Kitabı oku: «A meio da noite - Segura nos seus braços»

Yazı tipi:

Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2020 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

N.º 56 - dezembro 2020

© 2007 Fiona Harper

A meio da noite

Título original: Break Up to Make Up

Publicada originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

© 2006 Margaret Way, Pty., Ltd

Segura nos seus braços

Título original: Her Outback Protector

Publicada originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2008

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer

semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Bianca e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.

As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1375-267-9

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

A meio da noite

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Segura nos seus braços

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Epílogo

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A meio da noite


Capítulo 1

Adele conteve o impulso de sair da casa de banho a correr e a gritar. Fechou os olhos, respirou fundo e ordenou às suas mãos que parassem de tremer. Quando sentiu que o seu coração se acalmava um pouco, voltou a abrir os olhos.

Nada mudara. A sua banheira estava habitada por oito patas e um corpo gordo e peludo. Deu alguns passos para trás, sem desviar o olhar das longas patas.

Assim que a beira da banheira lhe escondeu a visão do insecto, tacteou a estante que havia em cima do lavatório. A pasta e a escova de dentes voaram quando agarrou no copo onde estavam. A única coisa de que precisava naquele momento era de um objecto plano e não demasiado flexível. Pousou o olhar em todas as partes quase sem conseguir ver nada. Obrigou-se a procurar com mais lentidão.

Sobre o cesto da roupa estava a revista que lera da última vez que tomara um dos seus banhos rituais, que era o que estaria a fazer naquele momento, se não tivesse sido interrompida pela intrusa.

Agarrou na revista e dirigiu-se para a banheira, tentando fazer com que as suas pernas não hesitassem à medida que se aproximava. Levantou o copo invertido e esperou que não lhe escorregasse da mão. Até as pontas dos seus dedos pareciam suadas. Mais dois passos e estaria suficientemente perto.

Nesse instante, o copo encontrava-se apenas a alguns centímetros da criatura. Tudo pareceu ficar imóvel. Até a aranha… como se percebesse que se aproximava. E então, desenrolou-se um redemoinho de velocidade. Vinha na sua direcção.

Adele não parou para pensar; simplesmente, lançou o copo e a revista na direcção da sua atacante e saiu a correr da casa de banho. E enquanto o som do vidro ao partir-se ecoou nos seus ouvidos, fechou a porta com força e apoiou-se contra ela… para o caso de a aranha tentar mexer no trinco.

Disse para si que a sua fobia a tornava irracional. Ao aperceber-se disso, devia ter-se afastado da porta, porém, um ruído procedente do interior da casa de banho fez com que apertasse a maçaneta com mais força.

Se pelo menos…

Não, não ia desejar que estivesse ali.

Não precisava de nenhum homem para capturar uma aranha. E muito menos daquele homem.

Esqueceu a maçaneta ao suspirar e passou os dedos pelo cabelo.

«Consigo fazê-lo», pensou no silêncio. «Tenho de o fazer. Mais ninguém vai fazê-lo por mim».

Virou-se para encarar a porta da casa de banho e imaginou-se vestida com um dos seus fatos de trabalho e não de robe, com o cabelo apanhado como habitualmente à altura da nuca, sem cair sobre os ombros e a cara. Era tudo uma questão mental. Com determinação, podia fazer-se qualquer coisa.

Tinham-na enviado para um daqueles estúpidos seminários de treino quando trabalhava para a Fenton & Barrett. Fingira que prestava atenção, porém, na verdade estivera a pensar em como ia abrir a sua própria empresa de Consultadoria Empresarial. Depois, tornaria os seus sonhos realidade e, certamente, podia empregar o mesmo truque naquele momento.

No seminário, tinham falado de visualização. Concentrou-se e, na sua mente, a criatura da casa de banho transformou-se numa frágil borboleta de cores brilhantes.

Qualquer pessoa podia apanhar uma borboleta, ou não?

Abriu a porta de repente e aproximou-se da banheira. O fundo estava coberto de vidro partido, porém, a criatura que procurava estava a meio caminho da parte lateral da banheira.

– Borboleta – murmurou, enquanto estendia a mão e fechava os dedos sobre ela. A distância da beira da banheira até à janela de repente aumentou até adquirir a extensão de um campo de futebol. Tentou caminhar devagar, mas depois de um passo e meio, começou a correr. – Borboleta! – gritou, quando as patas começaram a torcer-se na sua mão. – Aranha, aranha, aranha, aranha! – gritou ao abrir a janela com a mão livre e atirar a coisa horrível. Depois, tremeu e esfregou a palma da mão no robe várias vezes.

Disse para si que naquele momento, sim, precisava do banho que planeara tomar. Contudo, antes de poder fazê-lo, tinha de tirar todos os fragmentos de vidro da banheira. Não havia ninguém para apanhar as aranhas nem ninguém que tirasse um caco que pudesse esquecer-se, de modo que era aconselhável que fizesse um bom trabalho.

Tinha a cabeça dentro do armário sob o lava-loiça na cozinha quando a campainha tocou. O sol acabava de se pôr e ainda havia luz suficiente para não ter de acender os candeeiros, mas estava suficientemente escuro para não conseguir encontrar a pá e a escova.

A campainha tocou outra vez e bateu com a cabeça na parte superior do armário. Não tinha uma campainha que pudesse ignorar, pois era uma daquelas insistentes que tinha um ruído tão estridente como uma velha campainha de bicicleta.

A única coisa que quisera naquele sábado à noite, depois de passar o dia todo no escritório, fora perder-se num denso banho de espuma e ler quatro capítulos do seu livro. Disse para si que não era pedir muito.

Esfregou a cabeça no ponto onde lhe doía e, silenciosamente, dirigiu-se para a porta, que abriu sem se importar com o facto de ainda estar de robe.

Ia soltar um seco: «Sim. O que deseja?». No entanto, as palavras morreram nos seus lábios. Apoiado contra a parede, com um brilho divertido nos olhos e uma covinha em cada face, encontrava-se o homem mais desesperante que tivera a desgraça de conhecer.

Sabia que ficara boquiaberta, mas não parecia capaz de fechar a boca. Ele sorriu e as covinhas acentuaram-se.

– Olá, Adele!

– Nick!

Nos últimos minutos, o sol descera ainda mais pelo horizonte suburbano e o brilho projectado pela luz do alpendre fazia com que, em contraste, ele parecesse quente e dourado.

Parecia tão… real. Não como o Nick com quem gritara mentalmente nos últimos nove meses. Na sua mente, imaginara-o mais baixo, mais juvenil e muito menos atraente. Pôde sentir a química familiar crepitar no seu cérebro.

Olhou para ela nos olhos e ela sentiu que perdia mais alguns neurónios.

Nick arqueou o sobrolho.

– O próprio.

Adele abanou a cabeça, sem saber por onde começar. O que fazia ali? Há quanto tempo estava no país? E, o que era mais importante, o que fazia à frente da sua porta, como se nunca tivesse acontecido nada?

– Posso entrar?

Teve vontade de lhe fechar a porta na cara, de lhe dizer que podia desaparecer e que, se fosse realmente imprescindível, entrasse em contacto com ela através do seu advogado, mas descobriu que estava a assentir. Sempre conseguira fazer com que fizesse o que ele queria. E, apesar das suas boas intenções, de forma estranha era ela quem acabava sempre magoada ou a ter de ordenar o caos.

Fora uma má ideia deixar que Nick Hughes entrasse na sua vida.

E fora uma ideia ainda pior casar-se com ele.

Adele caminhou pelo corredor seguida por ele. Assim que chegaram à cozinha, virou-se para olhar para ele.

– O que queres, Nick?

Era o momento por que ele esperara, o momento que vivera mentalmente tantas vezes que já perdera a conta. E, nos seus sonhos, nunca se sentira nervoso.

Adele virou-se para olhar para ele e Nick tentou não se encolher. Temera aquela possibilidade. Esperara, depois de tanto tempo encontrá-la mais propensa a falar. Era evidente que se enganara. O tempo não causara nenhum impacto no processo de cura.

Dizer-lhe sem rodeios o que fazia ali não ia funcionar, teria de ir devagar. Portanto, conteve a súplica que queria escapar dos seus lábios e, em vez disso, sorriu.

– Bela maneira de receberes o teu marido.

Adele semicerrou os olhos.

Ele respirou fundo. Tinha de fazer alguma coisa antes que o pusesse na rua. Tinha de, pelo menos, permanecer no mesmo edifício que ela até que o ouvisse.

– O que achas de uma chávena de chá?

Ela continuou a olhar para ele, com as pupilas a contraírem-se até ficarem do tamanho de uma cabeça de alfinete. Reconheceu que aquela frase não era o seu melhor esforço, mas tinha o cérebro em greve depois do que lhe parecera uma semana num avião, e uma chávena de chá oferecer-lhe-ia mais quinze minutos até conseguir convencer Adele.

– Fiz uma viagem realmente longa – acrescentou.

Ela ficou tão quieta, dura e fria como o granito das bancadas da cozinha. E precisamente quando achava que se tinha solidificado e que permaneceria dessa forma para sempre, abanou a cabeça e foi buscar uma chaleira. Vigiou-a bem. Quando Adele estava com aquele humor, a probabilidade de pôr a chaleira ao lume era tão grande como a de a atirar contra ele.

Encheu-a de água de costas para ele enquanto repetia a sua pergunta anterior:

– O que queres, Nick?

Ele esperou que se virasse.

– Precisamos de conversar.

Ela abanou a cabeça.

– Não. Precisávamos de conversar há meses. Agora é demasiado tarde.

– Tenho um assunto importante que preciso de discutir contigo.

– Pois!

Nick encolheu-se.

– O que significa esse «pois»?

– Tu não sabes o que é importante, não é verdade, Nick? Ou responsável, ou confiável, ou algo que possa requerer o mínimo de seriedade.

Adele estava à ofensiva. Todas as suas boas intenções caíram e recorreu à única forma de defesa que funcionava. Sorriu levemente.

– Faz parte do meu encanto.

Ela não mostrou nem um pequeno sinal de sorriso. Nada corria como ele planeara. Estava tão cansado que não conseguia pensar com coerência, por isso experimentou a única coisa do seu arsenal que garantia uma reacção.

Os momentos desesperados requeriam medidas desesperadas.

Sorriu um pouco mais e observou-a, tentando ver algum sinal de degelo. Sabia que ela era incapaz de resistir às suas covinhas.

– Pára, Nick.

Encolheu os ombros com absoluta inocência.

– Eu sei o que estás a fazer e não vai funcionar.

Seria a primeira vez.

Era evidente que Adele acrescentara uns centímetros de armadura na sua ausência. Contudo, havia sempre fendas, só tinha de as localizar. De facto, fora uma das coisas que mais o atraíra nela ao princípio; aquela fachada gelada que ocultava um núcleo abrasador. Fogo e gelo…

Caminhou para ela e viu-a recuar.

– Disseste que querias falar? Bom, neste momento estou ocupada.

– Posso ver que sim – olhou para ela de cima a baixo e sentiu uma familiar onda de calor ao ver uma bonita perna revelada pela abertura do robe.

Adele ergueu-se e ajustou ainda mais o cinto do robe.

– Telefona-me para o escritório na próxima semana. Estou no meio de um grande projecto, mas talvez na quinta-feira tenha alguns minutos para te dedicar. Onde vais ficar?

Nick arqueou o sobrolho e olhou para ambos os lados.

– Nem sonhes! Não vais ficar aqui.

Ele pestanejou.

– Também é o meu lar.

– Correcção: podia ser a tua casa, mas deixou de ser o teu lar assim que atravessaste o Atlântico e não te incomodaste em voltar em nove meses.

Cruzou os braços e olhou para ele. Nick decidiu que não era o momento certo para lhe recordar que voltara… assim que pudera. Duas curtas semanas depois da monumental discussão, viajara oito mil quilómetros para resolver a situação. Contudo, ao entrar em casa, encontrara-a vazia. Adele mudara de casa e estava a viver com a sua melhor amiga.

Estava claro que Adele não estava de humor para enfrentar os erros que cometera. Para ser sincero, ele também não se achava capaz de encarar as lembranças. Assim, desterrou-as para um canto do cérebro.

Tirou o casaco, pô-lo nas costas de uma das cadeiras que rodeavam a grande mesa de pinho e deixou-se cair no fofo sofá embutido num canto da ampla cozinha de estilo vaqueiro.

– E esse chá?

Adele fechou os olhos e afundou os ombros. Ganhara o primeiro assalto, porém, Nick teve vontade de se dar um pontapé no rabo por a fazer parecer tão cansada.

– Fá-lo tu. Eu vou lá acima. E se pensas que vais pôr essa mala que largaste no hall no meu quarto, pensa melhor. Sabes onde é o outro quarto.

Aquilo doeu-lhe.

Fez uma careta quando Adele se virou e subiu as escadas com determinação. Não lidara bem com a situação, porém, teria sido uma temeridade continuar com a discussão. Há muito tempo, aprendera que a solução era fazê-la rir-se.

Tinha um excelente sentido de humor, porém, a maioria do tempo mantinha-o afastado. E, se era bom em alguma coisa, era em fazer a sua esposa rir-se.

Deixou que a sua cabeça caísse sobre as costas do sofá e fechou os olhos.

Sabia o que ela pensava: que o seu marido escolhera um emprego que surgia uma vez na vida em vez dela. Adele estava demasiado ocupada a mostrar-se arrogante para ver que fora ela quem se recusara a ceder um só centímetro. Fora uma decisão dela pôr o casamento em espera.

Podia haver dois lados para cada história, contudo, Adele estava sempre convencida de que a sua versão era a versão certa. O que era extremamente irritante, pois realmente tinha quase sempre razão. No entanto, de vez em quando, entendia as coisas espectacularmente mal. E então, geralmente, tratava-se de algo importante.

Adoptou uma posição mais confortável. A diferença horária começava a fazer-se sentir e aquele sofá era cómodo. O casaco de um dos fatos dela estava sobre as costas. Cheirava ao seu perfume, quente e penetrante. Se fechasse os olhos, era como se ela estivesse sentada ao seu lado.

Tinham passado muitas noites felizes aninhados naquele velho sofá, com dois copos de vinho depois do jantar. E houvera outras ocasiões em que tinham usado o sofá para actos muito menos relaxantes…

Sorriu enquanto adormecia. Menos relaxantes, mas muito mais divertidos.

A porta da cozinha rangeu levemente quando Adele a abriu. Fez uma pausa. Reinava o silêncio. Demasiado silêncio. Nick era como um pirralho e, se estava em silêncio, o mais provável era que estivesse a tramar alguma coisa. Abriu mais a porta e viu-o deitado sobre o sofá, a dormir como um bebé.

Até aquela imagem fez com que quisesse gritar. Como conseguia eliminar a tensão que havia entre eles e perder-se na inconsciência? Ela não estava tão relaxada. Era como se tivesse bebido dez cafés. Voltou a olhar para ele e suspirou sem se aperceber.

A dormir, parecia um ser angélico. Tinha o cabelo um pouco comprido e havia sempre uma madeixa que lhe caía sobre a testa. Muitas vezes, acordara de manhã, sorrira e afastara-a da sua cara. Custou-lhe enormemente conter-se para não repetir o gesto.

Tinha de sair dali. Já. Antes que esquecesse todas as razões pelas quais Nick Hughes não devia permanecer a um raio de dez quilómetros do seu coração.

Pegou na sua mala e fechou a porta. Momentos mais tarde, vestiu o casaco, o cachecol e as luvas e partia rua abaixo. Fevereiro em Londres era invariavelmente um mês húmido e frio, e nessa noite não queria afastar-se da tendência dominante.

Deu por si à frente da casa de Mona. A sua vida, que se mantinha num equilíbrio precário, acabava de cair por um precipício e precisava da sua melhor amiga. Mona abriu a porta com um bebé apoiado na anca.

– Meu Deus, Adele! O que aconteceu?

– É Nick.

Mona pôs uma mão na boca.

– Ele…? Houve um acidente?

– Não. Pior.

– Pior do que cair por uma montanha?

– Não sei se esteve a fazer alpinismo ou não, mas sei onde está neste preciso momento. O meu marido, amante de desportos de risco, está bem vivinho e a dormir na nossa cozinha… na minha cozinha.

Mona franziu o sobrolho e abraçou Adele num gesto súbito e inesperado.

– É melhor entrares e contares-me tudo do início.

Quando Adele se afastou, tinha baba do bebé na lapela do seu casaco. Acariciou a cabeça da sua afilhada e deu-lhe um beijo. Depois, deixou que Mona a conduzisse para a sala.

– Apareceu de repente.

– Sem aviso prévio?

– O quê? Nick? O homem que é tão mau a fazer planos de futuro que nem sequer é capaz de decidir o que comer para o jantar, mesmo quando tem fome?

Mona deixou Bethany no chão e deu-lhe um chocalho para que se entretivesse.

– O que quer?

Adele encolheu os ombros.

– Quem sabe? Tentei perguntar-lhe mas ficou como… costuma ser comigo. Diz que quer conversar.

– Sobre quê?

Adele suspirou.

– Suponho que pode ter voltado para pedir, tu sabes… o divórcio – murmurou. – Isso explicaria porque não o explicou logo. Nem sequer Nick apareceria nove meses depois e…

– De facto, nove meses e meio.

Adele fechou os olhos fugazmente e abanou a cabeça.

– Bom, sejam quantos forem. Nem sequer Nick apareceria e diria: «Olá, querida, estou em casa… e, a propósito, já passaste à história».

Mona assentiu.

– É claro, primeiro quereria entrar – Mona dedicou-lhe um olhar de curiosidade. – Por favor, não me digas que o queres de volta!

Deveria ter saído uma resposta automática da sua boca. Um firme «não, claro que não. Nem num milhão de anos». Em vez disso, fechou os olhos e esfregou os lados da cara.

– Adele?

– Pensei que queria que se fosse embora para sempre. Era uma decisão fácil quando estava a milhares de quilómetros de distância, mas agora voltou e… não sei… O divórcio parece tão… definitivo.

– Não te atrevas a deixar que te convença com aquele encanto juvenil, Adele!

– Claro que não!

– Ora! Estás a fraquejar. Vejo-o daqui. Já te esqueceste de como te tratou quando partiu?

Não, não o esquecera. Recordava até ao último detalhe do dia em que largara a bomba.

O seu trabalho como técnico de efeitos especiais para filmes para a televisão e para o cinema começara a dar lucros depois de anos de instabilidade.

Depois de alguns anúncios de sucesso para a televisão, tinham-lhe pedido que fizesse os efeitos especiais para um filme independente de baixo orçamento. Contra o esperado, o filme fora um sucesso de bilheteira e o nome de Nick fora inscrito com firmeza no mapa. Ambos tinham ficado mais do que satisfeitos naquele momento. Ela até conseguira suportar o estranho horário e o facto de ele poder desaparecer durante dias seguidos para regressar de madrugada sem dizer nada. Se soubesse o que toda aquela situação provocaria, talvez não se tivesse mostrado tão encantada.

Um dia, ele entrara no seu escritório e, com um sorriso enorme, dera-lhe a grande notícia: tinham-lhe oferecido um trabalho num grande projecto de Hollywood, um filme de ficção científica, e dispunha de cinco dias para fazer a mala e partir para a Califórnia para conhecer os produtores. Se gostassem das suas ideias, começaria quase imediatamente.

Nesse momento, as coisas tinham começado a correr realmente mal. Nick estivera tão ocupado nos meses seguintes, que Adele se sentira como se voltasse a ser solteira. Muitas vezes, a única prova de que ele voltara para casa quando acordava de manhã eram os planos para o dispositivo seguinte que construiria rabiscados nas margens de um dos seus cadernos.

E depois quisera que deixasse o seu negócio para trás e se mudasse para meio mundo de distância com um telefonema improvisado. Como se mais nada importasse, quando pela primeira vez na vida ela tinha raízes. Um lar. Um objectivo. Sob nenhuma possibilidade pensara em atirar tudo o que alcançara pela janela por um capricho. Fora o momento de pôr o travão.

Tiveram uma grande discussão. De facto, a pior que alguma vez tinham tido… Mesmo assim, quando ela gritara: «Vai-te embora e leva esse trabalho estúpido contigo se o consideras tão importante!», não esperara que a ouvisse e entrasse naquele avião.

A voz de Mona devolveu-a ao presente.

– Vá lá, tens de ser forte.

– Eu sou forte – baixou a cara. Pelo menos queria sê-lo. Mês após mês a fingir que estava bem sem Nick fora muito cansativo.

O marido de Mona fora-se embora quando o segundo bebé chegara, apenas dez meses antes. Ambas tinham superado os primeiros meses das suas crises individuais canalizando a sua fúria em sessões semanais de discursos empolados na sala de Mona.

O período posterior à partida de Nick fora o pior da sua vida e não ia dar-lhe a oportunidade de voltar a enviá-la para aquele lugar solitário e escuro.

Levantou-se.

– Não, tens razão. Quem precisa de homens?

– Assim está melhor. E agora, como vais enfrentar esse aventureiro que está a dormir na tua cozinha?

O que tinha vontade de fazer era regressar a toda a velocidade para casa e olhar para ele enquanto dormia. Acordá-lo com beijos e demonstrar-lhe como sentira a sua falta.

No entanto, não podia ceder dessa maneira. Não o faria.

Nick fizera a única coisa que prometera nunca fazer: deixara-a, e não tencionava dar-lhe a oportunidade de voltar a magoá-la. Pelo menos, era isso que lhe dizia a sua cabeça. Contudo, o seu coração tinha os seus próprios planos loucos.

Abanou a cabeça.

– Suponho que vou ter de ir e falar com ele em algum momento. Mas não posso fazê-lo esta noite. Quando Nick me surpreende, acabo sempre por aceitar algum dos seus planos descabidos. Preciso de estar preparada. Concentrada.

Não podia deixar que Nick soubesse que ainda tinha o poder de a fazer tremer cada vez que se aproximava. Utilizá-lo-ia contra ela. Faria com que ela acreditasse que tinham uma oportunidade e depois voltaria a tirar-lhe o tapete de debaixo dos pés. Era inevitável.

Precisava de se proteger. Nick devia achar que era totalmente imune a ele e era impossível que naquela noite conseguisse convencê-lo disso. Continuava perturbada com o seu aparecimento e o mais provável era que fizesse alguma estupidez… como dizer-lhe que estava a brincar quando lhe dissera para ir para o quarto livre.

– Fica aqui – disse Mona. – Podemos elaborar os planos de batalha com uma garrafa de vinho.

– Obrigada, Mona. Salvaste-me a vida.

Mona pegou em Bethany ao colo e levantou-se.

– Vamos, querida. Está na hora de ires para a cama – virou-se antes de sair da sala. – Ele sabe que…?

Adele juntou os dedos e apertou-os até que os nós começaram a doer-lhe.

– Não. Nunca lhe contei.

Capítulo 2

Uma mão tocava-lhe na cara. Nick sentou-se, de repente, bem acordado, e apercebeu-se de que os dedos eram seus. Pusera o cotovelo atrás da cabeça enquanto dormia e nesse momento sentia a mão torcida e dormente.

As luzes continuavam acesas na cozinha, porém, no exterior reinava a escuridão e não fazia ideia de que horas eram. Abanou a cabeça e depois olhou para o seu relógio de pulso. Eram seis da manhã!

Voltou a olhar. Não era de estranhar que se sentisse tão dorido, já que passara as últimas doze horas num sofá de dois lugares.

Adele provavelmente levantar-se-ia dentro de uma hora. Sempre fora madrugadora, em contraste com os seus costumes de mocho nocturno. Sentia-se sujo depois da viagem de Los Angeles e de continuar com a mesma roupa. Não fazia sentido tentar convencer Adele com aquele aspecto desalinhado e um cheiro ainda pior. Era melhor tomar um duche e arranjar-se antes de tentar falar novamente com ela.

Levou a mala para o andar de cima e esteve prestes a entrar no quarto principal, por uma questão de hábito. Um erro idiota. Tinha de pensar com mais acuidade se queria convencer Adele a ficar do seu lado. Nem ele era tão parvo para pensar que podia recuperar a sua vida anterior, depois de todo aquele tempo, como se nada tivesse mudado.

Embora na realidade desejasse poder recuperar a sua antiga vida. Adele e ele tinham sido tão felizes… Um momento de fúria precipitada provavelmente custara-lhe o seu casamento. Quase nunca perdia as estribeiras, porém, Adele pressionara-o de tal forma que acabara por explodir.

O que só lhe demonstrava que a sua técnica habitual de varrer todos os pontos negativos para debaixo do tapete e brincar até que tudo se desvanecesse era uma opção mais segura. Se tivesse agido assim naquele mês de Maio, talvez as coisas tivessem sido diferentes e não tivesse de viver com aquela dor profunda que não queria desaparecer, apesar das brincadeiras que fazia com os seus companheiros para se distrair.

Meia hora mais tarde, estava barbeado, vestido e preparava café na cozinha. A ideia era fazer com que Adele se sentisse melhor com a ajuda da cafeína. Conhecia todos os truques para a pôr do seu lado, pois empregara-os tantas vezes que eram quase um costume.

Certamente, dessa vez, teria de agir com muito cuidado. Teria de se mostrar sensato e falar com ela de forma adequada. Esse era o plano «A». Depois, teria de conseguir fazer com que aceitasse o plano «B», que, com sorte, conduziria à realização do plano «C», que era o mais importante: convencer Adele de que tinham sido feitos um para o outro.

Não podia falhar, como tal, teria de usar todos os trunfos possíveis. Não podia fazer nenhum mal preparar um pouco o caminho… com cafeína, sorrisos e covinhas.

Ligou a cafeteira e sentou-se à mesa, à frente da porta. Ela apareceria a qualquer momento.

No entanto. Adele não apareceu. E a paciência não era um dos pontos fortes de Nick.

Talvez a sua mulher quisesse o pequeno-almoço na cama? Ou isso seria levar as coisas demasiado longe?

Encostou-se na cadeira de madeira, abatido. Sentira a sua falta. Muito. Ao regressar à Califórnia depois da sua primeira viagem, surpreendera-o perceber o tempo que deixara que a fúria bulisse no seu interior. Não fora capaz de a desterrar como de costume. Embora isso fosse compreensível, ou não?

Qualquer homem estaria zangado se a sua esposa o tivesse deixado ao primeiro inconveniente. Poderiam ter chegado a um compromisso em relação ao seu emprego e ao seu contrato de seis meses em Hollywood, porém, ela nem sequer se incomodara em considerá-lo.

Estivera demasiado ocupada a gritar com ele a respeito de como o seu trabalho, a sua vida e os seus amigos eram importantes para ela. Fora uma surpresa desagradável descobrir que era o último da lista… se é que figurava nela.

O seu trabalho era igualmente importante para ele, contudo, Adele nunca o encarara a sério, nem sequer quando alguém lhe apresentara um contrato, oferecendo-lhe uma oportunidade de último momento de trabalhar com o aclamado produtor Tim Brookman. Fora uma oportunidade que não pudera rejeitar, e magoava-o mais do que gostava de reconhecer que ela não tivesse tido fé suficiente nele para o apoiar na sua decisão.

A irritação começou a apoderar-se da sua mente. Espantou-a e olhou para o relógio. Eram oito e meia. Adele não podia estar ainda a dormir. Talvez fosse melhor ir comprovar que estava bem.

Subiu as escadas. Ao aproximar-se da porta do quarto dela, abrandou. Sorriu ao recordar como por vezes roncava suavemente. Era tão doce… E era estranhamente gratificante saber que a perfeita Adele tinha um defeito ínfimo.

No entanto, não se ouvia nenhum ronco naquele momento. De facto, não se ouvia nenhum som.

Abriu um pouco a porta e pestanejou ao ver o quarto anormalmente brilhante. As cortinas estavam abertas e o frio sol de Fevereiro iluminava a cama vazia. Estava perfeitamente feita e as almofadas, à frente da cabeceira, impecavelmente colocadas.

Sentiu um nó no estômago, tal como lhe acontecera ao entrar no quarto há quase um ano e ver o armário vazio, com os cabides nus como ramos outonais.

Depois, encontrara o bilhete seco e breve que o informava de que ia ficar em casa de Mona e que não queria vê-lo. Ele dera meia volta e regressara para os Estados Unidos, consternado pelo facto de a sua esposa o ter abandonado com tanta facilidade. Pelo menos, conseguira convencer Mona de que a aconselhasse a voltar para casa depois de ele ter partido.

Aproximou-se do armário e abriu a porta. Soltou o ar contido ao ver a sua roupa pendurada e agrupada por tipo e cores.

Então, sentiu-se simplesmente confuso ao ver a roupa, mas não Adele.

Virou-se e regressou ao andar de baixo. Estava no último degrau quando ouviu a porta da entrada a abrir-se.

Adele recuou, assustada, e ele perguntou-se o que raios estava a acontecer.

O seu rosto estava vermelho e parecia agitada, algo que raramente acontecia.

Então, um pensamento horrível formou-se na mente de Nick.

– Estiveste a noite toda fora, Adele?

Ela baixou o jornal de domingo que tinha debaixo do braço.

– Acho que isso entra na categoria de «não te diz respeito».

Não lhe dizia respeito? Aquela mulher não existia!

– Continuas a ser a minha esposa!

Ela dedicou-lhe um olhar duro.

– Bom, sempre podemos fazer alguma coisa a respeito disso.

Nick experimentou uma actividade sísmica que pensou que Adele já não pudesse provocar-lhe depois de tanto tempo. Saiu de casa furioso, atravessou o atalho do jardim e entrou no seu atelier, fechando a porta com força.

Não lhe dizia respeito!

Deveria ter ficado para resolver aquele assunto, porém, os seus pés tinham começado a andar antes que o seu cérebro se activasse. E, naquele momento, não tinha vontade de voltar para casa.

– Quais achas que são as minhas possibilidades, Ethel? – perguntou ao manequim que salvara da rua e que ainda mantinha a sua pose num canto do atelier. – Preciso da perspectiva de uma mulher.

Ethel continuou com os olhos azuis cravados na direcção da janela.

Nick suspirou.

– Sim. Obrigado por nada, querida.

Adele trabalhava à frente do computador portátil quando Nick foi ter com ela. Continuava nervosa devido ao confronto do hall. Estivera quase a ceder… quase. Contudo, no final conseguira manter a compostura e Nick nunca saberia como estivera perto de desterrar a sua fúria com um beijo.

Tentou fingir que não tinha consciência da sua presença à porta da pequena sala que usavam como escritório.

– Estou ocupada, Nick – acabou por dizer, sem virar a cabeça.

– Em algum momento vamos ter de falar.

Ela encolheu os ombros e tentou concentrar-se nas palavras que apareciam no ecrã. Nenhuma lhe foi reconhecível. Leu uma frase pela terceira vez e acabou por deixar de tentar.

– Está bem. Falemos – virou a poltrona e cruzou os braços. – Podes começar.

Nick abanou a cabeça.

– Assim não. Vamos para um terreno neutro. O que achas de eu te convidar para almoçar?

Há muito tempo, adorava os longos e ociosos almoços de domingo com Nick. No Verão, sentavam-se no terraço do pub e, no Inverno, faziam-no no interior, à frente da acolhedora lareira. Não queria que nada lhe recordasse dias mais felizes, porém, ele tinha razão. Teriam de falar em algum momento e seria melhor que fosse o quanto antes.

– Está bem, mas pagas tu.

– Certamente.

Nick exibiu as suas covinhas e Adele teve a impressão de que estava a aceitar muitos problemas.

– Então, porquê tudo isto, Nick?

Tinham estado quase o almoço todo a conversar sobre nada em especial. Não tinha a certeza de isso ser um bom ou mau sinal. A única coisa que sabia era que a conversa transcendente começava a irritá-la e que tinha de saber imediatamente o que se passava.

Nick brincou com uma batata assada no seu prato.

– Este ano a minha mãe faz sessenta e quatro anos.

Adele assentiu.

– Eu sei – depois franziu o sobrolho.

O que estaria a tramar? Tentou olhar para ele nos olhos, porém, ele parecia concentrado em juntar todas as ervilhas no seu prato, num canto.

– Como está Maggie?

Fora um pouco cobarde nessa frente depois de ele ter partido. Escondera-se atrás da sua incapacidade para manter correspondência para que o contacto com a família de Nick fosse mínimo. Enviara algumas mensagens de outro correio electrónico e o cartão de Natal habitual, contudo, evitara as mensagens do atendedor de chamadas, fingindo para si mesma que estava muito ocupada com o trabalho. Nos últimos meses, o intercâmbio reduzira-se a quase nada.

A verdade era que estava assustada. Como já não eram um casal, receava que a mãe e as irmãs de Nick se mostrassem distantes com ela. Tal como tinham feito os seus próprios pais. Afinal de contas, só fizera parte da família por defeito. Fora mais fácil fugir de algo profundo do que arriscar-se a comprovar que os seus medos tinham uma base real.

Ele dispersou as ervilhas com a ponta da faca.

– Já conheces a mamã…

Conhecia a mãe de Nick melhor do que a sua própria. O que não era difícil, já que a última vez que vira os seus pais fora há três anos. Mas isso não era fora do comum, pois era assim desde que a tinham enviado para um colégio interno para que a sua mãe pudesse viajar pelo mundo com o seu pai enquanto este andava de um lugar exótico para o outro por motivos profissionais.

Maggie Hughes era o tipo de mulher que fantasiara ter como mãe nos seus anos de adolescente. Tinha a casa cheia de filhas e netos que se queixavam sempre de que os controlava demasiado, embora isso nunca impedisse que fossem visitá-la. Tinha um coração grande e certificara-se sempre de que Adele se sentisse parte da família, sempre querida. Talvez fosse demasiado indulgente com o único filho que tinha, mas ninguém era perfeito.

– Manda-lhe beijinhos quando falares com ela, está bem?

Nick tossiu.

– Bom, estava a pensar que talvez pudesses fazê-lo tu mesma… pessoalmente.

– E quando seria isso, exactamente? Já te esqueceste, agora que tens uma vida tão agitada em Hollywood, que o ano passado foi viver com a tia Beverley? A Escócia fica muito longe para ir beber uma chávena de chá.

– Vai fazer uma grande festa de aniversário. Charlotte está a organizar tudo e, é claro, as minhas outras irmãs também se envolveram.

Adele pôde imaginá-lo. Nick tinha três irmãs mais velhas. E juntas formavam uma força a ter em conta. O único defeito que tinham era a fraqueza que sentiam pelo seu irmão mais novo.

– E o que tem essa festa a ver comigo?

Nick olhou para ela.

– A mamã quer que vás. De facto, insiste em que o faças.

– Porquê? – Maggie sempre fora uma mulher sensata. – Certamente sabe que juntar-nos na festa fará com que se produza uma situação incómoda. Porque haveria de querer arriscar-se a estragar a sua grande noite?

– Eh… bom, é essa a questão. Na verdade, não lhe falei dos nossos…

Adele sentiu que a tensão a invadia um pouco mais.

– Nossos?

– Dos… nossos… problemas.

O prato sobre a mesa dançou à frente dos seus olhos. A sensação de que Nick voltara a fazê-lo, de que voltara a fugir de uma situação difícil, deixando que outra pessoa lidasse com as consequências, acomodou-se junto ao seu ouvido, sussurrando-lhe coisas desagradáveis.

Disse para si que não podia ser tão idiota. Olhou para ele. O seu sorriso confirmou-lhe tudo, já que recorria sempre a ele quando sabia que alguma coisa ia despertar a sua irritação.

Custou-lhe muito não levantar o prato e atirá-lo, com molho e tudo, à sua cabeça. De facto, devia receber uma medalha por ter conseguido levantar-se e sair do restaurante sem sofrer uma combustão espontânea.

Era tão típico de Nick! Perguntou-se porque deixara que abrisse a boca, quando sabia que dela não poderia sair nada bom, mas permitira que ele a abrisse, como a idiota que era.

Pelo canto do olho, viu o brilho de um casaco castanho e soube que Nick conseguira pagar e sair atrás dela.

Não estava preparada para falar com ele naquele momento. Por sorte, tinham decidido ir a pé até ao pub mais próximo para almoçarem. Só demoraria dez minutos a chegar a casa.

Ouviu o som seco das suas botas sobre a calçada. Disse para si que, se mantivesse aquele ritmo, com oito passos ele acabaria por a alcançar. Teria de andar mais depressa.

Nick seguiu-a. Quis correr, porém, uma voz interior sussurrou-lhe que seria melhor deixar que a sua mulher se acalmasse um pouco. Acelerou.

Como ela andava depressa quando se irritava daquela maneira! Demorou mais de um minuto até se situar a uma distância que lhe permitisse falar com ela.

– Adele!

Nem sequer virou a cabeça. Simplesmente, levantou uma mão na sua direcção.

– Vá lá, Adele. Por favor?

Nesse momento, viu-se obrigada a parar à frente de um cruzamento e ele alcançou-a.

– Não! – avisou-o Adele quando ele ia abrir a boca. – Não o faças.

Fechou-a.

– Desta vez superaste-te, Nick. Não posso acreditar que apareças passados nove meses, sem qualquer tipo de contacto, para me convidares para uma festa de aniversário – riu-se e abanou a cabeça. – É um nível novo de insensibilidade, mesmo para ti.

Um momento!

Quantas vezes tentara telefonar e desculpar-se nos dias seguintes à sua partida? Quantas vezes ela lhe desligara o telefone na cara antes que pudesse emitir uma sílaba? Se não tinham comunicado em nove meses, era mais culpa de Adele do que dele. Pelo menos, ele tentara fazê-lo.

No final, fizera o que evidentemente ela queria, deixando-a em paz. E agora culpava-o disso?

– Bom, talvez tu tenhas todas as respostas, Adele, mas eu não.

Ela recuou e olhou para ele.

– O que estás a insinuar?

– Que eu não tenho a certeza do que se passa connosco. O que é? Estamos separados ou realmente foi um longo período de arrefecimento depois de uma discussão? Se eu não consegui decifrá-lo, como vou poder defini-lo a outra pessoa? Tu não aceitavas falar comigo. Não faço ideia do que se passa na tua cabecinha ordenada.

Adele abanou a cabeça e atravessou a rua. Ele teve de esperar que vários carros virassem pela esquina para voltar a alcançá-la. Afastou a sua intenção de esperar até que ela quisesse conversar sobre eles. Esperara nove meses e ia obter as suas respostas nesse mesmo instante.

– Então, o que contaste às pessoas, Adele? Qual foi a tua posição no assunto?

E então calou-se. Sabia exactamente o que teria contado às suas amigas. Mona aproveitar-se-ia do detalhe mais pequeno e teria a certeza de que ele era um vilão, enquanto Adele saía impoluta e a cheirar a rosas. Aquela mulher às vezes era tão teimosa…

Caminhou junto a ela em silêncio. Devia ter ouvido o seu instinto. Adele não estava de humor para oferecer explicações razoáveis e qualquer coisa que dissesse só serviria para piorar as coisas enquanto continuasse naquele estado.

Enquanto esperava que abrisse a porta de casa, as faíscas que saíam dela eram quase tangíveis.

– Vou lá para cima – disse, deixando a porta aberta.

Ele entrou e fechou-a. Apesar das doze horas que dormira, começava a sentir-se cansado outra vez. Foi para a sala e ligou a televisão. Talvez pudesse dormir um pouco.

Adele acabaria por se acalmar. Era o que acontecia sempre. Tinha uma fúria explosiva, mas que geralmente também se consumia depressa. Depois de ligar a televisão, deixou-se cair na sua poltrona favorita. Dentro de quinze minutos, iria preparar-lhe uma chávena de chá como oferenda de paz para que pudessem conversar sem que declarasse a Terceira Guerra Mundial.

Um pouco mais tarde, precisamente quando pensava em levantar-se para pôr a chaleira ao lume, ouviu-a descer as escadas. De facto, ouviu uma série de ruídos, depois «tump, tump, tump», como se houvesse duas pessoas a descer cada degrau.

Chegou ao hall mesmo a tempo de a ver lutar com a sua mala nos últimos três degraus.

– Adele? O que raios estás a fazer?

Ela parou, em parte para responder e em parte para recuperar o fôlego. Doíam-lhe os braços. Perguntou-se como podiam umas quantas camisas enrugadas pesar tanto.

– Pensei que era bastante óbvio, não? Estou a expulsar-te daqui.

A expressão da cara dele era clássica. Se não estivesse disposta a matá-lo, desataria a rir-se.

– Não podes expulsar-me. Eu também vivo aqui.

– Já não. Podes procurar outra pobre desgraçada para enganar. Para mim, acabou-se.

Ao compreender as implicações das suas palavras, perguntou-se se realmente quatro anos de casamento tinham chegado àquele ponto. Olhou para Nick e sentiu-se pior, pois as suas palavras tinham-lhe apagado as covinhas da cara. Devia sentir-se satisfeita por ele finalmente ter compreendido, porém, de repente, sentiu lágrimas nos olhos.

– Lamento muito, Adele. A sério. Devia ter dito à minha mãe… qualquer coisa – abanou a cabeça. – Mas ela ama-te como a uma filha e não quis perturbá-la. Não está muito bem…

Engoliu o resto da frase e ela sentiu o coração apertado ao vê-lo lutar com as palavras.

– Esteve… quer dizer, ia sentir-se muito triste por nós. Não quis dizer-lhe até ter a certeza de que não havia nenhuma esperança.

Nenhuma esperança.

Os seus lábios tremeram e ela apertou-os para o esconder. Nick dedicou-lhe um sorriso triste. O sorriso que realmente a magoava. Era perturbantemente verdadeiro.

As suas defesas começaram a cair. Não acabava de dizer que não sabia como definir a sua relação? Isso significaria que ainda não tomara uma decisão, que afinal de contas, talvez não quisesse o divórcio?

E mesmo que o quisesse, porque devia castigar Maggie pelo abandono do seu filho? Apesar de talvez não haver uma luz para Nick e para ela ao fundo do túnel, não queria causar ressentimentos na sua família.

Respirou fundo e soltou o ar. Família. Durante quatro anos, fizera parte de uma família e isso fora maravilhoso. Telefonemas no dia do seu aniversário. Almoços dominicais repletos de pessoas. O mundo ia parecer horrivelmente vazio quando tudo isso desaparecesse para sempre.

Fechou os olhos. Não. Tinha de ser forte. Não podia ceder naquele momento. Perder a última oportunidade de os ver a todos, de se despedir de todos, era o preço que tinha de pagar para que a sua prudência e o seu coração permanecessem intactos.

Devia concentrar-se no facto de, mais uma vez, ele lhe pedir que deixasse tudo para ir atrás dele. E não havia garantias de que não voltaria a abandoná-la depois de tudo acabar. Não mencionara o seu desejo de voltarem a estar juntos. Só precisava dela para que lhe salvasse a pele.

Era uma pena. Que se salvasse sozinho.

Ele não fazia ideia da tortura pela qual passara quando ele se fora embora. Tinha de recordar aquele lugar negro e todos os motivos pelos quais nunca queria regressar para lá.

Portanto, deixou que essa escuridão alimentasse a sua fúria até que ferveu. E então arrastou a mala pela curta distância que havia até à porta e atirou-a para o caminho do jardim. Quando Nick soltou um estrangulado «eh!» e foi atrás dela, fechou a porta à chave.

Não parava de carregar nos botões do telecomando da televisão e, pela enésima vez, perguntou-se porque não havia nada bom para ver. Tinha mais de cinquenta canais entre os quais escolher. Devia haver algo levemente interessante em alguma parte. Até um filme demasiado sentimental seria melhor do que nada.

Eram quase três da manhã.

Bocejou. Normalmente, já estaria há horas na cama, porém, nessa noite não conseguia acalmar-se o suficiente para se convencer de que, se se deitasse, acabaria por adormecer.

Mona diria que estava envolvida no seu próprio desgosto. Possivelmente, teria razão.

No entanto, era permitido que uma mulher se perdesse na autocompaixão depois de expulsar o homem que amava para sempre da sua vida.

Atirou o comando sobre o sofá e tentou concentrar-se na repetição de uma comédia.

Não fazia sentido negá-lo. Amava Nick. Se não, não a enlouqueceria em todos os sentidos. Não fazia sentido enganar-se dizendo para si que também estava a expulsá-lo do seu coração, pois ele estava firmemente cravado nele.

No entanto, isso não significava que conseguissem construir uma vida juntos.

Tinham prioridades diferentes. Não, era mais do que isso. Eram tão completamente diferentes que se perguntou como as coisas podiam ter durado quatro anos. Cinco, se contasse com o ano antes de se casarem. E depois havia o ano anterior a esse, quando Nick a perseguira com tanto afinco e em que ela o rejeitara até que acabara por a vencer pelo cansaço e a fizera rir-se.

Fora muito firme com ele. Um encontro… apenas isso.

No entanto, acabara por descobrir que um encontro não era suficiente. Ou pelo menos era o que lhe parecera na época. Talvez tivesse sido melhor se tivesse ouvido os alarmes da sua cabeça cada vez que Nick estava por perto.

Suspirou e olhou para a sala. Era uma tolice sentir-se tão desolada diante da ideia de se despedir de Nick para sempre, já que tomara aquela decisão há meses.

A luz do atendedor de chamadas estava a piscar. Sentiu um aperto no coração. Nick?

Carregou na tecla e esperou pela mensagem.

– Olá, Nick. Sou eu, Debbie – ouviu.

A irmã número dois.

– A mamã pensou que talvez já tivesses voltado. Espero que a mudança de horário não seja muito má. Bom, só queria dizer-te que a mamã superou a sua pior sessão de quimioterapia, portanto há luz verde para a festa. Telefona-me e dar-te-ei conta dos progressos. Diz a Adele que há um bolo de chocolate com o nome dela à espera. Adeus.

Quimioterapia? A mãe de Nick tinha cancro? O chão pareceu tremer debaixo dos seus pés. Maggie não podia morrer. Era demasiado vital. Por que razão Nick não lhe contara?

«Porque nunca lhe deste uma oportunidade», sussurrou-lhe uma voz na cabeça. «Estavas demasiado ocupada a sentir pena de ti mesma. Afastaste-o enquanto sofrias e depois, quando estavas preparada para ouvir, ele já se tinha rendido». E fora demasiado orgulhosa para lhe telefonar e arriscar-se a voltar a perdê-lo se a rejeitasse. Já perdera demasiado. Fora mais fácil culpá-lo.

Se pelo menos pudesse telefonar-lhe naquele momento. Devia sentir-se muito mal. Contudo, expulsara-o sem pestanejar e não fazia ideia de onde podia localizá-lo.

Tinha um amigo que mantivera de forma constante desde os tempos da universidade… Como se chamava? Kelvin? Connor? Não, Callum. Exacto. Porém, vira-o apenas duas vezes e não sabia onde vivia nem tinha o seu número de telefone.

Deixou-se cair no sofá e apagou a televisão. A sala ficou na escuridão, mas permaneceu ali com o olhar cravado no vazio durante o que lhe pareceram horas.

Depois, ouviu um estalo continuado na porta dianteira. Susteve a respiração. Atribuiu-o ao vento. Tentou ouvir mais alguma coisa, mas reinava o silêncio. Além disso, a porta tinha duas fechaduras. Estava prestes a soltar o ar contido quando ouviu o ruído outra vez.

Não era apenas um estalo seguido. Pôde ouvir a fechadura ao virar. Arrepiou-se e sentiu um nó no estômago, mas não conseguiu mexer-se. A única coisa que pôde fazer foi aninhar-se num canto do sofá e tentar conter o ritmo da sua respiração.

Se Nick estivesse ali!

Depois, ouviu o som que receara: a segunda fechadura fez um «clique» e ouviu o som da porta ao abrir-se. Com todo o silêncio que conseguiu, levantou-se do sofá e escondeu-se atrás da poltrona. Os seus tornozelos também rangeram quando se baixou e teve a certeza de que o ruído fora tão sonoro como um disparo.

Havia alguém na casa! Começou a tremer. O telefone. Precisava do telefone.

Mas estava no outro extremo da sala e o intruso avançava pelo corredor para a porta da sala. Não podia arriscar-se. E, mesmo que conseguisse chegar até ao aparelho, ouvi-la-ia a fazer o telefonema.

Espreitou por trás da poltrona precisamente quando a porta da sala se abriu. Uma sombra mexeu-se na sua direcção e ficou paralisada.

Capítulo 3

O ladrão tocou nas costas da poltrona, à procura de alguma coisa. Estava tão perto que o seu fôlego aqueceu o ar perto dela. Não encontrou o que procurava e deslizou o braço para procurar no lado onde Adele se escondia.

Ela fez a única coisa que lhe ocorreu. Ele não tinha luvas e tinha a mão a centímetros da sua cara, portanto, cravou-lhe os dentes na pele exposta do pulso.

Ele soltou um grito de dor e recuou com um salto, tropeçando com os seus próprios pés ao fazê-lo.

– O que raios…?

Adele estava preparada para arranhar, morder e pontapear, para fazer o que fosse necessário com o objectivo de sair dali a salvo.

Então, arrepiou-se. Aquela voz…

– Nick?

Ele levantou-se.

– Obrigado por uma recepção tão quente!

– O que estás a…? O que achas que…? – a adrenalina não demorou a transformar o medo em fúria. Fechou os olhos, respirou fundo e voltou a tentar: – O que raios estás a fazer a entrar às escondidas na minha casa a meio da noite?

– Na nossa casa.

– Deixa de te concentrares em detalhes estúpidos! Pregaste-me um susto de morte!

– Estava à procura… – inclinou-se e acendeu o candeeiro da mesinha.

Estendeu a mão e apanhou uma carteira de pele que havia no chão.

– E disto.

A poucos centímetros, havia um telemóvel. Adele olhou para ele. Não era o que costumava ter. Por alguma estranha razão, a descoberta deixou-a triste.

– Tirei-os do bolso. Descobri que era muito difícil conseguir um lugar onde ficar sem ter nenhum dos números de telefone dos meus amigos nem dinheiro para um hotel.

Estava tão aturdida que não sabia o que dizer. Há um minuto, desejara que estivesse em casa e, agora que o desejo lhe fora concedido, estava pronta para o expulsar outra vez. Todo o seu aborrecimento se evaporou numa nuvem de confusão.

– Como entraste? – perguntou-lhe, ainda a olhar para o telefone.

Nick pôs a mão no bolso traseiro e tirou um porta-chaves que fez oscilar num dedo. Depois, encolheu os ombros.

– Pensei que estarias deitada. Planeava entrar em silêncio, pegar nas minhas coisas e voltar a desaparecer. Nunca terias sabido que tinha estado aqui.

– Tens chaves? – não soube porquê, mas, de repente, custava-lhe entender os conceitos mais básicos.

– Sim.

Franziu o sobrolho.

– Então, se ainda tens as chaves, porque não as usaste quando apareceste?

– Não sei. Suponho que tentava ser cortês.

Nick? Cortês? Não encaixou na sua mente.

Fez a única coisa que conseguiu: deixou-se cair na poltrona e desatou a rir-se. Pouco depois, percebeu que não era capaz de parar e as lágrimas deslizavam pelas suas faces.

Só Nick era capaz de lhe provocar aquele ataque de riso. O homem era impossível, intolerável, e ainda mais impossível.

Por uma vez, Nick não tinha um sorriso preparado. Não deixou de olhar para ela e de pestanejar. Parecia tão perdido que, quando fazia aquela expressão, era impossível de resistir.

Abanou a cabeça.

– Nunca encontrarás onde ficar a estas horas. É melhor ires buscar as tuas coisas e pô-las no quarto livre. Depois falaremos.

Quando entrou na cozinha às seis e meia da manhã, encontrou Nick à espera sentado à mesa. Inclinou a cabeça.

– Levantaste-te cedo – três horas demasiado cedo para o que era habitual nele.

– Disseste que íamos falar.

Levantou o punho engomado da blusa e olhou para as horas.

– Hoje não tenciono faltar ao trabalho, Nick. Tenho uma vida e não a vou interromper por ti.

– Como se eu não o soubesse.

– O que queres dizer com isso?

Ele esfregou os olhos.

– Ignora-me. Estou cansado e resmungão. Nós, os restantes mortais, não nos levantamos da cama antes do amanhecer sem um cabelo fora do lugar como tu.

Talvez ele não estivesse vestido, porém, parecia-lhe muito mais atraente do que um mero mortal com o pijama mal abotoado.

Um momento. Desde quando Nick usava pijama?

Certamente, o pijama era melhor para a sua pressão arterial do que a alternativa.

Voltara a fazê-lo. De algum modo, só precisava de estar na mesma divisão que ela para lhe transtornar todos os pensamentos. Ao descer as escadas, sentira-se segura, eficiente, preparada para enfrentar o mundo. E, naquele momento, sentia-se… demasiado vestida.

– Acabei de me levantar e estou pronta para ir trabalhar, é só isso. Alguns de nós não podemos passar o tempo no alpendre até às três da manhã e chamar-lhe trabalho, sabes?

Nick bocejou e tapou a boca com a mão.

– Estou demasiado cansado para ter outra vez esta discussão. Podemos dar por concluído que eu me comporto como um pirralho e que tu és a adulta? Assim poderemos saltar todos os gritos.

Quis dizer-lhe que não, mas isso transformá-la-ia na criança de três anos, portanto, mordeu a língua e aproximou-se da cafeteira. Para sua surpresa, o café estava preparado e quente.

Nick levantou-se e entregou-lhe uma chávena.

– O escritório só abre às nove da manhã. Temos tempo para falar.

Ela assentiu. No entanto, assim que se sentaram um à frente do outro, reinou o silêncio.

No final, Adele já não conseguiu suportá-lo.

– Porque não me disseste que a tua mãe estava doente?

– Como descobriste?

– Debbie deixou-te uma mensagem no atendedor de chamadas. Suponho que a tua mãe não é a única que desconhece que vivemos separados há quase um ano.

– Sabes como elas são unidas. Se alguma delas soubesse, contaria à minha mãe e eu não queria acrescentar outra preocupação à sua vida.

– Devias ter-me contado.

Nick olhou para ela com a cabeça inclinada.

– Parece-me recordar uma linha ocupada nas conversas telefónicas mantidas contigo.

– Não estou a falar dessa altura. Agora. Porque não me disseste nada ontem?

– Seria demasiado parecido com chantagem emocional.

Ela bebeu um gole de café.

– Na verdade, eu considerá-lo-ia ser sincero.

– Estás a dizer-me que sabê-lo não te teria obrigado a realizar a viagem, mesmo que fosse a última coisa que desejasses fazer?

Ela desceu o olhar. Nick tinha razão. Se tivesse conhecido a verdade, teria ido à festa, sem se importar com os seus desejos pessoais. Porém, por outro lado, conhecer a verdade devolvia-lhe o controlo.

– Bom, agora já sei, não é verdade?

O sorriso de Nick não chegou aos seus olhos.

– O que vais fazer?

Ela suspirou e endireitou-se na cadeira.

– Proponho que tratemos a situação de forma adulta. Irei à Escócia contigo. Adoro a tua mãe e não quero perturbá-la, mas…

Nick levantou-se com um salto e abraçou-a.

– Obrigado – sussurrou-lhe ao ouvido. – A sério. Isto vai significar muito para a minha mãe. Não sabes como me sinto agradecido.

Ela apoiou as mãos sobre os seus ombros para o impedir de continuar a apertá-la, porém, o seu cheiro e a sensação quente que emanava dos seus braços, que a rodeavam, começaram a alterar-lhe os sentidos. Há tanto tempo que não abraçava ninguém…

De facto, não o fazia desde que Nick se fora embora. Mona não era muito propensa a essas manifestações, como tal, só podia fazê-lo com a pequena Bethany e o seu irmão mais velho, Josh. Porém, até esses abraços eram agridoces, recordando-lhe o que poderia ter sido e o que jamais seria.

Devagar, foi consciente de que as mãos que tinham estado a apertá-la, nesse momento estavam apoiadas nas suas costas. Os dedos começaram a mexer-se, acariciando-a com suavidade, até lhe provocarem um calafrio e um formigueiro que acabou por se situar atrás das suas orelhas.

Depois, ouviu-o conter o fôlego, como se tivesse inspirado a sua fragrância e isso não lhe fosse suficiente. Foi a sua perdição. Sentiu lágrimas nos olhos.

Desejava os dias de feliz ignorância, quando acreditara que a relação duraria para sempre. Sentia falta do conhecimento de que, pelo menos aos olhos de alguém, era especial. Foi uma pena que a realidade tivesse de invadir a fantasia.

Ele chegou-se para trás para olhar para ela e ela viu um desejo semelhante nos seus olhos.

– Adele – sussurrou, enquanto baixava a cabeça.

A sua intenção era afastar-se do beijo, contudo, não conseguiu. Estava aprisionada num campo magnético que a mantinha agarrada a ele. Talvez fosse um truque da memória, ou talvez porque, sem saber, estivera à espera daquele momento durante os últimos nove meses. No entanto, aquele beijo foi ainda melhor do que os que se esforçara em excesso para não recordar, mais electricamente carregado, mais terno, mais doce, mais… tudo.

Recuperou a prudência quando sentiu que subia os dedos para a parte superior do casaco do pijama. O que estava a fazer? Enlouquecera?

Não podia esquecer que, quando enfrentara a pior crise da sua vida, ele a abandonara. Não pudera depender dele. Sem importar o quanto se amassem ou como a sua química fora perfeita, não significava que pudessem sobreviver a um futuro juntos sem se despedaçarem mutuamente.

Deixou o botão no seu sítio e afastou-se dele.

Nick estendeu os braços, mas ela abanou a cabeça.

– Isto não muda nada.

De facto, sim, mudara. Mostrava-lhe ainda melhor o caminho que tinha de tomar. Se queria manter o seu coração a salvo daquele homem, ia ver-se obrigada a tomar medidas drásticas.

– Como disse, proponho que nos ocupemos disto de um modo adulto, esquecendo como foi uma tolice manteres a tua mãe na ignorância.

O sorriso de Nick hesitou.

– Tentava poupar-lhe uma tensão adicional num momento em que já estava saturada. Sabes? O cancro de mama é bastante sério. Eu não diria que o que fiz foi algo infantil.

Por dentro, sentiu-se perturbada, mas por fora certificou-se de não mexer nem uma pestana.

– Eu sei que o cancro é algo sério. Não sou estúpida. Estou apenas a dizer que encaraste a situação da forma errónea. Lidaste com o assunto como fazes sempre, levando as coisas de momento em momento, em vez de considerar as consequências a longo prazo. Tens de lhe contar a verdade sobre nós.

– Qual é a verdade, Adele? Num minuto, afastas-me e no seguinte… Por exemplo, o que aconteceu agora mesmo?

Ela recuou até que bateu na bancada.

– Simplesmente mostraste um excesso de entusiasmo, como é habitual.

– Fazes com que pareça um cão labrador.

Adele engoliu em seco. A sua intenção não fora insultá-lo, apenas mantê-lo afastado da melhor maneira que sabia… com palavras.

E a verdade era que, no seu lado positivo, Nick era muito parecido com um labrador: leal, carinhoso e com uma energia inesgotável, mas isso não o tornava menos destrutivo e havia mais em jogo do que uns sapatos mordidos ou um jornal destruído.

– Tu também te mostraste bastante entusiasta – acrescentou ele.

Tinha razão. Dedicara quase um ano a levantar cuidadosamente as suas defesas contra ele e, em apenas vinte e quatro horas, Nick transformava-as em gelatina.

– Queres uma resposta em relação à direcção que esta relação vai seguir?

Ele levantou as mãos.

– Esperava que pudéssemos decidi-lo a caminho de Invergarrig.

– Não é preciso esperar até este fim-de-semana. Posso dizer-to agora – Nick olhou para ela com frieza. – Irei à festa contigo, mas com algumas condições.

– Condições – repetiu.

– Sim. Está na hora de deixares de confundir as vidas dos outros. Está na hora de assumires a responsabilidade dos teus actos.

A boca dele transformou-se numa linha. Ela continuou:

– Far-te-ei este favor se aceitares que nos divorciemos. Quando regressarmos da Escócia, irei falar com um advogado.

Não teria podido parecer mais aturdido nem que ela o tivesse esbofeteado. De facto, Adele sentiu um grande vazio no coração ao ouvir as suas próprias palavras.

Já estava. Expressara-o em voz alta e já não podia desfazê-lo.

– Está na hora de seguir em frente. Tenho uma vida própria e não posso passar o resto dela a ordenar as coisas à tua passagem.

Nick olhou para ela nos olhos e ela sentiu que se encolhia por dentro. Pareceu-lhe que, de repente, a sua energia se esgotara.

– Perfeito. Pelo menos agora sei o terreno em que piso.

Deixou o envelope apoiado contra a cafeteira, pois sabia que aquela seria a primeira paragem de Adele depois de um dia atarefado no escritório.

A sua mala esperava-o no hall. Levantou-a e, ao sair, fechou a porta com suavidade.

As chaves estavam quentes quando as tirou do bolso de trás. Em comparação, a metálica caixa do correio parecia gélida devido à geada da noite. Levantou a tampa e pôs o porta-chaves no interior. Ao ouvi-lo cair, virou-se e afastou-se.

O ar parecia curiosamente imóvel quando Adele abriu a porta de entrada e pousou a mala no lugar habitual. Enquanto tirava o casaco e o pendurava no armário, tentou descobrir o que faltava.

Nick devia estar no seu atelier a tentar aperfeiçoar o seu famoso sangue falso. Prepararia um bom jantar e falariam da situação com calma e racionalidade. A única coisa que se passava era que não funcionavam bem como casal, mais nada. Não havia motivo para que a separação não pudesse ser amigável. Ainda podiam ser amigos.

O envelope foi a primeira coisa que viu ao entrar na cozinha. Franziu o sobrolho. Era a caligrafia de Nick com um marcador verde.

Abriu-o e tirou umas folhas arrancadas de um bloco de notas de argolas.

Adele, vou ficar em casa de Craig algumas noites… Pensei que era melhor para ambos dispormos de um pouco de espaço. A minha mãe gostaria que estivéssemos em Invergarrig na sexta-feira para um jantar familiar. Diz-me se te parece bem, caso contrário, iremos no sábado. Telefonar-te-ei dentro de alguns dias, quando ambos estivermos mais calmos.

Nick

Acalmar-se? Estava perfeitamente calma!

Dobrou as folhas e voltou a guardá-las no envelope. Depois, não soube o que fazer com ele, portanto deixou-o outra vez contra a cafeteira e saiu da cozinha.

Subiu e, ao entrar na casa de banho, abriu as torneiras com um gesto distraído.

E quem diabos era Craig?

Despiu-se e deixou a roupa num monte pouco comum no chão e tentou conseguir fazer com que a água quente levasse a sua desilusão. Era a saída do cobarde… Um bilhete daqueles. Devia tê-lo imaginado.

Aproximou-se e virou a torneira da água quente até que saiu quase a ferver.

Pelo menos, ela tivera uma causa apropriada para não o ver no mês de Maio. Deixar um bilhete poderia ter sido uma atitude cobarde, mas fora a única coisa que conseguira fazer na altura.

Porque o surpreendia tanto que lhe pedisse o divórcio? Há meses que não viviam juntos, que nem sequer falavam. O que achava Nick que ia acontecer?

Como a banheira ameaçava transbordar, fechou as torneiras. Depois, encostou-se outra vez e tentou relaxar os tensos músculos dos ombros.

Esfregou a cara e tentou não reparar no modo como cada som ecoava na casa de banho. Até pela casa. Precisara de meses para se habituar a viver sozinha.

Sempre imaginara que a casa vitoriana com terraço seria um lar para Nick e para ela, um sítio onde poderiam ser felizes e que, a pouco e pouco, iriam enchendo de crianças. Quando ele desaparecera, levando consigo essa possibilidade, não suportara continuar ali. Demasiados sonhos tinham rebentado como balões.

A única coisa que desejara fora um lar que fosse quente e acolhedor, um lugar onde pudesse entrar e sentir o amor.

A casa onde crescera fora um palácio nos subúrbios, apropriado para o rei dos negócios que a habitava. Era uma pena que não a tivessem desenhado a pensar em crianças. A sua mãe tinha quarenta e um anos quando dera à luz e Adele suspeitava de que nunca o superara.

Certamente, nunca deixara que a existência de uma filha travasse o seu ritmo de vida. Contratara uma ama e continuara com as viagens pelo mundo com o seu marido. Para ela, sempre fora um pouco distante e deslumbrante… um pouco como uma rainha.

Apoiou a cabeça na banheira e olhou para o tecto. Tivera tantos planos para aquela casa, para a sua vida, e, com um movimento veloz, Nick voltara tudo ao contrário.

Quando ele partira, ela tentara dar-lhe outra identidade. Uns quadros novos, plantas diferentes na sala…

Regressara há apenas alguns dias e ela teria de começar novamente. E não se tratava de coisas físicas que não parava de encontrar pela casa. Não, dessa vez, estava tudo na sua cabeça e não tinha a certeza de dispor da força necessária para a limpar, não quando ia ter de passar o fim-de-semana com ele. Seria melhor esperar até segunda-feira.

No entanto, não ia contá-lo a Mona, pois a sua amiga tiraria a conclusão errada da situação e pensaria que não falava a sério sobre o divórcio.

Nick manteve a sua palavra… Não telefonou nos dias seguintes. Contudo, isso não impediu que Adele se assustasse cada vez que ouvia o telefone a tocar. No final, decidiu deixar que as chamadas fossem directamente para o atendedor de chamadas para não proferir mais saudações ofegantes. Começava a ser embaraçoso.

Porém, na quarta-feira à noite, às oito e quarenta e três, ouviu a sua voz e ficou paralisada.

«Adele? Sou eu. Eu… hum… precisamos de decidir a que horas queremos ir na sexta-feira de manhã».

Houve uma longa pausa.

«Telefonar-te-ei novamente mais tarde para ver se te encontro».

Passaram cinco segundos, soube porque os contou, e depois ele desligou.

Com cuidado, deixou o computador portátil no sofá e aproximou-se do telefone. Não reconheceu o número que aparecia no visor. Supôs que seria o do tal Craig.

Carregou na tecla de chamada e esperou.

– Sim?

A voz era jovem, loira e estava a meio de um risinho. Adele ficou rígida.

– Posso falar com Nick, por favor?

– Claro. Está no outro quarto.

Ouviram-se uns ruídos abafados e a rapariga tapou o auscultador com a mão. Não se esforçou muito, porque Adele continuou a ouvir tudo o que dizia.

– Nicky! – gritou. – É para ti… Acho que é a tua mãe.

Ouviu-o a rir-se ao aproximar-se do telefone e ela susteve a respiração quando pegou no auscultador.

– Vesti roupa interior limpa para o caso de ser atropelado por um autocarro, mamã, prometo.

– Ainda bem para ti.

– Adele!

– Craig parece mais loiro e com uma voz mais fininha do que eu imaginava.

– Eh? Oh, não. Essa é Kai. É a namorada dele… esta semana. Como sabias que era loira?

Adele revirou os olhos.

– Adivinhei.

– Suponho que ouviste a minha mensagem.

– Sim.

– Bom, vamos na sexta-feira ou no sábado?

Mordeu o lábio inferior. Um dia adicional com Nick ia ser difícil, porém, podia ser a última vez que veria a sua família. Um jantar familiar parecia-lhe maravilhoso.

– Posso ir na sexta-feira.

Ouviu-o soltar o fôlego.

– Óptimo. Mas vamos ter de sair cedo.

– A que horas?

– Não sei. Ainda não fiz os cálculos.

Típico. Obviamente, não pensara nada acerca do assunto.

– Bom, a que horas é o jantar?

– Um segundo… A mamã telefonou-me para me dar todos os detalhes. Só tenho de os encontrar.

Ouviu-o pousar o telefone numa superfície dura.

– Bom – anunciou ele, pouco depois. – Começa às oito horas.

– O nosso objectivo devia ser chegar lá às seis no máximo. Dar-nos-á tempo para esticar um pouco as pernas. Quanto tempo demora a viagem?

– Debbie diz que ela demora nove horas, mas está uma hora mais perto do que nós, portanto sugiro que partamos às oito.

– É melhor às sete. Temos de ir pela M25 – ouviu Nick gemer. – Então, a que horas vens buscar-me?

Silêncio durante alguns segundos.

– Tu é que tens o carro, Adele. Eu não trouxe nenhum na minha bagagem de mão.

Adele fechou os olhos e deixou-se cair no sofá.

– Então não só vou ter de estar num carro contigo durante onze horas, como também tenho de conduzir?

– Podemos alternar. Deixar-te-ei fazer o primeiro turno.

– Céus, obrigada – abriu os olhos e cravou a vista no tecto. – É melhor dares-me a morada de Craig. Quero que estejas à minha espera à porta às sete em ponto ou partirei sem ti.

Perguntou-se se não soara demasiado como a mãe dele.

– Como quiseres.

Soube que ele devia estar a sorrir satisfeito e ela não conseguiu conter um sorriso.

Aquele homem era impossível. Impossível.

Se não fosse tão cedo, Adele teria tocado a buzina com vontade. Já era suficientemente mau ser a motorista sem ter de estar à espera no carro com temperaturas abaixo dos zero graus, já que o aquecimento era irregular e só produziria algo parecido com calor assim que pisasse o acelerador a fundo.

O relógio do tablier indicava que eram sete e sete minutos. Dar-lhe-ia até às sete e dez, depois abortaria a missão.

Abanou a cabeça. Abortar a missão? Que tipo de linguagem era aquela? Começava a soar cada vez mais como Mona. Qualquer pessoa pensaria que se tratava de uma missão militar.

Ligou o rádio com uma mão enluvada.

Talvez se tratasse a situação como uma campanha militar, pudesse sair, se não triunfadora, pelo menos com o coração e a dignidade intactos. Se deixasse que Nick atravessasse as suas defesas, teriam de pegar nos seus pedacinhos para a reconstruírem. Nunca mais seria a mesma.

O único problema era que não sabia nada sobre guerra.

Só recordava alguns filmes da Segunda Guerra Mundial e coisas que o seu avô costumava dizer.

«Conhece o teu inimigo».

Isso era fácil. Conhecia Nick de cor. Embora isso não ajudasse muito, pois quanto mais pensava nele, mais se derretia.

«Mantém sempre o elemento surpresa».

Sorriu e acariciou o volante. Nick ia subir pelas paredes quando visse o seu carro.

Estava na hora de Nick provar o seu próprio veneno. Esfregou as mãos. Gostou de se sentir má.

Eram sete e nove… e quarenta segundos… quarenta e cinco. Virou a chave na ignição.

Então, Nick saiu de casa com uma mala de viagem e uma mochila pequena. Ainda não a vira. Um sujeito robusto entregou-lhe o que parecia um saco desportivo. Nick deu-lhe uma palmada nas costas e sorriu.

Nesse momento, o sorriso evaporou-se da cara de Adele. Algo loiro e magro correu até ao caminho da casa, rodeou o pescoço de Nick com os braços e deu-lhe um beijo na face. Adele resmungou e subitamente parou, surpreendida consigo mesma.

Alguns segundos mais tarde, o que não demoraria a ser o seu ex-marido, descia pelo atalho do jardim e olhava para um lado e para o outro da rua. Adele desceu o vidro e cumprimentou-o. Ele devolveu-lhe o gesto… e fez uma careta.

Recomeçou a andar com uma expressão pouco feliz.

– Adele! O que fizeste com o carro?

– Chiu! São sete da manhã.

– Eu sei que horas são. Quero saber o que fizeste com o meu carro!

– O nosso carro… Vendi-o.

– Tu… tu…

Olhou para o céu, depois apertou os lábios com força e abanou a cabeça. Abriu o porta-bagagem e pôs as suas coisas lá dentro. Uma das malas produziu um ruído metálico, o que era um pouco estranho, porém, Adele não parou para pensar nisso. Tinha coisas mais urgentes que requeriam a sua atenção.

Nick sentou-se ao seu lado, fechou a porta com força e olhou para ela.

– E então?

– Já não precisávamos daquela coisa tão grande. Não é prática para a cidade.

Pareceu-lhe que Nick ia ter uma apoplexia. Adele engoliu em seco e pensou que talvez se tivesse excedido um pouco.

Vender o todo-o-terreno fora a única vingança que tivera ao alcance da mão. Quisera rasgar as suas camisas em farrapos, mas não conseguira convencer-se a pôr o plano em prática. Ainda cheiravam a ele.

– Precisava de algo mais pequeno, prático… um utilitário.

Ele carregou num botão do tablier. Não aconteceu nada.

– Eu diria que é sucata – murmurou. – Se foi isto que conseguiste pelo dinheiro que devias ter lucrado com o meu Jipe, então foste enganada.

Ela olhou para ele de esguelha.

– Não sou estúpida. Não gastei o dinheiro todo no carro. Sou perfeitamente capaz de comprar um carro sem os teus conselhos.

Ele suspirou.

– Adele, o teu segundo nome é «capaz». Porque haveria de pensar que alguma vez poderias precisar de mim para alguma coisa?

– Não sejas ridículo – Nick virou-se para pôr o cinto de segurança e ela imitou-o. – Suponho que gostarias que eu fosse parecida com a loirinha, que me atirasse para os teus braços e te adorasse. Anda sempre pela rua com um top e uns calçõezinhos? Deve ser muito resistente ao frio.

Os lábios de Nick permaneceram fechados enquanto sorria.

– É sueca. Está habituada ao frio.

Adele pôs a mudança e olhou pelo retrovisor, carrancuda.

– Claro que às vezes se esquece de vestir o casaco – acrescentou.

Adele puxou o travão de mão.

Nick riu-se.

– Estou a brincar, Adele. Anima-te. Temos uma longa viagem pela frente. Pensei que podíamos parar nas Terras Altas escocesas para comer. Até então, mantenhamos uma conversa agradável.

– Tu falas. Eu conduzo.

– Está bem. E do que conversamos? Já sei. Voltando à tua anterior conversa, pelo menos havia uma coisa para a qual precisavas de mim. E, se bem me lembro, às vezes até suplicavas.

Adele encurvou-se sobre o volante e ficou em silêncio. Àquele ritmo, Nick teria sorte se chegasse com vida ao almoço.

Capítulo 4

Nick procurava algo na mochila que tinha aos seus pés. Ela olhou para ele de esguelha e suspirou. Tinha um dos seus aparelhos na mão, provavelmente o iPod, o que lhe daria alguns momentos de paz.

No entanto, para sua grande irritação, começou a teclar num aparelho grande.

– O que raios estás a tramar?

Nick simplesmente sorriu.

– Espera e verás. Vais adorar.

Continuou a conduzir com o olhar cravado na estrada. Quando teve a oportunidade de voltar a olhar, Nick estava curvado sobre o artefacto, a carregar em botões numa rápida sucessão. Como resposta, obteve um assobio. Então, estendeu a mão e pô-lo num suporte que pusera no pára-brisas.

– Navegação por satélite – anunciou orgulhoso.

Ela revirou os olhos e concentrou-se em manter-se a uma distância prudente do carro que estava à sua frente.

– Devia imaginar que acabarias por adquirir um arsenal de artefactos que pensassem por ti, especialmente agora que não estou ao teu lado.

– Estás sentada à minha esquerda. Estás ao meu lado.

– Sabes a que me refiro. És um homem típico. Deus nos livre que tenhas de consultar um verdadeiro mapa de estradas.

– Adele, nunca deixarias que me aproximasse mais de três metros do mapa. Reconhece, querida, tu não gostas de entregar o controlo.

– Isso não é verdade. Simplesmente, gosto de ter alguma coisa para fazer em viagens longas – olhou para o aparelho com os olhos brilhantes. – O que acontece se essa coisa fizer com que nos percamos?

Nick chegou-se para trás e esticou as pernas.

– Impossível. Isto é óptimo. A informação está sempre ao alcance da tua mão. Localiza exactamente onde te encontras, dia e noite.

Deixou de olhar para ele, carrancuda, e estudou o visor. Perguntou-se se não devia experimentar.

– Nunca se engana?

Nick encolheu os ombros.

– É uma máquina. Tem os seus momentos, porém, geralmente, é tão precisa como tu serias. Praticamente perfeita.

Adele suspirou. Perfeita. Começava a odiar aquela palavra.

Conhecia todas as pressões inerentes a ter de estar certa cem por cento do tempo, a que toda a gente esperasse que fosse perfeita. Não, não era que o esperassem… mas, sim, que contassem com que o fosse. Causava muita tensão ter de estar sempre a fazer malabarismos, sem nunca apreciar o luxo de não importar se uma bola caísse.

Uma voz metálica atravessou o silêncio:

– Dentro de quinhentos metros, saia na próxima saída.

Adele olhou para o visor com os olhos semicerrados, porém, o sol batia-lhe directamente e não conseguiu vê-lo correctamente.

– Isso significa que tens de mudar de faixa, Adele. Se não, não poderemos seguir pela saída.

Era mais fácil dizer do que fazer. Metade do trânsito da estrada estava a tentar dirigir-se para a mesma saída e não havia espaço para mudar de faixa.

– Saia na próxima saída. Saia na próxima saída.

Quando acabou de olhar outra vez para o retrovisor e tentou diminuir a velocidade, foi demasiado tarde. Passou ao lado da saída.

Nick levantou os braços.

– Óptimo!

Olhou para ele furiosa.

– Teria sido mais fácil se me tivesses deixado depender dos meus próprios olhos e ouvidos para ler os sinais! Não estou habituada a usar esta estúpida…

O navegador por satélite interrompeu-a com um persistente som de assobio. No seu ecrã apareceu um enorme sinal de interrogação.

– Faça inversão de marcha assim que for possível – ordenou com uma serenidade revoltante.

– Cala-te, aparelho mandão! – exclamou. – Estamos numa auto-estrada. Era suposto saberes que não posso virar!

Nick deitou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada.

Não estranhou que ele achasse a situação engraçada.

A estação de serviço foi uma visão bem-vinda. Adele saiu do carro e dirigiu-se para a casa de banho das mulheres. Então, apoiou as mãos no espelho e inclinou-se.

Respirou fundo e observou-se. Ainda tinha o cabelo preso num rabo-de-cavalo e estava tão arranjada como sempre, contudo, ao estudar o seu reflexo, percebeu que começava a desfazer-se. Alguma coisa nos seus olhos, uma ligeira careta descendente nos lábios.

Olhou para o espelho até que achou que ficaria vesga, depois ergueu-se, endireitou os ombros e levantou o queixo.

Era uma rotina familiar, que aprendera na universidade, quando precisava de apresentar uma fachada corajosa ao mundo. Não pudera contar com o encanto e a perspicácia de algumas das suas colegas, porém, o que lhe faltara em confiança compensara-o com observação e trabalho árduo.

Dedicara horas a estudar as raparigas populares, como falavam e como se mexiam. Até as suas gargalhadas e os gestos. Depois, levantara-se cedo para praticar à frente do espelho da casa de banho enquanto todos os outros roncavam. Não demorou a ter amigas e os professores pareceram reparar mais nela e, no final dos anos passados na Universidade Lumley, fora uma das suas alunas mais populares.

Ninguém precisava de saber que a rapariga socialmente inepta ainda estava sob a superfície. Assim, escondia-a através da linguagem corporal adequada e de um certo brilho nos olhos. Era como vestir uma capa, uma pele exterior debaixo da qual ninguém se incomodava em olhar.

Com o passar dos anos, o seu alter-ego tornara-se no centro das atenções. Agora, a verdadeira Adele só aparecia quando se encontrava no santuário da sua casa. Talvez algum dia essa menina tímida se visse abafada por essa personagem alternativa e a sua eficiência e a sua segurança se tornassem reais.

Sorriu. Com o tempo, baptizara esse lado da sua personalidade com o nome de «Super Adele».

Com cuidado, aplicou outra camada de rímel e pintou os lábios. Já estava. Pronta para enfrentar o mundo… pelo menos por fora.

Pendurou a mala no ombro e saiu.

A Super Adele parecera uma ideia tão boa ao princípio… toda a gente a adorava. E, durante algum tempo, gostara dessa atenção. Contudo, no presente, essa adoração perdera parte do seu encanto.

«Adoram-na a ela, não a mim».

Até Nick se apaixonara pela Super Adele.

Quando se tinham casado, adorara que a considerasse capaz de fazer qualquer coisa, de ser qualquer coisa, porém, passados alguns anos tornara-se um pouco cansativo. Tentara descer do pedestal, mas Nick não o permitia. Agarrava-se com força à Super Adele e não a soltava.

O impulso de encurvar os ombros foi quase entristecedor, porém, endireitou ainda mais as costas. Tinha o restaurante à sua frente e pôde ver Nick sentado a uma mesa, à sua espera.

Como desejou poder sentar-se àquela mesa de plástico, baixar a cabeça e chorar…

Por vezes, odiava o seu alter-ego.

Nick deixou que Adele se afastasse e dirigiu-se para o café. Ao entrar, sentiu-se invadido por uma abundância de plástico brilhante e o cheiro a comida gordurosa. Evitou as salsichas e o resto da comida e pediu duas chávenas de café de aspecto lôbrego.

Sentou-se perto da janela suja que abrangia um lado do local e esperou que Adele chegasse.

O local estava praticamente deserto. Um casal de idosos concentrava-se num pequeno-almoço frito de aspecto pegajoso com uma lentidão agónica, um homem de negócios refugiava-se atrás de um jornal e uma adolescente com um avental sujo fingia que limpava as mesas.

Adele não demorou a aparecer e sentar-se à sua frente, rígida e engomada. Odiava quando fazia aquilo. Não precisava de recorrer à fachada à sua frente.

– Vá lá, Adele. Não é o fim do mundo. Não demoraremos muito tempo a encontrar a próxima saída e regressar à estrada certa.

Ela assentiu e bebeu café. Como sempre, a sua fúria esgotara-se e sentia-se vazia.

– Já alguma vez pensaste que as tuas expectativas são demasiado elevadas? Estabeleces objectivos difíceis e castigas-te quando não os alcanças. Não tens de provar nada, sabes? Foi uma volta errada. Toda a gente escolhe um caminho errado alguma vez na sua vida.

– Não estou a tentar provar nada nem impressionar ninguém. Gosto que as coisas sejam bem-feitas e apenas exijo de mim o que espero dos outros. Seria hipócrita não o fazer.

Ele assentiu. Para viver de acordo com os padrões de Adele, era necessário ser um perito no salto à vara.

– Acho que, quanto mais próximas as pessoas estão de ti, mais altas pões as marcas de aprovação.

– Não sejas tonto. Ninguém precisa de passar um exame para ser meu amigo.

Não? Então, porque sentia que cada palavra, cada movimento que fazia, era ponderado e avaliado?

– Acho que queres que toda a gente faça as coisas à tua maneira – ela abanou a cabeça enquanto engolia o café. – Só porque não planeio as coisas com um ano de antecedência, não significa que seja um irresponsável – continuou ele. – Sou diferente de ti, Adele, mas isso não significa que não consiga fazer as coisas ou que não me importe. Nunca falhei uma data de entrega nem deixei de cumprir um contrato. Simplesmente, temos métodos diferentes para alcançar os nossos objectivos.

– Eu sei.

Ele teve vontade de se rir. Era inútil. Se não conseguia esclarecer-lhe as coisas, pelo menos podia tentar aliviar o seu estado de espírito.

– Queres um bolo de chocolate? Vi um no balcão.

Ela assentiu, quase a sorrir. Ele levantou-se e foi comprá-lo. Se Adele não ingerisse uma dose de açúcar, nunca se animaria.

Inclinou a cabeça e olhou para ela.

– Pareces cansada.

– Obrigada.

Esticou o braço e pegou na sua mão. Parecia extenuada, sem vontade de discutir, mas continuava a ser incrivelmente bonita. Nos seus traços delicados havia uma força que falava da sua tenacidade e dinamismo, uma luz inteligente nos olhos que o mantinha constantemente em alerta.

– Eu conduzirei o próximo trajecto. Tens seguro?

– Sou eu, claro que tenho seguro, Nick. Contra todos os riscos… inundações, incêndios, actos de Deus, combustão espontânea… Tudo bem, faz uma piada.

Ele apertou-lhe a mão. Sempre adorara os seus dedos longos e finos. De facto, sentira a falta deles.

– Vai andando para o carro. Eu tenho de comprar algumas coisas.

Viu-a afastar-se devagar. Caminhava sempre tão direita, tão orgulhosa.

Não sabia como ia derrubar aquelas barreiras. Contudo, uma coisa tinha clara, queria recuperar a sua esposa e ia fazer tudo o que estivesse ao seu alcance durante o fim-de-semana para lhe recordar o quanto ela também o desejava.

Ainda guardava alguns ases na manga.

Adele chegou à conclusão de que fingir estar a dormir podia ser cansativo. Levantou uma pálpebra e olhou de soslaio para Nick. Cantarolava algo para si mesmo e agia como se nada no mundo o preocupasse.

Voltou a fechar o olho.

Não era uma pessoa vingativa, porém, uma parte dela estava realmente incomodada por ele não estar mais incomodado. Decidir abandonar o casamento fora a decisão mais difícil da sua vida. Queria que Nick pelo menos parecesse um pouco perturbado.

Quando tinham proferido os seus votos na igreja, pensara que duraria para sempre. Deixara-se arrastar pela química intensa que existia entre eles e nem sequer parara para questionar se havia alguma coisa suficiente para manter aquela relação durante cinquenta anos. Acreditara que todos os ingredientes certos estavam presentes e não se incomodara em aprofundar mais.

Ele fizera com que acreditasse que eram duas metades de um todo. Doce e amargo. Luz e escuridão. Porém, no final, eram demasiado diferentes. Mais como o azeite e a água.

Uma voz que começava a odiar, quebrou o silêncio:

– Dentro de quinhentos metros, saia na próxima saída.

Abriu os olhos e endireitou-se. Já iam deixar a auto-estrada? Dormira a viagem quase toda?

Chovia, contudo, em vez das colinas e os pinhais que esperara ver, havia campos extensos de cogumelos. A paisagem era deprimentemente plana. Era tudo demasiado inglês.

– Porque saímos da auto-estrada, Nick? Onde estamos?

– Em alguma parte dos subúrbios de Stafford. Vamos parar para pôr gasolina – acrescentou em jeito de explicação.

Apesar da sensação de vazio do seu estômago, sentiu que as suas papilas gustativas se rebelavam diante da ideia de mais comida de plástico numa estação de serviço.

– Não tenho a certeza de que… Porque deixámos a estrada?

A voz metálica impediu-o de responder.

– Saia na próxima saída e vire à esquerda.

Estava demasiado cansada para perguntar novamente. Nick ia fazer o que queria, independentemente da sua opinião, portanto, o melhor seria poupar o seu fôlego.

Quinze minutos mais tarde, subiram por uma entrada de veículos e parou o carro. Tinham estacionado à entrada de uma cabana de fantasia: janelas com vidraças, telhado de duas águas e uma bonita cerca à volta de um jardim que parecia espectacular, inclusive naquela época do ano.

Nick fez soar a buzina e Adele fez uma careta. Segundos mais tarde, um homem de trinta e tantos anos saiu da cabana e sorriu a Nick enquanto ele saía do carro.

– Nick! Fico contente por teres conseguido vir. Trouxeste o motor de máquina de lavar roupa que me prometeste?

– Certamente. Está no carro, mas antes de to dar tens de cumprir a tua parte do acordo… um almoço suculento para dois viajantes esgotados.

O homem sorriu.

– Phoebe preparou uma das suas deliciosas sopas. Se não tiveres cuidado, far-te-á beber um recipiente térmico inteiro antes de te permitir continuar com a viagem. Mulheres, eh?

Adele abriu a porta e esticou as suas pernas, dormentes devido à viagem.

– E, por falar em mulheres, esta deve ser a tua esposa.

E, antes que ela pudesse cumprimentá-lo e oferecer-lhe a mão, ele deu-lhe um abraço. Adele olhou para Nick com uma expressão de súplica por cima do ombro do homem, mas só recebeu um sorriso.

– Adele, apresento-te Andy… Trabalhamos em alguns projectos juntos.

Andy finalmente soltou-a e dedicou-lhe um sorriso trémulo.

– Prazer em conhecer-te, Adele, ouvi falar muito sobre ti. Nick não pára de falar da sua bonita e triunfadora mulher. Acho que, secretamente, está à espera de poder abandonar a indústria do cinema para que tu o sustentes com o estilo de vida ao qual gostaria de se habituar.

– Oh!

«Eloquente, Adele. Impressionante. É uma bonita maneira de estar à altura da imagem que Nick deu de ti».

Contudo, Andy não pareceu reparar, pois estava demasiado ocupado a conversar com Nick enquanto os conduzia para a cabana. Rendida, ela suspirou e seguiu-os. Passou a mão pelo cabelo. Graças aos exageros de Nick, a Super Adele ia ter de ficar para o almoço. E, naquele momento, os superpoderes do seu alter-ego estavam manifestamente ausentes.

Entraram numa sala acolhedora com uma lareira. Pouco depois, ouviu passos no corredor e virou-se a tempo de ver entrar uma mulher. Imediatamente, Nick levantou-se e deu-lhe um abraço forte… parecido com o que Andy lhe dera a ela.

– Phoebe! É óptimo voltar a ver-te. Como está tudo?

Phoebe riu-se quando Nick a abraçou ainda com mais força, abanando-a de um lado para o outro até que ela começou a perder o equilíbrio. Uma sensação aguda no estômago surpreendeu Adele. Não desapareceu nem sequer quando a mulher deu um beliscão no braço de Nick para que a soltasse.

Afastou-se dele e virou-se para olhar para ela, ainda com um sorriso radiante.

– Tu deves ser a famosa Adele.

Adele levantou-se do sofá onde se sentara e sentiu os braços e as pernas subitamente rígidos. Estendeu uma mão. Phoebe arqueou levemente o sobrolho, mas apertou-a.

As palavras de saudação não conseguiram ordenar-se na sua cabeça. O que podia dizer? Aquelas pessoas pareciam saber tudo sobre ela, porém, até há cinco minutos, Adele desconhecia a sua existência. Porquê? Realmente ignorara Nick cada vez que ele lhe dera detalhes pormenorizados do trabalho que realizava? Estivera assim tão absorta?

– Olá! – cumprimentou, tentando sorrir.

Phoebe devolveu-lhe o sorriso. Um sorriso verdadeiro. Era evidente que decidira conceder o benefício da dúvida à sua convidada. Adele sentiu-se como se tivesse encolhido alguns centímetros.

– Vem comigo ao celeiro, Nick. Quero a tua opinião sobre uma coisa que estou a construir. É suposto eu fabricar uma máquina de ténis enlouquecida para um anúncio, mas ela recusa-se a ser tão diabólica como quero.

– Se queres algo diabólico, eu sou o teu homem – afirmou Nick, dirigindo-se para a porta.

Phoebe abanou a cabeça.

– A comida estará pronta dentro de vinte minutos. Não me obriguem a ir buscar-vos, está bem? – piscou um olho a Adele. – Os rapazes e os seus brinquedos, não é verdade? Suspeito de que os nossos são piores do que a maioria. Porque não vens para a cozinha para conversarmos enquanto eles desmontam a máquina?

– Claro.

Queria ser brilhante, engenhosa e encantadora, a Super Adele, porém, os seus superpoderes pareciam enterrados debaixo de um monte de sucata. Fora de serviço.

Phoebe parecia realmente simpática. Devia ir para a cozinha e conversar, sem se preocupar com a sensação de formigueiro no seu estômago.

De repente, estar naquela cabana com Nick pareceu-lhe uma ideia atractiva. E ver Phoebe e Andy era como se estivesse a ver o filme de como devia ter sido a sua própria vida.

Tinham tudo: o lar, o casamento feliz. Raízes.

Não conseguiu evitar sentir-se com ciúmes.

Acima de tudo, o que desejava era ter raízes.

Capítulo 5

Fosse o que fosse que Phoebe remexia na panela, cheirava deliciosamente.

– Espero que gostes da sopa. É de brócolos.

– Parece-me óptimo – Adele sentou-se à frente da bancada e cravou o olhar nas costas de Phoebe enquanto cozinhava. Depois, recordou a sua decisão de ter uma conversa amável, porém, foi como quando aprendera a conduzir. Nada surgia de forma natural. Tinha de planear cada palavra e depois testá-la mentalmente, o que consumia toda a sua concentração. – Há quanto tempo vivem aqui?

Phoebe provou a sopa e franziu o sobrolho.

– Dois anos – acrescentou mais sal enquanto falava. – Decidimos abrandar um pouco. Ambos tínhamos umas agendas tão ocupadas que mal nos víamos… mas tenho a certeza de que não tenho de te explicar como é.

Adele baixou a cabeça e olhou para as mãos, que juntara. Embora a tivesse incomodado que Nick não tivesse contado a verdade à sua família, não se sentia confortável com o facto de os seus amigos estarem ao corrente dos problemas matrimoniais que tinham.

– Tiro-vos o meu chapéu se encontraram um modo de a relação funcionar sem terem de abrandar o ritmo de trabalho – Phoebe riu-se. – Tenho a certeza de que Andy e eu teríamos acabado por nos divorciar se não nos tivéssemos mudado para cá.

Abriu e fechou a boca. Então os seus segredos estavam a salvo. Fora apenas uma conjectura.

Começou a brincar com um limão que havia numa tigela em cima da bancada. Ir viver para o campo não teria salvado o seu casamento. Teria apenas representado uma mudança geográfica. Nick continuaria a ser Nick e ela, Adele, e ter rosas junto à porta não faria com que fossem mais compatíveis.

Phoebe bateu com a colher de pau na panela.

– Pronto. Achas que podes vigiá-la enquanto chamo os rapazes e vou buscar Max?

Adele assentiu. Um cão chamado Max. Era o nome que Nick e ela tinham escolhido para o cachorrinho que iam comprar quando acabassem os seus respectivos projectos. Contudo, então surgira outro negócio, outro projecto e o momento nunca chegara.

Alguns minutos mais tarde, Nick e Andy entraram na cozinha, ainda embrenhados numa conversa sobre motores e mecânica.

Ouviu os passos de Phoebe no exterior da cozinha. Eram pessoas simpáticas. Se se concentrasse, conseguiria manter uma conversa superficial. Ia sorrir, porém, nesse momento, Phoebe empurrou a porta e cada molécula da corrente sanguínea de Adele gelou.

Max não era um cão. Era algo muito pior. Max era um bebé.

Uma coisinha rosada que se sentou na sua cadeirinha alta e fazia bolhinhas com a boca olhando para Adele, enquanto ela tentava controlar as suas palpitações.

Era oficial. Os bebés já figuravam no topo da sua lista de coisas a recear. De longe, muito pior do que as aranhas.

Não lhe acontecia nada quando sabia o que a esperava, como quando ia à casa de Mona, contudo, quando umas criaturas pequenas e com covinhas apareciam do nada, desmoronava-se. Uma sensação peculiar no seu estômago fez com que tivesse vontade de afastar a cadeira e fugir.

Não conseguia olhar para ele. Era demasiado bonito. A sua embriagadora fragrância de bebé estava a matá-la. Pegou numa colher de sopa quente e esforçou-se para a engolir.

A conversa à volta da mesa chegava-lhe como se estivesse a ouvi-la por debaixo de água. De repente, soube que, se as coisas não tivessem corrido tão desastrosamente mal, nesse instante ela também teria um bebé.

Respirou fundo e tentou desterrar as imagens sem abanar a cabeça. Imagens de Nick e ela: a rirem-se numa cozinha grande, a comerem sopa e alternando-se para caminhar com um minúsculo peso sobre o ombro enquanto o bebé arrotava.

Pestanejou e manteve os olhos fechados apenas uma fracção de segundo mais do que era necessário.

«Não vou chorar. Serei forte e não sentirei nada e depois conversarei e acabarei a sopa e sairei daqui como se nada se passasse».

Não era culpa de Andy e Phoebe. Não devia castigá-los desmoronando-se durante o almoço.

Nem sequer era culpa de Nick. O médico dissera que era uma daquelas coisas que acontecia, como se ela tivesse deixado o guarda-chuva no autocarro, e que não havia nenhuma razão para não voltar a tentar dentro de alguns meses. Contudo, isso fora complicado, já que o seu marido, com os ingredientes vitais, desaparecera da sua vida para nunca mais regressar.

Adele observou os seus anfitriões em câmara lenta. Andy passou a cesta do pão a Phoebe e ela dedicou-lhe um leve sorriso.

Nesse instante fugaz, passaram uma série de coisas entre eles e Adele sentiu um aperto no coração diante da lembrança dos momentos em que Nick olhara para ela daquela maneira. Naquele momento, olhava para ela furioso por cima da sopa…

Enganara-se. Não era uma história de terror, era um conto de fadas.

No entanto, ela estava na vida real, e essa era fria, dura e, em última instância, solitária…

Era impossível que Nick e ela se dirigissem para um final feliz.

Os olhos de Nick em nenhum momento se desviaram de Adele enquanto comia a sopa. Ao princípio, tudo parecera perfeito… A conversa fora fluida, até que se deu conta de que fluía à volta de Adele, como se fosse uma rocha no meio de uma corrente. Nada lhe causava impacto.

Devia ter sabido que reagiria daquela maneira. Não fazia parte do seu plano meticulosamente esboçado e Adele não gostava de se desviar do plano. Nem um centímetro.

No entanto, tivera a estúpida esperança de que levá-la ali pudesse ajudá-la a desprender-se das apreensões que tinha na cabeça. Porém, ela nem sequer tentava. Começou a sentir uma fúria lenta.

Phoebe fizera-lhe uma pergunta e ela nem sequer fingira estar interessada. Simplesmente, ficara com o olhar cravado no vazio, sem responder. Ele captara a expressão magoada no rosto de Phoebe e, com o olhar, pedira-lhe desculpas.

Como se atrevia Adele a fazer algo do género?

Talvez devesse tê-la advertido do pequeno desvio que realizariam. E talvez devesse ter advertido Andy e Phoebe de que as coisas estavam menos do que felizes na casa dos Hughes. Contudo, isso não dava à sua querida esposa uma desculpa para se comportar como uma menina malcriada. Um pouco de educação e civismo não era pedir demasiado.

– O que achas da sopa, Adele?

Virou-se lentamente para olhar para ele.

– Hum?

– A sopa. O que achas?

– Oh! – apressou-se a comer outra colher. – Óptima.

Os monossílabos eram melhor do que nada. Olhou para Phoebe e sorriu.

– O mais perto que alguma vez estivemos de uma sopa caseira foi quando comprámos aquelas saquetas no supermercado.

– Se estiverem interessados, tenho as receitas de umas sopas muito saborosas mas simples – indicou Phoebe, olhando esperançada para Adele.

Adele devolveu-lhe o sorriso. Mais ou menos… Mas era um progresso.

– Obrigada, mas na verdade não tenho muito tempo.

Voltou a dedicar-se a brincar com a sua sopa, embora muito pouca tenha chegado aos seus lábios. Nick perguntou-se quando ia aprender.

A cozinha parecia mais escura e opressiva do que quando tinham começado a comer e demorou alguns minutos a dar-se conta de que não tinha nada a ver com o estado de espírito de Adele e sim com o facto de parecer estar prestes a chover. Umas enormes nuvens cinzentas flutuavam de forma precária no céu obscurecendo-o, como se o sol acabasse de se pôr.

Andy levantou-se.

– Dás-me uma ajuda, amigo? Deixámos metade do motor fora do celeiro e as peças vão enferrujar-se se apanharem chuva.

Nick saiu com Andy e levaram as peças de metal para dentro do celeiro. A chuva começou a cair com gotas grandes que deslizavam pelo seu cabelo e pela sua cara enquanto pegava na última peça.

Ao iniciar a viagem, estivera certo de que poderia conquistar Adele, mas já não. O casamento não estava apenas estagnado, como também se fragmentara e não sabia se seriam capazes de voltar a unir as peças e ainda dispor de alguma coisa que funcionasse.

O ponto atractivo de levantar a mesa era que se tratava de uma tarefa em que se requeria pouca conversa. Com um pouco de sorte, nenhuma.

Olhou por cima do ombro e viu que Phoebe limpava a cara ao seu filho e desapertava o cinto que o segurava à cadeirinha alta. O menino sorriu quando ela o levantou nos braços e pôs imediatamente a mãozinha gordinha no seu cabelo e puxou-o. Phoebe não pareceu importar-se. Simplesmente, riu-se e deu-lhe um beijo no nariz.

O prato que Adele estava a limpar escorregou do pano molhado e nem sequer ricocheteou no chão.

– Lamento muito, Phoebe. Devia ter trocado de pano quando este ficou encharcado.

Phoebe abanou a cabeça.

– Não te preocupes. Eu estou sempre a deixar cair coisas. Agora no mercado só compro baixela barata e branca, assim nunca é difícil encontrar algo a condizer quando o inevitável acontece. Vou buscar a vassoura. Toma – estendeu os braços com Max para ela. – Se agarrares nele, voltarei dentro de alguns segundos.

Adele olhou para aquelas perninhas que se agitavam no ar e engoliu em seco. Contudo, antes que a sua mente tomasse uma decisão consciente, as suas mãos encontraram o caminho até às axilas de Max e agarrou nele contra o seu peito.

Phoebe desapareceu através de uma porta de madeira e Adele ficou sozinha na cozinha com um corpo pequeno e quente nos braços.

Max esticara o pescoço para seguir a trajectória da sua mãe enquanto ela atravessava a cozinha e, assim que a viu desaparecer, soltou um grito que era em parte de fúria e em parte de desespero.

Adele acariciou-lhe o cabelo e sussurrou-lhe palavras de consolo. Ele ficou rígido, arqueou as costas e voltou a gritar.

Muito cedo na sua vida, Adele aprendera que espernear e gritar nunca funcionava quando as pessoas que se amava desapareciam. Partiam de qualquer modo e não voltavam, independentemente do esforço que se fazia para se ser bom.

Tentou levantar e baixar Max, mas não funcionou. Felizmente, Phoebe regressou e o menino parou de gritar. Pareceu encantado por agarrar na sua camisola e balbuciar para si mesmo, desde que pudesse ver a sua mãe a varrer os fragmentos do prato partido.

De facto, até olhou para ela e sorriu radiante, já que se sentia novamente a salvo. O coração de Adele derreteu-se. Era adorável, com aquele cabelo preto curto e o sorriso desdentado. E cheirava tão bem… a pó de talco de bebé e a inocência. Teve de se conter para não levar a cabo um sequestro.

Decidiu que os sorrisos dos bebés eram tão eficazes contra a sua armadura como o ácido clorídrico.

Phoebe acabou nesse instante de varrer o prato que ela partira.

– Phoebe? Lamento muito o que aconteceu com o prato e… e também com o almoço. Não fui uma boa convidada. Tenho muitas coisas na cabeça neste momento. Não é nada pessoal.

Phoebe deixou a vassoura e a pá e virou-se, apoiando-se na bancada.

– Nick?

– Como soubeste?

– Depois dos olhares que trocaram durante o almoço, não era preciso ser um génio para perceber que as coisas não estão perfeitas no paraíso neste momento.

– É assim tão óbvio? – afundou os ombros. – É suposto em menos de oito horas estarmos a enganar a família dele para que acredite que estamos loucamente apaixonados. Vai ser um desastre.

Phoebe inclinou a cabeça e olhou para o tecto.

– E deixa-me adivinhar… a ideia de entusiasmar a família com uma frente unida foi…

Ambas assentiram e comentaram em uníssono:

– De Nick.

– És adivinha além de uma cozinheira fantástica? – comentou Adele.

Phoebe riu-se.

– Esqueces-te que Nick e Andy foram separados à nascença. Com o passar dos anos, tive de suportar algumas situações igualmente idiotas.

– Então, qual é o teu segredo? Como conseguiste permanecer com ele sem querer estrangulá-lo enquanto dorme?

Phoebe esboçou um sorriso irónico.

– Fui desenvolvendo algumas técnicas. Os livros para pais são uma mina útil de informação. Tratá-lo como se realmente fosse uma criança funciona. Ignoro o comportamento negativo e elogio as coisas boas.

Era possível ignorar as coisas más? Conseguiria aprender a viver com as «travessuras» de Nick?

– E aprendi a deixar-me levar, a relaxar um pouco. Já não me zango com as coisas pequenas, faço-lhe a vontade – encolheu os ombros. – Já fiquei sem tópicos.

Adele riu-se e Max mexeu-se nos seus braços e riu-se também, apesar de não fazer ideia do que era tão engraçado. Phoebe aproximou-se e pegou no menino ao colo.

– E, acima de tudo, tens de recordar que ganham a vida a criar ilusões. Não sei como é Nick, mas Andy certamente é culpado de se esquecer que, às vezes, a sua versão da realidade não é real.

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