Kitabı oku: «A amante do italiano»

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© 2019 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
A amante do italiano, n.º 697 - setembro 2020
Título original: The Italian’s Trophy Mistress
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited. Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-1348-798-4
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Epílogo
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Capítulo 1
– Queridos, já sabem a última? Henry Croft está a divorciar-se da terceira mulher e vai a caminho da quarta!
Bianca Jay notou um brilho de prazer dissimulado, acentuado pela luz das velas, nos olhos escuros de Claudia Neil, e um arrepio percorreu lentamente as suas costas. A irmã mais nova de Cesare acrescentou, com um sorriso condescendente, mas incompatível com o tom perverso da sua voz:
– Amanda está completamente destroçada. A pobre esteve à beira de uma crise, desde que fotografaram Henry nos Óscares, com essa exuberante actrizinha de cinema, da qual agora não recordo o nome, mas que certamente sabem de quem estou a falar. Uma que só fez papéis sem importância, com cabelo ruivo até à cintura e que antes cantava num grupo pop. Para dizer a verdade, Amanda vai ficar com uma boa pensão – Claudia encolheu languidamente os ombros sensuais, que o justo vestido negro deixava a descoberto. – Claro que nenhum acordo, por generoso que seja, compensa o facto de te trocarem por uma modelo, mais jovem e mais atraente, pois não? Mas do que é que a pobre Amanda estava à espera? Quem se casa com um homem de olhar inquieto, um físico impressionante e mais dinheiro do que se pode imaginar, pode considerar-se com sorte se a relação durar mais do que um par de anos!
«É suposto ter de responder a isto?», pensou Bianca, incomodada, enquanto tentava ignorar o repentino abanão do seu estômago. Pela centésima vez, arrependeu-se da sua fraqueza ao aceitar o convite de Cesare.
– A sério que sinto – dissera ele, – especialmente porque é a minha primeira noite em Londres, mas é o aniversário da minha irmã, e prometi-lhe um jantar em casa. Só seremos nós os quatro: tu, eu, Claudia e Alan; além disso, não vamos acabar tarde, porque acho que a ama só fica até às onze horas, depois ficamos os dois sozinhos. Conseguir que os dois monstrinhos vão para a cama, deve ser esgotante!
Como sempre, tornava-se perigosamente impossível resistir-lhe.
Durante toda a noite estivera a dar voltas ao mesmo, mais propriamente durante as últimas semanas, mas tinha de tomar uma decisão. Devia dizer-lhe que a relação que mantinham há seis meses tinha de terminar… antes de se envolver demasiado, mesmo que isso lhe destroçasse o coração. Ou continuar como estavam, sabendo que, inevitavelmente, um dia seria ele a dizer que o romance deles chegara ao fim.
– Claro – continuou Claudia, com um suave ronronar e um sorriso galanteador ao seu devoto marido, enquanto remexia com uma colher de prata o gelado de morango e brincava com o colar de safiras que Cesare lhe ofereceu como presente de aniversário – Alan não tem dinheiro suficiente para me trocar por outra, por isso acho que estou a salvo – acrescentou com um riso agudo, tão falso como ouropel, cravando os olhos negros na repentina palidez de Bianca. – Pelo menos, tu e Cesare, sabem o que fazem, não é? Toda a diversão de um idílio, sem a carga do casamento.
– Carga – Alan levantou uma sobrancelha ruiva, como se acusasse uma dolorosa ofensa, ao que Claudia respondeu revirando os olhos:
– Como sabes, querido. Discutir sobre o orçamento para o meu guarda-roupa, aguentar as cavalarias dos gémeos, organizar as amas…
Mas Bianca já não a estava a ouvir, o comentário fora um golpe directo à sua condição de amante, e não se orgulhava dessa situação. Sentia-se como o trofeu de um milionário, porque ele costumava fazer alarde dela quando se proporcionava, apresentava-a despreocupadamente no seu círculo de amigos vaidosos e deixava-a com idêntica despreocupação quando alguém novo despertava o seu interesse.
Conhecera Cesare Andriotti graças ao seu trabalho de relações públicas, quando organizou a festa de inauguração de um dos hotéis, da luxuosa cadeia de complexos hoteleiros, balneares e centros de congressos, da família Andriotti.
Foi desejo à primeira vista, recordou, ignorando a afectuosa discussão de Claudia e do marido.
Sabia que era uma relação perigosa e não era de maneira nenhuma o que procurava. Ela era uma mulher vocacionada para a sua carreira, independente e não tinha tempo para ter uma relação estável. Um marido e uma família, eram incompatíveis com as longas e inconvenientes horas a que tinha de trabalhar, bem como, com os esgotantes compromissos emocionais que tinha.
Quantas vezes disse a si própria que Cesare Andriotti era o género de homem que lhe dava os maiores motivos para não se interessar por ele?
Inumeráveis.
Com mais dinheiro do que um avarento poderia sonhar, atraente de morrer, transbordando de charme italiano e com um indefinível toque de arrogância que fazia vibrar de prazer qualquer mulher. O género de homem que tem tudo, que procura uma amante e a enche de prendas, e que acha que tem o direito de a abandonar, com muita educação e delicadeza, quando se cansa.
Bianca tentara mantê-lo à distância, pelo menos pensava que sim, mas ao fim de um mês de se conhecerem, já eram amantes, não conseguiram evitá-lo. Ele tinha-a esmagado, recusara com titânica resistência cada uma das suas objecções morais, práticas e pessoais.
Sentiu o peso do olhar de Cesare e estremeceu. Sabia que ele a observava, desde que a irmã fez o comentário mordaz, sobre o caracter temporário do romance deles.
Bianca recusou-se a virar a cabeça e a devolver-lhe o olhar Não queria enfrentar aquele olhos de um caprichoso cinzento ardósia, nem contemplar a sua boca ardente, muito menos admirar o ar natural que o fato elegante dava ao seu musculoso corpo. Se o fizesse estaria perdida e a determinação para pôr fim àquela relação ficaria feita em cinzas, perante o desejo que ele lhe despertava.
– Posso pedir-lhe um favor, senhor…? – perguntou Alan, com alguma precipitação, ruborizando por ter de se dirigir a Cesare.
Alan Neil, era o contabilista responsável do enorme império financeiro na Grã Bretanha e apaixonara-se por Claudia Andriotti numa ocasião em que se encontraram no apartamento de Cesare em Londres, e não fazia ideia de que o seu chefe pudesse ser seu cunhado.
Bianca simpatizava com ele.
Cesare era, com trinta e quatro anos e desde que o pai se reformou há quatro anos atrás, director do império empresarial dos Andriotti. Inevitavelmente inspirava temor no coração e na mente de todos os que o conheciam e Alan não estava no seu território. Era realmente encantador, demasiado calmo e leal, para pensar sequer em trair a sua linda e temperamental mulher… Claudia não precisava de se preocupar com a possibilidade dele a trocar por outra.
Vendo a mulher franzir ligeiramente as suas sobrancelhas finas e escuras, Alan continuou aos tropeções.
– Podemos usar o jacto da companhia no princípio de Agosto? Sei que parece um pedido absurdo, mas os gémeos são um pesadelo num voo comercial. Não estão quietos um segundo, e como sabes, as crianças de três anos quando são contrariadas tornam-se impertinentes – passou a mão pelos cabelos ruivos, tentando, sem êxito, um sorriso descontraído – Não é justo para os passageiros que pagam para andar de avião, que tenham de os aguentar!
– Querido – disse Claudia, apoiando a delicada mão de unhas vermelhas no braço do marido, – deixa-te de divagações. Claro que Cesare não se importa – sorriu ao irmão, enquanto agitava as suas pestanas espessas. – A mamã e o papá insistem para levarmos os meninos à Calábria em Agosto, para o aniversário de casamento, e suponho que tu também tenhas instruções! Assim, podíamos ir e vir contigo, mas se não puderes ir – acrescentou com um gracioso suspiro, – podemos utilizar o Lear?
Bianca cobriu o copo com os seus finos dedos, quando Cesare tentou enchê-lo, mas não olhou para ele, limitou-se a manter um ligeiro sorriso e uma expressão de interesse cortês.
Mas não ouvia uma só palavra da afectuosa conversa familiar. Provavelmente, Claudia aproveitava-se do irmão mais velho desde antes de saber falar!
Estava claro que qualquer acordo a que ele chegasse sobre a reunião familiar não a incluía a ela.
Era inevitável encontrar-se com a irmã e com o cunhado de Cesare em certas ocasiões sociais, daí estar presente nesta celebração privada. Ele considerava-as importantes por causa das noites que lhes permitia ficarem juntos, mas apenas, porque não era suficientemente importante para ser incluída numa visita aos pais.
Não conhecia os sobrinhos de Cesare, cujas aventuras precoces se discutiam com tanto carinho, mas já ouvira falar deles.
Quando ainda estavam juntos há pouco tempo, ele dissera-lhe, respondendo a um comentário estúpido sobre ela não querer um compromisso a longo prazo:
– Eu também não, para que é que preciso de me casar? A minha irmã já cumpriu com a sua obrigação e deu à família os gémeos – descontraído, com um copo na mão, um sorriso inquietante e sedutor nos lábios e percorrendo lentamente as feições de Bianca com os olhos. – O nosso acordo parece-me perfeito.
Pelo menos era sincero, pensou ela aborrecida, enquanto o empregado da empresa de catering, que ele costumava contratar quando tinha convidados, se aproximava com uma bandeja de café. Bianca sabia que muitos homens na sua posição financeira se casavam e divorciavam com uma regularidade monótona.
Esta conversa teve início no princípio da relação deles, recordou, enquanto o empregado colocava delicadamente na mesa as finas taças de porcelana, mas as coisas estavam a mudar e Cesare começava a desejar coisas que ela não se atrevia a dar-lhe.
Tinha chegado o momento de cortar de forma clara e definitiva, antes de ficar com o coração destroçado, arrependida e desesperada. Desejou algo que não sucederia, algo que não desejara no início e que nem sequer se devia perguntar se desejava nesse momento.
Pousando o guardanapo de linho entre o lindo prato e os copos venezianos, murmurou:
– Foi uma noite maravilhosa, mas tenho de ir. Um resto de dia de aniversário feliz, Claudia.
Bianca levantou-se com um sorriso educado. A enormidade do passo que estava a dar fazia-a tremer por dentro, mas não o deixava transparecer.
Nos olhos de Claudia brilhava uma gélida perspicácia e as sua palavras reflectiam o seu inegável falso pesar.
– A sério, querida? Espero que Alan e eu não vos tenhamos estragado os planos!
– De maneira nenhuma – conseguiu responder Bianca, com um tom natural e voltando-se para Alan, que acabara de se levantar rudemente, acrescentou: – Por favor, continuem a apreciar o serão.
Cesare seguiu-a e Bianca, com um nó no estômago, ouviu a cadeira a arrastar e a desculpa murmurada com a sua suave voz.
Na enorme sala do lado, tirou o telemóvel do bolso e ligou, com dedos trémulos, o número do serviço de taxis que costumava utilizar. Terminou a chamada com a respiração acelerada e Cesare, que se aproximara dela, perguntou:
– Minha querida, o que é que se passa? Estava combinado passarmos a noite juntos, não te vás embora. Ando a sonhar contigo há três semanas.
Bianca sentiu a tensão crescer no seu interior. O tom lento e profundo das palavras dele, inundou-a de desejo. A possessiva pressão das mãos dele nos seus ombros, atravessava a seda dourada que lhe cobria os ombros, acentuando a irracional necessidade de se fundir nos braços dele. Desejava acariciar-lhe a nuca, a orgulhosa cabeça, envolver os dedos no seu cabelo de ébano e afogar-se na paixão dos seus beijos.
Bianca afastou-se dele, negando-se a ceder à tentação, pestanejando furiosamente para evitar as lágrimas. O que é que se estava a passar? Passava-se tudo. Aquela relação sem compromissos, nem vínculos, estava a tornar-se algo muito mais profundo e sombrio, pelo menos para ela.
Começava a depender demasiado dele e sentia-se irracionalmente furiosa e ferida quando ele cancelava um encontro. Não conseguia parar de pensar nele quando ia de viagem e ficava obcecada a aguardar os seus telefonemas.
Estava irremediavelmente apaixonada por ele! Era isso que se estava a passar! Mas claro que não o iria confessar!
O acordo deles não falava de nada sobre amor.
Com uma longa e ágil passada, Cesare ficou em frente a ela e o seu cheiro a ervas envolveu-a. As palavras que devia dizer negaram-se a sair da sua boca, porque não conseguia organizá-las.
– Fica – pediu ele com suavidade, – preciso de ti. Se tiveres algum problema com o trabalho ou com o que quer que seja, eu resolvo.
Com uma ligeira pressão, quase imperceptível, ele obrigou Amanda a olhá-lo nos olhos, misteriosos e de cinzento ardósia, rodeados de pestanas escuras. Os pómulos orgulhosos e o distinto nariz, não muito em conformidade com a erotismo selvagem da sua boca, tornavam-no tão atraente que o coração de Bianca estremeceu.
A afirmação de Cesare, de que podia resolver sem esforço os problemas dos simples mortais, provocou em Bianca uma reacção quase histérica, acentuando o nó que tinha na garganta. Não se tratava do seu dinheiro ou posição, mas sim da sua virilidade absoluta, do dinamismo da sua personalidade.
– Não posso – conseguiu responder Bianda. Sentia os lábios secos e os olhos ainda presos no encanto do seu olhar.
– Porquê? Pensei que estava tudo resolvido – acariciou-lhe o queixo com ternura. Inclinando ligeiramente a cabeça.
O prelúdio de um beijo? Não estava disposta a correr esse risco.
Retirou a cabeça, respirando angustiada. Não podia negar que desejava ficar, ele atraía-a como a chama atrai as borboletas, que apesar de sentirem o calor nas antenas, não compreendem o perigo até ser demasiado tarde.
Cravando as unhas na pele suave da sua mala, organizou a frase que, uma vez pronunciada, seria definitiva.
Ele aceitaria as suas palavras com um certo ar de cortesia, porque era demasiado orgulhoso para lhe pedir para reconsiderar e quando falasse tudo estaria terminado, não haveria retorno.
Bianca inspirou para acalmar, endireitou os ombros e humedeceu ligeiramente os lábios, que estavam frios e secos.
– Acabou, Cesare, não quero que nos vejamos mais e é tudo – esta frase concisa, permitia-lhe conservar algum amor próprio, e evitava que terminasse com o coração despedaçado mas precisou de toda a sua determinação para a pronunciar. Foi como se lhe tivessem arrancado as palavras, que caíram como pedras, num ambiente ainda mais carregado.
Agora, a tensão provinha dele. O seu queixo robusto endureceu subtilmente e algo tremeu na profundidade dos seus enigmáticos olhos. Levantou a cabeça, acentuando o seu poderoso metro e noventa e Bianca não conseguiu evitar um ligeiro calafrio.
Cesare cerrou os dentes, tentando deter o violento enjoo que o destroçava por dentro. Precisou de toda a sua força para não a abraçar e beijar até ela retirar as suas palavras.
Não o podia abandonar. Ele não a deixaria fazê-lo!
Respirou profundamente. Fechou os olhos um instante antes de se absorver no rosto dela. Linda, tudo nela tinha um toque exótico: a pele suave, o cabelo sedoso, boca suculenta e enormes olhos cor de âmbar…. e aquele corpo esbelto de curvas perfeitas, que se desenhavam por baixo da seda dourada.
Bianca não conseguia esconder o tremor dos seus lábios, mas nos seus olhos brilhava a determinação. Cesare podia beijar e acariciar os seus ombros, os seus redondos e tentadores seios… acender uma paixão inevitável, mas não havia nada que a fizesse mudar de ideias.
Durante as últimas semanas, teve uma estranha sensação de intranquilidade, pelo rumo que a relação deles estava a tomar. Bianca recusava mudar-se e ir para junto dele, recusava com um olhar ferido os presentes que lhe deveriam proporcionar prazer, não o convidou para ir a casa dela uma só vez, e respondia com evasivas quando lhe fazia perguntas sobre a família, a infância ou sobre os seus planos de futuro.
Conhecia-a tão pouco como no primeiro dia em que a viu ou quando soube, com uma urgência avassaladora, de que a queria ter na sua cama.
Contrariamente ao que as pessoas murmuravam, não tivera tantas amantes como lhe atribuíam, e quando o inevitável momento da separação chegava, tudo se passava sem rancor nem dor para ambos.
– Era o seu mistério que a tornava diferente? Não sabia, apenas sabia que nunca antes se sentira assim, inseguro, indeciso e invadido por um doloroso desejo.
Venceu a tentação de se aproximar dela e de lhe tocar, de evocar a magia que tornaria a fazê-la sua uma vez mais e, enfiando as mãos nos bolsos das estreitas calças pretas, disse num impulso:
– Casa comigo, Bianca.
Capítulo 2
Casar com ele!
Bianca ficara petrificada pela emoção, apenas sentia o frenético bater do coração a golpear-lhe as costelas. O aparecimento de Denton, o mordomo de Cesare, conseguiu despertá-la do seu sonho de uma vida inteira com Cesare, e trazendo-a de volta à dura realidade
– O seu táxi chegou, menina Jay.
Estas cinco palavras com sotaque meridional, bastaram para a desoprimir e fortalecer a sua determinação, conseguindo superar a sensação de inércia. Virou a sua atenção para o rosto familiar e impassível de Denton, forçou um pálido sorriso e uma palavra de agradecimento, e virando-se para Cesare, sem o olhar nos olhos, pronunciou uma única palavra: «adeus».
Saiu da sala com o coração angustiado, deixando para trás o homem que amava apaixonada e irracionalmente. Foi-se embora, ignorando a proposta de casamento, como se nem sequer merecesse a sua consideração, como se fosse o insulto que punha o ponto final.
O taxi avançava lentamente até Hampstead, no meio do tráfego do fim de tarde. Bianca cobriu os olhos com as mãos, tentando acalmar a sensação de ardor. Não ia chorar, não se daria a esse luxo e, pensar na surpreendente proposta de casamento, também não era boa ideia, apenas conseguiria piorar as coisas.
A última coisa que Cesare queria era uma relação estável, tinha-o deixado bem explícito, não?
Então, a que propósito vinha a disparatada proposta?
Tremendo e sentindo-se enjoada, obrigou-se a analisar os factos, a encontrar uma resposta a essa pergunta. Ainda não estava farto das noites de paixão ardente, considerou. Cesare desejava-a fisicamente, embora talvez porque foram poucos os momentos de intimidade, por um lado, as suas viagens ao estrangeiro, por outro, porque ela se recusara a mudar-se para casa dele e, quando passavam a noite juntos, ela saía sozinha ao amanhecer, para voltar à casa que partilhava com a sua mãe.
Por essa razão, não podiam partilhar o tempo que desejavam e, inevitavelmente, tiveram de renunciar aos melhores momentos. Na relação deles não existia nada rotineiro nem previsível, por isso Cesare não se cansara dela.
Esta devia ser a explicação de tão surpreendente proposta. Queria prendê-la legalmente, até se cansar dela. Era habitual nos sofisticados círculos em que ele se movia e o resultado era sempre desolador, como Bianca sabia.
«Acabou», repreendeu-se categórica, quando o taxi entrou na sua rua. Fizera o que era correcto e sensato. Tinha de esquecer Cesare Andriotti, esquecer o breve romance que começara a significar demasiado para ela e concentrar-se nos problemas do seu futuro imediato.
Bianca pagou ao taxista e continuou, por mais um instante, na noite morna de finais de Maio, preparando-se para entrar em casa.
Devia deixar a sua angústia de lado, armar-se com o amor que devia à mãe. Agradeceu mentalmente a colaboração que lhe dera a tia Janne, pois sem a sua ajuda não podia ter estado presente no jantar de aniversário de Claudia, no qual tomara a decisão definitiva de pôr fim ao seu romance com Cesare. Mais a mais, se Jeanne não se tivesse oferecido para cuidar da irmã, a mãe de Bianca, ela teria de pedir à sua chefe uma licença por tempo indeterminado, até os problemas da mãe se resolverem.
Com um suspiro, voltou-se para a casa que teriam de abandonar dentro de pouco tempo.
Uma escadaria levava até à senhorial porta branca, os vasos vazios, que devia ter plantado há semanas, não ofuscavam os cortinados elegantes das janelas. A elegante fachada dava uma imagem de decoro, mas não escondia precisamente isso.
Como para reforçar os seus irónicos pensamentos, a porta abriu-se rapidamente e um jovem moreno, apenas vestindo uns boxers e uma camisola interior, caiu ou tropeçou pelas escadas, seguido de diversas peças de roupa e das imprecações da sua mãe.
– Miserável! O que é que pensaste? Que estou desesperada? – num tom caustico e um pouco mais baixo, acrescentou – Um conselho, é melhor levares a tua tralha, antes de eu tentar vendê-la!
À luz do vestíbulo, a figura de Helene Jay, alta e magra, envolta num roupão bordado e com um aspecto deplorável. As emaranhadas madeixas acobreadas, cuidadosamente pintadas, enquadravam a beleza gasta de um rosto demasiado maquilhado.
Ignorando o jovem, que gatinhava enquanto recolhia os seus dispersos pertences, Bianca subiu as escadas. Estava de rastos e apenas queria chorar. Chorar pelo que perdera nessa noite, e pelo que se deparava para o seu futuro imediato.
Não podia ser tão frágil. Durante a maior parte dos seus vinte e cinco anos de vida, tivera de ser forte para apoiar a mãe, e agora Helene precisava dela mais do que nunca.
Há duas semanas atrás, tiveram de lhe fazer uma lavagem ao estômago, nada agradável, por causa de uma sobredose de comprimidos para dormir e enormes quantidades de álcool.
– Um copo a mais do que a conta e esqueci-me de que já tinha tomado os comprimidos. Foi só um erro parvo, querida – desculpou-se Helena debilmente.
Mas Bianca não estava tão certa. A mãe aproximava-se dos cinquenta anos e não havia nenhum homem na sua vida. A sua beleza, impressionante noutra época, desvanecia-se rapidamente e o seu temperamento instável era cada vez mais frágil e podia acontecer qualquer coisa.
Bianca aproximou-se da mãe, pegou-lhe num braço e, escondendo o seu sobressalto quando reparou na sua impressionante magreza, fê-la entrar delicadamente, fechando a porta atrás delas.
– Helene… não – pediu-lhe, com a voz derrotada pela compaixão, e uma tempestade de soluços invadiu o corpo da sua mãe. Bianca não suportava vê-la assim. O rímel estava borrado e tinha círculos escuros em volta dos olhos, como um panda, e escandalosa a pintura dos lábios espalhara-se pelas finas rugas em torno da boca.
– Aquele asqueroso era um gigolô! Não fazia ideia! Como é que poderia imaginar? – declarou com voz fraca. – Pensava que eu tinha de pagar para ter companhia masculina!
– Deve ser estúpido e completamente cego – Bianca tentava consolar-lhe o magoado ego e, com as mãos a tremer, pegou num lenço de papel para lhe limpar as lágrimas e o rímel que tinha na cara. Tentando dar uma entoação de divertida preocupação, recriminou-a. – Pensava que tu e Jeanne iam ficar em casa, tranquilamente, a ver televisão!
Helene retirou bruscamente a cabeça, esquecendo por um momento a recente humilhação.
– O programa que tu disseste que não podíamos perder, era de facto aborrecido, e como com Jeanne não se pode falar de nada, porque para ela um serão animado é falar de pontos e de receitas de culinária. Deixa de me tratar como se eu fosse uma menina, querida. Eu sei que a tua intenção é boa, mas torna-se insultuosa! Precisava de um copo, e como nesta casa reina a Lei Seca, tive de sair para o conseguir.
«E sem saberes, trouxeste para casa um gigolô», pensou Bianca abatida. Há anos atrás, nunca faltava à mãe companhia masculina mas, com o passar do tempo, os amantes sem compromissos tornaram-se em devaneios de uma noite, ao mesmo tempo que os gastos de Helene disparavam, com a última moda e o agravamento dos hábitos de bebida.
Este último incidente, com o jovem de pele dourada e que exigiu uma retribuição pelo serviço que se dispunha a realizar, podia ser a gota que derramava o vaso e que podia levar à beira do abismo, aquela que, antigamente, foi uma mulher fabulosamente atraente.
«Onde raio estava Jeanne?»
Como resposta à muda pergunta de Bianca, uma robusta idosa desceu as escadas, enquanto apertava, supostamente na cintura, o cinto de um roupão amarelado.
– Ouvi gritos, que escândalo! Desci quando pude.
«Depois de encontrar a dentadura postiça e de ter tirado os rolos», traduziu Bianca desfalecida. Para a tia Jeanne o decoro era tudo. A idosa continuou.
– Ouvi uma voz de homem a insultar-te e também os teus gritos – os seus doces olhos azuis ensombraram-se quando se apercebeu do estado em que se encontrava a irmã mais nova. – Helene! Disseste-me que estavas cansada e que te apetecia deitar cedo, por isso eu também disse… Mentiste-me! Não vim para aqui para fazeres de mim parva – acrescentou, com um profundo suspiro.
Escondendo a sua impaciência atrás de um sorriso calmo, que não se reflectia nos seus olhos, Cesare despediu-se da irmã e do cunhado, impaciente para pôr fim ao serão, que lhe pareceu eterno depois de Bianca ter partido.
Os empregados tinham-se ido embora há meia hora e Denton limpava desnecessariamente a cozinha. Cesare disse-lhe para se retirar, apagou as luzes e dirigiu-se para o estúdio.
Geralmente, o silencioso compartimento de paredes cobertas de livros, era um oásis de paz na sua frenética vida de trabalho. Sem computador, telefone ou fax, que pudessem perturbar a atmosfera de tranquilidade. Independentemente das pressões laborais, Cesare tinha como norma não levar trabalho para casa, mas nessa noite, sabia que não conseguiria descontrair, até ter entendido o que se passou.
Serviu-se de um dedo de uísque de malte e começou a andar com passadas nervosas.
Ela dissera-lhe que tinha acabado tudo, sem mais nem menos.
Nunca lhe acontecera nada igual, era sempre ele quem punha fim aos seus ocasionais romances, mas permitindo que o previssem com algumas semanas de antecedência. A separação acontecia de forma amistosa, ele expressava algum pesar cortês e presenteava generosamente a respectiva menina, com um carro, com jóias ou com uma viagem exótica, conforme preferisse.
Mas nunca desta maneira. Nunca!
E nunca antes dele estar preparado para aceitar o fim!
Bateu com o copo vazio no couro que protegia a sua secretária, e lançou um olhar esquivo às lombadas dos livros das estantes, mas sem as ver. Tinha de haver alguma forma de se libertar da raiva que lhe percorria o corpo como uma torrente ensurdecedora, e pelo amor de Deus, de onde saiu aquela proposta de casamento? Porca miseria, a sua cabeça estava a desvairar! Não percebia de onde saíram aquelas palavras, mas ela simplesmente ignorou-as, a sua delirante proposta não provocou nem um pestanejo nas suas fabulosas pestanas.
Cerrou os punhos e apertou os dentes até sentir dor. Muitas mulheres teriam morto as suas próprias avós, para ouvirem aquelas palavras sair dos lábios dele!
Bianca Jay limitou-se a olhar para ele, como se ele nem sequer existisse, e a afastar-se!
Ninguém, absolutamente ninguém, humilhava assim Cesare Andriotti sem pagar por isso!
Franziu as sobrancelhas de ébano, ao ritmo de uma imprecação grosseira em italiano, depois, tentando controlar-se, inspirou profundamente para recuperar a calma, mas sem o conseguir.
Desde o primeiro momento, que achou que Bianca Jay tinha de ser sua. Não foi simples, mas acabou a conseguir o que queria, embora, por alguma razão, com ela era tudo muito mais complicado do que um simples desejo carnal.
A linda e esquiva Bianca começava a intrigá-lo. Na cama partilhavam uma magia abrasadora, mas fora dela, Bianca mantinha-se à distância, não se deixava conhecer.
Recusara, sem qualquer entusiasmo, ir viver com ele e, embora a relação deles tivesse um caracter quase permanente, deixou claro que não aceitaria nenhum dos presentes com que ele pretendesse obsequia-la, não falava do seu passado nem da sua família, mudando de assunto sempre que ele puxava a conversa.
Cesare gostava de saber como é que ela chegara à mulher que era, mas respeitava a sua necessidade de intimidade e refreava o seu crescente desejo de desvendar os seus mistérios, bem como evitava as evasivas que faziam parte da relação deles.
Impaciente, serviu-se de outro uísque, aproximou-se da secretária e tirou de uma gaveta um pequeno caderno, que folheou até encontrar o número que procurava.
O que sucedeu nessa noite, fez mudar as regras do jogo e respeitar a intimidade dela já não fazia parte.
Descontraindo no confortável cadeirão giratório, pegou no telefone. A raiva que lhe escurecia os olhos transformou-se em algo mais sombrio, mais duro.
«Não te aborreças, vinga-te!».
– Não vai resultar, pois não? – perguntou Jeanne sem dissimulações e acrescentando a terceira colher de açúcar ao café matinal.
Vestia uma saia escocesa, uma blusa de algodão e com os seus cabelos admiravelmente arranjados, o seu aspecto reflectia perfeição: sensata, imperturbável e completamente fiel.
Bianca respondeu com um suspiro. Antes, conseguia lidar sozinha com os excessos da mãe, as repentinas mudanças de humor, mas o episódio da sobredosagem tinha-a assustado.
Pela primeira vez na sua vida pedira ajuda, a da sua tia Jeanne, que era viúva. O âmbar dos seus olhos ficou nublado de emoção, quando recordou a generosa oferta da tia:
– Pode ficar comigo em Bristol, enquanto tu resolves as coisas e encontras outro sítio onde viver. Vou mudar-me para vossa casa durante umas semanas, até ela recuperar, para poder tomar conta dela enquanto estás no trabalho, porque, pelo que me contas, é melhor não estar muito tempo sozinha.
Bianca aceitou a oferta sem hesitar, profundamente agradecida. O contrato de aluguer da casa expirava dentro de poucos meses e sem a ajuda da tia era um pesadelo procurar um andar que pudessem alugar, continuar com o seu exigente trabalho, decidir o que fazer com os móveis e haver-se com os problemas da mãe.
Quando saiu do hospital, frágil e dependente, Helene aceitou sem contestar, mas considerando a noite anterior, era óbvio que a mãe voltara à sua dependência de homens e de álcool. Não aguentaria nem cinco minutos na pequena e humilde casinha da sua irmã, situada numa estrada tranquila dos arredores de Bristol.
– Sabes que gosto da minha irmã, mas não posso ser responsável por ela, aliás, não é justo para nenhuma de nós – acabou por reconhecer Jeanne. – Precisa de ajuda profissional, numa dessas clínicas luxuosas onde vão as estrelas de cinema e os futebolistas.
– Quem é que pode! – Bianca sorriu ironicamente à tia, quando lhe passou as torradas, e serviu-se dum café quente e bem forte. – Recusa-se a visitar o médico de família, principalmente porque não aceita que tem problemas, mas provavelmente aceitaria ir para uma clínica privada, porque acharia positivo para a sua imagem! Infelizmente, não podemos dar-nos a esse luxo – acrescentou, bebendo um gole da aromática bebida.
– Não resta nada do que recebeu depois da separação?
– Isso esfumou-se há anos – Bianca encolheu os ombros com um gesto cansado. A mãe gastara a indemnização do divórcio em roupas de estilistas famosos, em intermináveis festas e enormes provisões de álcool.
– Podes pedir ao teu pai para pagar o tratamento. Segundo dizem ele está milionário e, se a tua mãe está assim, a culpa é dele – Jeanne barrou uma enorme quantidade de manteiga na torrada. – Sabes, eu costumava ter inveja da minha irmã mais nova. Quando se casou com Conrad Jay, achei que ela tinha tudo, uma fortuna que ultrapassava qualquer cálculo, ainda que fosse dinheiro «novo», mas também não se pode querer tudo. Com o poder financeiro, compraram a entrada nos mais restritos círculos sociais. Ela era lindíssima e eu um camafeu, mas agora estou contente por as coisas terem sido assim, porque se nunca foste atraente, não ficas amargurada quando começas a deixar de ser. E como eu estava a dizer, acho que deves pedir ajuda ao teu pai – acrescentou, dando uma vigorosa dentada na torrada.
– Não – a negação foi instintiva. Jeanne franziu imediatamente o sobrolho e Bianca dispôs-se a explicar a sua aparente teimosia.
As duas irmãs mantiveram ocasionalmente o contacto durante todos aqueles anos, telefonando ou escrevendo, mas cada uma viveu a sua própria vida e havia muita coisa que a tia não sabia! Helene curtia a ressaca da noite anterior e o seu dramático desenlace, quando atirou de encontro à parede da sala a chávena de chocolate quente que a irmã lhe ofereceu «para acalmares» e sofreu um ataque de histeria. Era uma boa oportunidade para falar com a tia.
– Só vi o meu pai uma vez, quando tinha doze anos. Foi na noite de fim de ano e ele estava de visita a Londres, porque já nessa altura vivia nos Estados Unidos. Ele quis ver-me, embora até essa data não tivesse manifestado o mais pequeno interesse por mim. Fui ao hotel dele, cheia de ódio, não pela falta de interesse dele em mim, mas pelo que fez à minha mãe – recostou-se na cadeira, tentando lembrar-se. – Na semana anterior tinha acontecido qualquer coisa a Helene, da qual já não me lembro, mas tinha começado a beber, e num aborrecimento que teve comigo, disse que já tinha idade para conhecer o sem vergonha do meu pai.
Ela tinha vinte e um anos quando se casaram. Durante dois anos foi muito feliz e a vida sorria-lhe, mas depois começou a desconfiar que o meu pai tinha mais alguém e resolveu deliberadamente ficar grávida, pensando que assim ele deixaria de rondar outras, mas a táctica não funcionou e ele abandonou-a, trocando-a pela símbolo sexual do momento.
O acordo de divórcio incluía o aluguer desta casa por vinte anos e foi tudo, e nunca voltaram a encontrar-se. Acho que ela o amava loucamente e que nunca conseguiu superar o facto de o ter perdido – Bianca encolheu os ombros, sabendo que provavelmente as suas palavras escandalizariam a respeitadíssima tia. – Eu cresci na companhia de diversos homens e a mãe poderia ter-se casado com qualquer um deles, pois todos pareciam adorá-la, mas ela encontrava-lhes sempre uma falha qualquer… Em poucas palavras, não eram Conrad Jay. Claro que ela nunca deixou de o amar, mas precisava de outros homens na sua vida para se sentir desejada – e com um gesto irónico, acrescentou: – Assim, lá estou eu com doze anos a aborrecer o meu pai, depois recebemos um telefonema surpresa. Helene mandou-me num taxi ao hotel e o meu pai enviou-me de volta noutro e, entre um taxi e o outro, disse-lhe exactamente o que pensava dele, por causa do mal que fez à minha mãe, acrescentando que sob nenhuma circunstância voltaria a vê-lo em toda a minha vida. Tudo isto, em frente à sua nova esposa, que não teria mais do que sete ou oito anos a mais do que eu. Talvez agora já percebas porque é a última pessoa a quem eu pedirei ajuda, mais a mais, mesmo que quisesse, não faço ideia de como o poderia localizar.
A moral desta história é algo que Helene disse numa certa ocasião: «Nunca te cases com um homem rico. Conhecem o preço de tudo e não dão valor a nada».
Este conselho gravara-se na sua mente mais profundamente do que supunha. Não foi em vão que presenciou, durante anos, o sofrimento da mãe e, por essa razão, a repentina proposta de casamento de Cesare, fez disparar um alarme no seu interior.
Coibindo-se de pensar nele e no que significou para ela, Bianca levantou-se bruscamente da mesa, tratando de pensar em como iria resolver o problema de Helene sem perder o trabalho, do qual ambas viviam.
Nesse momento parecia-lhe completamente impossível.
Capítulo 3
Era dele!
Tinha-a exactamente onde queria.
Cesare estacionou o seu resplandecente Ferrari preto em frente à casa de Hampstead e desligou o motor. A celebração antecipada do seu triunfo, fortalecia a sua cruel resolução.
A sua boca revelava uma determinação inflexível. Pensasse o que pensasse, a bela rameira, ainda não tinha acabado com ela, nem pouco mais ou menos! Graças à informação que conseguiu, a relação deles continuaria até ele dizer que tinha terminado, quando ele decidisse e não ela, como exigia o seu orgulho italiano.
Ela ia aprender que nenhuma mulher rejeitava um Andriotti e ele ia ter muito prazer em ensinar-lhe esta lição.
Deu uma ligeira olhadela à fachada da casa, controlando com nervos de aço a ira que pugnava por sair. «Não te aborreças, vinga-te» recordou. Conhecia os segredos que Bianca se esmerara para esconder e ia usá-los para conseguir o que queria.
Saiu do carro, activando um moderno alarme e com uma atitude dura subiu a escadaria e tocou à campainha.
No dia anterior entrara em contacto com Stazia Lynley, a chefe de Bianca, e ela comentou que Bianca pedira uma licença por tempo indeterminado, por isso, a menos que costumasse ir às compras às oito da manhã, estaria em casa.
Sentiu a sua virilidade despertar, quando pensou que ia voltar a vê-la, submergir no encantador âmbar dos seus olhos e na quente humidade do seu olhar quando estavam juntos entre cobertores revoltos. Dois corpos ardentes, horas de arrebatadora paixão que os fundia fisicamente, mas que, apesar de tudo, não lhe permitiam chegar a ela, recordou. Nunca vira a sua verdadeira cara, a verdadeira Bianca Jay continuou escondida.
Até esse momento.
Reprimir o desejo era muito mais difícil do que controlar a fúria, admitiu com azedume, voltando a tocar insistentemente à campainha. Quando percebeu que alguém se dispunha a abrir a porta, o seu rosto ficou tão inexpressivo quanto lhe permitiam as suas marcadas feições, o seu nariz elegante e a sua apaixonada boca.
– Cesare – o seu nome soou como um débil suspiro naqueles lábios sensuais, como se a presença dele fosse mais do que ela podia suportar. Quando Bianca conseguiu recuperar do seu repentino rubor, Cesare reparou na palidez da sua pele, nas olheiras que rodeavam os seus olhos, como se a preocupação a tivesse mantido acordada durante toda a noite.
Doeu-lhe vê-la assim, mesmo sabendo que era um erro. Não podia ter compaixão pela bruxa que destruiu o seu ego, por que é que ela havia de dormir bem quando ele não pregou olho durante toda a noite, planeando a sua vingança, consumido pela ira e pelo orgulho ferido?
Impaciente, consolou esse lado que lamentava o sofrimento de Bianca, pensando que rapidamente deixaria de se preocupar com a mãe. Eliminando o sentimento de culpa por a ter acordado, como demonstrava o seu sedoso cabelo revolto e o roupão que cobria o seu corpo despido, respondeu friamente:
– Temos de falar.
– Não há mais nada para dizer – respondeu ela gravemente, enquanto os nós dos dedos, da mão que mantinha a porta entreaberta, empalideciam. Bianca sentia o coração na garganta, batendo apressadamente e ameaçando asfixiá-la. Pensava que nunca mais o voltaria a ver depois de lhe ter dito que tinha acabado, e que ele a deixaria sem grande pesar, encolhendo os seus impressionantes ombros e começaria a procurar uma nova candidata para as suas actividades nocturnas, como faziam os homens do género dele.
Levantou os olhos, que baixara quando o reconheceu, para olhar para Cesare, mas quando sentiu a familiar excitação a percorrer-lhe o corpo desejou não o ter feito.
Vestia um elegante fato, de casaco cinzento, uma camisa branca que fazia sobressair o seu tom moreno da sua pele, e o preto da gravata fazia conjunto com a profundidade dos seus olhos. Não podia negar o que ele era: um italiano sofisticado, senhor do seu mundo, que controlava a sua vida e as suas decisões sem dificuldade.
Bianca respirou fundo. A presença dele fez o habitual efeito que a exasperava e não conseguiu recusar-lhe a entrada.
– Vamos para onde? – perguntou lacónico Cesare, com um olhar impassível, realçando a sua pergunta com um franzir de sobrancelhas.
Calada e tremendo debaixo do roupão de cetim cinzento pérola, Bianca guiou-o até à sala, nas traseiras da alta e estreita casa, mas sem deixar de se questionar sobre o motivo da visita.
Sentir-se-ia insultado por ela ter posto fim à relação deles, sem ele se ter fartado dela? Não lhe parecia ser uma coisa natural em Cesare, porque para ele e para muitos homens da sua condição social, os romances como o deles eram efémeros e esquecidos em pouco tempo.
Pedir-lhe para voltar para ele? Repetir-lhe a absurda proposta de casamento? Pouco provável. O seu orgulho italiano impedia-o de se rebaixar a esse ponto.
Teve um instante de pânico, mas e se fosse isso? Seria capaz de lhe resistir, quando um só olhar dele a consumia de desejo irracional?
Isso era a última coisa de que precisava. A sua cabeça protestava estridentemente, e depois de tudo por que passou, voltar a ver Cesare era insuportável.
O descontentamento da sua chefe, em relação à licença por tempo indeterminado, foi evidente, mas não fazia ideia do tempo que ia levar para conseguir um novo sítio para morar e organizar a mudança, ou se conseguia convencer a obstinada Helene de que precisava de ajuda médica, bem como convencer Jeanne que a sua presença era indispensável por algum tempo.
Bianca fechou a porta atrás deles, olhando para ele com um olhar que pretendia reflectir impaciência, tentando desesperadamente ocultar o sofrimento mudo dos seus olhos.
A imponente virilidade de Cesare Andriotti devia ter destoado com a excessivamente feminina decoração de Helene, mas não foi assim, pensou Bianca, com uma mistura de admiração e de ressentimento. Ele assumia sempre o controlo e tudo perdia a importância perante o seu magnetismo e a sua personalidade. Com um gesto, Cesare pediu-lhe para se sentar numa das requintadas cadeiras que ladeavam uma mesa de madeira de pau rosa, junto à janela, e depois sentou-se.
Parecia completamente descontraído. As pernas cruzadas e os braços apoiados na delicada madeira da cadeira, a cabeça apoiada no encosto aveludado… mas o brilho dos olhos dele revelou a Bianca que não se tratava de uma visita de cortesia.
No silêncio sentia-se a vibração da tensão sexual e a estimulante espera de algo impreciso.
A forma como ele olhava para ela nublava-lhe a mente. Os seus olhos lascivos percorriam-na, apreciando cada curva, cada milímetro do seu corpo, como se estivessem a avaliar os seus atractivos.
Bianca mordeu os lábios, tentando acalmar.
– O que é que queres, Cesare? – e numa última tentativa para recuperar alguma autoridade nesse encontro não desejado, acrescentou. – Realmente não tenho muito tempo, tenho montes de coisas para fazer.
Mas as suas palavras não fizeram qualquer efeito, ele ignorou a sua patética tentativa de assumir o controlo.
– O teu contrato de aluguer está prestes a terminar, e duvido que o consigas renovar com o teu ordenado, portanto, é imperativo que encontres outro sítio para viver, o que não é fácil, considerando o preço das casas em Londres e a tendência de Helene Sinclair para o luxo – apoiando as pontas dos dedos contra a curva sensual do lábio inferior, perguntou. – Tenho razão?
Bianca ficou sem palavras, sentindo desaparecer do rosto qualquer vestígio de cor. Como é que ele sabia o nome de solteira de sua mãe? Quem é que lhe podia ter dito que o bendito contrato de arrendamento estava a terminar?
Mantivera a sua vida pessoal, as suas preocupações e os seus problemas à margem da relação deles. Não se envergonhava da situação a que a mãe chegou, porque o desastre em que Helene converteu a sua vida foi consequência do seu amor por um sofisticado milionário, que pensava poder mudar de mulher como quem muda de carro.
Mas se tivesse confiado em Cesare ficaria muito mais vulnerável e, para além disso, não estava interessado nos problemas dela. Estava habituado a esse género de relações, em que ambos respeitavam as regras do jogo: sem laços, sem compromissos e, claro, sem aborrecer o outro com as penas da alama.
Indiferente ao silêncio de Bianca, Cesare continuou:
– A tua mãe, que foi uma jovem e lindíssima modelo de grande prestígio, habituou-se, porque o trabalho lhe permitia, a uma boa vida – o olhar dele reflectia o divertimento que lhe causava vê-la boquiaberta, sem querer acreditar no que estava a ouvir. – Claro que, depois de se casar com o teu pai, se dedicou a uma vida de luxo ocioso, ao brilho e ao encanto da vida na alta sociedade internacional, onde bastava a sua beleza para receber homenagem dos seus admiradores. Depois do divórcio, já não conseguia trabalhar, mas o que é que interessava? Tinha conseguido um acordo substancial.
Contudo – acrescentou, torturando com as suas palavras a sua desvalida prisioneira, – o dinheiro desapareceu rapidamente. Espatifou-o em festas, com falsos amigos, na sua infinita necessidade de se sentir adorada. Nestes últimos meses, os seus excessos têm-se agravado e, em alguns sítios têm-lhe negado a entrada, discretamente, noutros sem dissimulações. Helene tem um problema grave. Queres que continue? – terminou, levantando uma eloquente sobrancelha.
Bianca tremia, pois ele estava a expor tudo o que ela se esforçou para esconder e isso fazia-lhe náuseas. Ele estava a envolver-se nos seus problemas e nesse momento odiava-o com violência tal que se desmoronava por dentro.
Porquê aquela crueldade? Era a forma de se vingar por ter posto fim à relação deles? Por ter ousado ignorar a tentadora proposta de casamento?
O peso das palavras dele deixaram-na imóvel, mas fazendo um esforço conseguiu articular, com os lábios secos:
– Como é que sabes isso tudo?
– Foi fácil – teve a desfaçatez de sorrir, e a suave curva da sua boca, que sempre encantara Bianca, agora fazia-a estremecer de repugnância. – Contratando um detective privado, Blackely, o melhor. Um telefonema, um nome, uma morada… e vê tudo o que ele conseguiu.
A raiva fê-la endireitar-se e o fino tecido da bata revelou os seus peitos, e corou quando viu que ele dirigia o olhar para as suas proeminentes curvas, divertindo-se como se a estivesse a acariciar. Ignorando determinada a agitação da sua pele, a repentina e indesejável humidade entre as suas coxas, disse, com a frieza que conseguiu.
– Então, parabéns! Ainda não consegui perceber a satisfação que te pode dar remexer nas misérias da minha família.
– Não? – o sorriso de Cesare era ameaçador e Bianca já ouvira dizer que ele era o negociador mais desumano do mundo, mas até esse momento não conhecera essa faceta do seu caracter. Sentiu o sangue a gelar nas veias e não conseguiu evitar estremecer, perante o tom suave e confiante das suas palavras. – Uma satisfação total. Isto responde à tua pergunta? Como vês, cara mia, ainda não estou farto da nossa relação, e até eu me aborrecer… eu, não tu… não acabará.
– Não – explodiu ela, num instintivo e veemente repúdio. Impossível! Cada dia que partilhavam mais se apaixonava por ele. A decisão de pôr fim ao romance deles foi a mais difícil da sua vida e se a relação deles continuasse até ele decidir dizer-lhe adeus, acabaria por lhe destroçar completamente o coração.
– Em contrapartida – continuou ele, ignorando a evidente angústia que encerrava aquela simples palavra, recusando-se a ver o desprezo nos seus olhos dourados, aqueles olhos que antes brilhavam de prazer, – eu resolvo os teus problemas. Já falei com o professor Marco Vaccari, que é especialista em doenças de dependência, e aceitou prestar toda a ajuda necessária a Helene, para além disso, renovei o contrato de aluguer da vossa casa, assim, depois de dois ou três meses na ilha, Helene poderá voltar ao seu espaço.
– Não podes fazer isso! – a sua cabeça girava sem controlo, impedindo-a de pensar com sensatez. Mesmo sendo um contrato de aluguer de curta duração custava uma fortuna, não poderia aceitar…
– Enganas-te – disse ele, enquanto observava a forma como ela se agarrava à cadeira, como se precisasse de algo sólido e real a que se agarrar. – Posso fazer o que quiser. Enquanto partilhaste a minha cama voluntariamente, opuseste-te aos meus desejos, recusaste-te a viver comigo, recusaste os meus presentes – os seus lábios endureciam, enquanto recordava. Para ele essas recusas foram sintoma de independência e de distanciamento e não queria admitir o quanto o magoava essa absurda e ridícula sensação de solidão. – Evidentemente que agora também podes recusar, depende de ti, mas pensa um pouco. Os teus problemas são reais, na realidade acreditas que Helene vai aceitar ir ao médico de família? Por acaso a tua prioridade não é o bem estar dela?
Claro que era! Como é que se atrevia a insinuar o contrário? Gostava muito da mãe e sentia-se muito mal por ela, e compreendia perfeitamente como é que ela tinha chegado ao que era. Com lágrimas nos olhos, pestanejou furiosa e cerrou os dentes para a boca não tremer.
Cesare observava-a, com o coração em sobressalto. Era tão teimosa e estaria tão decidida a tirá-lo da sua vida que recusasse a oferta? Pela primeira vez na sua vida ia ter de renunciar a algo que desejava? A possibilidade de perder aquilo que mais queria, quer dizer, perder Bianca Jay na sua cama e na sua vida até ele o decidir, provocou-lhe uma sensação de pânico, desconhecida até esse momento.
Conseguiu sufocar o sentimento que se recusava a admitir, deixando de lado as suas emoções para se concentrar nas de Bianca, com a mestria de um grande negociador.
– Imagina uma ilha isolada, uma mansão luxuosa e ajuda profissional para Helene. Tu e eu juntos, perto dela. Sabes que fazemos um belo casal, não será difícil para ti cumprir a tua parte do contrato.
Sim era difícil! Ele não fazia ideia do difícil que era…
A ideia parecia tentadora a Bianca. Era tudo o que desejava, contudo, desejava algo mais do que o seu corpo, desejava ser amada e um total compromisso, mas não era isso que ele tinha em mente.
Sem se aperceber, abanou a cabeça. O profundo desejo já pertencia ao passado, não queria ser amada por um homem que usava chantagem para conseguir o que queria. Não estava assim tão louca.
Pondo fim às suas divagações, tentou pensar no que ele lhe disse.
– Falas de uma ilha de tratamento, mas onde? E por quanto tempo? – perguntou, fingindo indiferença, como forma de insultar o homem que foi seu amante e que agora era seu inimigo. Porque só um inimigo é que lhe podia destroçar o coração com tanta crueldade. – E como é que eu sei se esse professor, como quer que se chame, pode ajudar a minha mãe? – era demasiado rebuscado para ser verdade. Cesare estava a jogar sujo. Como é que podia ter-se apaixonado por um homem que se rebaixava assim? Levantou-se com um ímpeto de energia e dirigiu-se à porta. – Por favor, sai.
Cesare não se mexeu, apenas seguia com o olhar a fluidez dos movimentos de Bianca e observava a sua indignação. A cabeça erguida, o formidável cabelo em desordem, as centelhas de âmbar nos olhos, e cada curva do seu corpo fabuloso sobressaindo voluptuosamente do transparente roupão: Cesare sentiu o coração a bater com mais força e o corpo a endurecer.
Nunca a desejara tanto como nesse momento. Desejava tê-la nos braços e voltar a descobrir cada centímetro da sua pele com prazer ardente. Beijá-la até perder a consciência de onde estava e deixar a sua recordação até ela retirar a frias palavras que pronunciou na noite de aniversário de Claudia.
Teve de reunir toda a sua vontade para controlar os instintos do seu corpo, de toda a sua determinação para recuperar o controlo. Levantou-se lentamente e apoiou-se na delicada mesa, cruzando os pés e com as mãos nos bolsos, olhando para ela no outro extremo da sala.
– Para responder às tuas perguntas, o professor Vaccari é o especialista indicado. Não teria reservado os serviços dele por tempo indeterminado se assim não fosse. A minha ilha fica perto da costa da Sicília, tem apenas alguns acres de terra, mas é linda. Helene vai ter na mansão todo o luxo que desejar, com a vantagem adicional de que vai estar longe dos prazeres nocturnos incertos da cidade. A tua mãe receberá ajuda profissional e cuidada, tens a minha palavra. Tu e eu vamos estar perto dela e poderás vê-la todos os dias para avaliar os seus progressos, assim não se sentirá isolada no meio de estranhos. Vens para a minha cama sempre que eu te chamar – acrescentou, provocando-a suavemente.
Bianca cerrou os dentes até sentir dor: estava a descobrir uma faceta de Cesare Andriotti da qual não gostava minimamente. Não teria conseguido imaginar este lado dele. A palavra «retiro» era demasiado suave para descrever a sua arrogante proposta.
Fechou a porta, ligeiramente consciente de que havia movimento em casa, cheirava a café e torradas, o que significava que Jeanne se levantou e estava a fazer o pequeno almoço. Foi um erro pensar que ele se ia embora se lhe pedisse e estava arrependida. Agora, estava claro quem é que manejava a batuta.
Mas não ia deixar-se dominar, pelo menos, não completamente, e levantando a cabeça, lançou-lhe um olhar gelado.
– Para pagar o tratamento de Helene tenho de passar as noites na tua cama – disse com sinceridade. – Parece-me uma troca insignificante, para a enorme quantia que terás de desembolsar. Pensas que pondo a mão nos cofres da família Andriotti compras o que queres?
Os olhos de Cesare tinham um brilho escuro. Meu Deus, nunca pagou por uma mulher em toda a sua vida, mas estava na disposição de se arruinar para se vingar dela, do insulto de o ter afastado da vida dela.
– Não é o que toda a gente faz? Quando se vê algo de que se gosta, compra-se.
Ela era «algo que se pudesse comprar?», perguntou-se furiosa, depois de perceber que, para ele, ela era apenas algo, sentiu o peso do desespero nos seus ombros. Era a única coisa que ela podia ser para ele, por isso a sua irrevogável recusa em aceitar os presentes, ou seja, o pagamento.
Bianca encostou-se à porta, com os olhos fechados, tentando encontrar uma saída para este humilhante pesadelo. Pensando no bem-estar de Helene, a proposta dele era magnífica. Uma mansão luxuosa numa ilha idílica, ar fresco, sol e alguém amável e qualificado para a ajudar a recuperar a saúde, e a ter um estilo de vida construtivo em vez de destrutivo.
O único inconveniente era ter de partilhar a cama com Cesare. No passado, isso não constituía problema, inclusivamente, nesse momento, conseguia sentir a resposta do corpo só com a recordação, mas sentir-se obrigada a aceitar a vontade dele e sabendo que ele estava a comprar os seus serviços, que era vítima do seu jogo cruel. Perguntar-se, todas as manhãs ao acordar, se era esse o dia em que ele lhe dizia que estava farto dela, esperando que realmente fosse, mas desejando ficar com ele para sempre?
Poderia dormir com ele para o bem-estar da mãe? A sua mente cansada girava obcecada. As tentativas para convencer a mãe a procurar ajuda, foram um fracasso total, mas uma ilha italiana pertencente à poderosa família Andriotti, ementa luxuosa, algumas sessões com o melhor especialista… isso talvez atraísse uma mulher que permaneceu ancorada ao seu mundo de glória, como se continuasse a ser a invejada esposa de um atraente milionário. Sentia-se especial e mimada, não um número das listas da segurança social.
Cesare ainda estava à espera de uma resposta, com os seus olhos a queimarem-lhe a pele, e Bianca sabia que tinha de tomar uma decisão. Humedeceu os lábios com a ponta da língua e levantou os olhos, tentando entabular uma negociação.
– Para começar não me dás muitas alternativas, mas quero mudar as condições. A minha tia Jeanne vai com a Helene e eu mudo-me para a tua casa aqui em Londres, se estiveres de acordo – fez uma pequena pausa para aclarar a garganta. – Assim, nenhum de nós terá de abandonar o trabalho, eu poderei continuar à procura de um sítio para viver e não terás de desembolsar uma enorme quantia para renovar o contrato desta casa. Pelo menos, desta forma sentia-se um pouco menos abatida. Podia continuar a trabalhar e procurar um andar sem se preocupar com Helene, e quando ele se cansasse dela, o que devia ser rapidamente dado o seu historial amoroso, já se libertara definitivamente dele.
O silêncio foi demasiado comprido e Bianca conseguia ouvir a sua própria respiração, agitada e desordenada, o ressoar do tic tac do relógio da chaminé, mas ele não parecia ter ouvido as suas palavras, não movera nem uma pestana.
Então, Cesare sorriu, e nos cantos da sua boca surgiu uma vaga curva, quando disse uma só palavra:
– Não.
Todos estiveram calados durante o pequeno almoço. Jeanne, depois de localizar a sobrinha na sala, insistiu para que o convidado dela ficasse para tomar o pequeno almoço, e Cesare, tal como Bianca supunha, encarregou-se de conquistar a sua tia.
– É exactamente disso que a minha irmã precisa. Achava que eu e Bianca podíamos arranjar-nos sozinhas, mas, na realidade, não conseguimos, e a mim, também não me farão mal umas férias, não fui a lado nenhum desde que o meu marido morreu… É realmente generoso da sua parte, senhor Andriotti, é a sério?
– Absolutamente, Jeanne – Cesare aceitou uma segunda chávena de café, já dera conta de meia maçã, uns ovos mexidos e torradas com mel, e dirigindo-lhe um sorriso que derreteria qualquer mulher. – Eu e Bianca somos bons amigos há algum tempo, e se um amigo meu precisa de ajuda, fico feliz por o poder ajudá-lo.
Só isso, nem uma palavra sobre o que a sua «boa amiga» teria de fazer para consolidar essa maravilhosa e generosa oferta! Bianca afastou o seu prato das torradas, em que nem sequer tocou, e olhou-o nos olhos sem dissimulações, olhos pequenos. Bianca estremeceu e teve de se dominar para não apagar com uma agressão o sorriso sardónico de Cesare.
A entrada de Helene na sala, impediu que Bianca revelasse a Jeanne a verdade, que tornaria o seu infinito agradecimento numa raivosa reprovação.
Para Helene, as manhãs só começavam a partir do meio-dia e o seu aparecimento tão matinal, devia-se ao facto de ter ouvido uma voz masculina, deduziu Bianca, reparando que se tinha pintado como uma paisagem e trazia vestida uma camisa de dormir quase transparente.
Levantou-se para lhe servir uma chávena de café simples, a única coisa que tomava ao pequeno almoço, e fez as respectivas apresentações. Ficou desanimada quando detectou no hálito de Helene o inconfundível cheiro a uísque.
Jeanne e ela tinham eliminado todo o álcool que havia em casa, pelo menos pensavam que sim, mas Helene devia ter uma reserva secreta.
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