Kitabı oku: «Desatinos do coração»

Editado por Harlequin Ibérica.
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© 2020 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Desatinos do coração, n.º 1842 - dezembro 2020
Título original: The Greek’s Secret Son
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.:978-84-1348-989-6
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Epílogo
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Capítulo 1
Ameaçava uma chuvinha fina. As nuvens baixas abatiam-se sobre o cemitério da igreja da vila e Christine sentiu o ar invernal frio e húmido enquanto estava ao lado de campa acabada de cavar. A dor atravessou-a por causa do homem amável que a salvara quando o homem que mais desejava desaparecera. Contudo, agora, Vasilis Kyrgiakis morrera. O coração acabara por falhar, como era de esperar. Tornando-a viúva.
A palavra atravessou-lhe a mente enquanto estava ali de pé, sozinha e com a cabeça encurvada. Todos tinham sido muito amáveis com ela porque Vasilis era muito amado, embora se sentisse muito consciente dos comentários que circulavam porque era muito mais jovem do que o marido de meia-idade. Contudo, desde que a família mais importante da vizinhança, os Barcourt, aceitara o vizinho nascido na Grécia e a esposa jovem, os outros também o tinham feito.
Christine fora completamente leal ao marido por agradecimento, até nos últimos momentos, e sentira que os olhos se enchiam de lágrimas quando o padre falara de compromisso e tinham posto o caixão na campa.
Christine enjoou-se um pouco e levantou a cabeça para recuperar o equilíbrio. Tinha o olhar desfocado, mas ficou paralisada ao ver, ao longe, um carro parado junto do veículo fúnebre em que tinham trazido o marido. E, ao lado, havia uma figura alta e imóvel, um homem que conhecia muito bem. Um homem que não via há cinco longos anos.
O último homem que quereria voltar a ver.
Anatole observava, muito quieto, a cena que tinha lugar no cemitério da igreja. Um sem-fim de emoções percorria-o por dentro, mas tinha o olhar fixo na figura esbelta, delicada e vestida de preto que estava parada ao lado do sacerdote na campa aberta do seu tio. Um tio que se recusara a ver desde a loucura absurda do seu casamento.
Sentiu uma pontada de raiva. Por si próprio e pela mulher que enganara o tio para que se casasse com ela. Ainda não sabia como conseguira, mas acontecera por culpa dele. Não percebera a ambição que gerava nela. Uma ambição que fizera com que tentasse caçá-lo primeiro e, ao ver que não conseguia, se virasse para o desventurado tio, um alvo fácil.
A mulher sentiu-se consciente da sua presença e observou-o. A sua expressão denotava um choque absoluto. E, então, com um movimento abrupto, Anatole virou-se, entrou no carro e saiu dali, acelerando pelo caminho rural tranquilo.
A emoção voltou a apoderar-se dele, devolvendo-o ao passado.
Há cinco longos anos…
Anatole tamborilou com os dedos no tabliê com um ar frustrado. Estava preso num engarrafamento na hora ponta de Londres, mas isso não era a única coisa que o deixava de mau humor. Era a perspetiva da noite que o esperava. Com Romola. Os olhos pretos como a obsidiana de Anatole mostravam fúria. Via-o como um possível marido e era exatamente o que não queria. O casamento era a última coisa que procurava.
O olhar toldou-se um pouco ao pensar na confusão de vida que os pais tinham. Ambos se tinham casado muitas vezes e ele nascera apenas sete meses depois do seu casamento, o que provava que ambos tinham sido infiéis aos seus parceiros anteriores. Também tinham sido infiéis um ao outro e a mãe fora-se embora quando Anatole tinha onze anos.
Ambos estavam atualmente casados novamente. Deixara de se importar e de contar as vezes. Sabia, desde o começo, que dar uma família estável ao seu único filho não era importante para eles. Agora que já estava na vintena, parecia que o seu único propósito era encher as arcas dos Kyrgiakis para financiar o seu estilo luxuoso de vida e os seus divórcios caros.
Anatole estudara Gestão numa boa universidade, tinha um mestrado numa das escolas de negócios mais importantes do mundo e contava com um cérebro privilegiado para os negócios, portanto, podia levar a cabo aquela tarefa com bastante facilidade e sabia que ele também beneficiaria disso. Trabalhar arduamente, viver arduamente, esse era o seu lema… e manter-se afastado dos laços tóxicos do casamento.
Franziu o sobrolho ao pensar novamente em Romola. Pensava que, por ser uma profissional da Bolsa, não teria a ambição de se casar com ele, mas, no fim, descobrira que era tal como todas as outras: Queria tornar-se a esposa de Anatole Kyrgiakis.
Que desespero. Uma dúzia de veículos mais à frente, viu como o semáforo ficava verde. Um instante depois, os carros começaram a mexer-se e Anatole carregou no acelerador.
E, naquele instante, uma mulher apareceu à frente do carro.
Tia tinha os olhos cheios de lágrimas. Estivera com o idoso senhor Rodgers até ao fim da sua longa doença e falecera naquela manhã. A sua morte recordara-lhe o falecimento da própria mãe há menos de dois anos. Agora, enquanto arrastava a mala velha, soube que tinha de chegar à agência antes de fechar. Precisava que a atribuíssem a um novo paciente, porque, como era cuidadora interna, não tinha casa própria. Tinha de atravessar a rua para chegar à agência e, como a passadeira era longe, decidiu fazê-lo entre o trânsito, que se mexia muito devagar.
Levantou a mala pesada, seguindo um impulso repentino, e saiu da calçada…
Com uma velocidade de reação que não sabia que tinha, Anatole carregou no travão e tocou a buzina. Contudo, apesar da sua rapidez, ouviu o impacto de algo sólido a bater contra o carro. Viu a mulher a cair à frente dele. Disse um palavrão, ligou os piscas e saiu com um nó no estômago. Na rua, havia uma mulher de joelhos, segurando uma mala que tinha ficado por baixo do para-choques. A mala abrira-se e havia roupa por todo o lado.
A mulher levantou a cabeça e olhou fixamente para Anatole. Aparentemente, não se apercebia do perigo que correra.
– Em que raios estavas a pensar? – queixou-se ele, com fúria. – Como podes ter atravessado assim?
A mulher parou de olhar fixamente para ele e começou a chorar. A raiva de Anatole desapareceu imediatamente e baixou-se ao seu lado.
– Estás bem? – Parecia claro que não, porque a mulher continuou a soluçar.
Anatole ajudou-a a levantar-se e agarrou na roupa caída, pondo-a na mala. Depois, segurou-lhe o braço.
– Vamos para a calçada – disse.
Ela começou a endireitar-se. Levantou a cabeça. As lágrimas caíam pelas faces e não parava de soluçar. Mas Anatole não prestava atenção a isso. Quando se levantou, o seu cérebro registou duas coisas: A mulher era muito mais jovem do que achara ao princípio e, embora estivesse a chorar, era impressionantemente bonita. Era loira, com o rosto em forma de coração, olhos azuis, boca cor-de-rosa…
Sentiu-se como se um elevador descesse no seu interior e, depois, subisse, ganhando forma e mudando tudo. A sua expressão mudou.
– Estás bem – declarou, num tom de voz amável. – Quase te atropelei, mas não te aconteceu nada.
– Lamento muito! – Ela soluçou.
– Não faz mal. – Anatole abanou a cabeça. – Não há danos. Exceto a tua mala.
Quando a mulher se apercebeu do estado da mala, fez uma careta. Tomando uma decisão repentina, Anatole pôs a mala no porta-bagagem do seu carro e abriu a porta do passageiro.
– Vamos, entra. Eu levo-te! – ordenou, consciente de que os carros de trás não paravam de buzinar com impaciência.
Pô-la no carro, apesar dos seus protestos. Depois, sentou-se ao volante e pôs-se a caminho, questionando-se distraidamente se teria tido tanto trabalho no caso de a pessoa que passara à frente do carro não ser uma loira impressionante….
– Diz-me, onde vamos?
– Eh… – A jovem olhou através do para-brisas com um ar ausente. – Para aquele lado da rua.
Tia continuava sem parar de chorar, mas, agora, havia mais qualquer coisa que a ocupava. Era incapaz de desviar o olhar do homem que tinha ao lado. Engoliu em seco.
Tinha o cabelo preto como o azeviche e o rosto parecia esculpido. Os olhos pareciam chocolate escuro, maçãs do rosto altas… Tia sentia um nó no estômago e não sabia para onde olhar, mas queria continuar a fazê-lo, porque parecia tirado de um sonho. Era o homem mais incrível que alguma vez vira.
Algo que também não tinha muito mérito, já que passara os seus anos de adolescente a cuidar da mãe e, agora, cuidava de idosos e doentes. Nunca tivera oportunidade nem tempo para aventuras românticas, namorados ou diversão. Os seus únicos romances eram os que aconteciam na sua mente, tecidos com o tempo passado a olhar pelas janelas, sentada à cabeceira de camas e a tratar de todas as tarefas de uma cuidadora interna.
Contudo, agora, naquele preciso instante, estava com um homem que parecia saído das suas fantasias românticas. Era tudo o que sonhara. Tia engoliu em seco.
– Estás melhor? – perguntou ele, esboçando um sorriso.
Tia assentiu e, de repente, sentiu-se consciente de que, embora o homem parecesse saído de um dos seus sonhos tórridos, aquilo não era o que procurava, mas exatamente o contrário.
Sentiu-se dolorosamente consciente do aspeto que devia ter para ele com os olhos vermelhos, o nariz congestionado, as lágrimas a cair pelas faces, o cabelo despenteado e sem maquilhagem. Além disso, usava umas calças de ganga velhas e uma camisola larga. Que desastre.
Quando o semáforo ficou verde, Anatole virou pela rua lateral que lhe indicara.
– Agora, por onde? – Passou-lhe pela mente que desejava que fosse mais longe. Porém, desprezou aquele pensamento. Apanhar mulheres na rua, nesse caso literalmente, não era uma boa ideia. Mas, enquanto a levava ao seu destino, bem podia falar com ela. – Lamento que estejas tão compungida, mas espero que tenhas aprendido que não podes atravessar a rua assim.
– Lamento muito – repetiu ela, num tom rouco. – E também lamento estar a chorar assim. Não é culpa tua. Bom, um pouco… Quando gritaste…
– Foi o choque – explicou Anatole, olhando para ela de soslaio. – Tinha medo de te ter matado. Não era a minha intenção fazer-te chorar.
Ela abanou a cabeça.
– Não chorava por isso, mas pelo pobre senhor Rodgers – corrigiu ela, precipitadamente. – Morreu esta manhã. Eu estava lá, tomava conta dele. Era idoso, mas de todas as formas… foi muito triste. Fez-me pensar em quando a minha mãe morreu…
A jovem interrompeu-se bruscamente e Anatole ouviu o seu soluço contido.
– Lamento – disse, pensando que era a única coisa que podia dizer. – Morreu recentemente?
– Não, foi há quase dois anos. Tinha esclerose múltipla desde que me lembro e, quando o meu pai morreu, eu tomei conta dela. Foi por isso que comecei a tomar conta de idosos. Tinha experiência e também não podia fazer muito mais. Além disso, precisava de um emprego como interna porque ainda não tenho casa própria…
Parou novamente, dolorosamente consciente de que estava a contar todas aquelas coisas pessoais a um perfeito desconhecido. Engoliu em seco.
– Agora, vou à agência para conseguir um emprego novo, algo que comece hoje. Aí está! – exclamou, quase a gritar.
Apontou para um edifício sem nenhum encanto e Anatole parou à frente. A jovem saiu do carro e tentou abrir a porta. Não conseguiu. Ele saiu e viu que estava fechada.
– E agora? – Ouviu-se dizer, num tom seco.
Tia virou-se para olhar para ele e tentou disfarçar a angústia.
– Ah, encontrarei uma hospedaria barata para passar a noite. Certamente, há alguma perto e posso ir a pé.
Anatole duvidava bastante… sobretudo, com a mala estragada.
Pousou o olhar nela. Parecia perdida e indefesa. E muito, muito bonita. Tal como antes, tomou uma decisão repentina. A sua voz interior dizia-lhe que estava louco, que se comportava como um idiota, mas ignorou-a. E sorriu.
– Tenho uma ideia muito melhor – afirmou. – Olha, não consegues mexer essa mala nem um metro e muito menos arrastá-la até chegar a uma hospedaria barata imaginária em Londres. Portanto, esta é a minha proposta: Porque não passas a noite no meu apartamento? Eu não vou estar lá – acrescentou, imediatamente, ao ver o pânico refletido nos seus olhos azuis. – Estarás à vontade e, de manhã, podes comprar uma mala nova e ir à agência. O que te parece? – E sorriu.
A jovem olhava para ele como se não acreditasse no que estava a ouvir.
– Tens a certeza? – Havia um certo receio no seu tom, mas o pânico desaparecera.
– Caso contrário, não to ofereceria – indicou ele.
– Isto é incrivelmente amável da tua parte – disse ela, desviando o olhar. – Estou a dar-te muito trabalho.
– Claro que não. Então, aceitas?
Anatole voltou a sorrir, dessa vez, com o sorriso que usava para que as pessoas fizessem o que ele queria. Daquela vez, também funcionou. Ela assentiu tremulamente.
Recusando-se a prestar atenção à voz que lhe dizia que estava louco por fazer semelhante proposta a uma perfeita desconhecida, Anatole ajudou-a a entrar outra vez no carro e dirigiu-se para Mayfair, onde era o seu apartamento.
Olhou para ela. Estava sentada, muito direita e com as mãos no colo, e olhava para a frente, não para ele. Parecia não acreditar que aquilo estava realmente a acontecer. Portanto, deu o passo seguinte para o tornar real para ela e também para ele próprio.
– Talvez devêssemos apresentar-nos. Sou o Anatole Kyrgiakis.
Era estranho dizer o seu próprio nome porque, normalmente, não tinha de o fazer e, quando o fazia, esperava que reconhecessem o seu apelido imediatamente. Contudo, daquela vez, não houve reação.
– Tia Saunders – respondeu ela, com timidez.
– Olá, Tia – disse Anatole, em voz baixa e com um sorriso.
Viu um rubor nas suas faces, mas voltou a concentrar-se no trânsito. Deixá-la-ia um pouco em paz para que relaxasse um pouco, mas, sem dúvida, continuava a estar tensa quando parou o carro à frente da mansão elegante de estilo georgiano e, depois, a guiou para o interior, carregando a mala estragada. Quando entraram no seu apartamento, que ocupava as águas-furtadas, Tia susteve a respiração.
– Não posso ficar aqui! – exclamou, num tom de surpresa. – De certeza que vou estragar alguma coisa!
Tia observou o sofá branco, comprido e coberto de almofadas de seda e o tapete grosso e cinzento que condizia com as cortinas das janelas amplas. Parecia algo saído de um filme.
– Simplesmente, não entornes café em cima de nada. – Anatole riu-se. – E falando de café… Mataria por uma chávena. E tu?
Tia assentiu.
– Sim… obrigada – balbuciou.
– Ainda bem. Vou ligar a máquina. Mas, primeiro, deixa-me mostrar-te o teu quarto. E porque não tomas um duche para te refrescares? A julgar pelo que me contaste, deves ter tido uma noite má.
Anatole agarrou novamente na mala dela e decidiu que pediria ao gerente do edifício para lhe trazem uma nova. Arrastou-a para um dos quartos de convidados.
Tia continuou a olhar à volta, maravilhada, como se nunca tivesse visto algo parecido. E, certamente, era assim, pensou Anatole. Sentiu uma pontada de satisfação fora do comum. Era um sentimento agradável poder dar àquela rapariga que, sem dúvida, não lidara bem com a morte dos pais e com aquele trabalho mal pago, uma experiência breve do luxo. Queria que desfrutasse.
Anatole deixou a mala no chão, que voltou a abrir-se e a espalhar todo o seu conteúdo, e apontou para a casa de banho incorporada no quarto. Depois, deixou-a com outro sorriso e dirigiu-se para a cozinha.
Cinco minutos mais tarde, o café estava a fazer e ele estava sentado no sofá a examinar as mensagens de correio eletrónico e a tentar por todos os meios fazer com que a sua mente não divagasse para a convidada inesperada que estava a tomar um duche…
Questionou-se se os seus encantos se prolongariam para além do rosto bonito. Suspeitava que sim. Era esbelta, isso via-se claramente, mas não magra. Não. Embora usasse roupa barata e pouco favorecedora, vira os montículos suaves dos seios por baixo. E era baixa, bastante mais do que as mulheres com quem costumava sair.
Talvez se devesse ao facto de ele medir um metro e oitenta e seis ou a estar habituado a mulheres seguras de si próprias que estavam à sua altura em muitos sentidos e avançavam pelo mundo conscientes do seu valor e dos seus atributos.
Mulheres como Romola.
A expressão dele mudou. Antes de Tia se precipitar para a frente do carro, tomara a decisão de afastar Romola da sua vida. Então, porque não haveria de o fazer naquele mesmo instante? Podia enviar-lhe uma mensagem e dizer-lhe que, afinal, não podia encontrar-se com ela naquela noite, que surgira um imprevisto e que não sabia quando voltaria a passar por Londres. E que talvez devessem aceitar que o seu tempo juntos chegara ao fim… Com uma crueldade que era fácil de exercitar quando se via como alvo de uma mulher que queria mais do que ele estava disposto a dar, mandou-lhe uma mensagem e amorteceu o golpe com o envio de uma pulseira de diamantes como presente de despedida. E, depois, com uma sensação de alívio, voltou a concentrar-se naquela noite.
Um sorriso começou a aparecer-lhe nos lábios e os seus olhos suavizaram-se um pouco. Já brincara ao príncipe e à mendiga ao convidar Tia a ficar no seu apartamento. Então, porque não haveria de lhe dar o pacote completo e de lhe oferecer uma noite que sempre recordaria? Champanhe, um bom jantar… A experiência total!
Tinha a certeza de que era algo que nunca vivera na sua vida desfavorecida.
É claro, não lhe ofereceria mais nada. Ele nem sequer ficaria lá. Passaria a noite no Hotel Mayfair, onde o pai tinha sempre uma suíte reservada. É claro que o faria.
Qualquer outra coisa estava fora de questão… por muito bonita que fosse.
Capítulo 2
Tia estava num estado de felicidade completa enquanto a água quente lhe caía pelo corpo, formando espuma com o champô e o gel que encontrara no cesto de produtos de banho de aspeto muito caro na cómoda da casa de banho. Nunca desfrutara de um duche tão delicioso.
Quando saiu com o cabelo tapado por uma toalha e outra toalha à redor do corpo, sentiu-se renascida. Ainda não tivera tempo para se focar no que estava a acontecer porque tudo lhe parecia como um conto de fadas. Um príncipe que a deixava com falta de ar trouxera-a para ali.
Era incrivelmente bonito. E muito amável. Podia tê-la deixado perfeitamente na calçada com a mala estragada e ter-se afastado sem se preocupar.
Mas não o fizera: Levara-a para casa. E como podia dizer que não? Em toda a sua vida confinada e aborrecida, dedicada ao cuidado da sua pobre mãe e de outros, quando acontecera uma coisa dessas, exceto nas suas fantasias?
Tia ergueu o queixo e olhou-se ao espelho com decisão. Não sabia o que estava a acontecer, mas ia desfrutar do momento.
Virou-se e tirou a toalha da cabeça, deixando que o cabelo húmido caísse livre. Depois, procurou desesperadamente entre a roupa para encontrar alguma coisa que fosse melhor do que umas calças de ganga velhas e uma camisola larga. É claro que não tinha nada nem remotamente adequado, mas, pelo menos, melhoraria um pouco. Talvez não conseguisse parecer uma princesa de conto de fadas, mas esforçar-se-ia ao máximo.
Quando regressou àquela sala antiga e palaciana, dirigiu diretamente o olhar para a figura que parecia relaxada no sofá. Meu Deus, não podia ser mais bonito.
Tirara o casaco do fato formal e afrouxara a gravata. Desabotoara o colarinho da camisa e os botões de punho.
Levantou-se.
– Já estás aqui. – E sorriu. – Senta-te e desfruta do teu café.
Anatole apontou com a cabeça para o lugar onde pusera um prato de bolos que tirara do congelador e, depois, descongelara no micro-ondas. Agora, cheiravam deliciosamente.
– Estás a dieta ou posso tentar-te? – perguntou, num tom amável.
Anatole observou como corava novamente. Talvez não devesse ter usado a palavra «tentar». E, se Tia corava porque se sentia tentada, sem dúvida, ele também. E por uma boa razão…
Mudara de roupa e, embora continuasse a ser roupa barata, melhorara muito. Vestira uma saia vaporosa de algodão com desenhos índios e uma t-shirt azul-turquesa que mostrava muito melhor a sua figura do que a camisola larga que tinha antes. E lavara o cabelo, que lhe caía solto e frisado por cima dos ombros. Já não tinha os olhos vermelhos e deixara de parecer uma menina abandonada.
Sentou-se no sofá e as mãos tremeram ligeiramente quando agarrou na chávena de café que Anatole lhe servira, murmurando um agradecimento.
Bebeu-o depressa com a esperança de que lhe acalmasse os nervos agitados e os olhos dirigiram-se outra vez para Anatole. Ao olhar para ele, percebeu que também a observava com um sorriso desenhado nos lábios. Era um sorriso que lhe causou um arrepio.
– Come um bolo – convidou, aproximando o prato.
O cheiro a canela atingiu-a, recordando-lhe que não tivera oportunidade de comer durante o dia. Agarrou num com muito cuidado, aterrorizada com a ideia de deixar cair migalhas no tapete.
Anatole deslizou o olhar pelo seu rosto bonito em forma de coração, os olhos tão azuis, a curva delicada das sobrancelhas e o cabelo frisado.
Era linda. Olhar para ela deixava-o com falta de ar. Consultou o relógio. Eram quase sete. Podiam beber uma taça de champanhe no terraço, mas seria melhor encomendar o jantar primeiro.
Agarrou no computador e procurou a página que usava sempre para encomendar o jantar. Depois, virou o ecrã para Tia.
– Dá uma olhadela e diz-me o que queres jantar – pediu. – Vou encomendar.
Ela abanou a cabeça imediatamente.
– Ah, não, para mim não, obrigada. Estes bolos chegam-me.
– Bom, para mim, não – redarguiu Anatole, num tom amável. – Vá lá, dá uma olhadela. De que tipo de comida gostas? E não me digas que gostas de piza, chinesa ou indiana. Estou a falar de comida gourmet.
Tia olhou para as opções da página com os olhos esbugalhados. Não entendia a maioria.
– Queres que escolha por ti? – perguntou Anatole, ao perceber o seu dilema.
Ela assentiu, agradecida. Ambos se tinham inclinado para a frente para ver o ecrã e Anatole sentiu o cheiro fresco do corpo dela. A única coisa que tinha de fazer para tocar nela era levantar a mão e deslizá-la por aqueles caracóis, passar os dedos pela nuca e puxar a boca suave para a sua…
Endireitou-se bruscamente e entreteve-se a fazer o pedido. Depois, fechou o computador. Chegara o momento de ir buscar o champanhe.
Voltou uns instantes mais tarde com uma garrafa e duas taças na mão. Aproximou-se de uma porta de vidro e abriu-a.
– Vem ver a vista – convidou.
Tia levantou-se e seguiu-o para o terraço que era percorrido por uma balaustrada de pedra. Ainda estava confusa. Ia mesmo jantar com ela? Beber champanhe com ela? O coração acelerava só de pensar nisso.
Quando saiu, sentiu-se aconchegada pelo ar quente da noite. O sol ainda não se escondera por trás das copas das árvores do parque que havia mais à frente. O terraço era um pequeno oásis de plantas frondosas em vasos enormes de pedra.
– Oh, isto é lindo! – exclamou, com naturalidade. O rosto iluminou-se.
Anatole sorriu e sentiu uma pontada de prazer ao vê-la tão contente. Deixou as taças de champanhe numa mesinha de ferro ladeada por duas cadeiras.
– Um refúgio ajardinado – disse. – As cidades não são os meus lugares favoritos, portanto, quando me vejo obrigado a estar nelas, gosto de estar em sítios o mais verdes possível. Essa é uma das razões por que gosto das águas-furtadas: Têm terraços.
Anatole abriu a garrafa de champanhe e, depois, passou-lhe uma das taças vazias.
– Mantém-na ligeiramente inclinada – pediu, enquanto a enchia até meio. Depois, fez o mesmo com a dele e olhou para Tia. Era muito bela e, por alguma razão, isso despertou nele um instinto de proteção.
Algo bastante estranho nele. Não costumava acontecer-lhe com as mulheres.
– Yammas – brindou, levantando a taça. – Significa «saúde» em grego.
– Ah, portanto, és grego! Sabia que devias ser estrangeiro pelo apelido, mas não sabia que… – Ficou corada. Teria parecido uma mal-educada? Londres era incrivelmente multicultural. Não havia razão para dizer que era estrangeiro – Lamento. Não queria dizer…
– Sim, sou estrangeiro – confirmou ele, num tom cordial. – A minha nacionalidade é grega. Mas trabalho muito em Londres porque é um centro financeiro muito importante. Vivo na Grécia. Conheces? Talvez de algumas férias? – E sorriu, queria que Tia voltasse a sentir-se confortável.
Tia abanou a cabeça.
– Passávamos o verão em Espanha quando eu era pequena – disse, desviando o olhar. – Quando o meu pai ainda era vivo e a minha mãe não estava doente.
– É bom ter boas lembranças da infância, sobretudo, das férias familiares – murmurou Anatole.
Mas ele não as tinha. As férias escolares do internato suíço exclusivo em que vivia desde os sete anos eram passadas em casa de amigos ou na mansão enorme dos Kyrgiakis em Atenas com a única companhia dos empregados. Os pais estavam demasiado ocupados com as suas próprias vidas.
Quando chegara à adolescência, passara algumas semanas com o tio, o irmão mais velho do seu pai. Vasilis nunca mostrara nenhum interesse pelos negócios ou pelas finanças. Era um erudito que adorava perder-se em bibliotecas e museus. Usava o dinheiro dos Kyrgiakis para financiar investigações arqueológicas e projetos artísticos. Desaprovava a conduta imoral do irmão no amor, mas nunca o criticava abertamente. Era um solteiro empedernido e Anatole achava que era amável, mas distante. Com o tempo, começara a valorizar a sua sensatez.
– Bom, à tua primeira viagem à Grécia. De certeza que irás algum dia – replicou, voltando ao momento e brindando suavemente com Tia.
Bebeu um gole pequeno enquanto olhava para o homem que tinha à frente e que a apanhara na rua para a levar para o seu apartamento lindo e beber champanhe… pela primeira vez na sua vida.
Custava-lhe acreditar que aquilo estava realmente a acontecer. Talvez aquele único gole de champanhe a tivesse tornado ousada, porque disse precipitadamente:
– É incrivelmente amável da tua parte!
«Amável?» Aquela palavra não condizia com Anatole. O que estava a fazer era deixar-se levar pelo que lhe apetecia fazer. Voltou a levantar a taça. Naquele momento, não se importava. Tinha a atenção fixa naquela mulher linda tão jovem, tão fresca e tão cativante na sua naturalidade. Não estava a pôr em prática nenhuma artimanha para o atrair, não lhe fazia olhinhos nem pedia nada dele.
Anatole sorriu e a expressão suavizou-se.
– Bebe um pouco mais – indicou. – Temos a garrafa toda. – Bebeu um gole da taça e encorajou-a a fazer o mesmo.
Tia bebeu enquanto olhava para a vista maravilhosa.
– E diz-me – pediu Anatole, enchendo as taças –, o que queres fazer na vida? Sei que tomar conta de idosos é importante, mas suponho que não queiras fazê-lo para sempre, pois não?
Ao fazer aquela pergunta, apercebeu-se de nunca conhecera alguém do seu estrato social. Todas as mulheres com quem lidava eram profissionais de alto perfil ou filhas do papá com dinheiro. Espécies completamente diferentes daquela jovem que tinha um trabalho triste e árduo.
Tia mordeu o lábio inferior, sentindo-se um pouco incomodada.
– Bom, passava muito tempo fora da escola porque tinha de cuidar da minha mãe e nunca passava nos exames, portanto, não pude ir para a universidade. E, embora esteja a tentar poupar, ainda não consigo comprar uma casa própria.
– Não tens família que te ajude? – Anatole franziu o sobrolho.
Ela abanou a cabeça.
– Vivia com o meu pai e a minha mãe.
Tia olhou para ele. Bebera quase uma taça inteira de champanhe e sentia-se atrevida. Talvez aquilo fosse um sonho, mas ia desfrutar até ao fim.
– E tu? – perguntou. – As famílias gregas costumam ser numerosas, não é?
Anatole sorriu sem vontade.
– A minha, não – declarou. – Eu também sou filho único. – Olhou para a taça de champanhe. – Os meus pais divorciaram-se e estão casados com outras pessoas agora. Não os vejo muito.
Porque não queria. Nem eles. A única reunião fixa da família Kyrgiakis era a reunião anual de acionistas. Era quando se encontravam: Ele, os pais, o tio e algum primo afastado.
– Ena, é uma pena – murmurou ela, com simpatia.
Sentiu um calafrio desagradável. Não gostava de pensar que os homens de fantasia como aquele podiam ter famílias disfuncionais como as pessoas normais. Vivendo em lugares tão magníficos como aquele e bebendo champanhe, não poderiam ter os mesmos problemas do que as pessoas normais.
– Não é para tanto. – Anatole voltou a sorrir. – Estou habituado.
Interrogou-se distraidamente porque estavam a falar da sua família. Nunca falava do assunto com as mulheres. Consultou o relógio. Deviam entrar. O jantar chegaria em breve e Anatole não queria pensar na sua família nem em nada que o incomodasse. Até Vasilis, por muito amável que fosse, vivia no seu próprio mundo, feliz com os seus livros e as suas atividades filantrópicas no mundo das artes.
Deixou a convidada entrar primeiro. Começava a escurecer e acendeu as luzes do terraço, iluminando as plantas verdes com uma luz ténue.
– Que bonito! – exclamou Tia. – Parece uma paisagem de contos de fadas.
Sentiu-se imediatamente muito infantil por ter dito aquilo, embora fosse verdade, mas Anatole riu-se. O telefone fixo tocou para anunciar que o jantar estava a caminho e, cinco minutos mais tarde, estavam ambos sentados a comer o primeiro prato, uma terrina delicada de peixe branco.
– Isto está delicioso – garantiu ela, com o rosto iluminado, enquanto comia.
Disse o mesmo sobre o frango banhado em molho com batatas douradas e feijões verdes. Uma receita simples, mas maravilhosamente bem cozinhada.
– Come – encorajou-a Anatole, com um sorriso indulgente, enquanto lhe servia mais champanhe.
Recordou-se que devia ter cuidado e não lhe dar mais do que devia.
E ele também não devia abusar. Ainda tinha de chegar ao hotel para passar a noite. Mas esse momento ainda não chegara e continuaria a desfrutar de cada instante da sua noite em comum.
Uma sensação de bem-estar apoderou-se dele. Manteve deliberadamente o tom da conversa informal, sendo quase sempre a falar, para tentar que Tia se sentisse o mais relaxada e confortável possível.
– Se alguma vez fosses à Grécia de férias, o que gostarias de fazer? Torrar na praia ao sol? Ou preferes fazer turismo? Podem fazer-se as duas coisas, tanto em terra firme como nas ilhas. E, se gostas de história antiga, não há melhor lugar no mundo do que a Grécia, na minha opinião.
– Não sei nada sobre história antiga – confessou ela, corando ligeiramente.
Sentiu-se incomodada quando lhe recordou a sua falta de cultura. Não queria que a realidade se misturasse com aquele conto de fadas maravilhoso que estava a viver.
– Certamente, ouviste falar do Pártenon – declarou ele. – É o templo mais famoso do mundo e é na Acrópole de Atenas.
– Sim, vi fotografias – disse Tia, contente por reconhecer aquilo.
Anatole sorriu e começou a dar-lhe informação sobre aquele lugar e outros sítios de interesse turístico da sua terra natal.
Quando estavam a comer a sobremesa, Anatole abriu uma garrafa de vinho doce. Pareceu-lhe que seria mais agradável do que um copo de Porto. E Tia desfrutou.
Anatole levantou-se quando acabou a sobremesa. Deixara o café a fazer quando fora buscar o vinho doce e, naquele momento, foi buscá-lo e deixou-o na mesinha situada ao lado do sofá.
– Vem sentar-te – convidou, estendendo a mão.
Tia levantou-se e, de repente, apercebeu-se de que estava um pouco enjoada. Quanto champanhe bebera, interrogou-se. Sentia-se como se lhe corresse pelas veias, como se estivesse a flutuar numa brisa de felicidade. Mas não se importava. Nunca mais voltaria a viver uma noite assim, como saída de um conto de fadas.
Suspirou, satisfeita, e deixou-se cair no sofá com o copo de vinho na mão.
Anatole sentou-se ao seu lado.
– É hora de relaxar – disse, num tom cordial, ligando a televisão com um comando à distância.
Pôs os pés em cima da mesa e deixou a gravata nas costas do sofá. Queria estar completamente confortável. A mistura do champanhe e do vinho doce percorria-lhe suavemente as veias. Esperava que tivesse o mesmo efeito em Tia e lhe permitisse desfrutar do resto da noite com ele, antes de ir para o hotel.
Questionou-se, com indolência, se deveria ligar para lhes dizer que ia, mas decidiu não o fazer. O que fez foi ir mudando de canal até encontrar um que levou a convidada a exclamar:
– Oh, adoro este filme!
Era uma comédia romântica aceitável e Anatole não se importou de o ver. Contente por ver como Tia se sentava por cima dos pés descalços no sofá e se recostava contra as almofadas.
Enquanto voltava a encher-lhe o copo, Anatole questionou-se em que momento se aproximara dela. Em que momento esticara e fletira as pernas e também os braços de modo a que, agora, um deles descansasse nas costas do sofá e lhe tocasse no ombro com os dedos?
Em que momento começara a brincar distraidamente com os seus caracóis suaves ao redor da nuca?
Em que momento decidira que não tinha vontade de ir a lado nenhum naquela noite?
A precaução e os sinais de alarme da sua mente caíram em ouvidos moucos.
O filme chegou ao seu fim sentimental com o protagonista a pegar na rapariga ao colo e a beijá-la enquanto se ouvia a música e apareciam os créditos. Tia deixou escapar um suspiro profundo de satisfação, deixou o copo já vazio na mesa e virou-se para olhar para Anatole.
Sentia-se embargada por uma emoção que se misturava com o champanhe, o vinho doce delicioso e a comida maravilhosa, a melhor que alguma vez comera. E tudo enfeitado com velas, música suave e um príncipe encantado a fazer-lhe companhia.
O filme era um dos seus favoritos. Vira-o muitas vezes, mas vê-lo naquele momento ali, com aquele homem tão bonito ao seu lado, era tão real… não era uma fantasia nem um conto de fadas, era real. Nunca estivera tão perto de um homem antes e muito menos de um homem assim, um homem capaz de tornar os contos de fadas realidade.
E Tia sabia como os contos de fadas acabavam: Com o herói a beijar a protagonista.
Sentiu-se invadida pela emoção e a esperança. Os olhos brilhavam como estrelas quando levantou o olhar para o rosto bonito daquele homem que representava tudo o que desejara na vida. O homem que, agora, a observava com os seus olhos pretos e brilhantes e aquela boca tão sensual…
Tia sentiu falta de ar.
Anatole observou a beleza do seu rosto, como os montículos doces dos seios se apertavam contra a t-shirt de algodão, como entreabria os lábios… e soube exatamente o que queria.
Ficou quieto durante um bom bocado enquanto um milhão de pensamentos contraditórios batalhava na sua mente para decidir o que devia fazer a seguir. O que tinha de fazer contra o que queria fazer.
Mas conteve-se, porque sabia que não devia fazer o que tanto desejava. Deveria afastar-se de Tia, levantar-se e aumentar a distância entre eles. Porque, se não o fizesse naquele momento…
Ela levantou a mão quase a tremer e deslizou os dedos com delicadeza pelo queixo dele com um toque etéreo, como se não conseguisse acreditar no que estava a fazer. Pronunciou o seu nome. Os seus olhos eram dois lagos de desejo. Tinha os lábios entreabertos e os olhos semicerrados. À espera… dele.
E Anatole não pôde mais. Perdeu os poucos vestígios de consciência que lhe restavam e inclinou-se para ela. A mão que tinha atrás da cabeça agarrou-lhe suavemente a nuca, a outra deslizou pela face antes de lhe segurar a cara. Tia tinha os olhos esbugalhados e brilhavam como faróis, impulsionando-o a fazer o que ela mostrava com tanta clareza que queria que fizesse.
Anatole fechou os olhos quando a sua boca tocou na boca suave e aveludada, saboreando o vinho doce nos seus lábios e o calor da sua boca quando a entregou. Ouviu-a a emitir um gemido gutural suave e sentiu como o seu próprio coração acelerava.
Era tão suave que Anatole intensificou o beijo automaticamente, de forma instintiva, deslizando a mão pela curva do ombro e virando-a para ele, puxando-a para que Tia apoiasse a mão no muro duro do seu peito e uma perna contra a dele.
Ouviu-a a gemer novamente e aquilo acentuou a sua excitação. Anatole pronunciou o seu nome, disse-lhe como era doce e deliciosa. Se o disse em grego, não se apercebeu. Não se apercebeu de nada, exceto que tinha uma mulher que desejava entre os braços.
E que o desejava.
Porque era isso que o corpo terno e esbelto lhe dizia, o que os seus mamilos excitados mostravam. Sem saber como, Anatole acariciou-os com a mão.
Sem se aperceber do que fazia, Tia rodeou-lhe a cintura com o braço. Pôs-lhe as costas no colo e continuou a beijá-la com uma mão no seu seio até ela gemer, com os olhos fechados e uma expressão de felicidade no rosto que tinha de estar cego para não ver.
Com indolência, deslizou a mão do seio de Tia pelas costas até chegar à coxa. Lá, afastou o tecido fino de algodão até encontrar a pele nua por baixo. Acariciou-a até a ouvir a gemer novamente. Sentiu a coxa contra a dele e também sentiu a excitação do seu próprio corpo.
O desejo apoderou-se dele. Um desejo forte e impossível de resistir.
Mas devia resistir. Aquilo estava a ir demasiado depressa e era demasiado intenso. Estava a permitir que o desejo avassalador que sentia por ela o arrastasse e devia voltar atrás.
Afastou-a, com o coração acelerado.
– Tia… – Tinha um tom emocionado e levantou a mão como se quisesse contê-la também.
Viu como uma sombra de angústia atravessava o seu rosto e recebeu-o como um golpe.
– Não… não me desejas? – Havia tristeza na sua voz, que se expressou num sussurro sossegado.
Anatole resmungou.
– Isto não está bem, Tia. Não posso aproveitar-me de ti desta forma.
– Não estás a aproveitar-te! – exclamou ela, imediatamente. – Por favor, não me digas que não me desejas. Não conseguiria suportá-lo!
Anatole segurou-lhe o rosto.
– Desejo-te muito, Tia. Mas…
«Mas, neste apartamento, há mais de um quarto e, esta noite, temos de estar em quartos separados… É assim que deve ser. Porque qualquer outra coisa seria… seria…»
O rosto de Tia reacendeu-se como um farol.
– Por favor – suplicou. – Esta noite contigo foi incrível. Algo maravilhoso. E o que está a acontecer agora… é diferente de tudo o que experimentei na minha vida. Não te pareces com ninguém que tenha conhecido. E isto é… é…
Tia apontou para a divisão, suavemente iluminada, para a garrafa de champanhe vazia e para o brilho das luzes do terraço.
– Nada disto voltará a acontecer-me. – Mordeu o lábio inferior, que tremia. – Quero que aconteça. Por favor – voltou a suplicar. – Por favor, não me rejeites.
E, mais uma vez, Anatole sentiu-se perdido.
Incapaz de resistir ao que não queria resistir, puxou-a e baixou a cabeça para voltar a saborear a doçura de mel da boca dela, que se abriu imediatamente para ele.
«Ela quer isto. Quer tanto como eu. E embora tenhamos acabado de nos conhecer, o desejo que sinto por ela é avassalador. Tal como o dela, por mim. E devido a isso…»
Devido a isso, Anatole levantou-se, deslizou-lhe uma mão por baixo dos joelhos e pegou nela ao colo. E não a levou para o quarto de hóspedes, mas para o principal, onde afastou a colcha para a depositar suavemente nos lençóis frescos. Observava-o com as pupilas dilatadas, os lábios cheios e os seios apertados contra a t-shirt de algodão.
Queria tirar-lha. Queria deixá-la sem roupa e que não houvesse barreiras entre ele e aquela mulher linda que desejava tanto.
Capítulo 3
Tia levantou o olhar para aquele homem tão insuportavelmente bonito. A mente dava voltas. Tinha o corpo em chamas e sentia-se possuída por uma sensualidade aveludada. Levantou os braços para Anatole, como se rogasse que voltasse a abraçá-la e a acariciá-la.
Estava a tirar a roupa e Tia sentiu que os olhos se esbugalhavam quando a camisa revelou os contornos suaves e musculados do seu peito. E, depois, levou os dedos ao cinto e tirou-o…
Ela deixou escapar um grito abafado e virou a cabeça na almofada. De repente, sentia-se muito tímida. Nunca sonhara que um homem assim poderia passar pela sua vida e, de repente, era tudo demasiado real.
Então, sentiu que o colchão cedia sob o peso de Anatole, que se deitou ao seu lado. Ouviu-o a murmurar-lhe palavras doces, sedutoras e irresistíveis… e, então, segurou-lhe o rosto para o virar na sua direção. Estava muito perto dela e, nos seus olhos, havia uma luz que nunca vira em nenhum homem antes.
Não queria parar aquilo. Queria que acontecesse, desejava-o com todo o seu ser. Aquele desejo surgira do nada, tal como tudo naquele encontro com aquele homem maravilhoso.
Tia fechou os olhos e sentiu a sua boca a deslizar pela dele como a pena de um cisne. Sentiu como lhe deslizava as mãos pela cintura e lhe subia a t-shirt para lha tirar pela cabeça, parando apenas por um instante para lhe dar um beijo suave. Sentiu as mãos de Anatole, fortes e quentes, nas costas, desabotoando-lhe o sutiã e atirando-o para algum lado. E de repente… de repente, estava a tirar-lhe as cuecas pelas coxas trémulas.
Anatole endireitou-se por um instante e acariciou-lhe o cabelo dourado que estava espalhado na almofada.
– És linda – murmurou, olhando fixamente para ela. – Incrivelmente linda.
Tia não pôde dizer nada, só pôde olhar para cima e ouvir a sua mente a repetir aquelas palavras… Ele era lindo, com o seu cabelo escuro, as maçãs do rosto esculpidas e aqueles olhos em que podia perder-se. O corpo era duro e esbelto e as mãos de Tia acariciavam-no com vontade própria.
Acariciou cada linha, cada um dos seus músculos trabalhados. Anatole pareceu tremer com o seu contacto e sentiu como os músculos ficavam tensos, como se estivesse a fazer-lhe algo insuportável. E, depois, a sua boca voltou a descer, faminta.
Tia também estava faminta, com uma fome tão instintiva e avassaladora como a sua necessidade de ser abraçada e beijada por aquele homem tão sedutor. Anatole estava a fazer com que o sangue lhe corresse pelas veias, embargando-lhe os sentidos e transformando-a numa chama viva. Nunca imaginara que o desejo podia ser assim.
E desejava Anatole. Agarrou-se a ele sem saber o que fazia, só que era o que tinha de fazer. Arqueou o corpo contra o dele e abriu as coxas. Ouviu-se a dizer qualquer coisa, mas perdera a coerência.
Anatole parou por um instante e afastou-se dela. Foi insuportável não sentir o seu corpo forte e quente no dela. E, depois, com uma onda de alívio, voltou a senti-lo a beijá-la, com mãos urgentes e todos os músculos do seu corpo em tensão. Sentiu o seu corpo a entrar no dela, sentiu como mexia as ancas, sentiu…
Dor! Uma dor repentina e aguda.
Deixou escapar um grito e ficou quieta. Anatole também. Olhou para ela com uma expressão de choque absoluto.
Afastou-se e a dor desapareceu. Tia levantou a cabeça e tentou cegamente voltar a beijá-lo. Mas Anatole continuava afastado.
– Não sabia… Não percebi…
Ela só conseguia olhar para ele. Sentia-se devastada.
– Não me desejas? – Aquilo era a única coisa que tinha na cabeça. A dor da rejeição.
– Tia, não sabia que esta seria a tua primeira vez…
Agarrou-lhe os ombros nus.
– Quero que seja! Quero que seja contigo. Por favor…
Anatole estava em conflito. Ardia de desejo por ela e, no entanto… Mas Tia estava a apertar o corpo contra o dele, esmagando-lhe os seios no peito. Esfregava as ancas contra as suas num convite ancestral de mulher para homem, para possuir e ser possuída.
– Por favor – sussurrou ela, num tom implorante. – Desejo isto… Desejo-te.
Tia deslizou-lhe a mão pela nuca e baixou-lhe a cabeça. Procurou a boca e experimentou uma sensação de alívio ao sentir os seus lábios. Com um gemido de impotência, Anatole abandonou o seu conflito interno e deixou-se levar pelo que tanto desejava… fazê-la dele.
Era de manhã. As cortinas, que estavam sem correr, deixavam entrar a luz da alvorada. Tia jazia a dormir e feliz nos braços de Anatole. Não houvera mais dor e ele fora tão delicado como se Tia fosse de porcelana, embora a sensibilidade suave do seu corpo proclamasse agora que era feita de carne e osso.
Tia tinha a cabeça apoiada no braço esticado de Anatole e sorria. Percorreu-lhe o rosto com os seus olhos escuros enquanto lhe acariciava as madeixas suaves de cabelo com a mão livre. Também sorria. Era um sorriso de intimidade, de carinho.
Tia sentia-se perdida numa bruma de felicidade tão grande que mal se atrevia a acreditar que aquilo realmente acontecera.
– Tens de voltar ao trabalho? – perguntou Anatole.
Ela franziu levemente o sobrolho, não entendia a pergunta.
– A agência voltará a abrir às nove – disse.
Anatole abanou a cabeça.
– Quero saber se tens de começar num emprego novo. Já foste escolhida para cuidar de mais alguém? – Ele voltou a acariciar-lhe o cabelo. – Não quero que vás. Tenho de ir a Atenas esta semana. Vem comigo.
«Vem comigo.» As palavras ecoaram-lhe na cabeça. Estava completamente certo do que dizia. Queria que Tia ficasse com ele.
– Falas a sério? – perguntou ela, observando-o com os olhos esbugalhados.
– Claro.
A sombra de confusão, de medo de ter entendido mal, desapareceu do rosto de Tia.
– Sim, sim, sim! – exclamou, emocionada.
Anatole riu-se. Não temera que lhe dissesse que não. Porque haveria de o fazer? A noite que tinham passado juntos fora maravilhosa para Tia e ele sabia. E sabia que levara o seu corpo inexperiente a um êxtase que a surpreendera por causa da sua intensidade.
E se queria uma prova disso no momento atual… Bom, aí a tinha. Olhava para ele de um modo que o fazia sentir calor por todo o corpo. Voltou a tocar nos seus lábios com os dele e sentiu como o desejo, que estava ensonado, mas ainda presente, voltava a ganhar vida. Beijou-a mais apaixonadamente com toques sensuais e subtis para despertar uma resposta nela. Teria de ser muito cuidadoso e ter em conta as mudanças drásticas no seu corpo depois do primeiro encontro.
Sentiu as pontas dos dedos de Tia no corpo, a explorar… a atrever-se… a alimentar a sua excitação com cada carícia…
Deixando escapar um suspiro de satisfação profunda, começou a fazer amor com ela.
Decorreram vários dias antes de irem a Atenas. Dias em que Tia teve a certeza absoluta de que se transportara para um país de fantasia.
Como podia estar noutro lugar? Fora transportada para lá pelo homem mais bonito, maravilhoso e fantástico que podia imaginar. Um homem que lançara um feitiço sobre a sua vida.
Naquela primeira manhã, depois de Anatole ter feito amor com ela outra vez, tomaram o pequeno-almoço no terraço com o sol da manhã a iluminá-los.
Depois, levara-a a uma das lojas mais famosas do mundo, de onde saíra várias horas mais tarde com numerosos sacos de roupa de marca e um corte de cabelo novo, com muito mais estilo. Foi maquilhada por um perito e, quando Anatole a viu, sorriu com triunfo.
Sabia que estaria fantástica com a roupa e o estilo adequados.
Observou-a com aprovação e viu como Tia corava de prazer. Viu o brilho dos seus olhos.
Estava a fazer o correto.
Aquela certeza embargou-o. Aquela criatura linda que salvara da rua era perfeita para ele. E levá-la a Atenas seria apenas o primeiro passo.
Conseguira-lhe um passaporte e, agora, viajavam para Atenas em primeira classe.
Tia passou o voo sentada ao seu lado e num estado de felicidade estupefacta, a beber da taça de champanhe e a olhar pela janela com um ar de espanto, como se não conseguisse acreditar que aquilo estava realmente a acontecer-lhe.
Em Atenas, esperava um carro com motorista para os levar ao apartamento. Anatole preferiu não usar a mansão Kyrgiakis, preferia o seu próprio apartamento palaciano com uma vista impressionante da Acrópole.
– Não te disse que algum dia verias o Pártenon? – perguntou, com um sorriso, apontando para as ruínas famosas, visíveis por todo o lado. – Perdeu grande parte do seu esplendor porque os turcos o usaram como armazém de pólvora e explodiu. – Torceu o nariz. – Mas, agora, tentam conservá-lo o melhor possível.
– Turcos? – perguntou Tia.
– Chegaram da Turquia atual e conquistaram a Grécia no século XV. Demorámos quatrocentos anos a tornar-nos independentes – explicou Anatole.
Tia observou-o, insegura.
– Foi o Alexandre Magno? – perguntou, com cautela. Conhecia o nome daquele personagem grego famoso.
– Não, isso foi dois mil anos antes. O Alexandre Magno é anterior à época romana. A Grécia só conseguiu a independência na Idade Moderna, no século XIX. – Deu-lhe uma palmadinha na mão. – Não te preocupes. A história da Grécia é muito comprida. Vais acabar por ficar com uma ideia. Vou levar-te a visitar o Pártenon enquanto estivermos aqui.
Contudo, no fim, não o fez, porque, depois de resolver os assuntos de negócios, alugou um iate e levou-a a fazer cruzeiro pelo mar Egeu.
– Tem helicóptero! – exclamou Tia, com a boca aberta, quando o viu. – E piscina!
– E outra coberta, para o caso de chover. – Anatole sorriu. – Poderemos tomar banho nus nas duas.
Tia corou e pareceu-lhe adorável. Tudo nela era adorável. Ainda que, depois de quinze dias juntos, já não fosse a virgem ingénua da primeira noite, continuava a ser deliciosamente tímida.
No entanto, não o suficiente para se recusar a tomar banho nua à luz das estrelas com ele, nem a fazer amor na água até gritar de prazer.
Percorreram o Egeu durante dez dias, parando em ilhas pequenas onde saíam para comer nos restaurantes do porto ou fazer um piquenique por baixo das oliveiras com o barulho das cigarras de fundo.
Prazeres simples… e Anatole interrogou-se quando fora a última vez que se sentira tão bem com uma mulher. Certamente, não com alguma que apreciasse as coisas como Tia.
Adorava todos os planos que faziam juntos. Tudo a entusiasmava, quer fosse navegar com o iate pelas águas azuis até uma baía pequena de uma ilha, tomar banho nas ondas depois de fazer amor, ou, como naquele dia, beber um Kir Royal enquanto viam o entardecer num bar do porto e, depois, voltar a bordo para desfrutar de um jantar gourmet de cinco pratos servido na coberta superior.
Tia olhou para Anatole por cima das velas que havia na toalha.
– Estas são as melhores férias com que alguém poderia sonhar – murmurou.
Os seus olhos refletiam adoração. Como podia ser de outra maneira? Como podia não se notar tudo o que sentia por aquele homem tão maravilhoso que a trouxera? A emoção apoderou-se dela.
Os olhos escuros de Anatole entretiveram-se no seu rosto bonito. Um tom bronzeado quente transformara a sua pele em ouro e tinha o cabelo mais claro por causa dos raios de sol. Sentiu o desejo a crescer no seu interior. Gostava de a ter por perto. De a ter na sua vida.
– Diz-me, alguma vez estiveste em Paris? – perguntou.
Tia abanou a cabeça.
Anatole sorriu.
– Bom, tenho de lá ir por negócios. Vais adorar.
Sentia-se bem ao saber que seria o primeiro homem que lhe mostraria a Cidade da Luz. Tal como fora o primeiro a levá-la num cruzeiro e a vê-la a desfrutar do luxo do seu estilo de vida. Ver como apreciava tudo.
Como no conto de fadas do príncipe e da mendiga.
Mas gostava da sensação. Muito. Encontrava prazer em dar-lhe todos os luxos de que não pudera desfrutar antes. Contudo, era suficientemente sincero para reconhecer que não era apenas por Tia, mas também por ele. Gostava de sentir o seu olhar ardente a adorá-lo. Fazia-o sentir-se bem.
«Amado.»
Afastou aquela palavra da sua mente como se atirasse uma pedra para um riacho. Mudou-lhe a expressão e negou o que acabara de ouvir na sua mente.
Não queria que Tia o amasse. É claro que não. O amor era uma complicação desnecessária. Estavam a ter uma aventura, tal como com todas as mulheres que tinham passado pela sua vida… pela sua cama. Seguiria o seu curso e, em algum momento, despedir-se-iam.
Até então… Bom, Tia, tão diferente de qualquer outra mulher que conhecera, era exatamente o que queria.
A sua única fonte de inquietação era que continuava a sentir-se muito incomodada quando estavam com outras pessoas. Anatole não queria que se sentisse deslocada nos círculos cosmopolitas e sofisticados em que ele vivia indevidamente. Fazia o possível para lhe facilitar as coisas, mas ela estava sempre muito calada.
Vários pensamentos incómodos atravessaram a sua mente. Alguém perguntara à mendiga como se sentira quando o príncipe a pusera na sua vida?
E, no entanto, quando estavam sozinhos, Tia sentia-se visivelmente relaxada, faladora e confortável. Contente por estar com ele e sempre agradecida. Sempre com vontade dele.
Anatole percebeu que não sentia nenhum desejo de a deixar ir.
Interrogou-se se alguma vez o sentiria. Mas tirou a pergunta da cabeça. O momento chegaria, mas ainda não estava naquele ponto e, até então, desfrutaria de Tia e da sua aventura ao máximo.
Tia estava sentada à frente da cómoda da casa de banho palaciana, observando o seu próprio reflexo no espelho. Usava um daqueles vestidos maravilhosos que Anatole lhe comprara durante os últimos meses da sua relação. A sua generosidade perturbava-a, mas aceitava-a porque sabia que não podia viver naquele mundo com a sua roupa barata.
E, além disso, aquela roupa não era realmente dela. Nem pensaria em levá-la quando…
A sua mente interrompeu aquele pensamento. Não queria pensar em quando chegasse aquele momento. Não queria que estragasse o seu tempo maravilhoso com Anatole.
«Anatole.» Só o seu nome fazia com que corasse. Que homem tão maravilhoso, tão amável, tão atencioso com ela. O coração acelerava cada vez que pensava nele. Cada vez que olhava para ele, sentia a emoção a percorrer-lhe as veias.
Sentiu que a expressão mudava e o olhar se toldava.
Devia ter muito cuidado. Só havia uma forma de aquela aventura acabar… como o ouro mágico a transformar-se em pó ao cair a noite. E o fim não seria bom para Tia.
Sentiu um calafrio gelado. Mas seria muito pior deixar que o coração se enchesse com o único sentimento que não devia ter por Anatole.
«Desejo a única coisa que poderia manter-me na vida do Anatole para sempre.»
Anatole sentia-se tenso. Tinham regressado a Atenas e aproximava-se a reunião anual de acionistas da empresa Kyrgiakis. Aquilo nunca o deixava de bom humor. Os pais pediriam mais dinheiro e só a presença tranquilizadora do seu tio Vasilis seria um bálsamo.
Ter de passar tantas horas na sede da empresa com o seu diretor financeiro a examinar todas as quantias antes da reunião significava que tinha pouco tempo para Tia ultimamente, mas, quando estava com ela, dava-lhe a sensação de que havia alguma coisa que a preocupava.
Não tivera tempo para indagar. Pensou que, quando acabasse aquela maldita reunião, a levaria de férias a algum sítio. A ideia alegrara-o, embora não o suficiente para lhe mudar a expressão de mau humor perpétuo enquanto se preparava para o que o esperava.
Agora, enquanto tomava o pequeno-almoço, pensava em tudo o que devia ter preparado para a reunião daquela manhã.
Para além da reunião oficial, a família esperaria uma celebração num dos melhores hotéis de Atenas, onde o pai gostava de se alojar. Como era de esperar, a mãe nunca ficava lá, mas num hotel da concorrência. Ambos eram muito caros e ambos punham os custos na conta da empresa para irritação de Anatole.
No entanto, os seus pais sempre tinham feito o que queriam e como queria ter de os ver o menos possível, tolerava os seus excessos e os dos seus respetivos parceiros. A única pessoa que realmente queria ver era Vasilis, que estava há bastante tempo na Turquia a colaborar num museu.
Anatole ia convidar Vasilis para almoçar no dia depois da reunião, porque, embora soubesse que o tio erudito poderia ser demasiado académico para Tia, não a intimidaria devido à sua personalidade amável.
Agarrou no sumo de laranja e parou. Tia olhava para ele, virando nervosamente a chávena de café entre os dedos e com uma expressão que nunca vira no tempo que tinham passado juntos.
– O que se passa? – perguntou.
Ela não respondeu. Limitou-se a engolir em seco e empalideceu.
– Tia? – insistiu. Não queria parecer premente, mas tinha pouco tempo e precisava de tomar o pequeno-almoço e ir-se embora.
Fosse o que fosse que a inquietava, trataria disso mais tarde. Por enquanto, oferecer-lhe-ia algumas palavras tranquilizadoras e não tinha tempo para mais nada. Deixou o sumo de laranja na mesa e esperou. Viu-a a engolir em seco novamente, aparentemente custava-lhe falar.
E, quando o fez, entendeu a razão.
– Acho… Acho que estou grávida.
Ücretsiz ön izlemeyi tamamladınız.