Kitabı oku: «A Alma Nova»
Guilherme Avelino Chave de Azevedo
A Alma Nova

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066406103
Índice de conteúdo
A ANTHERO DE QUENTAL
A ANTHERO DE QUENTAL
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XII
XVIII
XIX
XX
XXI
XXII
XXIII
XXIV
XXV
XXVI
XXVII
XXVIII
XXIX
XXX
XXXI
XXXII
XXXIII
XXXIV
XXXV
XXXVI
XXXVII
XXXVIII
XXXIX
XL
XLI
XLII
XLIII
XLIV
XLV
XLVI
XLVII
APPENDICE
TENDENCIAS NOVAS DA POESIA CONTEMPORANEA
LISBOA
TYPOGRAPHIA SOUSA & FILHO
Rua do Norte, 145
1874
A ANTHERO DE QUENTAL
A ANTHERO DE QUENTAL
Índice de conteúdo
_Meu amigo.
Este livro parece-me um pouco do nosso tempo. Sorrindo ou combatendo, fala da Humanidade e da Justiça, inspirando-se no mundo que nos rodeia.
E porque julgo que elle segue na direcção nova dos espiritos, offereço-o a um obreiro honesto do pensamento: a uma alma lucida, moderna e generosa_.
Dezembro de 1873.
Guilherme d'Azevedo.
I
Índice de conteúdo
Eu poucas vezes canto os casos melancolicos,
Os lethargos gentis, os extasis bucolicos
E as desditas crueis do proprio coração;
Mas não celebro o vicio e odeio o desalinho
Da muza sem pudor que mostra no caminho
A liga á multidão.
A sagrada poesia, a peregrina eterna,
Ouvi dizer que soffre uma affecção moderna,
Uns fastios sem nome, uns tedios ideaes;
Que ensaia, presumida, o gesto romanesco
E, vaidosa de si, no collo eburneo e fresco,
Põe crémes triviaes!
Oh, pensam mal de ti, da tua castidade!
Deslumbra-os o fulgor dos astros da cidade,
Os falsos ouropeis das cortezãs gentis,
E julgam já tocar-te as roçagantes vestes
Ó deusa virginal das coleras celestes,
Das graças juvenis!
Retine a cançoneta alegre das bachantes,
Saudadas nos wagons, nos caes, nos restaurantes,
Visões d'olhar travesso e provocantes pés,
E julgam já escutar a voz do paraiso,
Amando o que ha de falso e torpe no sorriso
Das musas dos cafés!
Oh, tu não és, de certo, a virgem quebradiça
Estiolada e gentil, que vem depois da missa
Mostrar pela cidade o seu fino desdem,
Nem a fada que sente um vaporoso tedio
Emquanto vae sonhando um noivo rico e nédio
Que a possa pagar bem!
Nem posso mesmo crêr, archanjo, que tu sejas
A menina gentil que ás portas das egrejas
Emquanto a multidão galante adora a cruz,
A bem do pobre enfermo á turba pede esmola
Nas pompas ideaes da moda, que a consola
Das magoas do Jesus!
E nas horas de luta emquanto os povos choram
E a guerra tudo mata e os reis tudo devoram,
Não posso dizer bem se acaso tu serás
A senhora que espalha os languidos fastios
Nos pomposos salões, sorrindo a fazer fios
Á viva luz do gaz!
Tu és a apparição gentil, meia selvagem,
D'olhar profundo e bom, de candida roupagem,
De fronte immaculada e seios virginaes,
Que desenha no espaço o limpido contorno
E cinge na cabeça o virginal adorno
De folhas naturaes.
Tens a linha ideal das candidas figuras;
As curvas divinaes; as tintas sãs e puras
Da austera virgindade; as bellas correcções;
E segues magestosa em teu longo caminho
Deixando fluctuar a tunica de linho
Ás frescas virações!
Quando trava batalha a tua irmã Justiça
Acodes ao combate e apontas sobre a liça
Uma espada de luz ao Mal dominador:
E pensas na belleza harmonica das cousas
Sentindo que se move um mundo sob as louzas
No germen d'uma flôr!
N'um sorriso cruel, pungente d'ironia,
Tambem sabes vibrar, serena, altiva e fria,
O latego febril das grandes punições;
E vendo-te sorrir, a geração doente,
Sentir cuida, talvez, a nota decadente,
Das morbidas canções!
Oh, vôa sem cessar traçando nos teus hombros
O manto constellado, ó deusa dos assombros,
Até chegar um dia ás regiões de luz,
Aonde, na poeira aurifera dos astros,
Contricto, Satanaz enxugará de rastos,
As chagas de Jesus!
Logar á minha fada ó languidas senhoras!
E vós que amaes do circo as noites tentadoras,
Os fluctuantes véos, os gestos divinaes,
Podeis vel-a passar n'um turbilhão fantastico,
Voando no corcel febril, nervoso, elastico,
Dos novos ideaes!
II
Índice de conteúdo
Eu vi passar, além, vogando sobre os mares
O cadaver d'Ophelia: a espuma da voragem
E as algas naturaes, serviam de roupagem
Á triste apparição das noites seculares!
Seguia tristemente ás regiões polares
Nos limos das marés; e a rija cartilagem
Sustinha-lhe tremendo aos halitos da aragem,
No peito carcomido, uns grandes nenuphares!
Oh! lembro-me que tu, minha alma, em certos dias
Sorriste já, tambem, nas vagas harmonias
Das cousas ideaes! mas hoje á luz mortiça
Dos astros, caminhando; apenas as ruinas
Das tuas creações fantasticas, divinas,
De pasto vão servindo aos lyrios da justiça!
III
Índice de conteúdo
VELHA FARÇA
Rufa ao longe um tambor. Dir-se-ia ser o arranco
D'um mundo que desaba; ahi vae tudo em tropel!
Vão ver passar na rua um velho saltimbanco
E uma féra que dansa atada a um cordel.
Ó funambulos vis, comediantes rotos,
O vosso riso alvar agrada á multidão!
E quando vós passaes o archanjo dos esgotos
Atira-vos a flôr que mais encontra á mão!
Lá vae tudo a correr: são as grotescas dansas
D'uns velhos animaes que já foram crueis
E agora vão soffrendo os risos das creanças
E os apupos da turba a troco de dez réis.
Conta um velho histrião, descabellado e pallido,
Da féra sanguinaria o instincto vil e mau,
E vae chicoteando um urso meio invalido
Que lambe as mãos ao povo e faz jogo de páu.
Depois inclina a face e obriga a que lh'a beije
A fera legendaria olhada com pavor:
E uma deosa gentil, vestida de bareje,
Annuncia o prodigio a rufo de tambor!
E as mães erguem ao collo uns filhos enfezados
Que nunca tinham visto a luz dos ouropeis:
E accresce á multidão a turba dos soldados,
—Ao ilota da cidade o escravo dos quarteis.
E o funambulo grita; impõe qual evangelho
Á turba extasiada a grande narração.
E sobre um cão enfermo um ourangotango velho
Passeia nobremente os gestos de truão.
Correi de toda a parte, aligeirae o passo,
Deixae a grande lida e vinde á rua vêr
As prendas d'uma fera, as galas d'um palhaço,
E um archanjo que sua e pede de beber!
A tua imagem tens ó povo legendario
No comico festim que mal podes pagar,
Pois tu ainda és no mundo o velho dromedario
Que a vara do histrião nas praças faz dansar.
IV
Índice de conteúdo
GRAÇA POSTHUMA
Depois da tua morte eu heide ver se arranco,
N'uma noite serena, ao teu berço final,
Um producto mimoso;—um grande lyrio branco
Da alvura do teu collo eburneo e divinal!
Aquella flôr suave, ó minha visão estherica,
Debruçada gentil, na taça em que a puzer,
Fazer-me-ha lembrar a graça cadaverica
Do teu corpo franzino e ethereo de mulher!
E mesmo conterá, de certo, alguma cousa
Do que me traz submisso e prezo ao teu olhar:
—Teu corpo a pouco e pouco irá fugindo á louza
Depois tornado em lyrio á terra hade voltar!—
E em longas noites, n'elle, eu beberei sosinho,
Sonhando as convulsões d'uns lindos braços nús,
A fragrancia que exhala a candidez do linho
Em que hoje ondeias leve e onde os meus labios puz,
—Saudando a boa mãe que faz com que eu te gose
Depois do verme vil teu seio polluir,
Mais pura no frescor de tal metamorphose
Do que eras a scismar, do que eras a sorrir!
Ó minha doce Ophelia! Os rapidos momentos
Da vida, são crueis mas passam como um som!
Um dia quando em fim dos velhos sedimentos
Teu corpo renascer n'um lyrio immenso e bom,
Talvez que eu durma já tambem sob os matizes
Das flôres, ao sorrir das mil germinações,
Dando um pasto fecundo ás tuas sãas raizes
Depois de te sagrar as ultimas canções!
V
Índice de conteúdo
HISTORIA SIMPLES
Havia um rapaz são, robusto, bom, valente,
De espadua larga e rija; um ceifador gentil.
Cavava todo o dia, andou sempre contente
E a feria dava á mãe sem falta d'um ceitil.
Elle amava a campina e os ceus largos, serenos.
Aos domingos a mãe deixava-lhe uns dez reis.
Deitava-se ao luar, dormindo sobre os fênos,
Na fragrancia do trêvo, ao pé dos cães fieis.
A mãe tinha de seu duas vaquitas mansas:
N'um cerro agreste e vil alguns palmos de chão.
E tinha ainda mais não sei quantas creanças
Que andavam nuas sempre e sempre a pedir pão.
O pae mal se sustinha ás vezes sobre as pernas:
Era bebado e mau, batia na mulher;
E á noite, ao scintillar dos vinhos nas tavernas,
Cantava canções vis de a gente ensurdecer.
Um dia uma senhora honesta da cidade,
Esplendida, gentil, sabendo-se sorrir,
Reparou no rapaz; achou-lhe propria a idade
E fez-lhe um certo gesto:—o moço não quiz ir.
Teve um assomo de raiva, então, sua excellencia.
Ordenou-lhe que fosse: o moço disse,—irei!
Despediu-se dos seus: devia obediencia
Á senhora gentil que se chamava… a Lei!
Pegou no velho alforge e no bordão nodozo
E metteu-se a caminho. Os pobres dos irmãos
Choravam á partida:—um quadro doloroso!
A mãe louca de dôr torcia as magras mãos!
Chegando no outro dia ao ponto onde o chamaram
Primeiro foi medido e todos a final,
Depois de bem revisto, á uma, concordaram
Que ao serviço do rei convinha este animal!
Aquell'outra senhora, astuta, grave, terna,
—A ordem—jubilava em doces pulsações!
Contava mais um servo, um filho, na cazerna,
Gastando pouco mais:—uns cobres e uns feijões!…
Agora quando passa o batalhão luzente
Na rua, podeis ver o pobre cavador
Com modos imbecis, marchar pesadamente
—Heroe por conta alheia—ao rufo do tambor!
Não sabe onde caminha entre as guerreiras hostes!
Perguntem-lhe o que é patria e liberdade e lei!
Caminha simplesmente ás ordens dos prebostes
Que trazem no chicote a salvação do rei.
E na pobre cabana ainda se conserva
O mesmo quadro triste:—a lacrimosa mãe;
Alguns pequenos nús rolando sobre a herva,
E um ebrio que pragueja e não pensa em ninguem!—
Mulher não chores mais: a quadra é pura e bella:
Emquanto na campina alouram os trigaes,
Teu filho guarda o mundo e a Deus faz sentinella:
Receiam que Deus faça andar o mundo mais.
Em breve elle virá de jubilo e d'assombro
Encher tua alma, em fim, quando ámanhã voltar
Com seu velho canudo, a trouxa posta ao hombro,
Trazendo novamente a luz ao pobre lar.
E tu perguntarás: o que é meu filho, é ouro!!
A quantas guerras foste? ó ceus, como tu vens!
—Mãe tome essa lata! esconda o meu thesouro
E deixe-me ir dormir no fêno ao pé dos cães!
VI
Índice de conteúdo
Á meza do festim, cercada de formosas,
O canto dos cristaes e o scintillar dos vinhos
Saudavam juntamente os bellos desalinhos
Das galantes vizões das ceias luminozas!
Molhavam-se em champagne as pétalas das rozas!
E em baixo, a nossos pés, em leves murmurinhos
A gaze sobreposta á candidez dos linhos
Erguia-se n'um mar de vagas caprichosas!
Ali tudo era paz! Nem odios vis nem zelos!
Os labios pois limpando ás rendas e aos cabellos
Da menos trivial das fadas tentadoras,
Eu brindo aos mortos!—disse: á legião sagrada
Que foi á solidão, á eternidade, ao nada!
—Ás almas e ao pudor d'estas gentis senhoras.
VII
Índice de conteúdo
OS SONHOS MORTOS
Embora triste a noite, a vagabunda lua
Mais branca do que nunca erguia-se nos ceus,
Igual a uma donzella ingenua e toda nua
No leito ajoelhada erguendo a fronte a Deus!
O mar tinha talvez scintillações funestas.
A praia estava fria, as vagas davam ais;
Semelhavam, ao longe, as extensas florestas
Fantasmas ao galope em monstros colossaes.
E eu vi n'um campo immenso, agreste e desolado,
Immerso no fulgor diaphano da luz,
Juncando tristemente o solo ensanguentado
Sinistra multidão de corpos semi-nus!
Tinha a morte cruel, em sua orgia louca,
Deposto em cada fronte um osculo brutal;
E um ironico rizo ainda em muita boca
Se abria, como a flôr fantastica do mal!
E eu vi corpos gentis de virgens delicadas
Beijando a fria terra, as mãos hirtas no ar,
Em sagrada nudez!… Cabeças decepadas!…
Em muito peito ainda o sangue a borbulhar!…
E sobre a corrupção das brancas epidermes
Luzentes de luar e d'esplendor dos ceus,
Orgulhosos passando os triumphantes vermes,
Da santa formosura os ultimos Romeus!
Se tu minha alma livre ainda hoje conservas
Memoria das vizões que amaste com fervor
Ahi as tens agora alimentando as ervas
De novo dando á terra o que ella deu á flôr!
São ellas! as vizões dos meus dias felizes,
Meus sonhos virginaes, as minhas illusões,
Que a seiva dão agora aos vermes e ás raizes,
Que em pasto dão seu corpo a novos corações!
São as sombras que amei, divinas, castas, bellas;
As chymeras gentis, os vagos ideaes,
Que de rozas cingi, que illuminei d'estrellas,
E que não podem já da terra erguer-se mais!
VIII
Índice de conteúdo
FALA A ORDEM
Pequeno, d'onde vens cantando a Marselhesa;
Da barricada infame, ou d'outra vil torpeza?
Que esplendido porvir! Do nada apenas sahes
Começas a morder as purpuras reaes
Ó filho trivial da livida canalha!…
E, vamos, deixa ver, guardaste uma navalha,?!
Não tremas que eu bem vi! que trazes tu na mão?
Intentas já limar as grades da prizão,
Fazendo scintillar um ferro contra o solio
Archanjo que adejaes nos fumos do petroleo?!…
Mas, vamos abre a mão: não queiras que eu te dê.
Bandido eu bem dizia!—a carta do A B C!…
IX
Índice de conteúdo
Ó lirios da cidade, ó corações doentes
Das vagas affecções modernas e galantes;
Eu sei que vós morreis aos sons agonisantes
Das orchestras febris,—nos sonhos dissolventes!
Sois os fructos gentis que balançaes pendentes
Nas arvores da vida; e os pobres viajantes
Famintos d'ideal, sorriem triumphantes
Julgando-vos colher nas seivas innocentes!
E tragam com fervor o pomo apetecido
Que deve ter um mel oculto no tecido,
—Um raio bom do sol que nos sorri tão alto;
Mas vós que sois da moda um luminozo aborto,
Como os fructos crueis das margens do mar morto
Apenas conteis dentro uma porção d'asphalto!
X
Índice de conteúdo
MISERIA SANTA
Entrando esta manhã n'um templo da cidade
Aberto á multidão mas triste e quasi só,
O ver ao desamparo a velha magestade
N'um throno a desabar, meteu-me certo dó.
Restavam tão somente alguns dourados velhos
Do passado esplendor, e foi-me facil ver
Que uma nuvem de pó cobria os evangelhos
Como cousa esquecida e impropria de se ler!
A virgem, sobretudo; a mãe predestinada
Que o Golgotha lavou nas lagrimas de fel
Que sempre hade chorar toda a mulher amada,
Ou seja a mãe de Christo, ou seja a de Rossel;
Achei-a desolada e triste lá n'um canto,
Sem pompas e sem luz, coberta d'ouropeis
Tão velhos como o roto e desbotado manto
Que ha muito, já, deveu á crença dos fieis!
Dizer-me póde alguem d'affectos bons e puros
Que eu posso ainda encontrar as bellas cathedraes
Aonde o simples Christo e os martyres obscuros
Campeiam no fulgor de pompas theatraes.
Bem sei; mas como disse, o acaso ou o quer que fosse
Levou-me a um templo pobre e foi n'elle que vi
Que ha mendigos do céo, d'olhar sereno e doce,
Proletarios do altar a quem ninguem sorri!
E ao ver esta humildade,—eu tenho d'isto ás vezes,—
Pensei, não sei porque, nas morbidas vizões
Que não passam de ser as filhas dos burguezes
Mas de rendas de França enfeitam seus roupões!
XI
Índice de conteúdo
ASTRO DA RUA
Fazia hontem já tarde um nevoeiro espesso.
—Que insonia em mim produz este humido vapor!—
Eu vinha enfastiado, ou turvo, emfim confesso,
Dos fumos do café, da luz e do rumor.
Um fantastico véo cobria as longas praças;
E o gaz ria atravez da grande cerração
Que em lagrimas descia ao longo das vidraças
E em flocos d'alva neve humedecia o chão.
Eu mesmo achava em tudo um tom maravilhoso.
Dispuz-me a crer no ceu a amar este ideal:
Do subito eis que passa um astro radioso
Luzindo-me atravez do magico cendal!
Que vaga exhalaçao ó cousas vis que adoro!
Que bello olhar de Deus, deixae-me assim dizer!
Pelo sulco de luz julguei um meteóro,
Pelo aroma subtil sonhei uma mulher!
Passou porém, fugiu: no fim eis em resumo
A sua breve historia! o sonho é sempre assim!
Ha cousas que ao passar ainda deixam fumo:
Aquella só deixava um vacuo dentro em mim.
Archanjos caminhae, que eu espero o grande dia
Da nossa atroz vingança, ó despotas do ceu!
Nossa alma anda algemada á vossa tirannia
Mas hade erguer-se a escrava…—Assim dizia eu
E a mesma aparição de novo a deslumbrar-me!
De novo a mesma aurora o espaço a illuminar!
Agora pude vêl-a e posso recordar-me
Dos abysmos de luz que havia em seu olhar.
O astro vinha envolto em nuvens d'escumilha:
De resto era uma fada, eu mais não sei dizer.
Deixava atraz de si um aroma de baunilha
D'um louco se abysmar d'um pobre enlouquecer!
Quem quer que sejas tu, que sejam sempre bellos
Teus ceus sem vendaval, teus dias sem revez!
Feliz de quem poder beijar os teus cabellos
E aos labios aquentar os teus pequenos pés!
—Dizendo caminheí. Porém novo prodigio!
Ainda a perseguir-me a mesma aparição
E eu ainda sentia o lucido vestigio
Que ha pouco em mim deixára a outra exhalação!
Mas agora reparo, attento em sua chama!
Que olhar tão insolente, o ceu não luz assim!
Na gaze que ella arrasta ha um debrum de lama,
Na face macerada uns traços de carmim!
Oh! astro! emfim conheço a orbita que traça
O teu curso veloz! bem sei onde tu vaes!
Prosegue no teu giro em volta d'essa praça
E Deus te dê mais luz e menos lamaçaes.
XII
Índice de conteúdo
Quando Martha morrer, depois do extremo arranco,
Não tratem d'orações;
Desprendam-lhe o cabello o vistam-a de branco
Á moda das visões.
Desejo vel-a então passar d'esta maneira
Depois de tal revêz,
Por entre a chama azul e tenue da poncheira
No fumo dos cafés.
Áquelle bom paiz das pallidas chymeras,
Monotonia azul;
Não temam que ella vá no fogo das espheras
Queimar o véu de tulle.
Assusta-a muito o frio, a chuva, o sol dos tropicos
A nuvem triste e vã,
E pódem-lhe prender os pés tão microscopicos
As nevoas da manhãa!
De noite ella virá com seus trajes singellos,
Archanjo d'outros ceus,
Nos suspiros febris dos meigos violoncellos
Dizer-nos mal de Deus.
Contar-nos por que foge á doce transparencia
Que o ceu formoso tem,
Meiga filha gentil da mesma decadencia
Que é nossa boa mãe.
Se as lagrimas de luz que chora o firmamento
Em noites de luar,
Ao seu pescoço nú podessem, n'um momento,
Cingir-se n'um collar;
De certo ella daria ao pallido comêta
E á estrella trivial,
A mesma adoração que dava á cançoneta
Que amou até final!
E á saida do circo, ao astro romanesco,
Á noite iria, então,
Contar, ainda a sorrir, o ardor funambulesco
Do livido truão!
Assim, não quer ouvir aos córos invisiveis
Um hymno d'enfadar,
Cantado por milhões d'archanjos insensiveis
Sem um que a possa amar!
E não lhe esquecem nunca os rapidos instantes
Do que ella amava mais:
—A vida illuminada á luz dos restaurantes
N'um sonho de cristaes!
XIII
Índice de conteúdo
AS VICTIMAS
Eu vejo muita vez e raro já me assombro
—Minha alma tanto afiz ás tristes commoções!—
Na rua, junto a mim, passar hombro com hombro
No transito penozo as longas procissões,
De victimas da sorte e victimas do mundo!
Umas boas, gentis, outras feias, crueis,
Envoltas n'um sudario ou n'um burel immundo;
Nas pompas theatraes, nas galas dos bordeis,
Não são filhas do sonho ou creaçoes chymericas
Da mente allucinada, ou vagos ideaes;
São magros peitos nús, são faces cadavericas,
São as tristes, as vís desolações carnaes.
São pequenos sem pão que vão pedindo esmola
Nas lamas encharcando os regelados pés:
Que dormem nos portaes, que nunca vão á escóla
—Flôres que enfeitarão a noite das galés!
São aquellas gentis e pobres costureiras
De peito comprimido; anemica expressão;
Que passam a tossir, cansadas, com olheiras,
Ganhando em todo o dia apenas um tostão,
Curvadas a cozer o languido velludo,
O irritante setim dos grandes enxovaes,
Das princezas do Banco, herdeiras d'isto tudo;
Depois indo morrer nos tristes hospitaes!
São os pobres heroes que os seus irmãos combatem;
Que morrem sob o pezo enorme dos canhões,
E o cortejo de mães pedindo aos reis que as matem
E os reis fazendo rir das suas maldições!
São da lugubre noite umas flôres sem nome
Batidas muito já dos grandes vendavaes,
Que, por que sentem frio ou por que sentem fome,
Derramam pelo seio aromas triviaes
E fingem depois ser apparições divinas,
Erguendo um pouco a saia, a fimbria sensual,
Abrindo um vil leilão de beijos, nas esquinas,
Aos apetites vís da multidão brutal!
São mineiros sem luz; são velhos britadores,
Que o contacto da pedra um dia endureceu,
Queimados pelo sol, gelados nos horrores
Do tumulo cruel que em vida os recebeu!
São aquelles heroes, em fim, dos grandes sonhos,
Que sentiram na terra as vastas corrupções
E ás turbas apontando uns mundos mais risonhos
Tentaram espedaçar os ultimos grilhões
E que passam tambem um tanto contristados,
Talvez cheios de tedio, ao verem que hoje, nós,
Os deixamos seguir ainda apedrejados
Não raro desprezando a sua augusta voz!
E a grande multidão de martyres sublimes,
De tristes semi-nús, constante a caminhar,
Aos ceus erguendo as mãos, queixando-se dos crimes
Dos despotas que aos pés não cessam de os calcar!
A fila tenebroza, a procissão de victimas,
Augmenta mais e mais; não deixa de crescer!
E do estygma cruel das penas mais legitimas
Em muita fronte bella um traço podeis ver!
Caminhe muito embora: a sorte é sempre varia
E a turba soffredora, ó grandes bem sabeis,
Podia dividir a tunica cezarea
Lançando aos que estão nús a purpura dos reis!
Ücretsiz ön izlemeyi tamamladınız.