Kitabı oku: «A Estrutura Da Oração»

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A ESTRUTURA DA ORAÇÃO

DIEGO MAENZA

Traduzido por Susana Franco


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© Diego Maenza, 2018

© Traduzido do espanhol por Susana Franco, 2020

© Tektime, 2020

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CONTEÚDO

PRIMEIRA PARTE

DOMINGO

SEGUNDA-FEIRA

TERÇA E QUARTA-FEIRA

QUINTA-FEIRA

SEXTA-FEIRA

SÁBADO

DOMINGO

SEGUNDA PARTE

SEMANA 1

SEMANA 2

SEMANA 3

SEMANA 4

TERCEIRA PARTE

JANEIRO

FEVEREIRO

MARÇO

ABRIL

MAIO

JUNHO

JULHO

AGOSTO

SETEMBRO

OUTUBRO

NOVEMBRO

DEZEMBRO

PRIMEIRA PARTE

EM NOME DO PAI

DOMINGO

Luz e escuridão

Pater noster, qui es in caelis…

“A escuridão é a cegueira dos pensamentos, o rugido do silêncio. É como uma praga que se transforma em tonturas, carência, calafrios e numa amargura que se alimenta do choro. É uma condenação dos medos do passado, uma insegurança para as calamidades do futuro, é como um borrão que intensifica os sentidos. Isto é a escuridão. E de repente, meus filhos, eis que podem contemplar o mundo”. Saio da vigília como se tivesse sido expelido do abismo do útero. Sinto-me renascido, apesar de ter consciência dos meus erros. Sinto o meu mau hálito matinal no bigode, impregnado no tecido da almofada ou simplesmente integrado no ar do quarto. Entretanto, o mundo permanece ali. Sento-me e o reflexo que emerge da janela cega-me e obriga-me a tapar o rosto. Acordei após um pesadelo em que a minha alma já tinha suportado mais do que deveria. Fico a observar, quase que assombrado, como se fosse a primeira vez, a secura das paredes do quarto, a tristeza nas suas rachaduras, as fotos a preto e branco a fazer contraste com os quadros coloridos onde estavam apoiadas, a pintura de um mundo fechado numa bolha de cristal, que bem poderia ser para proteção contra algum perigo externo para que não danifique, novamente, a superfície ou para que possa permanecer como contenção, para que os males que estão incrustados nesta Terra devastada não germinem e para que nenhuma Pandora curiosa volte a destapar os seus podres. Lá ao fundo, atrás do mundo, observo uma vez mais a imagem de Deus. Fechando os olhos, começo a orar. “Pai amado, livra-me de todo o pecado, porque é Teu o reino dos céus e da Terra e as Tuas intenções são puras e inquestionáveis, purifica a minha alma, para que eu seja afastado da tentação e abençoa o meu dia”.

Sento-me e pressinto a amargura do vinho instaurada nas minhas entranhas, em alguma parte dos meus tecidos. Deslizo rumo ao lavatório, onde o espelho reflete as remelas que mancham os meus olhos e que afasto com as pontas dos dedos, fazendo com que aquele processo desperte algum arrepio em mim. Lavo o rosto com água e sabão. Com a pasta de dentes, lavo a boca, que ainda emite o hálito matinal ao qual estou habituado. Defeco com prazer e noto os salpicos acumulados na parte da frente da minha roupa interior, denunciando a viscosidade de uma substância de brilho raro, matinal e quase quotidiana. Oh, Senhor, que lindos, mas, ao mesmo tempo, cruéis, são os sonhos. Os sonhos são o único lugar onde posso ser eu mesmo.

*

O jornal traz sempre as mesmas notícias. Mas há um título na página central que lhe chama à atenção sobre as últimas declarações do Santo Padre. Ele lê o seu conteúdo, impresso em letras miudinhas, e examina a foto colorida que foi publicada junto com a notícia. Coberto por uma capa e surgindo, como é tradição, à varanda principal da Basílica do Santo, anunciou a véspera da Semana Santa. O Padre Misael, podemos dizer desde já o seu nome, reza e prepara-se para a missa.

*

Não consigo afastar aquela imagem. Está na minha cabeça e não consigo esquecê-la. Sofro tanto diante do altar quando me lembro disso. Como suporto aquele tormento na hora de dizer as últimas orientações de cada missa, que os paroquianos recebem como se fossem palavras novas. Resisto tanto segundos antes do corpo e o sangue de Deus me purificarem. E tudo isso por causa daquela imagem. Está presa a mim, dominando-me, é uma maldição do Inferno que toma conta do meu espírito e só posso recorrer à proteção de Deus Todo-Poderoso para que ilumine o meu caminho.

*

Sentado à mesa, afasto o prato dos legumes e considero que preparei um almoço excessivo. Contemplo com uma atenção injusta a limpeza dos móveis, do piso, da prateleira sem pó, da imitação de porcelana imperial com um brilho fora do normal e que mostra os querubins nus com os seus rostos pálidos e espectrais. Tomás, disciplinado, está ofegante lá em baixo, abanando o rabo em gesto de saudação. O menino bebe o sumo de laranja que vai derramando a gotas pelos cantos dos seus lábios e eu começo a rir com a sua falta de jeito. Como apenas a salada e bebo meio copo do sumo de frutas e afasto o peixe, porque não me apetece, tal como afastei todo o resto da comida. O meu olho direito volta a verter remelas, que retiro com pudor e algum aborrecimento, uma vez que o miúdo dirigiu-me uma cara de espanto enquanto comentava algumas das passagens da Bíblia. Tomás segue-me até à cozinha, envergando um passo marcial, implorando com a sua respiração ofegante alguma satisfação que diminua o vazio do seu estômago e que o impeça de salivar.

*

Subo as escadas e dirijo-me aos meus aposentos. Tento descansar, mas sem sucesso. Regresso ao sonho que pesa sobre mim como uma pedra e que só consigo tentar apagar quando acordo. A tal escuridão. E de repente, regressa a mesma imagem, que se repete uma e outra vez, como se o meu olhar estivesse dentro de um caleidoscópio, cujas refrações levam-me, a cada instante, àquela imagem sem distorção. Peço a Deus que me livre deste tormento e que o meu espírito se acalme com estes sobressaltos. Umas orelhas ciclopídeas, rachadas pela lâmina de uma faca. É essa a imagem e sei bem de onde vem. Das lembranças que tenho do quadro que está no meu quarto, de certeza. Do estudo vespertino, permanente e inesgotável que costumo fazer ao contemplar o quadro de toda a vez que permito que as suas portas se abram. É uma imitação falsa e quase destruída, do célebre tríptico do grande pintor, que comprei com as poupanças de uma vida inteira. Há que reconhecer que não passa de um objeto fútil, comparado com o original, principalmente na arte, apesar de ser uma cópia fiel, de iguais proporções. Contemplo o mundo. Consinto que se abram as portas da obra matizada sobre a tábua de carvalho e fixo-me num mundo paralelo: o do Paraíso, do Jardim e do Inferno. Todas as tardes fico maravilhado. A arte do pintor é tão imaculada que até me arrepia, mesmo com uma interpretação mal feita. Costumo caminhar sobre o fresco do entardecer, explorando as peças da sua constituição, tentando decifrar a alquimia que gerou a destruição do Paraíso do tempo presente, a arte do Demiurgo que construiu o Inferno, que finjo conhecer, pois só se tem capacidade de rejeitar aquilo que se conhece, o caminho da perdição que conduz a este calvário.

*

Desperto do sonho com o corpo dolorido, com uma sensação de calor que me incita ao pecado. Fico com a impressão de que já não sou a mesma pessoa, de que quero escapar para algum lugar onde não tenha de me preocupar com o apelido que me denuncia perante os homens. Escapar ao olhar de Deus, para que os seus olhos não recaiam mais sobre mim, e assim, poder satisfazer as minhas ilusões. O pensamento de sacrilégio que me ocorre todos os dias. Rezo para que o demónio se afaste de mim e sinto que Deus reactiva a minha fé, que afasta Luzbel do meu corpo, que começa a arrefecer. E rezo, não posso fazer outra coisa a não ser suplicar aos céus para que me ajudem a escapar às ciladas do meu próprio corpo, para que acalmem a perfídia que planejo no meu delito, para fugir das inclinações que me atentam os sentidos. Recorro a um pouco de introversão que, por um momento, me salva. Rezo e preparo-me para a missa.

*

O menino passa em frente à minha porta e detém-se por um momento, inclinando-se e ajeitando algo em suas pantufas. O seu pijama branco faz a sua pele transparecer e é possível ver a sua figura de miúdo voluptuoso. Porém, no seu rosto há inocência, castidade. A luz artificial faz as suas bochechas ganharem um tom rosa pálido que brilha sobre o tom claro-escuro da entrada. Desconhece por completo os seus poderes de sedução, da perigosa atração que produz a cada passo que dá. Endireita-se, lança um olhar para o interior do meu quarto e, na sua timidez eterna, tenta despedir-se de mim com uma vénia que parece distante e irritante. Com um gesto, convido-o a aproximar-se. Dou-lhe a minha bênção e faço um sinal da Cruz imaginário sobre a sua testa. Depois, descendo a minha mão, quase que em forma de punho, à altura da sua boca, vejo como os seus lábios acariciam os meus dedos, contemplando o seu rosto perto de mim e sinto um tremor invadir-me, pois o aspeto de suas feições assemelha-se ao rosto de um arcanjo. Passo para os seus ombros e nesta ocasião, continuo com o sinal da Cruz com quatro beijos que lhe dou na testa. Não tenho outra opção senão deixá-lo ir e continuar a minha oração.

*

O jovem Manuel depositou a sua confiança nas palavras do Padre Misael. E este convida-o a rezar o terço todas as noites com ele. Instruiu-o na arte mística da oração, na interiorização espiritual que, segundo o sacerdote, purificará a sua alma, ficando livre de todo o pecado para poder ser um filho de Deus purificado. E Manuel manifesta a sua entrega incondicional. O Pastor impôs-lhe esse dogma. Mostrou-lhe que a fé é o que realmente importa se queremos ser salvos pelo Senhor, e que devemos confiar nas suas intenções, mesmo nas mais misteriosas. E o menino acredita nele. Às vezes, ao ajoelhar-se diante da cama, o Padre põe-se de costas e aperta as mãos do menino. “É uma oração reforçada”, sussurra-lhe ao ouvido. “Assim Deus poderá ouvir-nos melhor, a ti como filho e a mim como Padre”, murmura-lhe todas as vezes, de forma quase inaudível, manifestando o segredo que não quer que a pequena imagem esculpida do Homem na cruz oiça, a qual está pendurada sobre a cabeceira da cama. É nas noites mais frias que Manuel mais desfruta da sua companhia naquela oração dupla, mas que nos dias de calor parece-lhe insuportável, pois não consegue aguentar ficar com o corpo firme e pegajoso, colado às nádegas, com a respiração ansiosa e quente que o Padre expira nas orações e nas palavras de despedida, quando lhe dá o beijo empapado na nuca. Mas agora, ajoelhado, repousando os cotovelos sobre o colchão, o menino está a rezar perante a imagem do Profeta e o seu pai ainda não chegou.

*

Esta noite não me levantarei. Deus reforçou a minha fé. Deus é o meu pastor, o meu guia, a minha luz e o meu caminho. Escuta a minha oração e permite que eu tenha força para que não caia na escuridão do pecado, oh Deus amado, oh Pai amado.

*

“Pelo amor de Deus, que sonho tão horrível. Salva-me, Senhor. Vigia-me e protege-me, Pai. Cuida de mim, Senhor. Que sonho tão horrível. Ajuda-me, Senhor, imploro-te. Não voltarei a cair nos prazeres do pecado. Prometo. Porque não suporto esta escuridão. Os meus olhos não suportam tanta escuridão”. Caminho, testando o meu leito, menos quente agora sem o meu corpo lá. Apalpo o vestuário, duro como a escuridão que me sufoca. “Não encontro a saída que me leve até à luz, Senhor, guia-me até à saída. Não permitas que os meus pés voltem a tropeçar”. Apalpo uma parede, fria como as minhas mãos, congeladas ao fundirem-se na frieza. “Senhor, encaminha-me”. Continuo a gritar em vão. Esta casa é tão triste, solitária e tão grande que o Padre Misael não me consegue ouvir. “No entanto, Senhor, Pai amado, que ouves as lamentações de todos os vossos filhos, guia as minhas pernas, acolhe-as na tua luz, tira-me desta escuridão e prometo ser-te fiel até ao último dos meus dias. Prometo agradecer-te pela minha fé todas as manhãs. E cumprir as penitências do teu mandato divino. Senhor, Pai amado, eu confio em ti. A tua palavra será como uma lanterna para o meu pé e uma luz para o meu caminho. Eu sei que sim, Senhor, confio plenamente em ti. Mostra-me a saída. Guia-me até à Tua luz”.

*

A porta do quarto abre-se e o menino, descalço, chama pelo Padre. Teve que atravessar o largo Purgatório do corredor que separa os quartos como se fosse a interminável separação entre o Inferno e o Paraíso.

*

E chega ao pé de mim com as bochechas a tremer e os dentes a ranger, gelado, pálido.

“Tive um sonho horrível, Padre. Sonhei que havia um fantoche entre os dentes de uma besta gigante. Era um monstro horrível. Tinha uns olhos enormes e vermelhos e olhava para mim enquanto me segurava na sua boca, pois o fantoche era eu. E a forma como me olhava? Bufava como um touro e tinha uma baba muito líquida que quando caía era pegajosa, nojenta. Estava tudo escuro. Mas os seus olhos, oh Deus, como eram horríveis os seus olhos”.

“Entra, filho amado”, eu disse. E recebo-o em minha cama e por dentro estou a sorrir do seu medo infantil do escuro.

*

Entra, jovem. Entra, triunfante à tua Jerusalém, que te aclama.

*

Uma vez mais o Padre Misael não consegue dormir, enquanto isso, vai até à janela, com o menino a dormir no seu leito. Tudo o que ele deseja é um copo de vinho, mas não do cálice sagrado que se transforma no sangue do Senhor, e sim daquele que lhe acalma os nervos e permite-lhe reprimir o desejo de ser outro. Lá em baixo, toda a cidade dorme. E à distância, observa como nenhuma janela tem luz e percebe que a sua insónia é infinita, incomparável. Uma solidão sem fim e sem intervalos. Reconhece que não há outra igual. O mundo não iria compreender. Nem compreenderá. Nem sequer Deus, na sua infinita sabedoria e com o seu olhar omnipresente, compreenderia. Nem compreenderá.

SEGUNDA-FEIRA

Oração e blasfémia

…sanctificetur nomen tuum.

O peito incha e um terramoto em miniatura, proveniente dos brônquios, incha a cavidade torácica, germina nos anéis da traqueia, ronronando uma resposta inconsciente e coletiva, invocada por milhões de bacilos ávidos de substâncias, convulsionando, por onde passa, a faringe e a laringe. A onda microscópica flui e espalha a sua auréola com a trepidação de toda a epiglote. O ciclone minúsculo ecoa na membrana pituitária e distribui o aluvião entre o nariz e o paladar, facilitando o congestionamento do súbito estrondo do roncar.

*

Passei a noite em branco, implorando ao céu, misericórdia, ouvindo o sussurro das minhas jaculatórias misturarem-se com o barulho da respiração do menino. O som do seu peito inflamado foi outro incentivo para a minha vigília. Ligarei para o médico assim que amanhecer. De toda a vez que senti vontade de contemplar a sua anatomia repousando sobre o meu leito, sujeitei-me à acusação feita pelo meu desejo de continuar a ser um filho de Deus. De seguir os passos do Profeta e não ceder logo às armadilhas do mal. “Quero servir-te Senhor e derrotar a tentação do demónio e dizer-lhe que nem só de carne vive o homem. Ele atenta-me, para que me afaste de Ti, oh Pai amado, mas eu sou servo exclusivo das Tuas ordens”.

*

Tomás vê sombras onde elas não existem. Inventa-as. Por vezes, durante as manhãs ensolaradas do verão, põe-se a andar atrás das lagartixas, animais que se infiltram nas paredes de pedra do jardim, por entre as fendas de cimento do pátio das traseiras, entre as gretas da beira das janelas, aquela bicharada que aparece para apanhar um pouco de sol. Tomás repreende-as com uma voz anciã, com grunhidos grossos, carregados de lentidão e escassos em impulsos. Embora, noutras alturas, recorra ao ladro com uma energia inusual, fazendo predominar a sua autoridade de cão mais velho, a sua atitude vigilante de Cérbero a tempo parcial, ao acesso dos seus antecessores mais frágeis, certificando-se de que ninguém viola o seu território. Agora está a brincar com uma bravura repentina que retirou sabe-se lá de onde e que adverte o bicho, que deve ter procurado, provavelmente, refúgio no galho de alguma velha amendoeira onde o cão dá saltos de emboscada enquanto ladra. Mas no geral, é a imaginação cansada que esboça, na sua fantasia daltónica, agravada pelo seu olfato já gasto, os demónios que sempre o atormentam. Digo para mim próprio, enquanto o observo, que afinal, não somos assim tão diferentes. Simples animais instintivos cedendo aos caprichos da nossa natureza. Isto se não fosse a nossa alma. “Obrigado, meu Deus, por nos teres dado uma alma”.

*

Celebrei a eucaristia sem a presença do miúdo e, apesar da mão caridosa que segurou o incenso não se ter ausentado, o resultado da experiência não foi semelhante à que sinto na presença dele. Não o ver durante um par de horas foi um tormento ainda maior do que tê-lo deitado a centímetros da minha pele.

*

O veredicto do doutor foi definitivo. “É uma forte gripe que está a afetar as defesas do rapaz”, diz-me numa voz grossa, esboçando um sorriso rigoroso, “mas que com alguns dias de repouso e uma forte dose de analgésicos, estará novamente com saúde”. Caminhámos os dois até à porta, cujas dobradiças emitem um ruído carregado de ferrugem que nos faz estremecer devido à sua agressão auditiva. Após isso, o doutor volta-se com solenidade, baixa o olhar, submisso, e pede a bênção. Esboço uma cruz no ar, bem ao nível do seu rosto e logo se despede com uma vénia. O rapaz volta a adormecer, inspirando e expirando com dificuldade. Apalpo a sua testa para explorar a doença, mas só consigo sentir o meu corpo a tremer e uma transpiração excessiva a fluir das minhas mãos.

*

Fiz serviço de escritório e encurtei as reuniões com os paroquianos. E já livre das minhas responsabilidades, caminhei pelo passeio do cais, na margem do rio, que liga esta pequena cidade à cidade vizinha, atingida pela brisa que se agita com um profundo assobio e como sempre, que me despenteia. O fim do verão arrasta belos murmúrios. As andorinhas propiciam o conhecido êxodo anual até ao oeste numa peregrinação com demasiada lamentação, uma vez que as aves, na sua anarquia escatológica, durante esta época recorrem justamente à zona do parque central, ornamentando automóveis, bancadas, praças e peões com uma festa de excrementos sem igual.

Precisamente agora em que caminho perto do parque central, percebe-se a trinada coral destes pássaros minúsculos agarrados aos cabos elétricos, num canto coletivo retardado por breves intervalos devido ao ruído dos transportes que circulam sem cessar pela avenida. Continuo a minha marcha pela rua mais discreta que encontro nesta vila aspirante a cidade, um beco sem passagem para veículos que se converteu no meu itinerário obrigatório de toda a vez que venho às compras. Aqui tudo é serenidade, sem estrondos de motores e buzinas irritantes. E de repente, ressoa o barulho do lugar do bilhar, inaugurado nestes últimos dias. Ouvem-se insultos revestidos de uma tonalidade cada vez mais obscena que fluem da boca de um jovem que não hesita perante a robustez do seu inimigo, o qual se encontra orgulhoso das suas tatuagens obscenas que incitam a classificá-lo como um preso de alguma prisão remota. Opto por retirar-me rapidamente e, girando sobre os meus calcanhares, de costas voltadas para as hostilidades, consigo ouvir os golpes secos que agitam os corpos. Vou para a avenida principal. Caminho, tentando esquecer o miúdo. Mas nem sequer o barulho dos carros, nem os gritos dos condutores furiosos com a ponta do pé no pedal, ou a chuva de críticas que recai sobre mim como se fosse loiça, ou até mesmo o recente conflito na rua, são capazes de me fazer deixar de pensar nele e deter o meu suplício. Tento distrair-me ao pensar em uma conclusão pacífica para aquela rivalidade no beco. Chego ao meu destino, mas sem ter tirado dos ombros o peso que carrego.

*

O mercado é um incêndio de sons. Os gritos que tomam conta do lugar, carregado de vendedores ansiosos por vender as suas frutas, legumes, grãos e outros alimentos no geral, dão um toque de euforia, próprio dos lugares cheios de pessoas. Como sempre, aproximo-me da zona do peixe e peço o mesmo de todas as segundas-feiras.

“Aqui tem, Padre”, diz-me Leandro, o vendedor que me conhece há anos e embrulha, sem contemplar, os peixes, ainda epiléticos, em folhas de jornais antigos. Ao sair do mercado oiço as sirenes da polícia a queixarem-se num alarido, encorajando e perseguindo os curiosos que se juntam na cena do crime para recriarem a sua curiosidade e julgarem com os olhos. Ao passar perto da rua da batalha, posso ver como o rufia corpulento é algemado e colocado no carro-patrulha, mas não sem oferecer resistência. Não há sinais do jovem destemido. Afasto-me, imaginando uma vez mais uma conclusão rebuscada à história da briga no bar. Recai sobre mim a imagem do menino, a lembrança da sua voz que palpita nos meus tímpanos como se fosse um coro de anjos. Entendo que é uma blasfémia maior do que os palavrões do homem musculado e cheio de tatuagens. Faço algumas orações enquanto vou para casa.

*

A senhora Salomé desfila, balançando a vassoura à minha frente sem qualquer preocupação, sob a proteção de Tomás, como sempre. Adaptou-se à minha presença no sofá, à minha prostração habitual que me une a uma mistura de sensações que ela jamais suspeitaria. Por alguns momentos entendo que sou eu quem está acostumado à sombra da sua anatomia a deslocar-se pela sala. Levanto-me entediado e dirijo-me aos meus aposentos.

*

A música penetra em minha sensibilidade e imprime uma pegada com a sua alquimia melodiosa. Fecho os olhos e sou transportado para outro mundo, mais prazeroso, um lugar marcado por alegrias intermináveis, um paraíso feito de todas as flores: túlipas, dálias, ageratos, crisântemos, orquídeas, lírios – onde perder-se torna-se uma bênção. A única forma de evitar os pensamentos inalcançáveis e constantes.

*

Uma ânsia agita o corpo do jovem. A força, que comprime e que o diafragma libera violentamente, emana dos pulmões e irrompe com dureza, deslizando grosseiramente pela língua, atravessando as cordas vocais que transformam o impulso num som rouco e turvo. A tosse materializa-se na saliva que atravessa a garganta e termina numa viagem desde a janela até ao jardim. O menino tosse prolongadamente, com pausas que mal lhe dão descanso ao ardor das amígdalas. Ao mesmo tempo, o impetuoso latido de Tomás inunda toda a casa, apesar de estar no pátio, e é possível notar que a sua vigia não foi inútil, já que deve ter detetado provavelmente algum bicho escorregadio, ou talvez se trate apenas de uma invenção dos seus sentidos envelhecidos.

*

O toque recorrente move o silêncio enquanto oiço os sapatos da senhora Salomé atrás de mim, a deslizar apressados sobre os azulejos, detendo-se no seu destino para dar lugar ao som plástico do levantar do auricular. O tilintar dos utensílios do serviço de mesa eleva-se aos ouvidos de Tomás, órgãos cansados, mas mais despertos do que o seu olfato quase perdido. Talvez esteja a exagerar e ele tenha alcançado a mesa devido ao cheiro do peixe. O menino descansa. Mastigo com cuidado a textura do alimento. A suavidade salina que me satisfaz o paladar e oiço a aniquilação de alguma espinha entre os dentes. A senhora Salomé retira os pratos. E comunica-me, muito formalmente, que hoje precisa de sair mais cedo devido a um incidente doméstico, pelo qual se deverá ausentar por alguns dias. Assinto com a cabeça num gesto confirmatório.

*

Abro o tríptico após examinar o mundo em colapso. A minha visão recai sobre o lado direito, impregnado de ilustrações complexas. Será o inferno um lugar assim tão barulhento? Questiono-me. Será um grito infinito que faz explodir o cérebro e as entranhas para depois nos incentivar a recolher os nossos restos? Ou será que todos esses instrumentos musicais tingidos na pintura carecem de sons e o silêncio infernal é o destino dos hereges? O inferno não é o doce uivo do silêncio, disso tenho a certeza, é o fluxo de crepitações que se fundem para dominar a alma. Por isso este condenado está embutido nas cordas da arpa, e este outro infeliz está sacrificado no gigante alaúde. Então penso na minha condenação e escrutino a este triste sodomita perfurado por uma flauta como o iniciador de uma grande estirpe de sofredores e é como se conseguisse escutar o seu sofrimento, como se de alguma forma enigmática a sua dor fictícia se transfigurasse em cumplicidade dentro do meu intestino e me fizesse lembrar do horrendo pecado. Contemplo o homem que é abraçado por um porco com véu de freira, e é como se me tivessem introduzido no quadro, pois sinto o fedor dos sussurros obscenos no constante ruminar perto de mim, dentro de mim. Fecho urgentemente as portas deste terrível mundo espiritual e aparece a imagem do mundo terreno, uma paisagem que me parece ainda mais horrível. “Ó Mundo, estás cheio de pecado. Protege-nos, Deus. Salva-me, Deus”. Preparo-me para a missa.

*

Ave-maria puríssima, concebida sem pecado. “Eu pequei, Padre”. “Conta-me os teus pecados, filha”. “Tive pensamentos de luxúria. Vi-o ontem à noite, quase nu, e desejei o seu corpo, desejei-o com intensidade e ardor. Isso é muito mau, Padre?”

*

O sacerdote escuta e reprime um suspiro de cumplicidade. É a mesma história de cada crente, parcialmente desfigurada por uma leve matiz. É o desejo. O desejo pecaminoso e repugnante. O Padre Misael, ao fim de cada ritual de natureza análoga, acrescenta com a fórmula do rigor e manifesta-a, como está a fazer agora, com a mais normal das entoações, depois de ter escutado toda a parafernália íntima que implica uma confissão do espírito. “Que Deus, Pai misericordioso, que reconciliou consigo o mundo pela morte e ressurreição do seu Filho, e derramou o Espírito Santo pela remissão dos pecados, te conceda, pelo mistério da Igreja, o perdão e a paz. Eu te absolvo dos teus pecados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. No confessionário ouve-se um “Amém” carregado de alívio.

*

Ponho-me atrás da cabeceira e agito um frasco de colónia de nardos com a qual humedeço as minhas mãos. Unjo na superfície do seu rosto e creio notar um pestanejar que é imediatamente aplacado pela força febril da febre. O menino arde. Eu também, creio, mas por outras razões. “Dorme filho, que eu cuido de ti”. Quase a pegar no sono, levanto-me e noto que os medicamentos atenuaram a infeção. Esfrego as mãos uma vez mais e acaricio os seus pés com o bálsamo. Dirijo-me aos meus aposentos, mais aliviado.

*

“Louvada seja a água benta dos nardos que untaram o teu corpo. Descansa, que amanhã te levantarás e andarás”.

*

Deliro, já que vi de perto o rosto da besta, e isto só pode acontecer nos meus sonhos. É a febre. A sua baba inunda o meu corpo. Oiço a sua expiração e não tenho forças para gritar, tão pouco coragem para cuspir no seu rosto, nem sequer digo com saliva, mas com um olhar de nojo e horror. Choro, como é normal nos momentos de horror, e imploro ao céu, como é normal num crente. “Manda a besta para o inferno, Senhor. Protege-me. Cuida de mim, Senhor. Sê o meu amparo. Tu, Senhor, és o meu pastor. Contigo nada me faltará. Nada nem ninguém me poderá atingir”.

*

O jovem adormece finalmente, desta vez sem pesadelos, após o ataque de febre. O Padre, no seu quarto, dispõe-se a mudar o seu uniforme por uma roupa que lhe dê comodidade para descansar. Despe-se e contempla o seu corpo em frente ao espelho. Os pêlos convergem na púbis como um remoinho proveniente das coxas e do umbigo e envolvem a pélvis chegando ao epicentro da sua zona genital, que se ergue, pouco a pouco, numa poderosa ereção. “Livra-me do pecado, Senhor”, implora, sem sucesso. O seu desejo é maior que a sua capacidade de abstinência. Mas de repente, sente-se invadido por um impulso, por uma rajada anormal que faz alargar o seu peito num sinal de satisfação e que deprime o fluxo de sangue que a sua natureza impulsionou até o seu pénis. Agradece a Deus, veste o pijama e deixa-se cair de joelhos em frente à cama. “Obrigado, Pai”, apressa-se a expressar, com lágrimas de conformação varrendo as suas bochechas. Hoje os seus olhos repousarão com serenidade. Os seus ouvidos estão tensos até ao silêncio profundo da noite pacífica. Parece que Deus o escutou. Pelo menos é o que o Padre Misael insiste em acreditar.

TERÇA E QUARTA-FEIRA

Perfume e fedor

Adveniat regnum tuum.

Circula no ar, evaporando-se gradualmente, fugindo, divertindo-se e depois espreitando com timidez, voltando a manipular o meu olfato com o seu poder e com a impertinência da sua aparição. Recebo a fragrância e sinto como se os músculos do meu rosto se esticassem num sorriso de prazer. Satisfaço a minha necessidade de sentir o cheiro, infiltrado nas minhas narinas, do ar balsâmico carregado, acalmo a pressa odorífica inalando mais fundo e perco-me no suor das flores. Ao abrir os olhos, a imagem do rosto do menino junto de mim, devolve-me à realidade dos meus olfatos rotineiros, pois ao cumprimentá-lo, recebo o ar que mudou o aroma das suas bochechas para o cheiro horrível do meu hálito matinal.

*

Decidi que o menino deveria continuar de repouso, portanto, celebrei a missa sem a sua ajuda. Neste momento, a sua ausência parece-me mais tolerável. Justifiquei o movimento pendular do incensário, cujo fumo marcou a minha pele, com uma essência de resina. Agora vejo-o recostado contra o sofá, assoando o nariz num lenço caqui enquanto uma dose variada de desenhos em movimento transitam pelo ecrã. Vou para a rua, rumo ao mercado.

*

Malecón está completamente deserta. A frescura do rio brinda-me com um cheiro de água doce que se mistura com o simples aroma das palmeiras que adornam os seus contornos. O trânsito está fraco. O mesmo beco de sempre me acolhe com o cheiro a cerveja, a urina implantada pelos cantos despreocupados, com postes manchados de pestilência. Acelero o passo enquanto observo o nome de um estabelecimento novo, escrito em letras maiúsculas e em itálico. “Um lugar de perdição, Senhor, e ainda por cima no meu beco favorito”.

*

O mercado é um turbilhão de odores. Os legumes e as ervas aromáticas, os grãos e o marisco, os alimentos processados e as frutas, todos eles espalham uma extensa gama de sensações que invadem o olfato. Conduzo o meu corpo até à banca das especiarias. Fico impregnado com o cheiro da canela, dos cominhos, do cravo-da-índia, do pimentão-doce. Pago as especiarias com algumas moedas que Isaac, o vendedor, solteiro e com rosto carnudo, recebe em gesto de simpatia.

*

Corto o robalo em fatias grossas que primeiro passo por água e depois, com a carne já limpa, passo pelo sal e pelo limão. Refogo e coloco a comida num prato de porcelana. O seu aroma é forte e apetecível, tanto que Tomás abandonou o seu posto diário de batalha para me controlar com a sua língua esfomeada ao pé da cozinha, facto que talvez contradiga o meu ceticismo sobre a capacidade do seu nariz. Moo as bolinhas de pimenta, os paus de canela, o cravo-da-índia e os cominhos. Adiciono vinagre. Um líquido lacrimal percorre-me os olhos e atiro as cebolas picadas para dentro da frigideira com o seu doce aroma. Acrescento o peixe com um pouco de xerez. Tapo e deixo a cozer em lume brando.

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Voltei uma vez mais a implorar pelo perdão divino. “Estou arrependido de ter pecado por pensamentos e palavras, atos e omissões. Senhor, acolhe este pobre pecador para que volte para o Teu caminho e possa ser salvo por Ti”.

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Ali estão eles, a dançar com alegria na podridão. Encantados com a sensualidade. A luxúria satisfaz-se na armadilha do regozijo carnal e na concupiscência. Os prazeres desonestos sublimam-se em peixes horrendos, em conchas abismais e outras merdas. Cabras, camelos, cavalos e aves ansiosas pelo gozo sustentado pela devassidão. O espaço fede a pecado, a luxúria. Corrompem o ambiente com uma praga emanada do lado mais negro do nosso ser. Deixo de observar o quadro e certifico-me dos poucos minutos que disponho para o descanso antes que os sinos comecem a tocar.

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Estou prestes a celebrar a missa com um enorme cansaço muscular. Bebo dois copos de água que abafam o ruído do meu fígado, ou pelo menos é isso que imagino, ou desejo. Coloco a batina. Sinto-me mais puro.

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O menino faz-me uma pergunta que me deixa pasmado. Obriga-me a retroceder até que caio vencido no sofá. Incentivo-o a sentar-se do meu lado. Concorda, mas não sem antecipar um gesto que me adverte da disposição de não transgredir o seu propósito. Acaricio uma mescla de cabelo que escorrega da sua cabeça e coloco-a atrás da orelha, lugar onde pertence. Sinto o seu olhar carregado de expectativa. Tento não dececioná-lo e digo-lhe que Deus é bom e misericordioso, que não o podemos conhecer fisicamente ou imaginá-lo com os perfis anatómicos aos quais estamos habituados, mas esta aula de catequese não satisfaz a sua curiosidade. Mostro-me forte. Digo-lhe a verdade, que é preciso amar a Deus mesmo sem conhecê-lo. Diz-me, com uma cara de derrota e resignação, que Deus é complicado. Só me sinto vivo ao experimentar o doce aroma a almíscar que fica impregnado no meu nariz enquanto ele afasta as suas nádegas do móvel. Chamo-o. Volta-se com um olhar luminoso, com aquele olhar que me incita a agarrar-lhe pelas bochechas e a satisfazer os meus impulsos. Mas peço ao Senhor que me ajude, porque a ele nada é impossível, e então, com as forças renovadas, encaminho o menino para o meu quarto. Digo-lhe que é um segredo. Revelo-lhe que conheço a Deus. E mostro-lhe.

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Deus não é pequeno, embora o pareça a olho nu. Está distante para poder ter uma maior perspetiva do mundo, é só isso. O seu olhar, como sabemos, é omnipresente. Sentado no seu trono, a sua cabeça está coroada por uma coroa e nas suas pernas, descansa o livro sagrado. As suas costas estão protegidas por uma longa capa imperial. Consigo vê-la agora, enquanto o Padre Misael me mostra esta pintura peculiar. A escuridão do quadro causa-me medo. Contudo, resisto. No horizonte, por trás da névoa que cobre o céu, fechado no vidro côncavo, está Deus, e consigo vê-lo. Agora já o conheço. E vejo o seu sorriso.

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Preparo-me para dormir com o cheiro perfumado que provém da sua nuca. Rezamos juntos, corpo a corpo, e pedimos a Deus que nunca nos afaste do seu caminho, a fim de nos poder exultar nos seus preceitos. Há algo no ar que me impede de respirar normalmente. Tenho a absurda premonição de que estou a ponto de cair num pesadelo do qual não poderei despertar. Lá fora, começou a chover, muito suavemente.

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A manhã está fria. A chuva refrescou o ambiente. Dormi tranquilamente, em paz com o meu espírito e protegido pela infinita misericórdia de Deus. Fico mais descansado por saber que os pesadelos terminaram o seu trabalho de tortura noturna e que deram espaço para uma trégua. O meu otimismo não me garante que os derrotei. Uma parte de mim, sabe que conseguirei sair desta batalha contra o demónio, mas outra, a mais frágil, indica-me a dimensão do meu fracasso, pois a cada momento a minha mente sucumbe à tentação e cada parte do meu corpo infringe essa lei que exige a minha alma.

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Decidi tomar um banho. Tive a sensação de impureza na minha pele, não só pelo fedor das minhas axilas, mas também pela montanha de obscenidades que carrego no pensamento. Devo estar purificado antes de subir ao altar. Refrescar-me um pouco não me fará mal, de modo que começo a ensaboar a minha pele. Também lavo a minha alma com orações.

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A temporada de inverno aproxima-se e já é possível sentir o seu cheiro. Qualquer mortal o pode fazer, mas sobretudo os seres que estão habilitados da melhor forma para tais necessidades. Por isso, Tomás, ao contrário do que o clérigo pensa, sabe disso melhor do que ninguém. Reconhece como alheio o aroma etéreo que destila o solo perto da amendoeira. Por isso demarca o seu território com frequência. A estação do verão, já a terminar, é vencida pela humidade elemental dos ciclos. O cheiro da terra emerge e inunda o portal com o seu éter. Os antigos diziam que o petricor era o sangue dos deuses, a essência que corria nas suas veias. Hoje não passa de um aroma aclamativo que, de vez em quando, e desde que a sua qualidade de fuga não se desvaneça, causa-nos um pequeno desconforto, sem nos apercebermos de que é e sempre foi, ao longo de várias épocas, o verdadeiro suor desta terra, o seu cheiro aflorado. Tomás o compreende. O seu nariz não se desgastou até ao ponto de o mundo lhe ser indiferente. Ele percebe alguma coisa de odores. Compreendeu algo na sua longa vida de cão. Por isso deixa de urinar na amendoeira e tende-se a uma postura mística rara, já derrotado pelo clima, sobre as folhas húmidas que formam um colchão natural. O seu olfato realçou-lhe a sagrada condição das estações. Agora, finalmente, uma nuvem esquiva brinda-o com um pouco de sol que a sua pele agradece.

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Encontrei um velho amigo no mercado. Tivemos uma conversa agradável, mas breve.

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A senhora Salomé chegou enquanto estive ausente. Explica-me, em forma de justificativa, as suas penúrias. Digo-lhe que evite as preocupações, que compreendo a situação e que tire a semana de folga. Insiste em preparar o almoço de hoje como forma de compensação pela futura ausência. Não irei implorar. Fecho-me no meu quarto enquanto a senhora cozinha e tiro uma garrafa de vinho do meu lugar secreto. Começo a beber com longos goles.

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A garrafa está a metade e deixo-a sem qualquer precaução sobre a mesa de cabeceira. O vinho ingerido provoca-me uma leve sensação de tontura que pretendo expulsar com uma chávena de café. Imploro por um banho de água fria, mas a senhora Salomé diz-me que a comida está pronta. Engulo a sopa com ressentimentos. O calor acalma o vazio do meu estômago, o estranho desconforto causado pela bebida. Levanto-me da mesa olhando para o menino que come e dirijo-me aos meus aposentos com uma enorme vontade de dormir.

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Entreabro os olhos e a primeira imagem que vejo é a do mundo. A minha bebedeira não é adequada para perscrutar as delícias imundas do seu jardim. Imagino o corpo nu do menino com verdadeira luxúria e depois volto a adormecer. Quando acordo, apercebo-me de uma posição incomum do lado direito do quadro pintado. Suponho que alguém tenha revisto a pintura. A senhora Salomé está proibida de entrar nos meus aposentos e sempre foi respeitosa, portanto a minha única suspeita recai sobre a curiosidade do miúdo. Não me irrita, mas também não me agrada a sua invasão. E então, sinto a pastosidade que manchou as minhas cuecas durante o sono.

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Hoje vieram menos pessoas à igreja do que ontem. No entanto, os meus sermões foram mais extensos.

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O último livro da Bíblia anuncia um inferno repleto de fogo e enxofre como condenação para aqueles que traem as leis do Senhor. Um inferno de fetidez, de vapores fedorentos, seria um tormento insuportável, mesmo para qualquer alma alheia às debilidades do corpo. Defeco calmamente e com alguma dor. O meu esfíncter expulsa um gás em forma de um guincho agudo. Cheira mal, mas aspiro-o, imaginando um tormentoso inferno pestilento, saturado de eflúvios fedorentos e, aqui sentado, o cheiro sobreposto à imaginação incita-me à náusea. Abro um pouco da porta, permitindo que circule um pouco de ar fresco que sacuda os miasmas excrementícios, o ar viciado que contaminou o meu organismo.

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Tomás fareja-me a perna, provavelmente por ter sentido o cheiro a sabão no meu corpo após o banho. Começa a emitir grunhidos desagradáveis. Puxa-me pelo tecido do pijama e rasga-o, inundando-o com a sua baba. “Cão feio”. Agora vejo-o afastar-se, satisfeito com a sua brincadeira. Tiro o pijama e vejo-me nu em frente ao espelho. Não resisto a fazer uma carícia à zona dos meus testículos. Um fluxo elétrico faz-me tremer. O meu pénis incha num tom vermelho-escuro. Ao reagir, afasto-me do espelho com horror. Tiro outra roupa e tento esquecer os meus desejos.

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O Sinédrio dos sentidos acolhe com agrado a proposta de trair a alma.

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Tiro-lhe a camisa com uma serenidade que nem parece a minha. Mas são as minhas mãos que despem o seu tronco. Deito-o com o rabo virado para a minha cara, que afasto imediatamente, corando instantaneamente. Acaricio as suas costas que provavelmente estarão a queimar com o fresco do mentol. Os seus pulmões já o sentem, tenho a certeza, pois as minhas mãos esfriam ao ritmo das massagens. Contemplo pela última vez o seu rabo perfeito de jovem dominante. Volto-o com o seu rosto virado para mim. Meto o mentol sobre os seus peitorais e aproveito para apalpar os seus mamilos tímidos que emergem sem ousadia. O cheiro forte do eucalipto penetra-me.

*

Esta madrugada, ambos dormem com o ruminar da chuva a açoitar a rua. Nem o Padre Misael teve o sonho da faca, nem o jovem Manuel a visão da besta. Talvez tenham desaparecido de vez. Estamos no limiar de um novo dia. No centro da cidade, a chuva arrasta todos os pivetes da rua do bilhar. A chuva forte limpa a velha árvore do pátio. Durante as chuvas, alguns ingénuos afirmam que é Deus a chorar por todos os pecados da humanidade. A imagem mais acertada não estaria simbolizada pelas lágrimas divinas que caiem sobre o mundo, mas pelo chiado da urina que nos encharca, como o de Tomás, que agora descasca a casca da velha amendoeira. De uma forma ou de outra, afinal é do corpo do Deus imaterial que provem o líquido que nos lava.

QUINTA-FEIRA

Frio e calor

Fiat voluntas tua, sicut in caelo, et in terra.

Sou sacudido por uma descarga ardente cuja génesis é o occipício e parte em êxodo destilando por toda a minha coluna dorsal. Os meus tendões despertam e obrigam-me a esticar o comprimento do meu corpo na prazerosa dor que é consumida de forma orgástica nas minhas cuecas. Sinto como o meu pénis vai descendo lentamente, derrubado pelo prazer convulsivo da poluição, enquanto na minha alma se forma um vazio que não consigo suportar. O frio desliza pela janela aberta e balança a cortina com um uivo lânguido e consecutivo. Observo como o veludo estremece sobre a parede, embate no vidro da janela, contra a moldura feita de pinheiro. Sinto a brisa deslizar e colar-se às minhas axilas, agitando-me a pele numa rajada que arrepia o meu corpo todo. Suspiro. Separo-me do interior maculado pelo sémen. Levanto-me e oro pela fraqueza do meu corpo.

*

O calor do café encoraja-me a deixá-lo. Prefiro ingerir o sumo de pêssego com pequenos golos. O menino conta-me uma história um pouco profana, mas não me atrevo a repreendê-lo. Apenas olho para ele e esboço um sorriso frio. Hoje também não me fez companhia na missa e fez-me tanta falta, principalmente quando o bispo Pio deu a bênção. Observo-o e maravilho-me com as suas feições, com o seu olhar despreocupado, com o seu cabelo despenteado pela manhã. Levanto-me rapidamente da mesa, tentando desviar o olhar que continua voltado para ele, uma e outra vez.

*

Tive tremores. Hoje não sairei de casa nem sequer para atender os paroquianos que estão a preparar-se para a sexta-feira Santa. Deixei alguns compromissos menores ao cargo de outrem, seguindo a recomendação do doutor. O miúdo prepara-me uma infusão que ingiro com os medicamentos. Ao voltar-se, pude notar o movimento das suas nádegas num vaivém provocador. Rendo-me ao sono.

*

Vejo o rosto do rapaz ao acordar. Esteve a fazer-me companhia durante todo o tempo em que estive com febre. Diz-me que fez o almoço e conforta-me o corpo com uma sopa quente que insiste em dar-me à boca, colher atrás de colher. Mas depois vem um momento de tensão. Repreendo-o por ter examinado a pintura sem o meu consentimento e responde-me que só queria saber o que continha o quadro. Não é uma questão de proibir-lhe o conhecimento, mas considero que deveria ter consultado antes uma voz que lhe confirmasse se estava ou não capacitado para tal conhecimento. Responde-me que se sente apto e implora que o guie pelo quadro. Após uma luta de súplicas e rejeições, cedo ao pedido e permito-lhe abri-lo. Ele faz uma cara de surpresa. “É lindo” diz, “mas horrível ao mesmo tempo”. “É a nossa alma”, digo-lhe ou penso simplesmente. O choque residual da febre deixa-me tonto. Neste momento só me dá vontade de afastar-me do menino, de gritar com ele para que saia do meu quarto e que desapareça para sempre, que Deus me revelou que ele é um emissário do demónio. Sou invadido pela vontade de o excomungar da minha vida. Sei que farei tudo ao contrário, porque me ergo para ele e pouso uma mão sobre o seu ombro e a sustento num abraço cheio de intenções. “O que estás a ver é um paraíso, um inferno, e isto aqui”, digo-lhe com uma voz magnânima indicando-lhe a parte central, “é o mundo”. “Por agora já chega! Teremos tempo para o examinar parte por parte”. O meu corpo não resiste ao impulso e beijo-o na bochecha enquanto desço a mão até à fenda das suas costas. Não reage em forma de rejeição. Pede-me, inesperadamente, que lhe dê a bênção.

*

Mandei o miúdo ao mercado para fazer compras. Sinto a sua ausência e tento combater o desejo com uma oração, mas ao estar ajoelhado, as palavras ficam-me presas na garganta. Desta vez não consigo rezar. Levanto-me, tomo um duche de água morna, e preparo-me para o receber o mais arrumado possível.

*

O menino finalmente chega, mas infelizmente vem acompanhado pela menina Raquel, uma mulher prestativa à disposição da Igreja, jovem, apesar dos seus quase quarenta anos, solteira, apesar da sua beleza. Atrás dela entra uma comitiva de senhoras que se juntaram para me fazer uma visita e oferecer-me frutas, compradas precisamente, imagino, à bela solteirona. Tomás cumprimenta com latidos de indignação. Recebo-as com aparente agradecimento, dando-lhes, com a autoridade que me conferem, algumas advertências, mas também uma ou outra tarefa para a preparação da procissão de amanhã e despeço-me delas de forma delicada alegando o pretexto do meu repouso. Fecho a porta atrás delas, com o gume de ferro bolorento e dobradiças enferrujadas, e vou ao encontro do rapaz por toda a casa.

*

Convido-o uma vez mais a entrar no meu quarto. Mantemos uma conversa sobre certos aspetos teológicos que ele debate com leve consentimento. Instruo-o enquanto pouso a minha mão aberta sobre a sua apetitosa coxa carnuda. Incentivo-o a fazer uma oração em conjunto. Coloco-me atrás dele e juntos proferimos o nosso pedido habitual. Sinto o calor do seu corpo que abafa o frio do ambiente e, ao mesmo tempo, refresca o ardor das minhas entranhas.

*

O corpo vence-me. Deito-me com o sabor das frutas ainda patente no meu paladar. Ensaio uma oração que se derrete na tentativa. A minha cabeça está em outro lugar, na figura do miúdo. Dirijo-me com passos cambaleantes até à sua porta. Entreabro-a e vejo o seu corpo adormecido no prazer da sesta numa postura fetal com um belo traseiro a apontar na minha direção, convidando-me a acariciá-lo, a dar-lhe uma dentadinha definitiva. O meu corpo gelado ferve de febre ou de algo mais. Numa explosão de lucidez, volto para a minha cama.

*

Acordei com a viscosa sensação do suor colado à minha pele. Observo o brilho do sol da tarde que se reflete no espelho e inunda o quarto com o seu resplendor, invadindo cada esquina. Entendo a necessidade de me lavar, pois uma onda de calor invade o quarto e as minhas virilhas estão pegajosas. A febre já passou. Imploro por um pouco de água fresca.

*

Enviei as indicações aos fiéis por escrito para a procissão da sexta-feira santa. O menino foi a minha companhia enquanto escrevia a mensagem que depois encarregou-se de entregar, estimulado pela promessa de ensinar-lhe uma parte do quadro. Não consegui conter o meu interesse dos seus movimentos, o meu olhar recaiu sobre ele a todo o momento. Fez-me até desviar a caneta em algumas características.

*

A caixa do disco possui como capa a imagem de um caminho cercado por folhas outonais que se perdem num horizonte sugestivo. A passagem amarelada atravessa um bosque de absoluta gentileza. Nenhum pássaro estraga a tranquilidade. Nenhum animal se atreve a profanar a serenidade do pequeno universo de folhas e terra. Todos estão escondidos para, de forma fogosa, inaugurarem um paraíso infernal. Coloco o disco no aparelho, obrigando-o a girar rapidamente. Aquela geringonça transforma-se num minúsculo turbilhão infinito que gira a milhares de rotações por minuto. A música invade a sala, muito lenta, como se estivesse a lutar por acordar de um sono imposto por forças restritas, inalando sossego, absorvendo silêncio, mantendo-se no espaço que depois ocupará com a sua tonalidade imperial. Mas será o frio. O baixo marca o ritmo, prosseguindo de forma contínua, jorrando com um crescendo que matiza as tímidas intervenções dos violinos: são os passos do caminhante a quem pressiona alguma tribulação, são os rangidos do gelo a ponto de quebrar-se. Agora, soam os raios queimados pelo violino solista, o tormento da orquestra ruge e agita o espaço e vibra aos pés do desgraçado. A competição começa com o impulso do baixo que pulsa com insistência e marca rapidamente as pegadas. A imposição magistral do violonista principal invade, atingindo com as suas rajadas de vento gelado, e o intenso frio obriga a tremer e impõe o ranger de dentes.

*

“Estás a ver esta zona aqui”, e mostra-me a parte superior do lado direito da pintura aberta. “Todo o quadro simboliza os suplícios do pecador. Mas esta parte daqui, especificamente, é a imagem tópica, usual, que fazemos do inferno. Enxofre a cair numa chuva contínua, montanhas destruídas e cobertas de escuridão e pessoas num sofrimento indescritível”.

“Nesta zona”, mostra a parte central com o dedo indicador desenhando uma elipse, “o gelo marca um grande contraste com o fogo de enxofre, porque dentro da conceção do inferno como lugar de tortura eterna, um espaço de gelo é um dos lugares mais horríveis. Vê como se racha aqui e o pobre homem fica à mercê da água fria”.

“Nesta parte”, mostra a inferior, “está aquilo que na arte chamamos de inferno musical, devido à utilização de instrumentos musicais como símbolos de tortura. Muito comum em certos pintores místicos. Estás a ver esta gaita, mais para aqui está o alaúde, aqui está a harpa. E aqui, uma flauta. Consegues ver?”

Questiono-o se o inferno é mesmo assim. Pela janela noto que já é de noite.

“Bom”, diz-me, “o desespero e o martírio, de certeza que estão bem representados pelo autor, e aqui sobre este quadro, por parte do imitador, que é um intérprete, como prefiro chamar-lhe”.

Pergunto-lhe como é que vê o inferno através do que diz a sagrada escritura. Não responde. Parece imerso numa reflexão que escapa ao momento e às minhas dúvidas. Está realmente a perguntar-se de como será o inferno.

“O livro sagrado mostra o inferno como um lugar de incandescência perpétua onde as almas serão lançadas para os lagos de enxofre. É assim que o pintor o retrata na parte superior desta obra. De facto, Cristo menciona-o constantemente, mencionando determinadas premissas, tais como o fogo que nunca se apaga, o lamento e o ranger de dentes, o castigo eterno”.

Fala sem olhar para mim, como se estivesse a falar consigo próprio.

“Há séculos que se considera o fogo e o gelo, ou melhor dizendo, o calor e o frio, como os sofrimentos mais atrozes num lugar de castigo eterno. Um grande poeta da antiguidade descreve uma parte do inferno com a habitual chuva de chamas, e outro segmento, é o dos traidores, formado na sua plenitude por gelo. O demónio, como regente deste espaço de perdição, está enfiado a partir da cintura na superfície gelada. Chora com os seus seis olhos e agita as suas seis asas enfurecidas”.

Imagino um inferno de gelo. O Hades seria um paraíso em comparação. Uma tortura sem fim no entorpecimento perene. Mas o que o meu corpo tolera agora é o calor. Um calor intenso que se prolonga à medida que avança o ensinamento do padre Misael e que me oprime com o ar carregado pela sua aproximação, tão próximo. Reconheço as suas palavras como uma forma de sabedoria espiritual. Não quero aborrecê-lo mais com a futilidade dos meus questionamentos. Peço a sua bênção e concede-ma com grande força, depois esculpe-me um beijo sagrado na boca.

*

Decidimos comer pão para o jantar, eu com um pouco de vinho e ele com um copo de sumo. Falamos à mesa sobre temas de especial interesse para ele. Olho-o nos olhos enquanto lhe explico determinadas conceções sobre sentir o Espírito Santo pulsando na palma da sua mão. Depois levo as minhas ao seu rosto. O impacto do seu corar roça a minha cara. Acaricio as suas bochechas e volto a beijá-lo, desta vez de forma profunda.

*

Palpita o odiável beijo que delimitará o itinerário da traição e do inferno.

*

Estou no seu quarto e mostra-me um pijama bege. Informa-me que estou apto para servir um representante de Deus no mundo, que de hoje em diante serei o seu guia espiritual. Explica-me que a batina é o único vestuário sagrado que o ser humano possui. As minhas novas tarefas consistem em despi-lo e vestir-lhe a roupa de dormir. Parece-me uma tarefa simples e aceito com gosto servir ao padre, um filho de Deus purificado.

*

As suas mãos deslizam lentamente pelas minhas coxas. Sinto-as mornas, reparadoras, tão perturbadoras e aprazíveis. Contenho um gemido. Vibro ao sentir a sua respiração na zona do meu pénis, na trepidação dos meus pelos que se agitam atraídos pela onda de magnetismo da sua pele navegando pela minha pele, através do rosa dos seus dedos castos. Agora é o meu peito que se satisfaz, que se alegra num prazer que não pertence a este mundo. A minha pele arrepia-se. Sou dominado pelo seu toque. Arrebatado pelo contacto da sua pele imaculada. Os vincos da minha camisa agitam-se ao ser lentamente desabotoada. Grito sem qualquer contemplação, mas ele não para. Parece ter iniciado uma tortura na qual se sente um carrasco e não quer deixar a sua vítima escapar. Presencio este segmento da minha existência como um momento vital. Abraço-o e mantenho-o assim durante um tempo, o qual não me atrevo a estabelecer. Sou eu quem se afasta. Veste-me com uma agilidade insuspeitável. Um sufoco queima o meu corpo. Ajoelha-se diante de mim, formalmente, e pede-me a bênção. Concedo-a com um beijo no seu cabelo espesso. Vislumbro que a minha alma não descansará até que satisfaça o meu corpo. O meu corpo não estará satisfeito até que dê início ao que a minha alma tanto nega. Não aguento mais e aqui deitado, rendo-me ao doce suplício do prazer solitário. Depois vem o vazio. Rezo a noite toda pela minha salvação.

*

O padre aceita a derrota da sua alma, renunciou a si mesmo e entrega-se à vontade de Deus. Prostra-se sobre o chão de azulejos frescos e reza, com o rosto caído sobre as mãos. “Meu Pai, se for possível, não me faças beber deste cálice. Contudo, não seja feita a minha vontade, mas sim a tua”. Confrontado por ter iludido a sua responsabilidade espiritual, o padre Misael tenta descansar, mas torna-se impossível conciliar o sono. Aproxima-se da janela e acaba por sentir a brisa que atinge o seu rosto e alivia o calor intenso.

O jovem entrou na profundidade do sono, e com ele a calamidade do pesadelo que não o abandona. Desta vez tenta, apesar da fragilidade da sua fissura, escapar dos suspiros da besta ciclópea que está a um passo de o alcançar com as presas cobertas de baba. Conhece o fim inevitável da sua história. O seu suor serão gotas de sangue que cairão sobre a terra. Uma explosão de calor impregnada no ar circula inutilmente sobre o corpo arrepiado do menino.

Todos sabemos que Deus, ao ser espírito, e o mais supremo de todos, não sente. Pelo menos não como este homem desgraçado, e muito menos como este pobre jovem pecador de um inferno inaugurado que nem sequer se concretiza. Está na hora de dormir, padre, descanse, que amanhã o mundo trará um novo começo. Deus não entende os seus suplícios.

Os ombros do padre Misael recebem um peso colossal. Exausto, prostra-se sobre a cama e fecha os olhos. O pesadelo da navalha e as orelhas voltarão a surgir do canto obscuro da culpa.

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Yaş sınırı:
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Litres'teki yayın tarihi:
07 nisan 2020
Hacim:
160 s. 1 illüstrasyon
ISBN:
9788835403012
Telif hakkı:
Tektime S.r.l.s.
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