Kitabı oku: «Tres capitaes»
José Augusto Corrêa
Tres capitaes

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066412470
Índice de conteúdo
RAZÃO DE SER
RIO DE JANEIRO
Domingo de Ramos
Situação e Aspecto Geral
Historia
Phases Fluminenses
Monumentos
Egrejas
Museus
Bibliothecas
Jardins e parques
Theatros
Cemiterios
Curiosidades
Estabelecimentos Scientificos
Da Carioca ao Somaré
Assistencia Publica
Beneficencia Particular
Batalha de Confetti
Instrucção Publica
Corcovado
Governo Municipal
Copacabana, Leme e Ipanema
Salubridade
Viação Urbana
Imprensa
Commercio e Industria
Porto do Rio de Janeiro
Recenseamento
Segurança Publica
Nictheroy
Petropolis
Apreciação Geral
INDICE
MONTEVIDEU
Situação e Aspecto Geral
Historia
Assistencia Publica
Egrejas
Beneficiencia Particular
Edificios Publicos
Universidade
Museus
Bibliothecas
Commercio
Parques
Theatros
Curiosidades
Apreciação
INDICE
BUENOS-AIRES
Situação e Aspecto Geral
Historia
Monumentos
Assistencia Publica
Beneficencia Particular
Salubridade e Hygiene
Instrucção Publica
Museus
Bibliothecas
Arte
Egrejas
Commercio e Industria
Jardins e Parques
Theatros
Curiosidades
Alimentação Publica
Municipalidade
Imprensa
Viação Urbana
Movimento Associativo
Parallelo
INDICE GERAL
Obras do mesmo auctor
RAZÃO DE SER
Índice de conteúdo
É opportunissimo o momento de estudar e de tentar descrever as duas grandes capitaes da America do Sul, rivaes pela opulencia, vizinhança, estimulo e por consubstanciarem e traduzirem a riqueza, o porvir, a grandeza e a gloria de duas pujantissimas nacionalidades, destinadas aos mais brilhantes destinos.
Montevideu, capital de um pequeno Estado, comparado com o Brasil e a Republica Argentina, entre os quaes agita-se, febrilmente, servindo-lhes de constante pomo de discordia, não obstante ser uma cidade importante e interessantissima, póde considerar-se um compasso de espera no parallelo entre o Rio de Janeiro e Buenos-Aires.
Das três capitaes trata este livro; porém o seu interesse maximo concentra-se na apreciação d’estas duas famigeradas metropoles que, encarniçadamente, disputam-se a primazia sul-americana.
O auctor percorreu-as pessoal e minuciosamente, detendo-se, com especialidade e interesse, nos pontos em que o seu orgulho e patriotismo de cidadão brasileiro, teve de ceder o logar á admiração pelos progressos affirmados, ha muitos annos, em varios aspectos da grandiosa capital argentina.
Do terreno sacrosanto e utilissimo da actividade e competencia nas diversas manifestações da civilização e do progresso dos povos e das nacionalidades, não deve admittir-se, hoje em dia, que ultrapasse a rivalidade entre os membros da grande familia humana, collectiva e individualmente considerados.
Toda a America é um grandioso laboratorio, onde o trabalho e o capital dão-se as mãos no desenvolvimento dos tres grandes factores da prosperidade das nações—a agricultura, o commercio e a industria.
Os Estados Unidos da America do Norte, porém, attingem, actualmente, o vertice da escala progressiva, tendo dado, ao mundo, o assombroso exemplo de quanto póde a energia de uma raça preponderante, auxiliada pela collaboração de todos os povos da Terra.
A America Central está dividida em pequenas Republicas que, a cada passo, guerreiam-se e esphacelam-se em mesquinhas lutas de interesses.
É na parte meridional d’aquelle immenso e uberrimo continente que, n’este instante da vida universal, produz-se, principalmente, a vitalidade da raça latina, quasi expurgada dos vicios hereditarios das suas antigas metropoles, pelos beneficios da immigração e pelas excellencias das instituições democraticas, fundidas no preciocissimo cadinho de uma natureza bella e fecunda.
Na America do Sul, todavia, nem todas as nações progridem á altura das suas instituições politicas e do sólo ubérrimo que as alimenta.
No Mar das Antilhas, a Venezuela, dá-nos o degradante espectaculo de uma democracia subjugada por um tyranno demente e senil. [1]
A Colombia, cujo territorio é banhado pelos dois maiores oceanos do nosso planeta, vegeta em condemnavel apathia.
Encravada entre ella e o Perú, a Republica do Equador mantem-se, equilibrada, no concerto sul-americano.
Das tres nacionalidades que degladiaram-se, ha annos, por questões de territorio, apenas o Chile conserva relativa importancia, devido á sua invejavel e especialissima situação geographica e topographica.
Quanto á Bolivia e ao Perú, tardiamente recuperarão as energias perdidas.
O Paraguay e a Republica Oriental do Uruguay, abafadas pela approximação de dois colossos, debatem-se entre as ambições e os interesses de ambos, influenciadas ora por uma ora por outra das parcialidades rivaes.
Só o Brasil e a Republica Argentina estão em plena e progressiva prosperidade, pleiteando-se, honrada e gloriosamente, no campo da actividade humana. Por vezes, essa effervescencia ameaça degenerar em conflicto armado, por causa de ambições desmedidas e, especialmente, de vinganças e de represalias entre personalidades rivaes e preponderantes em um e outro paiz.
Estanislau Zeballos, por exemplo, estadista e escriptor de merecimento, alto commissario e arbitro argentino no pleito das Missões, nunca poude perdoar ao Brasil, em geral, e particularmente ao Barão do Rio Branco, representante brasileiro n’esse litigio, a victoria d’este ultimo.
Esses dois eminentes cidadãos encontraram-se, ao mesmo tempo, á frente do ministerio das relações exteriores dos seus respectivos paizes. D’ahi más vontades, animosidades, ameaças de rompimento, mal estar geral, atmosphera pesada e quente.
O Barão do Rio Branco, á força de prudencia e de diplomacia, conseguiu conjurar a tormenta, vencendo, mais uma vez, o seu terrivel adversario.
Este não desanimou, porém, e saíndo do ministerio, foi para as columnas de «La Prensa», o mais importante jornal argentino, mover tremenda campanha contra o Brasil e o seu rival.
Crêmos, todavia, que como aquellas, falharão todas as tentativas que, n’uma e n’outra nacionalidade, sejam feitas para alterar a paz entre os dois povos. Estes são bem os successores e os continuadores de hespanhoes e portuguezes, para os quaes o pontifice Alexandre VI dividiu o mundo, em duas partes iguaes, e que gravaram, nas paginas da Historia, feitos de tanta e tão imperecivel gloria, que desafiam a acção deleteria do tempo, e fulgirão, deslumbrantemente, pelos seculos além, até ao ultimo alento vital da humanidade.
Brasileiros e argentinos continuarão, pacifica e activamente, a desenvolver as suas aptidões e os seus recursos naturaes, de cuja actual importancia póde avaliar-se pela descripção das suas soberbas capitaes.
O conhecimento e a comparação dos elementos progressivos de ambas, assim como as suas preciosidades e defeitos, poderão servir de orientação e de estimulo no aproveitamento de uns e na eliminação e substituição de outros.
Eis a razão de ser d’este livro, escripto com toda a imparcialidade e inspirado no interesse e no amôr a que tem direito a grande familia humana, e não sómente o povo entre o qual nascemos e as encostas e os valles que repercutiram os nossos primeiros vagidos e beberam as nossas e as lagrimas das nossas mães.
[1] No momento d’este livro entrar no prélo parece finda a dictadura do general Castro.
RIO DE JANEIRO
Índice de conteúdo
Domingo de Ramos
Índice de conteúdo
Ás 5 horas da manhã de 12 de Abril de 1908, o velho e rapido transatlantico Magellan, da Messageries Maritimes, passou por entre as fortalezas da Lage e de Santa Cruz, e deixando atrás de si a de Villegaignon, fundeou defronte das ilhas Fiscal e das Cobras, N’este momento já o astro-rei emergia do Oriente, a realçar e aureolar a maravilhosa e incomparavel belleza natural da bahia de Guanabara, e do immenso e formosissimo scenario que a abraça em deslumbramentos de apotheose.
A amplidão da bahia, semeada de muitas e grandes ilhas, circumdada de duas cidades e de ridentes povoações, a alvejarem por entre verdejantes e floridos maciços; as serras e montanhas, opulentamente vestidas, até aos vértices, e que encantadoramente fecham a orla do horizonte; todo esse empolgante conjuncto, que constitue o mais bello e arrebatador panorama do nosso globo, patenteava-se alli, á nossa vista deslumbrada.
Ao mesmo tempo, o nosso pensamento, enlevado nas sublimidades do supremo encanto e da belleza maxima, divinizava-se aos esplendores eternos.
Approximavam-se as visitas officiaes e, após ellas, immensos botes e pequenos vapores conduzindo parentes e pessôas amigas dos passageiros.
Em um d’elles lobrigamos gente querida, havia muito tempo ausente, e com ella desembarcamos, radiantes de contentamento e anciosos de revêr e percorrer de novo a terra idolatrada, hoje transformada e onde se passaram os melhores annos da nossa mocidade. Era ainda cêdo para almoço. Que fazer?
—Dar um passeio, de bonde, até á Gavea, alvitrou alguem.
Unanimamente approvada a ideia e ... a caminho.
Estavamos em Botafogo, o bairro da aristocracia, do luxo, da elegancia, da formosura e do supremo gosto.
O bonde electrico começou a deslisar e os nossos olhos não sabiam o que mais admirar, se os primôres irradiantes da paisagem, se as curiosidades que nos cercavam, quasi originaes para nós, empolgantes e interessantissimas.
O vehiculo parou defronte da matriz de S. João Baptista, e foi invadido por numeroso grupo de crianças e senhoras, que empunhavam floridos ramalhetes, de varios tamanhos, vélas de cêra enfeitadas a papeis de côres e cannas servindo de hastes a ramos de flôres.
—O que é isto? inquirimos.
—Domingo de Ramos, foi a resposta.
Continuamos a observar as devotas. Nada póde haver de mais bizarro e extravagante.
A variedade de colorido cançaria a paciencia ao mais habil classificador de nuances.
Desde o negro retinto e do preto suavisado pelo cruzamento do sangue, até ao vermelho aloirado das filhas de Albion e da Germania, tudo alli se via em mistura de encantos, a contrastar cora as côres berrantes dos vestuarios e com os deslumbramentos da paisagem, ridente de primôres e abrasada de sol.
A manhã brilhava na suavidade e frescura do arvoredo, no dorso azulado das montanhas, ao longe acariciadas e envoltas por nuvens que hauriam-lhes as humidas e fecundantes exuberancias.
E o electrico continuava sempre a correr entre a apotheose da natureza e os vividos quadros realçados pelas cariocas que empunhavam os ramos commemorativos da entrada triumphal de Christo na cidade deicida.
O bonde parára á porta de outra egreja. Era a matriz da Gavea. Grande e garrula renovação, de passageiras.
Como as primeiras, as nossas novas companheiras de passeio eram igual e altamente interessantes nas côres do rosto, do vestuario, dos floridos tropheus e, principalmente, n’essa linguagem cantante e dulcissima, que é um encanto para quem vae acostumado ao forte e classico portuguez de Portugal. O tempo aquecêra, porém. A atmosphera tornára-se pesada e humida. As devotas, acclimadas, dessoravam a essencia das suas côres naturaes, emquanto que o nosso possante e adiposo tecido desfazia-se em liquidas camarinhas e ardentes exhalações.
Attingiramos o ponto extremo da linha dos electricos da Botanical Garden, depois de, por largo espaço, havermos seguido parallelamente a essa maravilha das curiosidades fluminenses que se chama Jardim Botanico.
Restava-nos retroceder.
As nossas garridas companheiras tinham ficado pelo caminho e desapparecido por entre frondosos e bellos jardins, que abraçavam lindissimas chacaras. Outras passageiras as substituiram; porém o interesse de observal-as tinha, pouco a pouco, cedido o logar a um appetite devorador e á morbida prostração causada pelo vazio do estomago e pela ardencia rigorosa e dissolvente da canicula.
Em todo o caso, a primeira impressão fôra de ineffavel agrado e de saudosissimas recordações. Elle ahi estava, bem patente ao nosso olhar investigador, esse Rio de Janeiro exuberante de seducções e de primôres, em profundo renovamento esthetico, mas sempre soberbo e magnificente nos inesgotaveis thesouros da sua pujantissima natureza, que eternamente o sublimarão á hierarchia da mais bella cidade da Terra.
E como dirigissemos um ultimo olhar de despedida e de admiração á paisagem circundante, vimos o dorso imponente e alteroso do Corcovado, ligeiramente occulto pelas proprias emanações, liquidificadas em diaphana e alvissima nuvem. O Chapéu de Sol, a refulgente auréola do seu vértice, velado pelas opulencias do ether, trocava segredos com os mysterios do infinito, talvez haurindo dos arcânos da immensidade nova e deslumbrante apotheose, com que divinizar o já inextinguivel diadema de soes, que realça os naturaes esplendores da capital brasileira aos deslumbramentos divinos.
Situação e Aspecto Geral
Índice de conteúdo
Entre 22°43´ e 23°6´ de latitude Sul, 4° de longitude Este, e 35° long. Oeste, abre-se a entrada da bahia e do porto do Rio de Janeiro, apenas com 1:500 metros de largura, mas que, no interior, attinge a amplidão de 28 kilometros por 30 kilometros de comprimento.
Os transatlanticos passam por entre as fortalezas da Lage e de Santa Cruz, deixando, á esquerda, a gigantesca mole do Pão de Assucar e a fortaleza de S. João.
N’esse momento enfrentam a fortaleza de Villegaignon, já em plena bahia, deixam-n’a á rectaguarda e vão fundear no quadro dos navios mercantes, além das ilhas Fiscal e das Cobras.
D’ahi, do centro do mais vasto e bello porto de mar do mundo, a vista abrange um dos mais empolgantes e arrebatadores panoramas do nosso planeta. A magestosa bahia, semeada de oitenta ilhas e ilhotas, é ladeada pelas cidades de Nictheroy, capital do Estado do Rio de Janeiro, na margem oriental, e do Rio de Janeiro, capital da Republica dos Estados Unidos do Brasil, do lado occidental. O horizonte do observador é limitado por serras e cordilheiras, das quaes a mais importante é a dos Orgãos, ao Norte. Ao contemplal-a, da entrada do porto, nota-se a figura de um gigante, deitada sobre o dorso.
A immensa bahia de Guanabara, capaz de abrigar todas as esquadras bellicas e mercantes do nosso globo, forma ainda duas enseadas, a de Botafogo e a de Jurujuba.
O aspecto geral da capital da Republica, visto do porto é, ao mesmo tempo, formoso e imponente, se bem que, em grande parte, prejudicado pela sua configuração topographica e, especialmente, pelos morros que pejam e encobrem a cidade, ao centro, nas extremidades e em toda a sua circumferencia.
Os primeiros são os do Castello, de Santo Antonio, de Santa Thereza, da Gloria e de S. Bento e os outros os da Conceição, Saude, Livramento, Providencia, Mundo Novo, Santos Rodrigues, Urca, Babylonia, Pinto, Paula Mattos, Pasmado, Viuva, Corcovado e Pão de Assucar.
A cidade occupa uma superficie de cêrca de dois mil kilometros quadrados, tendo 14 kilometros de extensão, de Norte a Sul, e 16 ditos, de Leste a Oeste. É limitada ao Norte e a Oeste pelos riachos Guandú, Merity e Guandú-Mirim, e ao Sul e Leste pelo Oceano Atlantico.
As condições climatericas da capital do Brasil estão hoje muito melhoradas com as importantissimas e grandiosas obras de saneamento e aformoseamento, effectuadas nos ultimos annos, e ainda por outras em execução. Emquanto, porém, o governo e a municipalidade não se resolverem a arrasar, entre outros, os morros do Castello e de Santo Antonio, dando mais ar, mais luz e mais ampla vista á cidade, as manifestações endemicas não deixarão de produzir-se, periodicamente, e com maior ou menor intensidade.
A temperatura média é de 24.°, subindo além de 30.° nos mezes de Dezembro a Abril, e descendo a 20.°, de Junho a Setembro.
A atmosphera é, quasi sempre, humida, o que explica-se pela abundancia de vegetação, que envolve o Rio de Janeiro em um perenne amplexo de frescura e de belleza.
A brisa terrestre, de manhã e á noite, e a que sopra do mar, desde as 11 horas da manhã ao crepusculo, são o providencial lenitivo dos fluminenses, na maior parte do anno.
Para abranger-se e gosar-se a mais ampla e a melhor vista geral do Rio de Janeiro, é preciso ascender ao Chapéu de Sol, vértice do morro do Corcovado. Para vistas parciaes, ou geraes, menos extensas do que aquella, prestam-se, entre outros pontos, o Observatorio Astronomico, no morro do Castello, a ponta do Curvello, em Santa Thereza, o Somaré, n’esta montanha, e o zimborio da Candelaria.
O aspecto geral da povoação é interessante e variadissimo.
O desembarque, no caes Pharoux, praça Quinze de Novembro, proporciona a vista dos dois passeios ajardinados, que formam esta praça, do palacio do Ministerio da Agricultura, do ex-palacio imperial, hoje repartição central dos Correios e Telegraphos, da estatua do general Osorio, ao centro; do Chafariz Colonial, da Cathedral e do templo do Carmo.
Seguindo-se a rua Primeiro de Março, ou boulevard Carceler, ampla e bella arteria que se prolonga ao morro de S. Bento, entra-se em plena cidade commercial. Ahi ostentam-se os grandiosos edificios da Bolsa, da egreja da Cruz dos Militares, do Correio Geral, do Supremo Tribunal Federal e do Arsenal de Marinha. D’ella partem e ahi bifurcam-se as estreitas e animadas ruas do Ouvidor, que terá menção especial, do Rosario, Hospicio, Alfandega, S. Pedro, General Camara, Theophilo Ottoni e Visconde de Inhaúma. Tomando-se pela primeira das ruas citadas, e depois de deixar-se, de um e outro lado, as ruas Julio Cesar, Quitanda e travessa do Ouvidor, entra-se na magestosa Avenida Central, que será descripta em capitulo separado. Atravessando-a, continuaremos, ainda pela rua do Ouvidor, que é cortada n’esse trajecto pelas ruas Gonçalves Dias e Uruguayana, até ao Largo de S. Francisco de Paula, centro civico de grande movimento, ponto central dos bondes das Companhias de S. Christovão e Carris Urbanos, as unicas empresas de viação carioca, ou fluminense, que ainda adoptam a tracção animal.
N’este largo admira-se a elegante frontaria do templo de S. Francisco de Paula, a estatua de José Bonifacio e o edificio da Escola Polytechnica.
A antiga rua do Theatro, communica a praça anterior com a da Constituição, em cujo centro eleva-se a estatua equestre, em bronze, de D. Pedro I, do Brasil. O theatro de S. Pedro de Alcantara, ostenta ahi a sua pesada architectura. Pela ampla rua da Constituição attinge-se a praça da Republica, uma das mais vastas do mundo, com um magnifico parque, circumdado, entre outros, pelos edificios da Municipalidade, Escola Normal, Quartel General do Exercito, Estação Central da E. F. D. Pedro II, Casa da Moeda, Senado e Archivo Nacional.
As ruas do Senador Eusebio e do Visconde de Inhaúma, principalmente, communicam a praça da Republica com a praça Onze de Junho e a Avenida do Canal do Mangue, que termina na avenida marginal do novo porto, actualmente em construcção.
N’este longo trajecto percorrido pelos bairros mais centraes e interessantes do Rio de Janeiro, a parte mais animada é a comprehendida entre as praças Quinze de Novembro e da Republica. É n’esse espaço, com as suas proximas dependencias, que concentra-se e desenvolve-se a vida commercial e civica da colossal metropole brasileira.
Outra corrida de orientação, para o observador intelligente, é a que partindo do ponto central dos bondes electricos da Botanical Garden, na Avenida Central, dirige-se ao extremo norte da grandiosa arteria e deixando, á esquerda, o elegante pavilhão de Monroe e o bellissimo Passeio Publico, junto a este entra na grandiosa e bella Avenida á Beira-Mar. Seguindo-a, o passeiante gosa dois panoramas rivaes em interesse e formosura, o da terra e o da bahia.
O primeiro proporciona-lhe os encantos irradiantes dos artisticos monumentos do Centenario, da fonte Ramos Pinto, da estatua do Visconde do Rio Branco; o pittoresco dos morros cobertos de casaria, que fecham o horizonte; em frente o legendario outeiro da Gloria, encimado pelo seu celebérrimo santuario e, ao fundo, o famigerado Pão de Assucar, em cuja cúspide será um dia erecta a gigantesca e symbolica estatua da Patria Brasileira que, empunhando o facho deslumbrante da Liberdade e da Gloria, illuminará a immensidade oceanica, a superficie terraquea e os mundos do firmamento com os esplendôres da pujante nacionalidade sul-americana.
Deixando, sempre á direita, o Palacio da Presidencia da Republica, a praça do Duque de Caxias, com o bello monumento d’este general, a estatua de José de Alencar e outros monumentos e numerosos bairros, arruados e edificios artisticos e interessantissimos, o forasteiro dará entrada no amplissimo e magestoso Botafogo, precioso escrinio da elegancia, da belleza e do luxo da capital fluminense.
Ahi a perspectiva é differente da anterior, mas igualmente empolgante e fascinadora.
Do lado esquerdo está a pequena e lindissima enseada de Botafogo que, nascendo da pujante Guanabara, por entre os morros da Viuva e da Urca, vem espraiar-se junto ao paredão da Avenida á Beira-Mar, que continuaremos a percorrer, deslumbrados pelo panorama geral, até que ella termine nos contrafortes da montanha Babylonia, magnifico scenario do ultimo certamen nacional.
Dos jardins e avenidas que decoram a esplanada da enseada de Botafogo, partem muitas e formosas ruas, algumas extraordinariamente extensas, como a dos Voluntarios da Patria, e todas ladeadas de lindas chacaras, no meio de floridos jardins e de bosquetes encantadores.
É aos portões d’esses minusculos paraisos que, passada a hora da ardencia solar, grupos de formosas e gentis senhoras concorrem a realçar a imponencia arrebatadora do quadro, aureoladas pelos deslumbramentos do crepusculo.
O aspecto geral do Rio de Janeiro de hoje, é o de uma grande cidade em completa e radical transformação para melhor.
Já muito pouco resta da velha metropole colonial, irregularmente edificada, ao acaso e ao capricho dos influentes locaes.
A independencia nacional e, nos ultimos vinte annos, a mudança de regimen politico, deram causa ao despertar de energias civicas que, em breve prazo, farão do Rio de Janeiro, não só a primeira cidade da America do Sul, mas tambem a rival gloriosa das mais celebres capitaes do nosso orbe.
Se, interiormente, a metropole fluminense é o que, rapidamente, vimos apreciando e vamos conhecer em detalhe, os seus arrabaldes e suburbios encerram e irradiam tanta pujança, belleza e encantos taes e tão maravilhosos, que a penna, por impotente, não póde traduzir nem pallidamente descrever.
Sob este ponto de vista, a capital do Brasil não conhece nem admitte rivaes.
O ineffavel amplexo da natureza que, perennemente, a envolve em deslumbramentos de apotheose, attestará ás gerações vindouras que é aqui o paraiso terreal e a metropole universal, por excellencia, onde, em porvir pouco distante, os povos da Terra celebrarão, com a gloria da nacionalidade brasileira, a civilização, o progresso e a grandeza da humanidade.
Historia
Índice de conteúdo
Os historiadores não são concordes sobre a data precisa em que a bahia do Rio de Janeiro foi entrada pelo primeiro europeu.
Emquanto uns fixam o anno de 1501 como o da descoberta da magnifica perola fluminense, outros affirmam que só no anno seguinte as aguas da poetica Guanabara foram sulcadas por embarcações portuguezas.
Parece mais acceitavel a versão de que o dia 1 de Janeiro de 1502 auxiliou o almirante lusitano Gonçalo Coelho a lançar as ancoras dos seus tres navios nas profundidades guanabarinas.
O navegador dirigia-se da Bahia de Todos os Santos a explorar a costa meridional da Terra de Santa Cruz. O facto do almirante não dar o nome de um santo ou santa á nova descoberta, como fizera a outros pontos da costa, anteriormente visitados, explica-se, talvez, pela supposição de que a bahia, que occupava, fôsse a foz de um rio, devido á sua configuração e amplitude.
D’ahi o nome de Rio de Janeiro, com que Gonçalo Coelho a baptisou e que ninguem, depois d’elle, se atreveu a mudar.
Tanto no littoral como nas principaes ilhas que enfeitam a bahia, o almirante portuguez encontrou estabelecidos os tamoyos, indios da raça tupy, cujas tabas, ou aldeias, estendiam-se em maior e mais densa quantidade, de Uruçumirim, hoje praia do Flamengo, até Paranapuan, ou seja a actual ilha do Governador.
Gonçalo Coelho continuou a navegar no rumo do Sul, e só 17 annos depois da sua descoberta, a bahia de Guanabara foi entrada por outra expedição europeia, commandada ainda por um portuguez, Fernão de Magalhães, mas ao serviço da Hespanha. D. Manoel, que ao tempo reinava em Portugal, tinha muito que fazer na Europa e para os lados do Oriente, não lhe sobrando o tempo para occupar-se de novas e longinquas descobertas.
Só no reinado de D. João III, seu filho e successor, entrou no Rio de Janeiro a primeira expedição militar portugueza, porque ao rei constára que, desde 1528, os francezes occupavam a bahia e as margens circumvisinhas.
Christovão Jaques commandava a esquadrilha lusitana, de reconhecimento, a que seguiu-se o grosso da expedição, sob as ordens de Martim Affonso de Souza, em 1531. Este desembarcou na pequena praia, fóra da barra, que se estende do morro da Babylonia ao da Urca, e que ainda hoje é conhecida pelo nome de porto de Martim Affonso.
Expulsos os intrusos, o commissario de D. João III, voltou, com as suas caravellas, para a Bahia de Todos os Santos, ficando novamente Rio de Janeiro desguarnecido.
Foi preciso que, vinte e quatro annos depois, em 1555, os francezes voltassem á carga, sob o commando do almirante Nicolas Durand de Villegaignon, para que o rei de Portugal, passados cinco annos, ordenasse a Mem de Sá, terceiro governador geral do Brasil, que expellisse os invasores.
Villegaignon, que sonhára fundar a França Antartica em terras de Santa Cruz, desembarcou á entrada da barra, na ilha da Lage, hoje fortificada, passando a occupar e a guarnecer a ilha de Serygipe, que, desde então, é conhecida pelo nome do almirante bretão, não obstante elle havêl-a baptisado Fort Coligny.
Quando, em 1560, Mem de Sá entrou, com onze navios, o porto do Rio de Janeiro, encontrou os francezes na melhor harmonia com os tamoyos, e reforçados por uma esquadrilha, ao mando de Bois Le Comte. Batidos, os invasores fugiram nos destroços dos seus navios, porém voltaram quatro annos, mais tarde, e estabeleceram-se na actual ilha do Governador, então Moracaia, ou Paranapuan.
D’esta vez foi um sobrinho de Mem de Sá, Estacio de Sá, que partiu directamente de Portugal ao Rio de Janeiro, a fazer frente aos obstinados usurpadores.
Foi em Abril de 1565 que a nova expedição deu entrada na bahia de Guanabara, e depois de reconhecer as fortes posições dos francezes, desembarcou no porto de Martim Affonso. Ahi, entre os morros da Urca e de Babylonia, o oceano Atlantico e a enseada de Botafogo, fundou Estacio de Sá uma povoação, Villa de S. Sebastião, Durante dois annos conservou-se o commandante portuguez n’esta posição, em continuas escaramuças com os francezes e os tamoyos, seus alliados, até que em 18 de Janeiro de 1567, appareceu Mem de Sá com cinco galeões e seis caravellas, bem guarnecidas, em auxilio do sobrinho. Logo tres dias depois, em 20 de Janeiro, os indios e os francezes fôram atacados e destroçados por mar e por terra. Em pleno combate, Estacio de Sá, teve o rosto varado por uma flexa, morrendo trinta dias depois e sendo sepultado na ermida de S. Sebastião.
Para celebrar a victoria, Mem de Sá, elevou a nascente povoação á cathegoria de cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, resolvendo transferil-a para o actual morro do Castello, sitio mais central e menos accessivel aos ataques dos inimigos.
Realisado este intento, e depois de cercar a nova cidade de muralhas e de fazer erigir no cume da montanha uma capella sob a invocação do orago da localidade, o governador geral regressou á Bahia, entregando o governo do Rio de Janeiro, a outro sobrinho seu, Salvador Corrêa de Sá. Este, alguns annos depois, fez trasladar a ossada do primo, da velha ermida, junto do Pão de Assucar, para a capella-mór do novo santuario. Cobre o tumulo uma lapide, com os seguintes dizeres:
«Aqui jaz Estacio de Sá Capitão e conquistador d’esta terra e Cidade. E a campa mandou fazer Salvador Corrêa de Sá, seu primo, segundo capitão e Governador, com suas armas. E esta capella acabou no anno de 1583».
A inscripção esquece-se de mencionar o principal titulo e a gloria immortal da pessôa a quem se refere—a de fundador do Rio de Janeiro. Da sua leitura conclúe-se que Estacio de Sá conquistou a cidade, o que não é verdade.
Salvador Corrêa de Sá, que governou durante trinta annos e morreu na idade de 113 annos, teve a habilidade de transformar os tamoyos em amigos dos portuguezes, e a tal ponto que o chefe indigena Ararygboia, foi o seu principal auxiliar nas luctas que teve de sustentar com os francezes, que não podiam conformar-se com a ideia de dar de mão á sua sonhada colonia Anctartica.
Taes foram os progressos da nova cidade, e tambem das suas immediações que, em 1608, o governo de Lisbôa elevou-a á cathegoria de governo geral, comprehendendo as capitanias de S. Paulo, do Espirito Santo e do Rio de Janeiro.
Depois da audaciosa tentativa de Villegaignon, o mais sério ataque dos francezes contra a preciosa perola de Portugal, realisou-se em 1710, sob o commando de Duclerc. Tendo desembarcado, em 11 de Setembro d’esse anno, na praia de Guaratiba, o inimigo conseguiu penetrar até ao centro da cidade, onde foi batido pela pequena guarnição militar, poderosamente auxiliada pelo povo e, especialmente, pelos estudantes. Dos 1:100 invasores, 400 pagaram, com a vida, as velleidades de conquista, entregando-se os restantes á benevolencia dos vencedores.
Quanto a Duclerc, foi assassinado por um desconhecido, seis mezes após estes acontecimentos.
O celebre Duguay-Trouin foi encarregado de vingar a derrota do collega, o que conseguiu, ganhando um combate naval, nas aguas guanabarinas, contra a armada lusitana e obrigando os habitantes da cidade a pagar-lhe um tributo de 610:000 cruzados, cem caixas de assucar e 200 bois.
Quando, em 1733, o conde de Bobadella, general Gomes Freire de Andrade, foi nomeado governador do Rio de Janeiro, esta cidade entrou em activa phase de prosperidades, sendo, em 1762, elevada a capital do Brasil, e recebendo o conde de Bobadella o titulo de vice-rei. No seu governo foi importada, de Cayenna, a planta do café e construido, entre outros melhoramentos, o famoso aqueducto da Carioca.
Desde 1763, anno em que falleceu Gomes Freire de Andrade, até 1808, data da chegada de D. João VI ao Rio de Janeiro, governaram o Brasil, o conde da Cunha, o conde de Azambuja e o marquez de Lavradio.
Com a presença e demora da côrte portugueza, pelo espaço de treze annos, desenvolveu-se extraordinariamente a capital brasileira.
O fugitivo monarcha começou por franquear os portos do Brasil ao commercio de todo o mundo, em 1 de Junho de 1808, memoravel data, cujo centenario foi, no anno passado, celebrado pela Exposição Nacional. D. João VI fundou, no Rio de Janeiro, a Côrte de Justiça, a Academia de Marinha, o Supremo Conselho Militar, a Fabrica de Polvora, o Banco do Brasil, a Escola de Medicina, o Tribunal do Commercio, os Archivos Militares, a Imprensa Real, o Jardim Botanico, a Bibliotheca Nacional, etc. Em 10 de Setembro de 1808, publicava-se a «Gazeta do Rio de Janeiro», primeiro jornal fluminense, impresso em uma typographia da rua dos Barbonos. Foi de 1:200 contos de réis o primeiro capital do Banco do Brasil, inaugurado em 12 de Outubro de 1808, data inolvidavel na prosperidade e grandeza da nação brasileira.
O rei tabaqueiro, na phrase dos seus detractores, que na metropole fizéra má politica e pessima administração, acabando por abandonar a patria ao jugo dos invasores, com a mudança de hemispherio, mudou de temperamento e quiçá de ideias politicas e administrativas, a tal ponto, que a sua viagem forçada á grande colonia sul-americana, assignalou um periodo de assombroso desenvolvimento para o Brasil.
O rei cercou-se de gente de grande valor e de prestigio, tal como Lebreton, membro do Instituto de França, os irmãos Taunay, João Baptista Delbret, Zeferino Ferrez, sabios e artistas do pincel e do escopro e, acima de todos, Grandjean de Montigny, que nos legou a admiravel concepção architectonica da Academia das Bellas Artes, álem de outros trabalhos de que teremos conhecimento.
Em 26 de Abril de 1821, D. João VI regressou a Lisbôa, deixando na regencia do Brasil, o principe D. Pedro, seu filho. Logo no anno seguinte, em 7 de Setembro, andando o regente a viajar por S. Paulo, taes noticias recebeu da côrte de Portugal, inadmissiveis pelas suas exigencias, que alli mesmo, nas margens do Ipyranga, proclamou a independencia do Brasil.
A 30 d’esse mez, apresentou-se o principe no Rio de Janeiro, em um camarote do theatro S. Pedro d’Alcantara, ostentando a legenda—Independencia ou Morte.
Este acto é especialmente notavel por antecipar acontecimentos que forçosamente teriam de realisar-se em breve futuro, devido ao gráu de prosperidade da mais preciosa joia de Portugal e ás absurdas medidas adoptadas pelas côrtes portuguezas, no intuito de contrariar os desejos de independencia, que já começavam a manifestar-se no Brasil. Foi a antiga colonia transformada em imperio e o seu regente em imperador. Este facto teve logar no Rio de Janeiro, em 12 de Outubro de 1822.
Em 7 de Abril de 1831, D. Pedro I foi obrigado a abdicar a corôa em seu filho D. Pedro d’Alcantara, criança de 5 annos, e a retirar-se para a Europa. As principaes causas d’esta resolução foram os actos absolutistas do novo imperador, entre os quaes avultaram a dissolução da Assembleia Constituinte e um vergonhoso tratado celebrado com Portugal. Á abdicação precederam as noites das garrafadas, ou de motins populares, sangrentos para a população do Rio de Janeiro.
Durante o reinado de D. Pedro II, e álem do facto capital da guerra do Paraguay, muitos acontecimentos politicos se deram na capital do imperio, que seria longo e fastidioso enumerar, e augmentariam demasiadamente este capitulo.
Não podemos, todavia, deixar de mencionar o 13 de Maio de 1888 e o 15 de Novembro de 1889, datas, respectivamente, da abolição da escravidão em todo o territorio nacional e da proclamação da Republica dos Estados Unidos do Brasil.
O aureo e glorioso decreto de 13 de Maio, foi assignado por D. Izabel, regente do imperio, ex-princeza imperial e ainda hoje condessa d’Eu, na ausencia de seu pae, o imperador D. Pedro II, que viajava pela Europa. Não obstante os protestos dos conservadores, interessados e tradicionalistas, tal acontecimento foi motivo de grande regosijo para a população fluminense, e teve por immediata consequencia a mudança de instituições politicas, em 15 de novembro do anno seguinte, pelo exercito e pela armada, com o tacito consentimento do povo brasileiro, em geral, e muito especialmente dos habitantes do Rio de Janeiro.
Na presidencia do marechal Floriano José Vieira Peixoto, 2.º presidente da Republica e successor do marechal Manoel Deodoro da Fonseca, teve logar, na bahia de Guanabara, de 1892 a 1894, a revolta da armada, sob o commando do contra-almirante Custodio José de Mello. No espaço de muitos mezes, a cidade do Rio de Janeiro foi bombardeada e muito damnificada, se bem que com a hostilidade da esquadra mais soffresse a sua visinha fronteira, a cidade de Nictheroy, capital do Estado do Rio de Janeiro.
No Arsenal de Marinha, um soldado de infantaria tentou assassinar o dr. Prudente José de Moraes Barros, presidente da Republica, de 1894 a 1898, conseguindo trespassar, com a bayoneta, o marechal Machado Bettencourt, ministro da guerra, que se interpuzéra. Desde então, a paz não tem sido perturbada, na capital da Republica, que Municipio Neutro, por decreto de 1884, e Districto Federal, pela Constituição de 24 de Fevereiro de 1891, conta hoje uma população superior a 900 mil habitantes e, concluidos os melhoramentos que a transformam, por completo, será, indiscutivelmente, a primeira cidade da America do Sul e uma das mais bellas e importantes metropoles do mundo.
Phases Fluminenses
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Nos dois primeiros seculos de existencia civica, Rio de Janeiro progrediu morosamente, por duas causas principaes—o abandono da metropole e as constantes hostilidades dos francezes e dos indios. Em 1618, isto é, 43 annos depois da sua fundação, a cidade apenas contava uns 3:500 habitantes, incluindo a guarnição militar.
Dois seculos mais tarde, quando D. João VI desembarcou na capital do Brasil, apenas havia, mal edificadas, 46 ruas, 19 praças, campos e largos e 4 travessas. Foi n’essa epocha que teve inicio o grande desenvolvimento da cidade. Em cincoenta annos de progresso, o seu activo era de 284 ruas, 47 praças, 42 travessas, 27 morros e 30 praias habitadas, nas proximidades.
A povoação, já immensa, galgava e contornava as collinas que a pejam e circumdam, estendendo-se pelo Engenho de Dentro, Laranjeiras, Andarahy Grande, Gavea, Tijuca, Villa Izabel e outros pontos.
A segunda fortaleza construida para defeza da cidade occupava o logar da actual egreja da Cruz dos Militares, que era então beira-mar.
As egrejas de S. Domingos e da Lampadosa foram construidas, no seculo XVIII, fóra da cidade que, em 1700, apenas attingia o ponto por onde hoje passa a rua de Uruguayana.
Em 1572 foi uma temeridade edificar-se, no sertão, o templo de S. Francisco Xavier. O primitivo santuario da Candelaria, foi construido em 1604, e as egrejas de Santa Luzia e de N. S. da Conceição, em 1592 e 1600, respectivamente.
A actual egreja de S. Sebastião do Castello é a terceira erguida no mesmo local, desde a trasladação da cidade, não obstante a data que encima o portico ser a da fundação do primeiro santuario, inscripção conservada no mesmo logar, assim como, na capella-mór, tem sido respeitado o tumulo de Estacio de Sá, o primeiro dos fluminenses.
O primeiro corpo administrativo e municipal que teve o Rio de Janeiro, com o nome de Senado da Camara, era constituido por tres vereadores, um procurador, um escrivão, dois almotacés e o Juiz de Fóra, que presidia.
No anno da chegada de D. João VI ao Rio de Janeiro, este senado estabeleceu, por meio de marcos de pedra, os limites da cidade junto aos rios das Laranjeiras e Comprido, por um lado, e por outro junto ao mar, em toda a circumferencia.
Foi tal o desenvolvimento commercial e civico da capital, no primeiro quartel do seculo XIX, e eram tão estreitas, tortuosas e deficientes as arterias publicas existentes n’essa epocha que, em 1838, a Camara publicou uma postura ordenando que todas as vias publicas da cidade, e seu termo, tivessem, pelo menos, sessenta palmos de largura. Em 1893, a Prefeitura decretou que essa amplitude fôsse, no minimo, de 17 metros.
O primeiro nivelamento das ruas, calçamento e illuminação, foi começado em 1854, e dois annos depois a municipalidade prohibiu as aguas furtadas e mandou que todos os projectos de construcção fôssem submettidos ao seu exame e approvação.
Deve-se, porém, á Republica, em geral e, especialmente, a tres eminentes patriotas—o dr. Rodrigues Alves, presidente da Republica; dr. Lauro Müller, ministro da Viação e Obras Publicas e dr. Francisco Pereira Passos, Prefeito Municipal, a transformação do Rio de Janeiro colonial, com todos os defeitos das povoações da metropole, aggravados pelos caprichos dos mandões locaes, em uma grande cidade, moderna, rival das mais bellas capitaes do nosso planeta.
Pertence á iniciativa e execução do Governo, principalmente, a construcção do porto, com cáes acostaveis, na extensão de 3:500 metros; a magestosa e formosissima Avenida Central, de mar a mar, rasgando 16 das velhas e movimentadas ruas da cidade, e as obras especiaes de saneamento da capital, que déram em resultado a extincção da febre amarella e de outras molestias endemicas e epidemicas, de ha muito acclimadas no sólo fluminense.
A Prefeitura, ou Municipalidade, no espaço de 4 annos, de 1903 a 1906, executou e iniciou os seguintes melhoramentos:
—Avenida á Beira-Mar, do Passeio Publico á Praia Vermelha, no comprimento de 5:200 metros e com a largura de 33 metros.
—Avenida Mem de Sá, na extensão de 1:540 metros, desde o largo da Lapa até á rua Frei Caneca, atravessando as ruas dos Arcos, Lavradio, Riachuelo, Rezende e Invalidos.
—Avenida Salvador de Sá, ligando a rua Estacio de Sá, com a rua Frei Caneca.
—Alargamento, para 17 metros, d’esta rua e das do Visconde do Rio Branco, Carioca e Assembléa.
—Prolongamento e alargamento da antiga rua de S. Joaquim, hoje Marechal Floriano, até ao largo de Santa Rita.
—Prolongamento da rua Visconde de Inhaúma até ao mar, na extensão total de 1:500 metros e largura de 23.
—Prolongamento da rua do Sacramento até á rua do Marechal Floriano, com a largura de 15,ᵐ60.
—Alargamento da rua Camerino.
—Prolongamento e alargamento da rua da Prainha, hoje do Acre, até ás ruas Marechal Floriano e Uruguayana.
—Transformação d’esta rua, com a largura de 17 metros, arborisação e edificação de grandiosos predios.
—Alargamento e transformação da rua Treze de Maio.
—Ajardinamento do largo da Gloria, da esplanada de Botafogo, do Alto da Boa Vista, na Tijuca, e da praça Quinze de Novembro.
—Ampliação e embellezamento do Cáes Pharoux.
—Prolongamento da travessa de S. Francisco ao largo da Carioca.
—Transformação da praça Marechal Deodoro.
—Ampliação do palacio da Prefeitura.
—Construcção da estrada das Furnas, na Tijuca.
—Canalização do Rio Carioca.
—Construcção do Theatro Municipal.
—Construcção do Mercado Central e de mais tres mercados regionaes.
—Decretação do alargamento e recúo de oitenta ruas.
—Aperfeiçoamento do calçamento de numerosas ruas e augmento da sua illuminação.
—Transformação do quadrilatero da praça da Republica, defronte do Quartel General do Exercito.
Para tão pequeno espaço de tempo é assombroso o trabalho realisado pela municipalidade do Rio de Janeiro.
O governo geral está procedendo á construcção de uma gigantesca avenida, que começando junto da Avenida Central, passe defronte do novo porto e vá terminar na praia de S. Christovão, communicando assim esta com a bellissima praia de Botafogo, na extensão de 10:500 metros. Será, incontestavelmente, a primeira arteria do mundo, em dimensões, porque em belleza, supplantal-a-ha a Avenida Oceanica que, partindo da Avenida Beira-Mar, na Praia Vermelha, contornará, exteriormente, o Pão de Assucar e, pelas praias da Copacabana, do Leme e de Ipanema irá terminar no extremo-sul da praia da Gavea.
E de tudo isso que ahi fica exposto, o que ainda não está prompto ou iniciado, será concluido no espaço de poucos annos, porque o Brasil, em geral, e muito especialmente a sua esplendorosa capital, entraram, decididamente, pela descentralisação administrativa e sob a egide de instituições democraticas, na rapida e brilhantissima senda dos seus gloriosos destinos.
Monumentos
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Candelaria
Ha duas versões sobre a fundação d’este santuario.
Segundo a maioria dos auctores, Antonio Martins da Palma, hespanhol, da ilha de Palma, e com mandante de um navio de trafego, vendo-se naufragado, prometteu á Virgem da Candelaria, muito venerada na sua ilha, erigir-lhe uma capella no primeiro terreno que pisásse, vindo aportar ao Rio de Janeiro e desembarcando no local do actual templo, acompanhado de sua mulher, Leonor Gonçalves.
Outros escriptores affirmam que á primitiva ermida foi dado o nome de uma velha náu, chamada N. S. da Candelaria, encalhada n’aquelle local, e que foi com o madeiramento d’essa embarcação que se edificou o primeiro santuario, em 1604.
As obras do actual monumento foram começadas em 1776, e cento e vinte e dois annos se passaram antes da sua conclusão.
Francisco João Roscio, engenheiro e sargento-mór de Portugal, fez o desenho do exterior do templo, em estylo barroco. Concluiu a obra, em 1898, o engenheiro civil dr. Antonio de Paula Freitas, que a dirigiu durante vinte annos, succedendo aos architectos Job Justino de Alcantara, Gustavo Waehnldt, Bettencourt da Silva, Ferro Cardoso e Evaristo Xavier da Veiga.
A frontaria, toda de granito e ladeada por dois soberbos campanarios, é de magestoso aspecto, e melhor sobresairia se mais vasto fôsse o espaço em que se eleva.
Quatro portas de bronze dão entrada ao imponente e artistico santuario, ellas mesmas primôres de arte e devidas á genial concepção do esculptor portuguez Teixeira Lopes.
A decoração interior é em estylo corinthio e constitue o principal valor e attractivo do monumento.
É marmoreo todo o revestimento mural, niveo, de Carrara, nas pilastras, cornijas e entablamento, preto nos pedestaes e vermelho nos paineis. Álem d’estas tres côres e qualidades, o altar-mór ostenta o lapis-lazuli, o brocatello, o verde antigo, o malachito e o amarello de Verona.
Os nove altares lateraes são de marmore branco, de Carrara.
Nas abobadas, revestidas de alvenaria de tijolo, ha pinturas historicas de Zeferino da Costa.
Numerosos quadros, bellas esculpturas e preciosos dourados completam a decoração interior da Candelaria, santuario da religião e da arte.
O templo é aberto em tres naves, a do centro formosa e vastissima; as lateraes apenas a communicar os altares. Todo o monumento occupa a area de 3:520 metros.
As suas dimensões, quanto á planta geral do edificio, são de 80 metros de comprimento por 44 de largura. O corpo de entrada, ou principal, tem 43,ᵐ40 de comprimento, por 12 de largo, excluindo as naves lateraes.
A altura total do edificio, sobre o nivel do mar, é de 76 metros.
As torres teem 57 metros de altura. Este precioso monumento é coroado por um zimborio de cantaria, tijolo e marmore de Lisbôa, formado por 1:422 blócos de pedra, com o pêso de 630 toneladas, e alto de 64 metros. Do seu vértice descortina-se amplo e bello panorama geral da cidade, bahia, arrabaldes e suburbios.
O zimborio foi construido, successivamente, pelos engenheiros-architectos Bettencourt da Silva, Ferro Cardoso e Evaristo Xavier da Veiga.
Álem das pinturas decorativas das abobadas e muralhas, executadas, principalmente, pelos artistas Costa e Tunes, e cujos assumptos prendem-se á lenda dos fundadores do santuario e ás phases da sua construcção, ha a admirar, entre outras artisticas curiosidades, o Baptisterio, á esquerda da entrada principal. A pia é de roseo marmore da Arrabida, e a tampa é de bronze cinzelado, trabalho de Manoel Ferreira Tunes. É dourada a fogo e produz maravilhoso effeito.
Do lado posterior do baptisterio vê-se um precioso tabernaculo, sobre uma banqueta.
Na parede do fundo avulta um baixo-relevo, em cedro, representando o baptismo de Christo, trabalho do mesmo artista.
Theatro Municipal
Dez annos antes da inauguração das obras, que teve logar em 20 de Novembro de 1904, já a municipalidade tributava as companhias theatraes, as emprezas de diversões publicas e até os vendedores de bilhetes para espectaculos, com destino á edificação do Theatro Municipal.
No momento da publicação d’este livro estará elle concluido e, talvez, inaugurado. É um grandioso e bello monumento, que occupa a area de 4:127 metros quadrados, entre a Avenida Central, o becco Manoel de Carvalho, a rua Treze de Maio e a praça Ferreira Vianna. Está edificado sobre cêrca de 1:700 estacas de massaranduba, sapucaia, oleo vermelho, graúna e angelim pedra, batidas em terreno barrento e arenoso.
Trabalharam regular e diariamente 500 operarios, durante os cinco annos da sua construcção e decoração, que consumiram quantia superior a 12:000 contos de réis.
O auctor do projecto e engenheiro-chefe da sua execução, foi o dr. Francisco de Oliveira Passos.
Eis algumas notas escriptas durante uma visita a este monumento, em Maio de 1908:
No rez-do-chão, deposito d’agua com a capacidade de 200:000 litros. Motor da força de 115 cavallos, para ventilação.
Entradas especiaes, para o Presidente da Republica, do lado da Avenida Central e para o Prefeito Municipal, pela rua Treze de Maio.
Paredes decoradas a mosaico francez, representando scenas das principaes peças do theatro universal. Escadarias de marmore branco, decoradas a bronze dourado. Sala de espectaculo.
Uma ordem de frisas, duas de camarotes e uma de amplas galerias. Pintura em branco e profusa illuminação. Camarotes especiaes, á direita, para o Chefe do Estado, á esquerda para o Prefeito Municipal. Tecto pintado sobre téla, por Visconti. Lotação total, para 1:700 pessôas. Cinco entradas para a plateia.
Todo o pavimento dos corredores dos camarotes é a mosaico, bem como o das frisas e galerias.
O vestibulo é em marmore de côres, avultando o verde e o côr de rosa. Elegantes columnas de roseo marmore circumdam os pavimentos superiores, ornamentando a escadaria. Os capiteis das columnas são a bronze dourado.
Todo o marmore empregado no edificio foi importado de Portugal, da França e da Italia.
Ha dois terraços—varandas, lateraes e exteriores, a seis columnas de marmore mesclado e pavimento a mosaico.
As bancadas geraes da ultima ordem são de peroba e comportam mais de 800 pessôas.
Na caixa do theatro, todos os pannos são movidos a electricidade.
Os camarins, em tres pavimentos, com installação hydrotherapica no 1.º, são vastos, arejados e profusamente illuminados.
Em um prédio contiguo estão os motores electricos para a illuminação geral do edificio.
O porão do theatro, está seis metros abaixo do nivel do sólo.
Em caso de incendio, a scena será immediatamente inundada por machinismo especial.
Todos os relogios da casa funccionam electricamente, pela energia que lhes é transmittida por um relogio central.
A illuminação da sala é feita por um systema original, que consiste em lampadas disfarçadas no oval dos balaustres. A mobilia da plateia e dos camarotes é de mogno vermelho, com incrustações de páu-marfim.
O fundo dos camarotes e galerias é de pellica côr de rosa, bem como as guarnições das balaustradas.
Ha um ascensor para a communicação geral da caixa do theatro e um salão para bibliotheca da especialidade. As portas e janellas do foyer são de carvalho e crystal.
O aspecto geral, como os detalhes, até aos mais minuciosos, obedecem ás mais modernas condições, de hygiene, aceio e luxo.
Gabinete Portuguez de Leitura
A associação fundadora d’este monumento, data de 10 de Setembro de 1847, e a inauguração do edificio teve logar cincoenta annos depois. Eleva-se na rua Luiz de Camões, defronte da travessa da Academia, a pouca distancia do largo de S. Francisco de Paula.
O Gabinete é uma joia artistica, interior e exteriormente, e o mais bello padrão de gloria da colonia portugueza no Rio de Janeiro.
A frontaria, elegantissima, é de pedra lioz, em estylo manuelino. Decoram-n’a as estatuas de Camões, Vasco da Gama, Pedro Alvares Cabral e do Infante D. Henrique.
No interior, além da secretaria e de varias peças interessantes, ha dois salões notabilissimos pelas dimensões e pela belleza architectonica e decorativa.
O salão da Bibliotheca, occupa toda a altura do edificio, na dimensão de 23 metros. É ladrilhado a mosaico e illuminado por bellissima claraboia de vitraes coloridos. Está dividido em tres pavimentos, por galerias circulares, guarnecidas a columnas de ferro dourado. O golpe de vista é empolgante e maravilhoso.
As artisticas estantes que forram este salão, comportam 85:000 volumes, entre elles a mais celebre camoneana do mundo.
O salão nobre, ou de Honra, é decorado com os escudos de todas as cidades de Portugal.
Ha mais a admirar, o album commemorativo de Eduardo de Lemos, o fundador do Gabinete; os bustos do mesmo, de Joaquim da Costa Ramalho Ortigão, de Eça de Queiroz e de D. Carlos I; a miniatura da canhoneira Patria, vitrinas com preciosidades bibliographicas, a mesa da Directoria, etc.
O monumento importou em 592 contos de réis, mas quasi outro tanto se tem gasto em melhoramentos e reparações.
O Gabinete conta um fundo social de 800 contos e 114 socios benemeritos, 39 honorarios, 26 correspondentes, 1:327 remidos e 357 contribuintes. Foi architecto do edificio o portuguez Frederico José Branco.
Academia das Bellas Artes
Foi fundada em 1816, pelo vice-rei Conde da Barca, que contratou 11 professores francezes, para as cadeiras de desenho, pintura, esculptura, architectura e mechanica. Chamou-lhe o fundador, Real Academia de Desenho, Pintura, Esculptura e Architectura Civil. A frontaria é obra de Grandjean de Montigny. Nota-se um artistico portão de ferro, do mesmo artista; baixos relevos, de Zeferino Ferrez; uma sacada com balaustres de bronze, e seis columnas jonicas; as estatuas de Minerva e de Appolo e, a rematar, o frontão decorado pela classica quadriga, execução de Ferrez, como o restante é de Montigny.
Em 1855, este edificio foi augmentado pelo architecto Job Justino de Alcantara.
A Academia foi inaugurada em 5 de Novembro de 1826, por D. Pedro I, e por iniciativa do ministro Visconde de S. Leopoldo. A primeira exposição publica de trabalhos artisticos, teve ahi logar em 1829, expondo, entre outros, os artistas Debret, Grandjean e Marcos Ferrez.
A sala de leitura é decorada a pinturas de Montigny e de Ferreira, seu sobrinho. Ha ahi muitos retratos de pintores celebres.
Bibliotheca da especialidade.
Ao subir a dupla escadaria, veem-se quadros de Pedro Americo, Grandjean e Ferreira. A notar, Santa Thereza de Jesus, pelo primeiro. Salão da Escola Nacional. Ao centro, Batalha de Avahy, por Pedro Americo. O proprio pintor está retratado á frente do regimento n.º 33. Em frente, Batalha de Guararapes, por Victor Meirelles. O Ultimo Tamoyo, esplendido trabalho de Rodolpho Amoedo.
Do mesmo auctor:—Partida de Jacob. De Henrique Bernardelli:—Os Bandeirantes.
Segue-se uma galeria de escólas estrangeiras, de pintura, onde está principalmente representada a escóla italiana. Ha preciosidades artisticas de Raphael, Rubens, Ticiano, Ribera, Velasquez, e de outros pintores immortaes, que o visitante não póde apreciar, devido á péssima exposição dos quadros.
A notar, ainda, A Noite, de Pedro Americo.
A collecção artistica d’esta Academia, é avaliada em 4:000 contos. O magnifico palacio das Bellas Artes, em construcção na Avenida Central abrigará, brevemente, estas e outras preciosidades esparsas por diversos edificios da capital da Republica.
Grupos e Estatuas
Monumento do Centenario—Na praça da Gloria, que mede 20:000 metros quadrados, e sobre um pedestal de granito, da altura de 4 metros, eleva-se o grupo, em bronze, commemorativo do 4.º centenario da descoberta do Brasil. É alto de 10 metros e consta das figuras bem lançadas de Pedro Alvares Cabral, Pero Vaz de Caminha e Fr. Henrique de Coimbra, respectivamente commandante, escrivão e capellão da frota descobridora.
O monumento é de Rodolpho Bernardelli, e foi encommendado pela Associação do Quarto Centenario do Descobrimento do Brasil. A arte casa-se aqui com a imponencia e a formosura do aspecto geral.
Fonte Ramos Pinto—Este gracioso e artistico monumento está collocado ao centro do jardim que aformoseia a Praça da Gloria. Foi offerecido á cidade do Rio de Janeiro, pelos viticultores portuenses Adriano Ramos Pinto & Irmão, e é um gigantesco blóco de marmore branco, decorado por quadros estatuas.
A execução, do esculptor Thevenet, é primorosamente artistica, especialmente a da figura feminina que, tendo um joelho poisado sobre uma anfractuosidade da rocha, mostra a parte posterior ao publico. É tão perfeito este trabalho, que provocou a regeição do prefeito Francisco Pereira Passos, com o pretexto de que excitaria os instintos libidinosos das baixas camadas populares. Com grande reluctancia, Thevenet praticou o enorme delicto artistico de cobrir a estatua com uma ligeira camisa, que não deixa de accusar-lhe o primôr das fórmas.
Estatua Equestre de D. Pedro I—A erecção d’este monumento foi approvada em sessão do Senado da Camara Municipal do Rio de Janeiro, a 11 de Maio de 1825. Esta resolução não teve seguimento, bem como outras posteriores tentativas, até que em 7 de Setembro de 1854, a Camara Municipal approvou nova proposta do seu presidente, dr. Roberto Jorge Haaddock Lobo. Para o custeio foi aberta uma subscripção publica, por intermedio das camaras municipaes de todo o paiz. Tambem foi aberto concurso entre artistas nacionaes e estrangeiros, cabendo o 1.º premio ao brasileiro João Maximiano Mafra, quanto ao projecto e desenho, sendo a execução confiada ao esculptor francez Luiz Rochet, o 3.º concorrente premiado. A pedra fundamental do monumento foi collocada em 1 de Janeiro de 1862, realisando-se a inauguração em 30 de Março do mesmo anno. A estatua, que custou 334:710$375 réis, occupa o centro da praça da Constituição. A base é de granito, seguindo-se-lhe o pedestal, em bronze, ornamentado a grupos que representam os grandes rios do Brazil—Amasonas, Paraná, Madeira e S. Francisco, symbolisados por indigenas, cuja expressão é eminentemente artistica.
O friso do pedestal é guarnecido por escudos, que representam as vinte provincias brasileiras. D. Pedro I está a cavallo e em grande uniforme de general. Na mão direita, o imperador empunha a Carta Constitucional do Brasil.
O peso total do monumento é de 55:000 kilos. A sua altura é de 3,ᵐ30 na base, 6,ᵐ40 no pedestal e 6 metros da estatua equestre.
Estatua do Visconde do Rio Branco—Eleva-se ao sul da Praça da Gloria, e a pouca distancia da Fonte Ramos Pinto. É de bronze e foi modelada e fundida pelo esculptor francez Charpentier. A figura está sentada e veste o uniforme de senador do imperio. A mão direita descansa sobre dois livros do Visconde—A Convenção de 20 de Fevereiro e Collecção de Leis do Brasil.
A base, de gneiss do Brasil, sustenta o pedestal, de pedra do Jura, e a estatua da Historia, em bronze, que lê, em uma tábua, a seguinte phrase de Tacito—Autoritate Constantia fama inquantam proeumbante imperatoris fastigio datus clarus.
Este monumento foi inaugurado em 13 de Maio de 1902, anniversario da promulgação da lei que extinguiu a escravidão no Brasil, e em homenagem ao estadista que fez votar a lei do ventre livre.
Estatua do Duque de Caxias—Este primôr de esculptura, talvez o melhor trabalho de Rodolpho Bernadelli, ergue-se, desde 15 de Agosto de 1899, ao centro do Jardim e da Praça do Duque de Caxias. O monumento é equestre, em bronze, e assenta sobre um pedestal de marmore de Carandahy.
São notaveis, como obra de arte, os baixo-relevos que ornam o pedestal. O marechal, que monta um cavallo de raça, sustenta, na mão direita, um oculo de alcance.
Estatua de José de Alencar—Foi inaugurada em 1897, e ergue-se na pequena praça que enfrenta o Hotel dos Estrangeiros, entre o Cattete e Botafogo. É de bronze e de Rodolpho Bernardelli. Alencar está sentado em uma poltrona que tem, por base, um blóco de marmore cinzento.
Nas quatro faces do pedestal ha baixo-relevos representando scenas de Iracema, do Guarany, do Sertanejo e do Gaúcho, obras primas do eminente cearense, que brilhou no romance, no drama, na poesia e no jornalismo.
Estatua de João Caetano dos Santos—Eleva-se defronte da fachada principal da Academia das Bellas Artes, em um hemicyclo traçado por Grandjean de Montigny, para dar espaço, ar e luz á primorosa frontaria do palacio. É obra do esculptor fluminense Chaves Pinheiro, modelada em 1859, no Rio de Janeiro, e fundida em Roma, em 1890. É de bronze, tendo estado, o modelo, exposto na exposição de Philadelphia, em 1876.
Estatua do General Osorio—Foi inaugurada em 12 de Novembro de 1894, e fundida com o bronze de canhões, tomados aos inimigos da patria. O monumento é equestre, eleva-se ao centro da praça Quinze de Novembro e foi modelada por Bernardelli.
Pésa 5:700 kilos. O pedestal é de granito dos Alpes. Em dois baixo-relevos ha scenas de batalhas ganhas pelo grande cabo de guerra. Desde 21 de Julho de 1892, que o seu corpo repoisa na crypta do monumento, tendo sido trasladado do Asylo dos Invalidos da Patria.
Estatua de José Bonifacio—Foi esculpturada pelo artista francez Luiz Rochet, e inaugurada em 7 de Setembro de 1872, 50.º anniversario da independencia do Brasil. Deve-se este monumento a uma subscripção popular, iniciada pelo Instituto Historico, que rendeu 60:000:000 réis. Pesa 18:000 kilos, é de bronze e tem a altura de 2ᵐ,40. O heroe da independencia é representado de pé, empunhando uma penna com que escreve o Manifesto ás Nações.
A estatua eleva-se defronte da rua do Ouvidor, ao centro do largo de S. Francisco de Paula.
Egrejas
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Cathedral—O bispado do Rio de Janeiro foi creado em 1676, tomando o 1.º bispo conta do seu cargo seis annos depois. A primitiva cathedral foi a egreja de S. Sebastião, erecta no morro do Castello, berço da cidade.
Em 1703 foi a Sé transferida para o templo da Cruz dos Militares, e em 1720, por algum tempo para a basilica da Candelaria, voltando para a Cruz dos Militares, em 1773. Devido, porém, ao estado de ruina d’esta egreja, no mesmo anno, em 1 de Agosto, o cabido sahiu em procissão e dirigiu-se para a egreja do Rosario, elevando-a a cathedral, contra a vontade dos pretos, seus proprietarios.
Ainda assim conservou-se ahi a Sé por mais de setenta annos. Em 1808, o cabido, em virtude de alvará regio, passou para o santuario mandado construir pelos frades carmelitas, em 1761, ao lado do templo do Carmo, onde actualmente se conserva. A ermida, precursora d’esta egreja, foi edificada á beira-mar, e desabou em dia de festividade, matando muitos fieis.
O interior do templo é ornamentado a trabalho de talha e a estuque dourado, em estylo barroco, por mestre Ignacio, que iniciou os trabalhos em 1785. Ha sete altares e duas capellas fundas; uns e outras separados por balaustres dourados. No corpo da egreja ha tres tribunas de cada lado, divididas por pilares. É bella a perspectiva interior pela feliz combinação dos dourados com a guarnição branca, em estuque, e com o primoroso trabalho de talha. A fachada não pertence a ordem alguma architectonica. O grande painel da capella-mór foi pintado por José Leandro de Carvalho.
Carmo—Bella e imponente frontaria de granito, em estylo barroco, com um lindissimo portico lavrado em marmore da Arrabida.
A confraria dos irmãos terceiros do Carmo, do Rio de Janeiro, foi fundada em 19 de Julho de 1648. A primeira pedra do templo foi lançada em 16 de Julho de 1755, sendo inaugurado em 11 de Julho de 1770. Custou 91:088$995 réis. As duas formosas torres lateraes á frontaria, só ficaram concluidas em 1850 e custaram 111:000$000 réis. Um espaço fechado por dois portões separa esta egreja da Cathedral, ex-capella imperial. O gradil de ferro que cercava o adro e que custára, em Londres, 1:764$100 réis, foi mandado retirar, ultimamente, pelo prefeito Pereira Passos, bem como o do santuario contiguo. Foi no Carmo que se celebrou, em 1792, o Te-Deum em acção de graças pelo enforcamento de Tiradentes. O templo foi novamente dourado em 1854. Até 1812 esteve installado o hospital da Ordem, em edificio annexo, sendo removido para a rua de Riachuelo, em 1870.
O interior da egreja é ornamentado a branco, com toques dourados.
Ha seis altares lateraes e a capella-mór. No corpo principal estão seis tribunas e dois pulpitos. A luz é filtrada, além do zimborio da capella-mór, por seis janellas sobrepostas ás tribunas e por tres do côro, com vitraes coloridos.
Cruz dos Militares—Occupava, outr’ora, a beira-mar. Está situada na rua Primeiro de Março, esquina da do Ouvidor, e a pequena distancia dos santuarios anteriormente descriptos. É obra dos ultimos annos do seculo XVIII, sendo seu constructor o brigadeiro José Custodio de Sá e Faria. Se bem que de elegante aspecto exterior, nada contém esta egreja de especialmente notavel.
S. Bento—Templo e mosteiro situados no vértice da collina de egual nome, no extremo da rua Primeiro de Março. É simples e sem arte o aspecto exterior da egreja e dos edificios annexos; ao transpôr, todavia, o peristylo, o visitante fica deslumbrado com a perspectiva e os detalhes da magestosa fabrica. Desde o sopé ás abobadas, o santuario resplandece o velho ouro que os seculos ainda não conseguiram desvanecer. Em talha dourada, é a d’esta egreja a maior, a mais antiga e a mais preciosa decoração que existe na capital do Brasil. É d’uma só nave, ladeada por dez altares, oito dos quaes communicam-se, interiormente, por duas especies de naves. Os dois pulpitos são tambem preciosos. Sobre os arcos que dão ingresso aos altares, ha outras tantas tribunas douradas, com balaustradas. O tecto é em quadriculos de madeira colorida.
No pavimento do corpo principal estão as sepulturas dos doadores, D. Diogo de Brito de Lacerda, e D. Victoria de Sá, com brazões heraldicos.
São riquissimas as capellas do Santissimo Sacramento e da Immaculada Conceição. A primeira tem quatro tribunas e um magnifico altar, com esplendoroso sacrario e quatro columnas salomonicas, tudo dourado. Todos os altares do monumento são guarnecidos a columnas do mesmo estylo e profusamente douradas.
Na capella-mór ha bancadas de nogueira para a assistencia capitular. Á esquerda está o solio, com o docel, para o abbade-bispo de S. Bento.
Os beneditinos estabeleceram-se no Rio de Janeiro, em 1589, e occuparam, primitivamente, a ermida de N. S. do Ó, na praia da cidade, doada pelo governador Corrêa de Sá.
O tecto da capella-mór é decorado a frescos, representando scenas da vida de S. Bento. É grande, valiosa e artistica a collecção de objectos de prata, que adorna o templo, avultando a imagem de N.ª S.ª do Monserrat, que occupa a cúspide do altar-mór; o crucifixo d’este altar, o tocheiro da capella-mór e as lampadas das capellas lateraes.
O corpo da egreja é illuminado por seis artisticos lampeões de ferro, a tres luzes. Da esplanada, bem como de varios pontos da vasta cêrca do convento, a vista é extensa e bella para diversos pontos da cidade e da bahia.
O Gymnasio de S. Bento e a escóla de preparatorios, contiguos ao templo, teem frequencia superior a 300 alumnos. Ha ainda a escóla preliminar de S. José e uma escóla nocturna, tudo para o sexo masculino. Todos os frades d’este convento são allemães. Na cêrca está uma caixa de agua, do rio do Ouro, que communica com o deposito geral do Pedregulho.
S. Francisco da Penitencia—Minusculo e magnifico santuario, pertencente á Ordem Terceira de S. Francisco da Penitencia, situado no alto da collina de Santo Antonio, e junto á egreja d’esta invocação. Depois do de S. Bento, é este o interior sagrado mais artistico e bello do Rio de Janeiro. Os 6 altares lateraes, os 2 pulpitos, as 6 varandas, o magestoso árco-cruzeiro, a capella mór e o côro constituem um grandioso poema em talha dourada, onde a arte da execução rivalisa com os primôres das concepções decorativas e da materia prima empregada, ha seculos, no realce artistico.
O tecto é em madeira pintada e nos intervallos das tribunas ha quadros emmoldurados em talha dourada e pintados por José de Oliveira.
A primitiva egreja da Ordem Terceira da Penitencia, no Rio de Janeiro, foi a capella da Conceição, erecta na visinha egreja de Santo Antonio, por Luiz de Figueiredo e sua mulher, Antonia Carneiro.
O actual edificio foi concluido em 1772, depois de muitas contendas com os visinhos frades franciscanos do convento de Santo Antonio, tendo começado as obras em 1653.
Tanto o interior como o exterior do santuario são em estylo barroco.
Santo Antonio—Communica com o edificio anteriormente descripto. Esta egreja é modestissima, destacando-se apenas a capella do Noviciado, com o tumulo, em marmore, do principe D. Pedro Carlos, filho de D. João VI. Contiguos a estas egrejas estão os dois conventos das mesmas invocações, ambos habitados por frades franciscanos.
Do adro d’estes santuarios, gosa-se o panorama parcial da cidade, da bahia e dos suburbios.
S. Francisco de Paula—No lado Sul da praça de egual nome, ergue-se imponentemente a elegantissima frontaria d’este templo, pertencente á Veneravel Ordem Terceira dos Minimos de S. Francisco de Paula. É construcção architectonica da ordem composita e ostenta um bellissimo portico de marmore da Arrabida. Foi inaugurado em 1801. Os artistas brasileiros Valentim da Fonseca e Silva e Antonio de Padua e Castro, decoraram interior e sumptuosamente esta egreja, a mais central da cidade. Ladeiam a fachada duas torres, que realçam a belleza do conjuncto. Tambem aqui, e em nome da esthetica civica, o prefeito Passos destruiu o gradeado que protegia o adro.
Matriz da Gloria—Esta vastissima egreja eleva-se na face occidental da praça do Duque de Caxias.
A frontaria é aformoseada por oito columnas jonicas, de granito, com dez metros de altura, que assentam em treze degraus de cantaria e sustentam um frontão da mesma pedra, com um painel decorativo, e as estatuas de S. Pedro e S. Paulo, nas extremidades lateraes. Do lado posterior do frontão eleva-se um campanario da altura de quarenta e dois metros, até um terraço guarnecido a balaustrada e a estatuas de granito. Sobre esta esplanada levanta-se outro corpo de torre, rematado por uma pyramide quadrangular, que sustenta uma cruz á altura total de sessenta metros. Interiormente, o templo é decorado em estylo barroco, notando-se a preciosa obra de talha do altar-mór.
Outras muitas egrejas, menos notaveis, accentúam o aspecto monumental do Rio de Janeiro, taes como S. José, Lapa, S. Christovão, Rosario, Sacramento, S. João Baptista, Gavea, e a historica e popular ermida octogona que corôa o vértice da pittoresca altura da Gloria.
Museus
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Museu Nacional—Foi fundado em 1710, pelo vice-rei Luiz de Vasconcellos, em um predio da rua do Sacramento, mais tarde ampliado para Thesouro Federal.
Tendo caído em abandono, D. João VI reergueu-o, em 1818, a pedido do seu ministro Thomaz Antonio de Villa Nova Portugal, sendo installado em um palacete do campo de Sant’Anna, depois praça da Acclamação. Em 11 de Julho de 1864, foi inaugurada a bibliotheca d’este Museu, com 3:000 volumes, contando hoje mais de dez mil. Um italiano, em 25 de Junho de 1865, tendo-se escondido no interior do edificio, no momento de serem fechadas as portas, durante a noite roubou 49 diamantes, 153 moedas antigas e 70 medalhas diversas.
O Museu foi mudado, em 1892, para o ex-palacio imperial de S. Christovão, que servira, em 1890 e 1891, de Palacio do Congresso Constituinte da Republica. É um amplo e vistoso edificio situado em terreno elevado, ao centro de terras incultas e enfrentado por um magnifico parque, cuidadosamente ajardinado.
As principaes collecções são a mineralogica e a antropologica, seguindo-se-lhes, em importancia, a numismatica, a ethnographica e a de antiguidades egypcias e pompeanas.
Começando pelo 3.º pavimento, visita-se a Sala Rodrigues Ferreira, com curiosos exemplares de simios, phocas e outros animaes.
Sala Correia de Lacerda. Carnivoros roedores. Bellissimo exemplar leonino. Insectivoros.
Sala Spix. Mammiferos. Antiodactylos ruminantes. Magnificos exemplares de elephantes e de veados.
Sala Blainville. Esqueletos de passaros. Gabinetes, a seguir, com variadissima e abundante collecção de insectos do paiz. Interessantes habitações de maribondos.
Galeria Buffon. Esqueletos de quadrupedes.
Segundo pavimento.
Sala Burmeister. Curiosissima collecção de ninhos de aves.
Sala Natterer. Passaros.
Sala Wied. Aves de rapina. Esplendido exemplar de condor dos Andes.
Sala Schreiner. Numerosa e escolhida collecção avicola-brasileira.
Sala Wallace. Passaros corredores, entre elles dois magnificos exemplares de avestruz.
Galeria Baptista Caetano. Ethnographia. Vestuarios e armas de varias tribus de indios da bacia do Amazonas.
Sala Simão de Vasconcellos. Armas, utensilios e ornatos de indios mundurucús, araras, uaupés e da Guyana Brasileira.
Sala Castelnau. Retratos e estatuas de indigenas do Brasil. Grupo, em bronze, offerecido pelo marechal Deodoro.
Sala Varnhagen. Numerosa e curiosissima collecção de armas, vestuarios, utensilios e ornatos dos indios carajás, appiaças, bororós, mahués e guajarás.
Sala Ferreira Penna. Ceramica greco-romana. Ceramica brasileira, peruana e mexicana. Alguns dos objectos expostos são pre-historicos.
Galeria Fernão Cardim. Ethnographia das ilhas Aleutas, Sandwich, Nova Guiné, Rainha Carlota, Madagascar e Nova Zelandia.
Sala Champollion. Sarcophagos e mumias. Antiguidades mexicanas, africanas e europeias. Ethnographia africana e asiatica. Antiguidades egypcias.
Sala Broca. Mumias pequenas. Esqueletos indianos. 300 caveiras de indios diversos.
Sala Freire Allemão. Fibras textis. Cipós e madeiras do Brasil. Amostras de oleos e de sementes nacionaes.
Galeria Conceição Velloso. Troncos gigantescos de vegetaes do Brasil.
Sala Humboldt. Ethnographia sul-americana.
Galerias Gabriel Soares, Eschwege e Couto de Magalhães. Pirogas, remos e rêdes indianas. Pedras e placas com inscripções e brazões.
Sala Haeckel. Echinoides. Ovos e embryões.
Sala Lamarch. Molluscos. Collecção numerosissima e interessante.
Sala Lacaze-Duthiers. Madreporarios. Hydroides. Espongiarios. Alcyonarios.
Sala Dumeril. Serpentes, lagartos, jabutis, tartarugas, kagados, etc.
Sala Agassiz. Bello exemplar de Cephaloptera Vampyrus Gunth Jamantra, apanhado na praia da Copacabana. Mostruario de peixes em alcool.
Sala Andrada. Riquissima collecção mineralogica.
Rez-do-chão:
Secções de paleontologia brasileira e estrangeira. Ossuario de baleia com 16 metros de comprimento.
Meteorito de Bendegó. É o maior e mais pesado que se conhece. Foi encontrado em 1784, por Joaquim da Motta Botelho, nas proximidades do riacho Bendegó. Chegou ao Rio de Janeiro em 1 de Junho de 1888. Pésa 5,360 kilos.
| Composição: | Ferro | 95,1 |
| Nickel | 3,9 | |
| Outros elementos | 1, |
Museu Naval—Encontra-se, este museu, no rez-do-chão da repartição do Almirantado, na rua de D. Manuel. Foi creado por decreto de 14 de Março de 1868 e inaugurado em 25 de Março de 1884, nos salões do Arsenal de Marinha, devido á intervenção do vice-almirante Arthur de Jaceguay. Por decreto de 26 de Abril de 1890, o almirante Wandenkolck, ministro da marinha, reuniu no mesmo estabelecimento, á rua do Conselheiro Saraiva, n.º 12, o Museu e a Bibliotheca.
No dia 11 de Junho de 1898, sendo ministro da marinha o contra-almirante Manoel José Alves Barbosa, foi solemnemente inaugurado o museu, no edificio actual, e franqueado ao publico.
O principal valor artistico d’este museu, consiste nos seguintes quadros do pintor De Martino:
—Aprisionamento da corveta argentina General Dorrego, pela corveta brasileira Bertioga.
—Passagem do Tonelero, em 1851.
—Combate naval do Riachuelo.
—Abordagem do Barroso e do Rio Grande.
—Bombardeamento do forte de Curuzú.
—Abordagem da fragata brasileira Imperatriz, pela esquadra argentina.
—Couraçado Independencia.
—Passagem do Humaytá.
—Noite de luar, no porto de Montevideu.
—Encontro do Almirante Barroso com o Riachuelo, no alto mar.
—Couraçado Independencia, fundeado no Tamisa.
—Abordagem da corveta Maceió, por canhoneiras argentinas.
—Abordagem dos paraguayos á esquadra brasileira, em 2 de Março de 1868.
—Acampamento do Chaco, em frente a Humaytá.
Quadros de Victor Meirelles:
—Passagem do Humaytá, em 19 de Fevereiro de 1868.
—Combate Naval do Riachuelo.
Ha ainda muitos outros quadros a oleo, photographias e retratos de almirantes e de ministros da marinha.
Este museu é dividido em oito secções, constando a 1.ª de quadros a oleo; a 2.ª de retratos e photographias; a 3.ª de modelos de navios; a 4.ª de bandeiras e estandartes; a 5.ª de artilharia, couraças, torpedos e variado armamento fixo; a 6.ª de armamento portatil; a 7.ª de reliquias de navios historicos e de ethnographia nacional; e a 8.ª secção consta de medalhas.
Pedagogium, ou Museu Escolar. Funccionam n’este edificio, defronte do Passeio Publico, os cursos fixos e normaes de sciencias physicas e naturaes e os cursos temporarios[2]. Tambem ahi realisam-se conferencias e exposições pedagogicas. Encerra uma officina de trabalhos manuaes; uma sala-modelo da classe primaria, contendo o material escolar; um gabinete de geographia; um gabinete-museu de historia natural; um gabinete de physica e laboratorios de psychologia experimental, de chimica e de physiologia do systema nervoso. Contem uma bibliotheca que, com o museu e os laboratorios, está patente das 10 horas da manhã ás 3 da tarde, excepto ás segundas-feiras.
As classes são nocturnas.
De maneira que o Pedagogium, que funcciona em edificio proprio e municipal é, ao mesmo tempo, um instituto para habilitação de professores primarios e um museu pedagogico. O laboratorio de psychologia experimental é o unico, no seu genero, no territorio da Republica.
Em 1902 trabalharam 7 cursos, com a frequencia de 153 alumnos; em 1903, 10 cursos com 143 alumnos, e em 1904, 17 cursos com 194 alumnos.
[2] Ao entrar este livro no prélo deixaram de funccionar as aulas do Pedagogium.
Bibliothecas
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Bibliotheca Nacional—Foi fundada por D. João VI, em 1810, com os livros que levou da bibliotheca do palacio real de Lisboa. Primitivamente funccionou nos altos do hospital do Carmo, junto do palacio imperial. Até 1822, esta instituição não foi publica.
Em 4 de Agosto de 1858, foi reaberta ao publico no edificio especial que o governo comprára, no Largo da Lapa, por 124 Apolices de um conto de réis. No momento da publicação d’este livro está a construir-se, na Avenida Central, um magestoso palacio destinado á definitiva installação da Bibliotheca Nacional.
Contem cêrca de 240:000 volumes, 25:150 exemplares de moedas e medalhas e 100:000 estampas e gravuras. Possue muitos exemplares rasos, impressos e manuscriptos, e numerosos retratos de artistas celebres, taes como Alberto Durer, Van-Dyck, Lucas de Hollanda, Raimondi, Andréa Mantegna, e outros.
A biblia latina de Fust Schoeffer, de Moguncia, impressa em pergaminho e em 1462, é uma das preciosidades d’esta bibliotheca. Possue officina typographica e de encadernação. Está patente ao publico, ininterruptamente, das dez da manhã ás nove horas da noite. A frequencia média, mensal, é de 3:500 leitores.
Bibliotheca Municipal—Contem, actualmente, cêrca de 22:000 volumes litterarios e scientificos. Foi creada em 15 de Março de 1893, em sessão da Camara Municipal, por proposta do vereador-presidente, tenente-coronel Antonio Barroso Pereira. A frequencia média, mensal, é de 1:200 leitores. É publica nos dias uteis, das 10 horas da manhã ás 3 da tarde, e das 5 da tarde ás 8 horas da noite. Está installada no edificio da Prefeitura, na Praça da Republica.
Bibliotheca Fluminense—É esta a principal das bibliothecas particulares do Rio de Janeiro. Foi fundada em 1847, por Bernardo Joaquim de Oliveira, e está installada no predio n.º 92, da rua do Ouvidor.
Encerra 90:000 volumes de artes, litteratura e sciencias, álem de numerosos e preciosos manuscriptos.
Alem d’estas ha as bibliothecas especiaes do Exercito e da Marinha, nos respectivos arsenaes; a Bibliotheca Germania, na Praia do Flamengo n.º 60; a Bibliotheca do Commercio, no edificio da Associação Commercial, e outras de menos importancia e particulares.
Jardins e parques
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Parque da Republica—Occupa o centro da maior praça do mundo, com a superficie de 198:000 metros. O Campo de Marte, em Paris, tem 112:000 metros; a Praça Real, de Berlim, 100:000 metros; a Praça do Hotel de Ville, em Vienna d’Austria, 90:000 metros, e a Praça da Concordia, em Paris, 89:000 metros. E isto para citar só as principaes.
O Parque foi inaugurado em 7 de Setembro de 1880, e é circumdado por um gradil de ferro, da altura de 2,ᵐ30. Esta obra foi custeada pela Camara Municipal e executada sob a direcção do dr. Glaziou, eminente botanico, architecto e paysagista. As obras começaram sete annos antes da inauguração. Nas quatro faces do gradeamento, que é fundido em sopé de cantaria, abrem outros tantos portões monumentaes, com motivos decorativos.
A superficie plantada é de 86:000 metros; os lagos e os rios occupam 18:000 metros e os arruados 43:522 metros. Estes são amplos e calcetados a macadám, O Parque está situado no centro da cidade do Rio de Janeiro, e divide os velhos bairros, hoje transformados, da nova metropole, começada a edificar no seculo XVIII.
Das decorações d’este bellissimo e magestoso logradouro publico avulta a cascata, em fórma de gruta, com galerias transitaveis, de cujos tectos pendem gottejantes estalactites.
Ha dois pavilhões de ferro para concertos, e na vastissima praça central tem-se construido, por vezes, numerosas barracas para kermesses, e realisado esplendidas batalhas de flôres, com o concurso das alamedas que a ella convergem. Numerosas estatuas, grupos artisticos e pontes rusticas decoram este magnifico Parque.
Passeio Publico—O mais antigo e um dos mais bellos logradouros publicos da formosissima capital do Brasil, foi mandado delinear e executar pelo vice-rei Luiz de Vasconcellos e Sousa, sobre a lagôa pantanosa e aterrada do Boqueirão da Ajuda. Foi auctor do trabalho o mestre Valentim da Fonseca e Silva, que da tarefa se desempenhou com aprimorado gosto artistico.
A inauguração realisou-se em 1783, mas tendo sido a conservação do Passeio descurada pelos successores d’aquelle vice-rei, houve necessidade de reformal-o, o que se fez, pela ultima vez, em 1861, sob a direcção do dr. Glaziou. Foi reaberto o Passeio, ao publico, no dia 7 de Setembro do anno seguinte. A area total do terreno é de 28:196 metros, e a superficie plantada, de 17:637.
O arvoredo, mais que secular, é denso, frondoso e bello, constituindo uma preciosidade pela raridade e excellencia dos exemplares que o formam e o melhor local de sombra que existe no centro da cidade. Nota-se um Aquario, inaugurado em 1904 e o primeiro construido na America do Sul, com 20 tanques, ou piscinas e cêrca de 40 variedades de peixes raros, zoophytos, echinodermes, molluscos e crustaceos.
Sob uma formosa e soberba Latania vê-se o busto de Gonçalves Dias, inaugurado em 1901.
É de bronze, sobre pedestal de granito, e execução de Rodolpho Bernardelli. Ha ainda a notar duas columnas de pedra, cobertas de hera, obra do mestre Valentim, e dois tanques com jacarés de bronze, de cujas fauces precipita-se, ha 122 annos, o precioso liquido que dessedenta parte da população fluminense. O mais precioso local d’este pittoresco e bello Passeio Publico, é o amplo terraço, que domina a Avenida Beira-Mar e a magestosa bahia de Guanabara. D’ahi aprecia-se todo o movimento do porto e um dos mais empolgantes panoramas do nosso planeta.
Jardim Botanico—Entre a lagôa Rodrigo de Freitas e o ponto terminal da linha de tramways electricos da Botanical Garden, está situado o mais bello dos jardins botanicos do mundo. A sua area é de 544:611 metros, e encerra mais de 60:000 exemplares de plantas, muitissimas raras, algumas originaes e unicas, e todas extraordinariamente desenvolvidas.
Foi fundado por D. João VI, em 1808, com o nome de Real Horto de D. João VI, mudado por decreto de 11 de Maio de 1809, para Real Jardim Botanico.
Logo á entrada a nossa retina é maravilhada pela Alameda das Palmeiras, com 134 exemplares magnificos, que occupam a extensão de 740 metros, em linha recta. As palmeiras teem 25 metros de altura e cerca de 1,ᵐ30 de circumferencia na base. Esta alameda é universalmente afamada e a primeira no seu genero. Outras alamedas, menos extensas, e tambem bordadas a palmeiras, correm parallelas a esta e dão um aspecto monumental, bello e imponente ao Jardim Botanico do Rio de Janeiro.
Á esquerda da entrada admira-se uma Guarea trichilioides, o mais velho dos vegetaes indigenas d’este estabelecimento. Do lado opposto ostenta-se um soberbo exemplar de Nephelium Li-tchi, importado de Cayenna, em 1809.
A Palma Mater, que produziu as sementes de todas as grandes palmeiras da mesma especie que enfeitam o Jardim Botanico, a capital e todo o Brasil, eleva-se ao lado da Cascatinha, e tem a altura de 36 metros. É oriunda da Ilha de França, e foi plantada por D. João VI, em 1809.
O director Serpa Brandão, cujo nome foi dado á Alameda Central, mandava queimar as sementes da Palma Mater, para que não se reproduzissem fóra do Jardim; porém os escravos subiam, de noite, ao vértice da planta, e roubavam as sementes, que vendiam a 100 réis cada uma.
Ultimamente, apparecendo lagartas verdes a devorar a base das folhas d’esta preciosa e secular palmeira, o director Barbosa Rodrigues, mandou propositadamente construir um andaime para extinguir os damninhos reptis.
Ao fundo da Alameda Serpa Brandão, vê-se um artistico fontanario de bronze que outr’ora esteve em uma praça da cidade.
Proximo d’um magestoso bambual formando curvas em gothico, ergue-se o monumento a Frei Leandro do Sacramento, o primeiro director d’este Jardim. É um busto de bronze com pedestal de marmore e dedicatoria em lettras douradas. Está abrigado por uma construcção octogona com tecto de vidro. Enfrenta-o um lago coberto pela Victoria Regia, representada por esplendidos exemplares.
Este Jardim é cortado por lindissimas avenidas de samambaias, mangueiras, bambús e palmeiras, notando-se todos os exemplares das plantas com as suas designações scientificas, e o maximo aceio e cuidado na conservação do preciosissimo horto, uma das principaes curiosidades da capital do Brasil.
Junto da Palma Mater, inicia-se a construcção do monumento ao fundador do Jardim.
Será inaugurado por occasião da celebração do centenario da fundação d’este maravilhoso escrinio scientifico, natural e artistico.
Floresta da Tijuca—Não obstante estar já situada em um dos mais apraziveis arrabaldes do Rio de Janeiro, nem por isso a floresta da Tijuca deixa de ser um dos logradouros publicos mais procurados e admirados pela população fluminense e, especialmente, pelos forasteiros, que ahi se deliciam em plena apotheose da excelsa natureza.
Na Tijuca, como no Jardim Botanico, na Gavea, no Corcovado e no Pão de Assucar, o visitante é empolgado por esse abraço natural que, pela sua extensão, variedade, abundancia e incomparavel formosura, sublima Rio de Janeiro á culminancia da mais bella e pittoresca metropole do nosso planeta.
O electrico da Light, parte da praça da Constituição e, ao saír da rua do Conde de Bomfim, atravessa terrenos incultos e abundantemente vegetativos, precursores das exuberancias florestaes.
Ao passo que, atravessada a estrada velha, pronuncia-se o movimento ascendente pela encosta, o vehiculo transforma-se em barco, a navegar através de encapellado oceano, pondo em grave risco o equilibrio e as costellas dos passageiros. A linha é pessimamente construida e as curvas são numerosas e rapidas. Porém o observador tem ampla e ineffavel compensação espiritual na formosura da paisagem e no deslumbramento do panorama que os seus olhos abrangem e contemplam.
O electrico pára no alto da Boavista, a 13½ kilometros do largo de S. Francisco de Paula, em uma praça de 15:000 metros de superficie que, ha meia duzia de annos, apenas era um matagal. Hoje está transformada em formoso jardim, com um elegante pavilhão de ferro, ao centro.
Estamos na entrada da serra e da floresta. Começou a aproveital-a e a aformoseal-a o Visconde do Bom Retiro, em 1857, quando ministro do Imperio. Deu-lhe grande desenvolvimento o major Gomes Archer, em 1874, construindo estradas, na extensão de 20 kilometros, regularisando os cursos de agua que atravessam a floresta e plantando arvoredo nas clareiras dispersas.
Quem, da praça da Boavista, internar-se pela estrada principal, na espessura vegetativa, depara, a pouca distancia, com a Cascatinha, primeira quéda d’agua, para quem caminha na direcção norte e que precipita-se da altura de 30 metros. Ao cabo de uns 3 kilometros attinge-se o Excelsior, ponto de vista maravilhoso, á altura de 693 metros. Tambem é notavel o planalto do Bom Retiro, que lhe fica proximo e cuja altura é de 659 metros.
Continuando-se a percorrer a magestosa floresta, visita-se a Gruta de Paulo e Virginia, as Furnas de Agassiz, a Cascata Grande, a Meza do Imperador e a Vista Chineza, com um chalet rustico, de onde se gosa feerica perspectiva. O ponto culminante, porém, da serra e da floresta, é o Pico da Tijuca, na altitude de 1:022 metros acima do nivel do mar. O panorama que d’ahi se descortina escapa á percepção humana, pela sua sublimidade, e não póde descrever-se em linguagem alguma, porque não é dado ao homem immiscuir-se nos esplendores divinos.
Jardim Zoologico—Este estabelecimento, outr’ora um dos mais bellos e interessantes logradouros publicos da capital carioca, no tempo do seu fundador, o barão de Drummond, é agora a desvergonha do Rio de Janeiro. Hoje é deposito da casa Herman Stoltz & C.ª representante do grande parque zoologico Stingler, de Hamburgo, o primeiro do mundo. Nem por isso a collecção é valiosa, antes péssima pela deficiencia de numero e qualidade de individuos expostos.
O parque está quasi abandonado, quando deveria ser um dos melhores no seu genero, ainda que não expozésse senão exemplares nacionaes.
Não obstante ser agora o Jardim Zoologico um deposito particular de animaes importados do estrangeiro, paga-se ainda mil réis de entrada por pessôa, como se verdadeiramente fôsse um parque para gôso da população. Está situado no arrabalde de Villa Izabel.
Rio de janeiro encerra ainda outros parques e praças ajardinadas, taes como a praça Marechal Deodoro, em S. Christovão, com 180:000 metros de superficie; a praça da Gloria, onde se erguem os monumentos do Centenario, a estatua do Visconde do Rio Branco e a Fonte Ramos Pinto; a praça do Duque de Caxias; a da Constituição; a de Quinze de Novembro, e toda a magestosa e bella esplanada de Botafogo, que enfrenta a enseada do mesmo nome.
Theatros
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S. Pedro de Alcantara—O principal theatro do Rio de janeiro, ainda por inaugurar, é o Municipal, já descripto no capitulo—Monumentos.
Das antigas casas de espectaculos, o melhor edificio é o do Theatro S. Pedro de Alcantara, na antiga praça da Constituição, hoje Tiradentes.
Segundo a giria popular fluminense, este theatro tem caveira de burro, porque tendo sido construido, primitivamente, em 1770, ardeu em 1824, em 1851 e em 1856. Exterior e interiormente, a sua architectura é vulgarissima. Tem 87 camarotes, 532 cadeiras, na plateia, 28 no balcão e 400 logares de galeria. É frequentado por companhias estrangeiras e nacionaes de opera, opereta e comedia.
Theatro Lyrico—Outr’ora Theatro D. Pedro II. É um casarão situado na rua Treze de Maio, esquina da rua Senador Dantas, e prestes a desapparecer, em nome da hygiene e da esthetica.
Ahi exhibiram-se as maiores celebridades da scena lyrica universal. Póde conter duas mil pessôas. Tem 806 cadeiras de plateia, 220 de balcão, 84 camarotes e 500 logares de galeria.
Theatro Apollo—Está situado na rua do Lavradio e é precedido de um pequeno jardim. Procuram-n’o as companhias de operetas, revistas e magicas. A construcção é ligeira e sem importancia.
Theatro Recreio Dramatico—Ao fundo da rua Luiz Gama, antiga do Espirito Santo. É muito antigo e precede-o vasto jardim, principal attractivo do estabelecimento. É muito frequentado por companhias dramaticas e de operetas. Tem gloriosas tradições. Ahi representaram Antonio Pedro, João Caetano dos Santos e outras notabilidades nacionaes e estrangeiras.
Theatro Sant’Anna—Está, como o antecedente, situado na rua Luiz Gama e tem, como elle, gloriosas tradições artisticas. Á saída d’este theatro, foi D. Pedro II victima de uma tentativa de assassinato, em 1888. Encerra 22 camarotes, 81 cadeiras e 500 logares de galeria. Tem sido frequentado por companhias theatraes de todos os generos.
Theatro Lucinda—Ainda na mesma rua. Contem 306 cadeiras, 13 camarotes e 200 logares de galeria. É para comedias, operetas, dramas, revistas e magicas.
Foi fundado pela grande actriz Lucinda Simões, que o illustrou durante muito tempo.
Álem d’estes theatros, ha o de S. José, na praça Tiradentes, e grande numero de cinematographos, casinos, frontões e cafés cantantes. A vida de theatro é, porém, pouco intensa no Rio de Janeiro, terra de trabalho e de calor. As familias preferem gosar a escassa frescura da noite, aos portões das suas chacaras, a irem metter-se em exiguas salas, cuja atmosphera é insupportavel pelo calor emanante da illuminação, dos corpos e da falta de ventilação e de ventiladores.
Cemiterios
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O maior cemiterio da capital do Brasil, é o de S. Francisco Xavier, entre a praia do Cajú, o Retiro Saudoso e a rua Bella de S. João. Foi inaugurado em 1840. Pertence á Irmandade da Misericordia, porém os enterramentos são publicos.
D’entre os seus monumentos destacam-se:
—Aos marinheiros italianos do couraçado Lombardia.
—Capella da familia Jannuzzi. É circular, interessante e artistica.
—Sepultura de Flavia Maciel.
—Sepultura do Barão de Alagôas.
—Campa em marmore preto e lettras de bronze, do marechal Manoel Deodoro da Fonseca e sua esposa.
E poucos mais jazigos notaveis sob o ponto de vista artistico.
Annexo a este, ha um cemiterio para acatholicos.
O cemiterio de S. Francisco da Penitencia está separado do anterior por uma collina. Aqui tambem não abundam as campas artisticas. Destaca-se uma grande capella de granito, com frontaria de marmore cinzento, guarnecida por duas columnas inteiras e duas meias columnas de marmore branco. Remata-a uma cupula de granito. Interiormente, as paredes são occupadas por 460 gavetas de marmore branco, numeradas, para ossuarios. Ha duas galerias circulares, de ferro, e uma crypta com numeroso ossuario, disposto em triplice muralha. Foi inaugurada em 21 de Abril de 1908, e pertence, como o cemiterio, á Veneravel Ordem Terceira de S. Francisco da Penitencia.
Á entrada d’este campo santo, primorosamente ajardinado, estão gravados, em marmore, os seguintes dizeres, a lettras pretas:
—Hoje sois o que nós fômos—.
O cemiterio do Carmo, de propriedade da Ordem de egual nome, está situado a seguir aos antecedentes, na direcção da cidade. É o mais pequeno dos tres.
Ha a notar ahi:—Capella-Jazigo do commendador Manoel Mattos do Souto, em estylo manuelino.
—Sepultura de João Gonçalves Barroso. É de marmore branco e decorada a estatuas. Ladeiam-n’a dois leões da mesma pedra.
—Jazigo de granito, do conselheiro Manoel Pinto de Sousa Dantas, com o seu busto em bronze. É em estylo egypciaco e encerra crypta e urna de granito.
Estes cemiterios estão admiravelmente situados, sob o ponto de vista topographico, á beira-mar e a grande distancia da cidade.
O cemiterio de S. João Baptista, está situado em Botafogo, junto das ruas de S. João Baptista e do General Polydoro. O terreno é ligeiramente accidentado, abrangendo-se, á entrada, a vista geral de todo o campo santo, com os jazigos em amphitheatro.
Que esplendor de scenario, em tão limitado horizonte!
A propria montanha, cuja encosta oriental o cemiterio occupa, e o Corcovado, que magestosamente domina e corôa o panorama, fecham os limites visuaes, com as elevações suas derivadas, patenteando ao observador a indescriptivel belleza natural dos seus contornos. Artisticamente ha a notar:
—Jazigo de marmore e de granito côr de rosa, da familia Murinelli.
—Capella monumental, que encerra o niveo sarcophago do marechal Floriano Peixoto.
—Jazigos das familias Silva Macieira e Torres, com lindissima frontaria a columnas salomonicas.
—Sepulturas das familias Carneiro da Cunha Esteves, Rodrigues Portella, Armand Darlot, Adolpho Hasselman, e uma ou outra estatua decorativa de sepulturas mais modestas.
Um montão de soberbas corôas, sobre uma campa rasa, indicava que, na vespera da nossa visita, tinha alli sido collocado o feretro do almirante Saldanha da Gama.
Notam-se os tumulos de outras notabilidades, como o Barão de Cotegipe e o Marechal Machado Bettencourt.
No arrabalde de Catumby está o cemiterio da Ordem Terceira dos Minimos de S. Francisco de Paula.
Álem d’estes, ha os cemiterios protestante e israelita.
Curiosidades
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Avenida Central—Os trabalhos iniciaes da mais bella e monumental arteria publica do Rio de Janeiro, começaram em 8 de Março de 1904, e já em 7 de Setembro do mesmo anno, o Presidente da Republica, Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves, e o Ministro da Viação e Obras Publicas, Dr. Lauro Müller, inauguravam officialmente a Avenida Central, comprida de 1812 e larga de 33 metros. Prolonga-se de mar a mar, desde a Prainha ao Passeio Publico. Decoram-n’a sumptuosos edificios, alguns tambem notaveis pela arte architectonica e decorativa. Destacam-se os seguintes:
—Pavilhão de Monröe. É elegantissimo, com estructura de ferro e serviu na Exposição de S. Luiz. Palacio da Justiça. Bibliotheca Nacional. Academia das Bellas Artes. Theatro Municipal. Companhia Jardim Botanico. Casa Guinle. Predio n.º 131, estylo Renascença. Associação dos Empregados do Commercio. Club de Engenharia. Jornal do Commercio. Predio em estylo mourisco e cupula dourada, construido pelo architecto Morales de los Rios. Predio de Theodoro Wille. Companhia Docas de Santos, com uma artistica e monumental porta esculpturada em talha. Palacio da Caixa de Conversão, exteriormente decorado a columnas caneladas, com capiteis dourados. O hall é lindissimo, vistoso e artistico. Casa Roxo Rodrigues, em cantaria cinzenta e em fórma acastellada. Para terminar, citaremos o palacio dos Benedictinos e o edificio do grande jornal O Paiz. Jannuzzi e Heitor de Mello foram, álem do já citado, os principaes constructores dos bellissimos palacios e palacetes que sublimam a Avenida Central do Rio de Janeiro á culminancia de primeira arteria publica da America do Sul. No extremo da Prainha, ergue-se uma columna de granito, destinada a supportar a estatua do Visconde de Mauá.
Palacio da Presidencia da Republica—Foi edificado em 1862, pelo Barão de Nova Friburgo, e adquirido, pelo Governo Federal, em 1896, para residencia do chefe do Estado.
Tem soffrido varias modificações, e o terreno da chácara foi augmentado até á Avenida Beira-Mar; porém, interiormente, á excepção dos sobrados e de alguns motivos decorativos, a fabrica é da primitiva.
A fachada é em tres pavimentos, estando installadas no do rez-do-chão as repartições de serviço; no 1.º andar, ou 2.º pavimento, as salas e os salões de recepção, servindo o 3.º de residencia particular. Á entrada ha duas ordens de columnas caneladas que atravessam o perystillo, ornado a estatuas e grupos.
A escadaria é magnifica, realçando-lhe a belleza as tribunas douradas que circulam o 3.º pavimento.
No andar nobre ha, especialmente a notar, pela decoração a frescos, estuques e dourados, a sala Azul, para recepções de embaixadores; a sala Amarella, ou de Musica; a sala da Capella, que serve de recepção á esposa do Presidente da Republica; a sala Pompeiana, com finissimas decorações e a celebre Jarra Beethoven, obra prima de Raphael Bordallo Pinheiro; o salão dos Banquetes; a sala Mourisca, decorada a marmore preto, e o Salão Official das Recepções, esplendidamente decorado.
Todas estas salas e salões ostentam soberbos lustres e precioso mobiliario. Na sala Silva Jardim, nota-se o quadro de Aurelio de Figueiredo—Juramento de Deodoro—com todos os principaes personagens do 15 de Novembro. Na secretaria vê-se A Descoberta do Brasil, outro quadro de Aurelio de Figueiredo, e A Selva, quadro de Antonio Parreiras.
Um ascensor communica os pavimentos. O parque, esculpturalmente decorado, é atravessado por dupla fila de lindas e gigantescas palmeiras.
Aqueducto da Carioca—É a principal e monumental curiosidade que o Rio de Janeiro possúe dos tempos coloniaes. A sua extensão principal é de nove mil metros, desde a Mãe d’Agua, na serra de Santa Thereza, até ao largo da Carioca. A sua parte monumental, porém, é composta de 42 arcos de alvenaria, da altura de 17,ᵐ6, desde a caixa d’agua da Carioca, onde hoje está a estação da Companhia Ferro Carril Carioca, até ao morro de Santa Thereza. Este é o actual viaducto da linha, que se prolonga até ao Silvestre. Foi este aqueducto mandado construir pelo Conde de Bobadella, 59.º Governador do Rio de Janeiro, em 1744.
Durante o trajecto através d’esta colossal arcaria, gosa-se admiraveis vistas parciaes da cidade, da bahia, e de alguns arrabaldes.
Palacio Itamaraty—Está situado na antiga rua Larga de S. Joaquim. Foi o primitivo palacio do Governo, em seguida á proclamação da Republica. Hoje é o Ministerio das Relações Exteriores e serve tambem de residencia ao respectivo ministro, o Barão do Rio Branco.
No 1.º andar, ou nobre, nota-se a sala do Tribunal Arbitral, com mobilia dourada e estofos côr de rosa. Sala de recepção para o director geral do Ministerio, com os bustos, em bronze, do Visconde de Cabo Frio e de Quintino Bocayuva. Salão Amarello, para recepção de diplomatas. Admira-se aqui um quadro de Pedro Americo, intitulado—Paz—. Bustos, em bronze, de José Bonifacio, José Antonio Saraiva, Barão de Cotegipe, Marquez do Paraná, Visconde do Uruguay, Marquez d’Abrantes, Pimenta Bueno, Visconde do Rio Branco e Visconde de Cachoeira. Gabinete particular de recepção de diplomatas. Vê-se aqui o Grito do Ipyranga, por Pedro Americo, esboço do quadro que está em S. Paulo. Retrato de metal, em relêvo, do Barão do Rio Branco, offerecido pelo povo de S. Paulo.
Outros objectos, em prata e prata dourada, entre elles um do Jornal do Commercio, offerecidos ao actual ministro das Relações Exteriores, por occasião da sentença do tribunal arbitral suisso, na questão das Missões.
Sala Vermelha, decorada a quadros e a retratos. Um dos primeiros foi offerecido ao Barão do Rio Branco, pelo rei D. Carlos I, de Portugal.
Salão de Baile e Banquetes, com um soberbo lustre de metal amarello e crystal de rocha. Contigua está a sala de Fumo, que tambem serviu de recepção particular aos ex-presidentes da Republica, Deodoro e Floriano. Bustos, em bronze, do padre Bartholomeu de Gusmão e do Barão do Rio Branco. Relogio historico de D. João VI. Sala dos Retratos, dos presidentes da Republica.
Ha um edificio annexo, com a Secretaria e a Bibliotheca do Ministerio, que é importantissima.
Em tres salões, dos quaes o maior tem 33 metros de comprimento e o mais pequeno 22, estão 42:000 volumes encadernados, e cêrca de 100:000 brochuras e 25:000 cartas geographicas. Tambem, n’este edificio, está o archivo secreto do Ministerio das Relações Exteriores.
Chafariz Colonial—Outra reliquia do Brasil colonial. Foi o governador Gomes Freire de Andrade, Conde de Bobadella, quem o mandou construir ao centro do largo do Paço. Alguns annos depois, o governador Luiz de Vasconcellos e Souza, mandou que o chafariz fôsse removido para a beira-mar, junto do caes, a fim de abastecer as embarcações, ao mesmo tempo que parte da população da cidade. É uma obra artistica, de granito lavrado, com escudo, almofadas e balaustrada de marmore branco. Occupa, hoje, o fundo do primeiro polygono ajardinado da praça Quinze de Novembro, a 85 metros da bahia. Remata-o a esphera armillar, de ferro. É obra do seculo XVIII.
Casa da Moeda—O primitivo estabelecimento d’este nome, transferido da Bahia em 17 de Março de 1699, funccionou no edificio da Junta do Commercio, apenas durante um anno, sendo transferido para Pernambuco. N’esse curto periodo foram cunhados 612:644$000 réis em ouro e 255:694$980 réis em prata.
Em Janeiro de 1703 foi restabelecida a Casa da Moeda do Rio de Janeiro. Para installal-a foi construido um edificio entre as travessas das Bellas Artes e da Moeda, aonde tambem funccionavam o Real Erario e a Thesouraria Geral das Tropas. Essa casa ardeu em 1 de Outubro de 1836, sendo os valores e apparelhos recolhidos á egreja do Sacramento.
O actual edificio foi construido de 1851 a 1853, na face occidental do então Campo da Acclamação, hoje Praça da Republica. Occupa uma area de 97:083 palmos quadrados. É precedido de um elegante gradil de ferro fundido em cantaria, com dois portões artisticamente ornamentados.
A frontaria consta de um corpo central saliente e revestido de cantaria, de dois torreões com tres janellas, em cada pavimento, e de dois corpos intermediarios, com 4 janellas em cada andar. O 1.º pavimento é decorado com pilares e columnatas de ordem dorica-romana, e o 2.º com pilares e columnata de ordem jonica, tudo de granito. Interiormente, ha seis columnas graniticas, em cada pavimento, que sustentam entablamentos, cujos frisos são ornados a triglyphos e metopos.
A decoração vestibular é no estylo dorico-romano. Na escadaria do perystillo estão dois leões de bronze. Custou este palacio cêrca de dois mil contos. Foi o Visconde de Itaborahy, ministro da fazenda, em 1853, o iniciador d’esta construcção, levada depois a effeito pelo seu successor Bernardo de Souza Franco. Foram emprezarios-constructores o dr. Theodoro Antonio de Oliveira e Antonio Francisco Guimarães Pinheiro.
No vestibulo estão 4 peças com o laboratorio de analyses, o gabinete da Direcção e o gabinete de mineralogia. 1.º pavimento. Officina de gravura. Mostruario de medalhas cunhadas no estabelecimento. Officina de estamparia de sêllos e de estampilhas. Occupa 45 operarios.
No rez-do-chão, visita-se os depositos de material, as officinas de fundição de metaes, a officina de laminação e cunhagem e a officina das machinas.
Na officina de xenographia imprime-se notas de 5, 10, 20 e 50$000 réis. Impressão de apolices na secção lithographica.
No Deposito Geral da Thesouraria, no 1.º pavimento, admira-se a magnifica installação, a primeira da America do Sul. Consta de duas secções independentes, uma para a moeda e a outra para o sêllo. As portas, de ferro, abrem por meio de relogios, aos quaes dá-se corda na vespera, não se podendo abrir nem com a propria chave, antes da hora marcada. Em Maio de 1908, continha 200 mil contos de réis, em metal e sêllos.
Rua do Ouvidor—Esta arteria publica, a mais movimentada e caracteristica do Rio de Janeiro, tem setecentos metros de extensão desde a rua do Mercado ao largo de S. Francisco de Paula. A designação porque continúa a ser popularmente conhecida, não obstante haveram-n’a chrismado em rua Moreira Cesar, data de 1780, e provem do facto de ahi ter morado o ouvidor (magistrado) da capital do Brasil colonial, Berquó da Silveira.
Atravessa as ruas Primeiro de Março, da Quitanda, a Avenida Central, e as ruas Gonçalves Dias e Uruguayana. Apesar da grande concorrencia que principia a fazer-lhe a sua visinha, a magestosa Avenida, esta curiosissima arteria continua a ser o club ao ar livre, como lhe chamam, isto é, a reunião da sociedade elegante dos dois sexos, que encontra-se e troca impressões nos passeios, no meio da rua, que não é transitada por vehiculos, e ás portas dos estabelecimentos de luxo, especialmente das casas de modas, redacções de jornaes, tabacarias, cafés e confeitarias. Em nenhuma outra cidade do mundo ha assim uma rua com um feitio tão original, tão intima, interessante e encantadora.
Senado—Occupa, na face occidental da actual Praça da Republica, o edificio construido e offerecido, em 1810, por uma commissão de negociantes da Bahia, ao conde dos Arcos. A sua adaptação a Senado realisou-se em 1824, comprando-o o governo imperial ao procurador do conde, por 44:568$000 réis. A 1.ª sessão teve logar em 6 de Maio de 1826.
Em 1831 foi a casa abandonada por ameaçar ruina, passando o Senado a funccionar no edificio da Relação, na rua do Lavradio.
Reedificou-se o antigo palacete que foi reaberto em 1835. Damnificado, em breve, pelo cupim, passou de novo o Senado a occupar a casa da Relação, até que reedificou-se o edificio actual, sob a direcção do engenheiro Miguel de Frias e Vasconcellos. O interior é pobremente decorado. A sala das sessões é modestissima. Tem 68 cadeiras e algumas galerias e tribunas. É construcção interior e exteriormente indigna e impropria da séde da primeira assembleia legislativa do Brasil.
Pelas salas ha algumas pinturas, bustos e retratos de personagens e de oradores celebres.
Bolsa—Este palacio occupa a area de dois mil metros quadrados, na rua Primeiro de Março, confinando com a rua General Camara, a rua do Visconde da Itaborahy e uma passagem que a separa do edificio do Correio Geral. Iniciou a sua construcção, em 1880, o architecto Francisco Joaquim Bettencourt da Silva, terminando-a, ultimamente, o engenheiro civil José Valentim Dunhan.
Pertence á Associação Commercial do Rio de Janeiro. O chefe da Camara Syndical de correctores de fundos publicos, preside diariamente á venda de papeis de credito, que effectua-se em uma vasta rotunda, ao centro do magnifico hall. As dependencias do edificio são amplas e numerosas, destacando-se a bibliotheca, que é importante, o archivo, o salão de leitura e a sala das sessões.
A Associação Commercial foi fundada em 9 de Setembro de 1834, com o titulo de Sociedade dos Assignantes da Praça do Commercio.
Camara dos Deputados—Ha cêrca de 80 annos que existe este casarão, tendo primitivamente servido de paço municipal e de cadeia.
Esta era no pavimento terreo e n’ella esteve encarcerado Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, álem de outros prisioneiros notaveis. A camara dos deputados funcciona n’este edificio, desde 1823. Tem a construcção soffrido varios remendos, mas fica sempre com o mesmo aspecto lugubre e mesquinho, absolutamente impropria para o fim que serve. Admira como na actual quadra, de assombrosos melhoramentos fluminenses, ainda não se começásse a edificação de um palacio proprio á reunião dos representantes do povo brasileiro.
O pavimento superior é occupado pela Camara, e no rez-do-chão estão a Caixa Economica e o Monte de Soccorro. A construcção não pertence a nenhum genero de architectura. O salão, pouco amplo e muito simples, é ladeado por galerias, para o publico, e por tribunas para senhoras e para o corpo diplomatico.
Alfandega—Grande edificio que occupa toda a rua do Visconde de Itaborahy, do lado do mar. Foi construido em 1817, pelo risco do architecto francez Grandjean de Montigny.
Encerra 14 vastissimos armazens.
O corpo principal foi, até 1821, séde da Praça do Commercio, ou Bolsa.
A renda mensal e actual da alfandega do Rio de Janeiro é, na média, de sete mil contos. Regula por quatro milhões de volumes, o movimento annual dos armazens.
Canal do Mangue—É uma das curiosidades da capital brasileira.
O seu nome vem da planta Eugenia Nitida, vulgo mangue, que cobria um enorme pantano onde a população do bairro despejava as immundicies das habitações. Foi começado em 1855 e terminado em 1860, sob a direcção do Barão de Mauá.
Não tendo, porém, declive sufficiente para facil communicação com o mar, procede-se actualmente á sua completa transformação e aformoseamento. O canal tem a extensão de 2:600 metros, desde a praça Onze de Junho até ao mar. É em duas rectas, a 1.ª de 1:200 e a segunda de 1:400 metros. Quadrupla fila de elegantes e gigantescas palmeiras sombreia e embelleza a 1.ª recta, prolongando-se pela 2.ª secção em dupla fila. Tanto a transformação d’este canal, como a esplendida avenida que o margina, do lado direito, fazem parte das obras do porto do Rio de Janeiro.
Supremo Tribunal Federal—É esta uma das mais bellas, artisticas e monumentaes construcções do Rio actual. Ergue-se na rua Primeiro de Março e é um palacio de marmore e de granito, primitivamente destinado e edificado para séde do Banco do Brasil.
Foi seu architecto Paulo Schroeder.
Repartição Geral dos Telegraphos—É o historico palacio construido, em 1743, por ordem do 59.º Governador do Rio de Janeiro, Gomes Freire de Andrade, depois Conde de Bobadella. Occupou-o elle proprio e, a seguir, installaram-se ahi mais sete governadores, já então vice-reis do Brasil.
Em 1808 occupou-o D. João VI, quando fugido de Portugal, e desde 1822 a 1889, foi palacio imperial. D’ahi embarcou para o exilio, na madrugada de 16 de Novembro de 1889, o imperador D. Pedro II, acompanhado por sua familia. Sob o ponto de vista historico é este o mais notavel edificio da capital da Republica.
Exterior, como interiormente, nada contem de apreciavel.
Prefeitura—Ha dois edificios, occupados pelas duas instituições que constituem a Prefeitura, a saber o Conselho Municipal e a Municipalidade. O primeiro está installado em um elegantissimo predio da rua Treze de Maio, outr’ora escóla publica. Foi restaurado em 1895.
A Municipalidade, ou Prefeitura, funcciona em um vasto edificio da Praça da Republica, lado oriental. Álem de varias salas e salões, amplos e bem decorados e guarnecidos, a Prefeitura encerra uma importante bibliotheca.
Em 1904, a receita municipal foi de réis 28:302:269$242, e a despeza de 28:217:890$888 réis.
Em 1905, foi a receita de 23:834:861$000 réis, e a despeza de 23:807:521$463 réis.
Imprensa Nacional—Este amplo edificio, com 89 metros de frontaria, foi mandado construir, em 1877, pelo Visconde do Rio Branco, então ministro da fazenda, para installação da Typographia Nacional, com todos os seus serviços annexos e derivados.
Occupa uma area de 8:148 metros, e prolonga-se desde a estação da Companhia Carril Carioca, até ao Theatro Lyrico. O dr. Antonio de Paula Freitas, engenheiro, dirigiu as obras. A architectura é em estylo gothico-inglez.
Correio Geral—Esboçou o plano d’este edificio, o constructor Pedro Bosisio, por conta do ministerio da Fazenda e de accôrdo com a Associação Commercial. Afinal esta collectividade, que tinha de occupar um dos pavimentos, edificou casa á parte. A obra do Governo tem 40 metros de frente por 39 de fundo, dirigindo os trabalhos o dr. Antonio de Paula Freitas. O estylo architectonico é o do Renascimento, vendo-se no pavimento do rez-do-chão os caracteristicos da ordem jonica, no andar nobre os da ordem corinthia e no 3.º pavimento os da ordem composita. Também ahi funcciona a Caixa de Amortisação.
Mercado Novo—Tambem chamado Central. É novissimo, pois foi inaugurado em 15 de Fevereiro de 1908.
Foi construido para substituir o mercado Velho, situado na praia do Peixe. O novo occupa a praia de D. Manuel. É de ferro e vitraes, tendo 8 portões, 4 nos angulos e 4 lateraes. Ao centro, eleva-se um elegante pavilhão com torre e relogio. É muito arejado, asseiado e cortado de ruas calçadas a parallelipipedos. O centro é ajardinado. Destina-se esta construcção, a unica do Rio de Janeiro, no seu genero, á venda de peixe, carne e legumes. Em diversos bairros da cidade, ha mercados provisorios, em plena rua, até ás 9 horas da manhã.
Banco da Republica—Foi fundado em 12 de Outubro de 1808, com o titulo de Banco do Brasil, e com o capital de tres milhões de cruzados, em 1:200 acções de um conto de réis, cada uma. Começou a negociar em 1809, em uma casa da rua Direita, esquina da rua de S. Pedro.
Por alvará de 20 de Outubro de 1812, o Governo constituiu-se accionista com cem contos annuaes, producto de novos impostos, no intuito de auxiliar o Banco.
Em 1815 foi o estabelecimento mudado para outro predio, na mesma rua. A 16 de Fevereiro de 1816, foram mandadas estabelecer agencias, d’este Banco, na Bahia e, a seguir, em outras provincias.
Esteve quasi fallido, em 1821, em consequencia de um activo de cinco mil contos contra um passivo de seis mil, sendo reorganisado pelo Governo, em 1823, que o auxiliou com mil e duzentos contos. Alem disso o Estado permittiu que o Banco emittisse bilhetes de 4, 6, 8 e 12$000 réis.
Por causa dos supprimentos feitos pelo Banco ao Governo, durante as guerras do Sul, a assembleia geral dos accionistas recorreu ao Governo, que contractou com o Banco pagar-lhe a divida com nova emissão de notas, proporcional á mesma divida. Esta medida desacreditou o Banco.
Por carta de lei de 23 de Setembro de 1829, foi mandado liquidar, e definitivamente dissolvido em 3 de julho de 1848. Por decreto de 2 de Julho de 1851, foi creado um novo Banco do Brasil, com o capital de dez mil contos, dividido em 20:000 acções de 500$000 réis cada uma, começando as operações a 21 de Agosto, na casa n.º 143 da rua da Quitanda.
Em 12 de Julho de 1853, este Banco foi fundido com o Commercial, sob o titulo do Banco do Brasil. Foi installado no actual edificio, especialmente construido, situado na rua da Alfandega, esquina da rua da Candelaria, em 10 de Abril de 1854. O capital do 3.º Banco do Brasil, era de trinta mil contos, divididos em 150:000 acções.
Esse capital foi depois elevado a 33:000 contos, divididos em 165:000 acções de 200$000 réis cada uma.
O primeiro ministro da Fazenda, da Republica, o dr. Ruy Barbosa, reformou-o em 1890, sob a designação de Banco da Republica dos Estados Unidos do Brasil, concedendo-lhe a faculdade emissora, ao principio com caracter privativo, ampliando-a depois a outros estabelecimentos de credito.
Foi o abuso d’esta faculdade que produziu o ensilhamento, causa do atrazo e do descredito das finanças brasileiras.
Casas de Correcção e de Detenção—A primeira funcciona em edificio proprio, construido de 1835 a 1840, na rua do Conde d’Eu. A segunda, proxima da antecedente, foi inaugurada em 20 de Abril de 1856. Este estabelecimento é, hygienicamente, superior á Casa de Correcção, porém ambos estão mal situados. A primeira d’estas casas é uma especie de penitenciaria para trabalhos forçados e galés perpetuas. A segunda é apenas o deposito de presos das esquadras de policia, até que são julgados.
Palacio Episcopal—Foi edificado de 1701 a 1715, pelo bispo D. Francisco de S. Jeronymo, no local da ermida da Conceição e de uma casa habitada por alguns religiosos francezes. Reformou-o o bispo D. José Joaquim Justiniano.
É um casarão sem architectura alguma definida, mas que occupa uma bellissima posição topographica, no alto do morro da Conceição, de onde o golpe de vista é maravilhoso para a cidade, a bahia e os arrabaldes.
A decoração interior é modesta, notando-se alguns retratos e bustos de prelados e monarchas.
Estabelecimentos Scientificos
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Observatorio—Occupa o vértice do morro do Castello e foi fundado no reinado de D. Pedro I.
Servem ás suas installações as dependencias de um antigo estabelecimento de jesuitas, que nunca foi concluido. Torre mobil de duplo tecto, com instrumentos thermometricos e barometricos. Installação especial com apparelhos de precisão de horas.
Avulta um de Bamberg, Allemanha, que importou em 4:200$000 réis. Pavilhão com cupula mobil, de madeira e ferro, onde está installada a pequena equatorial, com 25 centimetros de objectiva. Ha outra, com 33 centimetros, que está desmontada.
Pavilhão com a installação de meridianos modernos e aperfeiçoados, não obstante prestar ainda serviços um apparelho de 1849.
Secção especial de preparo de chronometros de bordo.
Torre de ferro com balão, que sóbe e dispara precisamente á 1 hora da tarde. Deposito de instrumentos varios.
Salão com a bibliotheca especial do estabelecimento, em mais de 20:000 volumes. Sismographo, interessante apparelho que marca, com precisão, todos os phenomenos sismicos que se produzam em qualquer parte do mundo. Ha ainda outro instrumento d’este genero, com o peso de 500 kilos.
Apparelho para registo de electricidade atmospherica.
Amplo terraço, ladrilhado a tijolo, cota esplendorosa vista da bahia, da barra e da cidade.
Nas paredes e torreões vê-se o signal das balas disparadas pelos navios da esquadra revoltada, do contra-almirante Custodio José de Mello.
Faculdade de Medicina—Este estabelecimento scientifico, que teve a sua origem no decreto de 5 de Novembro de 1808, mandando fundar, no Hospital Real Militar, uma escola anatomica, cirurgica e medica, está, ha quarenta annos, a funccionar em um velho pardieiro que tem entrada pelo largo da Misericordia.
É faculdade desde 3 de outubro de 1832. Comprehende os cursos de medicina, obstetrica, pharmacia e odontologia. Tem bibliotheca da especialidade e laboratorio de chimica.
Escóla Polytechnica—Esta instituição teve a sua origem em 1699, quando o governo da metropole mandou estabelecer, no Rio de janeiro, uma aula de fortificação. Em 1810, estando D. João VI na capital do Brasil, tratou-se de installação condigna para este estabelecimento, já então reformado em Academia Real Militar, sendo aproveitados os alicerces e as paredes, até meia altura, da egreja cuja construccção estava, havia annos, interrompida e que era destinada a cathedral. Em 1812 foram inauguradas as aulas n’esse novo edificio, que é o actual, varias vezes modificado, no largo de S. Francisco de Paula, defronte da rua do Ouvidor. É de alvenaria sem estylo architectonico.
Em 9 de Março de 1842, o ministro da guerra, José Clemente Pereira, transformou o estabelecimento em Escóla Militar.
Dezeseis annos mais tarde, Jeronymo Francisco Coelho, tambem ministro da guerra, modificou-a para Escóla Central. Foi reorganisada sob a denominação de Escola Polytechnica, por decreto de 25 de Abril de 1874.
Tem sido reformada, por varias vezes, tanto sob o ponto de vista technico, como em relação ao edificio. Ultimamente, puzeram-lhe ao centro da fachada 4 columnas de pedra granitica, que o povo chrismou de nariz de cêra. Foi n’esta escóla que se formaram, em engenharia, os velhos marechaes do exercito brasileiro.
Comprehende os cursos de engenharia civil, estradas, minas, engenharia geographica e sciencias physico-mathematicas.
Conservatorio de Musica—Este conservatorio foi creado por decreto de 27 de Novembro de 1841 e provisoriamente foram installadas as aulas no edificio do Museu Nacional, em 10 de Agosto de 1848. Em 14 de Maio de 1855 foi o Instituto Nacional de Musica, sua designação official, incorporado á Academia das Bellas Artes, construindo-se junto a esta Academia, um edificio especial para o Conservatorio, que foi inaugurado em 9 de Janeiro de 1872.
A edificação nada apresenta de notavel, funccionando a instituição para os dois sexos.
Este estabelecimento foi originado na Sociedade Beneficente Musical, fundada por Francisco Manoel da Silva, em 1833. O Conservatorio occupa 19 professores, 4 adjunctos e 9 auxiliares de ensino.
Academia Nacional de Bellas Artes. Pedagogium. Syllogêo Brasileiro—Das duas primeiras instituições já foi dada noticia desenvolvida no capitulo Museus. O Syllogêo Brasileiro abriga a Academia Nacional de Medicina, o Instituto da Ordem dos Advogados e a Academia de Lettras. D’esta Academia partiu, ultimamente, a iniciativa da reforma da orthographia brasileira. O edificio especial onde funcciona o Syllogêo, foi mandado concluir recentemente pelo ministro Seabra, e está situado defronte do Passeio Publico.
Escóla Normal—Estabelecimento scientifico para habilitação de professoras. Foi creado por decreto de 30 de Novembro de 1876, em duas secções, uma para preparo de professoras e a outra de instrucção primaria. Para seu funccionamento, foi construido um edifício especial, na rua da Relação, esquina da rua dos Invalidos, cuja pedra fundamental foi collocada em 2 de Dezembro de 1876. Actualmente, esta Escóla funcciona em um palacete da praça da Republica, porém vae ser brevemente transferida para casa propria, na Avenida Central.
O curso normal divide-se em 4 séries, comprehendendo a primeira—portuguez, francez, arithmetica, geographia, musica, trabalhos manuaes, trabalhos de agulha, calligraphia e gymnastica.
A 2.ª série abrange as aulas de portuguez, francez, algebra, geometria, geographia, historia, desenho linear, musica e trabalhos de agulha.
Na 3.ª série ha as seguintes disciplinas:—portuguez, francez, historia da America, historia natural, physica, pedagogia, trabalhos manuaes e desenho de ornato.
Finalmente, a 4.ª série comprehende litteratura brasileira, chimica, historia do Brasil, instrucção civica, pedagogia e desenho de figura.
A Escóla Normal encerra uma bibliotheca, uma officina de trabalhos de agulha, um gabinete de historia natural e um laboratorio de physica e chimica.
De 1900 a 1904 foram diplomadas 320 professoras, que só conseguem obter nomeação official depois de servirem um anno de adjuntas a professores cathedraticos, e mediante concurso publico.
O estabelecimento é superiormente dirigido pelo Director Geral de Instrucção Publica, auxiliado por um sub-director. A Escóla tem professores cathedraticos especiaes para cada disciplina, com uma professora-substituta, para cada cadeira, escolhida entre as diplomadas de mais brilhantes provas.
Collegio Militar—Foi fundado, em 1880, pelo Conselheiro Thomaz José Coelho de Almeida, no antigo palacete do Barão de Mesquita.
Em 1891 foram inauguradas vastas dependencias juntas á primitiva installação. Abriga cêrca de 600 alumnos, filhos e primeiros netos de officiaes effectivos e reformados do Exercito e da Armada, filhos e primeiros netos de officiaes honorarios, por serviços de guerra; e filhos de praças de pret mortas em combate. Estes são os internados gratuitos; porém o estabelecimento tambem admitte alumnos contribuintes, de todas as classes sociaes. Os alumnos do Collegio Militar podem seguir a carreira que quizerem, valendo-lhes o curso d’esta instituição para as escólas militares de terra e mar.
Os dois edificios elevam-se ao centro de vasto e arborisado terreno, com a entrada pela rua de S. Francisco Xavier. No antigo palacete do Barão de Mesquita, visita-se a secretaria, a sala de armas, a repartição do quartel-mestre, a repartição do material, a arrecadação, os gabinetes do commandante, secretario e sub-secretario, a bibliotheca, a sala da congregação e a sala de honra dos alumnos distinctos. No grande edificio annexo estão installados tres dormitorios a 130 camas, álem de outros mais pequenos e 23 salas para aulas. Independentemente d’estes edificios, ha vasta installação hydrotherapica, gymnastica, usina para a illuminação electrica, etc.
Gymnasio Nacional—Divide-se este estabelecimento de ensino em Internato e Externato. O primeiro occupa um vasto edificio na praça Marechal Deodoro. Até 1889, e á proclamação da Republica, teve esta instituição o titulo official de Collegio de D. Pedro II.
É destinado a formar bachareis em lettras, e foi fundado em 1837. O internato tem accommodações para 150 alumnos e o externato para 290. Este está installado na rua Marechal Floriano.
Lyceu de Artes e Officios—Esta instituição, de ensino popular e gratuito, foi fundada e é mantida pela Sociedade Propagadora das Bellas Artes, em um velho, incompleto e improprio edificio da rua Treze de Maio, defronte do predio do Theatro Lyrico. O Governo auxilia o custeio d’este estabelecimento de ensino superior, que é regularmente frequentado.
Da Carioca ao Somaré
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Partindo-se do antigo largo da Carioca, por sobre um viaducto, outr’ora aqueducto-conductor das aguas da serra do Andarahy, e das suas bifurcações, para a caixa d’agua da Carioca, em meia hora attinge-se o Somaré, que é um planalto situado álem do morro de Santa Thereza, e sobranceiro aos bairros de Catumby, Rio Comprido, Engenho Novo, Larangeiras, Fabrica das Chitas, Engenho Velho e Andarahy.
Sahindo do viaducto, o tramway embrenha-se em uma região encantadora pela opulencia e pelo pittoresco da vegetação, como devido ás elegantes construcções, aos jardins e ás chacaras, que salpicam a montanha, quebrando-lhe a monotonia vegetativa e realçando-lhe a belleza natural. Porém, o viajante não sabe que mais admirar, se a paisagem que o cerca, cuja formosura e perfume o deliciam, se o panorama que os, olhos abrangem, empolgante para a imaginação e sublimado para o espirito.
As encostas e os valles circumvisinhos, semeados de casaria, que quasi desapparece sob a fronde do arvoredo; os vértices de serras perenne e opulentamente vestidas, cujos encantos as nuvens tentam encobrir ao observador maravilhado; e, emfim, a immensa bahia de Guanabara, semeada de ilhas e resplendente das caricias do sol, tudo perpassa em profusão e como em um kaleidoscopio pela nossa retina, patenteando-nos os ineffaveis primôres da assombrosa capital brasileira.
A primeira estação é França e a segunda Lagoinha, onde a linha ferrea bifurca-se para o Silvestre e para o Somaré.
Attingido este ponto, em via de preparação pelo desbravamento do terreno e aterro da esplanada, o viajante assiste á apotheose da natureza em um dos mais deslumbrantes scenarios do universo. Não se descreve o indescriptivel, mas vê-se e sente-se que nenhuma outra cidade do mundo possúe os encantos naturaes do Rio de Janeiro.
A Companhia Ferro Carril da Carioca, presta relevante serviço publico, melhorando e explorando o Somaré, proximo futuro ponto de reunião dos fluminenses e de todos os admiradores do bello na sua mais suggestiva e arrebatadora manifestação.
A excelsa natureza, sempre libérrima e previdente, compensa assim os habitantes da esplendorosa capital do Brasil, proporcionando-lhes este e outros locaes de frescura e de recreio, a pouca distancia do centro de uma grande cidade, cuja temperatura é geralmente cálida.
Assistencia Publica
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Seria negar a verdade escrever que não ha deficiencias no serviço de assistencia publica, no Rio de Janeiro. Pelo conhecimento d’este e do capitulo seguinte, que trata da beneficencia particular, ver-se-ha o quanto é cultivado e desenvolvido, na capital brasileira, o nobilissimo sentimento da philantropia, e quaes os principaes altares onde é adorada a deusa Caridade, que é tambem a mais bella e a mais sublime virtude civica como a mais gloriosa conquista da civilisação universal. As lacunas desapparecerão, gradualmente, pelos esforços combinados dos elementos officiaes, das associações beneficentes e da iniciativa particular, sempre sollicita e generosa na lucta ingente e sacrosanta contra as miserias humanas e as iniquidades sociaes.
Hospital Nacional de Alienados—Foi fundado por decreto de 18 de Julho de 1841, para solemnisar a sagração e coroação de D. Pedro II, e por iniciativa do ministro do Imperio e provedor da Santa Casa de Misericordia, José Clemente Pereira.
A 1.ª pedra do edificio, que é o actual, situado na Praia Vermelha e na antiga chacara do Vigario Geral, foi lançada em 3 de Setembro de 1842, e a inauguração realisou-se, solemnemente, em 5 de Dezembro de 1852, com o titulo official de Hospicio de D. Pedro II, que conservou até á proclamação da Republica. Tres dias depois começou a funccionar com 140 alienados, 67 da enfermaria provisoria da Praia Vermelha e 73 removidos do Hospital da Misericordia.
O palacio occupa uma area de 1:562 braças quadradas. O portico, de cantaria, é accessivel por 10 degráus. 4 columnas de pedra, com capiteis doricos, sustentam uma balaustrada de marmore, com tres portas entre as columnas. Na frontaria do 2.º pavimento estão quatro columnas de ordem jonica, coroando o corpo central do edificio um frontão recto.
Um attico ornado de estatuas e vasos de marmore, occulta o telhado.
A architectura do 1.º pavimento é de ordem dorica, com vinte janellas de peitoril, nos corpos lateraes, e a do 2.º andar é de ordem jonica, tambem com 20 janellas. O desenho d’este monumento é dos architectos Domingos Monteiro, Guilhobel e José Maria Jacintho Rebello.
No vestibulo estão as estatuas de Esquirol e de Pinnel, por Pettrich.
O lado direito do edificio é occupado por homens e o esquerdo por mulheres. A primitiva construcção do Hospicio importou em 1:313:451$481 réis. 2.º pavimento: Bibliotheca da especialidade, a melhor da America do Sul. Grande mesa ao centro, com as revistas publicadas, em todo o mundo, sobre molestias nervosas. Gabinetes do Director e do Secretario.
Secção Calmeil. 150 doentes. Gabinete do medico. Sala de bilhar, para os doentes. Salão de recreio.
Gabinetes particulares, para doentes recolhidos á custa das familias.
Terraço para recreio, com lavatorio e banheiras de aceio. Corredor com quartos particulares para doentes de 4.ª classe. Bibliotheca para enfermos. Sala para doentes agitados. Foram supprimidos os quartos fortes para encerramento de furiosos. Refeitorio d’esta secção. Salão de sessões e festas. Aqui admira-se as estatuas de D. Pedro II e de José Clemente Pereira, em marmore branco, pelo esculptor Pettrich; os retratos de Deodoro, Rodrigues Alves, Aristides Lobo, e os bustos, em marmore branco, dos bemfeitores Eduardo Pinto e José Ribeiro. Archivo da casa. Capella, com um só altar e n’este a imagem de S. Pedro de Alcantara, marmorea obra de arte.
1.º pavimento. Dispensa e cosinha. Salão de curativos e de operações, dotado dos melhores e mais modernos apparelhos da especialidade. Installação especial para exames internos por meio da electricidade. Gabinete anatomico e estufa. Laboratorio bacteriologico. Esplendido microscopio e magnifico apparelho especial para medidas cerebraes.
Apparelho de microphotographia.
Pharmacia do estabelecimento.
Sala da energia electrica.
Secção dos raios X. Banheira electrica.
Apparelho para banhos de luz.
Sala de ophtalmologia.
Gabinete odonthologico.
Museu da especialidade, com grande numero de craneos.
Na cêrca do estabelecimento está um pavilhão isolado, com a cosinha geral do estabelecimento, movida a vapor, monumental e primorosamente aceiada.
Dois pavilhões para doentes epilepticos. Pavilhão para admissão e observação de doentes, com gabinetes para os exames medicos.
Aula de chimica psychiatrica da Faculdade de Medicina.
Pavilhão com installação balnear para doentes em observação. Duches e gabinetes para applicações electricas. Gabinete de psychologia experimental. Pavilhão com officinas de typographia, encadernação, colchoaria, sapataria e outras.
Na primeira imprime-se a revista Archivos Brasileiros.
Dois pavilhões de isolamento, com galeria, para tuberculosos.
Pavilhão-necroterio. Atelier photographico. Pavilhão isolado, com um leproso. Grande horta, tratada por doentes. Enfermaria, isolada, de doentes immundos.
Annexa á secção de mulheres, está a Escóla Barineville, com a frequencia, em Maio de 1908, de 54 creanças dos dois sexos, que aprendem a escrever com lettras de metal. A média geral de recolhidos, dos dois sexos, é de 1:200, annualmente.
A frontaria do edificio central tem 200 metros de comprimento e a area de todo o estabelecimento é de 140:000 metros. N’este manicomio funcciona uma Escóla de Enfermeiros, a unica do Brasil. Na ilha do Governador ha uma dependencia d’este Hospicio, com escóla agricola.
Instituto Benjamin Constant—Na praia da Saudade, e a pequena distancia do monumento anteriormente descripto, eleva-se o grandioso edificio, por concluir, onde funcciona este Instituto, creado em 1857, com o titulo de Imperial Instituto de Meninos Cegos. Occupa uma area de 9:516 metros quadrados.
Os alumnos são divididos em gratuitos e contribuintes e teem aulas de instrucção primaria, secundaria e profissional. Encerra officinas de typographia, pelo systema de Braille; de encadernação; de empalhação de moveis; de afinação e concerto de pianos; de fabrico de objectos caseiros, como vassouras, espanadores, escovas; de artefactos de missanga e de lã, para bordar; e de fabricação de colchões. O Instituto admitte internados, cegos, de ambos os sexos e possúe banda de musica.
Instituto dos Surdos Mudos—Foi fundado em 1857 e reorganisado em 1873. É só para o sexo masculino, sendo admittidos e favorecidos, pelo Governo, de preferencia, os orfãos de pae e mãe; os orfãos de pae e os filhos de funccionarios federaes, civis e militares.
O ensino, n’este estabelecimento, é litterario e profissional, comprehendendo este os officios de encadernador, dourador, sapateiro e exercicios gymnasticos, e aquelle linguagem escripta, articulada, leitura sobre os labios, mathematica, geographia, historia do Brasil, desenho e modelagem. Os alumnos pobres teem uma percentagem, geralmente de 30%, sobre os objectos por elles fabricados e sobre o preço do trabalho feito nas officinas, quando os objectos são para o Instituto.
Todo o calçado consumido no estabelecimento é fabricado na respectiva officina, subindo a 600 o numero de volumes encadernados mensalmente.
Escóla Correccional 15 de Novembro—Esta instituição, fundada em 1890, está sob a dependencia e administração da Chefia de Policia, para a internação de menores vagabundos, orfãos ou abandonados pelos paes, sendo-lhes ministrada conveniente educação physica, moral e profissional.
Os menores delinquentes e os precocemente viciados, são separados d’aquelles que apenas foram abandonados pela penuria dos paes.
Assistencia Judiciaria—A radical transformação de instituições politicas, no Brasil, iniciada em 15 de Novembro de 1889, entre outras e beneficas consequencias, trouxe a da fundação da Assistencia Judiciaria, instituição destinada a proporcionar defeza e amparo aos miseraveis attingidos pela garra adunca das leis repressivas. O Instituto da Ordem dos Advogados Brasileiros confeccionou o Regulamento da Assistencia, indicado pelo artigo n.º 176 do Decreto n.º 1:030, do Governo Provisorio, publicado em 14 de Novembro de 1890, e determinado pelo Decreto Federal, n.º 2:457, de 8 de Fevereiro de 1897. É esta uma das mais sympathicas instituições dos serviços de assistencia publica do Rio de Janeiro.
Assistencia Policial—É da immediata direcção do Chefe de Policia, que contracta com uma ou mais emprezas particulares o serviço da conducção de enfermos domiciliados ou caídos na via publica, ebrios, alienados, feridos e de cadaveres, nas zonas urbana e suburbana do Districto Federal.
Ha cinco estações principaes, com o material sufficiente, álem de numerosos postos de soccorros. Em uns e outros, ha medicos permanentes, para os casos urgentes. Este serviço, porém, ainda ultimamente não estava devidamente aperfeiçoado, nem mesmo regularisado, devido a attrictos profissionaes e burocraticos entre os facultativos municipaes e os policiaes.
O Soccorro Immediato ás Victimas de Accidentes no Mar e o Deposito de Menores, são duas novissimas creações da Chefatura de Policia do Districto Federal.
O primeiro serviço consiste em uma lancha-enfermaria, a vapor, com pessoal competente e material apropriado. O Deposito de Menores, é subdividido para os dois sexos, e destina-se a asylar, provisoriamente, as creanças até á sua entrega ao Juiz dos Orfãos. Em 1907, a secção do sexo masculino recolheu 177 creanças, das quaes 117 foram desligadas em virtude de requisição judicial. A Chefia de Policia mantem estes serviços pela verba Diligencias Policiaes, por não haver ainda o Congresso Nacional votado os recursos indispensaveis ao seu funccionamento.
Hospital de S. Sebastião—Está situado na Ponta do Cajú, e consta de um edificio central e de varios pavilhões isolados, com installações especiaes e para isolamento de enfermos contagiosos. Foi inaugurado em 1889 e substitue os extinctos hospitaes da Jurujuba e de Santa Barbara, aquelle para doentes de febre amarella e este para variolosos. Encerra 300 leitos e está a cargo da directoria Geral de Saúde Publica.
No edificio central estão installadas a Secretaria, a Bibliotheca, a sala do Director, a Rouparia, o Consultorio Medico, a Sala de Operações, admiravelmente provida, a Pharmacia, os laboratorios, os refeitorios e a cosinha. Nos pavilhões estão o almoxarifado, a lavanderia a vapor, as estufas de desinfecção, o deposito das roupas dos doentes, os aposentos dos internos e os quartos particulares para contribuintes. Ha pavilhões especiaes para as enfermarias geraes, a 60 leitos cada uma. O magnifico laboratorio bacteriologico d’este estabelecimento funcciona em edificio proprio, no parque.
Ha tres medicos internos, cinco externos e grande numero de enfermeiros e serventes. Como vão rareando os doentes de febre amarella, em consequencia da transformação da cidade e das rigorosas medidas hygienicas adoptadas pela Directoria Geral de Saúde Publica, o maior numero de internados é, actualmente, de variolosos.
É a melhor possivel a situação topographica d’este estabelecimento hospitalar, que recebe doentes por mar e por terra.
Hospital Central do Exercito—Este estabelecimento, que apenas começa a funccionar, depois de concluido será, no genero, um dos primeiros do mundo.
Foi inaugurado em 20 de Junho de 1902, na rua Jockey Club, suburbio de S. Francisco Xavier, em um terreno que mede 280 metros de frente por 282 de fundo. Consta de um corpo central e de oito pavilhões, contendo 25 enfermarias. Occupa actualmente quatorze medicos, cujo Director tem a patente de tenente-coronel, cinco pharmaceuticos, um enfermeiro-mór, 14 irmãs de caridade, 20 ajudantes de enfermeiro e 60 serventes. É profusamente illuminado a luz electrica e abundantemente provido de agua.
Pavilhão Central. Hydrotherapia electrica. Banho de luz intensiva. Apparelho especial para luz azul. Sala de radiographia, com os mais modernos apparelhos. Gabinete de massagem. Sala das machinas extacticas. Gabinete de bacteriologia. Sala geral de operações, com numeroso e aperfeiçoado instrumental. Pavilhão de Cirurgia. Sala de esterelisação. Sala de operações, com gabinetes annexos. Salas de curativos. Sala do arsenal cirurgico. O custo de cada um d’estes pavilhões é de 200 contos. Mais tarde serão ligados por galerias, entre si e ao corpo central. A distancia d’este Hospital á cidade é de 70 minutos de tramway electrico.
Hospital da Ilha das Cobras—É destinado a abrigar e curar os doentes da Armada Nacional. Foi inaugurado em 3 de Março de 1834. Tem uma succursal na praia da Copacabana, para tratamento de marinheiros atacados de beriberi.
Asylo dos Invalidos da Patria—Funcciona desde 29 de Julho de 1868, na Ilha do Bom Jesus. Em 31 de Dezembro de 1907, abrigava 144 invalidos, mas o numero de asylados é de 800, achando-se os 650 restantes licenciados no territorio nacional. Abriga ainda muitos heroes da guerra do Paraguay.
Instituto Oswaldo Cruz—Desde 19 de Março de 1908, é que tem esta designação official, em homenagem ao dr. Oswaldo Cruz, actual Director Geral da Saúde Publica, que tem prestado relevantissimos serviços á causa da salubridade da capital da Republica.
Anteriormente chamava-se Instituto de Manguinhos. É uma escóla de medicina experimental, especialmente destinada a auxiliar os serviços de prophylaxia e de policia sanitaria da Repartição Geral de Saúde Publica. Possúe laboratorios onde são preparadas as vaccinas, os sôros e outros productos applicados no tratamento e na prevenção de molestias contagiosas.
Directoria Geral de Hygiene e Assistencia Publica—Terminada a rapida descripção das instituições e dos estabelecimentos de assistencia publica do Rio de Janeiro, a cargo do governo federal, ou da União, daremos, a seguir, conta das principaes casas de caridade sob a administração e custeio da municipalidade fluminense e subordinadas á Directoria Geral de Hygiene e Assistencia Publica.
Esta repartição foi organisada em 1893, para tratar dos serviços de soccorros medicos e gratuitos á população carioca, nas ruas e nos domicilios, em virtude de molestias ou de accidentes. Antes d’aquella data a assistencia publica estava unicamente a cargo das auctoridades federaes. Infelizmente, ainda não estão bem discriminados os serviços que incumbem á Directoria Geral de Saúde Publica, federal, e á Directoria Geral de Hygiene e Assistencia Publica, municipal, e d’ahi frequentes conflictos entre os representantes officiaes das duas entidades sanitarias, com o que soffre consideravelmente o serviço geral de assistencia publica.
Institutos Profissionaes—São dois, um para cada sexo. Se bem que a cargo da Directoria Geral da Instrucção Publica, estas duas instituições são caracteristicamente da assistencia publica-municipal. O instituto masculino é organisado militarmente e possúe banda de musica. O ensino ministrado n’este estabelecimento comprehende o triplice curso de sciencias, artes e officios. Este ramo abrange a electricidade (ensino pratico), composição typographica, impressão e stereotypia, encadernação, carpintaria, marcenaria, torneiro, entalhador e ferreiro. O curso de sciencia consta de instrucção primaria, francez pratico, mathematica elementar, machinas, escripturação mercantil, electricidade e dactylographia. A secção artistica comprehende desenho geographico e elementar, de ornato e de machinas, esculptura, musica vocal e instrumental, gymnastica, agronomia e exercicios militares. Este instituto é o antigo Asylo dos Meninos Desvalidos, fundado em 1874. Tambem admitte semi-internos contribuintes, para o estudo de machinas e de electricidade.
O Instituto Profissional Feminino foi fundado em 1898, e é destinado a fornecer, a meninas, educação physica, moral, intellectual e pratica, esta em todos os ramos domesticos.
Asylo de S. Francisco de Assis—Está situada esta instituição municipal, em edificio proprio, na rua do Visconde de Itaúna. Foi inaugurada em 10 de Julho de 1879, e recolhe os mendigos, dos dois sexos, encontrados na via publica, verificando-se que não podem prover á propria subsistencia. No fim de 1907 era de 228 o numero dos asylados.
Casa de S. José—Recebe menores do sexo masculino, de 6 a 12 annos, que por abandono ou absoluta indigencia, careçam da protecção official. Fundou-o o conselheiro Ferreira Vianna, quando ministro do Imperio, e por subscripção publica. Os asylados recebem ensino de artes e officios, instrucção primaria, vestuario, alimentação e são obrigados a exercicios gymnasticos e militares.
Completos os 12 annos o asylado é restituido á sua familia, e se a não tem é internado no Instituto Profissional, ou entregue ao Pretor, para dar-lhe destino.
Instituto Vaccinico-Municipal—Foi creado por Decreto de 5 de Setembro de 1894, e cabe-lhe, por contracto, a cultura, o preparo e a inoculação da vaccina animal. Importa e vende, com auctorisação superior, o sôro anti-diphetherico de Roux. Vaccina gratuitamente, não só a população indigente da capital, como os alumnos das escólas federaes e municipaes, as praças do Exercito, da Armada, do Corpo de Bombeiros, os funccionarios federaes e municipaes, fornecendo o sôro a qualquer dos Estados que o sollicite. Em 1904 este Instituto utilisou-se de 420 vitellos, distribuiu, na capital, 184:474 tubos vaccinicos, remetteu 171:461 tubos para os Estados e vaccinou 21:174 individuos. Está situado na rua Silveira Martins.
Corpo de Bombeiros—Poderoso instrumento de assistencia publica, esta corporação tem prestado assignalados serviços á população fluminense. Existe desde 12 de Julho de 1856, tendo o primitivo titulo de Corpo Provisorio de Bombeiros da Côrte. A primeira bomba a vapor foi adquirida em 1865, e até 1870 todo o material era puxado á mão, passando a sêl-o a muares. Em 1881, foi creada uma caixa de beneficencia, e a cidade dividida em cinco districtos, para regularidade do serviço, e em cada um estabelecido um posto de soccorros. Actualmente, o Corpo de Bombeiros, tem 626 praças, divididas em 5 companhias, um estado maior e um estado menor de officiaes.
O material consta de 20 bombas a vapor, 2 fluctuantes, 16 bombas de cisterna, 22 de mão, 2 bombas chimicas, 1 de pressão hydraulica, 1 com dynamo, 5 abafadeiras chimicas, 6 meias-cabeças, 29 carros de transporte de pessoal e utensilios, 3 carros com escadas, 10 caminhões, 11 carroças com pipas para agua, 1 ambulancia, 19 carrinhos para mangueiras, 1 lancha a vapor com bomba para incendio a bordo, 78 escadas de assalto, 16 ditas de 1 e 2 ganchos, 52 apparelhos de salvação e 2 para-quedas. É de 100 a média de sinistros annuaes. No magnifico quartel d’esta corporação, ha uma enfermaria para as praças.
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