que os francezes se resolvessem a casar com indias.

Fundava seos castellos e sua fortuna sobre um fragil barco, similhante a aquella boa mulher, que tendo em suas mãos o primeiro ovo de sua gallinha, sua imaginação ia levantando-a até um principado, que d’ahi ha pouco cahio no chão e inutilisou-se, e com elle foi-se toda a ventura esperada por ella.

Assim este homem não tendo outra consolação senão em sua filha, poucos dias depois, por uma noite tão triste, Geropary torceo o collo d’esta plantinha, virando-lhe a bocca para as costas: coisa terrivel! estava negra como o diabo, os olhos esbugalhados e revirados, a bocca aberta, a lingua sahida para fóra, os labios superiores e inferiores revirados á deixar vêr os dentes e as gengivas, o que poderia pela tristesa e medo, que causava, matar a seos parentes.

Nunca pude saber qual foi a causa d’isto, e apenas me disseram que era infiel, e talvez vivesse deshonestamente, porem nunca deo escandalo.

Embora seo pae tivesse vendido sua filha mais velha á algum francez para d’ella abusar, depois a tirou da companhia do seo marido.

Dizem os que se acham em peccado mortal, que elles estão sob o dominio e posse do diabo, e o mesmo lhes aconteceria, si Deos quizesse.

Não foi só esta desgraça, porque uma arrasta outra comsigo, e a primeira é embaixadora da segunda.

Pouco tempo depois, este Principal fez uma festa de vinho publicamente, e para isto convidou não só os habitantes de sua aldeia, como tambem os da visinhança.

Quando todos dançavam e cantavam, quando o vinho fervia e muitos já se achavam embriagados, seos dois filhos, de que ja fallei, travaram-se de razões, e o autor da questão querendo agarrar seo irmão, por um acaso ferio-lhe no ventre com um punhado de flechas, que este trasia pelo que cahio logo banhado em sangue. Tiraram-se as flexas com muita dor, como bem se calcula, o soffrimento fez desapparecer o vinho, a festa ficou perturbada, as cantorias se mudaram em gritos e lamentos, o vinho em lagrimas, as dansas em espancamentos proprios e arrancamento de cabellos.

O infeliz pae, expectador de similhante tragedia, assentado n’uma rede d’algodão, teve um desmaio, e cahio para traz.

Voltando a si, disse aos que o rodeiavam, que de uma só vez perdeo seos dois filhos, não fallando na que tinha perdido antes, um ferido por sua culpa, e o outro que os francezes mandariam matar; todos se condoeram d’elle.

Resolveram todos os Principaes da Ilha a virem ao Forte de São Luiz interceder a favor do vivo.

Em quanto se passavam estes factos, o ferido contra sua vontade, aproximava-se da morte, chamou seo irmão, e lhe disse: sou um grande criminoso, pois de uma só vez matei muitas pessoas, isto é, a mim, a meo pae, que morrerá de tristesa e a ti porque os francezes te mandarão matar: elles são justiceiros em punir os maus: mas sabes tu o que ha? toma meo conselho, e faze o que te digo.

Os Padres que vieram com os francezes, são compadecidos, e nos amam e aos nossos filhos, e pelos seos interpretes soube que aqui vieram para salvar-nos.

Já ouvi dizer, n’uma reunião a um dos nossos similhantes, que os antecessores dos Padres baptisaram antigamente em quanto com elles estiveram, e que vio os Canibaes se abrigarem em suas Igrejas, quando faziam alguma maldade, por terem certesa de que ahi ninguem lhes faria mal.

Faze o mesmo, quando anoitecer vae com meo Pae procurar o Padre na sua cabana de Yviret, pede para te pôr na casa de Deos, que é defronte da residencia d’elle, e ahi fica, até que meo Pae, conjuntamente com os Principaes, intercedam por ti, e consigam o teo perdão do Maioral dos francezes.

Para mais facilidade, tu sabes que os Francezes necessitam de canoas e de escravos, offereça pois meo Pae ao chefe tua canoa e teos escravos, para que não morras.

Tudo isto foi cumprido pontualmente, porque este velho, Pae dos dois rapazes, foi procurar-me, rogou-me e instou-me para que recebesse seo filho na casa de Deos, e intercedesse para ser perdoado pelo Maioral dos Francezes, buscando convencer-me, entre outras, com estas razões.

«Vós outros Padres fazeis regorgitar de povo as nossas Casas Grandes, quando quereis, desejando vêr ahi grandes e pequenos, afim de ouvirem a causa, que vos obrigou a deixar vossas casas e terras, muito melhores do que estas, para nos ensinarem a naturesa de Deos, que é, como dizeis, bom, misericordioso, amante da vida e inimigo da morte, e por isso não quer que ninguem morra assim como elle morreo n’um madeiro para fazer viver os mortos.

«Dizeis ainda, que nossos filhos não são mais nossos, o sim vossos, que Deos vol-os deo, e que d’elles tomaes cuidados até a morte: mostrae-me hoje, que vossa palavra é verdadeira.

«Estou velho, perdi todos os meos filhos, só me resta um, que fez esta casa, que vos estima muito, e a todos os Padres e quer ser christão.

«Matou seo irmão sem querer, ou melhor, foi seo irmão quem se matou a si proprio com as flechas, que trazia. Rogo-te o recebas na casa de Deos, e vem commigo fallar ao chefe, porque elle nada te recusará visto estimar-te muito.

«Quiz trazer commigo o filho, a favor de quem intercedo porem elle teme muito a ira dos Francezes: actualmente anda errante e fugitivo pelos mattos, como si fosse um javaly: quando ouve o ramalhar das arvores suspeita ser os Franceses, que armados andam em busca d’elle para prendel-o e conduzi-lo a Yviret, onde será amarrado á bocca de uma peça.»

Respondi pelo meo interprete, asseverando-lhe que empregaria os meos esforços, que tinha esperança de obter o que elle desejava porque o chefe me estimava; mas que era bom, que elle fosse pessoalmente fazer seo pedido, e que eu iria depois delle.

Foi immediatamente ao Forte em companhia de um dos principaes interpretes da Colonia, chamado Migan,[35] e expôz suas razões e rogos ao senhor de Pezieux, por esta fôrma.

«Sou um Pae muito infeliz, e acabarei minha velhice como os javalys, vivendo só, comendo raizes amargas e cruas, se de mim não tiveres piedade.

«A misericordia muito convem aos grandes, e maiores não podem ser, quando usam d’ella e de clemencia.

«É teu rei o maior do Mundo, como nos contam os nossos, que estiveram em França.

«Elle para aqui te mandou como um dos Principaes da sua côrte afim de nos livrares do captiveiro dos Peros: ora como és grande, e misericordioso, usa de misericordia para com os infelizes, que são desgraçados por acaso e não por malicia.

«Bem conheço, que é preciso ser justo, e indagar o motivo para se fazer a escolha, e proceder-se a vingança sobre os maus, o que mui restrictamente observamos entre nós, desde os nossos paes, mas quando a falta não é originada por maldade nós perdoamos.

«Tenho dois filhos, como sabes, os quaes tem vindo trabalhar no teo Forte, um matou o outro por acaso e sem maldade, ou para melhor dizer, suicidou-se o mais velho nas flechas do mais moço, que está vivo, e te peço que não o persigas e sim o perdôes.

«É elle, que me hade sustentar na velhice: sempre foi amigo dos francezes, e quando algum vae a minha aldeia, chama logo os seos cães, e vae caçar cotias e as pacas para elle comer.

«Fez a cása dos Padres, e assevera-me que elles o protegem.

«Sempre foi muito obediente á sua madrasta, que o ama como si fosse seo proprio filho: seo irmão, que sem querer, elle matou, era mau, não estimava os Francezes, nunca lhes deo coisa alguma, não ia á caça para elles, aborrecia sua madrasta, e muitas vezes a zangava: quando morreo, estava bebado, e veio tomar a mulher do seo irmão, e arrancando o filho, que ella tinha ao collo, atirou o menino para um lado e a mãe para outro, dando-lhe bofetadas, embora estivesse grávida, na minha presença e á vista do seo marido, e tudo soffremos com paciencia; porem vindo agarrar seo irmão para espancal-o, ferio-se no ventre com as flechas, que elle trasia na mão e assim morreo.

«Porque perderei eu meos dois filhos, de uma só vez, e já na minha velhice?

«Si queres mandar matar o unico que tenho, mata-me primeiro, e depois a elle. Elle te dá sua canoa para a pescaria e seos escravos para te servirem.»

Admirou o Sr. de Pezieux este discurso, como depois me disse e por muitas vezes, e o referio á diversas pessoas, admirando-se de ver tão bella Rhetorica na bocca de um selvagem.

Previno-vos, que represento todos estes discursos e supplicas o mais sinceramente que me foi possivel, sem o emprego de artificio algum.

Respondeo o Sr. de Pezieux dizendo ser grande crime um irmão matar outro, mas como elle asseverava ter sido antes por culpa do fallecido do que pela do vivo, perdoava a rogo dos Padres, a quem nada queria recusar, e assegurou-lhe logo que seo filho nada soffreria, que acceitava a canoa e os escravos, porem que tudo isto lhe offerecia para o arrimo de sua velhice visto ser elle amigo dos Padres e dos Francezes.

Alegrou-se muito o bom velho com este acto de misericordia e liberalidade, e não foi ingrato, não só fazendo conhecido por toda a Ilha o facto, como tambem offerecendo ao dito Sr. e a nós tudo quanto elle e seu filho caçavam.

CAPITULO XVIII

Índice de conteúdo

Quanto é facil civilizar os selvagens á maneira dos francezes, e ensinar-lhes os officios, que temos em França.

No Liv. 2.º, Cap. 1.º, dos Machabeos, lemos, que o fogo sagrado do altar foi escondido no poço de Nephtar durante o captiveiro do povo e se transformou em limo.

Quando o povo regressou, já livre, os Sacerdotes apanharam este limo, e o deitaram na madeira do altar, levantado para os sacrificios.

Apenas o sol, lá de cima, começou a lançar seos raios sobre o limo, este se transformou em fogo, e devorou os holocaustos.

Desejo servir-me d’esta figura para explicar o que tenho a dizer n’este e nos seguintes Capitulos.

Convem notar, que por este fogo se deve entender o espirito humano imitando a naturesa do fogo por sua actividade, ligeiresa, calôr e claridade, o qual se torna lodo e limo, escondido n’um centro differente do seo proprio, devido isto á sua alma captiva pela infidelidade.

Quero dizer, que sendo o espirito do homem creado para conhecer a Deos, e aprender artes e sciencias, torna-se entorpecido e obscurecido entre as immundicies, quando sua alma está presa nas cadeias da infidelidade, sob a tyrannia de Satanaz, mas quando sua alma desprende-se do captiveiro pela intenção e guia dos Prophetas de Deos, sahe o espirito d’esse poço lamacento, e animado pela luz, e conhecimento de Deos, das artes, e das boas sciencias, torna-se apto e prompto para executar o que percebe e aprende, o que farei vêr, e tocar com o dedo a respeito dos nossos selvagens, e mui principalmente quando de suas perguntas mais comesinhas nasce a esperança d’elles se civilisarem, e viverem reunidos n’uma cidade, negociando, aprendendo officios, estudando, escrevendo e adquirindo sciencia.

Tenho para mim, que são mais faceis de serem civilisados, do que os aldeões de França, por ter a novidade não sei que influencia sobre o espirito afim de excital-o a aprender o que elle vê de novo, e lhe agrada.

Os nossos Tupinambás nunca tiveram ideia alguma de civilisação até hoje; eis a razão porque elles se esforção, por toda a forma, de imitar os nossos francezes, como depois direi.

Ao contrario os aldeões da nossa França estão de tal sorte enraisados em sua rusticidade, que, em qualquer conversação, embora nas cidades entre pessoas distinctas, sempre mostram signaes de camponezes.

Aos Tupinambás, depois de dois annos de convivencia com os francezes, estes lhes ensinaram a tirar o chapeu, a saudar a todos, a beijar as mãos, a comprimentar, a dar os bons dias, a dizer adeos, a ir á Igreja, a tomar agua benta, a ajoelhar-se, a pôr as mãos, a fazer o signal da Cruz na testa e no peito, a bater no peito diante de Deos, a ouvir missa e sermão, ainda que nada d’isto comprehendam, a levar o Agnus Dei, a ajudar o sacerdote á missa, a assentar-se á mesa, a estender a toalha diante de si, a lavar suas mãos, a pegar na carne com tres dedos, a cortal-a no prato, e a beber em commum, e breve farão todos os actos de civilidade e delicadesa, que se costuma a praticar entre nós, e já se acham tão adiantados a ponto de parecerem ter sempre vivido entre os francezes.

Ninguem pois poderá contestar-me, que não sejam estes factos bastante para convencer-nos do que devemos esperar e acreditar ser esta nação, com o andar dos tempos, civilisada, honesta e muito aproveitada.

Como os exemplos provam mais que outra qualquer especie de argumentação, vou contar-vos o caso de alguns selvagens educados em casa de nobres.

Actualmente ha em Maranhão uma mulher selvagem, de uma das boas raças da Ilha, que foi antigamente, quando bem pequena, tomada pelos portuguezes, e vendida como escrava á D. Catharina de Albuquerque, sobrinha do grande Albuquerque, Vice-Rei das Indias Orientaes, sob o dominio do Rei de Portugal, a qual reside presentemente em Pernambuco, e é Marqueza de Fernando de Noronha, ilha muito bella e fertil, segundo diz o Revd. Padre Claudio d’Abbeville na sua Historia.

Esta rapariga fez-se christã, e se a vestissem á portugueza não se poderia facilmente dizer qual a sua origem, se portugueza ou selvagem, mostrando sempre a vergonha e o pudor, inseparaveis de uma mulher, e occultando com cuidado a imperfeição do seo sexo.

Poderia dizer outro tanto de muitos selvagens, educados entre os portuguezes, e dos quaes alguns foram á França, e conservam ainda hoje o que aprenderam, e o praticam quando se acham entre os francezes.

É novo entre elles o uso da barba e dos bigodes, porem como vêem esse uso entre os Francezes, tambem deixam crescer tanto uma como outra coisa.

Tem incomparavel aptidão para as artes e officios.

Conheço um selvagem do Miary, chamado Ferrador, por causa do officio, que aprendeo, vendo somente trabalhar um ferrador francez que nada lhe explicou.

Sabia muito bem malhar com os outros uma barra de ferro encandecida, como se tivesse longa pratica, apesar de ser coisa muito sabida entre os officiaes do mesmo officio, que é necessario muito tempo para aprender-se a musica dos martellos na bigorna do ferrador.

Achando-se este mesmo selvagem nos desertos do Miary com seos semelhantes, sem bigorna e martello, limas e tornos, trabalhava comtudo muito bem fazendo pontas ou lanças para flechas, harpões e anzóes. Por bigorna tinha uma pedra muito dura, por martello outra de menor consistencia, e depois aquecendo ao fogo o ferro, dava-lhe a forma que queria.

Os officios mais necessarios entre elles são os de ferreiro, tanoeiro, carpinteiro, marcineiro, cordoeiro, alfaiate, sapateiro, tecelão, oleiro, ladrilhador, e agricultor.

Para todos estes officios são aptos e inclinados pela natureza.

Para o de ferreiro ou de ferrador ja referimos um exemplo.

Quanto ao officio de tecelão seria a sua especialidade se aprendessem; tecem seos leitos muito bem, trabalham em lã tão perfeitamente como os francezes, embora não empreguem a lançadeira, e nem a agulha de ferro, e sim pequenos pausinhos.

Contarei ainda uma bonita historia.

Fui um dia visitar o grande Thion, principal dos Pedras-verdes, Tabajares; quando cheguei a sua casa, e porque lhe pedisse, uma de suas mulheres me levou para debaixo de uma bella arvore no fim da sua cabana, que a abrigava dos ardores do sol, onde estava armado um teiar de faser redes de algodão, em que elle trabalhava.

Gostei muito de vêr este grande Capitão, velho Coronel de sua nação, enobrecido por tantas cicatrises, entregando-se com praser á este officio, e não podendo conter-me, perguntei-lhe a razão d’isto, esperando aprender alguma coisa de novo n’este facto tão particular, que estava vendo.

Pelo meu interprete lhe perguntei a razão, porque se dava a esse mister.

Respondeo-me, «porque os rapases observam minhas acções e praticam o que eu faço; se eu ficasse deitado na rede e a fumar, elles não quereriam fazer outra coisa: quando me vêm ir para o campo com o machado no hombro e a fouce na mão, ou tecer rede, elles se se envergonham de nada fazer.»

Eu e os que comigo então se achavam, sentiram muito prazer ouvindo estas palavras, e desejaria vel-as praticadas por todos os christãos, porque então a ociosidade, mãe de todos os vicios, não estaria em França, como actualmente se vê.

O officio de carpinteiro não lhes é muito difficil, porque os vi fazendo suas casas, e as dos Francezes, assentando seo machado, e repetindo o golpe no mesmo lugar, quatro ou cinco vezes, com tanta firmeza, como faria qualquer carpinteiro bem habil.

A arte de marcineria lhes é facil, porque com suas fouces aplainam um pedaço de pau, tão liso e tão igual, como se tivesse passado o raspador por cima d’elle.

Com o auxilio de suas facas somente, fazem macaquinhos e outras figuras de madeira.

Não precisam de serra, e nem de outro qualquer instrumento para fazer seos arcos, remos e espada de guerra, pois basta-lhes uma simples machadinha.

Cavam, arranjam suas canôas, e dão-lhes a forma, que lhes apraz.

Brevemente tractarei de outros officios, nos quaes os vi trabalhar com tal industria a ponto de parecer-me que, com pouco tempo de ensino, chegaram á perfeição.

Alem d’isto fazem muito bem vestidos, cubertas de cama, sobre-céos, sanéfas e cortinados de cama, pennas de diversas cores, que por sua perfeição se pensa terem vindo de fóra.

Não fallarei da propensão natural, que elles tem para pintar, fazer diversas folhagens, e figuras, servindo-se apenas de uma pequena lasca de pau, ou ponteiro, ao passo que os nossos pintores necessitam de tantos pinceis, compassos, regoas, e lapis.

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Litres'teki yayın tarihi:
16 ocak 2025
Hacim:
492 s. 5 illüstrasyon
ISBN:
4064066412869
Yayıncı:
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