Kitabı oku: «Um amor inesperado - Um bebé, um milagre»

Yazı tipi:

Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2022 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

N.º 68

© 2017 Judy Russell Christenberry

Um amor inesperado

Título original: The Cowboy’s Christmas Proposal

Publicada originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

© 2019 Liz Fielding

Um bebé, um milagre

Título original: Secret Baby, Surprise Parents

Publicada originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2009

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Bianca e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença. As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited. Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1105-094-4

Sumário

Créditos

Sumário

Um amor inesperado

Prólogo

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Um bebé, um milagre

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Epílogo

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Prólogo

De mão dada, duas jovens atraentes olhavam para as quatro campas que havia à frente delas, com lágrimas de dor nos seus rostos.

– Pelo menos, sabemos que não sofreram – suspirou uma delas. O sol da manhã brilhava sobre o seu cabelo loiro.

– É verdade – assentiu a morena. – Mas eram demasiado jovens para morrerem.

– E agora só nos temos uma à outra. Vamos ter de nos apoiar mutuamente para seguirmos em frente.

– Sim. Era o que eles teriam querido.

A conversa foi interrompida pelas pessoas de Bailey, no Colorado, que se aproximavam para lhes darem os pêsames, e as jovens primas cumprimentaram vizinhos e amigos, tão tristes como elas.

A morte dos seus pais num acidente de carro, quando voltavam de Denver de verem um jogo de futebol, fora totalmente inesperada para todos.

– Se precisarem de ajuda, não hesitem em pedi-la. São demasiado jovens para estarem sozinhas – disse-lhes uma vizinha.

As duas raparigas trocaram um olhar. Tinham vinte e cinco anos, uma idade razoável para começarem a viver de forma independente, mas nenhuma das duas tinha querido que fosse assim.

E, embora tivessem recebido muitas ofertas de ajuda dos vizinhos, não pensavam aceitar nenhuma, porque achavam ter um plano para seguir em frente na vida, mantendo as queridas tradições familiares.

Mas não tinham pensado que teriam de o fazer sozinhas.

Capítulo 1

Penny Bradford dirigiu-se para a casa dos trabalhadores para falar com Gerald Butler, o capataz do rancho.

Felizmente, tinha o capataz do seu pai para se apoiar. Depois da morte acidental do seu irmão aos dezasseis anos, o seu pai, receando que também lhe acontecesse alguma coisa, decidira protegê-la. E, sendo «a princesinha» do seu papá, nunca aprendera nada sobre o funcionamento do Rocking B.

Mas tinha chegado o momento de aprender e Gerald poderia ensinar-lhe. Penny chegou à casa dos trabalhadores e parou um pouco para respirar. Mas, quando ia entrar, uma gargalhada sonora parou-a.

– Porque não hei-de continuar aqui? – ouviu a voz do capataz. – Se consegui enganar o seu pai, enganar a rapariga será canja. Nunca descobrirá que fico com o dinheiro dela. Nos últimos quatro anos, fiquei com mais de cinquenta mil dólares…

Penny recuou, horrorizada, antes de correr para casa e, ao entrar, pegou no telefone e telefonou à sua prima.

– Sally, ainda bem que te encontro. Acabei de ouvir Gerald a gabar-se de ter roubado cinquenta mil dólares ao meu pai.

– O quê?

– Estava a contá-lo a alguém na casa dos trabalhadores.

– Que horror! Tens de o despedir imediatamente. Não podes continuar a confiar nele… e certifica-te de que parte sem levar nada do rancho.

Penny respirou fundo.

– Como pôde fazer isto ao meu pai?

– Sabes que há pessoas más em toda a parte.

– O problema é o que faço depois? Eu não sei gerir o rancho. O meu pai recusou-se a ensinar-me, receando que sofresse um acidente, e Gerald é o único que sabe como funciona isto.

– Eu sei, vais precisar de ajuda. O teu pai não era amigo de Dexter Williams? É o ganadeiro mais importante da zona, certamente, ele poderia recomendar-te alguém.

– Boa ideia! Obrigada, Sally. E vou telefonar ao xerife para que leve Gerald do rancho – suspirou Penny. – Não acho que possa provar o que fez, mas, se aparecer com o xerife, certamente partirá sem protestar.

– Telefona-me amanhã para me contares o que se passou.

– Fá-lo-ei, Sally. Obrigada.

Penny desligou o telefone e preparou-se para dar o primeiro passo como proprietária do rancho Rocking B.

– Senhor Williams, sou Penny Bradford. Sei que o meu pai e o senhor eram amigos e preciso do seu conselho.

– Claro que sim, Penny! Em que posso ajudar-te?

– Preciso de um capataz para o rancho, alguém que seja honesto e trabalhador. E que esteja disposto a ensinar-me.

– O que se passou com Gerald?

– Despedi-o esta manhã. Descobri que roubava o meu pai.

– Lamento, o teu pai era um bom homem – murmurou Williams. – E não é fácil encontrar capatazes decentes – de repente, estalou os dedos. – Talvez eu tenha o homem perfeito para ti. É competente para fazer os trabalhos de capataz, mas, neste momento, não havia nenhum lugar para ele.

– Como se chama?

– Jake Larson. Mas há uma coisa sobre ele... – o homem sorriu como se estivesse a pensar na melhor maneira de dizer a próxima frase: – Tem fama de… Enfim, agrada muito às mulheres, portanto, é melhor que mantenhas as distâncias.

– Isso não será um problema. Desde que possa confiar que gere bem o rancho…

– Podes confiar nele, garanto-te. Dir-lhe-ei que vá falar contigo amanhã de manhã, bem cedo.

– Não sabe como lhe agradeço a sua ajuda, senhor Williams.

– Fico contente por poder ajudar-te. E se precisares de alguma coisa, não hesites em pedir.

Penny desligou o telefone, contente por ter encontrado uma solução para o seu problema, mas sentindo curiosidade por saber que tipo de homem seria o tal Jake Larson.

Jake Larson subiu os degraus do alpendre, com os dentes cerrados. Esperava que fosse Dexter quem queria vê-lo e não a senhora Williams, que passara o Verão todo a persegui-lo.

Mas receava que o despedisse e não seria justo, porque ele não tinha o mínimo interesse na sua mulher… Embora não parecesse capaz de a convencer. E também não conseguiria convencer Dexter de que era ela quem estava a persegui-lo.

Dexter Williams abriu a porta e fez-lhe sinal para que entrasse.

– Vamos para o meu escritório conversar um pouco.

Jake assentiu, pensando que teria sorte se lhe desse uma carta de recomendação.

– Ouve, ambos sabemos que as coisas não podem continuar como até agora – começou a dizer o seu chefe. – Não queria despedir-te porque és um bom trabalhador e isso não seria justo, portanto, encontrei outro lugar para ti.

Ele olhou para ele, surpreendido.

– Obrigado, mas prefiro procurar emprego sozinho.

– Sim, bom… Serei sincero contigo. A verdade é que me farias um favor se aceitasses este lugar. A filha de um grande amigo meu que acabou de falecer precisa de um capataz, alguém que possa gerir o rancho e ensiná-la a geri-lo.

Jake franziu o sobrolho. Desejava ocupar um lugar de capataz, mas ensinar uma mulher…

– Não sei se serei o mais adequado para isso.

– Sim, és. E ambos sabemos que não podes continuar aqui.

Jake assentiu.

– Eu sei, mas… De que rancho estamos a falar?

– Do Rocking B, do outro lado da vila. A filha de Bradford acabou de descobrir que o capataz lhes roubava dinheiro.

– É o que tem um ferro que parece um chapéu?

– Sim, esse mesmo.

– Enfim, suponho que podia falar com ela…

– A menina Bradford espera-te no rancho ainda esta manhã. Faz a mala, eu direi à minha mulher que te foste embora.

Jake apertou os lábios.

– Sim, senhor Williams.

Se não lhe interessasse o trabalho, simplesmente diria que não à rapariga. Tinha algum dinheiro poupado com o qual conseguiria aguentar-se durante alguns meses.

Quando voltou para a casa dos trabalhadores, os homens já tinham ido trabalhar. Todos conheciam a situação, portanto, nenhum se surpreenderia por se ir embora do rancho.

Jake não demorou muito a arrumar as suas coisas. O mais importante era o seu cavalo, Apache. Era um animal bem treinado e muita gente tinha querido comprá-lo, mas não tinha intenção de se desfazer dele, de modo que o colocou no atrelado, guardou as suas coisas no banco traseiro da carrinha e seguiu pela estrada que levava ao rancho Rocking B.

Penny passeava pela cozinha, esperando que Jake Larson aparecesse. Certamente, Dexter Williams já lhe teria explicado a situação e seria um alívio ter alguém responsável pelo rancho. Ela sabia tão pouco sobre as decisões que deveria tomar… Pensava esforçar-se ao máximo, mas precisava de ajuda.

Quando olhou pela janela, viu que uma carrinha com atrelado parava à entrada. A porta abriu-se e um homem alto e magro saiu dela. Dexter dissera-lhe que Jake Larson tinha fama de mulherengo, mas ela pensava deixar-lhe bem claro que não tinha o mínimo interesse nele.

Quando se aproximava, surpreendeu-a ver que não era o típico rapaz bonito. Era muito atraente, certamente… mas ela não estava interessada. Ela queria aprender a gerir um rancho, não queria um namorado.

Penny esperou até que batesse à porta e respirou fundo, antes de abrir.

– Sim?

– Sou Jake Larson. O senhor Williams disse-me que precisava de um capataz.

– Entre, senhor Larson. Quer um café?

– Sim, por favor.

Penny levou-o até à cozinha e indicou-lhe que podia sentar-se.

– Espero que o senhor Williams lhe tenha explicado que teria de me ensinar a gerir o rancho.

– Sim, disse-me, mas não sei se serei o mais indicado para isso. Não estou habituado a explicar como se faz o meu trabalho.

– Entendo, senhor Larson, mas receio que seja absolutamente necessário.

– Se confiar em mim para fazer o trabalho, porque tenho de lhe ensinar?

– Porque acho que devo conhecê-lo tão bem como você. Se não, não poderei dar-lhe a minha opinião sobre nada.

– Não é uma coisa fácil de aprender. Nem de ensinar. Eu não posso ensinar-lhe tudo o que sei em alguns meses… nem sequer num ano. Demoraria mais do que isso.

– Entendo, mas tenho de começar por algum lado.

– Entende que teria de adiar as perguntas até ao fim do dia? Nem sempre há tempo durante o dia de trabalho para responder a perguntas.

– Sim, posso ser flexível.

Jake Larson olhou para ela em silêncio durante alguns segundos e Penny susteve a respiração. Os seus olhos escuros eram tão indecifráveis que não sabia se tinha aceitado o trabalho ou se estaria a rejeitá-lo.

Finalmente, ele estendeu a mão.

– Muito bem, menina Bradford, aceito. Tem um novo capataz.

Penny apertou a sua mão, contente.

– Quer que lhe mostre a casa dos trabalhadores?

– Sim, menina Bradford.

Penny levou-o até lá. Limpara o quarto de Gerald no dia anterior, depois de falar com Dexter Williams, e esperava que gostasse.

– Este era o quarto do antigo capataz. Pode pôr a sua roupa suja na cesta. Vou contratar uma governanta e ela lavará a roupa uma vez por semana – depois parou, olhando à sua volta. – Não despedi o resto dos trabalhadores, mas se encontrar algum a fazer alguma coisa ilegal, despeça-o sem contemplações.

– Sim, menina Bradford.

– Então, deixo-o. Os homens voltarão ao entardecer… Bom, um deles volta antes. Sam, o cozinheiro.

O capataz assentiu e Penny saiu antes de começar a responder com um «sim, senhor Larson» aos seus «sim, menina Bradford». Com um pouco de sorte, Jake faria bem o seu trabalho e ensiná-la-ia.

Jake observou-a enquanto voltava para casa. Era demasiado jovem, pensou. Ou talvez fosse o seu nome… Penny parecia o nome de uma menina. Embora não fosse uma menina, não. Tinha corpo de mulher.

Mas ele não pensava mostrar o mínimo interesse por ela. Tinha aprendido a lição. Os romances e o trabalho não se misturavam, portanto, evitaria qualquer tipo de sedução.

Olhando à sua volta, decidiu que gostava de ter um quarto separado dos trabalhadores. Estava farto de partilhar o quarto com outras pessoas. E se o cozinheiro fosse bom, seria ouro sobre azul. A comida marcava a diferença em alguns trabalhos.

Jake saiu de casa para tirar Apache do atrelado e levá-lo para os estábulos.

– Aqui, estarás bem, amigo.

Depois de confirmar que tinha água e comida, voltou para o seu quarto para arrumar as suas coisas. Que alguém lhe lavasse a roupa era muito bom. E tinha uma bonita secretária para se encarregar da papelada.

Dexter tinha razão: estava preparado para ser capataz. E, inclusive, ensinaria a Penny Bradford tudo o que ele sabia sobre ranchos. Afinal de contas, era um trabalho que adorava.

Depois de comer, Penny passeava de um lado para o outro, nervosa, enquanto aguardava a chegada de uma mulher que ia entrevistar para o lugar de governanta.

Embora ela sempre tivesse ajudado a sua mãe nas tarefas da casa, se ia estar em cima de um cavalo o dia todo, seria necessário que alguém se encarregasse da cozinha.

Mas não sabia se suportaria viver com uma estranha e aquela entrevista deixava-a mais nervosa do que a de Jake Larson.

Alguns minutos depois, ouviu um rangido de pneus à porta e saiu para o alpendre para cumprimentar uma mulher de uns cinquenta anos e expressão agradável, que se apresentou como Harriet Buckner.

– Entre, por favor, senhora Buckner.

– Que cozinha tão bonita! – comentou a mulher.

– Sim, os meus pais reformaram-na há um ano.

– Ah, contaram-me o que aconteceu... Lamento.

– Obrigada – suspirou Penny. – Eu costumava ajudar a minha mãe na cozinha e na limpeza da casa, mas agora tenho de aprender a gerir o rancho e não acho que tenha tempo. Por isso, estou à procura de uma governanta.

– Eu aprendi a cozinhar quando era menina e adoro. E também gosto de fazer limpezas e de ter tudo arrumado.

– Disse ao novo capataz que lhe lavaria a roupa… Espero que não se importe. E talvez tenha de cozinhar ocasionalmente alguma coisa para os trabalhadores.

– Parece-me muito bem. Comeremos sozinhas diariamente?

– Talvez, algum dia, venha cá a minha prima Sally ou talvez convide, de vez em quando, o capataz para lhe fazer perguntas. Não sei nada sobre como gerir um rancho.

– Entendo – a mulher sorriu.

– Acha que gostará do trabalho?

– Com certeza que sim. Este sítio é lindo.

Penny deixou escapar um suspiro.

– Venha comigo, vou mostrar-lhe o seu quarto – decidira que o quarto de hóspedes no primeiro andar seria perfeito para a governanta. – Este quarto é para si. Tem casa de banho.

– É muito bonito, eu gosto – Harriet sorriu.

– Precisa de voltar a Trinity para ir buscar as suas coisas?

De repente, a mulher corou.

– Não! Trouxe as minhas coisas comigo. É que o ganadeiro para quem trabalhava decidiu que… estava interessado em casar-se comigo. Mas só tinha passado um mês desde a morte da sua mulher e dei-me conta de que estava à procura de uma governanta de graça.

– Ah, entendo… – Penny sorriu.

– A verdade é que, depois disso, lhe agradeço muito por me oferecer este trabalho.

– Não, sou eu quem lhe está agradecida. Eu limparei o meu quarto, a senhora só tem de cozinhar e limpar o andar de baixo.

– Muito bem. A que horas quer que sirva o pequeno-almoço?

Penny franziu o sobrolho.

– O capataz não disse a que horas tem de estar pronto. Vou perguntar-lhe, enquanto a senhora guarda as suas coisas.

Uma vez no alpendre, deixou escapar um suspiro de alívio. Harriet parecia muito agradável e seria fácil dar-se bem com ela.

Mas, quando ia bater à porta da casa onde dormiam os trabalhadores, ouviu uma voz nos estábulos e, ao espreitar, viu Jake Larson a acariciar um cavalo.

– Que bonito! É seu?

Ele virou-se.

– Sim, é meu. Chama-se Apache. É verdade, tirei um pouco de palha do celeiro.

– Parece-me muito bem – disse Penny. – Os homens costumam deixar os seus cavalos nos estábulos. Assim, é mais fácil montar de manhã.

– Sim, imagino.

– Vim perguntar-lhe a que horas começamos amanhã de manhã.

– Normalmente, tomamos o pequeno-almoço às seis e meia, para sairmos às sete horas. Sabe andar a cavalo?

– Sim, claro.

– Muito bem, então, vemo-nos às sete horas.

– Levamos almoço?

– Quer organizar um piquenique? – perguntou ele, irónico.

Penny apertou os lábios, furiosa.

– Não, não quero organizar nenhum piquenique, mas costumo almoçar. E não queria perder tempo a voltar aqui.

– Leve o que quiser, mas terá de comer em cima do cavalo. Eu não costumo comer nada à hora de almoço.

– Muito bem. Vemo-nos às sete horas.

Penny virou-se, sem esperar por resposta.

Capítulo 2

Penny voltou para casa, com os dentes cerrados. Que antipático! O que achava, que ia organizar um piquenique romântico para ele? Pois, estava muito enganado. E teria de fazer alguma coisa para que Jake Larson não voltasse a enganar-se com ela.

Uma vez em casa, dirigiu-se para o quarto de Harriet.

– Tudo bem?

– Sim, menina Bradford. A que horas tem de se levantar?

– Tenho de tomar o pequeno-almoço às seis e meia… portanto, tenho de me levantar às seis horas. O capataz chama-se Jake Larson e, na verdade, não é muito simpático.

– Ah, não? E porque o contratou?

– Porque, segundo Dexter Williams, é muito bom. Embora me tenha avisado de que é um mulherengo – respondeu Penny, indignada. – Quando lhe perguntei se devia levar almoço amanhã, pensou que queria organizar-lhe um piquenique romântico!

– E era o que queria?

– Claro que não! Além disso, perguntou-o de maneira sarcástica, como se fosse a última coisa que ele queria.

– Estou a ver.

– A partir de agora, terei cuidado. Eu não estou à procura de namorado.

– Então, não vai levar almoço?

– Preciso que seja alguma coisa que possa comer em cima do cavalo. O que poderia levar?

– Uma sandes e uma maçã – sugeriu a governanta.

– Boa ideia! Ai, esqueci-me de levar Stormy para os estábulos. Volto já! Se lhe parecer bem, entretanto pode verificar o que falta na despensa.

– Muito bem.

Penny vestiu o casaco e colocou o gorro de lã, e, uma vez nas cavalariças, dirigiu-se para o seu animal favorito, uma égua escura chamada Stormy, que o seu pai lhe tinha oferecido quando tinha quinze anos.

Demorou alguns minutos a convencê-la, mas conseguiu levá-la para os estábulos onde estava Apache, e, depois de lhe dar algumas palmadinhas no pescoço, voltou para casa.

Ao entrar na cozinha, recebeu-a um cheiro delicioso a café acabado de fazer.

– Vou beber uma chávena, se não se importar.

– Não, claro que não, foi para isso que o fiz – Harriet sorriu. – Já vi a despensa e acho que tem tudo o que preciso. E o congelador também está cheio. Diga-me, o que gosta de tomar ao pequeno-almoço?

– De manhã, bebo café e como cereais, ovos mexidos e bacon. Ah, e torradas! Aos sábados e domingos, gosto de comer torradas.

– Muito bem. Embora lhe sugira biscoitos de canela de vez em quando. Na verdade, saem-me muito bem.

– Óptimo! – Penny sorriu.

– Bom, vou fazer bifes para o jantar, se lhe parecer bem. Quer que faça uma salada?

– Sim, por favor. Estou disposta a experimentar tudo.

– Então, vamos dar-nos bem – a governanta sorriu.

– Obrigada, Harriet. Fico contente por saber que, pelo menos, um dos meus novos empregados está contente.

Na manhã seguinte, fazia tanto frio que Penny vestiu um gorro de lã sob o chapéu que o seu pai costumava usar, umas luvas de pele e um casaco de couro abotoado até ao pescoço, sobre uma camisola grossa.

E, para comer, uma sandes e uma maçã. Sabia que ia ser um dia difícil e não ia armar-se em dura só para impressionar Jake Larson. Além disso, ela andava bem a cavalo, mas não costumava montar durante mais de duas ou três horas.

E, como mulher acautelada que era, levava um cantil ao ombro, que penduraria na sela, e também o velho impermeável do seu pai.

Tinha pensado muito nele naquela manhã. O seu pai nunca tinha esperado vê-la naquela situação e, por isso, não a preparara para isso. Sempre fora «a sua menina» e, por muito que lho tivesse pedido, recusara-se a ensinar-lhe em que consistia o trabalho no rancho. Mas agora era muito importante para ela. Pelo rancho e pelo seu pai, embora já não estivesse ali para a ver.

Uma vez nos estábulos, Penny selou Stormy e atou o impermeável e o cantil à sela, guardando o almoço no bolso.

Estava pronta às sete horas em ponto. Jake estava a sair de casa, a falar com um grupo de trabalhadores, e levantou o olhar, surpreendido, quando os outros a cumprimentaram.

– Achei que nos encontraríamos na casa.

– Pensei que seria mais rápido vir directamente para os estábulos. Como vê, já estou pronta.

Jake fez uma careta, mas, uma vez selado Apache, aproximou-se dela.

– Pensei em dar uma olhadela por toda a propriedade para a conhecer um pouco melhor. Parece-lhe bem?

– Sim, claro.

– Conhece a propriedade toda?

– É claro!

Penny fez-lhe uma descrição dos pastos. Tinha ouvido tantas vezes o seu pai a falar do rancho que o sabia de cor.

– Disse aos trabalhadores que continuem o seu trabalho como antes, até que decida se será necessário fazer alguma mudança – continuou ela.

– E estão todos de acordo?

– Sim, claro. Se não fosse assim, tê-los-ia despedido.

– Entendo.

Por volta do meio-dia, Penny tirou o seu almoço e comeu, enquanto continuavam a percorrer o rancho. Estava cansada depois de cinco horas sobre a sela, mas não pensava dizer-lho. Felizmente, depois de comer, chegaram à beira de um riacho e Jake sugeriu que parassem um pouco. Penny levou Stormy e Apache até à borda para que bebessem um pouco e, depois de partir o caroço da sua maçã ao meio, deu uma parte a cada um como presente.

– O que deu aos cavalos?

– O caroço da maçã – respondeu ela.

– Ah, obrigado! Apache gosta muito de maçãs.

– Stormy também – embora não lhe apetecesse nada subir novamente para a sela, Penny pôs um pé no estribo.

– Importa-se se andarmos um pouco pela beira do riacho? – sugeriu Jake, então. – Quero ver quanta água tem.

– Muito bem – Penny pegou nas rédeas de Stormy e começou a andar, contente por poder esticar as pernas.

Jake fez-lhe muitas perguntas sobre o rancho, sobre o trabalho dos trabalhadores… Conseguia responder a algumas, mas a outras não e pensou que poderia encontrar as respostas em casa.

– Tinha-me esquecido, mas o meu pai tinha uns diários onde anotava tudo o que se fazia no rancho. Quer dar-lhes uma olhadela?

– Sim, seria bom. Prometo devolver-lhos assim que acabar.

– Na verdade, não tive tempo para olhar para eles… Ainda nem sequer abri os armários.

– Se não estiver preparada, posso esperar.

– Não, não, procurá-los-ei ainda esta noite.

– Agradeço-lhe – Jake sorriu. – Imagino que este rancho dê lucro.

– Sim, mas, na verdade, não sei muito sobre isso. E também não sabia que o antigo capataz andava a roubar o meu pai. Apanhei-o a gabar-se de ter roubado cinquenta mil dólares nos últimos quatro anos sem que ninguém se desse conta.

Jake assobiou.

– Pois, isso é muito dinheiro.

– Eu sei. Suponho que o meu pai confiasse completamente nele.

– Eu fazia muita papelada para o senhor Williams, portanto, posso ensinar-lhe a tratar das contas.

– Óptimo, isso seria muito bom!

– Bom, acho que devíamos voltar a montar. Quero voltar para casa antes que se faça de noite.

O passeio tinha activado um pouco as pernas de Penny. E, embora não soubesse se Jake o tinha sugerido a pensar nela, agradecia-lhe de qualquer forma.

Mas quando chegaram aos estábulos, cinco horas depois, tendo visto apenas metade do rancho, quase não conseguia segurar os arreios e desceu da sela, rezando para que as suas pernas a segurassem.

– Pode ir para casa. Eu encarrego-me de Stormy.

– Não, não é preciso…

– Portou-se muito bem, mas sei que não está habituada a montar durante tantas horas. Quando se tiver habituado poderá desselar Stormy, mas agora devia descansar.

Penny olhou para ele nos olhos para ver se estava a ser condescendente com ela. Alguma coisa neles lhe disse que podia confiar em Jake Larson e isso, não sabia porquê, pô-la nervosa.

– Muito bem, obrigada – quando largou a sela esteve prestes a cair no chão, mas uns braços fortes seguraram-na.

– Sente-se bem?

– Sim, obrigada – praticamente a cambalear e morta de vergonha, Penny dirigiu-se para casa. Mas, a pouco e pouco, as suas pernas foram acordando e conseguiu chegar à cozinha da sua casa.

– Está cansada? – Harriet sorriu, pondo uma chávena de café sobre a mesa.

Ela só respondeu depois de beber um gole.

– Sim, foi um dia muito longo. E só vimos metade do rancho.

– Suponho que, a pouco e pouco, se tornará mais fácil. Quer jantar agora ou prefere tomar banho antes?

– Importa-se que tome banho antes? Acho que apreciaria mais o jantar depois de um duche quente.

– Porque haveria de me importar? Eu estarei pronta quando você estiver.

– Obrigada, Harriet – Penny saiu da cozinha com a chávena de café na mão.

Meia hora depois, voltava a sentar-se à mesa para jantar e, quando acabaram, a governanta sugeriu que fosse imediatamente para a cama.

– Não posso, prometi a Jake que procuraria os diários do meu pai. Acho que lá encontraremos muita informação sobre como geria o rancho.

– Quer que a ajude a procurá-los?

– Não se importa? Não acho que seja muito difícil encontrá-los, mas… não entrei no seu quarto desde que morreram e talvez seja melhor estar com alguém.

– Claro que não – Harriet sorriu. – Vou colocar os pratos na máquina de lavar loiça enquanto você descansa um pouco e depois vamos procurá-los juntas.

Penny bebeu o último café, tentando não se sentir culpada enquanto via a governanta a trabalhar.

– Sinto-me mal a vê-la a trabalhar enquanto eu não faço nada.

– Tolices, é para isso que estou aqui! Se tivesse passado o dia todo a andar a cavalo não conseguiria mexer-me.

Alguns minutos depois, subiam juntas até ao quarto dos seus pais, Penny com um nó na garganta. Tinham morrido dois meses antes, mas ainda não tinha tido coragem para entrar no quarto.

– Quer ficar sozinha alguns minutos ou prefere que entre consigo?

– Não… Prefiro não estar sozinha.

Harriet foi a primeira a entrar, deixando que Penny demorasse o seu tempo.

– A sua mãe era uma dona de casa óptima.

– Sim, era muito organizada – murmurou ela, olhando para o quarto que não tinha mudado desde que era menina. O edredão às flores tinha perdido cor com a passagem dos anos, mas continuava a ter bom aspecto.

– Tem ideia de onde poderão estar esses diários? – perguntou Harriet.

– Acho que na mesa-de-cabeceira. A minha mãe queixava-se sempre de que ele escrevia à noite, enquanto ela tentava dormir.

Penny abriu uma gaveta da mesa-de-cabeceira… e ali estavam. O seu pai comprava todos os anos o mesmo estilo de diário, com folhas pautadas e encadernados em pele.

– Este quarto é muito maior do que o seu? – perguntou Harriet.

– Sim – respondeu ela, surpreendida. – Mas trate-me por tu, por favor.

– Ah, está bem! Se quiseres dormir aqui, posso limpar o quarto.

– Não, não! Não posso fazer isso.

– Os teus pais já não estão cá, Penny. Agora, é a tua casa – disse a mulher, apertando a sua mão.

– Eu sei, mas parece-me tão cedo… Se calhar, dentro de algum tempo.

– Se te parecer bem, podíamos levar a roupa para a paróquia. Faz muito frio aqui e há gente a quem daria jeito.

– Sim, é verdade – murmurou Penny. – Amanhã, tirarei a roupa que ainda estiver boa.

Depois, vestiu o casaco, o gorro e as luvas, e dirigiu-se para a casa dos trabalhadores. Quando bateu à porta, ouviu murmúrios e passos apressados, como se os homens estivessem a tentar ficar apresentáveis a toda a pressa. Quem abriu a porta foi Barney, um dos trabalhadores mais antigos.

– Importas-te de dizer ao senhor Larson que vim vê-lo?

– Sim, menina Bradford. Um minuto.

Apoiando-se na parede, Penny esperou, até que Jake saiu do seu quarto.

– Sim?

– Trago-lhe os diários do meu pai, o deste ano e o do ano passado.

Jake pegou nos diários com muito cuidado, como se soubesse como eram importantes para ela, e Penny sentiu um nó na garganta.

– Agradeço-lhe muito por mos emprestar.

– Sim, enfim… Boa noite!

Virou-se sem esperar por resposta, mas, cinco metros depois, ouviu que Jake Larson lhe desejava boa noite.

Jake tinha descoberto várias coisas sobre a sua nova chefe: em primeiro lugar, que não tinha a mínima intenção de o seduzir e, em segundo, que não se queixava uma única vez, mesmo que as coisas ficassem difíceis. E isso fê-la ganhar pontos.

Tinha pensado que quereria parar para comer e que estaria sempre a protestar, mas tinha-se enganado. Embora, evidentemente, não estivesse habituada a montar durante tantas horas, não se tinha queixado absolutamente. Inclusive, parecia envergonhada por ter de comer alguma coisa a meio do dia.

E agora tinha-lhe trazido os diários do seu pai, confiando-os ao seu cuidado, quando deviam ser uma coisa tremendamente importante para ela.

– Pô-lo a fazer trabalho de casa, chefe? – perguntou-lhe um dos trabalhadores.

– Sim, parece que o seu pai tinha uns diários do trabalho no rancho e vão dar-me muito jeito.

– Diários? Quer dizer que tomava nota de tudo?

– Sim – respondeu Jake. – Vejo que não sabias.

– Não – o homem desviou o olhar. – Acha que escreveu alguma coisa sobre nós?

– Não sei. Digo-te quando os tiver lido.

– Muito bem, chefe.

Jake entrou no seu quarto e fechou a porta para abafar o ruído da televisão que os trabalhadores tinham ligado depois de um longo dia de trabalho. Queria paz e tranquilidade para se concentrar nos diários do senhor Bradford. O pai de Penny anotava coisas sobre o gado, os pastos, quanto esperava angariar no próximo leilão... E também documentava a sua preocupação sobre Gerald e alguns trabalhadores.

Jake soube então que alguns deles quereriam pôr as mãos naqueles diários, de modo que os guardou numa caixa que levava com ele para toda a parte. Continuaria a lê-los no dia seguinte, mas, naquele momento, queria pô-los a salvo.

Tinha reparado na reacção estranha de alguns dos homens quando mencionara a existência dos diários. Poderia estar enganado, mas devia estar atento.

Segundo o que tinha escrito, o senhor Bradford suspeitava de alguns trabalhadores, mas Gerald descartava sempre essas suspeitas. Penny tinha razão: aparentemente, o seu pai tinha confiado cegamente no capataz.

E ela era tão jovem… e tão bonita. Sim, muito bonita e muito jovem. E sua chefe, para além disso. Portanto, não tinha intenção de se envolver com ela.

Pensou na mulher de Dexter Williams. Depois da morte da primeira esposa, Dexter tinha voltado a casar-se com uma mulher quase trinta anos mais jovem, sem saber que não podia confiar nela.

Jake acreditava na honra, de um homem ou de uma mulher. Era um atributo que procurava em toda a gente. E, embora nem sempre fosse fácil detectá-lo, o tempo costumava pôr cada um no seu lugar.

Era demasiado cedo para saber que tipo de pessoa era Penny Bradford. A sua beleza era evidente, mas ainda não sabia que tipo de pessoa era. No entanto, o que tinha visto naquele dia tinha-o impressionado.

Jake apagou a luz e deitou-se na cama. Mas não conseguia deixar de pensar na menina Bradford.

Na manhã seguinte, Penny estava novamente à espera quando saiu para os estábulos. Mas Jake não tinha dormido bem à noite e estava de mau humor.

– Quer que comecemos a trabalhar antes das sete horas?

– Não, não queria chegar atrasada – respondeu ela, um pouco surpreendida.

– Posso esperar alguns minutos, não se preocupe com isso.

– Muito bem. Passa-se alguma coisa, senhor Larson?

– Não, nada – respondeu Jake, zangado consigo mesmo por lhe ter falado naquele tom. Embora fosse uma rapariga jovem, continuava a ser a sua chefe.

– Então, diga-me quando estiver pronto.

– Hoje, também trouxe o almoço?

– Sim. Quer que lhe dê um pouco? – Penny olhou para ele nos olhos, decidida a não se deixar intimidar.

– Não lhe diria que não se me oferecesse uma maçã.

– Vou a casa buscar-lhe uma.

Jake abriu a boca para protestar, mas Penny já se pusera a caminho. Ainda bem, pensou. Assim, poderia selar o seu cavalo sem que ela olhasse para ele.

Alguns minutos depois, Penny voltava com uma maçã vermelha na mão.

– Tome. Guarde-a na sua sela.

Capítulo 3

Merecia aquela resposta seca, pensou Jake, guardando a maçã num dos bolsos da sela.

– Vamos?

– Sim – respondeu ela, sem olhar para ele.

Jake tomou a direcção contrária ao dia anterior e, quando se tinham afastado o suficiente dos estábulos, disse-lhe:

– O seu pai tinha sérias dúvidas sobre alguns dos trabalhadores.

– Ah, sim?

– Sim, mas, cada vez que mencionava essas dúvidas a Gerald, dizia-lhe que não se passava nada.

– E o meu pai acreditava?

– Não totalmente. Mas suponho que não queria enfrentar o seu capataz sem ter provas. Estava a vigiá-los, a tentar apanhá-los a fazer alguma coisa indevida. Não se tinha dado conta de que o problema era Gerald, mas imagino que, mais cedo ou mais tarde, o teria descoberto – Jake ficou calado um momento. – Se lhe conto é porque… pensei que isso a faria sentir-se um pouco melhor.

Penny assentiu.

– Obrigada. Vai fazer alguma coisa a esses trabalhadores em quem o meu pai não confiava?

– Não, a menos que os apanhe em flagrante. É possível que comecem a comportar-se como pessoas honradas… Embora, alguns se tenham alarmado ao verem os diários.

– Ah, sim? Então, duvido que possa devolver-mos.

– Não se preocupe, guardei-os à chave.

– Mas poderiam roubar-lhos.

– Ninguém vai roubar nada, menina Bradford.

Penny esporeou o seu cavalo para se adiantar e Jake deixou-a galopar durante uma hora, até que teve de lhe perguntar pelo uso de um pasto pelo qual acabavam de passar.

– Não é hora de almoço? – perguntou-lhe Jake, um pouco depois.

– Suponho que sim. Quer comer já?

– É claro! Estou desejoso de dar uma dentada na minha maçã, mas não queria admiti-lo. Hoje, não parece ter pressa para comer…

– Não sabia que horas eram. O tempo passou a voar.

– Então, comemos?

– Sim, claro – Penny tirou o seu almoço da sela. – Trago uma sandes muito grande. Quer um bocado?

– Não, obrigado.

– Ouça, senhor Larson, não estou a tentar suborná-lo – suspirou ela. – Só lhe ofereço um bocado da minha sandes.

– Bom, se não se importa de a dividir comigo…

– Claro que não – Penny conseguiu parti-la mais ou menos ao meio e deu-lhe a sua parte, que Jake comeu praticamente de seguida. – Direi a Harriet que nos faça duas sandes para amanhã, se lhe parecer bem.

– Não quero dar trabalho…

– De certeza que não se importa. Além disso, acho que não tem muito trabalho. Quando saí, estava a fazer bolos para os trabalhadores.

– Bolos? Que tipo de bolos?

– De maçã.

– A sério? Que bom!

Penny observou-o, em silêncio.

– Portanto, gosta de doces.

– Sim, muito. Não gosta toda a gente?

– Sim, imagino que sim – Penny sorriu. – Como cozinha Sam?

Jake fez uma careta.

– Bom, não podemos queixar-nos.

– Se calhar, os bolos de Harriet irão alegrar-vos um pouco a vida.

– Penny… Posso tratar-te por tu?

– Sim, claro – respondeu ela, desviando o olhar.

– Estás contente com Harriet?

– Sim, muito. É muito boa cozinheira. Embora me sinta um pouco culpada por ela fazer tudo.

– Cada um tem as suas tarefas. Deixa que ela faça o seu trabalho.

Penny franziu o sobrolho. Porque lhe falava sempre como se fosse uma menina?

Quando chegaram ao cimo de uma colina, Jake descobriu um lago natural.

– É água de manancial?

– Sim.

– O nível varia muito?

– Não, acho que não.

– Pois, é uma sorte. Um lago natural é um abastecimento óptimo em tempos de seca – Jake saltou do cavalo e enfiou uma mão na água. – Está gelada.

– Estamos no Inverno, está tudo gelado – murmurou ela, sem olhar para ele.

Jake teve de disfarçar um sorriso.

– Queres desmontar um pouco? Podemos comer as maçãs.

– Prefiro fazê-lo sem desmontar. Quero voltar para casa antes que se faça de noite. Esta zona montanhosa não é de confiança.

– Como queiras.

A volta, como ela tinha previsto, não foi fácil, porque o terreno era pedregoso e escarpado. Felizmente, Jake não teve de se preocupar em manter uma conversa, já que iam em fila indiana.

Quando chegaram aos estábulos, disse-lhe que no dia seguinte iriam ver o que faziam os trabalhadores, mas sem que eles soubessem.

– Muito bem – assentiu Penny. – Amanhã, às sete horas?

Depois de escovar e de dar de comer aos cavalos, Penny saiu dos estábulos sem sequer lhe desejar boa noite.

Jake ficou a olhar para ela, surpreendido. Bom, não gostava dele, o que podia fazer? Mas era ela quem queria aprender no que consistia o trabalho no rancho. E ele não pensava facilitar as coisas só porque era uma mulher.

Mas, assim que entrou no seu quarto, soube que alguém tinha estado ali. E não fora Harriet, porque a sua roupa suja continuava na cesta. Não tinham conseguido abrir a caixa, nem levar os diários, mas viu marcas na fechadura. Suspirando, Jake escondeu os diários sob o casaco e, sem dizer nada, saiu do quarto.

– Ouvi dizer que Harriet nos fez bolo de maçã.

– Oh, chefe… – protestou o cozinheiro. – Eu queria que fosse surpresa.

– Desculpa, não sabia – Jake não deixava de olhar para três dos homens. Estava claro que a ideia de comer bolo de maçã não os entusiasmava. E, de repente, a ele também não.

Penny arrastou-se até à casa, mais cansada do que no dia anterior. Felizmente, Harriet tinha café acabado de fazer.

– Tomas banho ou queres jantar antes?

– Vou lavar-me um pouco aqui em baixo. Não sei se conseguiria subir as escadas.

– A tua prima Sally está quase a chegar. Telefonou há algumas horas e parecia um pouco deprimida, portanto, convidei-a para jantar. Espero que não te importes.

– Não, que ideia! Apetece-me imenso vê-la. Enfim, vou tomar um duche. Precisa de ajuda?

– Não, vai tomar um duche quente. Eu vou pôr a mesa antes que Sally chegue.

Penny demorou muito mais do que esperava. A água quente relaxava-lhe os músculos cansados. Mas, finalmente, saiu do banho e, depois de mudar de roupa, desceu para a cozinha.

Sally já tinha chegado e levantou-se alegremente ao ver a sua prima.

– Fico muito contente por teres vindo. Já conheces Harriet?

– Sim, claro! Ela convenceu-me a vir provar o seu bolo de maçã.

– Não me digas que teve de te convencer? – brincou Penny.

– Não, bom, era uma boa desculpa para vir ver-te.

– Está bem, então, perdoo-te. Harriet, quer que a ajudemos a fazer alguma coisa?

– Não, sentem-se, já está tudo pronto.

Alguns minutos depois, as três estavam a apreciar o jantar.

– Como está a correr com o novo capataz? – perguntou Sally.

– Ainda não sei.

– Como não?

– Passámos os últimos dois dias a correr o perímetro do rancho e fez-me muitas perguntas, mas eu sei tão pouco sobre este sítio…

– Ele não tinha de te ensinar?

– Sim, mas antes tem de conhecer o rancho. Emprestei-lhe os diários do meu pai, mas receio que venham a desaparecer.

– Porquê? – perguntaram Harriet e Sally ao mesmo tempo.

– Porque me contou que o meu pai suspeitava de alguns dos trabalhadores. E quando lhe levei os diários, pelos vistos, alguns eles mostraram-se receosos. Preocupa-me que tenham desaparecido.

– Não os escondeu em algum sítio?

– Diz que sim, mas… Quem sabe? Eu não gostaria nada que esses diários se perdessem.

Naquele momento, ouviu-se uma pancadinha na porta e Penny levantou-se para a abrir. Era Jake.

– Lamento incomodar, mas pensei que seria melhor que tu ficasses com isto – disse-lhe, tirando os diários do casaco.

– O que se passou?

– Acho que alguém entrou no meu quarto. Felizmente, não encontraram os diários, mas se os deixasse lá…

– Eu estava a falar sobre isso agora mesmo. Mas como vais lê-los se eu os guardar?

– Pensei que podia passar por aqui no domingo, se te parecer bem.

– Ah, sim, claro! – depois, ficou em silêncio e Jake começou a virar-se. Mas, de repente, Penny queria que ficasse. – Jake, já jantaste?

– Não.

Harriet espreitou para o corredor.

– Porque não o convidas para ficar?

Penny olhou para a sua governanta e depois virou-se para Jake.

– Podes jantar connosco, se quiseres.

– De certeza que não te importas?

– Não, claro que não! Além disso, deves ter fome.

Ao entrar na cozinha, Jake viu que havia outra convidada.

– Ah, desculpa! Não sabia que tinhas companhia.

– É a minha prima, Sally Rogers. Sally, apresento-te Jake Larson, o meu novo capataz.

– Prazer em conhecer-te. És a dona da mercearia, não és?

– Sim, exactamente.

Harriet pôs outro prato na mesa.

– Sente-se ali, Jake. E sirva-se.

– Isto tem um ar óptimo. Agora, entendo que Penny esteja tão contente consigo.

– Obrigada – a mulher sorriu.

Penny teve a impressão de que toda a gente sorria a Jake... Toda a gente, menos ela.

– Como te deste conta de que alguém tinha entrado no teu quarto?

– Porque tinham mudado algumas coisas de sítio. E encontrei marcas na fechadura da caixa onde guardava os diários. Portanto, alguém teve de entrar para dar uma olhadela.

– Quando? Supõe-se que estiveram o dia todo a trabalhar.

– O cozinheiro não me disse nada, mas acho que alguns eles voltaram antes dos outros. Perguntar-lhe-ei quando estivermos sozinhos.

– Coma uns pãezinhos, estão quentes – interveio Harriet.

Penny queria continuar a fazer-lhe perguntas, mas o coitado parecia apreciar tanto o jantar… e, quando a governanta trouxe o bolo de maçã, os olhos de Jake iluminaram-se.

– Que bom aspecto!

– Espero que goste.

Quando acabou, ninguém tinha a mínima dúvida de que tinha gostado muito.

– Da próxima vez, farei bolo de morango. Não quero que os rapazes se cansem dos meus bolos.

– Tudo o que nos mandar será bem-vindo – Jake dobrou cuidadosamente o guardanapo e deixou-o ao lado do seu prato, antes de se levantar para lhes agradecer por o terem convidado para jantar. – Foi um prazer conhecer-te, Sally.

– Igualmente – respondeu ela, sorrindo.

Penny perguntou-se se haveria alguma atracção entre eles. E o facto de pensar na possibilidade de que Jake e Sally saíssem juntos fê-la sentir-se… mal. Não sabia porquê. Devia estar mais cansada do que achava, decidiu.

Enquanto se despedia dele, tentava evitar que Jake notasse alguma coisa, mas o brilho dos seus olhos castanhos disse-lhe que não estava a sair-se muito bem.

– Amanhã, às sete horas?

– Sim, às sete horas. Boa noite!

Quando a porta se fechou, Sally disse:

– Parece-me encantador. E tenho a certeza de que será um bom capataz.

– Não sei o que pensar. Mas fico contente por ter os diários outra vez – murmurou Penny, passando os dedos pelas capas de couro. – Harriet, se alguém lhe perguntar, nunca viu estes diários.

– O que pensas fazer com eles?

– O meu pai tinha um cofre, portanto, vou guardá-los lá – respondeu ela, levantando-se. – Sally, vens comigo?

– Sim, claro.

O cofre ficava no quarto dos seus pais e Penny teve de afastar alguns documentos para guardar os diários.

– Importas-te de tirar os outros da gaveta da mesa-de-cabeceira? A da direita.

– Vejo que não mudaste nada no quarto – comentou a sua prima, enquanto abria a gaveta.

– Tu fizeste-o?

– Não, que ideia! Não me atrevo.

– Harriet vai tirar a roupa que estiver boa para a levar à paróquia.

– Ah, parece-me muito bem! Suponho que eu podia fazer o mesmo. Mas custa-me tanto entrar no quarto dos meus pais…

Depois, quando Sally partiu, Penny ficou a olhar para os faróis do carro que desapareciam pela estrada escura, sentindo-se mais só do que nunca.

– Harriet, se vier algum dos trabalhadores, não o deixe entrar. Diga-lhe que tem de esperar até que eu esteja em casa, diga o que disser.

– É claro – respondeu a governanta. – Achas realmente que seriam capazes de vir procurar os diários?

– Não sei, mas é possível. Especialmente, depois do que Jake nos contou. Se acharem que o meu pai sabia alguma coisa pela qual possamos denunciá-los, de certeza que adorariam pôr-lhes as mãos em cima.

– Que horror! Talvez devesse trazer a minha pistola, para o caso de…

– Tem uma pistola? – perguntou Penny, surpreendida.

– Sim, claro! Temos de nos proteger quando vivemos nos subúrbios da vila. O xerife nem sempre consegue chegar a tempo para nos defender. E seria melhor que também tivesses uma à mão.

– O meu pai tinha armas, mas nunca me preocupei em aprender a disparar... Na verdade, nunca tinha tido de me preocupar com nada até agora. Ah, antes que me esqueça, Harriet, importas-te de fazer duas sandes, em vez de uma, para amanhã? Uma para mim e outra para Jake.

– É claro! É um rapaz bonito, hum?

Penny não se incomodou em responder. Sim, Jake era muito bonito, mas também era um mulherengo e ela não estava à procura de romances. Além disso, tinha de aprender a gerir o rancho e pensar nos olhos de Jake Larson só complicaria as coisas.

Jake deu-se conta de que desejava passar outro dia com Penny, o que era alarmante. Sabia que o prazer e o trabalho nunca deviam misturar-se, e, um pouco nervoso, dirigiu-se para os estábulos para selar Apache, antes que Penny chegasse.

Naquele dia, mostrar-se-ia sério, decidiu.

Ela chegou aos estábulos depois de ter selado os dois cavalos.

– Selaste Stormy por mim? Não era preciso.

– Hoje, cheguei cedo.

– Obrigada de qualquer forma. Toma, trouxe-te o almoço.

– Muito amável – murmurou Jake.

– Onde vamos hoje?

– Procurar os trabalhadores para nos certificarmos de que fazem bem o seu trabalho.

– Estão muito longe daqui?

– Não queres ir?

– Estava a pensar se não seria melhor irmos de jipe.

– Não sabia que tinhas um jipe.

– Sim, está na garagem e com o depósito cheio.

– Muito bem, iremos de jipe para darmos um descanso a Stormy.

Deixaram os cavalos nos estábulos e foram até à garagem, onde o seu pai guardava um jipe em perfeitas condições.

– Na verdade, dá-nos muito jeito.

– Sim, certamente. Queres que conduza?

– Não, eu conduzo – respondeu Jake. – Eu sei onde estão os trabalhadores.

– Ah, está bem… – Penny não discutiu, mas teve a impressão de que não a achava capaz de conduzir. Bom, iria mostrar-lhe, pensou. Iria mostrar-lhe que, apesar de ser uma mulher, era capaz de muitas coisas.

Alguns minutos depois, já na estrada, virou-se para ele.

– Jake, posso fazer-te uma pergunta?

Capítulo 4

Jake levantou o pé do acelerador.

– Diz-me.

– Sabes usar uma pistola?

Ele olhou para ela, surpreendido. Não era a pergunta de que estava à espera, mas… O que esperara que lhe perguntasse?

– Sim, Penny. Sei usar uma pistola.

– E podes ensinar-me?

– Porquê?

– Para me proteger.

– Queres ser a nova Calamity Jane?

– Não, que ideia! Harriet disse-me que ela tinha uma pistola porque o xerife não chegaria a tempo se lhe acontecesse alguma coisa e… Não sei, pensei que poderia ter razão.

– Porque é que o teu pai não te ensinou?

Penny suspirou.

– O meu pai não queria que aprendesse nada sobre o rancho… Nada que fosse perigoso. Dizia que eu não devia preocupar-me com essas coisas e, não sei, suponho que não vi necessidade. Mas agora tenho de cuidar de mim.

Jake pensou durante um momento. Para a ensinar a disparar, teria de estar muitas horas a sós com ela. Esse pensamento fazia-o sentir-se um pouco incómodo, mas a ideia de que Penny não estivesse protegida também não lhe agradava.

– Sim, imagino que podia ensinar-te, mas terias de fazer tudo o que eu te dissesse. Não podes disparar quatro tiros contra umas latas e pensar que já sabes disparar.

– Sei que não é assim tão simples. E nem sequer sei se seria capaz de disparar contra alguém. Mas acho que devia aprender.

– Muito bem. Começamos amanhã.

– Amanhã? Eu tinha pensado…

– No ano que vem?

Penny revirou os olhos. Que homem tão áspero!

– Não, amanhã parece-me bem.

– Suponho que terás uma pistola.

– O meu pai tinha várias, mas não sei qual devo usar.

– Amanhã, dou-lhes uma olhadela. Sabes onde guardava as balas?

– Não faço ideia, mas lembro-me de que levava um revólver quando ia aos pastos onde fomos ontem.

– Sim, os homens costumam levar armas porque viram ursos e pumas. De facto, disse-lhes que as levassem todos os dias.

– Porquê?

– Nunca se sabe até onde podem descer os animais quando estão famintos. Choveu pouco este ano e com aquele lago tão perto… Certamente, aqui têm mais fauna do que em qualquer outro rancho da zona.

– Não tinha pensado nisso.

– Essas são as coisas que, supostamente, eu devo ensinar-te.

– Ah, claro!

Jake assinalou duas figuras ao longe.

– Ali estão os trabalhadores.

– O que estão a fazer?

– A arranjar a cerca.

– E estão onde deveriam estar?

– Sim.

Jake carregou no travão para não assustar os cavalos.

– Tudo bem, rapazes?

– Sim, chefe.

Ele despediu-se com a mão, antes de continuar em frente.

– Isso serviu para alguma coisa? – perguntou Penny.

– Claro! É importante que os homens saibam que estão a ser controlados. Caso contrário, alguns não fariam o que têm para fazer.

– E, assim, o teu trabalho é mais fácil?

– Achas que é fácil ser capataz? – perguntou Jake, arqueando um sobrolho.

A sua atitude incomodou Penny. Não gostava que a tratasse como se fosse uma menina.

– O capataz do rancho de Dexter Williams controlava-te?

– Sim, claro, ao princípio. Depois de algum tempo, decidiu que sabia fazer o meu trabalho e tornámo-nos amigos.

– Então, talvez dentro de alguns meses não tenhas de controlar ninguém.

– Não sei. Há alguns trabalhadores em que não se pode confiar.

– Os que agiram de forma estranha ao saberem que tinhas os diários do meu pai? – perguntou-lhe Penny.

– Exactamente. Na verdade, agem de forma estranha desde que cheguei aqui e acho que o teu pai podia ter reparado em alguma coisa.

– E não podemos despedi-los?

– Não, o resto dos trabalhadores não reagiria bem.

Penny cruzou os braços, frustrada.

– Pois, eu acho que terei de os despedir.

Naquele momento, a roda do jipe bateu numa pedra e teve de se apoiar no ombro de Jake.

– Estás bem?

Ela afastou-se imediatamente.

– Claro que estou bem! Achas que sou de porcelana?

– Não, eu não disse isso.

– Vais fazer o que te disse?

– O quê, despedir os trabalhadores?

– Sim. Não os quero no rancho.

– Não posso despedi-los até que me dêem uma razão para o fazer.

– Mas eu sou a proprietária!

– Sim, é verdade, mas contrataste-me não só para gerir o rancho, como também para te ensinar como funciona. E não vou ensinar-te a disparar se não me deres uma boa razão para o fazer.

– E se te disser que é uma ordem?

– Então, terás de procurar outro capataz – respondeu Jake. – E, agora, é melhor que te agarres.

Penny agarrou-se à porta do veículo, zangada. Mas sabia que estava a ser pouco razoável. O seu pai dissera-lhe uma vez que não se despedia ninguém sem se ter uma boa razão para o fazer e Jake estava a dizer o mesmo. Mas ela não queria trabalhadores que não fizessem o seu trabalho ou que roubassem dinheiro. E estava cansada de que a tratassem como uma menina pequena. O seu pai tinha-a tratado assim durante a vida inteira.

Estava zangada com Jake, mas sabia que, se o despedisse, poderia não encontrar outro capataz… pela mesma razão que lhe dava para não despedir os trabalhadores: a gente da vila começaria a dizer que Penny Bradford despedia os seus empregados sem razão alguma.

Quando chegaram ao cimo de uma colina encontraram quatro homens a levar um grupo de vacas para outros pastos, longe das montanhas.

– Como estão as coisas?

– Bem, chefe. Vamos acabar antes do que tínhamos pensado. Estas vacas estão treinadas. Quer que façamos mais alguma coisa?

– Não, não é preciso. Voltem para casa assim que acabarem.

Os homens agradeceram-lhe calorosamente, enquanto Penny olhava para ele pelo canto do olho, perguntando-se se teria planeado aquela cena para demonstrar alguma coisa.

– Suponho que o fizeste para me demonstrares que sabes lidar com os trabalhadores.

Jake franziu o sobrolho.

– Não, que ideia! Contrataste-me para que te ensine a gerir um rancho e é o que estou a fazer. Eu não gosto de jogar, Penny. Se achas que podes fazê-lo melhor, fá-lo, mas, enquanto eu estiver aqui, as coisas serão feitas à minha maneira.

Ela desviou o olhar.

– Desculpa, é que…

– Decidiste despedir-me? Porque, se for assim, eu gostaria de o saber agora.

– Claro que não! Mas tenho o direito de fazer perguntas.

– Bom, vamos comer – respondeu Jake, sem olhar para ela.

Penny pensou em dizer que não tinha vontade de comer só para o incomodar, mas isso seria infantil. De modo que tirou a sua sandes e começou a comer. Jake fez o mesmo, conduzindo com uma mão, até que, finalmente, parou o jipe e virou-se para ela.

– Sim, tens o direito de fazer perguntas, mas perguntas que se refiram ao trabalho. As que se referem à minha personalidade ou ao meu carácter não são apropriadas. Se não achas que consigo fazer o meu trabalho, despede-me e ponto.

– Não duvido que consigas fazer o teu trabalho. Mas deste-lhes tempo livre sem nenhuma razão…

– Estamos a falar de algumas horas. Seria muito difícil que, depois de deixarem as vacas naqueles pastos, conseguissem ir para outra zona e fazer alguma coisa.

– Ah, pois...

– Da próxima vez, dou-lhes mais um pouco de trabalho do que aos outros, é só isso. É assim que se lida com os trabalhadores.

– Está bem, já entendi. Mas não mo tinhas explicado assim.

– Não sabia que tinha de o fazer! – exclamou ele, dando uma dentada violenta na maçã.

Ela fez o mesmo, exasperada. Pedira-lhe que lhe explicasse como se geria um rancho, não fora? Então, porque se zangava por causa de tudo?

O que se passava com aquele homem?

Os três homens de que Jake suspeitava não estavam onde deveriam estar e, quando voltaram para o rancho, Jake pediu a Penny que o esperasse em casa, porque queria falar com o cozinheiro para ver se sabia alguma coisa.

Penny encontrou a governanta na cozinha, a preparar o jantar.

– Apareceu alguém, Harriet?

– Há algumas horas, apareceram três trabalhadores à porta.

– Não me diga?

– Segundo eles, vinham buscar uns livros que tu querias que lessem. Disse-lhes que não me tinhas deixado nada para ninguém e eles perguntaram-me se podiam entrar para irem buscá-los. E eu, naturalmente, disse-lhes que não.

– E partiram?

– Sim, mas só depois de uma… digamos, discussão imaginativa. Disse-lhes que eu era nova aqui e não queria arriscar-me a que me despedisses.

Penny deixou escapar um suspiro.

– Obrigada, Harriet.

Então, ouviram uma pancadinha na porta e as duas mulheres olharam-se. Felizmente, era Jake.

– Boa noite!

– Boa noite, Jake! Quer um café?

– Agradecia-lhe. Ainda não descongelei.

Harriet serviu café aos dois e tirou o avental.

– Se quiserem falar em privado, posso ir para o meu quarto.

– Não é preciso. Tem de contar a Jake o que acabou de me contar – disse Penny.

– O que se passou?

Harriet contou-lhe a visita dos trabalhadores e Jake franziu o sobrolho.

– Que interessante! Ou o cozinheiro me mentiu ou não passaram por casa antes de virem aqui. Mas onde estão agora?

– Não sei, mas vimos os seus cavalos nos estábulos.

– A que horas vieram, Harriet?

– À uma e vinte e cinco, exactamente. Eu sei porque estava a ver o meu programa de televisão favorito. Perdi a última parte para falar com eles. Acha que se foram embora do rancho?

– É possível. Mas, se não partiram, tenho umas quantas perguntas para lhes fazer – Jake bebeu um gole de café.

– Porque não fica para jantar? O jantar já está pronto e há suficiente para os três.

– Não quero incomodar…

Penny sabia que Harriet estava a olhar para ela, esperando que fosse ela a responder.

– Claro que podes ficar. Assim, não parecerá que estás a vigiar alguém. E, quando voltares, talvez esses trabalhadores estejam lá… ou tenham levado as suas coisas.

– Tens a certeza? – perguntou Jake.

Penny encolheu os ombros.

– Claro que tenho a certeza! Sabe-nos bem ter companhia.

Harriet começou imediatamente a pôr pratos e talheres na mesa.

– Isto cheira muito melhor do que o que Sam estava a fazer – Jake sorriu.

– Fiz um bolo de morango para os trabalhadores e outro para nós.

– É muito amável, Harriet. O bolo de maçã estava óptimo.

– Sim, sinto-me muito orgulhosa dos meus dotes de confeiteira.

– Jake, se esses homens se foram embora, conseguiremos contratar outros? – perguntou Penny.

– Não é nada fácil encontrar bons trabalhadores – afirmou ele.

– O que fazemos, pomos um cartaz à entrada do rancho?

– Não, está um anúncio na mercearia. Na da tua prima.

– Ah, claro! Tinha-me esquecido.

– Mas não é uma boa altura para arranjar trabalhadores. A maioria deles já tem trabalho para o Inverno todo. E, no Natal, as pessoas não se mexem muito.

– Não, claro… Oh, não!

– O que foi?

– Estamos em Dezembro. Temos de arranjar uma árvore de Natal para a festa da vila. Fazemo-la todos os anos. Como pude esquecer-me?

– Não sabia que a árvore era deste rancho, mas vi-a no ano passado. Era muito bonita – disse Jake, sorrindo.

– Temos de arranjar uma árvore e mandá-la para a Junta de Freguesia o quanto antes, para que possam decorá-la. Só temos uma semana para encontrar o pinheiro perfeito.

– Que trabalhadores costumam encarregar-se disso?

Penny pestanejou rapidamente para controlar as lágrimas.

– Não o fazem os trabalhadores. O meu pai e eu costumávamos ir procurá-lo juntos. Depois, ele levava alguns trabalhadores para o cortarem.

– E como sabiam que árvore tinham escolhido? São todas mais ou menos iguais.

– Atávamos uma fita vermelha enorme ao tronco para que pudessem encontrá-la depois. Jake, temos de ir procurá-la amanhã mesmo – disse Penny, com ansiedade.

– Não, amanhã não acho que possam ir – Harriet sentou-se à mesa com eles.

– Porquê?

– Porque amanhã vai haver uma tempestade de neve. Disseram-no na rádio. Vá, vamos comer antes que o jantar arrefeça.

Penny abençoou a mesa como os seus pais a tinham ensinado a fazer e depois ajudou Harriet a servir os pratos.

– Disseram se a tempestade vai durar muito? – perguntou Jake.

– O meteorologista disse que, certamente, acabaria de madrugada.

– Os trabalhadores trabalham ao sábado? – perguntou Penny.

– Claro! O sábado é um dia de trabalho como outro qualquer – respondeu ele.

Ah... Pois, ela não considerava o sábado um dia de trabalho. Evidentemente, ainda tinha muito para aprender.

– Quando o teu pai era vivo, metade dos trabalhadores trabalhava ao sábado e a outra metade, ao domingo. Mas, se o tempo estiver mau, terão de trabalhar seja em que dia for. Além disso, será necessário partir o gelo que se formar no reservatório e ter sempre o gado controlado. Não acho que haja nenhuma vaca prenhe nesta época do ano, mas pedirei que verifiquem todas as manadas.

– A que horas começamos?

– Os trabalhadores e eu sairemos assim que seja possível, mas não acho que tu devas ir connosco.

Penny levantou o queixo, orgulhosa.

– O meu pai ia sempre com os trabalhadores, nevasse ou não, e eu penso fazer o mesmo. Nunca ficava em casa por causa de uma tempestade. Além disso, se faltarem esses três trabalhadores, precisarás de gente.

– Nós desenvencilhamo-nos.

– Sem mim, não.

– Já estiveste no campo no meio de uma tempestade de neve?

– Posso agasalhar-me, como toda a gente.

– Gelarás e queixar-te-ás constantemente.

Penny fulminou o seu capataz com o olhar.

– Não digas tolices! Queixei-me até agora?

– Não, mas isso não significa que não vás queixar-te amanhã. Fará um frio terrível.

– Bom, é melhor que comam bem antes que faça esse frio tão horrível! – interrompeu-os Harriet.

– Sim, é verdade – Jake sorriu.

Penny não pensava deixar que levasse a dele avante. Ia fazer o seu trabalho como proprietária do rancho e ele ia ensiná-la. Além disso, não tinha o direito de a tratar como se tivesse três anos. Era uma adulta! Ele também estava a tentar protegê-la, mas tinha de lhe demonstrar que conseguia fazer o que tinha de fazer.

Depois de jantar, Jake levantou-se para levar o seu prato para o lava-loiça.

– Não tem de fazer isso! – protestou Harriet.

– A minha mãe insistia para que todos levássemos os pratos para o lava-loiça.

– Pois, educou-o muito bem – a governanta sorriu.

Penny também levou o seu prato para o lava-loiça e depois voltou para a mesa, para recolher os copos e os talheres. Jake tentou ajudá-la, mas ela abanou a cabeça.

– Posso fazê-lo sozinha.

– Não posso ajudar-te?

– Aceito a tua ajuda se tu aceitares a minha amanhã.

– Penny, amanhã fará muito frio e não é preciso que…

– Sou a proprietária deste rancho e o meu pai ia sempre com os homens – interrompeu-o ela, com brusquidão.

Jake respirou fundo, tentando ter paciência.

– Ser teimosa nem sempre é bom. Se calhar, isso é a primeira coisa que deves aprender.

Depois, desejou-lhes boa noite e desapareceu.

– Será possível? – perguntou Penny, furiosa.

– Eu acho que tem razão – pensou Harriet.

– Harriet!

– Devias ficar em casa amanhã. Que o teu pai fizesse todas essas coisas não significa que tu tenhas de as fazer também. Ele tinha muita experiência. Além disso, gelarás o suficiente quando saíres para procurares a árvore de Natal.

Penny deixou-se cair na cadeira.

– Sim, bom… É possível que tenha razão. Não posso aprender tudo de uma vez e estou tão cansada... Se calhar, Jake tem razão. Ai, tínhamos combinado que amanhã me ensinaria a disparar, mas receio que isso também tenha de esperar.

– Fico contente por finalmente teres decidido proteger-te.

– Devia ter mostrado as pistolas do meu pai a Jake.

Harriet esboçou um leve sorriso.

– De certeza que voltará. Aquele homem gosta muito de uma boa refeição.

– Sim, claro que sim – assentiu Penny, pensativa.

Por uma vez, o meteorologista não se enganara.

E Jake também não se enganara ao pensar que os três trabalhadores teriam feito as malas. Sam, o cozinheiro, admitiu que tinham voltado antes dos outros, mas tinham prometido dar-lhe uma sova se dissesse alguma coisa.

– Não faz mal, homem. Tenho a certeza de que se foram embora para sempre.

De manhã, Jake organizou o resto dos homens. Tinham de dar de comer a três manadas diferentes, partir o gelo do reservatório e verificar se havia algum animal em perigo. Eram oito, contando com ele. Jake dividiu os trabalhadores em dois grupos de três e ficou com Dusty, o melhor de todos.

Mas depois de tomar o pequeno-almoço, avisou-os para que se agasalhassem o máximo possível.

– Vai fazer muito frio. Quando acabarem as vossas tarefas, voltem para aqui; Sam terá café quente.

Todos estavam bem agasalhados quando uma pancada na porta os parou.

Jake sabia quem era e não queria abrir a porta, mas sabia que também não podia deixá-la ali.

Capítulo 5

Penny estava a sorrir, mas o sorriso desapareceu quando viu a expressão séria do seu capataz.

– O que estás a fazer aqui? – perguntou-lhe Jake.

– Eu disse-te que queria ajudar. Não tens homens suficientes para movimentar três manadas.

– Quero que voltes para tua casa.

– Não vou fazê-lo. Agasalhei-me bem.

– Não.

– Sim.

– Chefe, eu acho que seria mais fácil fazer o trabalho se fôssemos três – assinalou Dusty. – Ela podia conduzir a carrinha, enquanto nós damos de comer à manada.

Todos ficaram à espera da resposta de Jake, que, finalmente, se virou para Penny.

– Sabes conduzir uma carrinha?

– Claro!

– Muito bem, vamos – Jake suspirou, abotoando o casaco. – Levamos a minha carrinha – disse depois, dando-lhe as chaves. – É a azul, está estacionada lá fora.

– Queres que eu conduza? – perguntou ela, surpreendida.

– Sim, leva-a para o celeiro. Vamos carregar alguns fardos de palha.

Uma vez feita a tarefa, Dusty e ele entraram na cabina.

– Vamos! – ordenou, desligando o aquecimento.

– Não tens frio?

– Claro que sim, mas vamos ter de sair daqui a alguns minutos e lá fora fará ainda mais frio. É mais fácil habituarmo-nos se não estivermos a suar.

– Ah, desculpa! Não tinha pensado nisso.

– Não te preocupes.

Permaneceram em silêncio durante o resto do caminho e, quando chegaram aos pastos, encontraram uma manada a dirigir-se para sul, de costas para a tempestade. Os homens saltaram para a parte traseira da carrinha e começaram a cortar as cordas que seguravam os fardos de palha, enquanto Penny conduzia muito devagar para que pudessem distribuir a palha. Quando só restavam alguns fardos, Dusty saltou da carrinha e correu para o reservatório com um machado na mão para partir o gelo que se formara.

Quando acabou de distribuir a palha, Jake voltou para a cabina.

– Vamos buscar Dusty.

Penny carregou no acelerador e, em alguns minutos, chegaram ao depósito.

– Já acabámos? – perguntou o peão.

– Sim, entra. Liguei o aquecimento.

Ela olhou para ele, surpreendida.

– Agora, podemos ligá-lo – Jake sorriu.

E Penny teve de sorrir também.

Quando voltaram para o rancho, Penny sentia-se orgulhosa de si mesma. Tinha tido as suas dúvidas, mas, afinal, a sua presença fora necessária. No entanto, quando saiu da carrinha, Jake agarrou-a pelo braço para a levar para casa.

– O que estás a fazer? Posso ir sozinha.

– Não, eu acompanho-te. E, quando chegarmos lá, vamos ter uma conversa.

O que se passava com aquele homem? Tinha-o ajudado. Porque não lhe agradecia?

Uma vez em casa, Jake largou o seu braço, enquanto ela abria a porta.

– Contrataste-me para que seja o chefe dos trabalhadores, portanto, espero que não me contradigas diante deles – disse-lhe, enquanto entravam na cozinha.

– Mas…

– Nunca me respeitarão se continuares a fazer isto.

– Em que século vives? Eu sou a proprietária deste rancho e sê-lo-ei sempre. Discuti contigo porque estavas errado.

– Então, lamento, mas não posso ser o teu capataz – replicou Jake, virando-se.

Mas, antes de sair, Harriet pôs-lhe uma chávena de café na mão.

– Não saia sem beber qualquer coisa quente.

– Não posso…

– Claro que pode! – interrompeu-o a governanta. – Penny, aqui tens o teu café. E eu acho que deviam ter uma discussão racional antes que ele perca um trabalho de que gosta e tu, um bom capataz.

Penny e Jake abriram a boca para protestar, mas depois fizeram o que ela dizia e os dois sentaram-se à mesa. Harriet, entretanto, tirou do forno um tabuleiro de biscoitos acabados de fazer.

– Ah, você sabe como fazer com que uma pessoa se sinta bem! – murmurou Jake.

– Obrigada, Harriet – murmurou Penny.

Sabia que tinha razão. Perder um bom capataz por causa de uma discussão tola seria totalmente absurdo.

– Está bem. Peço desculpa por te ter contrariado diante dos homens, mas não devias ter-me deixado de fora. É o meu rancho e preciso de aprender a geri-lo.

– Não devias ter discutido comigo diante dos homens, mas vamos esquecê-lo – Jake suspirou. – Quanto a ires connosco hoje, eu só estava a tentar proteger-te. Acho que era o que o teu pai teria querido.

– O meu pai passou a vida a proteger-me, mas já não está aqui. E tenho de aprender a sobreviver.

Tinha lágrimas nos olhos e Jake teve de fazer um esforço para não a abraçar.

– Tens razão. Não devia dizer-te o que tens de fazer. O rancho é teu. Além disso, portaste-te muito bem. Tentarei ensinar-te… sem pensar que és uma rapariga – disse, finalmente, apertando a sua mão. – Desculpa, a sério!

– Obrigada – sussurrou Penny.

Sentia uma pontada no estômago e, quando olhou para ele nos olhos, um desejo desconhecido fê-la largar-lhe a mão e levantar-se de um salto para sair da cozinha.

Harriet deu uma palmadinha no ombro de Jake.

– Está tudo bem, é que se lembra dos seus pais.

– Parece tão jovem… Não é fácil aceitar que consiga gerir um rancho.

– É mais forte do que parece.

– Sim, enfim, obrigado por ajudar – Jake sorriu.

– Fico contente por ter podido fazer alguma coisa.

– Estes biscoitos ajudaram muito.

Quando voltou para a casa dos trabalhadores, todos os homens estavam sentados à volta da lareira a beber café e Jake pigarreou.

– Foi um erro da minha parte tentar que Penny não fosse connosco hoje. Esqueci-me de que está a tentar aprender a gerir um rancho como o fazia o seu pai.

Os seus homens tentaram consolá-lo, comentando como era difícil gerir um rancho, tanto para um homem como para uma mulher.

– Mas têm de recordar que ela é a proprietária.

– Sim, mas dá pena ver uma rapariga tão jovem sob a neve – disse um deles.

– Dê pena ou não, Penny é a proprietária e todos devemos recordá-lo – Jake suspirou, recordando como lhe tinha parecido bonita enquanto apertava a sua mão na cozinha.

No domingo de manhã, Penny arranjou-se para ir à igreja com Harriet e só quando saíam de casa lhe ocorreu que os trabalhadores estariam a fazer o mesmo trabalho do dia anterior.

– Nem penses! – exclamou Harriet. – Que se desenvencilhem sozinhos por um dia.

– Mas, Harriet, o meu pai…

– Eu sei, mas eu acho que te faria bem ir um pouco à igreja. Trabalhaste muito esta semana.

– Enfim, talvez tenha razão. Além disso, Sally está à minha espera lá.

– Se calhar, quererá vir almoçar connosco.

Mas Sally tinha muito trabalho pendente na loja, porque estavam na época natalícia.

– Não te esqueceste da árvore, pois não?

– Não, claro que não! Jake vai ajudar-me a escolhê-la – Penny despediu-se da sua prima e voltou a correr para o carro.

Acabavam de chegar a casa quando ouviram uma pancada na porta. Era Jake. Era tão alto e tão forte que Penny sentiu novamente aquela pontada.

– Olá, Jake! Entra.

– Pensei que podíamos ir escolher aquele pinheiro de que precisas.

– Mas ainda não almocei. Podes esperar meia hora?

– Sim, claro! Volto mais tarde.

– Porque não almoça connosco? – interveio Harriet.

– Não, eu…

De repente, desesperada por estar ao seu lado mais alguns minutos, Penny agarrou-lhe no braço.

– Vá, fica! Há comida para os três.

Jake hesitou, ainda a perguntar-se o que tinha acontecido entre eles na noite anterior. Mas a comida de Harriet era demasiado tentadora.

– Está bem.

– É melhor tirar o casaco – disse a governanta.

– Na verdade, acabei de comer uma sopa…

– Então, pode beber um café – apesar disso, Harriet pôs três pratos na mesa e Jake decidiu que já que estava ali…

– Vamos no jipe?

– Sim, acho que é o melhor com este tempo – respondeu Jake.

– Era assim que o meu pai e eu o fazíamos – Penny teve de fazer um esforço para controlar as lágrimas.

– És uma rapariga muito forte – disse Harriet.

Penny sorriu. A governanta estava a ocupar o lugar do seu pai e da sua mãe. Fora uma grande sorte encontrá-la.

– Em que zona encontraram a árvore no ano passado?

– Íamos sempre para os pastos do norte. Para oeste, há um bosque com uns pinheiros lindos.

– Muito bem – Jake deixou o guardanapo na mesa. – Vamos?

– Sim. Espera, tenho de me agasalhar… Talvez não o encontremos imediatamente.

– Este tem bom aspecto – disse Jake. Andavam quase há uma hora à procura de árvores, depois de uma viagem gelada no jipe, e desejava voltar para o seu quarto.

– Não, tem o tronco torcido – Penny continuou a olhar à sua volta.

– Vá lá, tenho os pés gelados!

– A árvore tem de ser… Aquela ali! Já a encontrei.

– Onde?

– Aquela, a mais alta – Penny tirou um lenço vermelho do bolso. – Vamos atá-lo ao tronco – disse, entrando de um salto no jipe.

– Onde vamos? – perguntou ele, confuso.

– Escolher a minha árvore.

Quando chegaram, Penny deu algumas voltas à volta da árvore.

– Sim, é perfeita!

Jake alegrava-se por ter encontrado a árvore que Penny queria e não só por os seus pés estarem congelados. Ela parecia tão feliz que finalmente entendeu porque era tão importante para ela e isso fê-lo experimentar uma sensação estranha no peito. Mas deixou de pensar nisso porque não queria saber o que significava.

– Onde ato o lenço para que o encontrem facilmente quando vierem cortá-la?

– Queres que eu o faça?

– Não. O meu pai sempre… Este era o meu trabalho – Penny colocou-se em bicos de pés para atar o lenço a um ramo alto. – Já está! Assim, conseguirão vê-lo sem problemas.

– Tu não vens connosco?

– Não, sim… Sim, bom, devia vir convosco, claro!

– Então, de certeza que o encontramos.

Os dois ficaram um momento a olhar para o pinheiro magnífico. Nenhum disse nada e, finalmente, Penny deixou escapar um suspiro alegre.

– Tens razão, Jake. Conseguiria encontrar esta árvore até de olhos fechados.

Na segunda-feira de manhã, a temperatura tinha aumentado consideravelmente e a neve começava a derreter. Jake já estava nos estábulos às sete horas, mas ainda não tinha selado os cavalos.

– Hoje, vou ensinar-te a disparar.

– Ah, sim?

– Sim, hoje teremos a primeira aula. Mas tens de me mostrar as pistolas do teu pai.

Penny suspirou.

– Talvez fosse melhor esperar um pouco. Antes, tenho de aprender a gerir um rancho.

– Os homens sabem o que têm de fazer e eu confio neles. Portanto, está na altura de começar as aulas de tiro, não te parece?

– Sim, bom…

Penny não estava tão entusiasmada como antes. Além disso, os trabalhadores que tinham enganado o seu pai tinham-se ido embora do rancho e talvez não precisasse de aprender. Mas não podia dizer a Jake que tinha mudado de ideias, porque certamente pensaria que era uma parva.

As armas do seu pai estavam guardadas no aparador da sala. Jake deu uma olhadela e escolheu um revólver.

– Queres começar com um revólver? Não seria melhor uma pistola?

– Não, um revólver é mais fácil de usar. Vamos.

Alguns minutos depois, estavam atrás da casa, em terreno aberto. Jake tinha posto um cartão sobre o ramo de uma árvore e, depois de a ensinar a carregar o revólver, estava a explicar-lhe como apontar.

Penny segurou a arma como lhe tinha ensinado… mas apontando directamente para ele. Jake afastou a arma com uma palmada.

– Cuidado! O que queres, matar-me? – perguntou ele.

– Claro que não! Porque dizes isso?

– Porque acabaste de me apontar o revólver!

– Mas eu só queria perguntar-te…

– Regra número um: nunca se aponta uma arma a ninguém a menos que se queira disparar.

– Acabou-se! – Penny, furiosa, largou o revólver e dirigiu-se para casa. A aula tinha acabado.

– Pode saber-se o que estás a fazer? Volta aqui.

– Para quê? Eu não queria magoar-te e tu sabe-lo perfeitamente.

Jake deu um passo em frente.

– Peço desculpa por ter gritado contigo, mas isto não é uma brincadeira e há regras que não podemos esquecer. Não se aponta um revólver a ninguém.

– Olha, esquece! Já não estou interessada em aprender.

– Mas tens de o fazer.

– Está bem – resmungou.

– Levanta a arma e aponta para o alvo. Põe o dedo no gatilho. Quando disparares, o revólver irá para trás, portanto, segura-o bem. Vá, aperta o gatilho!

Penny fê-lo, mas não acertou no alvo.

– Porque não acertei? Fiz tudo o que tu me disseste.

– Não seguraste o revólver com força.

– Como não?

– Olha – Jake passou-lhe um braço sobre os ombros para pôr a mão direita sobre a sua. – Tenta outra vez.

Penny sentia a sua respiração no pescoço e sentiu um calafrio, mas apertou novamente o gatilho… e, dessa vez, acertou no alvo.

– Vês? – perguntou Jake, afastando-se. – Acertaste.

Ela não conseguia responder. Estava demasiado surpreendida com a excitação do contacto.

– Queres ir ver?

– Não… Acho que devíamos tentar novamente.

– Devias tentá-lo, sem mim. Vá, fá-lo!

Penny levantou o revólver e tentou segurá-lo com força.

– Acertaste! – exclamou Jake, orgulhoso.

– Tens a certeza?

– Claro que tenho a certeza. Muito bem!

– Obrigada.

– Tenta outra vez. Mas agora aponta para a parte de cima do cartão, onde é mais fino.

Penny levou o revólver à cara, agarrou-o com força e apertou o gatilho. Mas, dessa vez, não acertou.

– Tenta outra vez. Não foi muito longe.

Decidida, tentou novamente.

– Incrível! Acertaste! Tens jeito para disparar.

Jake passou-lhe um braço pelos ombros e, novamente, Penny desejou que não se mexesse, que a abraçasse durante mais tempo. Mas, um segundo depois, Jake afastou-se.

– Agora, vamos…

– Estou farta de disparar. Não podemos deixá-lo por hoje?

– Mas ainda tens muito para aprender…

– É mais fácil quando tu me ajudas.

Jake ficou calado um momento.

– Posso ajudar-te outra vez… se for o que queres.

– Sim, acho que é melhor – Penny engoliu em seco e, quando lhe passou um braço pelos ombros, susteve o fôlego enquanto se inclinava um pouco para trás.

– Estás a prestar atenção, não estás? – perguntou Jake, com voz mais rouca do que o habitual.

– Sim, estou a prestar atenção.

– Muito bem, aponta para o lado direito do cartão.

Fê-lo e inclusive ela ficou contente ao ver que não falhava.

– Acertei!

– Sim, é verdade – Jake sorriu. – Mas, a partir de agora, tens de o fazer sozinha.

O entusiasmo desapareceu.

– Mas…

– Mas tens de o fazer sozinha.

Penny corou. Não queria admitir que o que lhe agradava naquelas aulas era que Jake lhe tocasse. Isso não fazia parte do acordo. Tinha-lhe pedido que a ensinasse a disparar como achava que o seu pai o teria feito, mas Jake não era o seu pai. E ao lado dele sentia-se mais segura do que alguma vez se sentira.

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