Kitabı oku: «Casamento por conveniência»

Editado por Harlequin Ibérica.
Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
© 2002 Emma Darcy
© 2019 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Casamento por conveniência, n.º 690 - agosto 2020
Título original: The Arranged Marriage
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.
® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.
As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.
Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-1348-545-4
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Se gostou deste livro…
Capítulo 1
Isabella Valeri King olhou para a sobrinha do marido, aprovando a força que via no rosto de Elizabeth. Aquela mulher, considerada matriarca dos King de Kimberley, compreendia o que significava a família: propriedade, herança, conceitos passados de geração para geração.
Tinha de haver casamento.
E filhos.
Elizabeth tinha três filhos, todos casados há cerca de um ano, um deles esperando o primeiro filho. Ela podia estar satisfeita. Mas Isabella não estava. Dos seus três netos, apenas Alessandro planeava casar-se, e não era uma união que ela aprovasse.
A mulher que Alessandro escolhera não era a melhor para ele.
Mas como fazê-lo entender?
E como convencê-lo a desistir dela?
O casamento aconteceria em Dezembro, depois da colheita da cana-de-açúcar. Estavam em Maio. Isabella dispunha de seis meses para mostrar a Alessandro que Michelle Banks nunca se adaptaria ao seu estilo de vida. Era egoísta, vaidosa, mas muito astuta quando decidia abrir o seu próprio caminho, e certamente usara o sexo para envolver Alessandro e conquistá-lo.
Por quanto tempo a atracção poderia durar depois do casamento?
E uma mulher tão determinada a manter o corpo esbelto não podia pensar em ter filhos. Michelle concordaria em dar à luz ao menos um bebé, ou lançaria mão de adiamentos, desculpas e recusas directas?
– Esta é uma localização maravilhosa, Isabella – elogiou Elizabeth, admirada, olhando além da Enseada de Dickinson, para o canavial do outro lado.
Estavam sentadas ao lado da fonte, a beber chá, e a paisagem vista dali era muito diferente da de Kimberley. Ali havia o verde intenso do norte de Queensland, e em torno de toda a terra dominada pelo Homem existia a floresta tropical, tão primitiva nas suas características únicas como o coração vermelho da Austrália.
Isabella lembrou-se de como a terra fora conquistada com esforço; o trabalho duro de limpeza, as folhagens traiçoeiras e as plantas venenosas, o calor, a humidade, as febres, as serpentes. Nascera entre os canaviais, filha de imigrantes italianos, há setenta e oito anos.
Com excepção do breve período passado em Brisbane, quando conhecera e se casara com Edward King, antes de ele e o seu irmão, Enrico, terem ido para a guerra na Europa, aquele sempre fora o seu lar, naquela montanha sobre Port Douglas. Para lá tinha retornado, uma das viúvas da guerra, para dar à luz o filho que Edward deixara no seu ventre antes de partir, o seu amado Roberto.
– O meu pai escolheu este lugar para a minha mãe, que era de Nápoles – explicou Isabella à visitante. – Ela queria estar perto do mar.
Elizabeth sorriu, demonstrando o seu apreço pela história.
– É muito romântico… o seu pai construiu este castelo para a mulher amada!
– Não exagere – corrigiu ela com um sorriso indulgente. – É só uma villa. Como as velhas villas de Roma. Antigamente, este lugar era conhecido como Villa Valeri. Mas, como o meu irmão não voltou da guerra e eu me casei com Edward, os meus filhos e netos carregam o nome King. Depois da morte do meu pai, os habitantes daqui passaram a chamar à propriedade Castelo King, e o nome foi adoptado por todos.
– Isso entristece-a? Afinal, o seu pai construiu este lugar e deu-lhe o nome da sua família, e agora a villa é conhecida como Castelo King por conta do nome do seu marido.
Isabella balançou a cabeça.
– O sangue do meu pai ainda está aqui. É isso que teria contado para ele. Ver perdurar o que construiu e saber que os seus descendentes não só preservam, mas também fazem crescer o património que ele começou a reunir. Sei que entende o que digo, Elizabeth.
Ela assentiu.
– E também sei que tem ideia de como é difícil conquistar tudo isto. – Precisava de discutir o seu problema com uma mulher que pudesse compreendê-lo. – Também temos desastres aqui nos trópicos. Vocês enfrentam a seca. Nós temos os ciclones. Perdi o meu filho vítima de um deles. Foi uma época muito difícil. Roberto tinha morrido, as plantações estavam devastadas…
Um tempo de perdas em todos os sentidos.
– Às vezes penso que os desastres forjam o carácter humano – opinou Elizabeth. – É preciso ter força para superá-los, para suportar…
– Para lutar. Para preservar o que se tem – acrescentou Isabella com firmeza.
Talvez fosse a convicção na sua voz, mas Elizabeth olhou-a com um misto de respeito, consideração e orgulho. O que via ela? Ambas tinham cabelos grisalhos, olhos escuros e colunas erectas. Isabella era quase duas décadas mais velha, mas não se sentia idosa. O seu rosto exibia mais rugas, e ela provavelmente experimentava mais dores e desconforto do que a mais nova, mas, na alma, o fogo da vida ainda ardia intenso, chamas que continuariam luminosas e fortes por todos os anos que ainda tivesse pela frente.
– Fez do seu pai um homem orgulhoso, Isabella. Preservou este lugar para os seus netos crescerem, transformarem-se em homens e conquistarem tudo o que têm. Ontem, quando fomos conhecer as plantações, Rafael e eu ficámos muito impressionados.
– Mas tudo pode acabar facilmente. O ciclone que tirou a vida a Roberto e à sua esposa… – Balançou a cabeça com enorme tristeza. – Quero os meus netos casados e com filhos para salvaguardar o futuro de toda esta herança, mas eles não me ouvem.
– Alex…
– Você conheceu a noiva dele no jantar de ontem. O que acha de Michelle Banks?
Uma certa hesitação antecedeu a resposta.
– Bem, ela é… educada, polida…
Isabella riu do comentário cauteloso.
– Como um diamante – disse. – Brilhante, sedutora, requintada, mas com um coração duro como a rocha mais resistente. Aquela jovem não é capaz de dar nada de si mesma a ninguém.
– Está infeliz com a escolha do seu neto.
– Ela não será uma boa esposa.
Elizabeth assentiu, demonstrando compreensão do dilema em que Isabella se encontrava.
– Se não aprova a noiva de Alex, deve procurar outra mulher para ele. Antes que seja tarde demais.
– Eu? E como poderia fazer tal coisa? Alessandro jamais aceitaria um casamento arranjado. Ele é orgulhoso, independente, obstinado…
– O meu filho mais velho, Nathan, desperdiçou anos preciosos da sua vida com mulheres inadequadas. A sua vida sempre esteve ligada à terra, como a de Alex.
– Sim, Alex ama a terra, mas Michelle não partilha desse sentimento. Para ela, a agricultura é apenas uma fonte de riqueza. Mais nada.
– Saí em busca de uma mulher que pudesse atender às necessidades de Nathan. E encontrei-a mulher. Como previa, Nathan identificou nela a sua alma gémea e também foi capaz de atender às suas expectativas. O casamento é muito feliz e harmonioso.
– Você encontrou Miranda para Nathan?
– Sim. Eu pu-los em caminhos destinados a cruzarem-se e rezei para que tudo desse certo. As minhas preces foram atendidas.
– Ah! Os caminhos devem cruzar-se… com uma certa ajuda, é claro!
– Não é tão óbvio. É preciso exercer alguma pressão para aproximá-los. É impossível controlar tudo. Se não houver química…
– Elizabeth! Que mulher não se sentiria atraída por Alessandro?
– Entendo o seu ponto de vista. Mas… e ele? Alex também deve sentir-se atraído pela mulher em questão. Miranda é uma mulher linda. E Michelle é…
– Já ouviu falar em milagres da cosmética? A beleza daquela jovem tem a profundidade da pele.
– Mas ela é sedutora. Sabe usar de todos os artifícios para se tornar sensual.
– Pele e osso! Alessandro precisa de uma mulher com ancas largas para abrigar muitos bebés e seios fartos para amamentá-los. Uma mulher que saiba preparar e apreciar uma refeição de verdade. Alguém que não viva como um coelho, comendo apenas folhas de alface e cenouras.
Elizabeth riu.
– Bem, não se esqueça que Alex vai ter de se sentir atraído pela mulher em questão. Levando em consideração o tipo físico de Michelle, eu não escolheria ninguém muito rechonchuda.
– Mas a candidata ideal pode ter curvas nos lugares certos, não?
– Você conhece-o bem, Isabella. Sabe que a atitude é mais importante que tudo. Alex precisa de alguém que possa ser sua companheira em todos os sentidos.
– Uma companheira. Sim, você tem razão. Uma companheira que queira ter filhos.
Isabella estava satisfeita com a conversa.
Era bom receber a visita de Isabella com o seu novo companheiro, o argentino Rafael Santiso, um homem bom e generoso. Ele lembrava-lhe o seu pai, um homem de visão.
Alessandro também podia ser um homem de visão… se abrisse os olhos e visse o que tinha de ser visto para fazer tudo dar certo. E ela poderia ajudá-lo a ver. Ia encontrar a mulher certa e pô-la-ia diante dele.
Capítulo 2
– Gina! Venha até aqui imediatamente!
Gina Terlizzi abandonou as flores que ajeitava num arranjo e correu para a sala da frente, sem entender porque é que a sua presença era solicitada com tanta urgência. Como proprietária da florista, a sua tia preferia lidar com os clientes pessoalmente.
O motivo estava ali, diante dos seus olhos, fazendo o seu coração bater mais depressa. Marco, o seu filho de dois anos e meio, estava ao colo de uma mulher de cabelos grisalhos e olhos escuros. Não era uma mulher qualquer, mas Isabella Valeri King, a lendária matriarca da família King.
A florista ficava em Cairns, e o Castelo de King estava localizado em Port Douglas, setenta quilómetros a norte, mas toda a comunidade italiana em Queensland conhecia e respeitava aquela mulher.
– É a mãe deste menino? – perguntou ela, com o rosto aristocrático a expressar reprovação.
Gina olhou para a criança que, no colo da septuagenária, parecia fascinada pelos cabelos brancos.
– Sim, sou eu. Marco, o que fizeste? Por que não estás no quintal?
O garoto sorriu, triunfante.
– Fiz uma escada de caixas e abri o portão.
O que significava que não podia voltar a ter a certeza da sua segurança ali na florista.
– Porque é que abriste o portão?
– Para andar de bicicleta.
– Ele estava na rua, a pedalar no triciclo a alta velocidade, e quase me atropelou – acusou a mulher.
– Lamento muito, senhora King, e agradeço-lhe por tê-lo trazido até aqui. Pensei que ele estivesse a brincar no quintal.
– O seu filho parece ser um grande empreendedor. Os meninos são aventureiros por natureza. É necessário ter sempre em mente essa característica e canalizá-la para actividades produtivas.
– Tem razão. Obrigada mais uma vez, senhora King.
A mulher olhava-a de maneira estranha, como se analisasse e catalogasse cada detalhe da sua aparência; os longos cabelos castanhos, a franja sobre a testa, os olhos cor de âmbar, a boca ampla, a estrutura óssea do rosto, o pescoço longo, os seios fartos sob a blusa sem mangas, a cintura estreita, as ancas largas, as pernas grossas e os pés delicados calçados por sandálias.
Era embaraçoso, como se estivesse a ser estudada por ser uma criatura descuidada que não se dava ao trabalho de cuidar do filho pequeno. O que não era verdade. Gina orgulhava-se de ser uma boa mãe. O problema era que Marco podia ser imprevisível e incontrolável em alguns momentos.
– Soube que é viúva.
– Sim, sou – respondeu Gina surpresa.
– Há quanto tempo?
– Há dois anos.
– Talvez o menino precise de um pulso masculino.
– Marco tem tios.
– Você é uma mulher jovem, atraente… Não está a ser cortejada por ninguém?
Qual era o problema daquela mulher, afinal?
– Eu… não conheci ninguém que…
– Era muito ligada ao seu marido?
– Sim.
– Isso não é bom para o menino. Passa a maior parte do dia a trabalhar, sem poder supervisioná-lo adequadamente, lutando pela sobrevivência, quando um marido poderia prover o vosso sustento e tirar essa carga dos seus ombros.
– Eu sei, mas… – Gina balançou a cabeça. Sabia que a tia estava a ouvir toda a conversa, e temia que se ofendesse. Afinal, o emprego em part-time na florista era um favor, especialmente porque podia levar Marco com ela todos os dias.
Se o menino passasse a criar problemas…
Maldição! Sabia que ouviria um sermão quando Isabella Valeri King partisse. No entanto, a senhora King parecia não ter pressa. Depois de ter feito o seu pequeno sermão, ela optou por um discurso diferente.
– Soube que também canta em casamentos.
– É verdade. – Como é que ela sabia tantas coisas a seu respeito?
– O seu agente enviou-me uma cassete com algumas canções. Tem uma voz adorável.
Finalmente a compreensão.
– Obrigada.
– Sabe que o Castelo King é usado para a realização de casamentos?
– É claro que sim! – Mas só para as cerimónias mais luxuosas e exclusivas.
– Estou sempre à procura de bons cantores, e há muito tempo que ando a pensar em testar uma voz poderosa no nosso salão de baile. Lá, a acústica é diferente da de um estúdio de gravação.
O salão de baile! Gina nunca estivera lá, mas as histórias sobre o castelo eram muitas. Estaria diante de uma oportunidade de ser contratada para cantar nos mais requintados casamentos? Poderia pedir um cachê muito mais alto. Afinal, teria de viajar de Cairns para Port Douglas, o que tornaria o trabalho mais caro. As possibilidades eram muitas e excitantes!
– Pode ir ao castelo no domingo à tarde?
– Sim. – Faria qualquer coisa para agarrar a sua grande oportunidade.
– Óptimo. Às três em ponto. E leve o menino consigo. – Ela olhou para Marco e, depois de uma certa hesitação, colocou-o no chão. Era surpreendente, mas ele permanecera quieto durante todo o tempo, sem tentar libertar-se como costumava fazer. Era como se estivesse fascinado pela mulher que falava com a sua mãe com tanta autoridade. – Tu vais visitar a minha casa com a tua mãe, Marco.
– Posso pedir a alguém para cuidar dele – sugeriu Gina, temendo que o comportamento imprevisível do filho pudesse prejudicar o seu teste.
A sugestão mereceu um olhar severo.
– Não faça isso. O seu filho é um menino encantador, e vou gostar de vê-lo a correr e a brincar na propriedade. Tomaremos chá e deixaremos a criança gastar energia junto à natureza.
– É… muito generoso da sua parte. Obrigada.
– Agora fica com a tua mãe, Marco. E não voltes a andar de bicicleta na rua. Não é seguro.
Obediente, ele aproximou-se de Gina e segurou a mão dela.
– Quantos anos ele tem?
– Dois e meio.
– Ele é ágil para a idade. E também fala muito bem. – O comentário revelava surpresa e admiração. – Deixei o triciclo ao lado da porta.
– Obrigada.
– Estarei à vossa espera no domingo. Às três.
– Estaremos lá, senhora King. E obrigada mais uma vez.
Faltavam dez minutos para as três da tarde. Gina parou o seu pequeno Honda Swift sob uma das pérgulas cobertas por parreiras que flanqueavam os degraus do Castelo King. Aquela era a área de estacionamento para visitantes, e o facto de o seu carro ser o único ali aumentava o nervosismo que a consumia.
Levava uma cassete com algumas canções gravadas na sua mala, mas talvez nem precisasse dela. Não sabia se cantaria acompanhada por alguma melodia ou se apenas a sua voz seria avaliada durante o teste. Bem, pelo menos tinha a cassete com o acompanhamento, caso precisasse dela. O espelho retrovisor comprovava que a maquilhagem estava intacta, embora fosse suave. Apenas delineador para realçar os olhos, rímel e batom. Lavara e secara o cabelo com o auxílio de uma escova, e as ondas suaves que emolduravam o seu rosto caíam sobre os ombros como um manto sedoso. Esperava ter a aparência de uma cantora profissional.
Marco tinha adormecido no seu assento de segurança. Gina vestira-o com calções azul-marinho, camisa às riscas vermelhas e brancas e calçara-lhe sandálias. Com os cabelos escuros e encaracolados e os olhos quase negros, a criança ficava encantadora usando cores fortes, e naquele dia estava especialmente lindo. Para ela, Gina tinha escolhido um vestido amarelo limão de corte direito e simples. Sem mangas, o traje possuía apliques em azul-marinho que lhe conferiam elegância e davam-lhe um ar profissional e chique. E precisava de confiança naquele dia.
Cautelosa, soltou o cinto de segurança do assento de Marco e acordou-o antes de o tirar do carro. Felizmente, ele nunca acordava mal-humorado.
– Estamos no castelo, mamã?
– Sim, querido. Vou fechar o carro e caminharemos até lá.
– Não consigo vê-lo.
– Espera um minuto. Temos de subir a escada.
Enquanto subiam os degraus, os olhos do menino permaneciam fixos na torre que dominava a colina. Havia uma lenda contando que Frederico Stefano Valeri construíra aquela torre para que a sua esposa pudesse ver os barcos a voltar do mar e os canaviais que ardiam durante a colheita.
– Podemos ir lá acima, mamã?
– Hoje não, querido. Mas vamos conhecer o salão de baile. Soube que há grandes bolas cobertas de espelhos penduradas no tecto, e a madeira que reveste o piso foi cortada de forma a criar desenhos interessantes.
Por todas as partes era possível ver samambaias, folhagens exuberantes e flores tropicais. Do lado da escada partia um caminho calcetado sobre um relvado impecável. Alguns metros à frente havia um alpendre sustentado por colunas graciosas, e logo depois dele abria-se a entrada para o castelo. Era uma área espaçosa em cujo centro havia uma fonte cercada por grupos de mesas e cadeiras. Num desses grupos estavam três pessoas, e Gina experimentou uma forte tensão ao reconhecê-las.
Alex King conversava com a avó. Alex King e a sua noiva. Vira a foto publicada no jornal que anunciara o noivado, e por isso podia identificá-los. O homem já tinha alguém especial na sua vida. Além do mais, nunca tivera uma oportunidade de conhecê-lo realmente. No entanto, se existia um homem capaz de fazê-la virar a cabeça e suspirar, esse homem era o «Rei do Açúcar».
Amara Angelo, o marido, e ele tinha sido a sua vida real. Alex sempre fora uma fantasia impossível. Mas, ao sentir o seu olhar atento enquanto se aproximava do grupo levando o filho pela mão, ela experimentava intensos arrepios e temia que todos pudessem ouvir as batidas do seu coração. Nunca vira homem mais belo! Grande e forte, ele possuía um ar de autoridade insuperável, como se fosse capaz de lidar com tudo o que surgisse no seu caminho. Definitivamente um rei, comparado a outros da sua espécie.
Ele sorriu para Marco, e o sorriso transformou os ângulos duros do seu rosto. Os olhos brilhavam para o seu filho, olhos surpreendentemente azuis, em contraste com a pele morena e os cabelos negros típicos da sua origem italiana. Os olhos claros deviam ter sido herdados do pai. De qualquer maneira, eles acrescentavam um carisma ainda maior à presença imponente de Alex.
Gina devia ter-se dirigido à ponta da mesa ocupada por Isabella, mas, sem pensar, atraída de forma magnética pela beleza perfeita de Alex King, caminhou na direcção oposta. Ele levantou-se para cumprimentá-la, e nesse momento Gina teve consciência do quanto era alto e forte. A sua cabeça mal conseguia alcançar a altura dos ombros largos.
– O meu neto, Alessandro – apresentou-o Isabella de onde estava. O sorriso benevolente aliviou a tensão e o temor de Gina. Pelo menos não fora rotulada de mal-educada ou grosseira. – E a noiva dele, Michelle Banks.
Gina assentiu e sorriu. A resposta foi um sorriso gelado formado por lábios carnudos e pintados de vermelho brilhante. A beleza da mulher era quase desmoralizante! Loura, usava os cabelos presos num carrapito clássico, realçando assim o rosto harmonioso e os olhos verdes e amendoados. O pescoço gracioso separava a cabeça de um corpo esbelto como o de uma modelo.
Ela usava uma camisola de tecido elástico e gola alta, e as cores vibrantes da estampa contrastavam com as calças pretas de cintura baixa. Um traje perfeito para mulheres de seios pequenos, ancas estreitas e curvas modestas.
Gina sentiu-se gorda. O que era uma estupidez, porque nunca fora sequer roliça. Tinha proporções diferentes das de Michelle Banks, certamente, mas era só isso. Então, por que o argumento não amenizava o peso que se instalara no seu coração? Aquele era o tipo de mulher com quem Alex King pensaria em casar. Com quem se casaria.
– Gina Terlizzi e o seu filho, Marco – Isabella concluiu as apresentações.
– É um prazer conhecê-los. – O tom profundo e sonoro provocou um arrepio nas costas de Gina. – Os Terlizzi sempre foram uma família de muito respeito. Continuam no ramo dos barcos pesqueiros?
– Quase todos os homens da família, pelo menos – respondeu ela, surpreendida por descobrir que Alex os conhecia.
Há muitos anos, o pai dele, Robert King, tinha financiado o início do empreendimento dos Terlizzi. O seu bisavô, Frederico Stefano Valeri, iniciara a tradição de oferecer financiamentos a imigrantes italianos interessados em estabelecer os seus negócios naquela região, onde os bancos se negavam a ajudá-los. Todos sabiam que os King estavam sempre dispostos a ouvir e discutir uma boa proposta, mesmo quando todas as instituições financeiras se negavam a considerá-la. A decisão final era tomada a partir da capacidade de sucesso do empreendedor, não nas garantias que ele podia oferecer, e ninguém jamais deixara de saldar as suas dívidas com os King.
– Tu és a viúva de Angelo, não? – indagou Alex em tom simpático.
Ela assentiu, atónita por ele conhecer também o nome do seu marido.
– Lembro-me de ter lido alguma coisa sobre ele ter ido buscar um navegante solitário cuja embarcação encalhou nos recifes.
– Uma tempestade surpreendeu-o no caminho. Os dois pereceram – contou Gina com a voz embargada pela emoção.
– Um homem corajoso. E uma perda dolorosa para ti e para o teu filho. Espero que a tua família esteja a cuidar bem de vocês.
– Oh, sim, muito bem.
– Que bom. A minha avó contou-me que vieste para cantar. Não queres uma bebida antes do teste? Por favor… – Apontou para as cadeiras vazias do outro lado da mesa, diante da sua noiva. – O que preferes? Vinho, sumo de fruta, água…?
– Água, obrigada.
– E tu, Marco?
– Sumo, por favor.
– Apenas meio copo, por favor – pediu Gina ao sentar-se. – Ele acaba sempre por entornar o líquido de um copo cheio.
– Entendo.
– É cantora profissional? – perguntou Michelle Banks.
– Canto em alguns eventos, coisas como casamentos, baptizados e outras festas, mas não posso dizer que vivo da minha música.
– Presumo que se tenha preparado de alguma forma – a mulher insistiu.
– Sim, fiz aulas de canto e participei de alguns concursos ao longo dos anos. Sempre consegui colocar-me entre os três primeiros qualificados.
– Então, por que não tenta a carreira artística?
– Nem todas as mulheres põem a carreira em primeiro plano – interferiu Isabella com tom seco.
Michelle encolheu os ombros.
– Se a sua voz é realmente boa, considero um desperdício não tirar proveito dela.
Porque é que a noiva de Alex sentia necessidade de colocá-la em evidência com as suas perguntas persistentes? Michelle tinha tudo o que outras mulheres podiam invejar, inclusive o homem que colocara um anel de noivado no seu dedo.
– Não era o tipo de vida que eu queria – respondeu Gina com sinceridade. – Quanto a ter uma boa voz – olhou para Isabella, – estou aqui para que a senhora King possa julgar se correspondo aos seus requisitos.
– E eu estou ansiosa para ouvi-la – afirmou a mulher com um sorriso animador. – Se canta mesmo como ouvi na cassete… – Isabella olhou para o neto. – Talvez queiras contratá-la para cantar no teu casamento, Alessandro.
Silêncio. Desconforto. Gina percebeu que a tensão que pairava sobre a mesa era anterior à sua presença. Quieta, sorveu alguns goles do copo de água e esperou pelo desfecho da situação.
Michelle Banks olhou para o noivo como se exigisse o seu apoio. Ele moveu-se na cadeira com evidente desconforto, mas havia paciência nos seus olhos.
– Nonna, já discutimos esse assunto. Michelle quer um harpista, não uma cantora.
– Já sei o que ela quer. E tu? Não tens vontade própria?
– O dia é da noiva.
– É essa a tua opinião, Michelle? Também achas que a cerimónia de casamento pertence apenas à noiva e que o noivo deve concordar com todos os seus desejos?
Michelle sorriu com frieza.
– Alex também gostou da ideia do harpista.
– Não acredito que uma harpa ou qualquer outro instrumento musical possa gerar o calor e a emoção proporcionados por uma voz humana.
– É uma questão de gosto. A harpa é muito elegante.
– Realmente. No entanto, creio que mesmo numa ocasião elegante e requintada deve haver espaço para demonstrações de afecto. Especialmente se a ocasião for um casamento. Afinal, trata-se de uma celebração de amor, não? – Virou-se para Gina sem esperar pela resposta. – Pronta para cantar?
– Quando quiser, senhora King. – Pegou na mala. – Trouxe uma fita com o acompanhamento necessário. Existe algum equipamento no salão de baile, ou…?
– Oh, sim, temos todo o equipamento necessário. Alessandro ligará o sistema de som e providenciará o controlo remoto para que possa parar a cassete entre uma canção e outra.
Gina sentiu o coração oprimido. Ele também estaria presente? Notou uma linha de aborrecimento na testa de Michelle, mas limitou-se a agradecer.
– Será um prazer – respondeu Alex King.
Teria uma audiência complexa. A noiva de Alex, por exemplo, já se mostrava propensa a um julgamento mais crítico.
Isabella levantou-se, um sinal de que todos deveriam fazer o mesmo. Gina removeu o copo das mãos de Marco e colocou-o em pé.
– Agora vamos ver o salão das bolas com espelhos, mamã?
– Sim, querido.
– Anda, Marco – Isabella chamou o garoto, estendendo a mão para que ele a segurasse. – Quero mostrar-te tudo enquanto a tua mãe se prepara para cantar para nós.
O menino aceitou o convite sem nenhuma hesitação, os olhos iluminados pelo entusiasmo. O que o tornava tão acessível àquela mulher, se normalmente era desconfiado e arisco com estranhos em geral? Era como se Marco se sentisse atraído pelo poder que emanava daquele corpo envelhecido, um poder conferido pelos anos vividos como matriarca de uma grande família.
Nem mesmo Michelle Banks ousaria desafiá-la, embora Gina pudesse sentir a hostilidade da jovem enquanto o grupo se dirigia ao salão de baile. De repente, teve a sensação de estar a ser usada como arma por Isabella. Seria apenas um instrumento numa batalha subtil travada contra a noiva do seu neto?
Esperava que não.
Precisava daquela oportunidade. Queria um contrato duradouro, uma fonte de rendimento estável através da qual pudesse construir um futuro melhor e mais sólido para ela e para Marco. Para isso, teria de ser aprovada. E as condições não eram as melhores, dadas as correntes eléctricas que a atingiam vindas de todos os lados. De alguma forma, tinha de ignorá-las e concentrar-se em cantar.
Além de tudo o que estava em jogo, odiaria fracassar diante de Alex King. Detestaria ser alvo da sua piedade e dar à sua noiva bons motivos para criticar a sua apresentação.
Tinha de cantar bem.
Ou morreria de vergonha e humilhação.
Capítulo 3
– Temos mesmo de ficar aqui? – murmurou Michelle, irritada.
Alex encarou-a com ar severo.
– Sim.
Sentia-se impaciente com a atitude indelicada da noiva. Simpatizara com a jovem viúva e o seu filho, e reprovava o comportamento cruel de Michelle. Porque é que ela não podia simplesmente desejar o bem de Gina Terlizzi, em vez de tentar comparar o seu talento musical à ambição que sempre guiara os seus passos? Quem poderia deixar de compreender a relutância de uma mãe que, sozinha por conta de circunstâncias trágicas, evitava levar o filho pequeno aos locais onde se podia construir uma carreira de cantora? A noite era sempre o ponto de partida, e o pequeno Marco não podia frequentar bares, discotecas e clubes.
A obstinação de Michelle tinha de ser temperada. Era hora de começar a mostrar-lhe que nem todas as pessoas provinham da mesma origem e caminhavam na mesma direcção. Que ser humano podia viver em paz sem respeitar valores diferentes dos seus e circunstâncias distintas daquelas que conhecia? Um bom começo seria convencê-la a aceitar algumas sugestões e ceder um pouco nos planos para o casamento. Manter a sua avó afastada de todas as decisões era algo que não lhe agradava. Para a nonna, um casamento era um evento familiar. Era assim que as coisas aconteciam na Itália.
O salão de baile fora preparado de acordo com o usual. Mesas redondas com lugares para oito pessoas dispostas em forma de ferradura com a abertura voltada para o palco. O desenho delimitava a pista de dança e criava uma atmosfera aconchegante, apesar das dimensões do lugar. Assim que entraram, Michelle acomodou-se numa das mesas do fundo, à direita, perto da saída, manifestando assim a sua resistência em participar da audição.
Aborrecido, Alex acompanhou a avó até à mesa que ela escolheu, a meio do caminho para o palco. Ao vê-la sentada segurando a mão da criança, ele levou Gina ao palco a fim de familiarizá-la com o sistema de som, pois assim poderia obter melhores resultados.
A mão tremia um pouco quando ela entregou a cassete. Nervosismo? Tensão por ter sido rejeitada pela sua noiva? A vulnerabilidade aparente da jovem viúva e a injustiça do comportamento de Michelle levaram-no a segurar a mão delicada entre as duas. Queria oferecer-lhe calor e apoio, talvez devolver-lhe a confiança que lhe fora tirada.
– Não dês importância a Michelle – disse, sem se importar com o facto de poder parecer desleal. – Canta para o teu filho e imagina que é ele que se vai casar.
Um rubor tingiu o rosto de Gina. Os olhos cor de âmbar mergulharam nos dele, transmitindo uma mistura encantadora de alívio, gratidão e respeito.
Alex sentiu uma urgência súbita de tomá-la nos braços, confortá-la e protegê-la, e só com muito esforço conseguiu sufocar o clamor do próprio corpo. A força do seu instinto era ao mesmo tempo surpreendente e assustadora. Mal conhecia aquela mulher!
– Obrigada, és muito gentil.
Gina tinha uma boca ampla e carnuda. Boa para cantar, disse ele a si mesmo, sufocando outros pensamentos menos inocentes. Consciente da mão entre as dele, sorriu e soltou-a.
– Vais sair-te muito bem. A minha avó não te teria chamado para uma audição, se não estivesse impressionada com o que ouviu antes naquela cassete.
– Certo.
Alex foi inserir a cassete no equipamento de som instalado num canto do palco. Era estranho sentir-se tão consciente de uma presença feminina. Poderia compreender a consideração com a pessoa, com a profissional em busca do sucesso, mas a atracção sexual era descabida para um homem que discutia detalhes do seu casamento. Apesar do aborrecimento causado pelas últimas atitudes da noiva, aquilo não deveria estar a acontecer.
Depois de preparar e ligar o equipamento, ele entregou o controlo remoto a Gina e demonstrou-lhe como deveria usá-lo. Enquanto ajustava a altura do microfone, reparou nos expressivos olhos cor de âmbar fixos no seu rosto e sentiu uma ligação ainda mais intensa.
Sorriu de maneira a encorajá-la e deixou-a sozinha no centro do palco. A necessidade de manter-se distante de Gina Terlizzi fê-lo pensar em caminhar até ao fundo do salão, para a mesa escolhida por Michelle, mas, a meio do caminho, mudou de ideia e juntou-se à avó e ao garoto, longe do desinteresse negativo e irritante da noiva. Talvez a solidão e a reprovação evidente do futuro marido a ajudassem a reavaliar o seu comportamento.
A demonstração de apoio à sua protegida mereceu um sorriso de aprovação de Isabella. Sentindo-se culpado, Alex olhou para trás e convidou Michelle a sentar-se com eles, mas ela respondeu com um rápido movimento negativo de cabeça. A postura lânguida e o ar aborrecido irritaram-no ainda mais, e ele decidiu que também não cederia.
– Estamos prontos – anunciou Isabella.
Gina começou a cantar. Os seus olhos estavam fixos em Marco, e Alex sentiu-se feliz por perceber que ela seguia o seu conselho. A voz que inundava o salão era forte e poderosa, e a interpretação perfeita de «Because You Loved Me», de Celine Dion, era diga de aplausos entusiasmados. De repente, Marco levantou-se e foi para o centro da pista de dança. Acompanhando o ritmo da melodia, ele balançava os ombros e movia os pés numa demonstração surpreendente de coordenação. Imitando os gestos da mãe, que o observava e sorria enquanto cantava, ele criava uma espécie de casulo onde só existiam os dois e o seu amor incondicional.
Quando a canção terminou, Marco foi o primeiro a aplaudir.
– Mais, mamã!
Alex sorriu para a avó e notou que ela se emocionava com a cena. O seu rosto era suavizado pelo prazer que as pessoas idosas sempre encontravam nas artimanhas e tropelias de uma criança.
– Isso mesmo, queremos ouvir mais uma – ela apoiou o pedido do garoto.
Gina assentiu, respirou fundo e accionou o equipamento de som.
Ouvi-la não era nenhum sacrifício. Enquanto ouvia a versão modificada de «All The Way», canção imortalizada por Frank Sinatra, Alex olhou para Michelle, esperando descobri-la surpresa e tão encantada quanto ele. O olhar petulante da jovem irritou-o profundamente. Porque é que ela não podia admitir que Gina Terlizzi cantava bem?
Marco aplaudiu a mãe mais uma vez, e Alex não conseguiu conter o impulso de imitá-lo. E por que não deveria aplaudir um talento tão impressionante?
– Mais uma, por favor – pediu Isabella.
Alex conhecia quase todas as canções populares, pois passara anos da sua vida a ouvir cada uma delas sempre que a avó recebia um casal disposto a realizar o seu casamento na propriedade da família. Ela sugeria cada detalhe da cerimónia, inclusive o repertório musical, e começara o negócio há anos com a intenção de manter o castelo a partir dos lucros gerados por ele, uma decisão desnecessária, uma vez que os dividendos dos investimentos dos King eram mais do que suficientes para sustentar e conservar a residência da família.
Sabia que Isabella adorava planear ocasiões grandiosas e pôr em uso o imenso salão de baile. A actividade também era uma boa desculpa para estar sempre a perguntar aos três netos quando poderia planear o casamento de cada um deles. Finalmente ela tinha a oportunidade de organizar um evento familiar, e Alex prometeu a si mesmo que não a privaria dessa alegria. Michelle teria de aceitar a sua decisão.
Isabella Valeri merecia respeito.
E teria o respeito merecido.
Desse momento em diante, tudo seria diferente…
Capítulo 4
Estavam sentados à mesa perto da fonte, a saborearem o chá servido por uma criada uniformizada e silenciosa. Marco corria feliz pelo relvado, e aquele teria sido o final perfeito para uma tarde gloriosa, se não fosse a presença carrancuda de Michelle Banks.
Mesmo assim, Gina estava feliz. Isabella Valeri King aprovara a sua voz e prometera recomendá-la para futuras contratações, e Alex também tinha reconhecido e elogiado o seu talento. Como se não bastasse, passaria a cantar nos casamentos realizados no castelo por um cachê muito mais alto do que jamais recebera antes.
E Alex… como fora gentil e prestativo! Se não houvesse uma mulher na sua vida, Gina poderia apaixonar-se por ele! Durante os momentos em que tivera a sua mão entre as dele, sentira uma forte ligação que levou energia a todo o seu corpo.
Mas não devia pensar nisso.
Havia uma mulher na sua vida.
E a gentileza devia ser apenas parte da sua natureza. Não significava que a atracção que sentia por ele fosse correspondida.
O delicioso bolo de cenoura com cobertura de chocolate era uma tentação, e já comera uma fatia generosa. Servir-se de outra seria indelicado. Por outro lado, ficava sempre faminta depois de uma apresentação. Precisava de repor as energias. Além do mais, estivera tão nervosa antes, que não conseguira almoçar.
Alex serviu-se de um segundo pedaço de bolo. Ao vê-la a acompanhar os seus movimentos com os olhos, ele sorriu e explicou:
– Não consigo resistir a um bolo de cenoura com cobertura de chocolate. É o meu favorito.
– E o meu – confessou ela.
– Quer mais uma fatia?
– Sim, por favor.
– Esse bolo tem demasiadas calorias – comentou Michelle com tom crítico.
– Saborear coisas gostosas sem contar calorias é um dos prazeres da vida – respondeu Isabella. – De vez em quando, não faz mal.
– Para quem não se importa com as consequências – insistiu a jovem com tom debochado, com os olhos fixos nos braços de Gina.
– Algumas pessoas queimam calorias com maior facilidade – lembrou Alex. – Imagino que cuidar de um garoto activo como o Marco seja equivalente a uma aula de aeróbica – acrescentou, sorrindo.
Gina sentiu o coração mais leve ao ouvir as palavras de apoio e compreensão. Sabia que Alex não a considerava gorda. Pelo contrário. Se não aprovasse a sua figura, ele não estaria a defender a sua preferência pelo bolo rico em calorias. Ou talvez não se importasse por ter alguns quilos acima da tabela do peso ideal. E por que deveria? Não era com ela que estava prestes a casar.
– Marco mantém-me sempre ocupada, mas nem por isso me descuido das calorias. Hoje é domingo, um dia em que sempre relaxo e faço aquilo que gosto de fazer.
– Uma tradição italiana – lembrou Isabella com um sorriso de aprovação. – Gosto de quem sabe apreciar uma boa receita, especialmente se for minha.
– O bolo está maravilhoso, senhora King.
– Obrigada, minha querida.
Gina sentiu-se bem ao receber a aprovação benevolente da dona da casa. Dietas rígidas podiam ser prejudiciais à saúde, e considerava indelicado recusar uma oferta preparada com carinho e atenção, a menos que houvesse algum motivo sério por trás da restrição. Era como ignorar os esforços de alguém para agradar. Talvez Michelle não sentisse a necessidade de retribuir gentilezas. Firme na sua decisão, ela ingeria apenas chá com limão e sem açúcar, recusando todo e qualquer tipo de comida servido pela anfitriã.
O relacionamento entre Michelle e a avó do seu noivo não era da sua conta, mas tinha a impressão de que Isabella não gostava muito da jovem. Francamente, também não sentia nenhuma simpatia por Michelle. Mas, no seu caso, o sentimento devia ser apenas uma reacção de inveja e ciúme.
Marco aproximou-se da mesa com as mãos unidas e um sorriso radiante no rosto.
– Olha o que encontrei, mamã!
O menino abriu as mãos e um pequeno gafanhoto saltou directo para o colo de Michelle. A jovem levantou-se de um salto e, gritando horrorizada, começou a bater as mãos contra as pernas para espantar a pequena criatura. O animal ainda pulou para o braço de Michelle antes de fugir, e ela estremeceu, enojada por ter a pele tocada pelo insecto.
– Criança nojenta! – gritou, descontrolada. – Fez isso de propósito só para me atormentar. – Avançou contra o menino e ergueu a mão, com o rosto contorcido pela fúria.
Ao perceber que ela pretendia agredir o seu filho, Gina levantou-se a fim de contê-la, mas foi Alex quem segurou o braço esguio com força desnecessária. Enquanto isso, Isabella tomava o garoto nos braços a fim de protegê-lo.
– Contêm-te, Michelle – ordenou Alex com tom firme. – Não aconteceu nada de grave.
– Ah, não? – gritou ela, olhando para a criança como se ainda quisesse agredi-la. – Tu destruíste as minhas calças com essa tua brincadeira imunda e ridícula!
– Não exageres – insistiu Alex, rangendo os dentes para conter a ira que ameaçava dominá-lo.
– Ele é só um menino – lembrou Isabella, mantendo os braços em torno de Marco e os olhos fixos no rosto de Michelle num desafio silencioso. – Todas as criaturas vivas exercem grande fascínio sobre crianças pequenas.
– Gafanhotos! – exclamou Michelle, enojada. – São feios, repugnantes, inúteis!
Marco permanecias encolhido no colo da sua protectora, o rosto tomado pelo medo e os olhos cravados na expressão ameaçadora da mulher que gritava descontrolada.
Gina decidiu que era hora de desempenhar o seu papel de mãe.
– Lamento que o insecto tenha caído justamente no seu colo, Michelle, mas o meu filho não teve culpa. Marco adora sapos, rãs e outros animais saltitantes. Às vezes ele ajuda um tio a capturá-las e recebe sempre elogios por isso.
– Permite que o seu filho ajude o tio a capturar essas criaturas nojentas?
– Para Marco, a brincadeira é muito divertida. O tio dele organiza corridas de sapos para entreter os turistas e dá aos animais nomes engraçados, como Freddo Gordo, Bolha da Floresta ou Príncipe Encantado…
– Príncipe Encantado? – repetiu Alex, rindo.
Gina sorriu, grata pela distracção que ajudava a amenizar a tensão do momento.
– O mais divertido é que, quando o Príncipe Encantado vence a corrida, se estiver a representar uma mulher, ele tenta convencê-la a beijar o sapo.
– Beijar um sapo? – Michelle parecia cada vez mais horrorizada.
– Os espectadores riem muito. A maioria das mulheres recusa-se a beijar o sapo, mas algumas beijam-no e pedem aos amigos ou familiares para filmarem a cena, de forma que todos acreditem na façanha quando voltarem para casa.
– Deve ser divertido – opinou Alex. Depois olhou para a noiva. – É só uma questão de perspectiva, Michelle.
– Ugh! Se não te importa… – Ela arrancou o braço da mão de Alex. – Vou lavar o meu braço onde aquele animal nojento deixou o seu rasto.
A partida impulsiva e antipática da jovem deixou um silêncio constrangedor. Gina olhou para Marco e percebeu que o filho ainda estava à beira das lágrimas, apesar do conforto oferecido por Isabella.
Alex ajoelhou-se diante do menino.
– Tenho uma ideia! Queres ir comigo conhecer o lago dos peixes? – convidou com tom entusiasmado.
– Peixes?
– Sim, enormes! Vermelhos, dourados, coloridos… preciso de alguém que me ajude a contá-los. – Ele tirou o menino dos braços da avó e girou de forma a rodá-lo no ar. Depois colocou-o diante do rosto. – Sabes contar?
– É claro que sim. Um, dois, quatro, dez…
– Muito bem! Vamos logo para o lago contar os peixes. Isto é, se a tua mãe permitir…
– Podes ir, querido – autorizou Gina. Não sabia se aquela era a decisão mais sensata, mas precisava de reparar de alguma forma o mal causado por aquela mulher snobe e cruel. Talvez devesse partir com Marco e encerrar o assunto, deixando aquelas pessoas resolverem as suas diferenças com total privacidade, mas não resistia ao impulso de compensar de alguma maneira o sofrimento daquela criança. Sabia que ele agira certo dos elogios que receberia, e os gritos abalaram-no profundamente.
– Alessandro sempre soube lidar com crianças – comentou Isabella, como se quisesse acalmar as suas preocupações de mãe. – Ele cuidava dos irmãos mais novos.
Gina sentou-se novamente. Sabia que Marco estava seguro com Alex. Não era esse o problema. O que a incomodava era a possibilidade de ter de ficar e encarar mais uma vez a odiosa Michelle.
Como é que um homem generoso e agradável como Alex podia pensar em casar com uma mulher como aquela? Se desejava ter filhos, a escolha tornava-se ainda mais imprópria. Sim, Marco não era filho de Michelle, mas uma reacção tão intensa por causa de um simples insecto, o impulso de agredir…
Era errado.
Muito errado.
E os sentimentos que Alex King despertara nela durante a tarde tornavam a sua ligação com aquela mulher ainda mais detestável.
A sorte estava lançada, pensou Isabella, satisfeita. Marcara um ponto com Gina Terlizzi e o seu encantador filho. Não tinha dúvidas sobre os sentimentos da viúva por Alessandro e sabia que a atracção era mútua. Melhor ainda, Michelle tinha mostrado parte da sua verdadeira personalidade naquela tarde. A conduta das duas mulheres causara um contraste tão grande que só um homem surdo e cego deixaria de notar a diferença. E Alex via e ouvia muito bem.
Por isso estava tão aborrecido com a noiva.
Mas as conquistas daquela tarde perder-se-iam, caso não pudesse colocar Gina e Alessandro no mesmo ambiente com uma certa frequência e em intervalos regulares e breves. O maior problema era o anel de noivado no dedo de Michelle. Alessandro nunca deixava de considerar um compromisso. Precisava de encontrar um jeito de convencê-lo a romper a relação.
– Voltando aos negócios… – disse, tentando disfarçar a ansiedade que a consumia, – tem algum compromisso para o sábado à noite?
– Não, senhora King – respondeu Gina com surpresa e disposição.
– Estive a pensar… Um amigo do meu neto vai casar aqui no castelo no próximo sábado. Gostaria de fazer algo especial por António. Estava a planear contratar Peter Owen para cantar e tocar na cerimónia. Você conhece-o?
– Pessoalmente? Não. Mas já tive oportunidade de assistir a uma das suas apresentações. Ele é um pianista brilhante e um cantor muito competente.
– Sim, e popular, também. O que acha de formar um dueto com Peter? Seria interessante…
– Dueto?
– Deve conhecer «All I Ask of You» do Fantasma da Ópera.
– Sim…
– Tenho a certeza de que poderiam fazer maravilhas com essa canção. Peter também tocaria e faria o arranjo para a sua versão de «Because You Loved Me», e «From This Moment» também pode ser cantada em dueto.
– Mas… acha que ele vai querer dividir o palco comigo?
– Peter Owen fará o que eu pedir. – Qualquer que fosse o preço, estava disposta a pagar. – Vai ter de encontrar um tempo para ensaiar com ele durante a semana.
– Se tem a certeza… Quero dizer, comparada a ele, sou uma amadora, senhora King.
– Duvido que ele pense assim. Deixe os detalhes comigo. Ligarei para si depois de conversar com Peter. Combinado?
– Sim, senhora King. Muito obrigada por tudo.
Gina parecia aturdida, mas determinada a perseguir a sua oportunidade. Ali estava uma mulher de fibra e coragem, alguém capaz de todos os esforços para conquistar aquilo que julgava ser seu por direito. No momento, Gina Terlizzi considerava Alessandro um sonho impossível, mas se ela, Isabella, pusesse o rapaz ao alcance das suas mãos…
Mais importante ainda, tinha de colocá-la ao alcance das mãos dele.
Proximidade, atracção natural, o contraste contínuo entre o que havia e o que poderia haver, tentação…
– Peter Owen apresenta-se sempre usando um fraque branco. Vai precisar de um vestido de noite – avisou Isabella, esperando que o guarda-roupa de Gina contivesse algo mais… provocante. Uma mulher com um busto tão farto devia usar decotes mais ousados!
– Tenho um vestido que deve servir para a ocasião – respondeu ela.
– Óptimo! Os meus três netos estarão presentes na cerimónia de casamento, e sempre gostei de exibir as minhas descobertas para os rapazes.
Gina corou e baixou a cabeça, talvez para esconder o brilho de interesse que iluminava seus olhos. Mas Isabella soube interpretar a sua reacção e sentiu-se ainda mais eufórica.
– Farei o possível para não a desapontar, senhora King.
– Estou certa disso, querida.
Gina sabia que Alessandro estaria presente na noite do casamento. E Michelle também… infelizmente.
Mas Isabella sabia que Gina ofuscaria a beleza plástica de Michelle no próximo sábado. Para tanto, teria apenas de ser a mulher exuberante e simples que era. Alessandro não teria a menor oportunidade de escapar.
Ücretsiz ön izlemeyi tamamladınız.