Kitabı oku: «¿Qué será de ti? / Como vai você?»

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Primera edición: abril, 2015

© de la selección, traducción y nota introductoria:

Luis Aguilar, 2015

© de los poemas: sus autores

© Vaso Roto Ediciones, 2015

ESPAÑA

C/ Alcalá 85, 7° izda.

28009 Madrid

MÉXICO

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Grabado de cubierta: Víctor Ramírez

Queda rigurosamente prohibida, sin la autorización de los titulares del copyright, bajo las sanciones establecidas por las leyes, la reproducción total o parcial de esta obra por cualquier medio o procedimiento.

Impreso en España

Imprenta: Kadmos

ISBN: 978-84-16193-15-8

eISBN 978-84-12329-36-0

Depósito Legal: M-21158-2014

BIC: DCQ

¿Qué será de ti?

Poesía joven de Brasil

Edición bilingüe

Selección y traducción de Luis Aguilar


Índice

Nota introdutória

Nota introductoria

ANA ELISA RIBEIRO

Antiguidade d’onde viemos

Antigüedad de procedencia

Salvando o relacionamento

Salvando la relación

Renascença

Renacimiento

Cantiga do amor fodido

Canción del amor jodido

Penélope nervosa

Penélope nerviosa

ANA RÜSCHE

A canção do limpa-vidros

La canción del limpiapeceras

O grande plugue

El gran enchufe

A ceramista

La ceramista

As conhecidas

Las conocidas

Dias com luz. pouca

Días con luz. poca

ANDREA CATRÓPA

III. No fundo do corredor negro, habilidosa ela exibe suas adagas

III. Al fondo del corredor negro, habilidosa, ella exhibe sus dagas

Frida

Frida

Inca

Inca

Outra morada

Otra morada

Musa

Musa

ANITA COSTA MALUFE

Poemas

Poemas

(2)

(2)

Fundos para dias de chuva

Fondos para días de lluvia

Fragmento

Fragmento

(…)

(…)

BRUNA BEBER

verbo irregular

verbo irregular

(trident) melancia

(trident) sandía

saison en enfer

saison en enfer

barragem

presa

Rio de Janeth

Rio de Janeth

DIRCEU VILA

Dinheiro para a poesia, boas dicas

Dinero para la poesía: buenos consejos

Coisas que se quebram

Cosas que se quiebran

façam suas apostas

hagan sus apuestas

Anestesia

Anestesia

Responda rápido

Piensa rápido

ELISA ANDRADE BUZZO

Ônibus entalado

Ómnibus atascado

Se lá no sol

Si allá en el sol

Mulatinho classe A

Mulatito clase A

América

América

a umidade da noite

la humedad de la noche

EDUARDO STERZI

A barca

La barca

Prosa de um domingo

Prosa de domingo

Língua de anjos

Lengua de ángeles

Alto-relevo

Altorrelieve

Letes

Río del olvido

FABIANO CALIXTO

Da cidade

De la ciudad

Uma paisagem de São Paulo

Postal de Sao Paulo

Ruído úmido

Ruido húmedo

E-mail para Paul McCartney

E-mail para Paul McCartney

FÁBIO ARISTIMUNHO VARGAS

Poema extraído de uma resenha no jornal

Poema extraído de una reseña del periódico

21.11.2042

21.11.2042

02.05.2027

02.05.2027

Os andaimes

Los andamios

Pequenas inconfidências

Pequeñas indiscreciones

FABRICIO CARPINEJAR

[Eu fui uma mulher marítima]

[Yo fui una mujer marítima]

Décima elegia

Décima elegía

[Não te compreender]

[No comprenderte]

[Metade do que sou inventei na infância]

[La mitad de lo que soy lo imaginé en la infancia]

[Meu medo se interessa por qualquer ruído]

[Mi miedo se interesa por cualquier ruido]

FABRICIO CORSALETTI

Poesia e realidade

Poesía y realidad

Lígia e os idiotas

Ligia y los idiotas

O que eu quero de você

Lo que quiero de ti

História das demolições

Historia de las demoliciones

ap.

ap.

LEONARDO GANDOLFI

– Quem são estes?

¿Quiénes son estos?

Pedro e o logro

Pedro y la trampa

Todas as minhas coisas são tuas

Todas mis cosas son tuyas

Canção

Canción

Atrasados

Atrasados

MARCELLO SORRENTINO

Shih

Shih

Uma raiz se enlaça a meu dedo

Una raíz se enlaza a mi dedo

Disco discontent

Disco descontento

Vento: modo de usar (ou 6 coisas sobre o vento)

Viento: modo de usar (ó 6 cosas sobre el viento)

Impromptu canábico

Impromptu canábico

MÁRCIO-ANDRÉ

[o desfibrilador é antes uma relíquia verbal]

[el desfibrilador es más una reliquia verbal]

Joia

Joya

[de todo o jardimescolho]

[de todo el jardínescojo]

[lua-lâmina-omoplata]

[luna-lámina-omóplata]

[é preciso ser confidente do ar]

[es necesario ser confidente del aire]

MARIANA IANELLI

Flor de ofício

Flor de oficio

Treva alvorada

Oscura alborada

Visita

Visita

Leitura das cartas

Lectura de cartas

Fazer silêncio

Hacer silencio

MARÍLIA GARCIA

Svetlana

Svetlana

O que fazem A e B quando chegam a cidades destruídas

Lo que hacen A y B cuando llegan a ciudades destruidas

Um sinal

Una señal

Uma mulher que se afoga

Una mujer que se ahoga

Plano b

Plan b

MATIAS MARIANI

Você lê

Tú lees

[A palavra impossível é uma possibilidade]

[La palabra imposible es una posibilidad]

Zoo

Zoo

[abaixo]

[por debajo]

No supermercado

En el supermercado

PÁDUA FERNANDES

As mandíbulas

Las mandíbulas

Coda para cicatriz e dentes

Coda para cicatriz y dientes

Ventre seco dos calendarios

Vientre seco de los calendarios

Duplo mineral

Duplo mineral

Eloquência da decapitação

Elocuencia de la decapitación

PAULO FERRAZ

Dois momentos com café

Dos momentos con café

A poética vista num armário

Poética vista en un armario

Natureza morta com flores

Naturaleza muerta con flores

Díptico para Mario Rui Feliciani

Díptico para Mario Rui Feliciani

Alba

Alba

PRISCA AGUSTONI

[Não foi involuntária]

[No fue involuntaria]

Traição

Traición

Dorme

Duerme

[há na tua presencia]

[hay en tu presencia]

[felizes, nos desnudaremos]

[felices, nos desnudaremos]

RENAN NUERNBERGER

Sem título

Sin título

Contemplação do Nome

Contemplación del nombre

Canção do exílio

Canción del exilio

Gullariana

Gullariana

E-mail p/ Fabiano Calixto

E-mail p/ Fabiano Calixto

RICARDO RIZZO

Onde a dor não tem razão

Donde el dolor no tiene razón

Clair de Lune

Claro de luna

Vila Suicídio

Villa Suicidio

Conversando com artistas de rua

Conversando con artistas de la calle

Alpinismo

Alpinismo

SERGIO COHN

Mnemo

Mnemo

aproximações, encantamentos: a noite

aproximaciones, encantamientos: la noche

Passeio

Paseo

Nomadismo habitar

Nomadismo habitar

A voz violenta

La voz violenta

TARSO DE MELO

Objetos (2)

Objetos (2)

Ossos de Borboleta

Huesos de mariposa

Visita

Visita

Nenhum canto 1

Ningún canto 1

Ready-made

Ready-made

THIAGO PONCE DE MORAES

Caligrafia

Caligrafía

1,618,033,9

1,618,033,9

Arco-íris

Arcoíris

Ígneo

Ígneo

Amarelo (claro)

Amarillo (claro)

Autores

¿QUÉ SERÁ DE TI?

Nota introdutória

A presente antologia da poesia jovem do Brasil recolhe textos representativos de 26 poetas e procura apresentar ao leitor um reflexo do concerto polifônico que, ao seu modo, é a poesia do gigante sul-americano.

Selecionar poetas para uma antologia é sempre um problema e, ainda mais, se o olhar investigador pretende tomar distância do cânone. Pensar na tradição poética de Brasil parece simples quando se leva em conta as obras de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles ou, mais recentemente, dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos; de Ferreira Gullar, Adélia Prado ou Lêdo Ivo.

Mas pensar uma antologia fora do cânone, na qual a aposta não é a estabilidade, mas sim o risco; não o passado, mas sim o futuro, resulta duplamente complicado; sobretudo porque com frequência não se assentam com clareza as condicionantes que determinam as inclusões.

No caso particular de Como vai você? — e para que o leitor se assegure dessa transparência — é necessário ressaltar que a seleção dos autores partiu de três eixos principais: a idade, considerando jovens até o momento do início do projeto a todos os poetas com menos de 40 anos; ter recebido ao menos um reconhecimento público; e ter em seu curriculum, pelo menos, dois livros publicados com ISBN e, por razão óbvia, que não se tratasse de edições de autor. Nesse contexto, o universo se reduziu, mas mesmo assim não o suficiente; pois à geografia enorme do Brasil se soma sua geografia literária, tão vasta quanto extensa.

É bom ressaltar, também, que por ponderações do organizador desta mostra não foram incluídas algumas vozes da poesia brasileira mesmo que bastante conhecidas, por nos parecer que estão mais vinculadas ao teatro — a poesia performática —, que à literatura em si, essa que conjuga beleza e idéia, alheia a referências da encenação ou do ato performático, da música e do canto, em forma de protesto ou espetáculo.

O resultado da pesquisa é esta mostra; uma mostra que, diferentemente das antologias tradicionais, optou por incluir cinco poemas de cada autor, com o fim específico de que o leitor não parta de um único texto — ou dois, no melhor dos casos — para se inteirar acerca de um poeta.

Como em todos os processos de seleção — por sua natureza —, no produto final não estão todos os que são, mas sim são todos os que estão, pois, para além dessa obviedade, é impossível que qualquer crítico sério possa negar que as 26 vozes aqui reunidas marcarão o porvir imediato da poesia brasileira.

Donos de uma voz própria, clara e potente, cada um dos poetas de Como vai você? ocupa neste livro o lugar na história literária do Brasil que lhes cabe.

Por seu próprio merecimento, estes poetas se incrustam no universo literário que Vaso Roto Ediciones põe agora nas mãos do mundo de fala hispânica e portuguesa para demonstrar que, para além de um concretismo esgotado e de um modernismo preocupado com sua evolução, presenciamos a chegada de novas vozes e outros movimentos que, sem dúvida, desenvolverão e estabelecerão novos paradigmas no firmamento da poética brasileira.

LUIS AGUILAR

(Trad. PAULO FERRAZ)

Nota introductoria

La presente antología de la poesía joven de Brasil recoge piezas significativas de veintiséis poetas y busca presentar al lector un reflejo del concierto polifónico que, de suyo, es la poesía del gigante de Sudamérica.

Seleccionar a los poetas para una antología es siempre una complicación, y más aún si el ojo revisor pretende tomar distancia del canon. Pensar en la tradición poética de Brasil resulta sencillo a la hora de considerar a Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecilia Meireles o, más acá, a los hermanos Augusto y Haroldo de Campos; a Guimarães Rosa, Ferreira Gullar, Adélia Prado o Lêdo Ivo.

Pero pensar una antología fuera del canon, donde la apuesta no es la estabilidad sino el riesgo, no el pasado sino el futuro, resulta doblemente complicado; sobre todo porque con frecuencia no se asientan con claridad las condicionantes que determinan las inclusiones.

En el caso particular de ¿Qué será de ti? –y para que el lector acceda a esa transparencia–, es necesario acotar que la selección de los autores partió de tres ejes principales: la edad, considerando jóvenes hasta el momento del arranque del proyecto a todos los poetas menores de cuarenta años; el haber obtenido al menos un reconocimiento público; y tener en su haber, cuando menos, dos libros publicados con ISBN; y, por la razón obvia, que no se tratase de ediciones de autor. En ese contexto, el universo se re-dujo pero acaso no lo suficiente; pues a la geografía enorme del Brasil se suma su geografía literaria, vasta y extendida.

Es bueno asentar, también, que por consideraciones del curador de esta muestra no fueron incluidas algunas voces bastante públicas de la poesía del Brasil, por sentir que están más vinculadas al arte teatral –la poesía performática– que a la literatura esencial, esa que conjuga belleza e idea, alejada de las referencias de la actuación o el acto performático, la música y el canto, a manera de protesta o espectáculo.

El resultado de la pesquisa es esta muestra; una muestra que, a diferencia de las antologías tradicionales, optó por incluir cinco poemas de cada poeta, con el único fin de que el lector no parta de un solo texto –o dos, en el mejor de los casos– para referenciarse respecto de un autor.

Como en todos los procesos de selección –por su naturaleza–, en el producto final no están todos los que son ni son todos los que están, pero, más allá de esa obviedad, es imposible que cualquier crítico serio pueda negar que las veintiséis voces aquí reunidas marcarán el devenir inmediato de la poesía de Brasil.

Dueños de una voz propia, clara y potente, cada uno de los poetas de ¿Qué será de ti? toma en este libro la parte de la historia literaria del Brasil que le corresponde.

Por derecho propio, estos poetas se incrustan en el universo literario que Vaso Roto Ediciones coloca ahora en las manos del mundo de habla hispana y portuguesa para demostrar que, más allá de un concretismo agotado y un modernismo preocupado de su evolución, presenciamos la llegada de nuevas voces y otros movimientos que, sin duda, desarrollarán y establecerán nuevos paradigmas en el firmamento de la poética brasileña.

LUIS AGUILAR

ANA ELISA RIBEIRO

Antiguidade d’onde viemos

Péricles disse

que a maior virtude

de uma mulher

era ficar calada.

Péricles se fodeu.

Péricles, hoje,

levaria uma surra

dada por mil mulheres

como eu.

Antigüedad de procedencia

Pericles dijo

que la mayor virtud

de una mujer

era quedarse callada.

Pericles se jodió.

Pericles, hoy,

se llevaría una paliza

dada por mil mujeres

como yo.

Salvando o relacionamento

eu sei, meu bem,

que seu sonho era comer

uma sueca alta loura boa

finge, meu amor,

fecha os olhos e finge

o meu cabelo

a gente tinge.

Salvando la relación

yo sé, mi bien,

que tu sueño era tirarte

una sueca alta, rubia y buena

finge, mi amor,

cierra los ojos y finge

que para eso mis cabellos

los teñí.

Renascença

A casa em que eu vou morar

com meus homens

quase todos

fica em um terreno

plano e raro

na região nordeste

da capital

na esquina exata entre

os meus sonhos

e as tarefas

de dona-de-casa.

É um terreno

quase quadrado

simétrico e alinhado

com as duas ruas

que o ladeiam.

Embaixo dele é aterro.

Sobre ele plantarei meu último suspiro.

A casa é antiga e feia.

depois que me tornei

dona dela,

chamei um engenheiro

que reformou o meu futuro.

Comprei janelas caras.

Refiz os batentes das portas.

Reorganizei o telhado,

mas ele continuou de vidro.

Renacimiento

La casa donde voy a vivir

con mis hombres

casi todos

queda en un terreno

plano y raro

en la región nordeste

de la capital

en la esquina exacta entre

mis sueños

y las tareas

de ama de casa.

Es un terreno

casi cuadrado

simétrico y alineado

con las dos calles

que lo delimitan.

Bajo él, el terraplén.

Sobre él, plantaré mi último suspiro.

La casa es antigua y fea.

Después de volverme

dueña suya,

llamé a un ingeniero

que reformó mi futuro.

Compré ventanas bonitas.

Reconstruí los batientes de las puertas.

Reorganicé el tejado

pero continuó siendo de vidrio.

Ainda não há armários

onde eu possa guardar

minhas roupas quase iguais.

Meus sonhos,

que eram imensos,

haverão de caber dentro

das caixas de sapatos.

Na mudança,

estarei muito preocupada

em trazer meus anéis

e minhas memórias,

mesmo as que estão

quase apagadas,

e os relógios,

por onde meço

meus desapegos.

Nesta casa,

viverei minha infância.

Minha velhice será lenda.

Gosto da nova casa,

onde nem tudo

será novidade,

mesmo quando constato, aliviada,

que lá de dentro

não vejo nada.

Não há vista,

nem há os lados.

Apenas os muros

altos e fechados

e o céu zenital

jamais alcançado.

Todavía no hay armarios

donde guardar

mi ropa casi igual.

Mis sueños,

que eran inmensos,

cabrán dentro

de las cajas de zapatos.

En la mudanza,

me aseguraré

de traer mis anillos

y memorias,

incluso las que están

casi olvidadas,

y los relojes

en que mido

mis desapegos.

En esta casa

viviré mi infancia.

Mi vejez será leyenda.

Me gusta la nueva casa,

donde nada

es novedad,

sobre todo cuando constato, aliviada,

que desde el interior

no veo nada.

No hay vista

ni hay lados.

Apenas los muros

cerrados y altos

y un cielo cenital

inalcanzable.

Cantiga do amor fodido

Não me demoro

deitada em peito algum

nem espalho

em qualquer corpo

minha anca de metro

Faço amor de fingimentos

mas vivo-o a espaços

saltitando entre desgastes

com ardor

de chama ao vento

Trago do seu corpo

a memória deste tato falho

orvalho salgado, rebarbas

O amor é fodido, meu amor,

não se demora na lembrança

e nem se cansa

de parecer esparso.

Como se fosse fácil

amar sem ser gasto

Canción del amor jodido

No me demoro

tendida en ningún pecho

ni entrego

a cualquier cuerpo

mis buenas caderas.

Hago amor de fingimientos

viviendo a espacios

retozando entre desgastes

con ardor

de llama al viento

Traigo de tu cuerpo

la memoria de este tacto fracasado gusto

a rebabas de rocío salado

El amor está jodido, mi amor,

no se entretiene en el recuerdo

y no se cansa

de ser vulgarizado.

Como si fuera fácil

amar sin desgastarse.

Penélope nervosa

entre esquecer e lembrar

tomei vários copos

de água como luz

e teci mais uma noite

de sereno

noites de espera

são lentas

de fio opaco e largo

noites de espera são

vários fios da manhã

mil dias de avó

e milhões de corações

de mãe preocupada

noites de espera

fazem cânceres

Penélope nerviosa

entre olvido y recuerdo

tomé varios vasos

de agua como luz

y tejí una noche más

pacientemente

las noches de espera

son lentas

de hilo opaco y extenso

las noches de espera son

varios hilos de la mañana

mil días de vejez

y millones de corazones

de madre preocupada

las noches de espera

fermentan cánceres

ANA RÜSCHE

A canção do limpa-vidros

eu, um peixe de aquário, gordo,

consumindo o que surge dessas águas turvas.

os passantes lá embaixo como polvos de patins,

uma menina com um buraco-negro a tira-colo e chicletes.

ao lado dos jornais de internet,

meus cactos morrem em sua compulsão por água.

os ursos polares serão extintos pelas geladeiras

na Austrália, baleias se suicidam na areia.

continuo consumindo qualquer coisa que brilhe um pouco,

eu, um peixe a apodrecer gordo nessas águas sujas.

La canción del limpiapeceras

yo, un pez de acuario, gordo,

consumiendo lo que surge de estas aguas turbias.

los transeuntes allá abajo como pulpos en patines,

una niña con un hoyo negro al hombro y chicles.

al lado de los periódicos en línea,

mis cactus mueren en su compulsión sedienta.

los osos polares se extinguen por los refrigeradores

en Australia, ballenas se suicidan en la arena.

continúo consumiendo cualquier cosa que brille un poco,

yo, un pez gordo, pudriéndose en estas aguas sucias.

O grande plugue

À nossa geração nunca nos foi permitido ver o mar

pela primeira vez.

Ele sempre esteve adentro, reluzente, o grande

igual que nós mesmos

Rogamos tanto às noites que se faça novamente o

escuro

mas quando as preces são atendidas

é só uma ilusão dos trouxas, uma ardentia nos

olhos e

o mar esbraveja aqui dentro, monstro comedor

de rocha

Já nascemos umas baleias mórbidas

pobres diabas afogadas neste papel de luz

E é tão mesquinho de pequeno o desejo

A gente só queria ver o maldito mar

por favor,

pela primeira vez.

El gran enchufe

A nuestra generación nunca se nos permitió ver el mar

por primera vez.

Él siempre estuvo adentro, reluciente, tan grande

como nosotros mismos

Rogamos tanto a las noches que se hiciera nuevamente la

oscuridad

mas las plegarias atendidas

son ilusión de tontos, un ardor en los

ojos y

el mar enfurece aquí dentro, monstruo devorador

de piedra

Nacimos ballenas mórbidas

pobres diablas ahogadas en este papel de luz

y es tan mezquino en sus inicios el deseo

Nosotros solo queríamos ver el maldito mar

por favor,

por primera vez.

A ceramista

A partir de Concha e Aurora,

criações de Ângela Barros e Alberto Guzik

agora já são cinco privês

antes era um prédio respeitável

escavo escadas ante a nudez

do elevador, guilhotina pichada

no pó suspenso no ar

catedrais de coisas abandonadas

e lá dentro chafurdo com minhas duas

mãos nas peças de cerâmica

e como parteira tiro do barro

um caco, um vaso, um sonho, um sopro

La ceramista

A partir de Concha e Aurora,

creaciones de Ángela Barros y Alberto Guzik

ahora son ya cinco cabinas eróticas

antes era un edificio respetable

excavo escaleras ante la desnudez

del ascensor, guillotina grafiteada

en el polvo suspendido en el aire

catedrales de cosas abandonadas

y allá adentro refriego mis dos

manos en las piezas de cerámica

y como partera saco del barro

un pedazo, un jarro, un sueño, un soplo

As conhecidas

só me dizem agora de seus outros

: os chefes, os provedores, os bebezinhos

e com soslaios obesos e encontros pouco

calóricos

dizem duns anos bons

que mal me lembro, esqueci de dia

comentam de sobremesa

–ah, ana, só você mesmo.

minha vida é de história em quadrinhos

(embora eu a leve bem a sério)

não sou feliz, sou triste

e tenho um cachorrinho.

Las conocidas

sólo hablan ahora de los otros

: los jefes, los proveedores, sus pequeños bebés

y con notorios soslayos y encuentros bajos

en calorías

hablan de unos años buenos

que mal recuerdo, olvidé esos días

comentan de sobremesa

–ah, ana, sólo tú.

mi vida es un cómic

(aunque yo me la tome muy en serio)

no soy feliz, estoy triste

y tengo un perrito.

Dias com luz. pouca

I

quando se é noite, nos todos os dias do coração,

e os cobertores dançam nas ruas como cabides

de meninos,

uma mão é um ninho, de cachimbo e dureza,

é o que aninha o silêncio da pedra

ainda é o que aninha o que nunca conheço,

palavra

tenho bem medo dessa noite, tranco-me em

algum lugar, é a violência

medo desses dias em que todos os corações já são

escuros

aninho-me no meu cobertor que já não dança,

doente do pé,

é a preguiça, sabe? também tem isso, um cansaço

da aspirina,

uma vida besta de pedra opaca, a que tudo se

volta em volta.

Días con luz. poca

I

cuando se hace noche, en todos nuestros días del corazón

y las mantas danzan en las calles como perchas

de niños,

una mano es un nido, de pipa y dureza,

es lo que anida el silencio de la piedra

aún es lo que anida lo que nunca conozco,

palabra

tengo mucho miedo de esa noche, me encierro

en algún lugar, es la violencia

miedo de esos días en que todos los corazones ya son

oscuros

me enredo en mi cobertor que dejó de danzar,

adolorido del pie,

la pereza ¿sabes? también tiene eso, un cansancio

de aspirina,

una vida ordinaria de piedra opaca, a la que todo

regresa siempre.

ANDREA CATRÓPA

III. No fundo do corredor negro, habilidosa ela exibe suas adagas

o café é atávico. o medo também. contra ela me lanço

entre pedestres e carros –e penso sempre que vou desmaiar.

III. Al fondo del corredor negro, habilidosa, ella exhibe sus dagas

el café es atávico. el miedo también. contra ella me lanzo

entre peatones y autos –y pienso siempre que me voy a desmayar.

Frida

primórdios da vida

sobre rodas

cachucha Khalo

desvia do rumo

não traçado no bonde com destino à tela

nela vértebras

do sofrimento, espadas do amor

em cores

páginas cujas palavras são

abortos em flor

caveiras num baile

diário da suicida que exibe vísceras

a morte ladra

rouba-lhes dores, e o que será dela,

rara señorita,

cicatrizada a sua ferida?

Frida

inicia la vida

sobre ruedas

baila Kalho

desvía el rumbo

sin rumbo del tren destino al lienzo

en ella vértebras

del sufrimiento, espadas de amor

en colores

páginas cuyas palabras son

abortos en flor

calaveras en un baile

diario de suicida que muestra sus vísceras

la muerte ladrona

le roba los dolores, y ¿qué será de ella,

rara señorita,

cuando cicatrice su herida?

Inca

na lotação

babel precária

turistas buscam

nas entranhas de um

país ruínas como fugaz

promessa da eternidade

em dialeto estrangeiro

falam as pedras

empilhadas

da vertigem dos povos

dominados do ultraje

do trabalho escravo

Inca

en el microbús

babel pobre

los turistas buscan

ruinas en las entrañas de un

país como fugaz

promesa de eternidad

en lengua extranjera

las piedras cuentan

apiladas

el vértigo de los pueblos

sometidos al agravio

del trabajo esclavo

Outra morada

o tiritar de ossos nas noites frias

sobrepujava a sinfonia dos vermes

ofereceria meu ombro à donzela falecida

no raiar do século vinte não fosse

esta falta de estofo

esquecida a menina vagava entre

tristes companhias – todo

tipo de louco que salta os muros

para aqui procurar abrigo

esperava a visita dos pais que

rondavam agora a severa lápide dum

cemitério germânico atormentados

pela dor que não se afogou no mar

que cruzaram em transatlântico

antes do dia, sentava-se nos túmulos

sentia inveja das flores frescas

sussurrava coisas obscenas nas orelhinhas

dos anjos e voltava

bem na hora em que eu me agitava esperando

uma outra presença

era recente, eu sabia, mas ela

vinha já há uma semana desgraçado

resmungava e os soluços logo

desmentiam a raiva

em sonhos eu lhe dizia minha

querida só o pranto dos vivos

nos mantém bem mortos

Otra morada

el tiritar de huesos en las noches frías

superaba la sinfonía de los gusanos

ofrecería mi hombro a la muchacha muerta

en el despuntar del siglo veinte si no fuera

por esta falta de predisposición

olvidada, la niña vagaba entre

tristes compañías –todo

tipo de loco que salta los muros

en busca de abrigo

esperaba la visita de los padres que

rondaban ahora la severa lápida de un

cementerio alemán atormentados

por el dolor que no se ahogó en el mar

cruzado en transatlántico

por la madrugada, se sentaba en las tumbas

envidiaba las flores frescas

susurraba obscenidades en las orejitas

de los ángeles y regresaba

justo en el momento en que me agitaba esperando

otra presencia

era tierna, yo lo sabía, pero ella

se manifestaba desde hacía una semana, desgraciado,

refunfuñaba, y los sollozos luego

desmentían su ira

en sueños yo le decía

querida sólo el llanto de los vivos

nos mantiene muertos

Musa

fantasma do texto

boca da palavra

sexo de mulher que fala

serpente que engole a própria cauda

e no branco espalha o gozo

lágrima da tara

Musa

fantasma del texto

boca de la palabra

sexo de mujer que habla

serpiente que se muerde la cola

y en blanco expande el gozo

la mácula de la lágrima

ANITA COSTA MALUFE

Poemas

(1)

os livros o carpete a pilha de livros no chão a estante abarrotada de livros

o espaço sem lugar para respiro

o pó dos livros

eu me fazia lúcida em meio à fumaça de cigarro que se misturava com a poeira

a poluição do centro da cidade ao meio dia

a longa espera

e eu olhava para o teu rosto com uma pergunta insolúvel

que mal sabia formular

os teus olhos perdidos na neblina

(não sei se eram teus olhos que eu buscava

tampouco sei se era você)

teus olhos estavam voltados para dentro em uma acrobacia nunca vista

havia também os óculos e o suor havia os rasgos do teu rosto as rugas alguma ferida

havia alguma ferida mal cicatrizada

essas marcas o pó a brisa acinzentada que tingia os vidros o mofo nas páginas dos livros

tanta coisa preenchia o espaço entre a minha pele e a tua

(e eu nem sabia se eram teus olhos ou algo que estava por trás deles

por trás da acrobacia que teus olhos faziam)

tanta coisa prendia nossa respiração

que eu devia me fazer lúcida e aguardar

um banco a vontade de ir ao banheiro o café morno da garrafa

o cenário de uma vida em que os livros envelhecem antes dos corpos

eu não podia lamentar minha presença nem a dos papéis craft enrolados a coleção de papéis com as pontas amassadas

os arquivos de metal

era preciso ter algo por onde passear os olhos os meus olhos

(não sei se eram os teus que eu buscava

ou se buscava fugir)

passear os olhos no cartaz de uma peça da década de setenta o pôster de uma tourada espanhola o cardápio de um restaurante italiano em um vilarejo medieval

como fugir destes monumentos mínimos de uma vida

qual seria esta espera

teus olhos voltados para trás da cabeça e a minha pergunta reverberando entre as paredes entre o mofo das paredes

a minha pergunta grudada na umidade quente e abafada de um meio dia no centro da cidade

a minha pergunta que não chegava até você que não chegava em teus olhos voltados para dentro que não alcançava a acrobacia dos teus olhos e ficava pregada na fuligem dos ônibus nos ruídos que se misturavam com as palavras com as nossas palavras

nossas vozes que eram só fumaça e confusão algum pequeno fio que nos mantivesse ali que nos prendesse mesmo que momentaneamente entre aquelas estantes abarrotadas de livros caixas papelões objetos de acrílico de madeira jogos que já nem se fabricam mais

(e eu nem sei se era você que estava ali

por trás da minha respiração)

(2)

a imagem no aparador é mera alucinação

um meio nariz mal delineado a quarta parte de um olho

o queixo um pedaço de gola

a sombra de um tronco infantil

seria uma lembrança não fosse o fato

de não me reconhecer nestas unhas que saem de dedos compridos

no modo de cruzar as pernas

curvar o corpo inclinar o pescoço para a esquerda

para a direita

piscar nervosamente a quarta parte de um olho negro

cravado numa pele transparente

seria mera alucinação?

uma das mãos se mantém fechada

enquanto seguro o guarda-chuva e procuro

dentre os pedaços dispersos

o outro braço que alcançaria a maçaneta da porta a meu lado

Poemas

(1)

los libros la moqueta la pila de los libros en el suelo el estante repleto de libros

el espacio sin lugar para respirar

el polvo de los libros

yo me volvía lúcida en medio del humo del cigarrillo que se mezclaba con el polvo

la contaminación del centro de la ciudad al mediodía

la larga espera

y yo te miraba a la cara con una pregunta insoluble

que apenas sabía formular no podía hacer

tus ojos perdidos en la niebla

(no estoy segura si tus ojos eran lo que buscaba

tampoco sé si eras tú)

tus ojos se volvieron hacia el interior en una acrobacia nunca vista

había también las gafas y el sudor había los rasgos de tu frente las arrugas alguna herida

había alguna herida mal cicatrizada

esas marcas el polvo la brisa gris que teñía los cristales el moho en las páginas de los libros

tanto llenaba el espacio entre mi piel y la tuya

(y yo ni siquiera sabía si eran tus ojos o algo que estaba detrás de ellos

detrás de las acrobacias que hacían tus ojos)

tanto nos quitaba la respiración

que yo debía volverme lúcida y esperar

en un banco el deseo de ir al baño el café tibio de la botella

el escenario de una vida en la que los libros envejecen antes que los cuerpos

yo no podía lamentar mi presencia ni la de los papeles de estraza en rollo la colección de papeles arrugados en la punta

los archivos de metal

era necesario tener algo por dónde pasear los ojos mis ojos

(no estoy segura si eran los tuyos lo que yo buscaba

o si trataba de huir)

echar un vistazo a un cartel de una pieza de teatro de los años setenta el cartel de una corrida de toros española o un menú de un restaurante italiano en un pueblo medieval

cómo huir de estos monumentos mínimos de una vida

cuál sería esta espera

tus ojos en la parte posterior de la cabeza y mi pregunta reverberando en las paredes

en el moho de las paredes

mi pregunta atrapada en la humedad de un mediodía caluroso y sofocante en el centro de la ciudad

mi pregunta que no llegaba hasta ti que no llegaba a tus ojos vueltos hacia dentro que no alcanzaba la acrobacia de tus ojos y se clavaba en el hollín de los autobuses en los ruidos que se mezclaban con las palabras con nuestras palabras

nuestras voces eran sólo humo y la confusión algún pequeño hilo que nos mantuviera allí que nos prendiera momentáneamente entre los estantes repletos de cajas de cartón de los libros objetos de acrílico de madera juegos que ya ni siquiera se fabrican

(y yo no sé si eras tú quien estaba allí

detrás de mi respiración)

(2)

la foto en el aparador es mera alucinación

la mitad de una nariz mal delineada la cuarta parte de un ojo

la barbilla-cuello en una sola pieza

la sombra de un cuerpo infantil

sería un recordatorio si no fuera por el hecho

de no reconocerme en estas uñas que salen de estos dedos largos

en la manera de cruzar las piernas

doblar el cuerpo inclinar el cuello hacia la izquierda

hacia la derecha

parpadeando nerviosamente la cuarta parte de un ojo negro

atrapado en una piel transparente

¿es mera alucinación?

una de las manos se mantiene cerrada

mientras sostengo el paraguas y busco

entre las piezas dispersas

el otro brazo para llegar a la manija de la puerta a mi lado

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