Kitabı oku: «O Misterioso Tesouro De Roma»

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O

Misterioso

Tesouro

de

Roma

Juan Moisés de la Serna

Traduzido por Paula Gaudenci

Editorial Tektime

2020

“O Misterioso Tesouro de Roma”

Escrito por Juan Moisés de la Serna

Traduzido por Paula Gaudenci

1ª edição: Julho 2020

© Juan Moisés de la Serna, 2020

© Edições Tektime, 2020

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Prólogo

Se tivessem me contado, não teria acreditado. Quem diria, que uma viagem a trabalho poderia se transformar na minha maior aventura, e que graças a ela, pude salvar a vida da pessoa que tempos depois seria minha esposa por trinta felizes anos? Minha memória, às vezes, me engana, e é difícil me lembrar de lugares ou datas, portanto, vou relatar os fatos da forma mais legítima possível para que esse texto me sirva como um diário.

Na minha vida, como presumo que na de todos, tive muitos momentos bons e felizes e também momentos difíceis e tristes, mas nenhum tão relevante como o que me aconteceu naquela semana que tanto marcou minha maneira de pensar, e meu futuro.

Dedicado aos meus pais

Sumário

CAPÍTULO 1. A TÃO DESEJADA VIAGEM7

CAPÍTULO 2. A PRIMEIRA SURPRESA39

CAPÍTULO 3. MINHA ESTADIA EM ROMA71

CAPÍTULO 4. O VATICANO105

CAPÍTULO 5. BUSCANDO ENTRE AS RECORDAÇÕES125

CAPÍTULO 6. UMA SURPRESA INESPERADA145

CAPÍTULO 7. ANTES DO RETORNO157

CAPÍTULO 8. A VOLTA175

CAPÍTULO 9. O INDALO201

CAPÍTULO 10. UM DIA ESTRANHO219

CAPÍTULO 1. A TÃO DESEJADA VIAGEM

Se tivessem me contado, não teria acreditado. Quem diria, que uma viagem a trabalho poderia se transformar na minha maior aventura, e que graças a ela, pude salvar a vida da pessoa que tempos depois seria minha esposa por trinta felizes anos? Minha memória, às vezes, me engana, e é difícil me lembrar de lugares ou datas, portanto, vou relatar os fatos da forma mais legítima possível para que esse texto me sirva como um diário.

Na minha vida, como presumo que na de todos, tive muitos momentos bons e felizes e também momentos difíceis e tristes, mas nenhum tão relevante como o que me aconteceu naquela semana que tanto marcou minha maneira de pensar, e meu futuro.

Um amigo, há um tempo, me convenceu de deixar minhas memórias por escrito, mas somente nesses últimos dias decidi fazê-lo, talvez não tenha feito antes por preguiça ou porque acreditava que ainda teria muitos anos pela frente, mas agora é diferente…

Ninguém me disse como fazê-lo e não tenho certeza de que tudo vá dar certo, talvez omita muitos detalhes, pode até ser que confunda os nomes, mas tenho clareza sobre os eventos que aconteceram comigo.

Com meus oitenta anos recém-completados, me dou conta de que grande parte da emoção vivida naquela data foi resultado mais da minha inexperiência e desconhecimento das coisas, que pouco a pouco fui aprendendo e compreendendo em minhas descobertas e viagens posteriormente vividas.

Meu quarto repleto de fotos e recordações como estátuas e monumentos em miniatura, tapetes bordados com temas locais, me remete a algum dos muitos lugares que vivi.

Se me perguntassem de onde sou, não poderia responder com firmeza, sei o lugar e o dia em que vi a luz pela primeira vez, tal como aparece no meu passaporte, mas… vivi em tantos lugares e continentes, às vezes com permanência de três meses, outras de anos, e em todas tentei ajudar e colaborar no que pude.

Por isso, no decorrer do tempo, fui merecedor de algumas medalhas e outros reconhecimentos, apesar de que para mim, o melhor agradecimento ao meu trabalho via no dia-a-dia, na cara dos meus alunos, na felicidade de seus rostos que refletiam pelo mesmo anseio, desejo e esperança.

Meus queridos alunos…! Sempre foram minha grande fonte de inspiração, embora em várias ocasiões eu tenha comentado sobre isso, acho que eles nunca acreditaram totalmente em mim, mas aprendi mais com eles do que eles foram capazes de tirar de mim.

Bem, assim me distraio, cada coisa no seu tempo, porque não pretendo contar toda a minha vida, mas apenas registrar, quase como um manifesto, o que foi, sem dúvida, o período mais intenso e importante de todos os meus anos vividos.

Era no amanhecer, um dia de verão… não, de primavera! Agora, lembro-me de que um dos meus companheiros de viagem ainda estava afetado, para não dizer intoxicado, pela recente celebração que agora seria chamada de festival da primavera, que reuniu muitos jovens no campus.

Apesar de nem todos sermos estudantes, sabíamos aproveitar a festa igualmente, com música e dança, compartilhando e convivendo com amigos, um momento de lazer longe da pressão dos estudos e das aulas restritivas.

Havia até quem trouxesse algo para beliscar, que a sua mãe havia preparado. Sortudo ele, que ainda podia desfrutar das delícias da cozinha da família e não como a maioria isolada no campus, comendo aqueles pratos insossos que tinham gosto de comida de hospital.

Apesar de bem cozida ou refogada, era insípida e sempre com o mesmo sabor, ainda que o menu era alterado para que pudéssemos comer bem, com um equilíbrio nutricional adequado à nossa constante atividade física e intelectual, mas por mais variedade que houvesse, era feita sem aquela pitada de amor e carinho que nossas mães acrescentam, como condimentos secretos dos grandes cozinheiros.

Mas nem todos se divertiram da mesma forma, os mais insensatos esvaziaram as cervejas, como se fosse água da fonte, que trouxeram naqueles barris, mesmo sabendo que era proibido.

O resto de nós, que éramos um pouco mais conscientes de que teríamos aulas à tarde, nos limitamos a aproveitar o momento, sem exageros.

Ao final, tive que levar um daqueles colegas que bebiam para o quarto, com um cheiro intenso de cerveja de derrubar, já que por si só era incapaz de chegar, pois suas pernas não aguentavam nem seu próprio peso.

E quando tentavam andar sozinhos, cambaleando alguns breves passos até que, de repente, caíam, sentando no chão, como se fossem bebês aprendendo a andar, sem sequer avançar mais de dois metros.

Enquanto resmungavam repetidamente que tinham que voltar para os seus quartos, como se a culpa tivesse tomado conta de suas mentes e não percebessem que não podiam avançar mais, era impossível fazê-los raciocinar para que permanecessem quietos e sentados no lugar até que passasse a tontura e com isso poderem executar aquela missão estoica quase impossível de realizar, como era voltar aos seus aposentos.

Uma visão deplorável de grandes atletas, como eram alguns deles, e agora mal conseguiam manter-se em pé por mais de alguns minutos.

Alguns de nós tivemos que intervir levando-os para seus quartos para que descansassem o que restava da noite, sabendo que no dia seguinte eles se sentiriam indispostos e com grandes dores de cabeça, mas era o que lhes correspondia por seus excessos.

O dia havia amanhecido radiante, não me lembro de uma manhã tão ensolarada já às seis horas, mas estava tão emocionado que precisava me levantar e começar a fazer algo, mas tudo já estava pronto.

Os muitos anos de disciplina nesse colégio militar haviam me transformado em um homem de bem, correto em seus pensamentos, organizado e prevenido, tanto que fazia quase uma semana que havia preparado minha mala de viagem.

Sobre as roupas que eu usaria, alguns haviam proposto que todos nos vestíssemos de forma parecida, talvez um mesmo tipo de roupa ou usando algo de uma cor, mas a ideia foi descartada pela maioria já cansada de usar uniforme todos os dias para ter que vestir outro parecido na viagem.

Levei apenas uma calça, várias camisas, um colete, meias e roupas íntimas, que ocupavam a maior parte da mala, junto com o guia de viagem do país e um caderno para anotar os fatos mais importantes de cada dia.

E é exatamente ele que estou consultando para relembrar os dados mais marcantes da viagem porque, na minha memória, há muito tempo deixei de confiar, desde o dia em que estava, no meio da rua, andando tranquilamente e parei, fiquei quieto por um momento quando deu um branco na minha mente.

Estava tentando me lembrar para onde me dirigia, o que eu faria, e o mais preocupante era que não sabia de onde tinha vindo, nem sequer onde morava, tudo ao meu redor parecia estranho e novo, e se já tinha passado por aquela rua, pois não me parecia familiar.

Fiquei muito nervoso olhando para todos os lados, via as pessoas passando despreocupadas, como uma mãe com um filho correndo ao lado do carrinho que empurrava, onde um bebê vestido de rosa descansava tranquilamente, com um laço da mesma cor em volta da cabeça.

Depois, passou um homem levando um cachorro em uma coleira e carregando um jornal enrolado debaixo do braço. Talvez por isso eu tivesse saído! Para comprar o jornal, mas onde estaria a banca? E qual seria o jornal que eu normalmente lia?

Minha respiração acelerava à medida que passava o tempo sem resposta, olhando para todos os lados, parando as pessoas que passavam calmamente, para perguntar se elas me conheciam de algum lugar e se poderiam me ajudar a voltar para casa.

Os carros iam e vinham na estrada próxima, até que um deles parou e o passageiro, sem sair do auto, me perguntou em tom amigável:

― O senhor está com algum problema?

Eu não sabia o que responder, nem sequer sabia por que tinham parado, era possível que eles me conhecessem, talvez fossem vizinhos, amigos ou familiares… talvez fossem até meus próprios filhos e eu não era capaz de me lembrar.

Me virei para dar-lhe as costas, envergonhado pela minha situação, me sentia tão inútil e confuso que comecei a tremer de desespero, olhando para todos os lados, sabendo que haviam me perguntado diretamente, mas não sabia a resposta, não sabia… nem qual era meu nome.

― Não se preocupe, senhor! Nos deixe ajudá-lo! A primeira coisa que precisamos saber é o seu nome e se você mora perto, ― insistiu o homem enquanto saia do carro e se dirigia a mim, me possibilitando ver uma silhueta redonda, coberta por uma chamativa camisa azul e calça da mesma cor.

Eu ainda suspeitava daquele que, embora usasse um tom tranquilizador, se aproximava de mim com muita confiança, mas eu não o associava a nada, para mim é como se fosse a primeira vez que eu o tivesse visto, e isso que eu estava me esforçando para lembrar, mas… sem sucesso.

― Não se preocupe, eu sou policial ― afirmou ele, enquanto colocava sobre a cabeça aquele chapéu peculiar que eu rapidamente reconheci ― Não tem nenhuma identificação? Talvez na carteira!

Apesar do prazer de ter reconhecido a sua profissão, era incapaz de emitir algum som, porque minha língua estava embolada, com uma grande sensação de secura na boca e não conseguia balbuciar nenhuma palavra.

Mas, mesmo que eu não tivesse tido essa dificuldade para me expressar, não saberia o que dizer, porque não conseguia me concentrar, enquanto minha respiração acelerava devido à confusão do momento. Eu mal podia ouvir o que estava acontecendo ao meu redor, escutando como se ele estivesse muito longe, como se não fosse comigo.

― Olhe no bolso de trás ― insistiu aquele homenzinho com um tom quase paterno, do qual mal se distinguia o pescoço que deveria separar a cabeça do resto do corpo, enquanto colocava a mão no meu ombro.

― Atrás? ― respondi murmurando quase de modo imperceptível enquanto me recuperava graças ao pequeno toque que ele havia dado no meu ombro, que parecia uma grande demonstração de carinho, assim como eu costumava sentir quando, a princípio meus filhos e, depois, meus netos, me abraçavam.

Inspirando fundo um pouco angustiado com a situação, levei a mão ainda trêmula para trás, e para minha surpresa, toquei em algo duro no meu bolso. Puxei, e havia o que o policial estava dizendo, uma carteira com a foto de identificação de alguém, que eu imaginei que fosse minha, por isso estava comigo.

Estes foram dias difíceis para mim, os médicos me mandaram repousar e que comesse muitas frutas secas, cerca de cem gramas de nozes por dia, mas sempre que podia, eu as trocava por avelãs, por gostar mais. Menos mal que os enfermeiros cuidaram de mim diariamente até que eu pude me virar sozinho novamente, embora nunca tenha voltado a ser como antes.

Agora eu sempre levava comigo, em casa e na rua, um pingente com um botão que eu apertava quando estava com alguma dificuldade, ou quando não sabia onde estava ou como chegar em casa. Após pressioná-lo, estando na rua, eu apenas deveria esperar alguns minutos para que alguém aparecesse para me ajudar.

Se eu estivesse em casa, a televisão ligaria e uma bela moça me perguntaria do que estava precisando. Embora esses cuidados me parecessem excessivos, é verdade que eles me tiraram de mais de um problema.

Diferente de como me sentia quando era mais jovem, acordar todos os dias era motivo de alegria, sabendo que ainda poderia fazer algo pelos outros, pois, embora há muito tenha me aposentado, nem por isso deixei de fazer aquilo para o que creio que nasci, fazer o bem aos outros.

Já realizei meus sonhos de ambição em busca de uma posição social, o respeito dos outros e desfrutar de dinheiro suficiente para ter uma velhice confortável, mas agora tudo aquilo ficava como uma vaga e banal lembrança.

Tanto tempo desperdiçado nessas bobagens, tanta vida sem viver, me preocupando e me preparando para o futuro e quando tudo chega, fica sem sentido. Uma existência vazia que eu conseguia preencher pouco a pouco, graças àquela que foi meu grande amor desde a adolescência, e que a tive até a sua partida. Se eu tivesse me dedicado ao ramo imobiliário, agora teria muitas posses, se fosse banqueiro, muito dinheiro, mas apesar de só me dedicar a ajudar aos outros… sentia-me tremendamente afortunado por isso.

Bem, sigo minha narração… vamos ver…, eu estava falando da festa da primavera…, não, isso eu já contei, foi… no dia seguinte.

Por volta das sete horas, descemos todos para o café da manhã, bom… todos nós que conseguimos acordar porque havia quem ainda dormia bêbado.

Às dez horas, estávamos no ônibus para o aeroporto, éramos cerca de quarenta, de todas as faculdades dentre os que haviam decidido fazer essa viagem.

Para isso, tivemos que arrecadar o dinheiro necessário, vendendo blusas ou jornais e todos os tipos de sobremesas para acompanhar a comida e, é claro, realizamos a festa de personificação, na qual todos nós que íamos viajar tivemos que atuar imitando um diferente cantor da atualidade, individualmente ou em grupo.

A ideia não era torná-lo perfeito, apenas entreter e divertir um público dedicado, que cantava todas as músicas, o que tornava mais fácil a atuação.

A roupa não era muito caprichada, pois não gastamos muito tempo preparando-a, já que tínhamos as provas próximas, mas isso não quis dizer que, por algumas horas, todos os participantes não se divertiram. Inclusive entre o público, houve um ou outro que subiu no palco no intervalo entre as apresentações para improvisar a sua música, com o mesmo sucesso que o resto.

Naquele dia, não se falava de outra coisa na faculdade, nos parabenizavam pelos corredores, como se fôssemos heróis nos dirigindo a uma gloriosa epopeia que ficaria nos registros da história.

Alguns zombavam da nossa imprudência, por sairmos antes das provas finais, sem nem sabermos se terminaríamos o curso naquele ano ou não, mas nenhum de nós se importava, na expectativa de que o que esperávamos fosse uma aventura memorável, como no final aconteceu, pelo menos para mim.

Já no ônibus, comentávamos o que achávamos que iríamos encontrar, se falava desde o ponto de vista mais cultural e histórico, passando a relatar os lugares que apenas tinham interesse turístico, até chegar ao mais superficial, que se tornou o tema central do resto do caminho para o aeroporto, as garotas.

Todos nós tínhamos uma imagem idealizada daquelas preciosas criaturas, mas a opinião de um era diferente da de outro. Havia tantas opiniões a respeito como pessoas naquele veículo, que inclusive se tivéssemos perguntado ao motorista, ele teria nos ilustrado com outra totalmente nova.

O único que parecia ter uma ideia exata da realidade do nosso destino era o chefe da organização da viagem, já que viveu vários verões no país, ainda que no sul, nas praias, e agora íamos para a região central. Era um grande país, com muitos lugares para visitar, e onde cada um se destacava por suas características.

Dos vinhedos do sul, junto com suas praias e aquela montanha fumegante sempre à beira de explodir, até a cidade da moda do norte e que possui um dos times de futebol mais reconhecidos do mundo, passando por inúmeras vilas e cidades com tradições seculares, algumas onde foram traçados o curso da história do país, outras que contêm a sua própria arquitetura ou uma excepcional beleza da paisagem.

Roma, nosso destino final, descartando, em nossa escolha, Paris, Amsterdã ou Madri como cidades candidatas que se destacavam por reunir alguma das seguintes características, que tivesse uma certa tradição e uma cultura marcante e onde houvesse uma atmosfera amigável e jovem.

Ainda que pudessem ter incluído muitos outros lugares nessa lista, a verdade era que apenas foram essas quatro possibilidades e dentre elas foi eleita Roma, uma vez que nenhum, exceto um, a conhecíamos, enquanto as demais eram vários os que tinham estado em um ou em outro lugar.

Naquela época, não sabíamos muito bem o que iríamos enfrentar, tudo estava organizado como uma viagem de grupo, os traslados, a estadia e até a comida, e só precisávamos levar algumas liras, a moeda local, para comprar alguma lembrança.

Para isso, vários de nós trocamos uma pequena quantia no banco antes de partir, embora houvesse quem preferisse fazê-lo no aeroporto de chegada, porque esperava que o câmbio fosse mais favorável no país de destino.

Era uma daquelas coisas que nós, jovens, acreditávamos que, ao ganhar um pouco de dinheiro, economizando ao máximo em algumas pequenas coisas, poderíamos fundar no dia de amanhã uma grande empresa.

Agora que me lembro que vários de meus colegas de turma foram altos executivos de grandes empresas, inclusive um deles foi diretor do FMI. (Fundo Monetário Internacional), cargo que nenhum de nós nem sonhava em alcançar, apesar da influência, do poder e do dinheiro de alguns de nossos pais. Mas, daqueles jovens impetuosos e ambiciosos, o que resta agora?

De vez em quando, uma parte da turma se reunia para celebrar a passagem das décadas desde que nos formamos, mas desses, que eram os que tinha mais contato, não resta mais ninguém.

Os anos atingiram a todos, apesar das grandes fortunas que alguns acumularam ou das muitas cirurgias feitas por alguns, para trocar um baço, fígado ou até o coração, tentando remediar os excessos da sua juventude, tentando enganar a morte, mas mais cedo ou mais tarde ela chega a todos nós. Não sei por que não me alcançou, talvez ainda tenha algo a fazer, mas não saberia dizer o quê.

Agora que me lembro, conheço um amigo que após gastar a sua fortuna em doações para centros de pesquisa para que lhe buscassem uma cura para essa terrível doença que é a velhice, tudo o que conseguiu foi um solitário e frio caixão, com um metro e oitenta de comprimento por setenta de largura, em um centro experimental onde conservam o seu corpo congelado.

Lá, permanece inerte como se estivesse dormindo profundamente, esperando que, passados uns anos, talvez umas décadas, a tecnologia avance tanto que lhe consigam reanimar para lhe conceder a tão almejada longa vida.

Pessoalmente, e após ter sobrevivido a tanto, entendo que poucos anos já teria sido suficiente… se eu tivesse percebido o que é realmente importante.

Tanto tempo desperdiçado buscando e desejando, sem saber o verdadeiro valor de cada instante. Muitas vezes pensei que, se tivesse uma segunda oportunidade, mudaria muito do que fiz. Não é que me arrependa, pois tenho a consciência tranquila, mas faria de outra maneira, e inclusive, em outra ordem.

Tantas lembranças, tantas vivências e, agora, são só fotos num álbum antigo acumuladas em alguma caixa, ou algumas emolduradas e penduradas na parede à espera de que alguém venha e me pergunte sobre ela.

Nunca fui muito bom em contar histórias, pois minha pressa sempre me aconselhava que fosse direto ao ponto, omitindo os detalhes, mas agora, mesmo que eu quisesse, esses detalhes já não existem, só as fotos e algumas anotações. O resto fica como se eu estivesse atrás de uma espessa névoa da manhã, que oculta a paisagem.

O que me dá uma estranha sensação, as vezes de admiração e outras de impotência, sabendo que há tesouros detrás da névoa, você tem certeza de que estão lá, mas são inacessíveis.

Minha mulher, ela sim era excepcional para recordar até os mínimos detalhes de qualquer viagem, reunião ou conversa. Era incrível a clareza com que os narrava, era como se eles estivessem a sua frente, o que lhe permitia descrevê-los.

Ainda me surpreende quando me lembro de como ela era capaz de reconhecer pessoas que não via há anos e, simplesmente, ao vê-las, sabia perfeitamente quem era e sobre o que tinham falado da última vez.

Uma memória prodigiosa que a permitia aprender sobre qualquer assunto, praticamente ao vê-lo uma só vez.

Ela me dizia que isso era porque tinha uma memória fotográfica, mas eu ria dizendo que não havia nenhuma câmera, nem sequer das modernas, que pudessem gravar tantas imagens como ela.

Ah, minha mulher! Não creio que houvesse sobre a terra um ser tão especial como ela, é uma pena que tivesse que ir tão cedo, com tanto o que nos restava compartilhar, tantas viagens por fazer… parece que foi ontem quando a encontrei pela primeira vez e por outro lado agora…

Que estranha é a memória! Que para o que quer, lembra de tudo e no instante seguinte só fica o vazio, se pudesse apenas guardar minhas lembranças durante um momento! De que me serve tudo o que vivi se não posso recordá-lo? Menos mal que meu legado ficará em meus alunos.

Graças a eles e aos seus filhos, tudo o que eu soube, permanecerá para as gerações futuras. De fato, me sinto satisfeito mesmo que apenas um deles possa aplicar em algo o que lhe foi ensinado e com isso melhorar a sua vida.

Bem, que assim volto a enrolar…, menos mal que tenho aqui aberto diante de mim o meu diário de viagem para me lembrar onde estava, deixe-me ver… O que tenho anotado daquela época em meu diário?

“23 de abril de 1953. Hoje saímos às dez e fomos à Paris para trocar de avião até Roma. Na chegada, um ônibus nos levou até o hotel. Um estabelecimento pitoresco com quartos pequenos e camas um pouco duras, mas com vistas incríveis e uma localização excepcional na área turística. Primeiro dia de aventura, dividindo o quarto com Arthur, que ronca tanto que não me deixou dormir”

Isso é o que tinha anotado junto com um símbolo que havia na porta do hotel, o brasão da família do proprietário do estabelecimento.

Não me lembro muito bem do que aconteceu, mas o que está claro é que nenhum de nós passou a noite no hotel, mas sim, que queríamos aproveitá-la para percorrer a cidade e conhecer o que não estava nos livros.

Ao final, tivemos que voltar ao hotel desanimados e com o corpo cansado de uma exausta e infrutífera noite, após muito andar, perambulando por aquelas escuras e mal iluminadas ruas, com uma penumbra constante quebrada unicamente por uma ou outra lanterna, como pequenas chamas prestes a se apagarem.

E toda essa caminhada para nada, pois não conseguimos chegar ao nosso ponto de destino, onde nos tinham assegurado que poderíamos encontrar uma atmosfera festiva em qualquer época do ano.

Talvez tenha sido um erro na escolha da rua, uma esquina errada, uma praça que viramos na direção oposta, o que nos desviou de nosso objetivo, fosse o que fosse, nenhum de nós ficou aborrecido porque foi uma experiência e tanto poder ver a cidade com outras cores, privilegiados por uma bela e luminosa lua cheia que refletia nas paredes sinuosas, sombras das estátuas e decorações das casas da época medieval.

Nossos sonhos partidos naquela noite não nos desencorajaram a visitar uma boa parte do centro na manhã seguinte, e para isso, tivemos a ajuda de uma pessoa que nos havia disponibilizado a embaixada.

Ele era um homem mais velho, de físico forte e um certo ar boêmio, por sua maneira de se comportar e usar aquele lenço chamativo no pescoço, dobrado para fora.

Que eu me lembre, era a primeira vez que via um homem usando um lenço como uma peça de roupa, diferente das garotas que costumavam usar para cobrir a cabeça, quando ventava muito, impedindo que seus cabelos fossem despenteados.

Esse senhor nos servia tanto como guia turístico quanto para controlar nossas ações, uma em especial lhe haviam encarregado: que nos cuidasse, para que não nos metêssemos em muitas confusões enquanto estivéssemos na cidade.

Embora não achasse necessário, pois todos estávamos conscientes da situação política do momento, do quão delicada era a nossa presença devido às implicações internacionais que poderia envolver, tentamos nos ater ao que havia sido o plano aprovado, mas tudo saiu do controle quando tivemos o primeiro acidente grave da viagem.

Apesar dos muitos avisos de que nossa presença naquele lugar poderia levantar suspeitas e desconfianças entre seus habitantes, não tínhamos visto um único gesto incorreto. Além disso, não esperávamos que isso nos afetasse muito, pois vínhamos com poucos dias para ver tudo e íamos conforme o plano, mas um incidente com um dos colegas, quando lhe roubaram o pouco dinheiro que tinha, fez com que o grupo se desfizesse e se desagregasse.

Alguns colegas, incluindo o afetado pelo furto, iniciaram a perseguição atrás daquele malfeitor, guiados mais pela indignação que lhes havia provocado do que pela quantia, pois ele tinha se virado e rido a alguns metros após tê-lo roubado, mostrando com provocações seu saque, mas todas as tentativas de encontrá-lo foram em vão.

Não que ele corresse muito, mas conhecia cada um dos cantos e segredos daqueles becos, além de sem saber de onde, surgiram alguns colegas seus que dificultavam a corrida, colocando-se no caminho, interrompendo as possibilidades de que se alcançasse o delinquente.

Mesmo aqueles que já haviam saído em sua perseguição, não creio que tivessem muito claro o que fariam quando o encontrassem e recuperassem o dinheiro, só reagiam instintivamente como cães de captura em busca de seu troféu.

Aquilo causou uma sensação desagradável no grupo, quebrando a harmonia que até então tínhamos.

Alguns decidiram voltar ao hotel para ligar para a embaixada, alertá-los sobre as circunstâncias ocorridas, e pedir novas instruções sobre o que fazer. Alguns poucos pressionaram nosso guia para que fizesse a polícia intervir, os carabinieri, mas ele negava com a cabeça pois parecia que aquilo era mais normal do que nos tinham dito.

Me incluo entre os poucos que ficaram alheios à situação, e preferimos continuar com a excursão, sabendo que não tínhamos muitos dias antes de terminar a estadia, já que a perda provocada, afetou mais que nada o orgulho daquele jovem que havia sido violado em sua privacidade com aquele furto, e por isso, não acreditávamos que tínhamos que parar nossas atividades culturais visitando os lugares mais interessantes da cidade.

O guia, vendo essa desordem, nos indicou aos poucos, que queríamos seguir a visita, por onde deveríamos ir e a que horas deveríamos voltar para comer, pois ele, afinal, tinha decidido voltar ao hotel com os colegas que queriam avisar a embaixada.

Alguns, mudando de opinião, ficaram bastante incomodados porque ele não quis envolver as autoridades locais e continuaram a excursão conosco.

Não éramos nem metade do grupo, um ou outro ficou no local esperando que, aqueles que tinham saído correndo atrás do criminoso, retornassem para que pudessem indicar onde estava o resto de nós e, assim, nos encontrarmos antes de comer novamente.

Agora sim estávamos em uma aventura, em um país do qual não compreendíamos o idioma, e que, para onde quer que olhássemos, a cultura local era totalmente desconhecida para nós.

Já havíamos visitado com o guia os monumentos mais importantes, o Coliseu e o Fórum, e agora estávamos indo conhecer uma das muitas igrejas que estão distribuídas aleatoriamente pelo centro, como gotas de orvalho no campo, aguardando serem descobertas pelo visitante.

Aquelas visitas de conteúdo religioso não faziam muito sentido para mim, pois havia muito que abandonara minhas crenças, então não encontrava nenhum significado em entrar em toda igreja para contemplar retábulos pintados séculos atrás ou para admirar uma estátua ou ícone por muito mais notável, antiga e bem feita que fosse.

Mas, para minha surpresa, as igrejas não só continham arquitetura e vestígios religiosos, como também eram um refúgio para muitos outros elementos, restos arqueológicos ou pertencentes à cultura popular independentes de sua origem, pois se tornaram lugares de refúgio de peças artísticas, sem a necessidade de que a temática fosse exclusivamente religiosa.

Um exemplo disso foi a visita que fizemos à igreja de Santa Maria em Cosmedin, em cujo exterior está o resto arqueológico de uma grande roda entalhada com a imagem de uma pessoa idosa de cabelos desarrumados e a barba emaranhada, com um olhar fixo e perturbador, com a boca aberta.

A princípio, ficamos um pouco surpresos, dos que íamos na frente da fila e diante de nossa perplexidade, um de nós se atreveu a colocar a mão ali e nada aconteceu; depois disso, todos também a colocamos com o mesmo resultado, sem entender completamente o significado daquilo nem para o que servia.

Mais tarde no hotel, o guia nos explicaria que se tratava da Boca da Verdade, na qual ao introduzir a mão direita na abertura, se a pessoa que o fazia não dizia a verdade, a perdia.

Depois disso, continuamos perambulando pela cidade, maravilhados com a quantidade de vestígios artísticos e culturais que haviam sobrevivido o passar dos anos.

Eu tinha ouvido falar dos castelos medievais, daquelas suntuosas e grandiosas construções, fortificações erguidas para salvar os pertences dos reis e senhores feudais do lugar, junto com os habitantes dos povoados vizinhos, mas estar lá era como viver em uma cidade medieval onde se mantinha ainda a mesma arquitetura em suas ruas, fontes e praças.

Não importa para onde olhássemos, fosse uma varanda ou a verga de uma porta, nos impressionava a imponência dos detalhes lavrados, esculpidos ou pintados, lembranças de uma gloriosa era artística anterior. Além disso, conforme soubemos depois, a cultura das diferentes artes era algo que se mantinha vivo nas escolas, consideradas uma das mais prestigiadas do mundo, um bom lugar para se viver, se for amante da história.

Mas eu era mais pragmático, preferia aquilo que tivesse alguma tecnologia e todas as vantagens que isso implicava. As avenidas amplas e planas, onde você poderia se deslocar com seu veículo de um lugar para outro em pouco tempo, sem precisar subir e descer as ruas de paralelepípedos.

Uma maneira diferente de ver e considerar a vida, preferia as grandes cidades, onde era fácil acessar todos os serviços em minutos. Eu nunca tinha pensado que alguém pudesse viver em um lugar tão peculiar.

Levantar-me pela manhã e ver tudo isso parecia bastante inusitado e confuso; não me imagino viver desde criança ali, seria como estar permanentemente em um museu, sabendo que tudo o que tocasse tinha centenas de anos.

Mesmo que em relação às pessoas as diferenças entre nós não fossem tantas, no entanto, alguns nos olhavam com cara de estranheza, de desconfiança, o que nos fazia sentir como estrangeiros ali, quase como uma força de ocupação.

Talvez fosse apenas impressão, pode ser porque estivéssemos vestindo roupas diferentes daqueles que estávamos acostumados a ver por lá.

O que quer que seja, com o desgosto do furto que havíamos sofrido durante a manhã, andávamos com o cuidado de que não se produzisse nenhum outro desentendimento ou problema parecido, sabendo que agora éramos menos.

Talvez nossa viagem tenha sido muito precipitada devido às circunstâncias sócio-políticas do momento, mas era um sinal de boa vontade por parte do nosso colégio, uma demonstração de cooperação e troca.

Não sei se algum grupo de estudantes italianos iria visitar nosso país, suponho isso, mas minha informação não chegava a tanto.

Talvez fosse parte de uma política de abertura com o resto do mundo, não sei, o que estava claro é que nunca tinha visitado o país e que era uma grande oportunidade para fazê-lo, por isso não queria que nada nem ninguém me atrapalhasse.

Se o colega que teve a sua carteira roubada tivesse me dito a quantia que lhe faltava, eu mesmo a teria desembolsado para poder continuar com tranquilidade aquela excursão.

Não imagino que outro elemento de valor poderia ter nela, já que toda a documentação tínhamos guardada na embaixada. Aqui, para nos movermos pela cidade, tinham nos fornecido uma ficha na qual vinham nossos dados, o endereço do hotel onde estávamos hospedados e o telefone da embaixada. Apesar de estarmos em plena primavera recém-chegada, fazia bastante calor e não estávamos acostumados a temperaturas tão elevadas nessa época do ano, e era difícil para nós encontrarmos fontes para beber.

Das que havia, não estávamos seguros de que fossem potáveis, apesar de que as pessoas dali bebiam sem nenhuma preocupação, mas nós, por prudência, preferimos apenas refrescar as mãos e a cabeça, pois uma fonte que tem funcionado há tantas centenas de anos, não pode estar tão limpa quanto gostaríamos.

Talvez fosse diferente, mas aquelas pessoas nos pareciam bastante inocentes, longe das grandes cidades cheias de fumaça das fábricas próximas, à qual estávamos acostumados, mas algo parecido deviam pensar de nós, quando nos fascinávamos com os detalhes que eles contemplavam todos os dias.

Gostávamos tanto do que víamos, que alguns de meus colegas para não esquecerem, se dedicavam a recordá-lo em seus cadernos de desenho, preenchendo-os com a forma mais ou menos traçadas dos edifícios mais significativos e importantes. Outros, pelo contrário, parece que lhes ia melhor a escrita e paravam em cada rua tentando relatar, em alguns parágrafos, aquela maravilha que víamos. Apenas alguns colegas conseguiram trazer câmeras fotográficas.

Não sei como eles teriam passado pela alfândega, porque nos tinham dado instruções concretas antes de partir de que não poderíamos tirar nenhuma tecnologia de nosso país, mas suponho que o sobrenome dos pais desses colegas pesasse mais do que qualquer outra norma escrita.

De vez em quando eles nos pediam que parássemos para tirar algumas fotos em que aparecêssemos todo o grupo e atrás o edifício em questão.

Talvez tenha sido mais inexperiente que o restante no quesito viajar, já que tinha trazido apenas um pequeno caderno de anotações, no qual pretendia reunir todo dia o que era mais importante sem tentar captar naquelas poucas linhas a admiração que a cidade despertava em mim a cada passo.

Um dos aspectos que me pareceram mais curiosos pelo contraste com o que conhecia, estava relacionado à maneira de vestir das mulheres. As mulheres mais velhas, usavam um lenço preto na cabeça e vestiam o mesmo tom. As jovens o faziam com cores discretas e lenços muito chamativos.

Acostumado a ver as do meu país maquiadas, com grandes saias rodadas, com mangas curtas onde se viam os braços e apenas algumas usando o lenço para um detalhe decorativo.

Além disso, parecia que havia uma clara diferenciação entre sexos quanto ao que se podia fazer ou não, de modo que os homens desfilavam pela rua em seus trajes que pareciam os melhores estilos, onde a maioria, quando não estava no trabalho, usava uma simples camisa devido ao calor predominante, mas era uma atitude um tanto estranha para nós, os homens pareciam ser os que mandavam na sociedade, enquanto as mulheres recatadas tentavam passar completamente despercebidas, como se não tivessem nada para demonstrar ou contribuir.

Aquilo me parecia bastante surpreendente, é como se todos tivessem ficado presos no tempo, me refiro à como se vestem, pois não acho que seja algo religioso, como acontece com os quakers, uma comunidade que tinha se isolado do mundo, mantendo sua cultura sem querer progredir, prova disso era a roupa que utilizavam que não estava muito longe da que víamos agora.

Bem, essas eram as minhas impressões naquele momento; com o tempo, chegaria a entender a cultura que estava vendo, e era tudo fruto da minha inexperiência, pois segundo me revelaram os colegas que haviam viajado pela Europa em outros momentos, dependendo do país que se fosse, havia costumes e maneiras de vestir totalmente diferentes.

Até o tratamento entre homens e mulheres era bem diferente dependendo do país onde se estivesse, então eles me falaram sobre a exuberância da mulher francesa, que exibia suas qualidades sem modéstia, assim não esperava que o homem fosse em sua busca, mas era ela quem escolhia aquele que lhe parecia mais galã.

Mesmo em outros lugares em que compartilhávamos uma cultura e um idioma em comum, pareciam ainda manter tradições muito características, ao contrário do que vinha acontecendo em nosso país há muito tempo; as mulheres ainda não tinham conseguido ter um nível suficiente de independência econômica e política, como na Inglaterra, onde ocorreram os primeiros movimentos para obter o sufrágio universal, ou seja, que as mulheres pudessem votar na eleição dos seus representantes legais e com isso as reconhecesse uma série de direitos que lhe equiparavam ao homem. Mas tirando o aspecto político, ainda havia muitas que não trabalhavam mais além dos setores minoritários e em suas casas.

Aquelas comparações não deixaram de me surpreender, parecia que essa parte do mundo evoluía mais lentamente do que pensava.

Pelo menos no meu país, um esforço importante tinha sido feito para compartilhar sua cultura com o resto, uma vez que tinha integrado à sociedade todos os emigrantes que nas últimas décadas tinham chegado provenientes de todos os países da Europa, refugiados políticos, acolhidos ou simplesmente familiares, que desta forma se reencontravam.

Muitos tinham vindo fugindo de um sistema político que não os convencia, outros procurando melhores condições de vida e oportunidades de trabalho, e todos foram acolhidos sem diferença de sexo, raça ou religião.

Em pouco tempo haviam assimilado a cultura do país sem perder a sua própria, por isso era difícil distingui-los nas ruas, nem nas escolas, nem nos locais de trabalho.

Talvez o que mais se destacasse fosse a cor de sua pele ou algumas fisionomias, mas como já havia tantos que estavam neste país há gerações e gerações, isso não era indicativo de nada.

O que sim eles mantinham como sinal de identidade, eram seus ritos e cerimônias ao casar-se ou despedir-se de seus entes queridos quando morriam, alguns dos quais havia assistido mais de uma vez, as primeiras por curiosidade e as demais por amizade.

CAPÍTULO 2. A PRIMEIRA SURPRESA

Percorremos aquelas antigas ruas, muitas delas empedradas, em busca do que se supunha que seria uma visita curta, mas eram intermináveis e inumeráveis os locais de interesse turístico, pelo menos assim parecia ao resto dos membros do grupo, que se emocionavam toda vez que virávamos uma esquina descobrindo um importante e antigo edifício.

Para mim, tantas visitas a prédios históricos pareciam eternas, então estava um pouco fadigado e cansado, talvez por ter andado a manhã toda de um lugar para o outro. Pode ser que fosse devido ao calor predominante e a evidente mudança de horário, que fazia com que ainda estivesse escuro em meu país quando aqui era quase meio-dia, ou também podia ser por haver passado a noite em nossa fracassada exploração pela vida noturna da cidade, ou uma soma de tudo isso que aconteceu.

Ademais, tudo isso permanece imóvel aqui há centenas de anos e acredito que continuará assim por muitos mais.

Não entendo a necessidade deles de visitarem cada um dos lugares que achavam atraente, documentando-os com fotografias ou em seus cadernos como se fossem os descobridores de ruínas antiquíssimas.

Sentei-me ao lado de uma fonte de pedra, no meio de uma praça, à espera de que meus colegas saíssem de uma igreja. Estava distraído, olhando para o fundo da poça que se formava com a água que caia da fonte, quando uma menina se aproximou de mim.

Por sua estatura, não creio que tivesse mais de seis ou sete anos, usava um vestido branco e um lenço amarelo na cabeça e com um largo sorriso me ofereceu uma flor de grandes pétalas brancas.

Após acolher tão preciosa e delicada presença em minhas mãos e sem saber o motivo daquele presente, quis pagá-la, pegando algumas moedas da minha carteira e oferecendo-as para que ela pegasse, mas ela negou com a cabeça, dizendo-me algo que não entendi e erguendo sua mão direita à altura da cabeça como um gesto de despedida, virou-se e saiu correndo.

Não sabia o que fazer com aquela pequena maravilha e a coloquei na lapela; em outras circunstâncias, não o teria feito, porque sabia que se usa este tipo de enfeite tão florido nos casamentos e em alguns eventos sociais, embora sejam usados mais como acessório por parte das mulheres.

Quando olhei para cima, após colocá-la, vi que a menina se afastava por entre um dos muitos becos, que levavam a esta praça; sinceramente estava um pouco desorientado com essa distribuição urbanística bastante caótica, acostumado às grandes cidades onde das ruas principais, de maior tamanho, partia o resto das secundárias, menores, mas aqui o tamanho da via não era indicativo de nada; de qualquer uma delas surgia outra e mais adiante outra de tamanho diferente e dessas outras novas avenidas e vias.

Além disso, as poucas indicações que enunciavam o nome do local onde nos encontrávamos estavam escritas naquela língua estranha, que apesar de compartilhar um alfabeto semelhante era bastante enigmática para mim.

Talvez se eu tivesse prestado um pouco mais de atenção nas aulas de línguas antigas, nas quais meus professores desperdiçaram tanto esforço tentando implantar em mim um amor pela cultura clássica, mas como essa matéria não contava muito para a nota final, não a estudei com muito interesse, o que agora me impedia de aproveitar melhor essa viagem, não apenas porque a cidade estava cheia de inscrições em portas e lintéis e em outros restos arqueológicos, no antigo latim já em desuso, mas porque a língua que falavam os cidadãos aqui, os italianos, era uma derivação ou evolução do mesmo.

Além disso, o guia que a embaixada indicou nos servia de tradutor, conversando com vendedores e comerciantes que se aproximavam do grupo para tentar nos vender um ou outro objeto ou quando queríamos entrar em um edifício particular para contemplar os vestígios arquitetônicos ou históricos nas vilas.

A esse respeito, ainda não estava muito claro para mim o tipo de relação que tinha a arte naquela cidade; parecia que os antigos benfeitores, os patronos da época, pagavam generosamente os artistas para que deixassem suas obras refletidas, e com isso fazendo daquela capital um centro cultural de referência.

É verdade que no meu país temos alguns patronos que doam parte de sua riqueza aos jovens talentos, mas a sua generosidade não chega a tanto para que seus benefícios sejam colhidos década após década, como estímulo às novas gerações.

Além disso, o próprio governo contribui, através de vários mecanismos, ajudas diretas ou de subsistência àqueles que se destacam sobre os outros, mas essas ajudas não se concentram exclusivamente nos artistas, mas tentam recompensar os que melhor desempenham um determinado trabalho, para que possam continuar formando-se e desenvolvendo-se.

Assim, jovens promessas da ciência, da pesquisa, das artes e até dos esportes são recompensados com ajudas para que possam dedicar suas vidas a isso sem se preocuparem em procurar um emprego para poder pagar por seus estudos.

Felizmente, para mim, eu estava entre os jovens afortunados, com bolsas do governo, dos quais dependia o progresso e o futuro do nosso país. Essa bolsa estatal me permitia estudar no mesmo centro que os outros, sem a necessidade de ter um pai com um alto cargo político ou uma grande fortuna, como alguns dos meus companheiros de viagem, ou sem ter uma notável e destacada carreira esportiva como tinham outros.

A especialidade pela qual eu havia optado dentro das ciências era a matemática, pois desde pequeno eu gostava de descobrir a relação que tinham os elementos na natureza, adivinhar os eventos antes que acontecessem, prever o comportamento dos animais e das pessoas.

Eu não tinha ideia de tudo isso, mas quando comecei a estudar matemática, entendi que essa era a linguagem do futuro, pois com ela eu podia teorizar sobre eventos presentes e futuros, podia compreender as associações de conjuntos e seu comportamento e aplicá-las à vida cotidiana.

Talvez fosse algo pretensioso, assim como me havia explicado algum professor, tentar dar alguma lógica ao mundo que nos cerca, sem levar em conta o comportamento instintivo. Da mesma forma, alguns dos meus colegas de faculdade me consideravam presunçoso, já que preferiam confiar em algo tão intangível como eram a sorte e o azar, mas eu tinha certeza de que por trás de cada fato e de cada comportamento, existia uma fórmula que o explicava.

Assim, me especializei nas teorias econômicas, com as quais eu era capaz de prever o comportamento dos governos em relação ao comércio interno e externo.

A principal teoria que havia defendido era a de que os povos se expandiam ou contraíam em função da disponibilidade de alimentos, onde não se tratava tanto de que tivessem uma boa ou má temporada nos cultivos, mas da facilidade ou dificuldade do intercâmbio através do comércio.

Deste modo, tinha relido a história através desta hipótese e pude observar como certos povos estavam condenados a seu desaparecimento por não terem uma matéria-prima para oferecer aos povos vizinhos e, portanto, não poderem negociar com nada que os outros necessitassem.

Alguns dos meus professores, quando tive que defender a minha tese, acusavam-me de forçar a realidade para a adequá-la ao modelo matemático, mas estava certo de que aquilo era um receio da sua parte.

Se conhecesse todas as variáveis econômicas de um determinado povo, ou pelo menos as mais importantes, poderia prever sem excessivos erros, quantos anos de subsistência teria e se este povo se tornaria dominante ou dominado.

Assim, se aqueles povos que cultivavam e geravam matérias-primas não tinham ao seu redor outros que os transformavam e fabricavam, ficavam sem possibilidades de crescimento. Era uma simbiose perfeita, benéfica para ambos, na qual o produtor sobrevivia graças à manufatura das matérias primas.

É verdade que isso provocava uma diferença econômica bastante importante, já que o povo produtor necessitava pagar até dez vezes mais pelo mesmo produto que eles tinham tirado da terra quando estes estavam processados, mas se falarmos exclusivamente de sobrevivência, ambos povos conseguiam subsistir.

Talvez minhas teorias tivessem impressionado a poucos, mas o mais notável era quando as utilizavam em outros âmbitos, alguns me haviam proposto que realizasse uma variação daquilo, para tentar adivinhar como funcionariam os povos na questão dos armamentos.

Embora minha ideia econômica inicial fosse mais previsível, pois os povos já não se regem apenas pela quantidade de armamento que possuem, mas sim pela sua qualidade e capacidade logística, elementos que nas minhas equações são difíceis de estimar e avaliar.

Estando abstraído e absorvido nestes pensamentos, de repente escutei alguém gritar, vinha daquele lugar onde a menina que tinha me dado a flor havia ido.

Olhei para todos os lados e ninguém parecia se alterar por aquele grito, foi por uns breves segundos e logo se dissipou no turbulento movimento dos transeuntes.

Fiquei parado por um momento e um estranho pensamento me veio, talvez aquela menina estivesse em perigo. Me deu um calafrio que subia por toda a medula espinhal até o pescoço e de repente saí correndo em direção a onde tinha visto pela última vez aquela pequena, a qual parecia que ninguém mais havia notado seu pedido de socorro.

Lá deixei meus companheiros de viagem sem sequer lhes dizer nada, já que ainda não sabia para onde estava indo. Percorri aceleradamente uns cem metros quase sem respirar, até que parei bruscamente quando terminou a rua, que bifurcava em duas.

Olhei ansioso e intrigado para todos os lados já que não fazia muito tempo desde que ouvira aquela menina e não a vi em lugar nenhum. Ela não poderia ter corrido tanto em tão pouco tempo como eu tinha feito, por isso já a deveria estar vendo, embora diferentemente da praça movimentada que acabava de deixar, aqui não pude ver ninguém.

Teria sido muito útil perguntar a qualquer transeunte se tinha visto uma menina pequena passar por ali, mas ao não encontrar ninguém, não sabia o que fazer, podia me dirigir a uma rua ou outra, mas até onde? Por quanto tempo manteria minha busca?

Embora não soubesse nada daquela garotinha, o pensamento de que pudesse estar em perigo me parecia pelo menos preocupante e não queria voltar, mas era inútil seguir correndo indefinidamente por estas ruas.

Só poderia ter desaparecido se a menina fosse levada nos braços, pois não via nenhuma outra possibilidade já que com seus próprios pés não teria chegado tão longe tão rapidamente.

Voltei bastante abatido e preocupado, desiludido por não ter conseguido ajudá-la, com a respiração ofegante pelo esforço realizado, e vi que na metade da rua à direita havia uma pequena porta a qual não tinha notado ao passar correndo.

Percorri nervoso de novo a rua desde o início para ver se havia mais aberturas e não encontrei nenhuma outra. “É possível que a tenham levado por aqui?”, perguntei-me diante da portinha que dava um pouco acima do meu peito.

Coloquei minhas mãos naquela velha porta de madeira inchada pela umidade, e empurrei para ver se ela cederia, pois não tinha nenhum tipo de trinco ou fechadura. Após várias tentativas, ela cedeu para dentro e abriu, fazendo um escandaloso ruído, como as velhas e enferrujadas bicicletas quando passam um tempo sem serem usadas.

Parei na frente daquele buraco escuro decidindo se iria entrar ou não, porque tinha certeza de que era uma propriedade privada à qual ninguém me convidara a entrar, além disso, era improvável que aquela garotinha tivesse entrado por ali, porque, nesse caso, eu deveria ter ouvido esse som peculiar, a não ser… que a porta já estivesse aberta antes que a pegassem.

Coloquei a cabeça para ver o que havia por trás dessa porta de madeira velha e inchada e a única coisa que pude ver foi uma imensa e profunda escuridão, acompanhada de um cheiro intenso de umidade, mais típico de lugares próximos ao mar, nos quais a umidade predominante no ambiente é impregnada nas paredes, corroendo-as e formando um salitre que lasca e racha.

Fiquei ali, resistindo ao cheiro forte, esperando minha visão se acostumar com a escuridão para tentar localizar algum objeto lá dentro, enquanto tentava ouvir algum ruído, por mais insignificante que fosse. Mas tudo aquilo foi em vão, não havia nenhum som ali dentro porque a única coisa que ouvia era a minha respiração rápida e não vi nada que não fosse a mais absoluta escuridão, com o que concluí que aquela porta devia levar a uma sala fechada, fria e úmida.

Mas o que poderia ser aquilo? Talvez um antigo armazém de comida ou o sótão abandonado de alguma casa.

Com muito cuidado e avisando da minha presença caso houvesse alguém dentro daquele lugar sinistro, decidi entrar.

Para evitar colidir com qualquer objeto, deixei a porta aberta, mas não ajudou muito, porque aquela escuridão se transformou simplesmente em uma espessa penumbra onde minha sombra projetava como uma silhueta sinuosa e assustadora na parede do fundo.

Após quase cair porque na entrada havia três degraus descendentes os quais eu não havia notado, me recuperei e estava tateando procurando não colidir com nada, caminhando muito devagar até que me deparei com uma parede.

Não tinha mais do que dois metros de distância da porta até o fundo da sala sombria e não parecia haver nenhum outro acesso, um beco sem saída.

De maneira alguma a garota poderia ter entrado lá e, se tivesse entrado, não teria sido voluntariamente. Mas onde poderia estar? Minhas ideias esgotaram-se, então continuei com o que estava fazendo, explorando aquela pequena sala, como se segurasse um prego ardendo.

Com as mãos, continuei apalpando cada centímetro daquele lugar até que me deparei com uma fenda na parede, era a moldura de outra porta, a qual toquei em seguida.

Seu toque áspero e úmido era muito parecido com a que tive que empurrar para poder acessar a este quarto sombrio.

Deslizei minha mão pela frente tentando sentir a maçaneta para abri-la, mas não consegui encontrá-la, só encontrei um buraco na altura do meu umbigo, que suponho que fosse o buraco da fechadura.

Empurrei com força como tinha feito com a porta de acesso, mas ela não se moveu. Como não cedia, pensei que talvez abrisse em minha direção, então tentei puxá-la, colocando meus dedos como pude naquela minúscula cavidade da fechadura, mas todo o meu esforço foi em vão porque também não cedeu nessa direção.

Me agachei até a altura daquela abertura na porta, para ver se pelo menos poderia ver algo através dela e a única coisa que podia ver, em parte, era um pátio quadrado, semelhante a um claustro, cercado por colunas erguidas como barras de prisão.

Pareciam guardar e proteger os numerosos quadros de grandes dimensões pendurados nas paredes adjacentes. Nada que me ajudasse a identificar o lugar, porque casas imponentes como esta, já tinha visto em várias ocasiões ao longo da manhã, mas não vi a menina ou qualquer outra pessoa que pudesse pedir ajuda para mover aquela pesada porta e tive que aceitar meu completo fracasso. Sabendo que já não poderia fazer mais por aquela pequena e que meus colegas, uma vez que terminada a visita à igreja onde eu os deixei, estariam me procurando, voltei à praça com a fonte no centro de onde havia saído.

Ainda me restava a inquietude pela pequena que há apenas um momento antes de desaparecer me dera aquela delicada flor, mas nem sequer tinha a certeza de que tivesse acontecido algo com ela.

Voltei para onde se encontravam meus colegas já me esperando, procurando por mim. Após tranquilizá-los e perguntar-lhes sobre como tinha sido a sua visita, prosseguimos para uma outra nova rua e diante de nós voltou a surgir um antigo monumento para conhecer.

Mais uma vez fiquei do lado de fora, mas desta vez abrigado sob a sombra de uma sacada para que não pegasse tanto sol.

Estando ali, um pouco mais calmo, tendo me recuperado das emoções sofridas minutos antes, lembrei-me de ter vivido algo semelhante antes, uma situação muito comprometedora do meu passado, que acreditava ter esquecido, diluída pelo passar dos anos, mas lembrei-me disso como se estivesse revivendo naquele exato momento.

Dessa vez, tinha que intervir e não o fiz por medo ou covardia, não sei bem, mas, se houvesse sido por mim, seria salvo.

Me refiro à minha irmã, quando éramos pequenos, não tinha nem sete anos e ela apenas cinco.

Aconteceu em um dia quente como hoje, na piscina da base, à qual pertencíamos porque nosso pai era militar. Nós dois tínhamos saído ao meio-dia, quando sabíamos que não haveria ninguém lá, pois os adultos a essas horas estavam dormindo e aproveitamos para nos banhar.

Nossos pais tinham saído para fazer uma daquelas visitas às quais estávamos tão acostumados, devido à constante atividade social de nossa mãe, as vezes incompatível com a vida rígida e estruturada de nosso pai, mas foi assim que ela tinha superado suas constantes ausências, quando o destinavam a diferentes expedições durante meses.

Tinha começado como uma forma de entretenimento e gradualmente foi ocupando mais e mais tempo, até que se tornou uma parte importante da sua vida.

No início, era apenas uma maneira de se distrair, então começou indo uma vez por semana a um inofensivo curso de pintura, depois começou a ir duas, então… até que ela preparou um dos quartos como seu estúdio de trabalho e de lá para ser profissional era só uma questão de tempo e muita prática, pois o essencial já tinha, uma grande habilidade com o pincel e um bom olhar para os detalhes.

Seus professores, orgulhosos de seu trabalho, foram os que a incentivaram para que começasse a realizar exposições para o restante do pessoal da base, mas aquilo foi pouco a pouco aumentando.

Depois disso, começou um percurso pelas diferentes bases militares próximas, as quais a convidavam sabendo de seu talento e habilidade com pincéis, e logo passou à sua vida pública, por assim dizer, na qual foi convidada por diferentes cidades para participar de exposições coletivas ou individuais para apresentar seu progresso.

Além disso, o exército a apoiava, pois melhorava a imagem da corporação entre os civis, mostrando que a vida dentro de uma base não precisa ser chata e monótona e que as mulheres de militares não tinham motivo de renunciar às suas expectativas e suas vidas, podendo desenvolver-se como o restante.

Em pouco tempo, aquela família mudou de identidade, deixou de ser a família de meu pai, como o renomado capitão, condecorado em diversos conflitos e respeitado por todos os que haviam servido às suas ordens, passando a ser a família de minha mãe, conhecida por todo o país, por ser a pioneira e, em muitos casos, o exemplo de superação para as mulheres dentro e fora do exército, tanto que até a chamaram para um desses programas no horário nobre (audiência máxima).

Aquilo que à princípio foi uma alegria para todos, pois víamos nossa mãe feliz, logo resultou ser algo problemático por causa das finanças.

Minha mãe começou a ter a sua tão esperada independência financeira, com a sua própria renda, o que lhe permitiu comprar uma série de objetos e veículos que não eram de propriedade de militares ou de suas famílias.

Meu pai insistia que ela se reservasse, que aquilo que cobrasse poderia dedicar a qualquer outro assunto, mas que não se destacasse por seus gastos dentro da base, mas minha mãe não lhe dava ouvidos, cansada, segundo ela, de viver como o resto, podendo ser capaz de ter maior conforto.

Além disso, começou a realizar frequentes viagens, de vários dias, a museus e exposições, ou a apresentar suas obras e inclusive estava preparando a participação da criação de uma fundação para jovens artistas, para qual dedicou vários meses visitando diferentes instituições financeiras, para que apoiassem com bolsas de estudos àqueles que ingressassem na fundação.

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Yaş sınırı:
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Litres'teki yayın tarihi:
17 aralık 2020
Hacim:
170 s.
ISBN:
9788835409045
Telif hakkı:
Tektime S.r.l.s.
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