Kitabı oku: «A casa das noivas»

Editado por HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
A casa das noivas
Título original: The House of Brides
© 2019, Jane Cockram
© 2021, para esta edição HarperCollins Ibérica, S.A.
Publicado originalmente pela HarperCollins Publishers LLC, New York, U.S.A.
Tradutor: Mariana Mata
Reservados todos os direitos, inclusive os de reprodução total ou parcial em qualquer formato ou suporte.
Esta edição foi publicada com a autorização da HarperCollins Publishers LLC, New York, U.S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos comerciais, acontecimentos ou situações são pura coincidência.
Desenho da capa: Caroline Johnson
Imagens de capa: © Des Panteva/Arcangel (cadeira); © Andrzej Kwolek/Arcangel (sala)
1ª edição: Fevereiro 2020
ISBN: 978-84-9139-502-7
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Prólogo
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
32
33
34
35
36
37
38
39
40
41
42
43
44
45
46
47
48
49
50
51
52
53
54
Agradecimentos
Para a Alice e o Edward
A família…
aquele querido polvo a cujos tentáculos nunca conseguimos bem escapar, o que, de facto, nem sequer desejamos, no fundo do coração.
— DODIE SMITH
PRÓLOGO
ONTEM ENCONTREI um artigo sobre a Casa Barnsley numa velha revista. Levei algum tempo a reconhecê-la. Não só não estava preparada para tropeçar nela, como também só a tinha conhecido no inverno. Foi um choque ver o local fotografado em todo o seu fulgor, ao sol, e antes de sequer pensar no que estava a fazer, já tinha arrancado as páginas para saborear mais tarde, longe dos olhares indiscretos dos outros.
Numa fotografia, a curva azul do porto está cheia de barcos à vela e traineiras de pesca. É provável que tivessem tirado as fotografias há anos, quando o hotel abriu. Talvez na primavera, quando o tempo começava a aquecer e os campos em redor ainda não estavam queimados pelo calor do verão. O Max diz que, nessa altura do ano, o céu estava cheio de drones a tirarem fotografias das casas de campo prestes a entrar no mercado imobiliário e a capturarem imagens da famosa faixa costeira para programas de lifestyle na televisão.
Vejo essa paisagem de cada vez que fecho os olhos, mas é melhor tê-la diante de mim: a erva a inclinar-se de forma a que as falésias e a vila abaixo dela fiquem escondidas, a linha do mar a ocultar bancos de areia por debaixo de ondas traiçoeiras. A partir de Barnsley, não se consegue ver o porto calcetado ou o pontão a partir do qual o pequeno ferry parte a cada hora, se a maré o permitir, para fazer a excursão à linha costeira. Não se conseguem ver as lojas de peixe frito e batatas fritas e as galerias com os seus vidros martelados ou os cafés e esplanadas recônditos dos bed and breakfast. E ainda assim, estavam todos nas fotografias, como se fossem parte integrante do hotel.
É fácil de recordar a sensação de ver Barnsley pela primeira vez. Não em fotografia, mas ao vivo, com a grande casa a aparecer à minha frente. A beleza da pedra calcária é difícil de ver numa fotografia e ainda mais de explicar. A pedra é diferente da de outras casas da zona, mais macia, de certo modo, e no verão, ficava quente ao toque durante semanas a fio, contou o Max. Nalguns dias, quando o sol não estava suficientemente forte para aquecer os frios ossos das antípodas da Daphne, ela encostava-se à parede e esperava que o calor lhe trespassasse o vestido de verão e o casaco. Isso foi antes de eu ter chegado. Tem estado apenas frio, um frio gélido, desde que a conheço.
Será que o hotel vai voltar a ter sucesso? Ou será o artigo inútil, a direcionar turistas americanos ricos para uma casa de fantasmas? Um hotel que perdeu o rumo, e a mulher que o geria, e não por essa ordem. Tenho de ter esperança de que consigamos dar a volta a Barnsley, pois entrou-me de algum modo no sangue, tal como entrou no sangue das mulheres que me precederam.
1
— UM BRINDE À Miranda — disse o meu pai enquanto erguia o copo no ar, fazendo-o chocar de seguida com força contra o copo igualmente erguido da minha madrasta. — Que a tua carreira na Grant and Farmer seja longa e próspera!
Não era a primeira vez que ele brindava a uma nova direção na minha carreira — só deus sabe que houve algumas voltas e reviravoltas antes de me ter dado mal desta última vez —, mas foi a primeira em que ele se envolveu na missão de tentar arranjar-me um emprego. Depois de tudo o que aconteceu, eu não tinha outra hipótese senão aceitá-lo.
O meu pai teve de cobrar alguns favores. E quando isso não funcionou, acho que teve de começar a fazer promessas. Cedências. Acho que não chegou ao ponto de haver mesmo troca de dinheiro, mas não tenho a certeza. Não me pareceu estar a imaginar coisas quando lhe detetei uma ligeira ameaça na voz. Mais do que um ligeiro ênfase na palavra longa.
— Sim, querida Miranda. Boa sorte na Grace and Favour! — disse a minha madrasta Fleur, juntando-se ao brinde, mesmo já tendo terminado de beber o seu segundo copo de champanhe.
Ri-me, apesar de tudo. A Fleur só era verdadeiramente engraçada durante uma pequena parte do dia, algures entre a sua segunda e quarta bebida. E aquela janela era muito mais curta do que se poderia esperar, dada a sua habilidade em consumir champanhe e vinho branco seco.
Para além disso, eu queria apreciar esta celebração enquanto durasse; era a primeira vez que tínhamos alguma coisa para celebrar em muito tempo. A julgar pelo ar das minhas duas meias-irmãs mais novas, sentadas em silêncio e a abanar os cubos de gelo da limonada enquanto a alegria continuava em seu redor, também elas sabiam bem que as coisas rapidamente se podiam alterar. É só aguardar, diziam os seus rostos, ela também vai estragar isto.
— O que é que alguém com uma licenciatura em escrita criativa vai fazer numa empresa de relações públicas? — perguntou a minha madrinha Denise, virando-se para mim depois de o brinde ter acalmado. Como era hábito, a minha família tinha escolhido esquecer a minha pós-graduação em nutrição e dietética. À nossa volta, os empregados pousavam os tabuleiros das entradas: reluzentes pimentões vermelhos grelhados, rolos grossos de presunto, e carnudas azeitonas sicilianas. O meu restaurante italiano preferido era sempre o local para todas as celebrações familiares, e no que concerne a celebrações de família, eu ter finalmente conseguido arranjar outro emprego era bastante significativo. Pelo menos era o que parecia que o meu pai estava a tentar dizer-me ao convidar a família inteira, incluindo os meus padrinhos, para se juntarem ao jantar de celebração.
— O que é que alguém com uma licenciatura em escrita criativa vai fazer seja onde for? — disse bem alto o meu pai na ponta da mesa, rindo-se ruidosamente da própria piada, olhando em redor para se assegurar de que os clientes à volta também se estavam a rir. Lá se foi a minha tentativa de passar desapercebida.
— Não é tudo escrita criativa nas relações públicas? — interveio a Fleur. — Ou sou eu que estou a ficar confusa com as notícias falsas?
Eu estava preocupada que toda a conversa sobre escrita criativa pudesse descambar numa discussão sobre a escrita criativa que me lançou em sarilhos, por isso concentrei-me na Denise ao responder. — Acho que no começo vou ser só mais uma espécie de assistente executiva. Não terei nada a ver com clientes. Talvez acabe por poder trabalhar nalgum copy, coisas assim, imagino.
Não soei mais entusiástica do que me sentia. Trabalhar como copy estava tão longe daquilo que tinha andado a fazer. A gerir o meu próprio negócio. Um blogue famoso. Um contrato literário. A comunicação social dizia que eu era influenciadora.
— O que é uma assistente executiva? — perguntou uma das minhas meias-irmãs. Daquela vez, a Ophelia, mas podia facilmente ter sido a Juliet, dado que o conhecimento geral de ambas era igualmente não-existente. E sim, todas temos nomes saídos de Shakespeare. A minha mãe começou a tradição e a minha madrasta continuou-a. O meu nome tinha algum significado para a minha mãe, ao passo que suspeitava que a minha madrasta teve de usar o Google. Cérebro matemático, diz ela. Cérebro de ervilha, acho eu.
— Reservam voos, preparam as salas de reuniões, esse tipo de coisas — arrulhou a minha madrasta, acariciando suavemente o cabelo da Ophelia devido à natureza potencialmente perturbadora desta informação. — E é por isso que não quero que tirem uma licenciatura em artes. — A Ophelia e a Juliet acenaram solenemente, mesmo que estivessem a vários anos de distância de tomar quaisquer decisões sobre as suas formações universitárias.
Concentrei-me em encher o prato com uma seleção de entradas, prestando mais atenção do que era realmente necessária à colocação da comida, de forma a conseguir engolir as lágrimas que ameaçavam verter para cima dos pratos de barro.
— A mim parece-me ótimo — disse a Denise a apertar-me a mão, mas a compaixão na sua voz piorou as coisas. Ela estaria a pensar na minha mãe, a sua melhor amiga, e a perguntar-se como é que eu podia ter saído tão medíocre quando a minha mãe tinha sido tão extraordinária. Desejei que regressasse a Londres com a sua pequena família perfeita e me deixasse ali com as pessoas que não esperavam muito de mim. Era mais fácil assim.
A conversa mudou para uma viagem de esqui que a Denise e o Terence tinham planeado. Senti-me a desligar, a pensar em vez disso no casarecce com beringela e salsicha italiana que em breve estaria a vir na minha direção, e no tiramisu que se seguiria, se estivesse disposta a arriscar os comentários de desaprovação da Fleur.
— E é por isto que ela não consegue manter um emprego a sério — ouvi o meu pai a dizer quando me apercebi de que o empregado de mesa estava a tentar pousar-me o jantar à frente. — Sempre a sonhar acordada. — Era verdade, eu era uma sonhadora. O meu pai costumava achar isso engraçado, até encantador, mas ultimamente andava a fazer todo o tipo de observações irónicas. Não podes ser assim tão vaga a vida inteira, Miranda. Já tens vinte e seis anos. Não está na altura de encarares a realidade?
Eu conseguia perceber porque é que estava preocupado. Não me conseguia imaginar sentada a uma secretária o dia todo, a prestar atenção em reuniões intermináveis, a lembrar-me de números, nomes e datas, mas era isso que ia fazer assim que começasse na Grant and Farmer.
Havia risadas por todo o lado em redor: estridentes da parte da Fleur, educadas da Denise. Conseguia vê-la outra vez a observar-me e sorri-lhe debilmente para mostrar que estava bem.
O barulho do restaurante subia de tom à medida que a noite progredia. As cadeiras eram arrastadas para trás quando os clientes se levantavam para se cumprimentarem, o sommelier puxava as rolhas para fora de garrafas de prosecco e os empregados transportavam taças intermináveis de pasta a fumegar saídas da cozinha. O ambiente era leve, os aromas divinais e nas mesas à nossa volta as pessoas sorriam, riam e bebericavam Chianti e pinot grigio, inclinando-se para a frente para se ouvirem bem uns aos outros por cima do burburinho.
Todas as mesas à exceção da nossa. Se não fosse a comida e a conversa que surgia em função dela, estaríamos quase completamente em silêncio. O que é que pediste? Spaghetti alle vongole. Tem um aspeto delicioso, não é que tens gostos maduros? Este Barolo está delicioso, Bruce. Sim, é um dos teus favoritos. Este sítio nunca muda, pois não? É por isso que gostamos dele, Terence.
Tinha sido má ideia convidar os O’Halloran: de algum modo, a presença de estranhos realçou a inquietação a que me acostumei de alguma forma ao longo dos anos, e agora conseguia ver o que a nossa família composta devia parecer aos olhos deles. Se a minha mãe ali estivesse, a nossa mesa ia parecer exatamente igual às outras e tenho a certeza de que não era a única a pensar isso. O tiramisu ia ter de esperar por outra ocasião. Eu precisava de sair dali.
— Meninas? Querem que vos leve a casa? Não têm trabalhos de casa ou de ensaiar oboé?
O alívio nos rostos da Juliet e da Ophelia foi imediato. A noite desabrochou à frente delas: a loucura das redes sociais, a Netflix, e as chamadas telefónicas sem os pais em casa. Não era fácil crescer com o meu pai e todas as suas regras.
Não há chamadas após as 21h00.
Não há telefones no quarto.
Não há televisão durante a semana.
Não há dormidas em casas do sexo oposto.
Não há telefones à mesa.
Não há piercings.
Não há tatuagens.
Não há álcool.
Não há drogas.
Não. Não. Não.
Eu sei, vivi com ele durante muito tempo. Demasiado, na minha opinião. E na dele. E na da Fleur.
E agora estou de volta a casa.
No entanto, a Juliet e a Ophelia, ainda parecem pensar que eu sou fixe, nem que seja porque posso levá-las de carro a qualquer lado e mexer no meu telefone sempre que quiser. Até acham fixe que eu agora trabalhe numa loja de roupa desportiva e que lhes consiga arranjar desconto nas calças de compressão que elas e as amigas usam o tempo inteiro. Infelizmente, o meu pai não é assim tão fácil de impressionar.
— Leva o meu carro, pequerrucha. — O meu pai fez um grande alarido ao tirar a chave e fechar a sua mão à volta da minha. — Nós apanhamos um Uber. — Como se me estivesse a fazer um favor.
A Juliet e a Ophelia tagarelaram o caminho inteiro dentro do carro sobre a escola, os rapazes, os amigos, o The Voice.
— Porque é que vocês não estavam animadas no jantar? — perguntei após terem passado dez minutos até conseguir dizer uma palavra. — Agora parecem ter coisas a dizer.
— A Denise é estranha. Olha sempre para nós de uma forma esquisita quando falamos. Odeia-nos — explicou a Juliet.
— E odeia a mãe. — Portanto, a Ophelia sentia o mesmo.
— Isso não é verdade. — Não tinha pensado nisso dessa forma. Pensava apenas na Denise e no Terence como parte da família.
— É, sim. E está sempre a olhar fixamente para ti com uma expressão esquisita na cara. Reparaste?
Virei a esquina para a minha antiga rua, a prestar pouca atenção à estrada. Embora tivesse vivido fora de casa durante uns anos, ainda conseguia conduzir até ali em piloto automático.
Ainda pensava nela como a minha casa: a casa recuperada dos tempos da Federação que os meus pais tinham comprado quando se casaram e pensavam que tinham todo o tempo do mundo para estarem juntos. Afinal não tiveram assim tanto tempo e a casa só foi renovada anos mais tarde, quando a Fleur e a sua comitiva de arquitetos e empreiteiros caros apareceu em cena.
— Não — menti.
A Denise tinha passado imenso tempo nesta visita a olhar fixamente para mim. As pessoas sempre me tinham dito que eu não me parecia nada com a minha mãe, que eu era completamente parecida com o meu pai. A tua mãe era linda, diziam de um fôlego só, como se eu não pudesse entender a insinuação.
Mas talvez a Denise conseguisse ver algo em mim? Talvez eu me estivesse a parecer mais com a minha mãe à medida que envelhecia? Tentei ver o meu reflexo no espelho retrovisor enquanto estacionava ao pé da casa, mas não conseguia ver nada à luz do crepúsculo. Ouviu-se um raspar sonoro quando os pneus bateram na sarjeta. Praguejei entredentes quando percebi que os cantoneiros tinham deixado os nossos caixotes do lixo vazios no meio do caminho de entrada.
— Oh, o pai vai matar-te — sussurrou a Juliet. Alegria. Havia decididamente alegria no seu tom de voz. — Quantos champanhes é que bebeste, afinal? Borracholas! — Ambas se riram juntas, inebriadas pela liberdade, pela limonada e satisfação pelo meu infortúnio.
— Mal bebi um copo. — Era verdade, eu não bebia muito. Teria provavelmente pedido uma Coca-cola Light se a Denise e o Terence não estivessem ali. — Podem, por favor, ir tirar os caixotes do caminho?
O pedido foi recebido com o som das portas a bater. O par correu pelos degraus de pedra acima.
— Vá lá, Miranda, estou aflita. — A Ophelia deu um espetáculo a saltar de um pé para o outro, um movimento que se devia mais aos anos de aulas de teatro e oratória do que a quaisquer necessidades urgentes de bexiga. — Deixa aí o carro. O pai não se vai importar.
Olhei para cima, para a árvore acima do carro, cuja seiva tinha sido assunto de inúmeras discussões de família ao longo dos anos. O pneu estava mesmo encostado contra o passeio. Quaisquer danos seriam apenas visíveis quando se movesse.
— Está bem. — Suspirei. — Da próxima vez não bebam tanta limonada. — Era só por um instante, disse para mim. Regressaria e afastaria os caixotes e o carro assim que tratasse das miúdas. Subi as escadas para me juntar a elas a admirar o jardim pelo caminho.
Apesar de todas as falhas da Fleur, tinha de facto talento para a jardinagem. Ou para a arquitetura paisagista, como sempre me corrigiu. Nesta altura do ano, o jardim estava incrível e um foco de luz bem colocado realçava o jacarandá em flor em toda a sua glória. A minha mãe iria adorar. Uma das poucas coisas que tinha sido capaz de deduzir da sua escrita era o seu amor pelo mundo da natureza, a sua afinidade com o ar livre.
O cheiro da casa atingiu-me assim que abri a porta. Fechada o dia inteiro, pareceu ter manifestado a sua fragância: os restos das sempre presentes velas de figo da Fleur, as flores de gardénia a flutuarem numa taça na mesa do hall de entrada e o inconfundível cheiro de um pinheiro de Natal. Subjacente a tudo, o cheiro a lar. Algumas coisas não tinham mudado, apesar de tudo.
— Já há árvore de Natal? — perguntei à Ophelia enquanto me empurrava para passar, com a sua necessidade desesperada de ir à casa de banho aparentemente esquecida, enquanto eu via devagar algumas cartas pousadas na mesa do hall.
Durante muito tempo não tinha havido nenhuma para mim. Revistas da escola de tempos a tempos. Catálogos. Nada de interessante.
E depois, os envelopes grossos dos escritórios de advogados começaram a chegar. Nalguns dias havia maços deles. Noutros, só um ou dois. Mas durante alguns meses foi incessante.
Suspirei de alívio que não houvesse nada para mim naquele dia.
— Já sabes como é a mãe — disse a Ophelia ao longe. Ouvi-a a atirar-se para o sofá, com o som da televisão a acordar para a vida. Estava em casa e podia ligá-la. Do sítio onde estava parada, conseguia ver a Juliet através do conjunto de janelas envidraçadas nas traseiras da casa.
Quase passei pelo envelope sem o ver. De papel pardo com um canto completamente coberto de selos coloridos, todos impressos com a pequena cabeça da rainha de perfil. Exatamente o mesmo tipo de envelope que eu tinha passado a infância inteira à procura.
A morada tinha sido riscada e reescrita, novamente riscada e reescrita. Era como se tivesse andado no sistema postal durante algum tempo e tinha obviamente atravessado meio mundo. Mas essa não era a parte estranha. A parte estranha era a quem estava endereçada.
À minha mãe.
2
A CARTA TINHA sido aberta. A aba, outrora diligentemente colada com camadas de fita-cola grossa, agora à deriva do corpo principal da coisa, com a fita-cola seca e sem utilidade. O endereço do remetente era-me familiar: mais simbólico do que qualquer outra coisa, um sinal do passado mais do que um verdadeiro local. Casa Barnsley. Era como receber uma carta do Polo Norte ou do céu.
Claro que eu tinha procurado aquele endereço do remetente na minha juventude. Nas costas dos cartões de aniversário e em envelopes. De cada vez que chegava uma carta com um carimbo régio no canto, de cada vez que via a cabeça da rainha com o seu azul, roxo e azul petróleo de fundo, tinha esperado que dessa vez a carta fosse de Barnsley.
No final, o meu pai comprou-me um álbum filatélico. Tinha interpretado mal o meu interesse pelo correio como um grande interesse em filatelia. Durante anos, rasgava diligentemente os selos e humedecia-os para os tirar do papel numa frigideira cheia de água, embora não tivesse qualquer interesse neles, de todo. O meu único interesse era encontrar uma carta com a morada escrita no envelope que estava agora à minha frente.
Foi suficiente olhar apenas por um instante para a formação mística daquelas letras.
Inspirei profundamente, tentando entorpecer ligeiramente a minha expetativa. Passados vinte anos, tinha antecipado cenários mais do que suficientes para aquele momento. Um pequeno, mas significativo contacto. Uma mensagem de Natal. Uma oferta para adoção completa.
Mas aquilo era diferente. A carta estava endereçada à minha mãe. Não sabiam que estava morta?
A ouvir cuidadosamente os movimentos das minhas meias-irmãs, movi-me para dentro do escritório do meu pai, fechando a porta quase sem fazer um som sobre o tapete de pelúcia. O crepúsculo avançou rapidamente pela divisão, dificultando a leitura das palavras, por isso levei a carta para o banco da janela, forçando-me a sentar-me e a respirar, apesar do fluxo de sangue nos meus ouvidos.
Desdobrei devagar a carta, prestando especial atenção ao espesso papel creme, levando-o depois até perto do meu nariz. Bafiento, sim, mas com um ligeiro cheiro a humidade. De fumo, até. Tinha esperado um momento proustiano — uma baforada do perfume a água de rosas da minha mãe ou uma saudável colónia masculina —, mas fiquei desapontada. Não me fez lembrar de nada para além da lareira na cabana húmida de praia que costumávamos alugar no Wilsons Prom durante a Páscoa.
Li a carta, a primeira vez depressa, e a segunda devagar, a tentar encontrar detalhes que não estavam lá.
Querida Tessa,
Encontrei a tua fotografia por acaso. Não devia ter procurado. O pai diz sempre que eu sou demasiado curiosa para o meu próprio bem, mas é o que acontece quando nunca ninguém nos conta nada.
O problema neste lugar é que, quando se começa a procurar respostas a uma questão, acaba-se por encontrar um conjunto inteiramente separado de segredos.
Adiante. Encontrei uma fotografia tua e tinhas um ar amável, normal. Não como as pessoas nas fotografias antigas normalmente aparentam, com penteados esquisitos e camisolas engraçadas.
Quando virei a fotografia ao contrário, tinha escrito «Tessa, 19», em letra antiga com arabescos, como se quem quer que a tivesse escrito tivesse medo de carregar na esferográfica com força a mais.
Por alguma razão nunca pensei em ti como uma pessoa real. Quer dizer, sabia que escreveste O Livro. Sabia que te foste embora há muito tempo, mas nunca pensei que pudesses ser capaz de nos ajudar. Na verdade, nunca precisámos antes de ajuda.
Aconteceu uma coisa má. Passa-se alguma coisa com a minha mãe. O pai diz que alguém precisa de cuidar de nós, mas diz que precisamos de mantê-lo em família. Vai enviar-nos para um colégio interno depois do Natal. Até à Agatha. Apesar do que aconteceu.
Podes vir cá ajudar-nos? Por favor.
Com amor,
Sophia Summer (a tua sobrinha)
Foi um choque ouvir uma voz jovem e contemporânea vinda de Barnsley. Uma voz que podia ter pertencido a qualquer das jovens que eu conhecia — uma voz que soava como a da Ophelia, ou a da Juliet. Eu tinha lido A casa das noivas centenas de vezes. O livro da minha mãe foi um sucesso quando foi publicado e conseguiu vender centenas de milhares de exemplares antes de ter saído de catálogo no final dos anos 1990. Mas nunca tinha pensado no que o livro poderia representar para as pessoas que viviam atualmente em Barnsley. Que se lhe pudessem referir como O Livro da mesma forma singular e reverente do que eu.
A casa das noivas era a minha única ligação à minha mãe e ao seu passado, e mesmo assim, não era a mais pessoal. O que eu sabia da Casa Barnsley era o que todos os leitores sabiam sobre ela. E do que eu me lembrava sobre a minha mãe era basicamente o mesmo do que eles. Era mais do que isso: a minha mãe era o livro, e o livro era a razão de eu ter estudado escrita criativa na universidade.
A casa das noivas abordava profundamente a história da Casa Barnsley; as mulheres que tinham casado com um membro da família e que tinham trazido mais fama e prestígio com elas. Eram escritoras, arquitetas e socialites, mulheres que, invulgarmente naquele tempo, tinham ultrapassado os limites e encontrado o sucesso, a notoriedade. Sarah Summer. Beatrice Summer. Os seus nomes eram-me mais familiares do que os de alguns dos parentes do meu pai ainda com vida. Entre os exemplos dessas mulheres e o da minha mãe, eu sentia uma pressão imensa para fazer algo de especial com a minha vida.
A maioria do tempo andava a percorrer inutilmente o livro à procura de dicas sobre a minha mãe. Ao contrário da tendência moderna dos escritores se dedicarem à narrativa não ficcional, ela estava curiosamente ausente. Conseguia sentir a sua atenção pelo detalhe, a sua rápida mudança de expressão, mas não havia mais nada dela nele, nada para além da familiar fotografia de cabeça: o seu cabelo direito e macio, o largo sorriso inofensivo.
O seu livro era a história objetiva da Casa Barnsley e das mulheres que lá tinham vivido ao longo de várias gerações. Havia escândalos, sim: suicídios, ligações secretas e as obrigatórias alegorias góticas — quartos secretos, fantasmas e incêndios inexplicáveis —, mas era um livro de História. Um passado típico de uma casa de campo daquela era, mas sempre tinha imaginado Barnsley como um local agora benigno. Talvez estivesse enganada.
Todo este tempo tinha estado à espera de que alguém de Barnsley viesse à minha procura. Mas agora que alguém o tinha feito, já não tinha tanta certeza de ser aquilo que eu, afinal de contas, queria.
3
CASA BARNSLEY. Teclei o nome e depois olhei para ele, a escutar os sons da casa em meu redor, à espera de alguma espécie de sinal de que era seguro continuar. Lá fora, a rua estava sossegada, à exceção do barulho ocasional de uma porta de automóvel a fechar ou o bater da bola de basquetebol contra a tabela na entrada no nosso vizinho. Havia um tempo limitado até o meu pai e a Fleur regressarem do jantar e eu ainda não queria responder às suas perguntas sobre o que estava a fazer. Ainda não sabia ao certo o que estava a fazer.
Wikipédia, Grandes Casas de Inglaterra, TripAdvisor; surgiu uma panóplia de resultados. Cliquei no link da Wikipédia, a pensar que um resumo geral seria o melhor sítio para começar.
Casa Barnsley
A Casa Barnsley, também conhecida por Casa Barnsley Hotel, situa-se numa localização geográfica única, na ponta de duas enseadas da costa escarpada da região oeste de Inglaterra. Continuamente sede da família Summer há mais de duzentos anos, passou para a posse de Maximilian Summer em 1987, sendo gerida como hotel rural que incluía o restaurante A Sala dos Summer, distinguido com uma estrela Michelin. Supõe-se que o jardim tenha sido projetado por Hugo Bostock, mas não há documentação que o ateste, sendo considerado pela maioria dos historiadores demasiado a sul da área habitual de Bostock podendo, por isso, muito provavelmente ser um derivado.
A casa, então conhecida como Barnslaigh, aparece pela primeira vez em mapas no século XVII. Por volta do século XVIII, era a base de um pequeno porto de ferry numa linha que corria nos meses de verão entre as povoações espalhadas ao longo dessa linha costeira. As águas eram reconhecidamente agitadas e o serviço de ferry agora só funciona nos meses mais quentes. Consequentemente, a terra e a pequena casa senhorial foram vendidas a um lavrador local, Montgomery Summer, que andava a expandir as suas já substanciais propriedades rurais. Summer construiu a casa que lá permanece até hoje.
De forma invulgar para a época, Barnsley foi construída em pedra trazida de Cotswolds, e em consequência, a casa é impressionante e única na zona. Os jardins, que nos seus tempos áureos eram tratados a tempo inteiro por dezoito jardineiros e pessoal da terra, foram restaurados e atualizados nos últimos anos pelo atual titular e devolvidos à sua antiga glória.
A Casa Barnsley tem uma longa e colorida história e é localmente conhecida como «A casa das noivas», em referência ao livro best-seller homónimo escrito por Tessa Summer. O título do livro refere-se ao carácter distinto das castelãs de Barnsley ao longo dos anos. Embora a casa tenha quase chegado a ser vendida uma série de vezes, foram sempre estas mulheres empreendedoras e engenhosas que evitaram que a propriedade saísse das mãos da família.
A primeira e mais notável «noiva» foi Elspeth Summer, que convenceu o marido a construir-lhe o anexo chamado Casa Summer numa ilha mesmo ao largo da costa da casa principal. Elspeth era uma eremita convicta e recusava-se a acompanhar o marido nas suas viagens ao estrangeiro. Ele trouxe-lhe uma coleção de plantas incomuns de todas as partes do mundo e ela foi muito bem-sucedida a instalar um jardim quase tropical no local. A sua paixão pelo vinho branco francês era bem conhecida e tentou começar uma vinha na ilha para plantar as uvas e produzir o seu próprio vinho. O projeto falhou devido às condições adversas, mas a ilha foi renomeada como Ilha Minerva pela família em honra de uma casta rara de uva de França (minervae). Ainda conhecida por esse nome, é privada, mas aberta a visitas de grupo durante os meses de verão.
A nora de Elspeth, Sarah Summer, de forma invulgar para a época, acompanhava o marido em muitas das suas viagens e desenvolveu um grande interesse pela arquitetura. Inspirada pelas suas grandes viagens, de forma controversa supervisionou a transformação da capela anglicana de St. John em Minton, nas redondezas, numa réplica quase exata de uma igreja minúscula italiana que tinha visitado na Toscânia.
Muito mais tarde, no início do século XX, a Casa Barnsley foi o lar da famosa escritora Gertrude Summer, uma das últimas herdeiras americanas que casou com o então dono e levou com ela a sua fortuna americana. Usava a casa como cenário de fundo para a sua ficção policial, satirizando a classe alta britânica que se recusava a aceitá-la nos seus círculos íntimos. No processo, a Casa Barnsley tornou-se quase tão conhecida como os seus livros, cujas vendas, juntamente com a sua herança, sustentaram a propriedade durante anos. O casamento acabou devido a alegações de infidelidade e Gertrude mudou-se para um sítio mais distante ao longo da costa, onde viveu o resto da sua vida.
A casa caiu em degradação depois da Segunda Guerra Mundial, durante a qual ganhou alguma notoriedade como campo de treino de agentes dos serviços secretos. Teve um breve ressurgimento sob o domínio de Maximilian Summer (sénior) e da sua esposa Beatrice, que ficou conhecida pelas suas grandes festas em casa numa altura em que a maioria das outras casas de campo estavam a ser vendidas e o entretenimento em geral estava a ser reduzido. O famoso e efémero Festival Barnsley foi igualmente fundado e depois posto de lado sob a sua alçada.
Pela altura em que o proprietário atual, Max Summer, recebeu a herança do seu pai Maximilian, a casa estava decrépita e as dívidas avultavam-se. Juntamente com a sua esposa, Daphne Summer, Max Summer revigorou a Casa Barnsley como hotel rural de luxo.
A maioria daquilo já eu sabia, ou tinha um conhecimento vago. Não havia referência a nada desfavorável que tivesse acontecido recentemente, apesar do que a Sophia mencionava na sua carta.
Presumi que a Sophia fosse filha do Max e da Daphne. Não havia referência a nenhuns filhos na página da Wikipédia, por isso cliquei rapidamente no link da Daphne Summer. Direcionou-me para um artigo do Daily Telegraph datado de julho, e li-o avidamente, desejosa de descobrir alguma coisa escrita sobre a Daphne a partir do ponto de vista de um estranho.
Durante muito tempo, não me tinha importado com nada a não ser comigo mesma. Ou para ser mais específica, com aquilo que as outras pessoas pensavam sobre mim. A minha existência inteira era baseada em projetar uma imagem do meu estilo de vida, e se algo não estivesse no Instagram, então na minha cabeça não tinha acontecido. Tinha perdido imensa coisa. O mundo real. Amigos. Família. Bom senso.
Sabia bem pensar noutra coisa.
4
O SOL DE VERÃO
POR KELLY O’HARA
De algum modo fica-se com a sensação de que Daphne Summer — chefe celebridade, colunista de jornal e autora de livros de receitas — não gosta de protagonismo. De facto, parece mesmo odiá-lo. Se pudesse deixar a comida falar por si mesma, era o que faria, diz.
Ao contrário de outros chefes da sua época, ela não tem uma necessidade premente de inventar a roda ou mudar a forma como a nossa nação come; só quer cozinhar boa comida e quer fazê-lo usando ingredientes locais. Oh, e quer que o resto de nós também o faça.
Até este desejo é pontuado pela sua característica gargalhada autodepreciativa, e enquanto nos sentamos na esplanada do jardim do seu restaurante homonimamente chamado Casa Summer, sopra a franja para fora dos olhos e diz: «Bem, talvez eu queira mudar a forma como as pessoas comem, afinal.» Está numa pausa entre o agitado serviço de almoço repleto de visitantes e clientes locais, que diz serem o seu principal sustento, e casa cheia à espera de jantar nessa noite. No relvado diante de nós, os seus três filhos saltitam, a viva imagem de saúde e felicidade, a chamarem ocasionalmente pela mãe para ela ver um pino ou uma cambalhota.
O seu sotaque australiano, que mal se nota no seu programa de televisão, é mais forte na vida real, e diz que se não fosse por Max Summer, que conheceu romanticamente e com quem se casou no espaço de uma semana no final dos anos 1990, estaria de regresso à Sydney da qual ainda sente saudades. Felizmente para nós que o conheceu, porque a comida que acabei de comer na Casa Summer foi algo que nunca tinha experimentado nesta parte do mundo.
Os sabores são delicados sem serem esquisitos, e é como se os ingredientes não tivessem sido muito elaborados, o que normalmente significa que foram bastante tratados. A proveniência de cada prato é listada na ementa escrita à mão: o marisco vem dos pescadores locais, cujas embarcações minúsculas pude observar a balançar na enseada enquanto comíamos; o borrego da quinta ligada à Casa Barnsley, também gerida pela família Summer há gerações; e as ervas que estimulam cada prato são apanhadas na própria manhã nas extensas hortas que rodeiam a casa por onde Daphne nos convidou para passear enquanto falamos.
Sem formação formal, Daphne aprendeu as suas habilidades em restaurantes de grande qualidade que costumavam estar ligados a todos os hotéis de cinco estrelas em Londres. Primeiro como uma pobre jovem australiana a viajar à boleia de mochila às costas, lavou pratos, e depois foi subindo na cozinha, acabando por cozinhar sob a alçada de um dos mais conhecidos enfants terribles da cena da restauração dos anos 1990. Foi à porta de uma dessas cozinhas que conheceu o marido.
Esgueirando-se para a rua para fumar um cigarro a seguir ao seu turno, foi contra Max, que estava a fazer o mesmo, a tentar escapar a um encontro romântico desastroso na sala de jantar.
Enquanto falamos, Daphne interrompe frequentemente para apontar para coisas na sua horta. «É bem diferente do velho canteiro de vegetais com o qual cresci», diz, apanhando favas para um escorredor de esmalte pelo caminho. «O meu pai trabalhava num banco, mas adorava a sua horta, e tinha uma pequena parcela com vegetais, mas nada que se pareça com isto: metade do tempo tínhamos um enorme excesso de acelgas e ruibarbo, e no resto, os caracóis chegavam às coisas antes que nós conseguíssemos. Mas fez-me aperceber da quantidade de trabalho que envolve fazer crescer uma cenoura, por isso, agora, como cozinheira, asseguro-me de que trato aquela cenoura com algum respeito.»
Daphne parece fazer questão de nunca se apelidar de chefe, referindo-se a si como cozinheira, em vez disso. Apesar dos prémios que recebeu, diz que ainda se sente mais confortável dessa forma. «Não sou chefe. Sou apenas alguém que adora comida e quer partilhá-la com o máximo de pessoas possível. Há um limite para o que a minha família consegue comer, por isso tornou-se num trabalho. É só isso.» É um comentário típico desta mulher humilde cujo livro de receitas A minha Casa Summer foi um dos maiores sucessos de vendas do ano passado.
Ainda a meio da casa dos quarenta anos, imagino que deva ter sido bastante estonteante quando conheceu Max. Quando faço referência a tal, a gargalhada surge de novo, antes de me fitar com uma lágrima no olho. «O Max gosta de sinais de uma grande personalidade e deplora a fraqueza. Muito frequentemente, uma cara bonita pode ser mal interpretada como ambas.» Recusa-se a elaborar, voltando a encher o meu copo de rosé quando regressamos ao terraço, em vez disso.
E acerca dos rumores de um problema com o álcool ter posto um fim à produção das suas primeiras séries no ano anterior? Dá apenas um gole de vinho ocasional e escolhe as palavras com cuidado. «É uma coisa comum nesta indústria. O stresse do serviço combinado com o abençoado alívio de beber um copo a seguir, e um pode espoletar o outro. Houve um incidente que rebentou e saiu completamente fora de proporção. Cortei com o álcool desde então, mas para mim, enquanto cozinheira, uma refeição sem vinho não é uma refeição de todo.»
A localização remota da Casa Barnsley, situada numa linha costeira espetacular sobre uma série de praias rochosas, é bastante apelativa para pessoas que aqui vêm para escapar ao mundo. É de um charme do género de fim de mundo, simpático para visitar, mas viver aqui deve ser solitário. Daphne não acha. «Podia ficar aqui para sempre. As pessoas estão sempre a pedir-me para aparecer em Londres, para fazer uma consulta neste lugar ou cozinhar naqueloutro, mas sou feliz aqui. Tenho tudo o que preciso.»
Dito isto, morde a ponta de uma fava e cospe-a para o jardim, espremendo para fora os gloriosos botões verdejantes para que eu os pudesse examinar. «Vê? O que mais poderia eu querer?» Ela tem razão: A Casa Barnsley é o mais próximo do paraíso a que se pode chegar.
Para mais informações, visite barnsleyhousehotel.co.uk. O autor foi convidado pela Direção de Turismo do Oeste.
ESTAVA SENTADA a pensar naquilo que tinha acabado de ler quando um carro parou diante da casa. Apaguei apressadamente o histórico de pesquisa e fechei as janelas do navegador. Da janela conseguia ver o meu pai a sair do Uber, a sorrir para o condutor, e depois a segurar a porta aberta para a Fleur. O seu sorriso rapidamente desapareceu assim que viu o seu carro parado debaixo da árvore. Mesmo a partir de casa, conseguia ver que a seiva pegajosa que ele tanto desprezava já tinha feito estragos no tejadilho e rapidamente me arrependi da minha decisão impulsiva de deixar ali o carro.
O meu pai, que me tinha ajudado a suportar o ano que passou. Apoiou-me quando todos os outros no mundo me chamavam de mentirosa. E com razão. Tinha feito de tudo para me arranjar um emprego junto de uns velhos amigos, um emprego que, para ser verdadeiramente honesta, só com sorte se prolongaria para além do período experimental de três meses.
Algo me disse que aquela não era a noite para referir a carta; na verdade, o meu mais profundo instinto era de não a mencionar de todo.
Num impulso — que novidade! —, corri para a secretária do meu pai e abri o pequeno cofre debaixo da cadeira. O código, apesar de tudo, era o aniversário da minha mãe. Sempre foi. Só que nunca tive de usá-lo.
Mil novecentos e sessenta e oito. O Verão do Amor. Os protestos estudantis em Paris. E a minha mãe a aterrar na terra, no meio de nenhures. Na Casa Barnsley. Perguntei-me se a sua vida teria sido diferente se ela tivesse nascido noutro sítio.
Estava escuro dentro do cofre e eu tinha demasiada pressa para acender a luz. O meu pai e a Fleur estavam agora nos degraus da entrada.
— Qual é a dificuldade de colocar o carro dentro da garagem?
— Provavelmente estava distraída. — A Fleur deve estar cansada de me defender.
— Ela faz de propósito. É tão ingrata!
— «Depois de tudo o que fiz por ela», disse para com os meus botões a enfiar profundamente as mãos no cofre no momento exato em que o meu pai dizia exatamente aquelas palavras do lado de fora da janela.
A campainha soou ruidosamente. As chaves do meu pai estavam na mesa do hall de entrada. Previsivelmente, não houve sons das minhas meias-irmãs. A Ophelia provavelmente estava a dormir no sofá a esta altura e a Juliet ainda estava lá fora ao telefone. Os meus dedos finalmente agarrados à volta do pequeno livro azul, quase novo e duro nos cantos devido à falta de uso. Fechei o cofre com força e voltei a empurrar a cadeira até à posição original.
— Miranda! — Agora parecia zangado. A correr para a porta quase tropecei na ponta do seu tapete, enquanto o meu telefone começava a vibrar em cima da secretária onde o tinha deixado.
O meu pai tinha-me escondido o passaporte durante as profundezas do meu desespero. Achou que eu corria risco de fuga. Eu sabia onde estava o tempo todo, apenas não tinha para onde ir. Enfiei-o dentro da parte da frente das minhas leggings enquanto destrancava a porta de entrada. Só para prevenir. No último momento, enfiei também lá a carta.
5
O MEU PAI NÃO entrou de imediato. Em vez disso, ele e a Fleur tiveram uma discussão calma sobre a qual não consegui discernir, mesmo apesar de estar parada em silêncio do outro lado da porta, de respiração sustida, a tentar perceber se teria tempo de recuperar o meu telefone. Eles tinham anos de prática naquilo, tendo criado três filhas juntos. Eu também tinha anos de prática de escuta, sem sucesso, apesar de ter apurado a função dos meus ouvidos, ao contrário da vista, mesmo após anos a consumir bananas em excesso. #potássio #boato #bem-estar
Aquilo era mau. Se o meu pai estivesse moderadamente chateado, ia chamar o nome da filha transgressora assim que abrisse a porta de entrada. Invocada dessa forma, a filha iria aparecer, ligeiramente cautelosa, mas imperturbável, sabendo que para as maiores infrações seria primeiro levada a cabo uma conferência com a Fleur. Seriam discutidas as motivações e feitas as avaliações de carácter e, eventualmente, chegariam a acordo sobre o castigo, tudo de forma inaudível. Uma invocação imediata é em si mesma uma espécie de reprimenda.
Sou uma mulher adulta, e mesmo agora, sei que é assim que isto funciona. Devia ter guardado o carro. Devia ter afastado os contentores. Não devia ter sido preguiçosa ou ter dado ouvidos às adolescentes. Dar ouvidos a adolescentes já me trouxe problemas anteriormente.
Decidi arriscar. A experiência dizia-me que aquelas conversas podiam arrastar-se durante imenso tempo. Fui a correr até ao escritório e agarrei no meu telefone.
— Miranda!
Dei um pulo. Tinha estado tão atentamente à escuta dos pequenos sons que não estava de todo preparada para os grandes. O passaporte deslizou ligeiramente da minha cintura. Surpreendentemente, pois a minha cintura estava bastante apertada ultimamente.
— Pai?
A porta abriu-se mais. Fiquei parada no meio do escritório. Era demasiado tarde para fingir estar a fazer qualquer coisa. A minha mão foi instintivamente até ao colar com o berloque de ouro em formato de rosa — uma herança de família deixada pela minha mãe — que trazia ao pescoço. Nunca o tirava, mesmo apesar de se mexer e de me incomodar quando corro. Ou costumava incomodar quando ainda corria.
— O que é que estás aqui a fazer? — ralhou o meu pai.
Esta pergunta foi como um impulso vindo dele, as palavras proferidas antes que se desse conta. Uma das suas muitas regras: nada de andar a mexer no seu escritório.
— Estava só… só a ver uma coisa no teu computador.
Esperava que o domínio do meu pai em computadores se mantivesse tão rudimentar como sempre. No ano anterior, tinha-me surpreendido a contratar um especialista para enterrar os resultados negativos nos motores de busca com uma série de histórias mais positivas e recentes — o que não resultou, já agora. Há um velho ditado: «A nata vem sempre ao de cima», o que pode ter feito sentido nos dias em que as pessoas costumavam manter uma vaca no quintal, mas no ciberespaço simplesmente não é verdade. A parte branca aquosa, a parte sem qualquer sabor ou substância, é a que permanece atualmente.
Adiante, não queria que ele soubesse que andei a pesquisar a Casa Barnsley no seu computador.
— Quero falar contigo sobre outra coisa. — Olhei pela janela. O carro já estava coberto com a seiva pegajosa que ele tanto odiava. A Fleur tinha desaparecido nos confins da casa. Nem mesmo ela queria estar por perto para assistir à minha última desilusão.
— O carro. Desculpa.
O meu pai olhou pela janela, com a expressão alterada. Os ombros descaíram ligeiramente, como se a batalha para a qual se estava a preparar tivesse sido subitamente cancelada. O fôlego tinha visivelmente abandonado o seu corpo.
Quando falou, foi num tom quase desgastado. Não sabia se era da sobrecarga de hidratos de carbono, ou do Barolo, mas estava cansado.
— Pedi-te antes para colocares o carro na garagem, Miranda. A seiva faz danos irreparáveis à pintura se permanecer lá mais do que algumas horas.
Eu queria dizer que a culpa tinha sido da Ophelia, que estava aflita para ir à casa de banho, que queria regressar e tirá-lo de lá, mas até na minha cabeça isso soava como mais uma desculpa esfarrapada. Pelo tom de voz do meu pai, ele já estava farto das minhas desculpas.
— Desculpa. Eu levo o carro à lavagem de manhã.
Cinquenta dólares. É quanto custa a lavagem do carro, no único sítio onde o meu pai deixa que se aproximem do seu carro. Cinquenta dólares faziam uma grande mossa no meu salário nesta altura.
— O que é que fizeste à carta?
Estava tão ocupada a pensar na lavagem do carro que nem antecipei a pergunta. — Que carta? Não vi carta nenhuma… — Isto não era muito convincente. Pelos parâmetros de ninguém. Certamente que não pelos meus.
— Não me mintas, Miranda! Estou farto de mentiras. — O meu pai dá uns passos na minha direção e, por um momento, pensei que eu tivesse finalmente ido longe demais. Apesar de tudo o que passámos juntos, ele nunca tinha reagido assim.
Recuei um passo, batendo na secretária. Ele tinha-me encurralado. O impacto da secretária no meu corpo trouxe-o de volta a si e respirou fundo. Um longo e frustrado suspiro.
— Miranda. — Esticou a mão na minha direção, à espera que eu cedesse.
Por isso cedi. Pesquei a carta de dentro da cintura das minhas leggings. Assim que ficou liberta do meu corpo, arrancou-ma da mão e enfiou-a bem fundo no próprio bolso, sem verificar o conteúdo. — Sei o que estás a pensar, Miranda.
Aquilo era impressionante, pois nem eu própria fazia ideia do que estava a pensar. Tudo o que sabia é que tinha encontrado uma carta com um pedido de ajuda de uma parente que nunca tinha conhecido. Que eu esperava saber notícias de alguém de Barnsley, fosse quem fosse, desde que tinha memória. Que a esta altura seria bom sentir-me útil. Começar de novo. Mas não lhe chamaria pensar. Pensar era uma palavra demasiado precisa para o turbilhão gigante de emoção que estava a sentir.
— O que é que estou a pensar?
— Estás a pensar que isto pode ser uma forma de escapares a todos os teus problemas.
Imaginei-me no aeroporto. Só com bagagem de mão. A acenar ao meu pai e à Fleur a partir da porta de embarque. Lágrimas nos seus olhos. Melhor ainda, imaginei a minha chegada a Heathrow. Com uma grande família a cumprimentar-me. Um tio idoso, um bando de adolescentes simpáticas. Um cão wolfhound gigante e desgrenhado. Num aeroporto? Era uma fantasia, afinal de contas.
— Vou começar um emprego novo na próxima semana. — Esperava que soasse mais convincente do que a mim me parecia.
— Sim.
— Não tenho dinheiro nenhum.
— Não.
— Nunca conheci esta rapariga.
— Não.
— Não tenho qualquer obrigação para com ela. Ela enviou esta carta para a minha mãe. Nem sequer sabe que eu existo.
O meu pai ficou com um ar evasivo. — Sabe que eu existo?
A casa em meu redor estava sossegada, como se estivesse a suster a respiração juntamente comigo. Lá fora, o rapaz da porta ao lado batia com a bola a um ritmo constante apenas pontuado pelos baques irregulares contra a tabela. Normalmente, o meu pai suspirava exasperadamente em relação a esta banda sonora constante no nosso final de tarde, mas esta noite não parecia notar. No entanto, recuou um passo e fechou suavemente a porta do escritório, como se não se tivesse apercebido quão profundamente egocêntricas a Ophelia e a Juliet eram e o pouco interesse que teriam nesta conversa.
— Eu e a tua mãe tentámos manter o contacto com eles. Enviámos-lhes fotografias quando nasceste. Quando a tua mãe morreu, contactei o irmão. Sabes o que recebi de volta? Uma carta do advogado.
Oh. Estava familiarizada com aquela sensação. O meu pai esfregou os olhos. O torpor do vinho ao jantar tinha-se desvanecido, deixando-o cansado e machucado.
— O que é que dizia? — Tentei ignorar a desilusão esmagadora que estava a crescer dentro de mim. Tentei esquecer-me dos anos a pensar que talvez houvesse uma carta da família da minha mãe. Que deveria ter havido alguma razão para não contactarem. Pela expressão do meu pai, não me parecia que aquela carta fosse a que eu tinha estado à espera todos aqueles anos até agora.
— Não dizia muita coisa, na verdade. Só a conversa habitual de advogado. Que nem a tua mãe, nem qualquer um dos seus descendentes tinha quaisquer direitos à propriedade de Barnsley.
— Mais nada?
— Presumi que fosse por causa do que aconteceu com a tua mãe quando se veio embora, mas agora nem sei se ele sequer o sabia.
— O que é que aconteceu?
Abanou a cabeça. Fechando-se novamente em copas, como em todas as outras vezes na minha infância em que lhe fazia perguntas sobre a minha mãe e a sua família. Caminhou até ao aparador e serviu-se de um uísque num dos copos de cristal que a Fleur tinha ali disposto.
— É seguro beber isso? — Em todos os anos que o uísque tinha ali estado, tinha partido do princípio que era só para decoração. Mais um toque da Fleur. Na verdade, até àquele momento, não tinha cem por cento de certeza de que não era detergente. Pelo ar da careta do meu pai, ele também não.
— Então, o que te estava a tentar dizer é: não há lá nada para ti, seja qual for o plano idiota que estiveres a engendrar. E conheço-te melhor do que te conheces a ti mesma, mesmo que ainda não te tenha ocorrido, a certa altura nos próximos dias, a tua mente vai regressar a esta carta no meu bolso e vais pensar que talvez, só talvez, te devas envolver.
— Eu não estava…
O meu pai levantou vigorosamente a mão no ar, a que estava a segurar o uísque. Houve uma pequena quantidade de uísque que lhe salpicou a mão. Observei a gota a assentar, qualquer coisa era melhor do que estabelecer contacto visual. Não tinha a certeza se conseguiria disfarçar a emoção nos meus olhos.
— É melhor deixar algumas coisas — algumas pessoas — no passado. Podes achar que é boa ideia dirigires-te para lá para ver o que podes fazer para ajudar. Que podes compensar… — Hesitou. — Que podes resolver as coisas de toda a gente. Que podes fazer algo de extraordinário. Mas, Miranda — e desta vez olhou para mim diretamente nos olhos, e eu não podia fazer mais nada senão retribuir-lhe o olhar —, está na hora de cresceres. Está na hora de aceitares que a vida é vulgar.
Soube então que ele estava errado. Sabia que estava destinada a fazer alguma coisa especial. Claro que tinha começado em falso uma ou outra vez. Claro que tinha cometido erros, mas se a minha mãe me tinha mostrado alguma coisa, era que a vida não precisava de ser vulgar. Eu não precisava de ser vulgar.
Era muito nova no dia da nossa conversa, mas a minha mãe tinha sido insistente. O colar com o berloque — retirado do seu pescoço enquanto estava deitada na banheira, com a água quente a escorrer-lhe pelo pescoço abaixo e para debaixo da minha farda da escola quando me dobrei para recebê-lo — era uma joia da minha mãe, a essência da minha mãe. Não sabia que era um presente de despedida, que as palavras que me dirigiu nesse dia foram um legado calculado. Que ela então já devia saber como estava doente.
— Isto pertencia à minha mãe. E agora vou dar-to a ti. É uma lembrança do sítio de onde venho. De onde tu vens. — Parou para ganhar fôlego, fosse devido à sua doença, ou porque sempre teve tendência para as pausas dramáticas. — Da Casa Barnsley.
Voltei a esperar, tirando um momento para examinar o colar com atenção. Mesmo que tivesse sempre estado pendurado ao pescoço da minha mãe, agora era meu, e cada curvatura em ouro e ligações preciosas pertenciam-me. Os meus dedos traçaram as iniciais gravadas no escudo:
P.G.
Não fazia sentido. O nome da minha avó era Beatrice, o nome que a mãe tinha escolhido como o meu segundo nome. Miranda Beatrice Courtenay.
— O sítio mais belo do mundo — disse a minha mãe, de olhos a vaguear pela sua situação corrente com desdém. A casa de banho ainda não tinha sido renovada. A minha mãe tinha dado o seu melhor com uma banheira em segunda mão de pés de garra, mas ainda não havia soalho e o papel de parede estava caído em vários sítios. Muitos sítios. — Talvez um dia lá vás.
Fechou os olhos. — Barnsley é tão belo. Tão belo. É magnético. As pessoas são atraídas para o local. Pessoas especiais. — Os seus olhos abriram-se de repente, fixos nos meus. — Pessoas como eu e tu.
— Quem é o P.G.? — perguntei, contente por ter a sua atenção. Mostrei-lhe o escudo, mas ela não olhou para ele.
— A casa das noivas.
Eu era então demasiado nova para entender a mitologia do lugar. Só sabia que A casa das noivas era o livro da minha mãe. O livro. Ela era A casa das noivas.
— Sarah… Gertrude… Elspeth… Houve algumas mulheres incríveis nesta família. — A minha mãe sentou-se, com a água da banheira a chapinhar e a fazer ondas. Desviei o olhar protegendo a privacidade da minha mãe, mas ela agarrou-me na mão, forçando-me a olhar para ela. Tentei não reparar como os seus dedos estavam ossudos, como o seu outrora corpo forte parecia tão frágil. — Promete-me, Miranda. Promete-me que não vais ser vulgar. — O seu lábio enrolou-se ligeiramente a dizer a palavra. — Promete-me que também vais ser uma mulher incrível.
A minha pele arrepiou-se com a memória. Ouviu-se um grito na porta ao lado. Uma bola de basquetebol saltou pesadamente pela rua abaixo. Um baque surdo ao aterrar no capô do carro do meu pai e depois a ligeira pausa até o alarme do carro trespassar o ar silencioso da noite. Ficámos a olhar um para o outro por mais um momento, como se mais alguns segundos pudessem aliviar o ambiente entre nós e, de alguma forma, fazer desaparecer por magia a desilusão e arrependimentos do último ano. Por fim, o meu pai suspirou e virou-se para se ir embora. Ouvi-o agarrar nas chaves do carro da bandeja no corredor e depois a sua cabeça reapareceu de repente à entrada.
— Grant and Farmer, Miranda. Na próxima segunda. Sem desculpas. — E depois ouviu-se a porta de entrada a bater.
6
FOI A vergonha que acabou por me fazer decidir. As pessoas dizem que não se pode fugir dos problemas, mas pode. Só é preciso encontrar um sítio qualquer como Barnsley, com uma ligação duvidosa à Internet e pessoas tão ocupadas que não se importassem minimamente com o que todas as outras pessoas no mundo andavam a fazer. Foi um choque encontrar pessoas que não sabiam ou se importavam com o que estava a acontecer no Instagram ou nas redes sociais. Era mesmo do que eu precisava.
Mas não foi a carta que acabou por me fazer decidir. Apesar do que o meu pai disse naquela noite no escritório. Eu não tinha um plano nessa altura, mas talvez a semente estivesse plantada e só tivesse sido preciso alguém para a nutrir. No final, foi uma mulher que eu nem sequer conhecia que me fez bater no fundo. Uma estranha. Foi uma das poucas pessoas que me disse alguma coisa na cara. A maioria escondia-se por detrás dos seus perfis no Twitter ou tentavam suavizar o golpe daquilo que estavam a escrever com hashtags intermináveis. #autêntica #bem-estar #falsa
Um dia normal de trabalho, alguns dias depois de eu ter encontrado a carta. Era a minha última semana na loja de roupa desportiva. Era suposto começar na Grant and Farmer na segunda-feira seguinte. Apesar do crescente calor de verão, eu tinha sempre frio. Ou era a culpa, ou o ar condicionado que punham no máximo na loja para fazer com que os clientes se sentissem com mais vontade de experimentar calças de compressão e fibras sintéticas.
A mulher que me levou ao limite parecia inocente, ao início. Quarenta e poucos anos, razoavelmente em forma: boas pernas, mas consciente do seu abdómen. O cliente semanal típico. Estávamos a dar-nos bem. Depois de tudo o que se tinha passado, as minhas ligações mais significativas eram com estranhos. Jogava cardio-ténis duas vezes por semana, fazia Pilates. Bebia mais do que devia, mas não é isso que toda a gente faz? Experimentou a dieta 5:2 e a do tipo de sangue, sem muito sucesso.
Eu estava nas cabines de prova nesse dia. Fazíamo-lo em turnos rotativos na loja. Uma hora nas cabines de prova, uma hora no piso de merchandising e a falar com os clientes, uma hora na caixa registadora. Talvez se eu estivesse na caixa registadora, ela pudesse não ter dito nada. Há uma troca emocional menos significativa nessa altura. Os clientes começam a preocupar-se. A parte lógica do cérebro entra em ação.
Tomei a decisão certa?
Devo pagar isto com o Visa ou usar o dinheiro da alimentação?
Preciso mesmo deste top curto/tapete de ioga/casaco impermeável de duas cores? Aquele é o inspetor de estacionamento?
O mundo real fica mais próximo.
Mas estávamos no casulo das cabines de prova: tudo cheio de iluminação suave e espelhos colocados no ângulo certo. Ali o mundo é um sítio bom.
Eu tinha-a na mão: três calções no tecido novo que mal se via, dois tops bastante compridos com costas para corrida que, por sua vez, exigiam a compra de um sutiã específico. Seria um bom começo para atingir o meu total de vendas do dia. Ela tinha acabado de dar a voltinha obrigatória ao espelho quando o disse. Num minuto, estava a assegurar-lhe que não, que eu decididamente não lhe conseguia ver a roupa interior através das leggings, e que sim, que ela ia sentir-se cem por cento confiante durante os agachamentos das suas sessões de Pilates; no seguinte fui deixada atordoada, dobrada e a retirar-me da cabine de prova. O meu lugar seguro? Já não era assim tão seguro.
— Você é aquela rapariga, não é? — perguntou ela, com a cabeça a balançar entre os joelhos enquanto tentava apanhar um vislumbre da sua traseira ao espelho.
Nessa fase eu era uma concha: passava pelos movimentos do dia-a-dia, mas sem qualquer satisfação. Para além da minha família e dos meus colegas de trabalho, não via ninguém. Tinha demasiado medo de contactar os meus velhos amigos, e os meus seguidores, bem, a essa altura já andavam a seguir outras pessoas. O gerente da loja sabia da minha história, mas mais ninguém sabia quem eu era. Os dez quilos a mais que ganhei devido à comida reconfortante e à prisão domiciliária tinham algo a ver com isso, mas tinha parado de fazer madeixas e evitava o contacto visual. Para além disso, a maioria das minhas publicações eram sobre comida e aquilo que eu costumava chamar de #fitspo. Na maioria das vezes, mantinha a minha cara fora disso.
O cabide que eu estava a segurar caiu a tilintar no chão. Empurrei rapidamente a porta da cabine para a fechar para que ela não me pudesse ver.
Para que não pudesse ter a certeza.
— Quem? — perguntei a tentar evitar que se notasse o embargo na minha voz.
— Aquela rapariga? Aquela da app? A que fez declarações sobre fertilidade, cancro e não sei que mais. — Riu-se, como se achasse a coisa toda ridícula. Como se não pudesse bem acreditar que estava sequer a falar de mim, quanto mais comigo.
— Essa? — A minha voz soou esganiçada. Transtornada. — O que é que ela estaria a fazer a trabalhar aqui? Tenho a certeza de que está escondida num sítio qualquer com montes de dinheiro à espera que a coisa toda desapareça. — Porque era o que andavam a dizer de mim online e eu não tinha outra opção credível.
— É parecida com ela, não é? Imagino que esteja sempre a ouvir isso! Dificilmente é a pessoa ideal com quem ser comparada! Toda a gente a odeia! Depois do que ela disse àquela mulher! E sem qualquer sustentação médica. É criminoso.
Não era. Os meus advogados, após muitas deliberações e ainda mais horas faturadas, tinham decidido que as queixosas não tinham caso para levar a julgamento. Se eu restituísse o dinheiro das vendas da app e suspendesse as minhas contas nas redes sociais, então acabar-se-ia tudo. Só que não foi assim. Estaria a enganar-me se achasse que foi.
— Não me parece que ela alguma vez tenha feito declarações sobre cancro. Isso foi aquela outra rapariga — respondi em desespero. Não tinha mesmo feito. Nos meus piores momentos, tinha sido esse o meu consolo. Que havia outros que tinham feito pior. Que outros tivessem feito mais danos.
Tinha começado no Instagram. A partilhar fotografias de comida saudável. Saladas arco-íris, taças de açaí, bolas energéticas. Começou por ser só um hobby, enquanto andava na faculdade, mas foi na altura certa. Os meus seguidores não paravam de aumentar. Fiz um curso de fotografia e um curso de media digital.
As pessoas começaram a convidar-me para seminários de saúde e bem-estar. Eram salas enormes de mulheres que queriam ouvir o que eu tinha a dizer, que me tiravam fotografias. Aplaudiam quando eu falava, republicavam as minhas fotografias e comentavam as minhas publicações. As empresas pagavam-me pelo marketing indireto. Comecei a acreditar que era especial. Que aquilo era a vida extraordinária para a qual estava destinada.
Algumas pessoas que o meu pai conhecia na comunicação social contactaram-me para desenvolver uma app. Foi um sucesso instantâneo. Os sete dias de detox e o mês de alimentação saudável eram os que vendiam mais. Pagaram-me o carro e fiquei com condições para sair de casa.
Talvez se me tivesse ficado só por aí, tudo tivesse corrido bem. Mas houve um dia em que uma mulher me contactou e me contou que andava a tentar ter um bebé, mas estava com dificuldade em engravidar. E que depois seguiu a minha dieta e engravidou. Colocou-me uma ideia na cabeça. Uma nova app, uma dieta para ativar e encorajar a fertilidade. A Mãe Miranda.
— Mãe Miranda! É isso. É mesmo você. — O brilho revelador do ecrã do seu smartphone resplandeceu por debaixo da porta. A sua voz soou convicta e acusatória, tal como a de todos online. — É preciso ter muita lata. A minha irmã comprou a sua app…
— A maioria das pessoas diz que me pareço com a Julianne Moore em jovem. — Tentei dizê-lo sem raiva na voz, mas pela primeira vez em dias, a minha temperatura corporal subiu. A mulher não parava de falar. Até a Rosie na caixa registadora ouvia.
Bloqueando a porta com o meu corpo, virei a fechadura, deixando a mulher presa lá dentro, ainda a falar sobre a pessoa horrível que eu era. Sou. Saí pela porta para o armazém, vasculhei no meu cacifo à procura da minha mala, chaves e telefone. Tirei a minha identificação e pendurei-a num cabide.
Estava quase a sair pela porta das traseiras quando algo dourado me chamou a atenção. De algum modo, o meu colar de berloque tinha ficado enrolado no cordão da placa de identificação e estava pendurado, ainda a balançar ligeiramente do movimento da sua apressada remoção. Agarrando-o de volta, segurei-o com força na mão. Ainda estava quente da minha pele e parecia transmitir uma sensação de calma. Como se de alguma forma me ligasse à família da minha mãe através dos anos e oceanos. Como se talvez me oferecesse a possibilidade de ser uma pessoa diferente.
Não havia ali nada para mim. As batidas vindas da cabine de prova fizeram-me ter quase a certeza. Abri a pesada porta das traseiras, ignorando o alarme acionado pela minha saída, e senti o calor do sol do meio-dia a aquecer-me. Respirei fundo. Atualmente, o ecrã vazio do meu telefone já não era um choque tão grande. Antigamente tinha um dilúvio de mensagens e notificações. Agora mostrava simplesmente a data e hora. Um cenário de fundo inócuo com um protetor de ecrã padrão.
Abri a primeira página da Qantas, convencida de que se o fizesse depressa, não me ia sentir tão mal. De que não teria hipótese de mudar de ideias. Demorou mais a calcular as horas e preços dos voos do que eu esperava. A qualquer altura podia ter fechado o navegador, considerado ser má ideia e regressado para dentro da loja com o rabinho entre as pernas. Mas não o fiz. O preço, quando surgiu, fez-me ficar sem fôlego. O Natal estava próximo e só havia tarifas disponíveis em executiva. Custavam muito mais do que eu tinha na minha conta bancária, muito mais do que eu teria gastado no auge do meu sucesso.
Só havia uma opção. Ele atendeu ao primeiro toque, mas fazia sempre isto com as filhas. Quaisquer que fossem as nossas diferenças, estava sempre disponível para mim. Não falou de imediato, acabando a sua conversa antes de se dirigir a mim. Eu esperava que se tivesse esquecido da nossa conversa na outra noite.
— O que se passa?
Cada telefonema era uma lembrança daquele que eu lhe tinha feito meses antes, em lágrimas e desespero. O pânico na sua voz ainda não tinha desaparecido por completo, mas estava agora mais suave.
— Pai?
— Sim, pequerrucha. — A frustração misturada com o alívio de não ser urgente. De eu não estar a soluçar como da outra vez.
— Acabei de ver um livro incrível para a Fleur. Para o Natal. Gostava imenso de comprá-lo para ela, mas… — Deixei a frase por acabar.
— Mas o quê? — Agora decididamente com mais frustração do que alívio. Murmurou algo a alguém, afastado do telefone.
— É caro.
Um suspiro.
— É sobre os jardins em redor do Lago Como. — Foi um golpe baixo. O pai tinha levado a Fleur a Itália na lua-de-mel e falavam muitas vezes sobre a possibilidade de lá voltarem assim que as miúdas acabassem a escola. Tentei não pensar em como esta minha pequena excursão os podia voltar a atrasar um par de anos.
— Isto não pode esperar?
— É o último. São de um fornecedor estrangeiro e não conseguem mandar vir mais antes do Natal. Queria só comprar-lhe alguma coisa bonita como agradecimento. Por tudo.
A vergonha fez-me a bílis subir à garganta e engoli-a de volta. Estava a ficar mais fácil lidar com isso com o tempo, como se tivesse tido terapia de exposição ao mau comportamento. Ainda assim, isto era a pior situação possível para mim. Apesar de tudo o que as pessoas diziam de mim, tudo o que fiz foi com boa intenção. Pensava genuinamente que estava a ajudar as pessoas. Desta vez, não tinha tal ilusão. Forcei-me a recordar-me da cara do meu pai no escritório na outra noite. A forma como se fechou em copas e não me disse mais nada sobre a minha mãe. A forma como mantinha segredos. A forma como me estava a mentir.
— Eu passo-te à Susie. — A sua secretária. Ela geria-lhe a vida. E as finanças. Dar-me-ia as informações do seu cartão de crédito. Ia pedir o American Express, pois sabia que não tinha limite e, bom, pelo menos receberia pontos disto.
— Obrigada, pai.
— E, Miranda?
— Sim? — Já o tinha em alta voz a essa altura, a atualizar rapidamente o ecrã para que o bilhete não se perdesse.
— Sei que não preciso de dizer isto. — Sinto-o a hesitar. — Mas só o livro, está bem? — Vergonha de novo. Quente e ácida. Mas a essa altura já mal conseguia notar.
— Está bem. — Passou-me à Susie e ela deu-me as informações. A transação passou sem qualquer problema. Ia no próximo voo para Heathrow, graças ao meu pai.
Como referi: bater no fundo.
7
— JÁ ALGUMA VEZ esteve nesta parte do país? — perguntou-me o taxista enquanto nos aproximávamos de Barnsley pela primeira vez. Toda a zona rural estava banhada por uma luz tépida, com o dia indeciso na sua chegada ou partida.
— Não.
— Vai ter uma surpresa. — O carro abrandou à saída da autoestrada e entrou numa estrada local mais pequena.
A terra em redor começou a abrir-se em campos e, por detrás deles, colinas por desbravar cobertas de fetos para os quais eu não tinha ponto de referência. A viagem interminável de avião, seguida por uma longa espera em Heathrow pelo autocarro e agora um táxi para a cidade mais próxima: Não fazia a menor ideia se era de dia ou de noite, quanto mais onde raio estava, ou como se chamava a fauna local. Era bastante diferente do cenário ameno e aconchegante que tinha visionado para a minha chegada a Barnsley. Sabia que tinha sido uma fantasia, mas no meu estado desorientado e cheio de jet lag, começava a ter dúvidas sobre o meu plano de aparecer sem avisar.
À distância, um animal desconhecido estava parado sem se mexer num afloramento rochoso.
O taxista pareceu pressentir a minha confusão. — É a ponta do pântano. Agora seguimo-lo a toda a volta até Barnsley — explicou.
— Que animal é aquele?
— Um veado. São ferozes por aqui. Há conversas sobre abatê-los, especialmente depois do acidente, mas já sabe como é, os grupos dos direitos dos animais e o gosto… — Deixou a frase por acabar e remexeu-se no banco.
O acidente?
Passado mais um instante, acrescentou: — Tem roupa quente?
— Sim, acho que sim. Tenho um bom casaco e botas. É a isso que se refere?
Os seus olhos examinaram a minha roupa de viagem ao espelho. A camisola de algodão e as calças de ganga que tinham parecido apropriadas para o crescente calor do verão australiano não chegavam para o frio cortante com o qual fui confrontada quando saí do autocarro. Vi os seus olhos passarem pelo colar de berloque da minha mãe ao meu pescoço. Brilhava aos últimos raios de luz da tarde e tentei enfiá-lo para dentro da roupa.
— Vai precisar de roupa prática por aqui. Botas de borracha. Equipamento impermeável. — Olhou para mim pelo retrovisor, medindo-me de alto a baixo. — Não me parece que as coisas da Daphne lhe vão servir.
A minha pele, debaixo das suas camadas de roupa nada prática, arrepiou-se ligeiramente. Ficámos em silêncio enquanto o dia se transformava em noite, com a escuridão a instalar-se com rapidez. Por fim, após percorrer um longo caminho que se seguiu a uma curva na estrada, coberto de ambos os lados por sebes descuidadas, o taxista parou o carro num pequeno desvio.
Ao lado, eu conseguia distinguir a forma de um par enorme de portões de ferro claramente fechados a cadeado por uma robusta corrente. Havia uma tabuleta com letras douradas a anunciar a Casa Barnsley, mas tinha a luz por cima apagada.
— Eles não sabem que você vem. — Era uma afirmação e não uma pergunta.
A minha confusão deve ter-me transparecido na cara. O taxista não pareceu acreditar em mim quando lhe assegurei do contrário. Não esperava que estivesse tão escuro quando chegasse. Não esperava que parecesse tão… abandonado. — Porque é que não lhes faz um telefonema, querida?
Sim, porque é que não faço?
Pensei com rapidez.
— O meu telefone não funciona aqui. Há alguma outra maneira de entrar?
— A família usa a entrada privada ao fundo da rua.
— Sim. — Tentando soar mais confiante desta vez, acrescentei: — Foi o que me disseram, lembrei-me agora.
Esperei. O taxista hesitou e depois suspirou. Libertou o travão de mão e fez o carro voltar à estrada.
— Quem é que você disse que era, mesmo?
— Uma amiga. Da família. — Tinha sido uma decisão repentina mentir. Não sei bem porquê. Reverter a situação. Não queria que aquele homem fizesse perguntas.
— Eles não têm muitos amigos a aparecer ultimamente.
Observou-me com atenção pelo espelho retrovisor. Só podia esperar que a escuridão em redor estivesse a disfarçar um pouco os meus nervos. A última coisa de que precisava era de perguntas. Tinha retirado a carta da Sophia do escritório do meu pai. Ardia-me no bolso do casaco. Era certamente imaginação minha, mas parecia irradiar calor enquanto avançávamos lentamente pela estrada alinhada por árvores, como se estivesse a apanhar alguma espécie de sinal vindo da paisagem.
— Cá está. A Casa Barnsley — disse enquanto parávamos de novo, apenas um pouco mais à frente na estrada.
Os portões estavam abertos. O taxista hesitou antes de se decidir a continuar com um arranque tão subtil que me empurrou contra a tensão do meu cinto de segurança.
O caminho, agora fora da estrada principal, era serpenteante, e nalguns sítios caía abruptamente para se encontrar com o agitado mar cinzento. — Você parece-me familiar — disse o taxista, olhando-me pelo retrovisor. — Apareceu nas notícias?
Tinha aparecido, mas parecia-me improvável que as notícias das minhas desgraças se tivessem espalhado até tão longe. Antes de tudo acontecer, costumava sentir uma leve excitação quando as pessoas me reconheciam. Costumava sentir-me especial. Mesmo que fosse raro, gostava. Era uma das coisas de que sentia falta na minha vida antiga. — Não vejo muito as notícias — respondi e era verdade. Muito para desespero do meu pai, eu nunca tinha tido sede de notícias como ele. Tal como muitas pessoas, só as achava interessantes quando tinham alguma influência na minha própria vida, e depois de repente, no ano anterior, a minha vida tornou-se notícia e perdi todo o gosto por elas. Sabia por experiência própria quão destrutivas podem as notícias ser para uma pessoa.
Ou uma família.
Que foi a razão de eu ter parado de procurar Barnsley e a família Summer no Google, pouco tempo depois de ter começado. Com certeza que apreciei o frenesim inicial de me refastelar com a história da casa e de ler sobre o restaurante, mas havia algumas ligações em que não conseguia clicar. Algumas publicações que não conseguia ler. Depois do que tinham escrito sobre mim, tinha jurado nunca mais ler nada escrito nas suas páginas.
— Você é parecida com aquela atriz, é isso. Por um momento achei que a conhecia.
Suspirei de alívio.
Existiam lacunas no meu conhecimento, mas preferia assim. Ia descobrir em primeira mão ou não descobrir de todo. Não estava interessada no julgamento de quaisquer outros feitos na comunicação social.
Como que se lesse a minha mente, o taxista disse: — A Internet por estes lados não é das melhores.
— Não faz mal, posso procurar um sítio qualquer na cidade se precisar de ficar online — disse eu, sem ter bem a certeza a que cidade é que me estava a referir, esperando que algures neste isolamento se escondesse uma cidade, de preferência com um café acolhedor e ligação WI-FI gratuita. Por muito que estivesse a gostar de estar offline, ainda era de alguma forma reconfortante saber que existia.
Chamem-me só Patty Hearst.
— Que cidade é essa, querida?
— Aquela de onde saí do autocarro, South Bolton.
— Deu uma vista de olhos ao local? — Ele riu-se. — É só mesmo aquilo, uma paragem de autocarro na rua principal. Não há Internet em cafés escondidos, sabia?
— Há alguma biblioteca?
— Não. Não do tipo a que se refere. A Jean Laidlaw gere uma biblioteca, mas é mais uma sociedade histórica. E é em Minton, e não em South Bolton. Será Minton o local para onde quererá ir, e não South Bolton.
— Certo. — Isso pode vir a dar jeito mais tarde. Fiz uma nota mental para fixar Minton. E a Jean Laidlaw.
Nuvens baixas, que mal se viam no escuro, moviam-se na nossa direção, e as primeiras gotas de chuva aterraram no para-brisas. — Mesmo na hora certa — disse o taxista do banco da frente, fazendo-me outro olhar curioso ao espelho. Havia mais qualquer coisa no seu olhar desta vez. Um aviso.
Escolhi ignorá-lo enquanto contornámos a última curva, saímos debaixo das copas das árvores e vi a casa pela primeira vez. A magia de Barnsley entrou-me nos ossos a partir desse preciso momento.
Não era o que eu estava à espera. Parecia diferente vista das traseiras. Mais pequena, mais como uma casa do que o forte colossal que eu tinha congeminado na minha mente. Não sabia que a escuridão estava a esconder grande parte da casa e que a luz brilhava só nas janelas da parte da casa que a família usava, e que essa era uma parte muito pequena. A casa revelar-se-ia por acréscimos, tal com a família que vivia dentro dela.
Para mim, os rastos escuros das trepadeiras nuas de hera que emolduravam as janelas a brilhar e as portas eram muito bonitas, muito mais encantadoras do que as imagens iluminadas pelo sol que eu tinha visto. Mas o local estava deserto. Tínhamos parado numa grande rotunda de gravilha ao lado de um pequeno vestíbulo. Não havia carros em lado nenhum. Não conseguia ver quaisquer hóspedes. O jardim estava na escuridão.
E se a minha intuição estivesse correta, eu era a única pessoa no local. O meu plano de chegar como hóspede anónima do hotel estava tremido.
Veio um Labrador preto a correr da parte lateral da casa e o taxista deu um grito de alegria. Saltou para fora do carro e deixou que o cão lhe saltasse em cima, sem se incomodar com as patas lamacentas ou com a chuva miudinha que caía. A luta poderia ter continuado indefinidamente caso eu não tivesse ido buscar a minha mochila ao porta-bagagens. Ele desembaraçou-se e intercetou-me.
O cão saltava em seu redor, enlouquecido e incapaz de se acalmar. A sua cauda bateu-me na perna, com força, e eu gritei. O taxista olhou para mim de forma estranha e deu uma palmadinha tranquilizadora na cabeça do cão. — Não faz mal, Thomas, não faz mal — disse em tom apaziguador.
— Não sou muito dada a cães — murmurei, como se não tivesse sido evidente. Paguei ao taxista, a contar cuidadosamente as notas desconhecidas, incerta sobre a necessidade de lhe dar gorjeta. Decidi dar-lhe cinco libras, principalmente por não ter feito demasiadas perguntas. Ele pareceu deliciado com isso e estava prestes a ir-se embora quando mudou de ideias e se aproximou.
— Tem a certeza de que fica bem a entrar ali?
— Ótima. Estão à minha espera. — O cão ainda continuava a rondar. Não houve movimento dentro da casa, nenhuma luz se acendeu no vestíbulo. Com certeza que alguém seguiria o cão até à rua a qualquer momento, senão qual seria o objetivo de tê-lo?
No pequeno vestíbulo do lado de fora da porta das traseiras estava uma casota de cão enferrujada e montes de sapatos descartados. Botas de borracha e ténis, chinelos de enfiar no dedo e sapatos de uniforme escolar todos amontoados em conjunto numa pilha indiscriminada. Tudo naquilo mostrava felicidade doméstica: uma família feliz a viver no interior.
— Não tem de se preocupar comigo — disse eu, com a mão a subir instintivamente até ao colar, tocando-o por cima do algodão leve da minha camisola.
A porta do vestíbulo abriu-se e a cabeça de uma mulher surgiu à espreita. Um gato esgueirou-se atrás dela. O cão ladrou e o taxista enfiou-se depressa para dentro do carro. Ligou o motor e as rodas viraram com tamanha rapidez que pequenos pedaços de pedra se levantaram e me bateram nos tornozelos.
Foi só quando o barulho do carro se desvaneceu que a mulher falou.
— Vem por causa da vaga para ama?
8
— VAI TER DE ENTRAR para falar com o Max — disse-me, assobiando para o cão logo imediatamente a seguir.
O Thomas olhou desconfiado para a mulher e depois foi direito a ela, dando-lhe um encontrão à passagem. Ela soprou a franja loura para fora dos olhos, um gesto que pareceu tanto transmitir uma frustração bem-humorada como uma reação irónica à minha chegada. — Sou a senhora Mins. Espero que venha a ser um prazer conhecê-la.
Usava argolas douradas nas orelhas — maiores do que eu pudesse achar apropriado para o campo — e vestia um vestido cruzado num tecido de algodão justo. O castanho não seria cor que eu usaria, mas ficava muito bem à senhora Mins. Ela era muito mais velha do que eu, talvez estivesse no início da casa dos cinquenta anos, mas estava muito bem conservada para a idade. Senti um despeito deselegante, apesar de ser pelo menos vinte anos mais nova.
A vaga para ama. Eu não tinha vindo para trabalhar como ama. Tomei conta de crianças quando era adolescente — quem não tomou? — e não tinha qualquer intenção de voltar a fazê-lo. As birras, as refeições caóticas e os minutos a passarem devagar. Não, obrigada.
Mas à medida que os minutos passavam, ficava mais difícil dizer que não. Por que outra razão estaria eu ali? Não tinha de facto uma razão para ter vindo, pelo menos não uma que pudesse anunciar de imediato. Não esperava ser encostada à parede assim. Os avisos do meu pai ecoavam-me ao ouvido: É melhor deixar algumas coisas — algumas pessoas — no passado.
Os meus planos de pura e simplesmente aparecer e de falar com a Sophia pareciam-me débeis, agora que estava ali parada na cozinha. Ela era uma adolescente. Eu não podia simplesmente aparecer e pedir para falar com ela sem acionar toda a espécie de alarmes. Devia ter passado a noite na cidade e orientar-me. Devia ter um plano mais elaborado. Agora era demasiado tarde para isso.
A cozinha era acolhedora e muito mais pequena do que eu tinha esperado pelo tamanho visto de fora. Estava banhada por uma luz suave vinda de umas luzinhas penduradas sobre uma cómoda antiga. Não havia crianças à vista e, ainda assim, havia sinais delas por todo o lado. Era rústica, comparada com a cozinha comercial que eu costumava alugar para testar as minhas receitas, e sem qualquer sinal do equipamento caro e da tecnologia que outrora achava indispensáveis.
Os sinais de um lar feliz estavam por todo o lado: mochilas atiradas para o chão, um cesto de roupa lavada empurrado contra o armário, cadernos de trabalhos de casa abertos em cima da mesa da cozinha. Uma panela respingou ao lume, com a chama tão alta que o molho vermelho se borrifava sem se notar pelo topo do fogão a lenha. A senhora Mins estava à espera de que eu dissesse alguma coisa. — Sim, igualmente — respondi esticando a mão para apertar a dela.
— Vem por causa da vaga para ama? — perguntou com uma pequena faixa de cor a subir-lhe ao decote exposto. Havia medo no tom de voz ou teria sido alguma coisa que imaginei em retrospetiva? A voz do meu pai de novo: Está na hora de cresceres.
Um emprego era crescer, não era?
— Sim. Sim, vim — respondi. O alívio familiar da mentira espalhou-se pelo meu corpo, com o entusiasmo a trazer-me ousadia. Sempre trouxe. Dobro-me e abro o fecho da frente da minha mochila. — Tenho aqui algures algumas recomendações ou chegou a receber aquelas que enviei por email?
— Não se preocupe com isso. Tenho a certeza de que o Max as recebeu. Embora aqui entre nós, ele não lide muito bem com o email. Para além disso, não sei se ele a avisou, mas a ligação à Internet por aqui é um pouco duvidosa.
— Ah, sim, ele disse — respondi agradecida pelos avisos do taxista. Tinha-me ajudado de mais formas do que alguma vez imaginou.
— Venha por aqui para irmos ver o Max. Pode deixar aí a sua mala — disse ela.
Preparei-me para a reunião com o meu tio Max, a perguntar-me quanto é que ele saberia sobre mim ou se saberia sequer que eu existia. Depois do que o meu pai me contou, duvidava até que tivesse lido as cartas.
A agitação inicial da mentira desvaneceu-se e agora vinha a segunda fase: o medo da exposição. A terceira fase podia resultar em duas formas: euforia pela continuação do engano ou a humilhação devastadora de Ser Descoberta. Eram a primeira e a terceira fase que eu achava muito viciantes.
Que outra escolha é que eu tinha? A carta da Sophia levou-me a acreditar que a situação era bastante delicada. Que não tinha ninguém em quem confiar. A sua única opção era alguém que nunca tinha conhecido, do outro lado do mundo. Talvez fosse melhor manter a minha identidade só para mim até perceber qual seria o meu próximo passo, até descobrir porque é que ela se sentia tão desesperada. Esta era a minha única forma de entrar, por agora. Para além disso, eu tinha tomado conta da Ophelia e da Juliet desde que eram pequenas. Conseguia tratar de algumas crianças inglesas pequenas.
A senhora Mins encaminhou-me por um corredor alinhado com arte infantil emoldurada em molduras antigas em folha de ouro. Alguém, no passado, tinha tido o sentido de humor de remover o conteúdo original e substituí-lo pelos desenhos pintados com os dedos, esguichos abstratos de aguarelas, para além de outras fotografias de família. O resultado era uma massa turva de felicidade.
E ainda assim, a Sophia tinha-me mandado a carta. O hotel, outrora famoso e detentor de prémios, parecia estar encerrado. Não havia sinal da Daphne. Não havia sinal das crianças felizes das fotografias. Os alarmes estavam a soar-me naquilo em que me considerava especialista: havia mentiras em todo o lado, se se soubesse o que procurar.
A senhora Mins bateu ao de leve a uma porta fechada. Veio uma voz de dentro e ela abriu-a. A cabeça familiar do Labrador emergiu e voltou a desaparecer.
— Acabámos de receber uma reserva para um casamento em setembro — estava a senhora Mins a dizer enquanto eu fiquei parada atrás dela no corredor escuro.
— De quantos quartos? — perguntou o Max. Não conseguia vê-lo, por isso imaginei-o sentado à lareira a fazer festas na cabeça do Thomas.
— O hotel inteiro.
— Ótimo. Já é qualquer coisa. O que é que está a passar com as ervas daninhas?
— O senhor Mins diz que estão a crescer como loucas no relvado da frente. Mas ele tem um plano.
— Mais alguma coisa?
A esta altura, eu não tinha bem a certeza de que a senhora Mins fosse mencionar a minha presença, de todo. Imaginei-me a ficar presa no corredor, a rondar pela parede de fotografias num limbo nostálgico até que alguém para além do cão reparasse na minha presença.
A senhora Mins entrou no escritório e fechou a porta. Agora tinha ficado mesmo no escuro. Passaram dez minutos. Escutei com atenção, mas as paredes eram grossas e só um murmúrio baixo era percetível. Ainda não havia sinal — audível ou outro — das crianças. Perguntei-me onde estariam e depois lembrei-me de onde estava. Numa casa daquele tamanho podiam estar em qualquer lado. Podiam passar-se dias até me cruzar com elas. Ou será que as vão colocar em parada à minha frente, ao estilo Von Trapp, num hall de entrada qualquer ainda por descobrir?
Quando eu estava a sorrir de forma maliciosa com a ideia, a porta voltou a abrir-se e a senhora Mins mandou-me entrar.
9
SE HÁ uma pessoa no mundo que percebe bem a diferença entre uma persona apresentada na Internet e a realidade dessa pessoa, devo ser eu. Sei tudo sobre filtros, ecrãs fumados, omissões deliberadas e inclusões estratégicas. Percebo de marketing, branding, criação de imagem e relações públicas. Pensei que estava pronta para o Max porque tinha descoberto a sua conta no Instagram.
Estava pronta para a pálida imitação do homem das imagens. São sempre. Os homens nunca são tão bronzeados ou altos como parecem online, e as mulheres são sempre mais bronzeadas e mais magras. Toda a gente parece mais velha na vida real. Ou IRL[1], como eu lhe costumava chamar. O Max era uma exceção a essas regras.
Não postava imagens há mais de um mês, mas a conta ainda estava ativa. No começo, tinha sido um tesouro de informações, até eu ter chegado ao familiar ponto doentio de saturação e de me ter forçado a parar de passar as fotografias. A última imagem que tinha publicado era da Daphne ao pé de uma fogueira ao ar livre com um copo de vinho quente na mão.
As fotos mais antigas apresentavam uma vida encantadora: veleiros ao pôr-do-sol, férias nos Alpes e crianças a correr em pedaços intermináveis de relvados. Na vida real, agora sabia que a relva verdejante tinha sido invadida por ervas daninhas e estava à espera do equivalente humano. Um homem no seu auge, abatido pelo insidioso rastejar da vida.
Estava errada.
Apesar do cabelo grisalho do Max, tinha uma aura jovem e uma natureza divertida no olhar quando sorria, tal como estava agora a sorrir. Parecia mais novo do que o meu pai. Imagino que a sua idade andasse pelos quarentas e muitos. Se a minha mãe estivesse viva, teria quarenta e oito anos. Suspeitava que ele fosse só um ano mais velho ou pouco mais. A sua familiaridade desconcertou-me por um instante, até me ter lembrado de que era suposto eu ser a ama. Não devia deixar que o meu reconhecimento se mostrasse. Calma, Miranda. Vai com calma. Os meus olhos deslizaram aleatoriamente pela divisão, ansiosa por encontrar outra coisa qualquer para onde olhar.
Concentrei-me na sua roupa. Vestia uma camisola preta de gola alta que lhe deveria ficar ridícula, mas que, contra todas as probabilidades, não ficava. Mostrava-lhe a constituição magra e não o fazia parecer ter carne a mais à volta da papada, da mesma forma que parecia nalguns homens.
— Olá, sou o Max Summer — apresentou-se. Levantou-se e esticou-me a mão para a apertar, mas permaneceu atrás da secretária, forçando-me a aproximar-me e sair da sombra onde eu estava a tentar ficar o máximo de tempo possível.
— Miranda — respondi, deixando propositadamente o apelido de fora, Courtenay, mesmo apesar de ter a certeza de que não me iria distinguir. Não tinha a certeza de que se lembraria ou sequer conheceria o nome do marido da minha mãe, mas não me pareceu valer a pena o risco.
— Miranda — repetiu ele de imediato, e olhou para mim de alto a baixo. Senti os seus olhos em todas as partes do meu corpo e senti-me aliviada por estarem, na maioria, cobertas de roupa. — Veio reclamar o seu reino?
Recriminei-me.
O Max deve ter visto o medo nos meus olhos, pois primeiro riu-se e depois disse: — Então não é fã de Shakespeare, hã?
— A minha mãe era… — respondi antes de me calar.
Estava habituada a que as pessoas comentassem o meu nome na Austrália. Ou, de forma mais precisa, estava habituada a que gritassem o meu nome em som agudo, numa imitação dos últimos minutos do filme Piquenique na Montanha Misteriosa. Não estava habituada a que as pessoas fizessem a ligação a Shakespeare, a ligação que a minha mãe tinha pretendido.
Se o Max não se tinha já apercebido de quem eu era, precisava de parar de lhe dar dicas. As minhas motivações eram tão retorcidas e dissimuladas que deixei que a realidade retrocedesse. Tinha-me esquecido do que vinha ali fazer e de quem eu era, aos olhos do Max. Por agora, não queria que soubesse que era sua sobrinha. Se quisesse dar um bom espetáculo a ser ama, tinha de pensar como uma. — Onde é que estão as crianças?
O Max suspirou como alguém que tinha sido indevidamente interrompido e desiludido de seguida pela intervenção. — As crianças — repetiu, com o brilho no olhar a ficar ligeiramente menos brilhante.
— Posso voltar noutra altura — disse eu, de repente ciente de que já era tarde e da minha aparição sem aviso prévio. Até a mim não me parecia muito bem a minha chegada surpresa numa noite fria de inverno mesmo antes do Natal.
O Max ignorou a oferta. — A Sophia é a mais velha. Tem doze anos e já não sente que precisa de uma ama. E tem razão. Não está cá tanto por ela, mas mais pelos outros. Principalmente pela Agatha, mas já falaremos dela. A Sophia é como a sua mãe, obstinada e apaixonada e capaz de fazer o que quer que tente. É atlética, mas também esperta e tem um julgamento astuto de carácter. Vai avaliá-la com bastante rapidez, por isso esteja preparada. Depois do Natal está matriculada num colégio interno aqui perto — mas virá a casa aos fins de semana — e mal pode esperar. Fartei-me de a ouvir dizer-me como odeia Barnsley e tenho a certeza de que vai mudar de tom assim que passar um período na escola. Não sabe a vida boa que tem.
Esta descrição não me disse nada, de facto, e não parecia a rapariga que tinha escrito à minha mãe. Ele podia estar a falar de qualquer miúda adolescente que conheço, como a Ophelia ou a Juliet, ou até eu naquela idade. A maioria dos miúdos com doze anos que eu conhecia estavam a descobrir-se a eles próprios e a acharem que o resto da população não interessava. Perguntei-me o que teria mesmo motivado a Sophia. Já sabia que ela tinha desplante suficiente para enviar uma carta a alguém do outro lado do mundo que nunca tinha conhecido e esse comportamento parecia casar com a descrição feita pelo Max.
— O Robbie é o meu rapaz e é do género sossegado. A maioria dos seus amigos são rápidos a lutar, a fazer piadas mal-educadas e a arranjar problemas, mas o Robbie afasta-se e fica a observar. Não se junta até ter a certeza sobre a situação e então, só mesmo se quiser. — O Max faz uma pausa e eu aproveito a oportunidade para perguntar a idade do Robbie. Acabou de fazer dez anos. — Não os celebrámos devidamente, não desta vez…
Senti a senhora Mins a agitar-se atrás de mim. Tinha-me esquecido de que estava ali e parecia que o Max também. — Obrigado, senhora Mins, eu tomo conta disto.
— Não preferes que eu…
O Max simplesmente abanou a cabeça e voltou a sentar-se na cadeira. Sem ser convidada, sentei-me na cadeira em frente. Uma mola dura tinha irrompido pela pele rachada e fazia-me pressão nas costas. Esperava que houvesse mais cuidado com a manutenção noutras áreas da casa.
— O Robbie gosta muito de edifícios antigos: fortes, castelos, qualquer coisa que tenha uma história ligeiramente violenta. Acho que gosta um pouco de se ver como um caça-fantasmas. — O Max deu um risinho. Eu não. Caçar fantasmas não me parecia uma noção assim tão absurda naquela casa.
— E depois temos a Agatha. A minha querida pequena Agatha. É a criança com o ar mais angélico que já se viu. — Ele entrou em êxtase a descrever a Agatha e os seus caracóis louros quase brancos, os seus olhos azuis e a sua boca em formato de botão de rosa. Achei que devia estar a dourar a pílula até conhecer a Agatha e ver com os próprios olhos que ele não tinha exagerado. Na verdade, acho que não lhe fez jus: a Agatha Summer era a criança mais divinal que alguma vez vi na vida. Mas o que ele deixou de fora da sua descrição acabou por ser bem mais importante do que os detalhes que incluiu.
— Podemos agora entrar e conhecê-la? — ouviu-se uma vozinha atrás de mim.
Esperando um sorriso indulgente da parte do Max, olho em direção à porta na expetativa. Estava mais do que preparada para conhecer os donos de todos aqueles sapatos na porta das traseiras, para colocar caras nos nomes e descrições, para conhecer os meus primos. A senhora Mins estava parada à porta, a fazer de conta que examinava as estantes.
Até de onde eu estava sentada, conseguia ver a lombada distinta d’ A casa das noivas. Era umas das edições especiais de capa dura, com a sobrecapa marmoreada. Aquilo não me surpreendeu. Imaginei a minha mãe a enviar cuidadosamente um exemplar, possivelmente a escrever uma nota lá dentro. Esperava que a dada altura conseguisse ficar sozinha na divisão para verificar. O que me surpreendeu foi o Max ter conservado o livro, apesar daquilo que o meu pai me tinha contado. Não pela primeira vez, senti que não tinha apanhado a história completa.
Ignorando o pedido, o Max disse, tardiamente e de alguma forma redundante: — E esta é a senhora Mins.
Agora forçada a olhar devidamente para mim, a senhora Mins esticou a mão como uma pata. Sem a certeza se a deveria beijar ou apertar, decidi-me pela última. — Imagino que o Max lhe tenha contado tudo sobre a casa.
— Um pouco, sim. — Na verdade, não me tinha contado nada, quer sobre a casa, quer, de forma mais alarmante, sobre a Daphne. Havia sinais da sua presença por todo o lado e, ainda assim, ninguém a tinha mencionado. — Ah, só sobre as crianças, na realidade.
A senhora Mins interpretou isso como um sinal para se lançar num discurso que parecia ter sido ensaiado. — A família Summer vive na Casa Barnsley há várias gerações, mas só recentemente é que a necessidade de diversificar e gerar mais rendimento se tornou urgente. Entre a gestão do local e da ilha, o dinheiro de família tinha desaparecido todo e os impostos sucessórios estavam a piorar a situação. O senhor Summer não teve opção.
— Sou eu — clarificou o Max.
— Chamam-se todos Summer, sabe? Pode tornar-se confuso.
— E muitas vezes também nos chamamos Maximilian. A mim chamam-me Max. Ao meu pai chamavam Maximilian.
— O senhor Summer — este, e a sua esposa — começaram o hotel. — Reparei que a senhora Mins não se referiu à Daphne pelo nome. — Foi, e é, um grande sucesso. — Ela tinha assumido o tom arrogante de um guia particularmente consciencioso do Fundo Nacional. A dada altura quase fiquei à espera de que falasse de lado para um walkie-talkie.
— E voltará a ser. Acabámos de receber uma reserva para setembro, não foi, Meryl? — O Max olhou para a senhora Mins, com uma vulnerabilidade evidente no rosto.
Ela sorriu-lhe de forma tranquilizadora. O rubor voltou-lhe ao peito. Esperei que o Max interviesse, para fazer regressar a senhora Mins aos assuntos domésticos, mas ele só acenou de forma encorajadora, fechando os olhos alegremente durante alguns momentos particularmente bajuladores, enquanto ela continuava a contar-me sobre a casa durante os tempos de guerra e a contribuição que a família tinha dado à pequena comunidade piscatória, ambas no passado como grandes proprietários, e agora como uma enorme atração turística. Era óbvio que a senhora Mins levava o seu trabalho muito a sério e que tinha um investimento emocional no hotel, mas era menos óbvio porque é que ela tinha de mo contar com tanto detalhe.
Mexi-me no lugar. Queria perguntar sobre a Daphne, mas não sabia como, sem revelar o quanto sabia. — A sua… — Engasguei-me com as palavras. — A sua es… Posso conhecer as crianças? — perguntei perdendo a coragem no último instante.
Um raspar na porta foi seguido por outra batida, de metal a bater na madeira, um silvo. Perguntei-me durante quanto tempo é que ele planeava ignorá-las.
— As crianças? — O Max olhou para mim com ar confuso.
— Sim, achei que seria bom conhecê-las…
— Vai aceitar o trabalho? — perguntou apressadamente a senhora Mins, movendo o seu corpo de novo para a frente da porta. Quase esperei que se atirasse contra ela.
Se ao menos o meu pai estivesse ali para ver aquilo: uma oferta de emprego no espaço de minutos. Sem desculpas desconfortáveis por causa das recomendações em falta. Sem perguntas incómodas sobre o processo judicial. Sem referências nojentas à inoportuna sessão fotográfica em fato de banho que tinha feito para uma revista de domingo. Devia ter-me mudado para o estrangeiro há mais tempo. Tê-lo-ia feito, se soubesse que podia fazer um corte tão limpo com a minha vida antiga.
Não hesitei. Estava ali para ajudar a Sophia. Estava ali para descobrir o que a tinha feito sentir-se tão desesperada ao ponto de achar que tinha de contactar uma parente há muito perdida no outro lado do mundo.
E, a um nível muito mais egoísta, estava ali para saber mais sobre a minha mãe. Se tivesse de contar algumas mentiras durante o processo, bom, paciência. Era a mulher certa para isso. — Sim, adorava. Se me quiserem.
O Max e a senhora Mins olharam um para o outro com alívio. Descrédito. Talvez até surpresa.
— Eu trago as crianças para dentro — disse rapidamente a senhora Mins, como se eu fosse capaz de mudar de ideia e sair por uma das portas do terraço a qualquer altura. Imaginei-a a encaminhá-las, em fila indiana, numa marcha de precisão militar.
A sua escolha de palavras tornou-se clara um momento mais tarde, quando a Sophia e o Robbie se apresentaram, seguidos pela senhora Mins a empurrar a Agatha que estava numa cadeira de rodas.
[1] IRL é a abreviatura de In real life, uma sigla normalmente utilizada nas redes sociais que em português significa na vida real. (N.T.)
10
DORMI MAL nessa primeira noite em Barnsley. Parecia que tinham passado anos desde a última vez que tinha dormido bem. Desde a chegada da carta da Sophia que eu sentia dificuldade em adormecer e, quando adormecia, era atormentada por sonhos fragmentados constantes. Na maioria das manhãs, acordava antes da madrugada, e naquela primeira manhã em Barnsley foi a mesma coisa. Tinha a cabeça a fervilhar. Queria saber porque é que a Sophia tinha escrito a carta. Queria saber porque é que a Agatha estava numa cadeira de rodas. Queria saber onde é que estava a Daphne. Queria saber o que é que aquilo tudo tinha a ver com a minha mãe. Queria saber o que tinha a ver comigo.
A combinação do jet lag e de tantas perguntas às voltas na minha cabeça fez com que voltar a adormecer fosse em vão. Em vez de tentar combater a insónia, decidi explorar o terreno e conhecer o local.
Já tarde na noite anterior, depois de todos termos comido, a senhora Mins tinha-me levado por um estreito corredor comprido para a ala oeste da casa. Semelhante a um claustro coberto, havia uma fila de cabides e cacifos baixos num dos lados, sendo que o outro dava para o que parecia ser um pequeno jardim de rosas. No final do corredor, uma porta pesada escondia outro pequeno átrio com uma mísera escadaria utilitária que levava até aos quartos no andar de cima.
O meu quarto, uma acomodação pequena, mas confortável, com uma casa de banho privativa, ficava ao lado dos quartos das crianças e do quarto principal. Estava decorado num estilo que eu acreditava ser do início dos anos 1990, com um ar de Laura Ashley, que resultava no facto de todas as superfícies lisas estarem cobertas de folhos de tecidos a condizer. O padrão repetido e o tamanho do quarto criavam um efeito ligeiramente claustrofóbico e perguntei-me se seria de propósito. Alguém tinha colocado lá o meu saco e eu apressei-me a verificá-lo assim que a senhora Mins fechou a porta. Os cadeados estavam intactos.
A ansiedade ainda era evidente na minha expressão na manhã seguinte quando examinei a casa de banho. O jet lag apanhou-me na noite anterior e não tinha sequer escovado os dentes antes de cair na pequena cama. Uma banheira, demasiado curta para estar lá deitada, e um pequeno lavatório de parede estavam encaixados ao lado de uma sanita. Verifiquei atrás da porta em vã busca por um chuveiro, mas não havia nenhum. O meu cabelo, no minúsculo espelho da casa de banho, já estava numa situação desesperada. Perguntei-me como é que iria ficar depois de ser lavado numa banheira. A minha pele tinha um ar macilento, como se já se tivesse aclimatado à pálida luz europeia, translúcida o suficiente para revelar o preto azulado da falta de sono debaixo dos meus olhos. Escovei rapidamente os dentes e tentei evitar o reflexo.
A luz malva filtrava-se pela galeria de janelas no corredor silencioso. Parecia que as crianças ainda estavam a dormir. O Max e a Daphne pareciam não ter apreensão em colocar alguém que mal conheciam em tal proximidade aos seus filhos adormecidos, mas agora enquanto percorria o corredor, vi que o Thomas estava enroscado na sua cama à porta dos seus quartos. Levantou a cabeça quando passei e decidiu que eu não era ameaça iminente.
O Robbie estava estiraçado na sua cama de casal de barriga para baixo, destapado e a ressonar baixinho. Aproveitei para examinar o quarto, que tinha todas as superfícies cobertas de recipientes e caixas meticulosamente etiquetadas. As paredes estavam cheias de pósteres de corridas de cavalos a passarem a linha de meta, do género que os proprietários dos cavalos de corrida eram capazes de comprar. Eu não tinha visto quaisquer estábulos quando entrámos, mas senti que havia bastante de que não me tinha apercebido no escuro.
O quarto da Sophia vinha a seguir. Era uma lixeira completa. Apesar das pilhas de roupa amontoadas em cima da colcha da cama, consegui ver imediatamente que estava vazia. Encontrei-a no quarto a seguir, profundamente enroscada à volta da irmã mais nova. A julgar pela noite anterior, tinha observado que a Sophia protegia ferozmente a Agatha. Observava-me com muita atenção quando eu estava ao pé da irmã mais nova. Perguntei-me se dormiam juntas todas as noites ou se tinha sido só devido à chegada de uma estranha à casa. Podia significar que seria difícil apanhar a Sophia sozinha. Nalgum momento, iria precisar de falar com ela sobre a carta.
Seria por isso que ninguém me tinha contado sobre a Agatha? A proteção não podia ser desculpa. Enquanto a senhora Mins empurrava a Agatha até à cozinha, ela não tinha tirado os olhos de cima de mim por um segundo e, em resposta, eu não tinha desviado os meus da cara da Agatha. Se ela achava que algo como uma criança numa cadeira de rodas me ia perturbar, então tinha-me subestimado. O que me enervou de facto foi o Max não me ter contado. Tinha de haver uma razão qualquer.
Ainda mais desconcertante era a ausência da Daphne. Fazia sentido que ela não estivesse ali para a minha chegada imprevista, mas contava que aparecesse para jantar.
O frio foi um choque depois do calor da cozinha. A apertar o casaco e a puxar as mangas da camisola por cima das minhas mãos, dirigi-me para uma ponta da casa e encontrei-me numa vasta extensão de relvado aberto que se estendia até ao mar. Daquele ângulo, a Casa Barnsley era verdadeiramente espetacular.
Levei a mão ao bolso à procura do telefone, por reflexo. Estava a enquadrar a fotografia, a ajustar o filtro, a pensar como ia ficar tão bem no meu perfil, quase a considerar a legenda antes de me ter lembrado.
Mesmo que houvesse cobertura de rede, não fazia sentido. Ninguém queria saber.
A minha publicação mais popular de sempre tinha sido no dia em que lancei a aplicação. Tive milhares de gostos. Outros influenciadores republicaram a minha fotografia. As mensagens diretas inundaram-me a caixa de correio. Foi incrível. A minha fotografia de Barnsley, cheia de grão e luz matinal, iria desaparecer no vácuo. A única pessoa que se iria importar seria o meu pai e por todas as razões erradas. Guardei o telefone.
Ainda não havia sinais de quaisquer hóspedes e parecia tudo calmo, demasiado calmo. Até àquela hora da manhã havia habitualmente atividade num hotel. Normalmente, os jardineiros estariam cá fora e os funcionários dos serviços de quartos estariam a abastecer os carrinhos para o trabalho da manhã. Ali não havia nada. O local estava deserto, silencioso, para além do som sempre constante das ondas a bater na muralha de rochas atrás de mim.
Todos os cortinados estavam corridos nas janelas do andar de cima viradas para mim, e perguntei-me se seriam os quartos de hóspedes. Encostei a cara contra o vidro da janela panorâmica. Era uma espécie de sala de estar, decorada de forma simples e com bom gosto, numa versão de casa de campo com estilo moderno. Uma grande lareira dominava a outra ponta da sala, de grelha vazia. Ou não havia lume nela há algum tempo ou alguém a tinha limpado recentemente de forma meticulosa. Havia revistas dispostas em cima de uma mesa de centro, mas eu não conseguia ver com clareza suficiente para ler as datas.
Esperando encontrar sinais de vida algures, recuei, a planear espreitar por outra janela. Todos os cortinados estavam corridos, mas um baloiçava ao de leve devido a movimento recente. Tinha a certeza de que estavam abertos apenas há instantes. Alucinação? Imaginação? Noite em branco?
Libertei-me da ideia. Disse a mim mesma que tinha sido só uma ilusão ou uma corrente de ar. Ou finalmente a Daphne. Ou que havia hóspedes, afinal de contas. Talvez alguém tivesse chegado tarde na noite anterior, a implorar por um quarto. Fazia sentido haver hóspedes num hotel. Mais sentido do que qualquer outra coisa que o meu cérebro estava a imaginar naquela manhã.
Havia muito para ver à medida que olhava os terrenos em redor, mas estava mais centrada nos pensamentos sobre as pessoas da Casa Barnsley do que sobre o local em si. Os jardins não eram de modo algum acessíveis a alguém em cadeira de rodas. Perguntei-me como é que a Agatha conseguia. Os caminhos eram constantemente interrompidos por lanços de escadas e os relvados estendiam-se à distância, com inclinações acentuadas. Não havia vedações nem quaisquer rampas.
Até a parte da casa onde ela vivia era apertada, com corredores estreitos quase intransitáveis. O Max tinha-a carregado para a cama na noite anterior, mas ele não podia estar por perto o tempo todo. Parecia que todos, incluindo a própria Casa Barnsley, estavam em negação acerca da imobilidade da Agatha.
Queria saber porque é que a Agatha estava numa cadeira de rodas e há quanto tempo, mas não sabia a quem perguntar. Ao Max estava fora de questão, e parecia desapropriado preocupar as crianças com tais assuntos. Mais do que tudo, queria era saber onde é que estava a Daphne.
A senhora Mins parecia a pessoa óbvia a quem perguntar, mas ela aterrorizava-me. Ao jantar, na noite anterior, tinha-me amplamente ignorado, fazendo-me apenas perguntas acutilantes de vez em quando, que pareciam destinadas a destacar as minhas lacunas mal disfarçadas.
Mesmo então, eu sabia que expor-me mais a ela seria tolo e possivelmente até perigoso. A Sophia não se lhe tinha referido especificamente na carta, e não fazia ideia do grau de proximidade dela com a família, mas tencionava descobrir. Até lá, iria mantê-la à distância.
Infelizmente, no meio daquela casa, eu não parava de ser atirada de novo para o seu caminho. E naquela manhã não foi diferente. Quando saí da ponta oeste do relvado e entrei na horta, lá estava ela, a tratar de um pedaço de terra que até a mim parecia incultivável, completamente inativo. Perguntei-me se estaria a observar-me, pois não havia outra razão para estar ali ao frio, completamente vestida e arranjada, àquela hora da manhã a revirar solo árido.
11
— SAIU PARA CONHECER o sítio, foi? — perguntou a senhora Mins a arrancar ervas daninhas invisíveis. — Passarinho que madruga apanha minhocas.
A senhora Mins gostava de falar com aforismos batidos. Iria aprender que eram a forma de ela se proteger de pensar demasiado profundamente sobre qualquer coisa, e uma das formas de ter sobrevivido em Barnsley todos aqueles anos.
Dessa primeira vez, levei os seus comentários de forma literal. Era cedo, e pelo que me era dado saber, as minhocas eram uma coisa que serviam no restaurante em Barnsley. E minhocas pareciam ser a única coisa provável de ela poder estar a colher daquele pedaço de terra árida em particular. — São para o restaurante?
A senhora Mins parou de escavar e apoiou-se na enxada. Olhou para mim com atenção. — Não reparou?
Havia muita coisa em que eu tinha reparado nas minhas doze horas, ou perto disso, em Barnsley. Uma governanta sinistra. Uma mãe ausente. Crianças negligenciadas. Uma notória falta de hóspedes. Correntes de ar árticas. Nenhuma delas parecia apropriada de se mencionar. — Reparar no quê?
— O hotel está fechado. Assim como o restaurante. Tem estado assim desde o acidente.
— Mas no website não referem isso — gaguejei em choque. Era verdade. Tinha passado imenso tempo naquele website: a fotogaleria; as sugestões de coisas para fazer na região; a história dos edifícios. Nada daquilo sugeria que o hotel estava fechado, na verdade.
— É referido quando se tenta fazer uma reserva. O Max não quis que fosse demasiado óbvio. Na verdade, nunca tomou de facto essa decisão. Apenas parou de atender os telefonemas e fechou os portões principais.
Pensei no meu rato a pairar sobre o «Reserve Agora!» e a minha decisão de aparecer sem aviso. — Vão reabrir? — perguntei ainda a juntar as peças na minha cabeça.
— Bom, ele deixou-me aceitar aquela reserva para o casamento. Já é um começo. Mas há muito trabalho a fazer, de qualquer modo. — Com uma mão de luva calçada apontou para o jardim além da casa. Naquela manhã, vestia umas calças de ganga e uma camisola azul de pescador, do género que o meu pai usaria para visitar as quintas dos amigos, mas ainda tinha as argolas douradas. Nas suas roupas de trabalho, ainda parecia mais em casa do que na noite anterior, e mais uma vez mais arranjada do que eu alguma vez estaria.
— Há quanto tempo é que está fechado? — perguntei, a pensar até que ponto levaria a minha curiosidade.
Ela não pareceu importar-se. — Há quase um mês. Tive de recusar todas as pessoas que fizeram reservas para o Natal e o Fim de Ano. Todas aquelas reservas. Puf!
— Eles voltam.
— Não tenho assim tanta certeza. O sítio começa a ganhar uma certa reputação.
— Parece-me que já tem uma há um tempo.
Um pequeno som escapou da garganta da senhora Mins. Olhou para baixo e deu um pontapé numa raiz na terra. Parecia que a conversa tinha acabado.
Crescer com a Fleur tinha-me sintonizado com a arquitetura paisagista, e alguém com olho treinado tinha definido aquela. De alguma forma, era uma versão nostálgica de um jardim Eduardino, com canteiros demarcados por vedações em madeira e ervas a rodear cada pedaço de terra, mas exibia uma simetria mais moderna. Fazia-me lembrar as hortas a que a Fleur me tinha levado em casa. A Stonefields. À horta de Heide. Agora estava vazia, mas imaginava o que devia ser em descarga completa. — Devia ver esta horta no verão — disse a senhora Mins, como que a ler-me a mente. — Aquele canteiro inteiro ao longo da parede é de menta. De cinco ou seis tipos diferentes. Sabia que dá para plantar menta chocolate? Se pudesse só cheirar… Ali, alfaces. De pelo menos quatro tipos. É só ervas à frente da alface, de todo o tipo que possa imaginar. Mas imagino que não tenha muito interesse nesse tipo de coisas.
— Oh, sim, tenho — respondi antes de pensar bem nisso. Estive quase a contar-lhe a minha formação. Herbalismo. Naturopatia. Bem-estar. Nutricionista. — A minha madrasta é jardineira. Arquiteta paisagista, na realidade.
A senhora Mins olhou devidamente para mim, com os olhos a dispararem para as minhas mãos, à procura de sinais que lhe denunciassem uma jardineira a sério. Não encontrando nenhum, pareceu revirar os olhos para um observador invisível. — O que é que está a fazer a trabalhar em cuidados infantis, então? — Parecia desconfiada.
— As crianças ainda estão a dormir — respondi a evitar a pergunta.
Ela abanou ligeiramente a cabeça, como se estivesse a expulsar alguma coisa do ouvido. — Por aqui, todos dormem até tarde. A não ser eu — respondeu. Era uma ameaça? Parecia uma, mas apesar da minha idade, sempre fui madrugadora e não sentia que tivesse de mudar. A senhora Mins não tinha o monopólio das madrugadas.
Parecia-me estranho que o Max dormisse até tarde. O meu próprio pai era sempre o primeiro a levantar-se: a fazer o café, ler o jornal, a ver as notícias na televisão. Olhei de novo em redor em busca de sinais de vida. Havia uma sebe no final da horta e para além daquela fronteira verde ficava o parque de estacionamento, agora vazio à exceção de um pequeno veículo, mais parecido com um carrinho de golfe do que uma carrinha. — Oh, é a senhora que gere o hotel do senhor Summer? — perguntei. O que é que ela fazia o dia inteiro, enquanto estava fechado?, perguntei-me. Quem era ela?
Só foi preciso uma pequena picada para a fazer falar. — E tudo o resto — respondeu com o suspiro martirizado dos sobrecarregados crónicos. — Não era suposto também tomar conta das crianças. Não foi para isso que me contrataram.
— E para que é que a contrataram? — perguntei, encostando-me para apanhar alguns pés de salsa já tão desenvolvidos que me chegavam à cintura.
— Eu costumava trabalhar em Capri. Itália?
Acenei com a cabeça como se conhecesse.
— O Max e a Daphne foram lá ver-me. Tinham ouvido falar do que eu tinha lá feito. Eu estava a trabalhar num pequeno hotel, numa vila minúscula na encosta de um penhasco que tinha sido convertido num resort de luxo. Tinha-se tornado muito famoso e não só por causa do local. A indústria hoteleira de luxo é muito mais pequena do que possa pensar.
Nunca tinha realmente pensado sobre nada disso, mas acenei com a cabeça, ainda assim.
— Tínhamos um chefe de cozinha incrível — não uma celebridade, como a Daphne, mas que cozinhava mesmo muito bem. Os melhores funcionários costumavam vir trabalhar comigo e tinha ótimas críticas. As pessoas vinham passar luas-de-mel, aniversários, mas na sua maioria eram conhecedoras, o tipo de pessoa que vinha todos os anos, ficava durante um mês e nem sequer perguntava o preço.
— Parece fantástico. Como é que o senhor Summer a convenceu a vir para aqui?
— Ofereceu-me imenso dinheiro, muito mais do que eu estava lá a ganhar. Os proprietários não nos pagavam muito, mas a vida era boa. Tínhamos alojamento e havia pequenos restaurantes nas ruas secundárias só para as pessoas que trabalhavam nos hotéis. Mas não foi pelo dinheiro.
Parecia que ela ia continuar a falar sem parar, mas surpreendeu-me ao virar costas de repente e a afastar-se, deixando-me parada no meio do caminho de pedra e forçando-me a chamá-la. — Foi porquê? Como é que ele a convenceu a vir? — perguntei.
Ela parou e ficou quieta por um momento. De costas parecia muito mais nova e pensei de novo como é que o Max a podia ter tentado. Ela olhou para as janelas, e deu para ver que eram as janelas ao longo do corredor das crianças. Com certeza que devem estar quase a acordar. A senhora Mins deve ter tido o mesmo pensamento, pois só depois de estar satisfeita por não estar lá ninguém a ouvir é que se virou de novo. — Como é que o senhor Summer a convenceu a si a vir? — perguntou ela calmamente.
De imediato houve uma sensação de sangue a correr-me para a face. — As crianças… Ele precisava de alguém para as crianças — acabei por gaguejar em resposta. Eu não tinha razão real para a minha aparição súbita. Nem sequer sabia se o emprego tinha sido anunciado. Pelo que me era dado saber, tinha havido uma carta a subir por uma chaminé, ao estilo da Mary Poppins.
— As crianças — repetiu, pensativa, a senhora Mins. — Não foi certamente assim que ele me convenceu a mim.
— Tem filhos, senhora Mins?
— Eu? Não. É demasiado tarde para isso. — Foi uma resposta a outra pergunta, talvez aquela que eu deveria ter perguntado. Ficámos num silêncio estranho por um instante.
— E a senhora Summer? Vai ter mais filhos? — Estava a atirar ao escuro, mas foi a única forma de que me lembrei de trazê-la à conversa. Afinal de contas, eu era a ama.
— A Daphne? — A senhora Mins pareceu afetada. — Porquê? O que é que o Max disse?
— Ah, nada. Pensei que talvez fosse por isso que precisasse de uma ama.
Os olhos da senhora Mins foram até às janelas do andar de cima. Quando falou, foi devagar, como se estivesse a avaliar cada palavra à medida que a dizia. — A Daphne precisa de uma ama porque tem estado de cama desde o acidente. Os médicos dizem que precisa de descansar. Quando estiver melhor, vai ficar novamente ocupada com o restaurante.
— Que acidente? — perguntei de rompante. Ao contrário da senhora Mins, não demorei tempo nenhum.
— Não me cabe a mim falar sobre o acidente. — Nem a ti, disse-me ela com o olhar.
— Fica à sua vontade — respondi quando ficou claro que ela não ia desenvolver.
— Talvez me possa ajudar quando o tempo melhorar. É demasiado trabalho para mim e para o senhor Mins e bem que nos fazia falta mais um par de mãos. Posso ver se o Max lhe paga um pouco mais por isso.
Depois da forma como ela esteve a olhar para o Max na noite anterior, fiquei surpreendida por ouvi-la falar sobre um senhor Mins. Aqui estava a minha oportunidade para perguntar. — O seu marido também trabalha aqui?
— Vai conhecer o meu irmão em breve. — Acenei com a cabeça, confusa e ainda sem perceber porque é que ela estava a chamar o irmão de senhor Mins. — Se souber o que anda a fazer, claro. Não a vou querer a trabalhar ali se não tiver a certeza sobre as coisas.
Já tinha passado muito tempo desde que eu tinha sentido saber inteiramente o que ando a fazer sobre qualquer coisa e não conseguia imaginar sentir-me a ter a certeza sobre nada nos próximos tempos. Tudo ali parecia tão ambíguo.
Havia muito a aprender.
Mas havia mais uma pergunta que eu estava desesperada por fazer e o convite da senhora Mins para que a ajudasse na horta trouxe-me o incentivo de que precisava para tal.
— O que é que aconteceu à Agatha? — perguntei tão depressa que as palavras saíram atabalhoadas. Presumi que tivesse alguma coisa a ver com o acidente.
A senhora Mins levou um momento a processar o que eu tinha perguntado. Suspeitei que soubesse que eu iria perguntar mais cedo ou mais tarde e que a altura da pergunta fosse a única parte que achou surpreendente. Imaginava que pensasse que eu ia demorar mais tempo para ganhar coragem. — A curiosidade matou o gato — respondeu. E deixou-me à espera tanto tempo em silêncio que, por fim, não tive outra alternativa senão afastar-me e ir ter com as crianças.
12
AS CRIANÇAS ESTAVAM acordadas. Apressei-me a passar pelo pequeno portão e a entrar dentro de casa, à espera de encontrá-las na cozinha, à espera do pequeno-almoço. O Robbie estava sentado à mesa, a ler um guia antigo de corridas de cavalos. A Sophia também lá estava, a enroscar o cabelo à volta de um dedo, encostada contra a bancada. Parecia muito mais nova esta manhã, ainda meio a dormir, e o pijama curto que usava, apesar do frio, revelava as pernas compridas que devia ter herdado do pai.
— Onde é que está a Agatha? — perguntei.
— À espera de que alguém a traga para baixo? — respondeu a Sophia com uma entoação de voz crescente no final da frase assim colocada de propósito. Vi a cadeira de rodas na esquina e lembrei-me de o Max a ter carregado para cima na noite anterior. A casa não era adequada para alguém numa cadeira de rodas e o Max não tinha feito nada acerca disso. Em vez disso, deixou a Agatha no seu quarto, ao cimo de uma escadaria minúscula e no final de um corredor estreito.
— Oh. Certo. — A Sophia ficou a observar-me enquanto me encaminhava para as escadas. — O teu pai não me disse nada.
Já tinha passado muito tempo desde que tinha trabalhado para outra pessoa, o que era uma das razões de achar tão fácil descartar o compromisso com a Grant and Farmer. Não tinha falado com o meu pai desde que me vim embora. Numa jogada cobarde, deixei um recado a explicar que a Denise e o Terence me tinham convidado para passar o Natal com eles em Londres e que podia lá passar algum tempo à procura de trabalho após o Ano Novo. De modo algum ele ia acreditar naquilo, mas achei que me podia fazer ganhar algum tempo.
Tinha basicamente colocado de quarentena a culpa por aquelas mentiras, mas lamentava, de facto, pela Fleur e pelas minhas meias-irmãs, que de certeza teriam de suportar a força da raiva dele após a minha partida. Desta vez, sentia que as minhas mentiras serviam um fim, um bem maior, de uma forma que não serviram antes. Pelo menos era assim que o justificava.
Do que me lembrava sobre começar um novo trabalho era que as pessoas que já lá trabalhavam prestavam normalmente uma qualquer espécie de orientação. Uma descrição do trabalho. Algumas tarefas simples para colocar a pessoa à vontade no ambiente. Talvez uma visita guiada às instalações e um cartão de acesso. Até agora, em Barnsley, eu tinha recebido alojamento e uma refeição e, ainda assim, nenhum dos outros aspetos mais tradicionais do trabalho. Era um cenário fora do comum.
Teria de descobrir algumas coisas por mim. Fiz uma lista mental enquanto fazia o agora familiar caminho de volta à escadaria. Horas de dormir. Comidas favoritas. Horários. Carro? Escola. Trabalhos de casa. Roupa para lavar. Regras. Nenhuma da minha experiência anterior parecia relevante.
Passei por uma porta fechada ao fundo do corredor. O quarto do Max e da Daphne. Adquiriu uma qualidade diferente, agora que eu sabia que a Daphne estava lá dentro. Parei por um instante, à espera de ouvir alguma coisa vinda do interior, mas não se ouviu nada. Sem qualquer som.
A Agatha estava no seu quarto a ler a Pipi das meias-altas. — Costumava adorar esse livro — comentei sentando-me ao seu lado. — Mas o filme era demasiado triste. Não conseguia parar de chorar no final.
— Há um filme?
— Sim. Devíamos vê-lo. — Não sabia bem como é que ia tratar disso, dado o buraco negro da Internet no qual eu tinha tropeçado, mas possivelmente conseguia encontrá-lo em DVD na vila. Parecia o tipo de local que ainda devia ter uma loja onde se podiam alugar DVD.
— Disseste que era demasiado triste.
— Bom, vemos outra coisa qualquer. De que outros filmes gostas?
— Da Annie. Ana dos cabelos ruivos.
Seria uma coincidência que todas essas histórias tivessem mães mortas ou ausentes? Achava que não. Tinha-me sentido atraída precisamente pelas mesmas histórias na idade dela. A diferença era que a minha mãe estava morta. A da Agatha estava só, bem… ausente. Não era minha intenção revelar nada sobre mim tão prematuramente, mas tinha pena da Agatha e quis que soubesse que eu sabia o que ela estava a sentir. — Perdi a minha mãe com a tua idade — contei, e depois, a achar que talvez não tivesse sido suficientemente clara, acrescentei: — Morreu. Esteve doente durante muito tempo e depois morreu quanto eu tinha mais ou menos a tua idade.
Assim que as palavras me saíram da boca, arrependi-me da sua insensibilidade. A pobre criança tinha a mãe a recuperar de um acidente grave e eu estava a falar sobre a morte da minha mãe.
A Agatha levantou o olhar do livro, interessada, mas um pouco chocada pela minha franqueza. Estava desconfiada. Na altura, não sabia que ela desconfiava de toda a gente, de que tinha boas razões para isso. Contei-lhe que o meu pai voltou a casar e que a nossa casa se tornou feliz de novo, que as minhas irmãs me trouxeram muita felicidade. Que eu mal me conseguia lembrar da minha mãe, mas que me recordava de a amar.
— Anda, vamos andando — disse eu pegando-lhe ao colo. Era leve como uma pena e pensei se comeria alguma coisa de todo. Depois de a minha mãe ter morrido, parei de comer quase por completo. O meu apetite desapareceu. Só conseguia aguentar palitos de cenoura e de aipo com manteiga de amendoim. Foi o começo da minha viagem para a nutrição e comida saudável. O pior de tudo era a comida que a minha mãe costumava fazer: frango assado, esparguete à bolonhesa, rabanadas. Ainda hoje não consigo comer nenhuma delas sem pensar nela. Se a Agatha estivesse acostumada à comida da Daphne, não me surpreenderia se parasse de comer quando tivesse de baixar os seus padrões culinários.
— O que é que queres ao pequeno-almoço? — perguntei a assumir que o pequeno-almoço fazia parte das minhas tarefas. — Panquecas? Chocolate quente?
— Torrada. Com Marmite. Sem manteiga — respondeu a Agatha.
Na confusão da minha chegada na noite anterior, não prestei muita atenção, mas a Agatha também tinha comido torrada então. Com Marmite. Sem manteiga. Parecia que até as chefes distinguidas com estrelas Michelin conseguiam produzir miúdos esquisitos com a comida. — E depois o que é que vamos fazer? — perguntei. Não fazia ideia de como era a logística da cadeira de rodas naquela manhã; da dificuldade que era movimentá-la, não só na Casa Barnsley, mas também na vila. Tive visões das peripécias d’ Os cinco: nós os quatro a subir com esforço contra o frio seguindo o caminho da encosta até à vila para ir explorar. Uma garrafa térmica. Algumas sanduíches e um pão-de-ló. Eu não só queria desesperadamente criar uma ligação com as crianças, como estava completamente desorientada e desejosa de me familiarizar com as redondezas.
— Temos de ir para a escola — respondeu a Agatha, com grande surpresa. — O autocarro chega às oito. — Houve um elemento de deleite pela minha ignorância.
Ninguém me tinha dito. Na Austrália, as minhas meias-irmãs já estavam de férias de verão. Por nenhuma razão lógica em especial, presumi que o período escolar inglês tivesse um calendário semelhante. — Ainda têm escola? Estamos quase no Natal — perguntei.
— Acaba esta semana. Temos o concerto.
Não havia tempo de falar sobre o concerto naquele momento. O relógio de brilhantes ao lado da cama da Agatha mostrava que já estávamos perto da chegada do autocarro de uma forma alarmante. Corremos apressadas para vestir a Agatha. Vi-me a ficar cada vez mais frustrada.
Não estava habituada a ter de me preocupar com outras pessoas. O meu instinto era descarregar na Agatha, dizer-lhe para se despachar. Enquanto lhe penteava o cabelo louro num rabo-de-cavalo rebelde, ela contorcia-se, com as minhas mãos a puxarem as pontas com a falta de experiência, fazendo-a protestar e contorcer-se ainda mais. Estava habituada a que as pessoas se rendessem a mim e não ao oposto.
Só podia ser uma questão de tempo até eu ser acusada de fraude, um pressentimento terrível com o qual já estava demasiado familiarizada. Estavam lá todos os sinais. Mentiras. Absoluta falta de experiência. Colocar as vidas de outras pessoas em perigo. Segundas intenções. Amaldiçoei-me, e à Sophia, por acabar por estar outra vez nesta posição.
Quando nos estávamos finalmente a dirigir para a porta, o Robbie desapareceu lá para cima.
Enfiei a cabeça na escadaria. — Robbie?… Robbie!
A Agatha rolou a cadeira até ao meu lado. — Ele foi lá acima dizer adeus à mãe.
— Ah. — Olhei para ela. Olhei para as escadas. Queres que também te leve lá acima para dizeres adeus?
— Não é preciso. Ela vai estar a dormir, de qualquer modo — respondeu a Agatha, e voltou a rolar a cadeira até à porta, no preciso momento em que a Sophia vinha a descer as escadas, completamente vestida. Sorri-lhe, tentando forjar uma aliança. Tentei mostrar-lhe que eu era alguém em quem podia confiar. Ofereci-me para lhe preparar o almoço e ela escarneceu e disse algo que não consegui compreender.
O Robbie, que tinha acabado de reaparecer do andar de cima, teve de servir-me de intérprete. — Ela disse que almoçamos na escola, menina — clarificou.
— Não tens de me chamar de menina — respondi, mas já eles estavam a correr para a porta.
— Sophia? — chamei quando passava a correr por mim. Era a primeira vez que estava próxima da Sophia sem o Max ou a senhora Mins por perto. Queria dar-lhe um sinal de que tinha recebido a carta. De que estava do lado dela.
A Sophia não parou, abanou apenas ligeiramente a cabeça, como se estivesse a tentar expulsar água do ouvido.
— Recebi a carta.
Ela olhou para mim sem expressão. — Vamos chegar tarde ao autocarro. — Ela tinha razão. Quase o perdemos.
13
ASSIM QUE regressei à casa, o Max convocou-me ao seu escritório. Uma vez lá, ignorou-me prontamente, concentrando-se em vez disso nos números do que parecia ser um antiquado livro vermelho de contabilidade. Enquanto estava à espera, observei as imediações de uma forma que não tinha tido oportunidade na noite anterior.
A divisão estava dividida em duas por um par de sofás que rodeavam a lareira. Atrás de cada sofá estava uma secretária; uma para o Max e, aparentemente, outra para a Daphne. Sentei-me no sofá diante da secretária do Max, olhando em direção à zona que a Daphne tinha aparentemente vagado apenas recentemente. De costas para o Max, podia observar bem as coisas. Havia conjuntos altos de estantes repletas de livros de cozinha e velhos artigos de revistas de cozinha dispostos ao longo de uma comprida parede, juntamente com prémios e artigos emoldurados.
Era fácil de imaginar os dois ali sentados nos sofás para ele e ela frente à lareira a discutirem os planos para o hotel e o restaurante, as suas ideias para a ementa, as crianças. Ali, mais do que em qualquer outro lado até agora, sentia a presença dela.
Havia um cheiro intoxicante a fumo que primeiro achei que vinha das cinzas da lareira, mas o meu nariz levou-me até à vela em cima da mesinha de centro à minha frente. Esquecendo-me de onde estava, peguei-lhe e inalei-a profundamente: tinha precisamente o mesmo cheiro do que o Max, ainda que destilado. — Pouse isso.
A voz do Max sacudiu-me instantaneamente e pousei a vela, mais por embaraço do que medo. — A minha irmã vem cá hoje conhecê-la.
Isto era mesmo típico do Max, fazer duas declarações completamente distintas em estreita relação e ainda esperar que o ouvinte seguisse a sua linha de pensamento. — Então e a mãe das crianças? — O pânico instalou-se e eu tinha falado sem pensar.
O Max olhou para mim de forma severa. — A Elizabeth estará aqui em breve. Vive num dos chalés.
— Chalés?
— Com certeza que os viu. Talvez na sua caminhada matinal.
Parecia que nada acontecia na Casa Barnsley sem que o Max estivesse ciente disso. Entre a senhora Mins e a sua própria vigilância, parecia ter todos os centímetros quadrados da sua vasta propriedade cobertos a toda a hora. Mais tarde, descobri as câmaras que faziam a maioria do trabalho por ele.
Ficámos sentados em silêncio por um instante. Revi mentalmente a minha caminhada matinal. Tinha espreitado por umas quantas janelas, rodeado a casa, mas nada de inconveniente, tinha a certeza disso. Era perfeitamente natural que alguém na minha posição estivesse curiosa.
— Espia todos os seus funcionários? — perguntei. Sem esperar que respondesse, levantei-me do sofá e fui até à cornija da lareira.
Ali, entre conchas, fotografias antigas e convites para coquetéis de Natal (do ano anterior; parecia que o Max tinha sido cortado da lista de convidados deste ano), encontrei aquilo que procurava. Abanei a caixa para ver se estava cheia e depois tirei um fósforo, que raspei e usei para acender a vela antes que o Max tivesse oportunidade de impedir-me.
A porta do escritório abriu-se de rompante e uma figura elegante e animada entrou apressada. Era a Elizabeth, irmã do Max, minha tia.
— Olá, querida. Sou a Elizabeth — apresentou-se quase sem olhar para mim, mas a esticar a mão de imediato para apertar a minha, mesmo estando ainda a vários passos de distância. Chamava querida a toda a gente. Dizia que lhe facilitava a vida. E facilitava. Era aquele tipo de pessoa que escapava sem aprender os nomes das pessoas. O coração subiu-me à boca e não senti confiança para falar. Por sorte, ela continuou, sem precisar de qualquer encorajamento da minha parte.
— O Max provavelmente já lhe falou de mim — disse ela, atirando-se para o sofá oposto. — Muito promissora, mas sem nunca ter chegado a lado nenhum. Bebe durante o dia inteiro. O marido é um jogador inveterado, esse tipo de coisa. Por falar nele… — Virou-se para a porta e esperou. — Cá está. Este é o Tom.
— Como o cão — disse o Tom e cumprimentou com um aceno de cabeça. Sentou-se ao lado da Elizabeth e começou a ler o jornal.
— O cão chama-se Thomas — disse o Max atrás de mim. Contornou a secretária e ficou parado ao pé da lareira, mantendo um olhar cauteloso na vela o tempo inteiro, como se tivesse medo de que a chama saltasse por vontade própria e envolvesse tudo em chamas.
— Eu também me costumava chamar — disse o Tom. E mal voltou a falar durante o resto da visita, enterrando-se nas páginas das corridas.
— Veio para tomar conta das crianças — disse a Elizabeth, numa declaração e não numa pergunta, mantendo o olhar no Max o tempo todo. Ainda não tinha olhado decentemente para mim e eu esperava que não o fizesse.
— Sim. — Foi provavelmente a única vez naqueles primeiros dias em que eu podia ter admitido quem era, mas senti-me em minoria. O Max. A Elizabeth. O Tom. A casa.
— Uma escolha interessante. Posso fumar aqui, Max? — Não esperou por uma resposta e apenas retirou um cigarro de algum lado e inclinou-se para acendê-lo na vela. — Esse cheiro faz-me lembrar a Daphne — declarou.
— Estava com esperança de que fizesses um resumo do que é esperado na função, do que as crianças precisam, etc. — interrompeu o Max.
— Já conheceu as crianças? — perguntou a Elizabeth a soprar fumo. Eu não via alguém a fumar há anos, ainda para mais dentro de casa, e por um instante fiquei hipnotizada. E depois instalou-se uma ligeira sensação de raiva.
Na sua maioria, tinha-me rodeado de pessoas que seguiam o mesmo estilo de vida do que eu: sem açúcar, comida orgânica, aperitivos vegetais. O fumo era sufocante e eu não conseguia acreditar que o Max o permitisse quando havia crianças em casa. Não conseguia acreditar que o permitisse quando o cancro de pulmão tinha matado a minha mãe, a sua outra irmã. Ou talvez ele não o permitisse. A Elizabeth não parecia o tipo de pessoa que pedia permissão para o que quer que fosse. Mordi a língua. Tentei não inalar o ar acre cheio de fumo.
— Sim — respondi ao mesmo tempo que o Max disse:
— Ela chegou ontem à noite.
— Explicaste a questão da Agatha? — perguntou a Elizabeth, batendo o cigarro na lateral de um prato de cerâmica. A cinza caiu num monte perfeitamente posicionado.
— Vou deixá-la com a Elizabeth — disse-me o Max. — Tenho coisas para fazer. — Saiu do escritório e o Thomas seguiu-o. Nunca saía de ao pé dele, aquele cão.
14
— SE QUISER compreender o que aconteceu à Agatha, temos de começar pela Daphne — começou a Elizabeth, enfiando as pernas debaixo de si, no sofá, com os pés calçados com meias escondidos debaixo do vestido. Tinha uma forma antiquada de vestir: saias de lã e blusas, pregadeiras e collants. Noutra pessoa qualquer ia parecer retrógrado, mas nela parecia descontraído e, de alguma forma, intemporal. As suas botas robustas e o vestuário cuidado combinavam com o cenário, mas tal como todas as coisas em Barnsley, o seu estilo acabou por ser cuidadosamente orquestrado. Uma fantasia inteligente. — Para começar, eu não gostava dela, de todo — continuou a Elizabeth. — Era australiana, como sabe.
Fiz um aceno de cabeça. Todos pareciam pensar que a nacionalidade da Daphne era do meu interesse. Seria só por eu também ser australiana ou teria ela passado a vida inteira a ser apresentada em Inglaterra dessa forma? — Esta é a minha mulher, Daphne. É australiana. — Parecia oferecer uma visão elusiva sobre o seu carácter que todos pareciam decifrar menos eu.
— O Max conheceu-a em Londres. Nessa altura, havia imensos australianos em Londres. Há sempre imensos australianos em Londres, imagino. O Max estava a afundar-se um pouco sob a responsabilidade da casa e de, bem, tudo. Mesmo que sejamos gémeos, o Max nasceu primeiro. Ou assim o dizem. Eu nunca me convenci por completo. Primogenitura e isso tudo. Por isso, foi o Max que herdou Barnsley. E isso deixou-me a mim e ao Tom com um chalé. E a ilha.
Ela deve ter visto a curiosidade na minha cara, pois pousou o cigarro no prato e espremeu-o até lhe apagar a brasa. Segui-a até à janela por detrás da secretária do Max, a tentar dar uma espreitadela ao livro de contabilidade em cima da secretária quando passámos. «Contabilidade de Barnsley 2017», lia-se na capa. Dificilmente fascinante, pensaria eu, e ainda assim o Max estava absorto naquilo.
— A ilha de Minerva.
A Elizabeth apontou a sua mão pequena para um território só a alguns metros da costa. Estava tão perto que parecia estar ligada ao continente, mas inclinando-me para a frente, conseguia ver um pedaço de água agitada a separar a ilha da terra onde Barnsley se situava.
— Vive ali? — Não havia sinais de vida. Apenas um cais de aspeto rudimentar de um lado e depois uma massa densa de folhagem que escondia parcialmente um edifício de pedra com ar deserto, um forte escarpado em pedra bravamente agarrado à beira do terreno que se elevava. Tinha uma bandeira fortemente assente contra o vento golpeante, apenas com as pontas esfarrapadas a dar sinais da batalha que combatia diariamente contra os elementos.
— Não. Não seja tola. Se olhar com atenção, consegue ver os restos da tentativa da minha tetravó de plantar vinhas. Como pode ver, não foi um sucesso. Já alguma vez bebeu um bom Barnsley Pinot Grigio?
Olhei para ela sem expressão já que não conseguia diferenciar nenhuma outra planta àquela distância. — Bem me pareceu. O resto daquela vegetação é na sua maioria uma selva. O marido da Elspeth trouxe com ele fetos e buganvílias, e alguns deles pegaram mesmo bem. — Voltou para os sofás e, por isso, eu também. Esperei enquanto ela acendia outro cigarro.
O tempo passava devagar. A ilha tinha agitado uma excitação estranha em mim. Era em parte o romance, mas também o mistério. Em todo o caso, senti a centelha de uma ligação à paisagem, uma profunda familiaridade. A Elizabeth começou outra vez a falar. — Não há lá casas. Não tem eletricidade, água, nada. Costumávamos acampar lá no verão. O jardim era perfeito para explorar e nos perdermos. Eu e o Tom pensámos em tentar fazer uma casa ali a dada altura, mas iria sair muito caro.
A Elizabeth a dizer que é pobre parecia-me implausível. Tinha lido Orgulho e preconceito. Sabia como as coisas funcionavam nas famílias latifundiárias, mas dificilmente conseguia acreditar que não tivesse o dinheiro para fazê-lo acontecer. Com a sua roupa de aspeto luxuoso e a sua óbvia inteligência, simplesmente não fazia sentido. — Cavalos — disse ela, a pressentir a confusão na minha expressão. Acenei com a cabeça, como se o problema me fosse familiar.
— Até o Max conseguia ver que era injusto, ele com tudo isto. — A Elizabeth gesticulou em redor, com a cinza do cigarro a voar por todo o lado. — E nós com tão pouco. Prometeu-me que ia arranjar uma solução, mas nenhum de nós tinha muito rendimento e as casas de campo estavam aqui a ser vendidas por todo o lado para serem convertidas em apartamentos. Port Perry daquele lado recebe um festival no verão; Concoppel tem uma loja rural, esse tipo de coisa. Antes de morrer, o meu pai estava determinado a que Barnsley permanecesse como casa de família. — Fez uma pausa. — Não nos deu grande hipótese. Eu e o Tom concordámos em ficar aqui enquanto o Max foi a Londres reunir com os bancos. Advogados. Esse tipo de coisa. Havia uma família de Espanha interessada em arrendar a propriedade por inteiro, deixando-nos os chalés para vivermos. Nós os dois ficámos mortificados com a ideia, mas o Max achou que seria bom encontrar-se com eles e ver que proposta tinham antes de recusá-la por completo. Tivemos um desentendimento sobre isso e ele foi-se embora para Londres de péssimo humor. Uma verdadeira chatice, não foi, Tom?
Tinha-me esquecido de que o Tom estava ao lado dela.
— Uma chatice terrível — concordou ele, sem sequer mover a página para o lado ou elaborar.
A Elizabeth fez uma pausa para acender outro cigarro, dando ao processo uma quantidade excessiva de tempo e atenção. Pelo menos deu-me um momento para processar o que tinha dito até àquela altura. Para mim era interessante, mas quão interessante poderia ser para qualquer outra pessoa? Para, digamos, uma ama acabada de chegar da Austrália que não tinha ligação a Barnsley?
Ücretsiz ön izlemeyi tamamladınız.