Kitabı oku: «Quincas Borba»

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Machado de Assis

Quincas Borba


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066412340

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QUINCAS BORBA

QUINCAS BORBA

DA ACADEMIA BRASILEIRA
QUINCAS BORBA

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RIO DE JANEIRO
B. L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
1891

OBRAS DO AUTOR


Memorias Posthumas de Braz Cubas

Quincas Borba

Histórias sem data

Papéis avulsos

Historias da meia noite

Yayá Garcia, romance

Helena, romance

Resurreição, romance

A mão e a luva, romance

Contos Fluminenses

Americanas, poesias

Phalenas, poesias

Chrysalidas, poesias

Tu só, tu, puro amor, comédia

QUINCAS BORBA

Índice de conteúdo

CAPITULO PRIMEIRO

Rubião fitava a enseada,—eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares mettidos no cordão do chambre, á janella de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que elle admirava aquelle pedaço de agua quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra cousa. Cotejava o passado com o presente. Que era, ha um anno? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinellas (umas chinellas de Tunis, que lhe deu recente amigo, Christiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o ceu; e tudo, desde as chinellas até o ceu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.

—Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa elle. Se a mana Piedade tem casado com o Quincas Borba, apenas me daria uma esperança collateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo commigo; de modo que o que parecia uma desgraça...

CAPITULO II

Que abysmo que ha entre o espirito e o coração! O espirito do ex-professor, vexado daquelle pensamento, arrepiou caminho, buscou outro assumpto, uma canoa que ia passando; o coração, porém, deixou-se estar a bater de alegria. Que lhe importa a canoa nem o canoeiro, que os olhos de Rubião acompanham, arregalados? Elle, coração, vae dizendo que, uma vez que a mana Piedade tinha de morrer, foi bom que não casasse; podia vir um filho ou uma filha... —Bonita canoa!—Antes assim!--Como obedece bem aos remos do homem!—O certo é que elles estão no ceu!

CAPITULO III

Um creado trouxe o café. Rubião pegou na chicara, e, em quanto lhe deitava assucar, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada. Prata, ouro, eram os metaes que amava de coração; não gostava de bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era materia de preço, e assim se explica este par de figuras que aqui está na sala, um Mephistopheles e um Fausto. Tivesse, porém, de escolher, escolheria a bandeja,—primor de argentaria, execução fina e acabada. O creado esperava tezo e serio. Era hespanhol; e não foi sem resistencia que Rubião o acceitou das mãos de Christiano; por mais que lhe dissesse que estava acostumado aos seus creoulos de Minas, e não queria linguas estrangeiras em casa, o amigo Palha insistiu, demonstrando-lhe a necessidade de ter creados brancos. Rubião cedeu com pena. O seu bom pagem, que elle queria pôr na sala, como um pedaço da provincia, nem o pôde deixar na cosinha, onde reinava um francez, Jean; foi degradado a outros serviços.

—Quincas Borba está muito impaciente? perguntou Rubião bebendo o ultimo golo de café, e lançando um ultimo olhar á bandeja.

—Me parece que si.

—Lá vou soltal-o.

Não foi; deixou-se ficar, algum tempo, a olhar para os moveis. Vendo as pequenas gravuras inglezas, que pendiam da parede por cima dos dous bronzes, Rubião pensou na bella Sophia, mulher do Palha, deu alguns passos, e foi sentar-se no pouf, ao centro da sala, olhando para longe...

—Foi ella que me recommendou aquelles dous quadrinhos, quando andavamos os tres, a ver cousas para comprar. Estava tão bonita! Mas o que eu mais gosto della são os hombros, que vi no baile do coronel. Que hombros! Parecem de cera; tão lisos, tão brancos! Os braços tambem; oh! os braços! Que bem feitos!

Rubião suspirou, cruzou as pernas, e bateu com as borlas do chambre sobre os joelhos. Sentia que não era inteiramente feliz; mas sentia tambem que não estava longe a felicidade completa. Recompunha de cabeça uns modos, uns olhos, uns requebros sem explicação, a não ser esta, que ella o amava, e que o amava muito. Não era velho; ia fazer quarenta e um annos; e, rigorosamente, parecia menos. Esta observação foi acompanhada de um gesto; passou a mão pela cara, barbeada todos os dias, cousa que não fazia d'antes, por economia e desnecessidade. Um simples professor! Usava suissas, (mais tarde deixou crescer a barba toda),—tão macias, que dava gosto passar os dedos por ellas... E recordava assim o primeiro encontro, na estação de Vassouras, onde Sophia e o marido entraram no trem da estrada de de ferro, no mesmo carro em que elle descia de Minas; foi alli que achou aquelle par de olhos viçosos, que pareciam repetir a exhortação do propheta: Todos vós que tendes sede, vinde ás aguas. Não trazia ideias adequadas ao convite, é verdade; vinha com a herança na cabeça, o testamento, o inventario, cousas que é preciso explicar primeiro, afim de entender o presente e o futuro. Deixemos Rubião na sala de Botafogo, batendo com as borlas do chambre nos joelhos, e cuidando na bella Sophia. Vem commigo, leitor; vamos vel-o, mezes antes, á cabeceira do Quincas Borba.

CAPITULO IV

Este Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler as Memorias posthumas de Braz Cubas, é aquelle mesmo naufrago da existencia, que alli apparece, mendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma philosophia. Aqui o tens agora em Barbacena. Logo que chegou, enamorou-se de uma viuva, senhora de condição mediana e parcos meios de vida; mas, tão acanhada que os suspiros do namorado ficavam sem echo. Chamava-se Maria da Piedade. Um irmão della, que é o presente Rubião, fez todo o possivel para casal-os. Piedade resistiu, um pleuriz a levou.

Foi esse trechosinho de romance que ligou os dous homens. Saberia Rubião que o nosso Quincas Borba trazia aquelle grãosinho de sandice, que um medico suppoz achar-lhe? Seguramente, não; tinha-o por homem esquisito. É, todavia, certo que o grãosinho não se despegou do cerebro de Quincas Borba,—nem antes, nem depois da molestia que lentamente o comeu. Quincas Borba tivera alli alguns parentes, mortos já agora em 1867; o ultimo foi o tio que o deixou por herdeiro de seus bens. Rubião ficou sendo o unico amigo do philosopho. Regia então uma escola de meninos, que fechou para tratar do enfermo. Antes de professor, mettera hombros a algumas emprezas, que foram a pique.

Durou o cargo de enfermeiro mais de cinco mezes, perto de seis. Era real o desvello de Rubião, paciente, risonho, multiplo, ouvindo as ordens do medico, dando os remedios ás horas marcadas, saindo a passeio com o doente, sem esquecer nada, nem o serviço da casa, nem a leitura dos jornaes, logo que chegava a mala da Côrte ou a de Ouro-Preto.

—Tu és bom, Rubião, suspirava Quincas Borba.

—Grande façanha! Como se você fosse máo!

A opinião ostensiva do medico era que a doença do Quincas Borba iria saindo devagar. Um dia, o nosso Rubião, acompanhando o medico até á porta da rua, perguntou-lhe qual era o verdadeiro estado do amigo. Ouviu que estava perdido, completamente perdido; mas, que o fosse animando. Para que tornar-lhe a morte mais afflictiva pela certeza...?

—La isso, não, atalhou Rubião; para elle, morrer é negocio facil. Nunca leu um livro que elle escreveu, ha annos, não sei que negocio de philosophia...

—Não; mas philosophia é uma cousa, e morrer de verdade é outra; adeus.

CAPITULO V

Rubião achou um rival no coração do Quincas Borba,—um cão, um bonito cão, meio tamanho, pello côr de chumbo, malhado de preto. Quincas Borba levava-o para toda parte, dormiam no mesmo quarto. De manhã, era o cão que acordara o senhor, trepando ao leito, onde trocavam as primeiras saudações. Uma das extravagancias do dono foi dar-lhe o seu proprio nome; mas, explicava-o por dous motivos, um doutrinario, outro particular.

—Desde que Humanitas, segundo a minha doutrina, é o principio da vida e reside em toda a parte, existe tambem no cão, e este póde assim receber um nome de gente, seja christão ou mussulmano...

—Bem, mas porque não lhe deu antes o nome de Bernardo, disse Rubião com o pensamento em um rival politico da localidade.

—Esse agora é o motivo particular. Se eu morrer antes, como presumo, sobrevivirei no nome do meu bom cachorro. Ris-te, não?

Rubião fez um gesto negativo.

—Pois devias rir, meu querido. Porque a immortalidade é o meu lote ou o meu dote, ou como melhor nome haja. Vivirei perpetuamente no meu grande livro. Os que, porém, não souberem ler, chamarão Quincas Borba ao cachorro, e...

O cão, ouvindo o nome, correu á cama. Quincas Borba, commovido, olhou para Quincas Borba:

—Meu pobre amigo! meu bom amigo! meu unico amigo!

—Unico!

—Desculpa-me, tu tambem o és, bem sei, e agradeço-te muito; mas a um doente perdoa-se tudo. Talvez esteja começando o meu delirio. Deixa ver o espelho.

Rubião deu-lhe o espelho. O doente contemplou por alguns segundos a cara magra, o olhar febril, com que descobria os suburbios da morte, para onde caminhava a passo lento, mas seguro. Depois, com um sorriso pallido e ironico:

—Tudo o que está cá fóra corresponde ao que sinto cá dentro; vou morrer, meu caro Rubião... Não gesticules, vou morrer. E que é morrer, para ficares assim espantado?

—Sei, sei que voce tem umas philosophias... Mas fallemos do jantar; que hade ser hoje?

Quincas Borba sentou-se na cama, deixando pender as pernas, cuja estraordinaria magreza se adivinhava por fóra das calças.

—Que é! que quer? acudiu Rubião.

—Nada, respondeu o enfermo sorrindo. Umas philosophias! Com que desdem me dizes isso! Repete, anda, quero ouvir outra vez. Umas philosophias!

—Mas não é por desdem... Pois eu tenho capacidade para desdenhar de philosophias? Digo só que você póde crêr que a morte não vale nada, porque terá razões, principios...

Quincas Borba procurou com os pés as chinellas; Rubião chegou-lh'as; elle calçou-as e poz-se a andar para esticar as pernas. Affagou o cão e accendeu um cigarro. Rubião quiz que se agazalhasse, e trouxe-lhe um fraque, um collete, um chambre, um capote, á escolha. Quincas Borba recusou-os com um gesto. Tinha outro ar agora; os olhos mettidos para dentro viam pensar o cerebro. Depois de muitos passos, parou, por alguns segundos, deante de Rubião.

CAPITULO VI

—Para entenderes bem o que é a morte e a vida, basta contar-te como morreu minha avó.

—Como foi?

—Senta-te.

Rubião obedeceu, dando ao rosto o maior interesse possivel, em quanto Quincas Borba continuava a andar, recolhendo as ideias.

—Foi no Rio de Janeiro, começou elle, defronte da Capella Imperial, que era então Real, em dia de grande festa; minha avó saiu, atravessou o adro, para ir ter á cadeirinha, que a esperava no largo do Paço. Gente como formiga. O povo queria ver entrar as grandes senhoras nas suas ricas traquitanas. No momento em que minha avó sahia do adro para ir á cadeirinha, um pouco distante, aconteceu espantar-se uma das bestas de uma sege; a besta desparou, a outra imitou-a, confusão, tumulto, minha avó cahiu, e tanto as mulas como a sege passaram-lhe por cima. Foi levada em braços para uma botica da rua Direita, veiu um sangrador, mas era tarde; tinha a cabeça rachada, uma perna e o hombro partidos, era toda sangue; expirou minutos depois.

—Foi realmente uma desgraça, disse Rubião.

—Não.

—Não?

—Ouve o resto. Aqui está como se tinha passado o caso. O dono da sege estava no adro, e tinha fome, muita fome, porque era tarde, e almoçára cedo e pouco. Dalli pôde fazer signal ao cocheiro; este fustigou as mulas para ir buscar o patrão. A sege no meio do caminho achou um obstaculo e derribou-o; esse obstaculo era minha avó. O primeiro acto dessa serie de actos foi um movimento de conservação: Humanitas tinha fome. Se em vez de minha avó, fosse um rato ou um cão, é certo que minha avó não morreria, mas o facto era o mesmo; Humanitas precisa comer. Se em vez de um rato ou de um cão, fosse um poeta, Byron ou Gonçalves Dias, differia o caso no sentido de dar materia a muitos necrologios; mas o fundo subsistia. O universo ainda não parou por lhe faltarem alguns poemas mortos em flor na cabeça de um varão illustre ou obscuro; mas Humanitas (e isto importa, antes de tudo) Humanitas precisa comer.

Rubião escutava, com a alma nos olhos, sinceramente desejoso de entender; mas não dava pela necessidade a que o amigo attribuia a morte da avó. Seguramente o dono da sege, por muito tarde que chegasse a casa, não morria de fome, ao passo que a boa senhora morreu de verdade, e para sempre. Explicou-lhe, como pode, essas duvidas, e acabou perguntando-lhe:

—E que Humanitas é esse?

—Humanitas é o principio. Mas não, não digo nada, tu não és capaz de entender isto, meu caro Rubião; fallemos de outra cousa.

—Diga sempre.

Quincas Borba, que não deixára de andar, parou alguns instantes.

—Queres ser meu discipulo?

—Quero.

—Bem, irás entendendo aos poucos a minha philosophia; no dia em que a houveres penetrado inteiramente, ah! nesse dia terás o maior prazer da vida, porque não ha vinho que embriague como a verdade. Crê-me, o Humanitismo é o remate das cousas; e eu, que o formulei, sou o maior homem do mundo. Olha, vês como o meu bom Quincas Borba está olhando para mim? Não é elle, é Humanitas...

—Mas que Humanitas é esse?

—Humanitas é o principio. Ha nas cousas todas certa substancia recondita e identica, um principio unico, universal, eterno, commum, indivisivel e indestructivel,—-ou, para usar a linguagem do grande Camões:

Uma verdade que nas cousas anda,

Que mora no visibil e invisibil.

Pois essa substancia ou verdade, esse principio indestructivel é que é Humanitas. Assim lhe chamo, porque resume o universo, e o universo é o homem. Vás entendendo?

—Pouco; mas, ainda assim, como é que a morte de sua avó...

—Não ha morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas fórmas, póde determinar a suppressão de uma dellas; mas, rigorosamente, não ha morte, ha vida, porque a suppressão de uma é a condição da sobrevivencia da outra, e a destruição não attinge o principio universal e commum. Dahi o caracter conservador e benefico da guerra. Suppõe tu um campo de batatas e duas tribus famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribus, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir á outra vertente, onde ha batatas em abundancia; mas, se as duas tribus dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se sufficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribus extermina a outra e recolhe os despojos. Dahi a alegria da victoria, os hymnos, acclamações, recompensas publicas e todos os demais effeitos das acções bellicas. Se a guerra não fosse isso, taes demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só commemora e ama o que lhe é aprazivel ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canonisa uma acção que virtualmente a destroe. Ao vencido, odio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.

—Mas a opinião do exterminado?

—Não ha exterminado. Desapparece o phenomeno; a substancia é a mesma. Nunca viste ferver agua? Hasde lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de continuo, e tudo fica na mesma agua. Os individuos são essas bolhas transitorias.

—Bem; a opinião da bolha...

—Bolha não tem opinião. Apparentemente, ha nada mais contristador que uma dessas terriveis pestes que devastam um ponto do globo? E, todavia, esse supposto mal é um beneficio, não só porque elimina os organismos fracos, incapazes de resistencia, como porque dá logar á observação, á descoberta da droga curativa. A hygiene é filha de podridões seculares; devemol-a a milhões de corrompidos e infectos. Nada se perde, tudo é ganho. Repito, as bolhas ficam na agua. Vês este livro? É D. Quixote. Se eu destruir o meu exemplar, não elimino a obra, que continua eterna nos exemplares subsistentes e nas edições posteriores. Eterna e bella, bellamente eterna, como este mundo divino e supra-divino.

CAPITULO VII

Quincas Borba calou-se de exhausto, e sentou-se ofegante. Rubião correu a elle, levando-lhe agua e pedindo que se deitasse para descançar; mas o enfermo, após alguns minutos, respondeu que não era nada. Perdera o costume de fazer discursos, é o que era. E, afastando com o gesto a pessoa de Rubião, afim de poder encaral-a sem esforço, emprehendeu uma brilhante descripção do mundo e suas excellencias. Misturou ideias proprias e alheias, imagens de toda sorte, idyllicas, epicas, a tal ponto que Rubião perguntava a si mesmo como é que um homem, que ia morrer dalli a dias, podia tratar tão galantemente aquelles negocios.

—Ande repousar um pouco.

Quincas Borba reflectiu.

—Não, vou dar um passeio.

—Agora não; você está muito cançado.

—Qual! Passou.

Ergueu-se, e poz paternalmente as mãos sobre os hombros de Rubião.

—Você é meu amigo?

—Que pergunta!

—Diga.

—Tanto ou mais do que este animal, respondeu Rubião, em um arroubo de ternura.

Quincas Borba apertou-lhe as mãos.

—Bem.

CAPITULO VIII

No dia seguinte, Quincas Borba accordou com a resolução de ir ao Rio de Janeiro, voltaria no fim de um mez, tinha certos negocios... Rubião ficou espantado. E a molestia, e o medico? O doente respondeu que o medico era um charlatão, e que a molestia precisava espairecer, tal qual a saude. Molestia e saude eram dous caroços do mesmo fructo, dous estados de Humanitas.

—Vou a alguns negocios pessoaes, concluiu o enfermo, e levo, além disso, um plano tão sublime, que nem mesmo você poderá entendel-o. Desculpe-me esta franqueza; mas eu prefiro ser franco com você a sel-o com qualquer outra pessoa.

Rubião fiou do tempo que este projecto lhe passasse, como tantos outros; mas enganou-se. Accrescia que, em verdade, o doente parecia estar melhorando; não ia á cama, saía á rua, escrevia. No fim de uma semana, mandou chamar o tabellião.

—Tabellião? repetiu o amigo.

—Sim, quero registrar o meu testamento. Ou vamos la os dous...

Foram os tres, porque o cão não deixava partir o amo e senhor sem acompanhal-o. Quincas Borba registrou o testamento, com as formalidades do estylo, e tornou tanquillo para casa. Rubião sentia bater-lhe o coração violentamente.

—Está claro que eu não o deixo ir só para a Côrte, disse elle ao amigo.

—Não, não é preciso. Demais, Quincas Borba não vae, e não o confio a outra pessoa, senão a você. Deixo a casa como está. Daqui a um mez estou de volta. Vou amanhã; não quero que elle presinta a minha sahida. Cuide delle, Rubião.

—Cuido, sim.

—Jura?

—Por esta luz que me allumia. Então sou alguma creança?

—Dê-lhe leite ás horas apropriadas, as comidas todas do costume, e os banhos; e quando sahir a passeio com elle, olhe que não vá fugir. Não, o melhor é que não saia .. não saia...

—Vá socegado.

Quincas Borba chorava pelo outro Quincas Borba. Não quiz vel-o á sahida. Chorava deveras, lagrimas de loucura ou de affeição, quaesquer que fossem, elle as ia deixando pela boa terra mineira, como o derradeiro suor de uma alma obscura, prestes a cahir no abysmo.

CAPITULO IX

Horas depois, teve Rubião um pensamento horrivel. Podiam crer que elle proprio incitara o amigo á viagem, para o fim de o matar mais depressa, e entrar na posse do legado, se é que realmente estava incluso no testamento. Sentiu remorsos. Porque não empregou todas as forças, para contel-o? Viu o cadaver do Quincas Borba, pallido, hediondo, fitando nelle um olhar vingativo; resolveu, se acaso o fatal desfecho se désse em viagem, abrir mão do legado.

Pela sua parte o cão vivia farejando, ganindo, querendo fugir; não podia dormir quieto, levantava-se muitas vezes, á noite, percorria a casa, e tornava ao seu canto. De manhã, Rubião chamava-o á cama, e o cão acudia alegre; imaginava que era o proprio dono; via depois que não era, mas aceitava as caricias, e fazia-lhe outras, como se Rubião tivesse de levar as suas ao amigo, ou trazel-o para alli. Demais, havia-se-lhe affeiçoado tambem, e para elle era a ponte que o ligava á existencia anterior. Não comeu durante os primeiros dias. Supportando menos a sede, Rubião pôde alcançar que bebesse leite; foi a unica alimentação por algum tempo. Mais tarde, passava as horas, calado, triste, enrolado em si mesmo, ou então com o corpo estendido e a cabeça entre as mãos.

Quando o medico voltou, ficou espantado da temeridade do doente; deviam tel-o impedido de sair; a morte era certa.

—Certa?

—Mais tarde ou mais cedo. Levou o tal cachorro?

—Não, senhor, está commigo; pediu que cuidasse delle, e chorou, olhe que chorou que foi um nunca acabar. Verdade é, disse ainda Rubião para defender o enfermo, verdade é que o cachorro merece a estima do dono: parece gente.

O medico tirou a largo chapéo de palha para concertar a fita; depois sorriu. Gente? Com que então parecia gente? Rubião insistia, depois explicava; não era gente como a outra gente, mas tinha cousas de sentimento, e até de juizo. Olhe, ia contar-lhe uma...

—Não, homem, não, logo, logo, vou a um doente de erysipella... Se vierem cartas delle, e não forem reservadas, desejo vel-as, ouviu? E lembranças ao cachorro, concluiu sahindo.

Algumas pessoas começaram a mofar do Rubião e da singular incumbencia de guardar um cão, em vez de ser o cão que o guardasse a elle. Vinha a risota, choviam as alcunhas. Em que havia de dar o professor! sentinella de cachorro! Rubião tinha medo da opinião publica. Com effeito, parecia-lhe ridiculo; fugia aos olhos extranhos, o mais que lhe era possivel; em casa, olhava com fastio para o animal; dava-se ao diabo, arrenegava da vida. Não tivesse a esperança de um legado, pequeno que fosse. Era impossivel que lhe não deixasse uma lembrança.

CAPITULO X

Sete semanas depois, chegou a Barbacena esta carta, datada do Rio de Janeiro, toda do punho do Quincas Borba:

«Meu caro senhor e amigo,

«Você ha de ter estranhado o meu silencio. Não lhe tenho escripto por certos motivos particulares, etc. Voltarei breve; mas quero communicar-lhe desde já um negocio reservado, reservadissimo.

«Quem sou eu, Rubião? Sou Santo Agostinho. Sei que ha de sorrir, porque você é um ignaro, Rubião; a nossa intimidade permittia-me dizer palavra mais crua, mas faço-lhe esta concessão, que é a ultima. Ignaro!

«Ouça, ignaro. Sou Santo Agostinho; descobri isto ante-hontem; ouça e cale-se. Tudo coincide nas nossas vidas. O santo e eu passámos uma parte do tempo nos deleites e na heresia, porque eu considero heresia tudo o que não é a minha doutrina de Humanitas; ambos furtámos, elle, em pequeno, umas peras de Carthago, eu, já rapaz, um relogio do meu amigo Braz Cubas. Nossas mães eram religiosas e castas. Emfim, elle pensava, como eu, que tudo que existe é bom, e assim o demonstra no cap. XVI, livro VII das Confissões, com a differença que para elle, o mal é um desvio da vontade, illusão propria de um seculo atrazado, concessão ao erro, pois que o mal nem mesmo existe, e só a primeira affirmação é verdadeira; todas as cousas são boas, omnia bona, e adeus.

«Adeus, ignaro. Não contes a ninguém o que te acabo de confiar, se não queres perder as orelhas. Cala-te, guarda, e agradece a boa fortuna de ter por amigo um grande homem, como eu, embora não me comprehendas. Has de comprehender-me. Logo que tornar a Barbacena, dar-te-hei em termos explicados, simples, adequados ao entendimento de um asno, a verdadeira noção do grande homem. Adeus; lembranças ao meu pobre Quincas Borba. Não esqueças de lhe dar leite; leite e banhos; adeus, adeus... Teu do coração

JOAQUIM BORBA DOS SANTOS.»

Rubião mal sustinha o papel nos dedos. Passados alguns segundos, advertiu que podia ser um gracejo do amigo, e releu a carta; mas a segunda leitura confirmou a primeira impressão. Não havia duvida; estava doudo. Pobre Quincas Borba! Assim, as exquisitices, a frequente alteração de humor, os impetos sem motivo, as ternuras sem proporção, não eram mais que prenuncios da ruina total do cerebro. Morria antes de morrer. Tão bom! Tão alegre! Tinha impertinencias, é verdade; mas a doença explicava-as. Rubião enxugou os olhos, humidos de commoção. Depois, veiu a lembrança do possivel legado, e ainda mais o affligiu, por lhe mostrar que bom amigo ia perder.

Quiz ainda uma vez ler a carta, agora devagar, analysando as palavras, desconjuntando-as, para ver bem o sentido e descobrir se realmente era uma troça de philosopho. Aquelle modo de o descompor brincando, era conhecido; mas, o resto confirmava a suspeita do desastre. Já quasi no fim, parou enfiado. Dar-se-hia que, provada a alienação mental do testador, nullo ficaria o testamento, e perdidas as deixas? Rubião teve uma vertigem. Estava ainda com a carta aberta nas mãos, quando viu apparecer o doutor, que vinha por noticias do enfermo; o agente do correio dissera-lhe haver chegado uma carta. Era aquella?

—É esta, mas...

—Tem alguma communicação reservada...?

—Justamente, traz uma communicação reservada, reservadissima; negocios pessoaes. Dá licença?

Dizendo isto, Rubião metteu a carta no bolso; o medico sahiu; elle respirou. Escapára ao perigo de publicar tão grave documento, por onde se podia provar o estado mental de Quincas Borba. Minutos depois, arrependeu-se, devia ter entregado a carta, sentiu remorsos, pensou em mandal-a á casa do medico. Chamou por um escravo; quando este accudiu, já elle mudára outra vez de idéa; considerou que era imprudencia; o doente viria em breve,—d'alli a dias,—perguntaria pela carta, arguil-o-hia de indiscreto, de delator... Remorsos faceis, de pouca dura.

—Não quero nada, disse ao escravo. E outra vez pensou no legado. Calculou o algarismo. Menos de dez contos, não. Compraria um pedaço de terra, uma casa, cultivaria isto ou aquillo, ou lavraria ouro. O peor é se era menos, cinco contos... Cinco? Era pouco; mas, emfim, talvez não passasse disso. Cinco que fossem, era um arranjo menor, e antes menor que nada. Cinco contos... Peor seria se o testamento ficasse nullo. Vá, cinco contos!

CAPITULO XI

No começo da semana seguinte, recebendo os jornaes da corte (ainda assignaturas do Quincas Borba) leu Rubião esta noticia em um d'elles:

«Falleceu hontem o Sr. Joaquim Borba dos Santos, tendo supportado a molestia com singular pbilosophia. Era homem de muito saber, e cançava-se em batalhar contra esse pessimismo amarello e enfesado que ainda nos ha de chegar aqui um dia; é a molestia do seculo. A ultima palavra delle foi que a dor era uma illusão, e que Pangloss não era tão tolo como o inculcou Voltaire... Já então delirava. Deixa muitos bens. O testamento está em Barbacena.»

CAPITULO XII

—Acabou de soffrer! suspirou Rubião.

Em seguida, attentando na noticia, viu que fallava de um homem que tinha apreço, consideração, a quem se attribuia uma peleja philosophica. Nenhuma allusão a demencia. Ao contrario, o final dizia que elle delirára a ultima hora, effeito da molestia. Ainda bem! Rubião leu novamente a carta, e a hypothese da troça pareceu outra vez mais verosimil. Concordou que elle tinha graça; com certeza, quiz debical-o; foi a Santo Agostinho, como iria a Santo Ambrosio ou a Santo Hilario, e escreveu uma carta enigmatica, para confundil-o, até voltar e rir-se do logro. Pobre amigo! Estava são,—são e morto. Sim, já não padecia nada. Vendo o cachorro, suspirou:

—Coitado do Quincas Borba! Se pudesse saber que o senhor morreu ...

Depois, comsigo:

—Agora, que já acabou a obrigação, vou dal-o á comadre Angelica.

CAPITULO XIII

A noticia correra a cidade, o vigario, o pharmaceutico da casa, o medico, todos mandaram saber se era verdadeira. O agente do correio, que a lera nas folhas, trouxe em mão propria ao Rubião, uma carta que viera na mala para elle; podia ser do finado, comquanto a lettra do subscripto fosse outra.

—Então afinal o homem espichou a canella? disse elle, emquanto Rubião abria a carta, corria á assignatura e lia: Braz Cubas. Era um simples bilhete:

«O meu pobre amigo Quincas Borba falleceu hontem em minha casa, onde appareceu ha tempos esfrangalhado e sordido: fructos da doença. Antes de morrer pediu-me que lhe escrevesse, que lhe désse particularmente esta noticia, e muitos agradecimentos; que o resto se faria, segundo as praxes do foro.»

Os agradecimentos fizeram empallidecer o professor; mas as praxes do foro restituiram-lhe o sangue. Rubião fechou a carta sem dizer nada; o agente fallou de uma cousa e outra, depois sahiu. Rubião ordenou a um escravo que levasse o cachorro de presente á comadre Angelica, dizendo-lhe que, como gostava de bichos, lá ia mais um; que o tratasse bem, porque elle estava acostumado a isso; finalmente que o nome do cachorro era o mesmo que o do dono, agora morto, Quincas Borba.

CAPITULO XIV

Quando o testamento foi aberto, Rubião quasi cahiu para traz. Adivinhaes porque. Era nomeado herdeiro universal do testador. Não cinco, nem dez, nem vinte contos, mas tudo, o capital inteiro, especificados os bens, casas na Côrte, uma em Barbacena, escravos, apolices, acções do Banco do Brazil e de outras instituições, joias, dinheiro amoedado, livros,—tudo finalmente passava ás mãos do Rubião, sem desvios, sem deixas a nenhuma pessoa, nem esmolas, nem dividas. Uma só condição havia no testamento, a de guardar o herdeiro comsigo o seu pobre cachorro Quincas Borba, nome que lhe deu por motivo da grande affeição que lhe tinha. Exigia do dito Rubião que o tratasse como se fosse a elle proprio testador, nada poupando em seu beneficio, resguardando-o de molestias, de fugas, de roubo ou de morte que lhe quizessem dar por maldade; cuidar finalmente como se cão não fosse, mas pessoa humana. Item, impunha-lhe a condição, quando morresse o cachorro, de lhe dar sepultura decente em terreno proprio, que cobriria de flores e plantas cheirosas; e mais desenterraria os ossos do dito cachorro, quando fosse tempo idoneo, e os recolheria a uma urna de madeira preciosa para deposital-os no lugar mais honrado da casa.

CAPITULO XV

Tal era a clausula. Rubião achou-a natural, posto que só tivesse pensamento para cuidar na herança. Espreitára uma deixa, e sae-lhe do testamento a massa toda dos bens. Não podia acabar de crer; foi preciso que lhe apertassem muito as mãos, com força,—a força dos parabens,—para não suppor que era mentira.

—Sim, senhor, lavre um tento, dizia-lhe o dono da pharmacia que ministrara os remedios ao Quincas Borba.

Herdeiro já era muito; mas universal... Esta palavra inchava as bochechas á herança. Herdeiro de tudo, nem uma colherinha menos. E quanto seria tudo? ia elle pensando. Casas, apolices, acções, escravos, roupa, louça, alguns quadros, que elle teria na côrte, porque era homem de muito gosto, fallava de cousas de arte com grande saber. E livros? devia ter muitos livros, citava muitos delles. Mas emquanto andaria tudo? Cem contos? Talvez duzentos. Era possível; trezentos mesmo não havia que admirar. Trezentos contos! trezentos! E o Rubião tinha impetos de dansar na rua. Depois aquietava-se; duzentos que fossem, ou cem, era um sonho que Deus Nosso Senhor lhe dava, mas um sonho comprido, para não acabar mais.

Aqui a ideia do cachorro pôde tomar pé no torvelinho de ideias que iam pela cabeça do nosso homem. Rubião achava que a clausula era natural, mas desnecessaria, porque elle e o cão eram dous amigos, e nada mais certo que ficarem juntos, para lembrar o terceiro amigo, o extincto, o autor da felicidade de ambos. Havia, sem duvida, umas particularidades na clausula, uma historia de urna, e não sabia que mais; mas tudo se havia de cumprir, ainda que o céo viesse abaixo... Não, com a ajuda de Deus, emendava elle. Bom cachorro! excellente cachorro!

Rubião não esquecia que muitas vezes tentára enriquecer com emprezas que morreram em flor. Suppoz-se n'aquelle tempo um desgraçado, um caipora, quando a verdade era que «mais vale quem Deus ajuda, do que quem cedo madruga.» Tanto não era impossivel enriquecer, que estava rico.

—Impossivel, o que? exclamou em voz alta. Impossivel é a Deus peccar. Deus não falta a quem promette.

Ia assim, descendo e subindo as ruas da cidade, sem guiar para casa, sem plano, com o sangue aos pulos, e as ideias baralhadas. De repente, surgiu-lhe este grave problema:—se iria viver no Rio de Janeiro, ou se ficaria em Barbacena. Sentia cocegas de ficar, de brilhar onde escurecia, de quebrar a castanha na bocca aos que antes faziam pouco caso delle, e principalmente aos que se riram da amizade do Quincas Borba. Mas logo depois, vinha a imagem do Rio de Janeiro, que elle conhecia, com os seus feitiços, movimento, theatros em toda a parte, moças bonitas, «vestidas á franceza.» Resolveu que era melhor, podia subir muitas e muitas vezes á cidade natal.

CAPITULO XVI

—Quincas Borba! Quincas Borba! eh! Quincas Borba! bradou entrando em casa.

Nada de cachorro. Só então é que elle se lembrou de havel-o mandado dar á comadre Angelica. Correu á casa da comadre, que era distante. De caminho accudiram-lhe todas as ideias feias, algumas extraordinarias. Uma ideia feia, é que o cão tivesse fugido. Outra extraordinaria é que algum inimigo, sabedor da clausula e do presente, fosse ter com a comadre, roubasse o cachorro, e o escondesse ou matasse. Neste caso, a herança... Passou-lhe uma nuvem pelos olhos; depois começou a vêr mais claro.

—Não conheço negocios de justiça, pensava elle, mas parece que não tenho nada com isso. A clausula suppõe o cão vivo ou em casa; mas se elle fugir ou morrer, não se ha de inventar um cão; logo, a intenção principal... Mas são capazes de fazer chicana os meus inimigos. Não cumprida a clausula...

Aqui a testa e as costas das mãos do nosso amigo ficaram em agua. Outra nuvem pelos olhos. E o coração batia-lhe rapido, rapido. A clausula começava a parecer-lhe extravagante. Rubião pegava-se com os santos, promettia missas, dez missas... Mas lá estava a casa da comadre. Rubião picou o passo; viu alguém; era ella? era, era ella, encostada á porta e rindo.

—Que figura que o senhor vem fazendo, meu compadre? Meio tonto, jogando com os braços.

CAPITULO XVII

—Sinhá comadre, o cachorro? perguntou Rubião com indifferença, mas pallido.

—Entre, e abanque-se, respondeu ella. Que cachorro?

—Que cachorro? tornou Rubião cada vez mais pallido. O que lhe mandei. Pois não se lembra que lhe mandei um cachorro para ficar aqui alguns dias, descançando, a ver se... em summa, um animal de muita estimação. Não é meu. Veiu para... Mas não se lembra?

—Ah! não me falle nesse bicho! respondeu ella precipitando as palavras.

Era pequena, tremia por qualquer cousa, e quando se apaixonava, engrossavam-lhe as veias do pescoço. Repetiu que lhe não fallasse do bicho.

—Mas que lhe fez elle, sinhá comadre?

—Que me fez? Que é que me faria o pobre animal? Não come nada, não bebe, chora que parece gente, e anda só com o olho para fóra, a ver se foge.

Rubião respirou. Ella continuou a dizer os enfadamentos do cachorro; elle ancioso, queria vel-o.

—Está lá no fundo, no cercado grande; está sósinho para que os outros não bulam com elle. Mas o compadre vem buscal-o? Não foi isso o que disseram. Pareceu-me ouvir que era para mim, que era dado.

—Daria cinco ou seis, se pudesse, respondeu Rubião. Este não posso; sou apenas depositario. Mas deixe estar, prometto-lhe um filho. Creia que o recado veiu torto.

Rubião ia andando; a comadre, em vez de o guiar, acompanhava-o. Lá estava o cão, dentro do cercado, deitado a distancia de um alguidar de comida. Cães, gatos, saltavam de todos os lados, cá fora; a um lado havia um gallinheiro, mais longe porcos; mais longe ainda, uma vacca deitada, somnolenta, com duas gallinhas ao pé, que lhe picavam a barriga, arrancando carrapato.

—Olhe o meu pavão! dizia a commadre.

Mas Rubião tinha os olhos no Quincas Borba, que farejava impaciente, e que se atirou para elle, logo que um moleque abriu a porta do cercado. Foi uma scena de delirio; o cachorro pagava as caricias do Rubião, latindo, pulando, beijando-lhe as mãos.

—Meu Deus! que amizade!

—Não imagina, sinhá comadre. Adeus, prometto-lhe um filho.

CAPITULO XVIII

Rubião e o cachorro, entrando em casa, sentiram, ouviram a pessoa e as vozes do finado amigo. Em quanto o cachorro farejava por toda a parte, Rubião foi sentar-se na cadeira onde estivera, quando Quincas Borba referiu a morte da avó com explicações scientificas. A memoria delle recompoz, ainda que de embrulho e esgarçadamente, os argumentos do philosopho. Pela primeira vez, attentou bem na allegoria das tribus famintas e comprehendeu a conclusão: «Ao vencedor, as batatas!» Ouviu distinctamente a voz roufenha do finado expor a situação das tribus, a luta e a razão da luta, o exterminio de uma e a victoria da outra, e murmurou baixinho:

—Ao vencedor, as batatas!

Tão simples! tão claro! Olhou para as calças de brim surrado e o rodaque cirzido, e notou que até ha pouco fora, por assim dizer, um exterminado, uma bolha extincta; mas que ora não, era um vencedor. Não havia duvida; as batatas fizeram-se para a tribu que elimina a outra, afim de transpor a montanha e ir ás batatas do outro lado. Justamente o seu caso. Ia descer de Barbacena para arrancar e comer as batatas da capital. Cumpria-lhe ser duro e implacavel, era poderoso e forte. E levantando-se de golpe, alvoroçado, ergueu os braços exclamando:

—Ao vencedor, as batatas!

Gostava da formula, achava-a engenhosa, compendiosa e eloquente, além de verdadeira e profunda. Ideou as batatas era suas varias fórmas, classificou-as pelo sabor, pelo aspecto, pelo poder nutritivo fartou-se antemão do banquete da vida. Era tempo de acabar com as raizes pobres e seccas, que apenas enganavam o estomago, triste comida de longos annos; agora o farto, o solido, o perpetuo, comer até morrer, e morrer em colchas de seda, que é melhor que trapos. E voltava á affirmação de ser duro e implacavel, e á formula da allegoria. Chegou a compor de cabeça um sinete para seu uso, com este lemma: AO VENCEDOR AS BATATAS.

Esqueceu o projecto do sinete; mas a formula viveu no espirito de Rubião, por alguns dias:—Ao vencedor as batatas Não a comprehenderia antes do testamento; ao contrario, vimos que a achou obscura e sem explicação. Tão certo é que a paizagem depende do ponto de vista, e que o melhor modo de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo na mão.

CAPITULO XIX

Não esqueça dizer que Rubião tomou a si mandar dizer uma missa por alma do finado, embora soubesse ou presentisse que elle não era catholico. Quincas Borba não dizia pulhices a respeito de padres, nem desconceituava doutrinas catholicas; mas, não fallava nem da egreja nem dos seus servos. Por outro lado, a veneração de Humanitas fazia desconfiar ao herdeiro que essa era a religião do testador. Não obstante, mandou dizer a missa, considerando que não era acto da vontade do morto, mas prece de vivos; considerou mais que seria um escandalo na cidade, se elle, nomeado herdeiro pelo defunto, deixasse de dar ao seu protector os suffragios que não se negam aos mais miseraveis e avaros deste mundo.

Se algumas pessoas deixaram de comparecer, para não assistir á gloria do Rubião, muitas outras foram,—e não da ralé,—as quaes viram a compuncção verdadeira do antigo mestre de meninos. Teve lagrimas; o vigario, quando elle lhe foi fallar á sacristia, viu-lhe ainda os olhos vermelhos. Não seriam saudades; mas a gratidão tambem chora.

CAPITULO XX

Regulados os preliminares para a liquidação da herança, Rubião tratou de vir ao Rio de Janeiro, onde se fixaria, logo que tudo estivesse acabado. Havia que fazer em ambas as cidades; mas, as cousas promettiam correr depressa.

CAPITULO XXI

Na estação de Vassouras, entraram no trem Sophia e o marido, Christiano de Almeida e Palha. Este era um rapagão de trinta e dous annos; ella ia entre vinte e sete e vinte e oito. Vieram sentar-se nos dous bancos fronteiros ao do Rubião, acommodaram as cestinhas e embrulhos de lembranças que traziam de Vassouras, onde tinham ido passar uma semana; abotoaram o guarda-pó, trocaram algumas palavras, baixo.

Depois que o trem continuou a andar, foi que o Palha reparou na pessoa do Rubião, cujo rosto, entre tanta gente carrancuda ou aborrecida, era o unico placido e satisfeito. Christiano foi o primeiro que travou conversa, dizendo-lhe que as viagens de estrada de ferro cançavam muito, ao que Rubião respondeu que sim; para quem estava acostumado a costa de burro, accrescentou, a estrada de ferro cançava e não tinha graça; não se podia negar, porém, que era um progresso.

—De certo, concordou o Palha. Progresso e grande.

—O senhor é lavrador?

—Não, senhor.

—Mora na cidade?

—De Vassouras? Não; viemos aqui passar uma semana. Moro mesmo na Corte. Não teria geito para lavrador, com quanto ache que é uma posição boa e honrada.

Da lavoura passaram ao gado, á escravatura e á politica. Christiano Palha maldisse o governo, que introduzira na falla do throno uma palavra relativa á propriedade servil; mas, com grande espanto seu, Rubião não acudiu á indignação. Era plano deste vender os escravos que o testador lhe deixára, excepto um pagem; se alguma cousa perdesse, o resto da herança cobriria o desfalque. Demais, a falla do throno, que elle tambem lêra, mandava respeitar a propriedade actual. Que lhe importavam escravos futuros, se os não compraria? O pagem ir ser forro, logo que elle entrasse na posse dos bens. Palha desconversou, e passou á politica, ás camaras, á guerra do Paraguay, tudo assumptos geraes, ao que Rubião attendia, mais ou menos. Sophia escutava apenas; movia tão sómente os olhos, que sabia bonitos, fitando-os ora no marido, ora no interlocutor.

—Vae ficar na Côrte ou volta para Barbacena? perguntou o Palha no fim de vinte minutos de conversação.

—Meu desejo é ficar, e fico mesmo, acudiu Rubião; estou cançado da provincia; quero gozar a vida. Póde ser até que vá á Europa, mas não sei ainda.

Os olhos do Palha brilharam instantaneamente.

—Faz muito bem; eu faria o mesmo, se pudesse; por agora, não posso. Provavelmente, já lá foi?

—Nunca fui. É por isso que tive cá umas idéas, ao sahir de Barbacena; ora adeus! é preciso a gente tirar a morrinha do corpo. Não sei ainda quando será; mas hei de...

—Tem razão. Dizem que ha lá muita cousa explendida; não admira, são mais velhos que nós; mas lá chegaremos; e ha cousas em que estamos a par delles, e até acima. A nossa Côrte, não digo que possa competir com Paris ou Londres, mas é bonita, verá...

—Já vi.

—Já?

—Ha muitos annos.

—Ha de achal-a melhor; tem feito progressos rapidos. Depois, quando fôr á Europa...

—A senhora já foi á Europa? interrompeu Rubião, dirigindo-se a Sophia.

—Não, senhor.

—Esqueceu-me apresentar-lhe minha mulher, acudiu Christiano. Rubião inclinou-se respeitosamente; e, voltando-se para o marido, disse-lhe sorrindo:

—Mas não me apresenta a mim? Palha sorriu tambem; entendeu que nenhum delles sabia o nome um do outro, e deu-se pressa em dizer o seu.

—Christiano de Almeida e Palha.

—Pedro Rubião de Alvarenga; mas Rubião é como todos me chamam.

A troca dos nomes pol-os ainda mais a gosto. Sophia não interveiu, porém, na conversa; afrouxou a redea aos olhos, que se deixaram ir ao sabor de si mesmos. Rubião fallava, risonho, e ouvia attento as palavras do Palha, agradecido da amizade com que o tratava um moço que elle nunca tinha visto. Chegou a dizer-lhe que bem podiam ir juntos á Europa.

—Oh! eu não poderei ir nestes primeiros annos, respondeu o Palha.

—Tambem não digo já; eu não irei tão cedo. O desejo que me deu, quando sahi de Barbacena, foi simples desejo, sem prazo; irei, não ha duvida, mas lá para diante, quando Deus quizer.

Palha acudiu, rapido:

—Ah! eu, quando digo que só daqui a annos, accrescento tambem que a vontade de Deus póde ordenar o contrario. Quem sabe se daqui a mezes? A Divina Providencia é que manda o melhor.

O gesto que acompanhou estas palavras era convicto e pio; mas, nem Sophia o viu (olhava para os pés), nem o proprio Rubião escutou as ultimas palavras. O nosso amigo estava morto por dizer a causa que o trazia á capital. Tinha a boca cheia da confidencia, prestes a entornal-a no ouvido do companheiro de viagem,—e só por um resto de escrupulo, já frouxo, é que ainda a retinha. E porque retel-a, se não era crime, e ia ser caso publico?

—Tenho de cuidar primeiro de um inventario, murmurou finalmente,

—O senhor seu pai?

—Não; um amigo. Um grande amigo, que se lembrou de fazer-me seu herdeiro universal.

—Ah!

—Universal. Creia que ha amigos neste mundo; como aquelle, poucos. Aquillo era ouro. E que cabeça! que intelligencia! que instrucção! Viveu doente os ultimos tempos, donde lhe veiu alguma impertinencia, alguns caprichos. Sabe, não? rico e doente, sem familia, tinha naturalmente exigencias... Mas ouro puro, ouro de lei. Aquillo quando estimava, estimava de uma vez. Eramos amigos, e não me disse nada. Vae um dia, quando morreu, abriu-se o testamento, e achei-me com tudo. É verdade. Herdeiro universal! Olhe que não ha uma deixa no testamento para outra pessoa. Tambem não tinha parentes. O unico parente que teria, seria eu, se elle chegasse a casar com uma irmã minha, que morreu, coitada! Fiquei só amigo; mas, elle soube ser amigo, não acha?

—Seguramente, affirmou o Palha.

Já os olhos deste não brilhavam, reflectiam profundamente. Rubião mettera-se por um matto cerrado, onde lhe cantavam todos os passarinhos da fortuna; regalava-se em fallar da herança; confessou que não sabia ainda a somma total, mas podia calcular por longe...

O melhor é não calcular nada, atalhou Christiano. Nunca será menos de cem contos?

—Upa!

—Pois d'ahi para cima, é esperar calado. E, outra cousa...

—Creio que não menos de trezentos...

—Outra cousa. Não repita o seu caso a pessoas extranhas. Agradeço-lhe a confiança que lhe mereci, mas não se exponha ao primeiro encontro. Discrição e caras serviçaes nem sempre andam juntas.

CAPITULO XXII

Chegados á estação da Côrte, despediram se quasi familiarmente. Palha offereceu a sua casa em Santa Thereza; o ex-professor ia para a Hospedaria União, e prometteram visitar-se.

CAPITULO XXIII

No dia seguinte, estava Rubião ancioso por ter ao pé de si o recente amigo da estrada de ferro, e determinou ir a Santa Thereza, á tarde; mas foi o proprio Palha que o procurou logo de manhã. Ia cumprimental-o, ver se estava bem alli, ou se preferia a casa delle, que ficava no alto. Rubião não acceitou a casa, mas acceitou o advogado, um contra-parente do Palha, que este lhe indicou, como um dos primeiros, apezar de muito moço.

—É aproveital-o, em quanto elle não exige que lhe paguem a fama.

Rubião fel-o almoçar, e acompanhou-o ao escriptorio do advogado, apezar dos protestos do cão, que queria ir tambem. Tudo se ajustou.

—Vá jantar logo commigo, em Santa Thereza, disse o Palha ao despedir-se. Não tem que hesitar, lá o espero, concluiu retirando-se.

CAPITULO XXIV

Rubião tinha vexame, por causa de Sophia; não sabia haver-se com senhoras. Felizmente, lembrou-se da promessa que a si mesmo fizera de ser forte e implacavel. Foi jantar. Abençoada resolução! Onde acharia eguaes horas? Sophia era, em casa, muito melhor que no trem de ferro. Lá vestia a capa, embora tivesse os olhos descobertos; cá trazia á vista os olhos e o corpo, elegantemente apertado em um vestido de cambraia, mostrando as mãos que eram bonitas, e um principio de braço. Demais, aqui era a dona da casa, fallava mais, desfazia-se em obsequios; Rubião desceu meio tonto.

CAPITULO XXV

Jantou lá muitas vezes. Era timido e acanhado. A frequencia attenuou a impressão dos primeiros dias. Mas trazia sempre guardado, e mal guardado, certo fogo particular, que elle não podia extinguir. Emquanto durou o inventario, e principalmente a denuncia dada por alguem contra o testamento, allegando que o Quincas Borba, por manifesta demencia, não podia testar, o nosso Rubião distrahiu-se; mas a denuncia foi destruida, e o inventario caminhou rapidamente para a conclusão. Palha festejou o acontecimento com um jantar em que tomaram parte, alem dos tres, o advogado, o procurador e o escrivão. Sophia tinha nesse dia os mais bellos olhos do mundo.

CAPITULO XXVI

—Parece que ella os compra em alguma fabrica mysteriosa, pensou Rubião, descendo o morro; nunca os vi como hoje.

Seguiu-se a mudança para a casa de Botafogo, uma das herdadas; foi preciso alfaial-a, e ainda aqui o amigo Palha prestou grandes serviços ao Rubião, guiando-o com o gosto, com a noticia, acompanhando-o ás lojas e leilões. Ás vezes, como já sabemos, iam os tres; porque ha cousas, dizia graciosamente Sophia, que só uma senhora escolhe bem. Rubião acceitava agradecido, e demorava o mais que podia as compras, consultando sem proposito, inventando necessidades, tudo para ter mais tempo a moça ao pé de si. Esta deixava-se estar, fallando, explicando, demonstrando.

CAPITULO XXVII

Tudo isso passava agora pela cabeça do Rubião, depois do café, no mesmo logar em que o deixamos sentado, a olhar para longe, muito longe. Continuava a bater com as borlas do chambre. Afinal lembrou-se de ir ver o Quincas Borba, e soltal-o. Era a sua obrigação do todos os dias. Levantou-se e foi ao jardim, ao fundo.

CAPITULO XXVIII

—Mas que peccado é este que me persegue? pensava elle andando. Ella é casada, dá-se bem com o marido, o marido é meu amigo, tem-me confiança, como ninguem... Que tentações são estas?

Parava, e as tentações paravam tambem. Elle, um Santo Antão leigo, differençava-se do anachoreta em amar as suggestões do diabo, uma vez que teimassem muito. D'ahi a alternação dos monologos:

—É tão bonita! e parece querer-me tanto! Se aquillo não é gostar, não sei o que seja gostar. Aperta-me a mão com tanto agrado, com tanto calor... Não posso affastar-me; ainda que elles me deixem, eu é que não resisto.

Quincas Borba sentiu-lhe os passos, e começou a latir. Rubião deu-se pressa em soltal-o; era soltar-se a si mesmo por alguns instantes daquella perseguição.

—Quincas Borba! exclamou, abrindo-lhe a porta.

O cão atirou-se fóra. Que alegria! que enthusiasmo! que saltos em volta do amo! chega a lamber-lhe a mão de contente, mas Rubião dá-lhe um tabefe, que lhe doe; elle recua um pouco, triste, com a cauda entre as pernas; depois o senhor dá um estalinho com os dedos, e eil-o que volta novamente com a mesma alegria.

—Socega! socega!

Quincas Borba vae atraz delle pelo jardim fóra, contorna a casa, ora andando, ora aos saltos. Saboreia a liberdade, mas não perde o amo de vista. Aqui fareja, alli pára a coçar uma orelha, acolá cata uma pulga na barriga, mas de um salto galga o espaço e o tempo perdido, e cose-se outra vez com os calcanhares do senhor. Parece-lhe que Rubião não pensa em outra cousa, que anda agora de um lado para outro unicamente para fazel-o andar tambem, e recuperar o tempo em que esteve retido. Quando Rubião estaca, elle olha para cima, á espera; naturalmente, cuida delle; é alguma ideia, algum projecto, sairem juntos, ou cousa assim agradavel. Não lhe lembra nunca a possibilidade de um pontapé ou de um tabefe. Tem o sentimento da confiança, e muito curta a memoria das pancadas. Ao contrario, os affagos ficam-lhe impressos e fixos, por mais distrahidos que sejam. Gosta de ser amado. Contenta-se de crer que o é.

A vida alli não é completamente boa nem completamente má. Ha um moleque que o lava todos os dias em agua fria, usança do diabo, a que elle se não acostuma. Jean, o cosinheiro, gosta do cão, o criado hespanhol não gosta nada. Rubião passa muitas horas fóra de casa, mas não o trata mal, e consente que vá acima, que assista ao almoço e ao jantar, que o acompanhe á sala ou ao gabinete. Brinca ás vezes com elle; fal-o pular. Se chegam visitas de alguma ceremonia, manda-o levar para dentro ou para baixo, e, resistindo elle sempre, o hespanhol toma-o a principio com muita delicadeza, mas vinga-se d'ahi a pouco, arrastando-o por uma orelha ou por uma perna, atira-o ao longe, e fecha-lhes todas as communicações com a casa:

—Perro del infierno!

Machucado, separado do amigo, Quincas Borba vae então deitar-se a um canto, e fica alli muito tempo, calado; agita-se um pouco, até que acha posição definitiva, e cerra os olhos. Não dorme, recolhe as idéas, combina, relembra; a figura vaga do finado amigo passa-lhe ao longe, muito ao longe, aos pedaços, depois mistura-se á do amigo actual, e parecem ambas uma só pessoa; depois outras ideias...

Mas já são muitas ideias,—-são ideias demais; em todo caso são ideias de cachorro, poeira de ideias,—menos ainda que poeira, explicará o leitor. Mas a verdade é que este olho que se abre de quando em quando para fixar o espaço, tão expressivamente, parece traduzir alguma cousa, que brilha lá dentro, lá muito ao fundo de outra cousa que não sei como diga, para exprimir uma parte canina, que não é a cauda nem as orelhas. Pobre lingua humana!

Afinal adormece. Então as imagens da vida brincam nelle, em sonho, vagas, recentes, farrapo d'aqui remendo d'alli. Quando accorda, esqueceu o mal; tem em si uma expressão, que não digo seja melancolia, para não aggravar o leitor. Diz-se de uma paizagem que é melancolica, mas não se diz egual cousa de um cão. A razão não pode ser outra senão que a melancolia da paizagem está em nós mesmos, emquanto que attribuil-a ao cão é deixal-a fóra de nós. Seja o que fôr, é alguma cousa que não a alegria de ha pouco; mas venha um assobio do cosinheiro, ou um gesto do senhor, e lá vae tudo embora, os olhos brilham, o prazer arregaça-lhe o focinho, e as pernas voam que parecem azas.

CAPITULO XXIX

Rubião passou o resto da manhã alegremente. Era domingo; dous amigos vieram almoçar com elle, um rapaz de vinte e quatro annos, que roia as primeiras aparas dos bens da mãe, e um homem de quarenta e quatro ou quarenta e seis, que ja não tinha que roer.

Carlos Maria chamava-se o primeiro, Freitas o segundo. Rubião gostava de ambos, mas differentemente; não era só a edade que o ligava mais ao Freitas, era tambem a indole deste homem. Freitas elogiava tudo, saudava cada prato e cada vinho com uma phrase particular, delicada, e sahia de lá com as algibeiras cheias de charutos, provando assim que os preferia a quaesquer outros. Tinha-lhe sido apresentado em certo armazem da rua Municipal, onde jantaram uma vez juntos. Contaram-lhe alli a historia do homem, a sua boa e má fortuna, mas não entraram em particularidades. Rubião torceu o nariz; era naturalmente algum naufrago, cuja convivencia não lhe traria nenhum prazer pessoal nem consideração publica. Mas o Freitas attenuou logo essa primeira impressão; era vivo, interessante, anecdotico, alegre como um homem que tivesse cincoenta contos de renda. Como Rubião fallasse das bonitas rosas que possuia, elle pediu-lhe licença para ir vel-as: era doudo por flores. Poucos dias depois appareceu lá, disse que ia ver as bellas rosas, eram poucos minutos, não se incommodasse o Rubião, se tinha que fazer. Rubião, ao contrario, gostou de ver que o homem não se esquecêra da conversação, desceu ao jardim onde elle ficara esperando, e foi mostrar-lhe as rosas. Freitas achou-as admiraveis; examinava-as com tal affinco que era preciso arrancal-o de uma roseira para leval-o a outra. Sabia o nome de todas, e ia apontando muitas especies que o Rubião não tinha nem conhecia,—apontando e descrevendo, assim e assim, deste tamanho (indicava o tamanho abrindo e arredondando o dedo pollegar e o index), e depois nomeava as pessoas que possuiam bons exemplares. Mas as do Rubião eram das melhores especies; esta, por exemplo, era rara, e aquella tambem, etc. O jardineiro ouvia-o com espanto. Tudo examinado, disse Rubião:

—Venha tomar alguma cousa. Que hade ser?

Freitas contentou-se com qualquer cousa. Chegando acima, achou a casa muito bem posta. Examinou os bronzes, os quadros, os moveis, olhou para o mar.

—Sim, senhor! disse elle, o senhor vive como um fidalgo.

Rubião sorriu; fidalgo, ainda por comparação, é palavra que se ouve bem. Veiu o creado hespanhol com a bandeija de prata, varios licores, e calices, e foi um bom momento para o Rubião. Offereceu elle mesmo, este ou aquelle licor; recommendou afinal um que lhe deram como superior a tudo que, em tal ramo, poderia existir no mercado. O Freitas sorriu incredulo.

—Talvez seja encarecimento, disse elle.

Tomou o primeiro trago, saboreou-o devagar, depois segundo, depois terceiro. No fim, pasmado, confessou que era um primor. Onde é que comprara aquillo? Rubião respondeu que um amigo, dono de um grande armazem de vinhos, o presenteara com uma garrafa; elle, porém, gostou tanto que já encommendára tres duzias. Não tardou que se estreitassem as relações. E o Freitas vae alli almoçar ou jantar muitas vezes,—mais vezes ainda do que quer ou póde,—porque é difficil resistir a um homem tão obsequioso, tão amigo de ver caras amigas.

CAPITULO XXX

Rubião perguntou-lhe uma vez:

—Diga-me, Sr. Freitas, se me désse na cabeça ir á Europa, o senhor era capaz de acompanhar-me?

—Não.

—Porque não?

—Porque eu sou amigo livre, e bem podia ser que discordassemos logo no itinerario.

—Pois tenho pena, por que o senhor é alegre.

—Engana-se, senhor; trago esta mascara risonha, mas eu sou triste. Sou um architecto de ruinas. Iria primeiro ás ruinas de Athenas; depois ao theatro, ver o Pobre das Ruinas, um drama de lagrymas depois, aos tribunaes de fallencias, onde os homens arruinados...

E Rubião ria-se; gostava daquelles modos expansivos e francos.

CAPITULO XXXI

Queres o avêsso disso, leitor curioso? Vê este outro convidado para o almoço, Carlos Maria. Se aquelle tem os modos «expansivos e francos»,—no bom sentido laudatorio,—claro é que elle os tem contrarios. Assim, não te custará nada vel-o entrar na sala, lento, frio e superior, ser apresentado ao Freitas, e estender-lhe a mão, olhando para outra parte. Freitas que já o mandou cordialmente ao diabo por causa da demora (é perto do meio dia), corteja-o agora rasgadamente, com grandes alleluias intimas.

Tambem podes vêr por ti mesmo que o nosso Rubião, se gosta mais do Freitas, tem o outro em maior consideração; esperou-o até agora, e esperal-o-ia até amanhã. Carlos Maria é que não tem consideração a nenhum delles. Examinai-o bem; é um galhardo rapaz de olhos grandes e placidos, muito senhor de si, ainda mais senhor dos outros. Olha de cima; não tem o riso jovial, mas escarninho. Agora, ao sentar-se á meza, ao pegar no talher, ao abrir o guardanapo, em tudo se vê que elle está fazendo um insigne favor ao dono da casa,—talvez dous,—o de lhe comer o almoço, e o de lhe não chamar pascacio.

E, máo grado essa disparidade de caracteres, o almoço foi alegre. Freitas devorava, com alguma pausa é certo,—e, confessando a si mesmo que o almoço, se tivesse vindo á hora marcada (onze) talvez não trouxesse o mesmo sabor. Agora orçava pelos primeiros bocados que acodem á fome do naufrago. Ao cabo de uns dez minutos, pôde começar a fallar; e fallou como de costume, cheio de riso, multiplicando-se em gestos e olhares, desfiando um rosario de ditos agudos e anecdotas picarescas. Carlos Maria ouviu a maior parte delles com seriedade, para humilhal-o, a ponto que o Rubião, que realmente achava graça no Freitas, já não ousava rir. Para o fim do almoço, Carlos Maria afrouxou um tanto a gravata do espirito, expandiu-se, referiu algumas aventuras amorosas de outros; Freitas, para lisongeal-o, pediu-lhe uma ou duas delle mesmo. Carlos Maria estourou de riso.

—Que papel quer o senhor que eu faça? disse elle.

Freitas explicou-se; não era uma apologia, eram factos, pedia-lhe factos; não havia inconveniente, nem ninguém era capaz de suppor...

—O senhor dá-se bem com a residencia aqui em Botafogo? interrompeu Carlos Maria dirigindo-se ao dono da caza.

Freitas, interrompido, mordeu os beiços, e, pela segunda vez, mandou o moço ao diabo. Collou-se ao espaldar, teso, grave, olhando para um painel da parede. Rubião respondeu que se dava bem, que a praia era linda.

—A vista é bonita, mas nunca pude tolerar o máo cheiro que ha aqui, em certas occasiões, disse Carlos Maria. Que lhe parece? continuou voltando-se para o Freitas.

Freitas desencostou-se, e disse tudo o que pensava, que um e outro podiam ter razão;—mas insistiu em que a praia, a despeito de tudo, era magnifica; fallou sem amúo, nem vexame; fez até o obsequio de chamar a attenção do Carlos Maria para um pedacinho de fructa que lhe ficára na ponta do bigode.

Chegaram ao fim, era pouco mais de uma hora. Rubião, calado, recompunha mentalmente o almoço, prato a prato, via com gosto os copos e os seus residuos de vinho, as migalhas esparsas, o aspecto final da meza, em vesperas de café. De quando em quando dava um olhar á casaca do criado. Chegou a apanhar o rosto de Carlos Maria em flagrante prazer, quando tirava as primeiras fumaças de um dos charutos que elle mandára distribuir. Nisto entrou o criado com uma cestinha coberta por um lenço de cambraia, e uma carta, que acabavam de trazer.

CAPITULO XXXII

—Quem é que manda isto? perguntou Rubião,

—D. Sophia.

Rubião não conhecia a lettra; era a primeira vez que ella lhe escrevia. Que podia ser? Via-se-lhe a commoção no rosto e nos dedos. Em quanto elle abria a carta, Freitas familiarmente descobria a cestinha: eram morangos. Rubião leu tremulo estas linhas:

«Mando-lhe estas fructinhas para o almoço, se chegarem a tempo; e, por ordem do Christiano, fica intimado a vir jantar comnosco, hoje, sem falta. Sua verdadeira amiga

Sophia».

—Que fructas são? perguntou Rubião fechando a carta.

—Morangos.

—Chegaram tarde. Morangos? repetiu elle sem saber o que dizia.

—Não é preciso córar, meu caro amigo, disse-lhe rindo o Freitas, logo que o criado saiu. Estas cousas acontecem a quem ama...

—A quem ama? repetiu Rubião corando deveras. Mas, póde ler a carta, veja...

Ia mostral-a; recuou e metteu-a no bolso. Estava fóra de si, meio confuso, meio alegre; Carlos Maria deleitou-se em dizer-lhe que elle não podia encobrir que o mimo era de alguma namorada. E não achava que reprehender; o amor era lei universal: se era alguma senhora casada, louvava-lhe a discrição...

—Mas pelo amor de Deus! interrompeu o amphytrião.

—Viuva? Estamos no mesmo caso, continuou Carlos Maria; a discrição aqui é ainda um merecimento. O maior peccado, depois do peccado, é a publicação do peccado. Eu, se fosse legislador, propunha que se queimassem todos os homens convencidos de indiscrição nestas materias; e haviam de ir para a fogueira, como os réos da Inquisição, com a differença que, em vez de sambenito, levariam uma capa de pennas de papagaio...

Freitas não podia ter-se com riso, e batia na mesa, á maneira de applauso; Rubião, meio enfiado, acudia que não era casada nem viuva...

—Solteira então? replicou o moço. Um casorio em breve? Vá, que é tempo. Morangos de noivado, continuou pegando alguns entre os dedos. Cheiram a alcova de donzella e a latim de padre.

Rubião não sabia mais que dissesse; afinal tornou atraz e explicou-se; eram da senhora de um seu amigo particular. Carlos Maria piscou o olho; Freitas interveiu dizendo que, agora, sim, senhor, estava explicado; mas que, a principio, o mysterio, o arranjo da cestinha, o ar dos proprios morangos,—morangos adulteros, disse elle, rindo,—todas essas cousas davam ao negocio um aspecto immoral e peccaminoso; mas tudo ficara acabado.

Tomaram em silencio o café; depois passaram á sala. Rubião desfazia-se em obsequios, mas preoccupado. Corridos alguns minutos, estava satisfeito com a primeira supposição dos dous convivas: a de um amor adultero; achou até que se defendera com demasiado calor. Uma vez que não dissesse o nome de ninguem, podia ter confessado que era, em verdade, um negocio intimo. Mas tambem podia acontecer que o proprio calor da negativa deixasse alguma duvida no animo dos dous, alguma suspeita... Aqui sorriu consolado.

Carlos Maria consultou o relogio; eram duas horas, ia-se embora. Rubião agradeceu-lhe muito e muito o obsequio e pediu-lhe que repetisse; podiam passar alguns domingos assim em boa palestra amigavel.

—Apoiado! bradou Freitas aproximando-se.

Tinha mettido meia duzia de charutos no bolso, e ao sair, disse ao ouvido do Rubião:

—Cá vae a lembrança do costume; seis dias de delicias, uma delicia por dia.

—Leve mais.

—Não; virei busca-los depois.

Rubião acompanhou-os ao portão de ferro. Quincas Borba, logo que ouviu vozes, correu do fundo do jardim e veiu saudal-os, particularmente ao senhor; fez festas a Carlos Maria, quiz lamber-lhe a mão; o rapaz affastou-se com repugnancia. Rubião deu um pontapé no cachorro, que o fez gritar e fugir. Afinal despediram-se todos.

—O senhor para onde vae? perguntou Carlos Maria ao Freitas.

Freitas calculou que elle iria a alguma visita para os lados de S. Clemente, e quiz acompanhal-o.

—Vou até o fim da praia, disse.

—Eu volto para traz, tornou o outro.

CAPITULO XXXIII

Rubião viu-os ir, entrou, metteu-se na sala, e ainda uma vez leu o bilhete de Sophia. Cada palavra d'essa pagina inesperada era um mysterio; a assignatura uma capitulação. Sophia apenas; nenhum outro nome da familia ou do casal. Verdadeira amiga era evidentemente uma metaphora. Quanto ás primeiras palavras: Mando-lhe estas fructinhas para o almoço respiravam a candidez de uma alma boa e generosa. Rubião viu, sentiu, palpou todas essas cousas pela unica força do instincto e deu por si beijando o papel,—digo mal, beijando o nome, o nome dado na pia de baptismo, repetido pela mãe, entregue ao marido como parte da escriptura moral do casamento, e agora roubado a todas essas origens e posses para lhe ser mandado a elle, no fim d'uma folha de papel... Sophia! Sophia! Sophia!

CAPITULO XXXIV

—Por que veiu tão tarde? perguntou-lhe Sophia, logo que elle appareceu á porta do jardim, em Santa Thereza.

—Depois do almoço, que acabou ás duas horas, estive arranjando uns papeis. Mas não é tão tarde assim, continuou Rubião vendo o relogio; são quatro horas e meia.

—Sempre é tarde para os amigos, replicou Sophia em ar de censura.

Rubião cahiu em si; mas não teve tempo de emendar a mão. Deante delle, ao pé da casa, estavam sentadas em bancos de ferro umas quatro senhoras, caladas, olhando para elle, curiosas; eram visitas de Sophia que esperavam a vinda de um capitalista Rubião. Já tinham ouvido fallar delle. Sophia foi apresental-o a ellas. Tres d'ellas eram casadas, uma solteira, ou mais que solteira. Contava trinta e nove annos, e uns olhos pretos, cansados de esperar. Era filha de um major Siqueira, que d'ahi a alguns minutos appareceu no jardim.

—O nosso Palha já me tinha fallado em Vossa Excellencia, disse o major depois de apresentado ao Rubião. Juro que é seu amigo ás direitas. Contou-me o acaso que os ligou. Geralmente, as melhores amizades são essas. Eu, em trinta e tantos, pouco antes da Maioridade, tive um amigo, o melhor dos meus amigos daquelle tempo, que conheci assim por um acaso, na botica do Bernardos, por alcunha o João das pantorrilhas... Creio que usou d'ellas, em rapaz, entre 1801 e 1812. O certo é que a alcunha ficou. A botica era na rua de S. José, ao desembocar na da Misericordia... João das pantorrilhas... Sabe que era um modo de engrossar a perna... Bernardes era o nome delle, João Alves Bernardes... Tinha a botica na rua de S. José. Conversava-se alli muito, á tarde, e á noite. Ia a gente com o seu capote, e bengalão; alguns levavam lanterna. Eu não; levava só o meu capote... Ia-se de capote; o Bernardes,—João Alves Bernardes era o nome todo delle; era filho de Maricá, mas criou-se aqui no Rio de Janeiro... João das pantorrilhas era a alcunha; diziam que elle andára de pantorrilhas, em rapaz, e parece que foi um dos petimetres da cidade. Nunca me esqueci: João das pantorrilhas... Ia-se de capote...

A alma do Rubião bracejava debaixo deste aguaceiro de palavras; mas, estava n'um becco sem sahida por um lado nem por outro. Tudo muralhas. Nenhuma porta aberta, nenhum corredor, e a chuva a cahir. Se pudesse olhar para as moças viria, ao menos, que era objecto de curiosidade de todas, principalmente da filha do major, D. Tonica; mas não podia; escutava, e o major chovia a cantaros. Foi o Palha que lhe trouxe um guarda-chuva. Sophia tinha ido dizer ao marido que o Rubião acabára de chegar; d'ahi a nada estava o Palha no jardim, e saudava o amigo, dizendo-lhe que viera tarde. O major, que explicava ainda uma vez a alcunha do boticario, abandonou a presa, e foi ter com as moças; depois sahiu á rua.

CAPITULO XXXV

As senhoras casadas eram bonitas; a mesma solteira não devia ter sido feia, aos vinte e cinco annos; mas Sophia primava entre todas ellas.

Não seria tudo o que o nosso amigo sentia, mas era muito. Era daquella casta de mulheres que o tempo, como um esculptor vagaroso, não acaba logo, e vae polindo ao passar dos longos dias... Essas esculpturas lentas são miraculosas; Sophia rastejava os vinte e oito annos; estava mais bella que aos vinte e sete; era de suppor que só aos trinta désse o esculptor os ultimos retoques, senão quizesse prolongar ainda o trabalho, por dous ou tres annos.

Os olhos, por exemplo, não são os mesmos da estrada de ferro, quando o nosso Rubião fallava com o Palha, e elles iam sublinhando a conversação... Agora, parecem mais negros, e já não sublinham nada; compõem logo as cousas, por si mesmos, em lettra vistosa e gorda, e não é uma linha nem duas, são capitulos inteiros. A boca parece mais fresca. Hombros, mãos, braços, são melhores, e ella ainda os faz optimos por meio de attitudes e gestos escolhidos. Uma feição que a dona nunca póde supportar,—cousa que o proprio Rubião achou a principio que destoava do resto da cara,—o excesso de sobrancelhas,—isso mesmo, sem ter diminuido, como que lhe dá ao todo um aspecto mui particular.

Traja bem; comprime a cintura e os seios no corpinho de lã fina côr de castanha, obra simples, e traz nas orelhas duas perolas verdadeiras,—mimo que o nosso Rubião lhe deu pela Pascoa.

A bella dama é filha de um velho funccionario publico. Casou aos vinte annos com este Christiano de Almeida e Palha, zangão da praça, que então contava vinte e cinco. O marido ganhava dinheiro, era geitoso, activo, e tinha o faro dos negocios e das situações. Em 1864, apezar de recente no officio, adivinhou,—não se póde empregar outro termo,—adivinhou as fallencias bancarias.

—Nós temos cousa, mais dia menos dia; isto anda por arames. O menor brado de alarma leva tudo.

O peior é que elle despendia todo o ganho e mais. Era dado á boa chira; reuniões frequentes, vestidos caros e joias para a mulher, adornos de casa, mórmente se eram de invenção ou adopção recente,—levavam-lhe os lucros presentes e futuros. Salvo em comidas, era escasso consigo mesmo. Ia muita vez ao theatro sem gostar delle, e a bailes, em que se divertia um pouco,—mas ia menos por si que para apparecer com os olhos da mulher, os olhos e os seios. Tinha essa vaidade singular; decotava a mulher sempre que podia, e até onde não podia, para mostrar aos outros as suas venturas particulares. Era assim um rei Candaules, mais restricto por um lado, e, por outro, mais publico.

E aqui façamos justiça á nossa dama. A principio, cedeu sem vontade aos desejos do marido; mas taes foram as admirações colhidas, e a tal ponto o uso accommoda a gente ás circumstancias, que ella acabou gostando de ser vista, muito vista, para recreio e estimulo dos outros. Não a façamos mais santa do que é, nem menos. Para as despezas da vaidade, bastavam-lhe os olhos, que eram ridentes, inquietos, convidativos, e só convidativos: podemos comparal-os á lanterna de uma hospedaria em que não houvesse commodos para hospedes. A lanterna fazia parar toda a gente, tal era a lindeza da côr, e a originalidade dos emblemas; parava, olhava e andava. Para que escancarar as janellas? Escancarou-as, finalmente; mas a porta, se assim podemos chamar ao coração, essa estava trancada e retrancada.

CAPITULO XXXVI

—Meu Deus! como é bonita! Sinto-me capaz de fazer um escandalo! pensava Rubião, á noite, ao canto de uma janella, de costas para fóra, olhando para Sophia, que olhava para elle.

Cantava uma senhora. Os tres maridos de fóra, que alli estavam de visita, interromperam o voltarete, em attenção á cantora, e vieram á sala, por alguns instantes; a cantora era mulher de um d'elles. O Palha, que a acompanhava ao piano, não via o contemplação mutua da esposa e do capitalista. Não sei se todas as outras pessoas estavam no mesmo caso. Uma dellas, sim, essa sei que os via: D. Tonica, a filha do major.

—Meu Deus! como é bonita! Sinto-me capaz de fazer um escandalo! continuava a pensar o Rubião, encostado á janella, de costas para fóra, com os olhos esquecidos na bella dama, que olhava para elle.

CAPITULO XXXVII

Entende-se bem que D. Tonica observasse a contemplação dos dous. Desde que Rubião alli chegou, não cuidou ella mais que de attrahil-o. Os seus pobres olhos de trinta e nove annos, olhos sem parceiros na terra, indo já a resvalar do cançaço na desesperança, acharam em si algumas fagulhas. Volvel-os uma e muitas vezes, requebrando-os, era o longo officio d'elles: Não lhe custou nada armal-os contra o capitalista.

O coração, meio desenganado, agitou-se outra vez. Alguma cousa lhe dizia que esse mineiro rico era destinado pelo ceu a resolver o problema do matrimonio. Rico era ainda mais do que ella pedia; não pedia riquezas, pedia um esposo. Todas as suas campanhas fizeram-se sem a consideração pecuniaria; nos ultimos tempos ia baixando, baixando, baixando; a ultima foi contra um estudantinho pobre... Mas quem sabe se o ceu não lhe destinava justamente um homem rico? D. Tonica tinha fé em sua madrinha, Nossa Senhora da Conceição, e investiu a fortaleza com muita arte e valor.

—Todas as outras são casadas, pensou ella.

Não tardou em perceber que os olhos de Rubião e os de Sophia caminhavam uns para os outros; notou, porém, que os de Sophia eram menos frequentes e menos demorados, phenomeno que lhe pareceu explicavel, pelas cautellas naturaes da situação. Podia ser que se amassem... Esta ideia affligiu-a; mas o desejo e a esperança mostraram-lhe que um homem, depois de um ou mais amores, podia muito bem vir a casar. A questão era captal-o; a idéa de casar e ter familia podia ser que acabasse de matar qualquer outra inclinação da parte delle, se alguma houvesse.

Eil-a que redobra esforços. Todas as suas graças foram chamadas a postos, e obedeceram, ainda que murchas. Gestos de ventarola, apertos de labios, olhos obliquos, marchas, contra-marchas para mostrar bem a elegancia do corpo e a cintura fina que tinha, tudo foi empregado. Era o velho formulario em acção; nada lhe rendera até alli, mas a loteria é assim mesmo: lá vem um bilhete que resgata os perdidos.

Agora, porém, á noite, por occasião do canto ao piano, é que D. Tonica deu com elles embebidos um no outro. Não teve mais duvida; não eram olhares apparentemente fortuitos, breves, como até alli, era uma contemplação que eliminava o resto da sala. D. Tonica sentiu o grasnar do velho corvo da desesperança. Quoth the Raven: NEVERMORE.

Ainda assim continuou a luta; chegou a conseguir que Rubião viesse sentar-se ao pé della, por alguns minutos, e tratou de dizer cousas bonitas, phrases que lhe ficaram de romances, outras que a propria melancholia da situação lhe ia inspirando. Rubião ouvia e respondia, mas inquieto, quando Sophia deixava a sala, e não menos quando tornava a ella. Uma das vezes a distracção foi excessiva. D. Tonica confessava-lhe que tinha muita vontade de ver Minas, principalmente Barbacena. Que taes eram os ares?

—Os ares, repetiu machinalmente o outro.

Olhava para Sophia, que estava então em pé, de costas para elle, fallando a duas senhoras sentadas. Rubião admirou-lhe ainda uma vez a figura, o busto bem talhado, estreito em baixo, largo em cima, emergindo das cadeiras amplas, como uma grande braçada de folhas sae de dentro de um vaso. A cabeça podia então dizer-se que era como uma magnolia unica, direita, espetada no centro do ramo. Era isto que Rubião mirava, quando D. Tonica lhe perguntou pelos ares de Barbacena, e elle repetiu a palavra della, sem lhe dar sequer a mesma fórma interrogativa.

CAPITULO XXXVIII

Rubião estava resoluto. Nunca a alma de Sophia pareceu convidar a delle, com tamanha instancia, a voarem juntas até ás terras clandestinas, donde ellas tornam, em geral, velhas e cançadas. Algumas não tornam. Outras param a meio caminho. Grande numero não passa da beira dos telhados...

CAPITULO XXXIX

A lua era magnifica. No morro, entre o céo e a planicie, a alma menos audaciosa era capaz de ir contra um exercito inimigo, e destroçal-o. Vede o que não seria com este exercito amigo. Estavam no jardim. Sophia enfiara o braço no delle, para irem ver a lua. Convidára D. Tonica, mas a pobre dama respondeu que tinha um pé dormente, que já ia, e não foi.

Os dous ficaram calados algum tempo. Pelas janellas abertas viam-se as outras pessoas conversando, e até os homens, que tinham acabado o voltarete. O jardim era pequeno; mas a voz humana tem todas as notas, e os dous podiam dizer poemas sem ser ouvidos.

Rubião lembrou-se de uma comparação velha, mui velha, apanhada em não sei que decima de 1850, ou qualquer outra pagina em prosa de todos os tempos. Essa ideia foi chamar aos olhos de Sophia as estrellas da terra, e ás estrellas os olhos do céu. Tudo isso baixinho e tremulo.

Sophia ficou pasmada. De subito endireitou o corpo, que até alli viera pesando no braço do Rubião. Estava tão acostumada á timidez do homem... Estrellas? olhos? Quiz dizer que não caçoasse com ella, mas não achou como dar fórma á resposta, sem rejeitar uma ideia que tambem era sua, ou então sem animal-o a ir adeante. Dahi um longo silencio.

—Com uma differença, continuou Rubião. As estrellas são ainda menos lindas que os seus olhos, e afinal nem sei mesmo o que ellas sejam; Deus, que as poz tão alto, é porque não poderão ser vistas de perto, sem perder muito da formosura... Mas os seus olhos, não; estão aqui, ao pé de mim, grandes, luminosos, mais luminosos que o céu...

Loquaz, destemido, Rubião parecia totalmente outro. Não parou alli; fallou ainda muito, mas não deixou o mesmo circulo de ideias. Tinha poucas; e a situação, apezar da repentina mudança do homem, tendia antes a cerceal-as, que a inspirar-lhe novas. Sophia é que não sabia que fizesse. Trouxera ao collo um pombinho, manso e quieto, e sae-lhe um gavião,—um gavião adunco e faminto.

Era preciso responder, fazel-o parar, dizer que ia por onde ella não queria ir, e tudo isso, sem que elle se zangasse, sem que se fosse embora... Sophia procurava alguma cousa; não achava, porque esbarrava na questão, para ella insoluvel, se era melhor mostrar que entendia, ou que não entendia. Aqui lembraram-lhe os proprios gestos della, as palavrinhas doces, as attenções particulares; concluia que, em tal situação, não podia ignorar o sentido das finezas do homem. Mas confessar que entendia, e não despedil-o de casa, eis ahi o ponto melindroso.

CAPITULO XL

Em cima, as estrellas pareciam rir daquella situação inextricavel.

Vá que a lua os visse! A lua não sabe escarnecer; e os poetas, que a acham saudosa, terão percebido que ella amou outr'ora algum astro vagabundo, que a deixou ao cabo de muitos seculos. Pode ser até que ainda se amem. Os seus eclypses (perdôe-me a astronomia) talvez não sejam mais que entrevistas amorosas. O mytho de Diana descendo a encontrar-se com Endymião bem pode ser verdadeiro. Descer é que é de mais. Que mal ha em que os dous se encontrem alli mesmo no céo, como os grilos entre as folhagens cá de baixo? A noite, mãe caritativa, encarrega-se de velar a todos.

Depois, a lua é solitaria. A solidão faz a pessoa seria. As estrellas, em chusma, são como as moças entre quinze e vinte annos, alegres, palreiras, rindo e fallando a um tempo de tudo e de todos.

Não nego que são castas; mas tanto peor,—terão rido do que não entendem... Castas estrellas! é assim que lhes chama Othello, o terrível, e Tristram Shandy, o jovial. Esses extremos do coração e do espirito estão de accordo n'um ponto: as estrellas são castas. E ellas ouviam tudo (castas estrellas!) tudo o que a boca temeraria de Rubião ia entornando na alma pasmada de Sophia.O recatado de longos mezes era agora (castas estrellas!) nada menos que um libertino. Dissereis que o Diabo andára a enganar a moça com as duas grandes azas de archanjo que Deus lhe poz; de repente, metteu-as na algibeira, e desbarretou-se para mostrar as duas pontas malignas, fincadas na testa. E rindo, daquelle riso obliquo das mãos, propunha comprar-lhe não só a alma, mas a alma e o corpo... Castas estrellas!

CAPITULO XLI

—Vamos para dentro, murmurou Sophia.

Quiz tirar o braço; mas o delle reteve-lh'o com força. Não; ir para que? Estavam alli bem, muito bem... Que melhor? Ou seria que elle a estivesse aborrecendo? Sophia acudiu que não, ao contrario, mas precisava ir fazer sala ás visitas... Ha quanto tempo estavam alli!

—Não ha dez minutos, disse o Rubião. Que são dez minutos?

—Mas podem ter dado pela nossa ausencia...

Rubião estremeceu diante deste possessivo: nossa ausencia. Achou-lhe um principio de complicidade. Concordou que podiam dar pela nossa ausencia. Tinha razão, deviam separar-se; só lhe pedia uma cousa, duas cousas; a primeira é que não esquecesse aquelles dez minutos sublimes; a segunda é que, todas as noites, ás dez horas, fitasse o Cruzeiro, elle o fitaria tambem, e os pensamentos de ambos iriam achar-se alli juntos, intimos, entre Deus e os homens.

O convite era poetico, mas só o convite. Rubião, em quanto fallava, ia devorando a moça com olhos de fogo, e segurava-lhe uma das mãos para que ella não fugisse. Nem os olhos nem o gesto tinham poesia nenhuma. Sophia esteve a ponto de dizer alguma palavra aspera, mas engoliu-a logo, ao advertir que Rubião era um bom amigo da casa. Quiz rir, mas não pôde; mostrou se então arrufada, logo depois resignada, afinal supplicante; pediu-lhe pela alma da mãe delle, que devia estar no ceu... Rubião não sabia do ceu nem da mãe, nem de nada. Que era mãe? que era ceu? parecia dizer a cara delle.

—Ai, não me quebre os dedos! suspirou baixinho a moça.

Aqui é que elle começou a voltar a si; afrouxou a pressão, sem soltar-lhe os dedos.

—Vá, disse elle, mas primeiro...

Inclinava-se para beijar a mão, quando uma voz, a alguns passos, veiu accordal-o inteiramente.

CAPITULO XLII

—Olá! estão apreciando a lua? Realmente, está deliciosa; está uma noite para namorados... Sim, deliciosa... Ha muito que não vejo uma noite assim... Olhem só para baixo, os bicos de gaz... Deliciosa! para namorados... Os namorados gostam sempre da lua. No meu tempo, em Icarahy...

Era Siqueira, o terrivel major. Rubião não sabia que dissesse; Sophia, passados os primeiros instantes readquiriu a posse de si mesma; respondeu que, em verdade, a noite era linda; depois contou que Rubião teimava em dizer que as noites do Rio não podiam comparar-se ás de Barbacena, e, a proposito disso, referira uma anecdota de um padre Mendes... Não era Mendes?

—Mendes, sim, o padre Mendes, murmurou o Rubião.

O major mal podia conter o assombro. Tinha visto as duas mãos presas, a cabeça do Rubião meia inclinada, o movimento rapido de ambos, quando elle entrou no jardim; e sae-lhe de tudo isto um padre Mendes... Olhou para Sophia; viu-a risonha, tranquilla, impenetravel. Nenhum medo, nenhum acanhamento; fallava com tal simplicidade, que o major pensou ter visto mal. Mas o Rubião estragou tudo. Vexado, calado, não fez mais que tirar o relogio para ver as horas, leval-o ao ouvido, como se lhe parecesse que não andava, depois limpal-o com o lenço, devagar, devagar, sem olhar para um nem para outro...

—Bem, conversem, vou vêr as amigas, que não podem estar sós. Os homens já acabaram o maldito voltarete?

—Já, respondeu o major olhando curiosamente para Sophia. Já, e até perguntaram por este senhor; por isso é que eu vim ver se o achava no jardim. Mas estavam aqui ha muito tempo?

—Agora mesmo, disse Sophia.

Depois, batendo carinhosamente no hombro do major,passou do jardim á casa; não entrou pela porta da sala de visitas, mas por outra que dava para a de jantar; de maneira que, quando chegou áquella pelo interior, era como se acabasse de dar ordens para o chá.

Rubião, voltando a si, ainda não achou que dizer, e comtudo urgia dizer alguma cousa. Boa ideia era a anecdota do padre Mendes; o peior é que não havia padre nem anecdota, e elle era incapaz de inventar nada. Pareceu-lhe bastante isto:

—O padre! o Mendes! Muito engraçado o padre Mendes!

—Conheci-o, disse o major sorrindo. O padre Mendes? Conheci-o; morreu conego. Esteve algum tempo em Minas?

—Creio que esteve, murmurou o outro, espantado.

—Era filho aqui de Saquarema; era um que não tinha este olho, continuou o major levando o dedo ao olho esquerdo. Conheci-o muito, se é que é o mesmo; póde ser que seja outro.

—Póde ser.

—Morreu conego. Era homem de bons costumes, mas amigo de ver moças bonitas, como se mira um painel de mestre; e que maior mestre que Deus? dizia elle. Esta D. Sophia, por exemplo, nunca elle a viu na rua que me não dissesse: Hoje vi aquella bonita senhora do Palha... Morreu conego; era filho de Saquarema... E, na verdade, tinha bom gosto... Realmente, a mulher do nosso Palha, é um primor, bella de cara e de figura; eu ainda a acho mais bem feita que bonita... Que lhe parece?

—Parece que sim...

—E boa pessoa, excellente dona de casa; continuou o major accendendo um charuto.

A luz do phosphoro deu á cara do major uma expressão de escarneo, ou de outra cousa menos dura, mas não menos adversa. Rubião sentiu correr-lhe um frio pela espinha. Teria ouvido? visto? adivinhado? Estava alli um indiscreto, um mexeriqueiro? A cara do homem dizia que sim e que não; em todo caso, era mais seguro crer no peior. Aqui temos o nosso heroe como alguem que, depois de navegar cosido com a praia, longos annos, acha-se um dia entre as ondas do alto mar; felizmente o medo tambem é official de ideias, e deu-lhe alli uma, lisongear o interlocutor. Não hesitou em achal-o gracioso e interessante, e dizer-lhe que tinha uma casa ás suas ordens, na praia de Botafogo, numero tantos. Dava-lhe muita honra em travar relações com elle. Contava poucos amigos aqui: o Palha, a quem devia grandes obsequios,—D. Sophia que era uma senhora de rara gravidade, e mais tres ou quatro pessoas. Vivia só; podia ser até que se retirasse para Minas.

—Já?

—Não digo já, mas póde ser que me não demore. Sabe que uma pessoa que viveu toda a sua vida em um logar, custa-lhe muito a acostumar-se em outro.

—Isso conforme.

—Sim, conforme... Mas é a regra.

—Regra será, mas o senhor vae ser uma excepção. A côrte é o diabo; apanha-se uma paixão como se apanha uma constipação; basta uma fresta de ar, fica-se perdido. Olhe, eu não me dava de apostar que o senhor, antes de seis mezes, está casado...

—Não viu nada, pensou Rubião.

E depois, alegre:

—Póde ser, mas tambem em Minas ha casamentos; nem lá faltam padres.

—Falta o padre Mendes, acudiu rindo o major.

Rubião sorriu constrangido, não entendendo se a palavra do major era innocente ou maliciosa. Este é que colheu as rédeas ao assumpto, e fallou de outras cousas, do tempo, da cidade, do ministerio, da guerra, e do marechal Lopez. E vede o contraste da occasião: esse aguaceiro, maior que o da entrada, pareceu um raio de sol ao nosso Rubião. Eil-o que espaneja a alma ao calor do discurso infinito do major, intercallando alguma palavrinha, se pode, e sempre cabeceando com applauso. E pensava outra vez que não, que elle não vira nada.

—Papae Papae está ahi? disse uma voz á porta que dava para o jardim.

Era D. Tonica; vinha chamal-o para irem embora. O chá estava na meza, é verdade; mas não podia esperar mais, tinha dor de cabeça, disse ella ao pae, baixinho. Depois estendeu os dedos ao Rubião; este pediu-lhe que ficasse ainda alguns minutos; o estimavel major...

—Perde o seu tempo, interrompeu o major; ella é que me governa.

Rubião offereceu-lhe a casa com instancia; exigiu até que lhe marcasse um dia, n'aquella mesma semana, mas o major acudiu que não podia dispor de dia certo; iria, logo que lhe fosse possivel. A vida delle era muito trabalhosa; tinha os negocios do arsenal, que já eram muitos, e tinha mais...

—Papae! vamos!

—Vamos. Está vendo? Não posso conversar um instante. Já te despediste? Onde está o meu chapéo?

CAPITULO XLIII

Ladeira abaixo, D. Tonica foi ouvindo o resto do discurso do pae, que mudou de assumpto, sem mudar de estylo,—diffuso e derramado. Ouvia sem entender. Ia mettida em si mesma, absorta, remoendo a noite,recompondo os olhares de Sophia e de Rubião.

Chegaram a casa na rua do Senado; o pae foi dormir, a filha não se deitou logo, deixou-se estar em uma cadeirinha, ao pé da commoda, onde tinha uma imagem da Virgem. Não trazia ideias de paz nem de candura. Sem conhecer o amor, tinha noticia do adulterio, e a pessoa de Sophia pareceu-lhe hedionda. Via nella agora um monstro, metade gente, metade cobra, e sentiu que a aborrecia, que era capaz de vingar-se exemplarmente, de dizer tudo ao marido.

—Conto-lhe tudo,—ia pensando—ou de viva voz, ou por uma carta... Carta não; digo-lhe tudo um dia, em particular.

E imaginando o colloquio, antevia o espanto do homem, depois o agastamento, depois os improperios, as palavras duras que elle havia de dizer á mulher, miseravel, indigna, vil... Todos esses nomes soavam bem aos ouvidos do seu desejo; ella fazia derivar por elles a propria colera; fartava-se de a rebaixar assim, de a pôr debaixo dos pés do marido, já que o não podia fazer por si mesma... Vil, indigna, miseravel...

Durou muito tempo essa explosão de raiva interior,—perto de vinte minutos; mas a alma cançou, e tornou a si. A imaginação não podia mais, e a realidade proxima attrahiu-lhe a vista. Olhou em volta de si, mirou a alcova de solteira, arrumadinha com arte,—dessa arte engenhosa que faz da chita seda e de um retalho velho uma fita, que recama, enlaça, alegra o mais que póde a nudez das cousas, enfeita as paredes tristes, aprimora os trastes modestos e poucos. E tudo alli parecia feito para receber um noivo amado.

Onde li eu que uma tradicção antiga fazia esperar a uma virgem de Israel, durante certa noite do anno, a concepção divina? Seja onde fôr, comparemol-a á desta outra, que só differe daquella em não ter noite fixa, mas todas, todas, todas... O vento, zunindo fóra, nunca lhe trouxe o varão esperado, nem a madrugada alva e menina lhe disse em que ponto da terra é que elle móra. Era só esperar, esperar...

Agora, aquietada a imaginação e o resentimento, mira e remira a alcova solitaria; recorda as amigas do collegio e de familia, as mais intimas, casadas todas. A derradeira dellas desposou aos trinta annos um official de marinha, e foi ainda o que reverdeceu as esperanças á amiga solteira, que não pedia tanto, posto que a farda de aspirante foi a primeira cousa que lhe seduziu os olhos, aos quinze annos... Onde iam elles? Mas lá passaram cinco annos, cumpriu os trinta e nove, e os quarenta não tardam. Quarentona, solteirona; D. Tonica teve um calafrio. Olhou ainda, recordou tudo, ergueu-se de golpe, deu duas voltas e atirou-se á cama chorando...

CAPITULO XLIV

Não vão crer que a dor aqui foi mais verdadeira que a colera; foram eguaes em si mesmas, os effeitos é que foram diversos. A colera deu em nada; a humilhação debulhou-se em lagrimas legitimas. E contudo não faltaram a esta senhora impetos de estrangular Sophia, calcal-a aos pés, arrancar-lhe o coração aos pedaços, dizendo-lhe na cara os nomes crus que attribuia ao marido... Tudo imaginações! Crede-me: ha tyrannos de intenção. Quem sabe? Na alma desta senhora passou agora um tenue fio de Caligula...

CAPITULO XLV

E em quanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monotono, tudo rindo cançativo; mas uma boa distribuição de lagrimas e polkas, soluços e sarabandas, acaba por trazer á alma das cousas a variedade necessaria, e faz-se o equilibrio da vida.

A outra que ri é a alma do Rubião. Escutai a cantiga alegre, brilhante, com que ella desce o morro, dizendo as cousas mais intimas ás estrellas,—ás castas estrellas,—especie de rhapsodia feita de uma linguagem que ninguem nunca alphabetou, por ser impossivel achar um signal que lhe exprima os vocabulos. Cá em baixo, as ruas desertas parecem-lhe povoadas, o silencio é um tumulto, e de todas as janellas debruçam-se vultos de mulher, caras bonitas e grossas sobrancelhas, todas Sophias e uma Sophia unica. Uma ou outra vez, Rubião acha que foi temerario, indiscreto, recorda o caso do jardim, a resistencia, o enfado da moça, e chega a arrepender-se; tem então calefrios, fica atterrado com a ideia de que podem fechar-lhe a porta, e cortar inteiramente as relações; tudo porque precipitou os acontecimentos. Sim, devia esperar; a occasião não era propria; visitas, muitas luzes, que ideia foi aquella de fallar de amores, sem cautellas, desbragadamente...? Achava-lhe razão; era bem feito que o despedisse logo.

—Fui um maluco! dizia em voz alta.

Não fallava do jantar, que foi lauto, nem dos vinhos, que eram generosos, nem da electricidade propria de uma sala em que ha senhoras, galantes; achava-se maluco, completamente maluco.

Logo depois, a mesma alma que se accusava, defendia-se. Sophia parecia tel-o animado ao que fez; os olhos frequentes, depois fixos, os modos, os requebros, a distincção de o mandar sentar ao pé de si, á mesa de jantar, de só cuidar delle, de lhe dizer melodiosamente cousas affaveis, que era tudo isso mais que exhortações e solicitações? E a boa alma explicava a contradicção da moça, depois, no jardim: era a primeira vez que ouvia taes palavras, fóra do gremio conjugal, e alli perto de todos, devia tremer naturalmente; demais, elle expandira-se muito, e precipitou tudo. Nenhuma graduação; devia ter ido pé ante pé, e nunca segurar-lhe as mãos com tanta força que chegasse a molestal-a. Em conclusão, achava-se grosseiro. Voltava o receio de lhe fecharem a porta; depois, tornava ás consolações da esperança, á analyse das acções da moça, á propria invenção do padre Mendes, mentira de complicidade; pensava tambem na estima do marido.. Aqui estremeceu. A estima do marido deu-lhe remorsos. Não só merecia a confiança delle, mas accrescia certa divida pecuniaria, e umas tres lettras que Rubião aceitou por elle.

—Não posso, não devo, ia dizendo a si mesmo, não é bonito ir adeante. Tambem é verdade que, a rigor, não sou autor de nada; ella é que, desde muito, me anda desafiando. Pois que desafie agora! Sim, é preciso resistir-lhe... Emprestei o dinheiro quasi sem pedido, porque elle precisava muito e eu devia-lhe obsequios; as lettras, sim, as lettras foi elle que me pediu que assignasse, mas não me pediu mais nada. Sei, que é honrado, que trabalha muito; o diabo da mulher é que fez mal em metter-se de permeio, com os lindos olhos e a figura... Que admiravel figura, meu pae do ceu! Hoje então estava divina. Quando o braço della roçava no meu, á meza, apezar da minha manga...

Confuso, incerto, ia a cuidar na lealdade que devia ao amigo, mas a consciencia partia-se em duas, uma increpando a outra, a outra explicando-se, e ambas desorientadas...

Deu por si na praça da Constituição. Viera andando á toa. Teve ideia de ir ao theatro, mas era tarde. Então dirigiu-se ao largo de S. Francisco para metter-se em um tilbury e ir para Botafogo. Achou tres, que vieram logo ao encontro delle, oferecendo os seus serviços e louvando principalmente o cavallo, um bom cavallo,—um animal excellente.

CAPITULO XLVI

O rumor das vozes e dos vehiculos acordou um mendigo que dormia nos degráos da egreja. O pobre diabo sentou-se, viu o que era, depois tomou a deitar-se, mas accordado, de barriga para o ar, com os olhos fitos no ceu. O ceu fitava-o tambem, impassivel como elle, mas sem as rugas do mendigo, nem os sapatos rotos, nem os andrajos, um ceu claro, estrellado, socegado, olympico, tal qual presidiu ás bodas de Jacob e ao suicidio de Lucrecia. Olhavam-se n'uma especie de jogo do sizo, com certo ar de majestades rivaes e tranquillas, sem arrogancia, nem baixeza, como se o mendigo dissesse ao ceu:

—Afinal, não me hasde cair em cima.

E o ceu:

—Nem tu me hasde escalar.

CAPITULO XLVII

Rubião não era philosopho; a comparação que alli fez entre os seus cuidados e os do maltrapilho apenas lhe trouxe á alma uma sombra de inveja. Aquelle malandro não pensa em nada, disse elle comsigo; d'aqui a pouco está dormindo, emquanto eu...

—Meu amo, entre que o animal é bom. Vamos lá em quinze minutos.

Os outros dois cocheiros diziam-lhe a mesma cousa, quasi por eguaes palavras:

—Meu amo, venha aqui e verá...

—Olhe o meu cavallinho...

—Faça favor; são treze minutos de viagem. Em treze minutos está em casa.

Rubião, depois de hesitar ainda, deu consigo dentro do tilbury que lhe ficava á mão, e mandou tocar para Botafogo. Então lembrou-se de um velho episodio esquecido, ou foi o episodio que lhe deu inconscientemente a solução. Uma ou outra cousa, Rubião guiou o pensamento, com o fim de escapar ás sensações daquella noite.

La iam longos annos. Elle era então muito rapaz, e pobre. Um dia, ás oito horas da manhã, sahiu de casa, que era na rua do Cano (Sete do Setembro), entrou no largo do S. Francisco do Paula; d'alli desceu pela rua do Ouvidor. Ia com alguns cuidados; morava em casa de um amigo, que começava a tratal-o como hospede de tres dias, e elle ja o era de quatro semanas. Dizem que os de trez dias cheiram mal; muito antes d'isso cheiram mal os defuntos, ao menos nestes climas quentes... Certo é que o nosso Rubião, singelo como um bom mineiro, mas desconfiado como um paulista, ia cheio de cuidados, pensando em retirar-se quanto antes. Póde crer-se que desde que sahiu de casa, entrou no largo de S. Francisco, e desceu a rua do Ouvidor até a dos Ourives, não viu nem ouviu cousa nenhuma.

Na esquina da rua dos Ourives deteve-o um ajuntamento de pessoas, e um prestito singular. Um homem, judicialmente trajado, lia em voz alta um papel, a sentença. Havia mais o juiz, um padre, soldados, curiosos. Mas, as principaes figuras eram dous pretos. Um delles, mediano, magro, tinha as mãos atadas, os olhos baixos, a côr fula, e levava uma corda enlaçada no pescoço; as pontas do baraço iam nas mãos de outro preto. Este outro olhava para a frente e tinha a cor fixa e retinta. Sustentava com galhardia a curiosidade publica. Lido o papel, o prestito seguiu pela rua dos Ourives adeante; vinha do aljube e ia para o largo do Moura.

Rubião naturalmente ficou impressionado. Durante alguns segundos esteve como agora á escolha de um tilbury. Forças intimas offereciam-lhe o seu cavallo, umas que voltasse para traz ou descesse para ir aos seus negocios,—outras que fosse ver enforcar o preto. Era tão raro ver um enforcado! Senhor, em vinte minutos está tudo findo!—Senhor, vamos tratar de outras cousas! E o nosso homem fechou os olhos, e deixou-se ir ao acaso. O acaso, em vez de leval-o pela rua do Ouvidor abaixo até á da Quitanda, torceu-lhe o caminho pela dos Ourives, atraz do prestito. Não iria ver a execução, pensou elle; era só ver a marcha do réo, a cara do carrasco, as cerimonias... Não queria ver a execução. De quando em quando, parava tudo, chegava gente ás portas e janellas, e o porteiro dos auditorios relia a sentença. Depois, o prestito continuava a andar com a mesma solemnidade. Os curiosos iam narrando o crime,—um assassinato em Mata-porcos. O assassino era dado como homem frio e feroz. A noticia dessas qualidades fez bem a Rubião; deu-lhe força para encarar o réo, sem deliquios de piedade. Não era já a cara do crime; o terror dissimulava a perversidade. Sem reparar, deu consigo no largo da execução. Já alli havia bastante gente. Com a que vinha formou-se multidão compacta.

—Voltemos, disse elle consigo.

Verdade é que o réo ainda não subira a forca; não o matariam de relance; sempre era tempo de fugir. E, dado que ficasse, porque não fecharia os olhos, como fez certo Alypio deante do expectaculo das feras? Note-se bem que Rubião nada sabia desse tal rapaz antigo; ignorava, não só que fechára os olhos, mas tambem que os abrira logo depois, devagarinho e curioso...

Eis o réo que sobe a forca. Passou pela turba um fremito. O carrasco pôz mãos á obra. Foi aqui que o pé direito de Rubião descreveu uma curva na direcção exterior, obedecendo a um sentimento de regresso; mas o esquerdo, tomado de sentimento contrario, deixou-se estar; lutaram alguns instantes... Olhe o meu cavallo!—Veja, é um rico animal!—Não seja máo!—Não seja medroso! Rubião esteve assim alguns segundos, os que bastaram para que chegasse o momento fatal. Todos os olhos fixaram-se no mesmo ponto, como os delle. Rubião não podia entender que bicho era que lhe mordia as entranhas, nem que mãos de ferro lhe pegavam da alma e a retinham alli. O instante fatal foi realmente um instante; o réo esperneou, contrahiu-se, o algoz cavalgou-o de um modo airoso e destro; passou pela multidão um rumor grande, Rubião deu um grito, e não viu mais nada.

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Litres'teki yayın tarihi:
17 ocak 2025
Hacim:
290 s. 1 illüstrasyon
ISBN:
4064066412340
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