Kitabı oku: «Gravidez por contrato»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2017 Maya Blake

© 2020 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Gravidez por contrato, n.º 1831 - aagosto 2020

Título original: Pregnant at Acosta’s Demand

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.

As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1348-490-7

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Epílogo

Se gostou deste livro…

Capítulo 1

– Não te vires, mas acabou de entrar o protagonista dos teus sonhos mais tórridos e dos meus pesadelos.

Como era de esperar, Suki Langston não pôde evitar virar a cabeça para a entrada do pub, apesar daquele aviso. Da mesa do canto em que Luis Acosta, o seu melhor amigo, e ela estavam sentados, observou como o recém-chegado, Ramón, o irmão dele, passeava o seu olhar incisivo pelo local. Quando finalmente os encontrou, semicerrou os olhos, e Suki sentiu que uma onda de calor se apoderava dela.

– Disse-te para não te virares. Não sei nem porque me incomodo em avisar-te – comentou Luis.

Suki virou-se para ele, irritada.

– Sim, porque o fizeste?

Luis, que estava sentado à frente dela, segurou-lhe as mãos e, com um brilho divertido nos olhos, disse:

– Só queria poupar o espetáculo triste de te ver a dar um salto e a tremer como um rato encurralado quando aparecesse atrás de ti. Da última vez que se encontrarem, quase desmaiaste.

Suki corou.

– Não sei porque te aguento. És o pior.

Luis riu-se e, embora ela tentasse afastar as mãos, ele não permitiu.

– Aguentas-me porque, por algum capricho do destino, nascemos no mesmo dia, porque te evitei uma reprimenda do professor Winston no primeiro dia da faculdade. E isso sem nos esquecermos do sem-fim de vezes que te salvei o rabo – indicou ele. – E é por isso que acho que devias agradecer-me, aceitando o emprego que te ofereci na empresa da minha família.

– E ter-te todo o dia em cima de mim? Não, obrigada. Estou contente a trabalhar para a Interiores Chapman porque gosto de decorar casas, não hotéis de cinco estrelas.

Ele encolheu os ombros.

– Como queiras… Um dia, vais mudar de ideias.

– Já estás a ver coisas outra vez na tua bola de cristal?

– Não preciso de uma bola de cristal para isso. Nem para saber que te darias melhor com o Ramón se enfrentasses de uma vez o facto de estares louca por ele.

Suki tentou pensar numa resposta engenhosa para o pôr no seu lugar, mas sabia que era uma batalha perdida. Ao dom duvidoso que tinha de pensar sempre na resposta perfeita depois de horas ou dias, acrescentava-se a sua timidez espantosa, que escolhia momentos como aquele para aflorar e a impedia de pensar com clareza.

E a razão por que não conseguia pensar com clareza era o homem que acabara de entrar no pub. Conseguia senti-lo a aproximar-se, conseguia… Por amor de Deus, naquele dia, fazia vinte e cinco anos! Já não era uma adolescente ingénua. Tinha de se comportar como uma adulta. Tinha de levantar a cabeça e olhar para a cara de Ramón.

Ergueu o queixo e levantou o olhar para aquele gigante de um metro e noventa e cinco, cheio de elegância e poder contido, que acabara de chegar à mesa. Tinha de parar de observar, embevecida, aquele queixo quadrado e os traços perfeitos da sua cara. Tinha de olhar para ele nos olhos…

– Feliz aniversário, maninho – disse Ramón a Luis, em espanhol.

Suki sentiu que um formigueiro lhe percorria as costas ao ouvir aquela voz aveludada. Meu Deus… Era tão bonito… Voltou a baixar a cabeça e engoliu em seco.

– Obrigado – agradeceu Luis. E depois, em inglês, acrescentou, com um sorriso irónico: – Embora já estivesse a começar a pensar que não virias.

Ramón pôs as mãos nos bolsos.

– São apenas onze – replicou, num tom leve.

Suki levantou o olhar timidamente e apanhou Ramón a olhar para a mão do irmão por cima da dela com os olhos semicerrados. Depois, olhou para ele, que fez uma careta e afastou a mão, antes de encolher os ombros.

– Enfim, senta-te – convidou Luis. – Vou buscar a garrafa de champanhe que pedi que pusessem no gelo.

Levantou-se, abraçaram-se e Ramón disse-lhe alguma coisa que Suki não ouviu bem. Vendo-os assim, um junto do outro, a semelhança entre ambos era inegável. Só se diferenciavam na cor dos olhos, Luis tinha-os castanhos e Ramón, verdes; na estatura, Ramón era mais alto do que Luis; e no cabelo, que Luis tinha castanho-escuro, enquanto o de Ramón era preto azeviche. No entanto, enquanto Luis, com a sua cara e a sua estatura, fazia com que as mulheres se virassem para olhar para ele, Ramón cativava por completo quem cometia o erro de pousar os olhos nele.

Por isso, pouco depois de Luis se afastar, e apesar de não parar de se repetir que devia olhar para a cara dele, Suki percebeu que não conseguia levantar o olhar. Para tentar disfarçar o tremor dos seus dedos, apertou as mãos contra o copo de vinho branco com sumo e ficou com falta de ar ao ver que Ramón se sentava ao seu lado em vez de ocupar o lugar de Luis, como pensara que faria.

Os segundos passaram lenta e dolorosamente enquanto os olhos de Ramón, fixos nela, estudavam o seu perfil.

– Feliz aniversário, Suki – replicou, em espanhol.

A sua voz tinha um matiz misterioso, sombrio, perigoso… Ou talvez fosse apenas por causa da sua imaginação febril. Tremeu por dentro e pôs uma madeixa atrás da orelha, antes de voltar a apertar o copo com força.

– Obrigada – murmurou, ainda com a cabeça encurvada.

– O normal é olhar para uma pessoa nos olhos quando fala contigo – repreendeu-a Ramón. – Ou a tua bebida é mais interessante do que eu?

– É. Quer dizer… Quero dizer que é o normal, não que a minha bebida é…

– Suki, olha para mim – interrompeu ele, num tom imperioso.

Não teria podido negar-se, mesmo que quisesse. Quando virou a cabeça, encontrou os seus olhos verdes intensos fixos nela.

Mal conhecia Ramón, só o vira algumas vezes. A primeira fora há três anos, quando Luis lho apresentara na cerimónia de licenciatura na universidade e, cada vez que voltava a encontrar-se com ele, era mais difícil falar. Era absurdo. Além disso, não se tratava só de que Ramón estivesse completamente fora do seu alcance, mas também estava noivo. A sortuda era Svetlana Roskova, uma modelo russa muito bonita.

No entanto, quando levantou o olhar, já não conseguiu desviar os olhos dele, nem pensar noutra coisa senão em como era incrivelmente irresistível: A pele azeitonada, o pescoço robusto, cuja base conseguia ver através dos dois botões desabotoados da sua camisa azul-marinho, os dedos compridos…

– Está melhor assim – murmurou, com satisfação. – Alegra-me não ter de passar o resto da noite a falar com o teu perfil, embora não seja verdade que possa saber-se se estão a ser sinceros se nos olharem nos olhos enquanto falam.

Suki detetou um matiz evidente de ressentimento na sua voz, envolto numa raiva mal disfarçada.

– Aconteceu alguma coisa? – aventurou. – Pareces incomodado.

Riu-se, brincalhão.

– Achas? – perguntou.

O seu tom transformou a perplexidade de Suki em irritação.

– Diverte-te que me preocupe contigo?

Os olhos verdes de Ramón estudaram o seu rosto, parando nos seus lábios.

– O meu irmão e tu estão juntos? – perguntou, sem responder à pergunta.

– Juntos? – repetiu ela, como um papagaio. – Não sei a que te…

– Queres que seja mais explícito? Foste para a cama com o meu irmão? – exigiu saber.

Suki soprou, espantada.

– Desculpa?

– Não tens de te fingir de ofendida com a minha pergunta. Basta responder.

– Olha, não sei o que se passa, mas é evidente que, esta manhã, te levantaste da cama com o pé esquerdo, portanto…

Ramón praguejou em espanhol.

– Faz o favor de não me falar de camas.

Suki franziu o sobrolho.

– Vês? Estás a dar-me razão. O que me leva a perguntar-te porque vieste ao aniversário do teu irmão se estás de tão mau humor.

Ramón cerrou os dentes.

– Porque sou leal – replicou. – Porque, quando dou a minha palavra, cumpro-a.

A fúria gélida com que pronunciou aquelas palavras deixou-a com falta de ar.

– Não estava a questionar a tua lealdade nem…

– Ainda não respondeste à minha pergunta.

Suki, que não entendia a reviravolta que a conversa dera, abanou a cabeça.

– Provavelmente, porque não te diz respeito.

– Achas que não me diz respeito? – perguntou, olhando para ela, carrancudo. – Quando o Luis te trata como se fosses dele e me devoras com os olhos?

Suki observou-o, entre espantada e indignada.

– Eu não…!

Ramón deixou escapar uma gargalhada cruel.

– Quando cheguei, fingias que não te atrevias a olhar para mim, mas, desde que te viraste, não me tiraste os olhos de cima. Vou fazer-te um aviso: Por mais que ame o meu irmão, partilhar uma mulher com outro não é para mim, portanto, bem podes esquecer a ideia de fazer um ménage à trois.

– És… Meu Deus, és desprezível! – exclamou ela.

Não sabia o que a horrorizava mais: Se o facto de perceber que se sentia atraída por ele ou de não ter o menor reparo de lho dizer na cara.

– Não terás tido uma deceção porque estraguei essa fantasia que criaste na tua mente?

– Garanto-te que não sei do que falas. E lamento se alguém te extraviou um punhado de milhões, deu um pontapé ao teu cão ou seja o que for que te deixou que tão mau humor, mas estás a um passo de levar com a minha bebida na cara, portanto, sugiro que feches a boca agora. Além disso, como te atreves a falar de trios? Não estás noivo?

Nesse momento Luis apareceu com a garrafa de champanhe e três copos.

– Meu Deus! Demorei assim tanto tempo? – perguntou. – Juraria que demorei menos de cinco minutos e volto para vos encontrar quase aos murros. Surpreendes-me, pequenina. Não o esperava de ti – disse a Suki.

Ela abanou a cabeça.

– Garanto-te que não…

– Estava a deixar algumas coisas claras à tua namorada – interveio Ramón.

Luis arqueou as sobrancelhas e desatou a rir-se.

– A minha namorada? De onde tiraste essa ideia?

Ramón relaxou levemente o queixo antes de encolher os ombros.

– Queres dizer que não é?

Suki cerrou os dentes.

– Podiam parar de falar de mim como se não estivesse aqui?

Ramón ignorou-a e ficou a olhar para o irmão, à espera de uma resposta. Luis pousou os copos e a garrafa na mesa para se sentar à frente deles.

– É como uma irmã para mim e preocupo-me com ela – respondeu Luis. – É minha amiga e, como amigo dela, considero-me no direito de dar um pontapé no rabo de quem tentar magoá-la. É…

– Está bem, está bem, entendi – interrompeu Ramón.

– Bom. Fico contente por o termos esclarecido – redarguiu Luis.

Suki virou a cabeça para Ramón.

– Ficou claro? – perguntou.

Ramón esboçou um sorriso, como se, agora que o irmão o explicara, o achasse divertido.

– Parece que interpretei mal a situação – concedeu.

– Isso é um pedido de desculpas? – inquiriu ela, com aspereza.

Os olhos dele toldaram-se.

– Se queres que me desculpe, terás de me dar um pouco mais de tempo para encontrar as palavras adequadas.

Suki não conseguia acreditar que alguém tão seguro de si próprio pudesse ficar sem palavras. Transformara o negócio dos pais, que tinham começado com alguns hotéis em Cuba, na cadeia internacional prestigiosa Acosta Hotéis, ao mesmo tempo que se entregava à sua paixão: A arte. De facto, conforme Luis lhe contara, da noite para o dia, os seus quadros e esculturas eram muito solicitados.

– Pareces de pior humor do que de costume, mano – observou Luis, enquanto retirava o alumínio que cobria a rolha da garrafa. – Quase consigo ver o fumo a sair-te pelas orelhas.

Ramón cerrou os dentes.

– É assim que queres passar o resto do teu aniversário? A fazer piadas às minhas custas?

– Só tentava relaxar um pouco o ambiente, precisamente porque é o meu aniversário, mas se não quiseres contar-me o que se passa, pelo menos, atende o maldito telemóvel. Deve estar há cinco minutos a vibrar-te no bolso.

Ramón lançou-lhe um olhar irritado, tirou o telemóvel do bolso e mal olhou para ele, antes de o desligar.

Luis ficou boquiaberto.

– Desligaste o telemóvel? Sentes-te mal? Ou estás a ignorar as chamadas de alguma pessoa em concreto?

– Luis… – murmurou Ramón, num tom de aviso.

O irmão, no entanto, não fez caso.

– Meu Deus! Não me digas que há problemas no paraíso? Os saltos de agulha fizeram a grande Svetlana tropeçar na passarela e caiu em desgraça?

As feições de Ramón endureceram.

– Ia esperar para te contar, mas, já que puxas o assunto… Desde esta manhã, já não estou noivo.

Um silêncio ensurdecedor apoderou-se da mesa. As palavras de Ramón ricocheteavam como uma bala na mente de Suki. Já não estava noivo…

O barulho brusco da rolha ao sair disparada fez Suki dar um salto. Luis passou-lhe um copo.

– Bebe, pequena. Agora, temos duas… Não, três razões para celebrar – declarou.

– Ena, alegra-me que o fim da minha relação te faça tão feliz – murmurou Ramón, num tom gélido.

Luis ficou sério.

– Desde o princípio, respeitei a vossa relação, mas sabes que sempre pensei que não era a mulher adequada para ti. Não sei se foste tu que decidiste acabar ou se foi ela, mas…

– Fui eu.

Luis sorriu.

– Então, celebra connosco ou aproveita para afogar as mágoas.

Ramón levantou o copo, desejou-lhes novamente um feliz aniversário e bebeu-o de um gole. Suki só bebeu alguns golinhos, mas Luis começou a servir um copo atrás de outro, enquanto a tensão entre Ramón e ela aumentava.

– Hora de começar muito bem o meu segundo quarto de século – anunciou Luis, de repente, levantando-se, com os olhos fixos numa ruiva espantosa, que não parava de sorrir de outra mesa.

Suki, aliviada, empurrou o copo.

– Acho que vou para casa – murmurou.

– Fica – pediu Ramón. E, antes de conseguir responder, virou-se para o irmão. – Tenho a minha limusina à espera lá fora. Diz ao motorista onde queres que vos leve.

Luis pôs-lhe a mão no ombro.

– Agradeço a oferta, mas vou ter cuidado com aquela florzinha. Não quero incomodá-la com os nossos luxos de milionários e fazer com que fuja.

Ramón encolheu os ombros.

– Tanto me faz se quiseres apanhar o autocarro. Desde que, na segunda-feira de manhã, chegues ao escritório a horas, sóbrio e inteiro…

– Vou fazê-lo, se me prometeres que garantes que a Suki chega a casa sã e salva.

Ela abanou a cabeça, agarrou na mala e levantou-se.

– Não é preciso, a sério. Chegarei bem.

E ela iria de autocarro. Tinha de vigiar os seus gastos. Pelo menos, o telemóvel não tocara desde a última vez que ligara para o hospital, há quatro horas, portanto, a mãe devia estar a passar a noite tranquila. Ou, pelo menos, era o que esperava.

– Senta-te, Suki – disse Ramón, num tom autoritário. – Não acabámos de falar.

Lançou um olhar desesperado a Luis, mas o amigo limitou-se a inclinar-se por cima da mesa para lhe dar um abraço e sussurrou-lhe ao ouvido:

– É o teu aniversário e a vida é demasiado curta. Faz uma pausa e vive um pouco. Vai fazer-te feliz e a mim muito mais.

E, antes de conseguir responder, Luis afastou-se em direção à mesa da ruiva, com aquele sorriso que fazia com que as mulheres se derretessem.

– Disse-te para te sentares – insistiu Ramón.

Dificilmente conseguiria sair da mesa com ele a bloquear a saída. Com as palavras de Luis a ecoar na sua mente, voltou a sentar-se muito devagar.

– Não sei porque queres que fique – disse. – Não tenho nada para te dizer.

Ramón voltou a estudar o seu rosto com esse olhar intenso que a deixava nervosa.

– Pensava que tinhas dito que te devia… alguma coisa.

– Um pedido de desculpas. Custa-te assim tanto dizer a palavra?

Ramón encolheu os ombros e abriu a boca para responder, mas os ocupantes de uma mesa próxima desataram a rir-se, sem dúvida, levados pelo álcool.

Ramón fez um ar de nojo, levantou-se e, desviando-se para que ela pudesse sair, disse:

– Vem comigo, podemos continuar a conversa noutro lugar.

Suki obedeceu, não porque lho ordenara, mas porque, quando estivessem fora do local, poderia inventar alguma desculpa e escapulir-se. A última coisa que queria era ter de continuar a aguentar o seu mau humor.

As experiências que tivera com o sexo oposto, incluindo o próprio pai, tinham-na levado a desconfiar dos homens em geral. Contudo, depois de conhecer Luis, pensara que devia haver mais exceções à regra como ele e, ignorando os conselhos da mãe, começara a sair com o ex-namorado, Stephen, há seis meses. Infelizmente, era um canalha que saía com várias mulheres ao mesmo tempo. E a parte dela, que ainda estava magoada, avisava-a de que devia evitar Ramón.

Por isso, ao sair do pub para o ar frio do mês de outubro, respirou fundo e começou a andar, mas, antes de ter dado três passos, Ramón agarrou-a pelo cotovelo para fazer com que parasse.

– Onde achas que vais? – inquiriu, parando à frente dela.

Embora lhe tremessem as pernas por causa da sua proximidade e da ferocidade da sua expressão, Suki olhou para ele nos olhos e respondeu:

– É tarde.

– Sei perfeitamente que horas são – murmurou ele e, quando deu um passo para ela, as suas coxas encontraram-se.

Suki perdeu a força nas pernas.

– Tenho de… Devia ir.

Ramón deu mais um passo, encostando-a contra a parede do pub, e pôs as mãos ao lado da cabeça dela, impedindo-lhe a fuga.

– Sim, talvez devesses. Mas sei que não queres ir.

Ela abanou a cabeça.

– Quero, sim.

Ramón inclinou-se para ela e sentiu a respiração quente no rosto.

– Não podes ir. Ainda tenho de me desculpar.

– Ou seja, admites que me deves um pedido de desculpas?

Ramón observou-a com olhos famintos, antes de baixar o olhar para os seus lábios.

– Sim, mas não vou oferecer-te as minhas desculpas aqui, no meio da rua.

Embora não o achasse possível nessa situação, Suki deu por si a rir-se.

– Sabes quantos anos faço hoje. Já não chupo o dedo.

Ramón afastou uma mão da parede para lhe acariciar a face.

– Posso dizer-te o que queres ouvir e deixar que te vás embora… Ou podes deixar que te leve a casa, como prometi ao Luis e, a caminho, desculpar-me como é devido. Imagino que queiras que o meu irmão fique tranquilo, não é?

– Já sou crescidinha para voltar sozinha. Tenho a certeza de que o Luis entenderá. E a única coisa que quero é um pedido de desculpas – insistiu.

– Queres mais do que isso. Queres deixar-te levar, arrancar a fruta proibida da árvore e dar-lhe uma dentada. Não é verdade, Suki?

«Não.» Abriu a boca para o dizer, mas a palavra ficou presa na garganta.

Ramón tirou a outra mão da parede e recuou lentamente, como se a tentasse com o que ia perder, e Suki não percebeu que o seguira até à beira da calçada onde uma limusina preta se aproximava e parava atrás dele. Ramón abriu a porta traseira.

– Vais entrar no carro e deixar que te leve a casa, Suki. O que acontecer depois, depende de ti. Só de ti.

Capítulo 2

– Está bem – murmurou Suki.

Assim que pronunciou essas palavras, o seu instinto disse-lhe que já não podia voltar atrás.

Ramón ajudou-a a entrar no carro, sentou-se ao seu lado e, quando se fechou a porta, perderam-se num silêncio carregado de tensão sexual.

– Onde vives? – perguntou.

Deu-lhe a morada e Ramón repetiu-a ao motorista, antes de fechar a divisória que os separava dele para que pudessem ter intimidade.

– Deve haver duas dúzias de pubs entre onde tu vives e onde o Luis vive. Porque escolheram encontrar-se num bar nos subúrbios? – perguntou, enquanto se punham a caminho.

– Um amigo da universidade acabou de herdar o pub dos seus pais. O Luis prometeu-lhe que viríamos celebrar os nossos aniversários aqui – explicou ela, aliviada com aquele tema inofensivo de conversa.

Infelizmente, no entanto, aquela pausa não durou muito tempo.

– E fazes sempre o que o meu irmão diz? – perguntou Ramón, num tom muito diferente.

Os dedos de Suki apertaram a alça da mala no colo.

– Estás a tentar causar outra discussão? Porque, se bem me lembro, ainda me deves um pedido de desculpas.

Ramón arrancou-lhe a mala, atirou-a para um lado e afundou os dedos no seu cabelo. Ao ver o brilho decidido nos seus olhos, Suki sentiu a boca seca. Ramón ficou a olhar para ela durante uma eternidade e estava tão perto dela que a respiração de ambos se misturava.

– Lamento – murmurou. – Lamento que tenha errado nas minhas conjeturas a respeito do meu irmão e de ti. E embora não esteja de muito bom humor esta noite, não é desculpa para o comportamento que tive, portanto, espero que aceites as minhas desculpas.

As suas palavras pareciam sinceras e silenciaram momentaneamente o alarme que disparou no seu cérebro.

– Está bem – balbuciou.

Os dedos de Ramón mexeram-se em círculos, massajando-lhe sensualmente o couro cabeludo, e Suki sentiu como um calorzinho aflorava na sua barriga.

– Satisfeita? – perguntou Ramón.

– Isso… Isso depende.

Ramón arqueou uma sobrancelha.

– Do quê?

– Se vais começar outra discussão ou não.

– Não, linda – murmurou ele –, estou prestes a começar algo completamente diferente e sabes.

– Eu não…

– Basta, Suki. Já te disse que o que acontecer neste momento depende de ti, mas tenho a impressão de que tenho de te dar um empurrãozinho antes de um de nós morrer de impaciência. A única palavra que quero ouvir desses lábios apetitosos agora é um «sim» ou um «não». Desejo-te… Deixando de lado o meu comportamento pouco exemplar desta noite, também me desejas? Sim ou não?

O coração de Suki subiu-lhe à garganta. Há três longos anos que estava apaixonada por aquele homem, mas, até então, nunca albergara a mínima esperança de, um dia, o ter à frente dela a dizer-lhe aquelas coisas.

Abanou a cabeça. Aquilo não era uma boa ideia… Engoliu em seco e passou a língua pelos lábios.

Os dedos de Ramón ficaram tensos e um barulho abafado escapou da sua garganta. Prestes a pronunciar a palavra que a livraria daquela loucura, Suki baixou o olhar. Não conseguia dizê-la enquanto olhava para ele. Os seus lábios estavam tão perto e ela morria por um beijo… Só um beijo…

Porque não? Assim, perceberia que não era um deus, que só o elevara para essa categoria porque se sentia sozinha e por causa das suas fantasias absurdas de contos de fadas.

– Suki…

O seu nome nos lábios de Ramón era como uma corrente que a puxava irremediavelmente.

Sentia os seios pesados e tinha uma sensação quente e húmida entre as pernas, onde parecia ter uma ansiedade incontrolável.

– Sim…

A palavra escorregou dos seus lábios. Sucumbira à tentação.

Ramón não precisou que o dissesse duas vezes. Mexendo-se depressa, puxou-a e a sua boca, premente, precipitou-se sobre a dela.

Acariciou-lhe os lábios com a língua, atrevidamente e várias vezes, antes de a urgir, sem falar, a abrir a boca. Suki cedeu, trémula, sem conseguir acreditar que Ramón Acosta estava a beijá-la.

Um formigueiro elétrico percorreu-a da cabeça aos pés, arrancando gemidos da sua garganta, que eram contidos pelos lábios de Ramón, fundidos com os seus. Tinham-na beijado antes, vezes suficientes para saber que não havia um beijo igual a outro e que havia quem beijasse melhor e pior, mas nunca a tinham feito gemer e aquele beijo não podia comparar-se com outro.

Cada carícia da língua de Ramón e dos seus lábios causava uma explosão de prazer e fazia-a apertar-se contra ele, suplicando mais.

Quando a necessidade de respirar os obrigou a afastar-se, Ramón apenas lhe concedeu uns segundos de descanso, acariciando-lhe, fascinado, os lábios com a ponta do polegar e murmurando, antes de a beijar novamente e tornar o beijo mais profundo:

– Meu Deus, és linda…

As suas palavras libertaram-na das correntes de que, até esse instante, nem sequer se sentira consciente e relaxou as mãos, com que se agarrara ao banco. Atreveu-se a levantar uma mão e pô-la na coxa de Ramón.

Ele ficou tenso e sentiu como os músculos da sua perna se endureciam. Afastou os seus lábios dos dela e estudou-a com um olhar selvagem. Atordoada, Suki tentou afastar a mão, mas ele reteve-a.

– Queres tocar em mim, não é? Então, toca.

– Ramón…

Ele respirou fundo.

– Creio que é a primeira vez que te ouço a dizer o meu nome.

– Como? – balbuciou ela.

Era impossível. Dissera-o tantas vezes… nas suas fantasias.

A outra mão de Ramón, que continuava no seu cabelo, empurrou-lhe a cabeça para ele.

– Di-lo outra vez – murmurou, contra os seus lábios.

– Ramón… – sussurrou ela, agitada.

Ele tremeu e os seus lábios voltaram a selar os dela. A mão que cobria a sua subiu pelo seu braço, parando a cada poucos centímetros para acariciar a pele nua. A meio caminho, no entanto, desceu pela anca e subiu pelas costas até à parte inferior do peito. Ficou ali, tentadoramente perto dos seus seios, que ansiavam ser acariciados, e dos seus mamilos, que tinham endurecido, pedindo a sua atenção.

A respiração de Suki tornou-se entrecortada por causa do desejo. Esfregou a palma da mão contra a coxa de Ramón e, ao subir um pouco, encontrou o vulto enorme por baixo do fecho. Ficou paralisada ao ouvi-lo a gemer, atormentado.

– Não… Não pares… Toca em mim! – ordenou ele, contra os seus lábios.

Suki fechou a mão por cima do seu membro e Ramón deixou escapar uma série de palavras em espanhol. Quando a mão dele, faminta, tocou num dos seus seios e começou a massajá-lo, Suki gemeu, extasiada.

Não sabia quando a empurrara contra o banco de couro, nem quando puxara as suas ancas até à beira do banco, tal como não sabia quando lhe abrira o fecho do vestido e lhe puxara a saia. Porém, entre beijos, deu por ele de joelhos entre as suas coxas, com as mãos a subir pelas suas pernas. Usava umas meias de seda e, quando os dedos de Ramón tocaram na franja de renda que as rematava, deixou escapar outra enxurrada acalorada de palavras em espanhol. Depois, tocou na renda com as pontas dos dedos e acariciou a pele nua por cima das meias, fazendo-a tremer. Com um último beijo, Ramón levantou a cabeça.

– Preciso de te ver, Suki – disse, num tom rouco. – De tocar em ti como tocaste em mim…

Os dedos de Ramón seguiram o rebordo das suas cuecas de renda e cetim.

Seria apenas um beijo… Claro que talvez devesse fazer caso a Luis e viver um pouco, só por essa noite… Mas as probabilidades de voltar a ver Ramón depois daquela noite eram quase…

– Devo estar a perder faculdades se a tua mente escolhe este momento para divagar – observou Ramón. – Em que estás a pensar? – exigiu saber, aproximando perigosamente o polegar do seu sexo.

Suki tremeu.

– Em… Em nada.

Ramón deslizou o polegar da outra mão pelo lado contrário.

– Não me mintas, Suki. Já tive demasiadas mentiras por hoje. Estavas a pensar noutro homem? – quis saber. – Enquanto estás aqui, com as pernas abertas à minha frente, estavas a pensar noutra pessoa? No teu namorado, talvez?

Observou-o, indignada, e tentou endireitar-se, mas ele impediu-a.

– Achas que estaria a fazer isto contigo se tivesse namorado? – inquiriu ela.

– Responde à minha pergunta – desafiou ele, num tom cada vez mais gélido.

Suki abanou a cabeça.

– Não, não tenho namorado. Estava a pensar em ti.

A tensão que se apoderara dele relaxou um pouco. Os seus olhos brilharam.

– E o que pensavas exatamente? – insistiu, deslizando os dedos por baixo do tecido fino para acariciar a pele húmida.

Suki gemeu e expirou, trémula.

– Pensava que, depois desta noite, não voltarei a ver-te.

Ramón ficou quieto e estudou o seu rosto com o sobrolho franzido.

– É o que queres? Queres divertir-te esta noite e, quando amanhecer, esquecer tudo isto? – perguntou.

Havia uma nota de censura na sua voz, mas também parecia excitado, como se não fosse totalmente contra aquela ideia. Inclinou-se para ela.

– Responde, Suki. É o que queres? – repetiu, estudando os seus olhos com esse olhar penetrante.

– Não é o que tu queres também? – perguntou ela. E, depois, forçou uma gargalhada irónica e acrescentou: – Vá lá, não vais dizer-me que imaginas que, entre nós, poderia haver mais… do que isto?

Ramón ficou calado por uns segundos, embora lhe parecesse uma eternidade. Depois, baixou o olhar para os seus ombros, para o seu decote, que deixava entrever mais agora que tinha o vestido solto, para as suas mãos inquietas, apoiadas no banco ao lado dela e, finalmente, para as pernas abertas e para as cuecas pretas que cobriam o seu sexo.

Voltou a acariciá-la com os polegares, fazendo-a tremer.

– Sim, tens razão. Não pode sair nada disto.

A pontada que Suki sentiu no peito ao ouvir as suas palavras desapareceu quando Ramón lhe arrancou as cuecas. Foi algo tão selvagem, tão erótico, que sentiu que se excitava ainda mais.

E, então, Ramón inclinou a cabeça, estava muito claro para quê. Suki, que estava a olhar para ele com uns olhos esbugalhados, pois não acreditava no que estava prestes a fazer. Pôs-lhe as mãos nos ombros para o afastar.

– Ramón, eu não… – começou a protestar. Mas perdeu-se por completo quando os lábios dele se fecharam sobre o seu sexo, causando-lhe uma descarga de prazer. – Oh! – E gemeu, enredando os dedos no cabelo curto da sua nuca.

Ramón levantou a cabeça e soprou delicadamente.

– Queres que pare?

– Não – balbuciou ela, imediatamente.

Ao ouvir a gargalhada suave de Ramón, corou, mas a vergonha passou por completo quando lhe deu prazer com lambidelas descaradas, possessivas, e deu por si a ofegar palavras incompreensíveis enquanto lhe fincava os dedos no couro cabeludo, insistindo que não parasse e suplicando mais.

Ramón acariciou-a com generosidade, fazendo-a descobrir novas cotas de prazer com a língua e os lábios. Quando finalmente se concentrou no seu clitóris inchado, Suki arqueou as costas e um grito abafado de prazer escapou da sua garganta antes de todo o seu corpo se ver sacudido por uma onda atrás de outra de êxtase verdadeiro.

Quando desceu novamente para a Terra, envolvia-a o cheiro a couro e a sexo e Ramón estava seminu. Tirara o casaco, tinha a camisa aberta e as calças desabotoadas.

O cabelo preto e brilhante estava despenteado, o que lhe dava um ar muito sensual, como se alguém, ela, certamente, embora não o recordasse, o tivesse despenteado com as mãos.

O seu coração, que mal tivera tempo para se acalmar, começou a bater mais depressa quando viu que estava a pôr um preservativo. Depois, puxou o corpete do vestido, deixando os seus braços livres. Tirou-lhe o sutiã e, ao ver seus seios generosos, balbuciou alguma coisa na sua língua, extasiado.

Como se quisesse verificar se era real, deslizou a mão desde pescoço até à barriga. Depois, agarrou os seus seios por baixo com ambas as mãos e esfregou os polegares sem piedade contra os mamilos endurecidos, antes de pôr um na boca. E Suki, que ia a caminho de outro orgasmo, gemeu ao sentir os seus dentes a tocar-lhe no mamilo.

Ramón passou-lhe um braço pela cintura e arrastou-a para baixo até as suas nádegas ficarem fora do banco. Já estava a um passo do clímax quando Ramón levantou a cabeça.

Os seus olhos verdes observaram os dela enquanto fazia com que lhe pusesse as pernas por cima dos ombros. Depois, com um gemido, agarrou-a pela cintura e penetrou-a até ao fundo com um só movimento.

O grito de prazer de Suki foi abafado por um beijo e Ramón segurou-a enquanto mexia as ancas novamente.

– Meu Deus… Estás tão húmida… – murmurou, num tom tão rouco que mal o entendia.

Dominava o seu corpo como um músico virtuoso domina o seu instrumento, levando-o até às notas mais altas e fazendo com que as mantivesse, várias vezes.

– Ramón… Ramón…

Suki não sabia quantas vezes gemeu o seu nome, mas sabia que, de repente, deu por si sentada em cima dele, que continuava de joelhos no chão. Ambos se mexiam, ofegantes e suados, quando, de repente, Suki sentiu que uma explosão de prazer se desencadeava no seu interior e ficou quieta, agarrando-se a essa sensação intensa que parecia estar a arrastá-la para as profundidades de um vórtice sem fundo.

Ramón mordeu-lhe o lóbulo da orelha antes de alcançar o clímax também e resmungou uma série incompreensível de palavras.

Ainda não tinham recuperado o fôlego quando o carro fez uma curva e, pouco depois, parou. Ramón sentou-a novamente e ajudou-a a vestir o vestido.

Incapaz de olhar para ele nos olhos ou de sufocar a sensação de desconforto que a invadia, Suki apanhou as cuecas rasgadas e o sutiã do chão do carro e pô-los na mala.

Ramón, que já acabara de se vestir, sentou-se novamente ao seu lado.

– Eu… Obrigada por me trazeres – murmurou ela, quando, ao fim de um instante, ele continuava sem dizer nada.

Ramón, em vez de responder, ficou a olhar para ela com os olhos semicerrados, portanto, apertou a mala na mão e mexeu-se no banco para a porta.

– Boas-noites, Ramón – despediu-se. – Que chegues bem a… Bom, onde quer que seja.

Esticou o braço para abrir a porta, mas ele deteve-a, agarrando-a pelo pulso, e fê-la virar-se para ele.

– Não acabámos, nem de longe – disse.

Saiu do carro com a graça de um felino e estendeu-lhe a mão. Suki hesitou. De repente, o que a esperava lá fora intimidava-a mais do que a sessão incrível de sexo que tinham acabado de partilhar no carro.

– Sai, Suki! – ordenou Ramón.

Ela saiu, dizendo-se que não estava a fazê-lo porque lho ordenara, mas porque não podia ficar para sempre na limusina.

Assim que saiu, Ramón fechou a porta e bateu com os dedos no capô do veículo. Enquanto o carro se afastava, Ramón puxou-a e deu-lhe um beijo longo e ardente que bastou para reavivar a chama do desejo.

Ramón levantou o olhar para a casa dela e disse:

– Convida-me a entrar.

E Suki fê-lo, mas, mesmo antes de atravessar a soleira do seu lar, soube que aquela não seria a experiência inesquecível que pensara que seria.

Capítulo 3

Dez meses depois

Quando Suki voltou a ler a mensagem de correio eletrónico, o tremor das suas mãos não era nada comparado com a dor que rasgava o seu coração. A meio do primeiro parágrafo, os olhos encheram-se de lágrimas e, ao pestanejar, algumas caíram pelas suas faces.

«Celebrar-se-á um serviço religioso privado em memória de Luis Acosta e dos seus pais, Clara e Pablo Acosta. Trata-se de um evento estritamente familiar a que só pode assistir quem tiver sido expressamente convidado.

Os advogados da família Acosta requerem a sua presença para a leitura do testamento do Luis e, seguidamente, uma reunião privada com o seu irmão Ramón. A sua assistência é necessária.»

Novas lágrimas amontoaram-se na garganta. Desviou o olhar daquelas palavras que não queria aceitar e entrou no arquivo em anexo. Para sua surpresa, levou-a a uma página de Internet de uma companhia aérea. Engoliu em seco. Era a confirmação de uma reserva em seu nome. A reserva de um bilhete de avião de ida e volta para Cuba em primeira classe.

A mensagem era enviada por um escritório de advogados de Havana, os mesmos advogados com quem, desesperadamente, tentara entrar em contacto desde que descobrira a notícia horrível da morte de Luis e dos pais num acidente de viação. Os mesmos advogados que, durante dois meses, se tinham recusado a retribuir as chamadas e a responder às suas cartas.

Apesar da reviravolta imprevista dos acontecimentos depois da noite que tinham passado juntos, tentara ligar a Ramón quando Luis morrera. Ao princípio, imaginando o que devia estar a sofrer com a morte dos pais e do irmão, respeitara que não atendesse nem retribuísse as chamadas.

Contudo, depois, descobrira pelas redes sociais que vários dos seus colegas de universidade tinham sido convidados para o funeral, enquanto ela se vira obrigada a chorar a morte do seu melhor amigo a sós.

Queria odiar Ramón por lhe ter negado o último adeus ao único amigo que realmente tivera, mas estava tão devastada com tudo por que passara naqueles dez meses, que era incapaz de albergar um só sentimento negativo.

Durante semanas, chorara, rezara e, depois, amaldiçoara o destino, a ciência… Depois de aceitar finalmente a dura realidade, perdera a vontade de continuar a lutar, chorara durante vários dias e achava que batera no fundo. No entanto, então, a vida também lhe arrebatara Luis e a sua morte deixara-a desolada. Mesmo assim, tivera de se manter forte pela mãe, ainda que, em certos momentos, ainda sentisse vontade de chorar, como na semana anterior, durante uma entrevista com a responsável pelo Departamento de Recursos Humanos da sua empresa.

Depois do aborto, tinham-lhe dado uma baixa de três meses. Ainda tinha um mês, mas, como as finanças começavam a enfraquecer por causa do tratamento custoso da mãe, pedira que lhe permitissem voltar mais cedo e o responsável pelo Departamento de Recursos Humanos acedera a recebê-la para falar disso. O problema foi que, a meio da conversa, começara a chorar e já não conseguira parar.

Não estranhara que a gerente tivesse sentido pena dela e lhe chamasse um táxi para a levar casa, mas nunca teria esperado a carta que recebera uns dias depois, informando-a de que lhe tinham ampliado a baixa por mais um mês com metade de salário porque não a consideravam apta para lidar com clientes no seu estado atual.

Suki estava demasiado cansada para protestar essa avaliação e, no fundo, sabia que, embora se orgulhasse de ser decoradora de interiores para uma das empresas mais prestigiosas de Londres, precisava que as feridas cicatrizassem antes de retomar a rotina.

Fechou o portátil, levantou-se da sua secretária pequena e foi à cozinha deitar fora o chá que mal bebera. Lavou a chávena de forma mecânica e pô-la no escorredor.

Lá fora, os pássaros cantavam e os insetos zumbiam enquanto Vauxhall, o distrito do sul da cidade onde vivia, desfrutava daquele dia ensolarado do mês de agosto.

Suki virou as costas à janela e levou a mão à barriga, como tantas outras vezes, recordando com dor a gravidez que não conseguira levar a bom termo. Resistiu ao impulso de ir para o quarto, aninhar-se baixo da colcha e esquecer tudo e pensou na mensagem e no bilhete de avião.

Embora estivesse disposta, há dois meses, a gastar parte das suas poucas economias para ir a Cuba e despedir-se de Luis, tivera de desistir dessa ideia quando tinham voltado a internar a mãe porque o cancro se espalhara. Tivera de usar quase todo o seu dinheiro para poder pagar os gastos médicos e essa viagem a Cuba transformara-se num sonho longínquo.

Não ia rejeitar aquele bilhete de avião, embora a ferisse um pouco no seu orgulho. Estava mais do que disposta a deixar o ego de lado em troca de poder despedir-se do amigo e, assim que voltasse ao trabalho, pagaria cada tostão a Ramón.

Essa decisão dissolveu um pouco da sua apatia e fê-la virar-se novamente para a janela para permitir que o sol acariciasse o seu rosto. No entanto, não podia parar. Tinha de se preparar para ir ao hospital, portanto, foi vestir-se e, pouco depois, saía de casa.

Quando chegou à ala em que a mãe estava internada, recuperou como pôde da dor lacerante que a assaltou. Tentou ignorar o cheiro a desinfetante e obrigou-se a esboçar um sorriso antes de entrar no quarto.

Moira Langston estava ensonada, mas, ao sentir a presença da filha, abriu os olhos.

– Disse-te para não vires visitar-me – repreendeu-a, com um suspiro. – Sei como é difícil para ti vir aqui.

Suki aproximou-se e pôs a mão por cima da da mãe.

– Não faz mal, mãe. Estou bem.

Moira fez uma careta.

– Não me mintas. Sabes que não suporto as mentiras.

Antes de ela nascer, a mãe vira a confiança traída por mil mentiras que lhe tinham devastado o coração. Era o motivo por que não deixara que outro homem se aproximasse dela, para que não pudessem voltar a magoá-la. O mesmo motivo por que sempre lhe dissera que devia proteger o seu coração a todo o custo.

Fora por isso que se zangara tanto quando lhe falara da sua gravidez, embora tivesse acabado por passar e tivesse esquecido os seus problemas de saúde para lhe dar o seu apoio e reconfortá-la quando tomara a decisão difícil de pôr fim à gravidez.

Suki engoliu em seco e apertou a mão da mãe.

– Como podia não te visitar, mãe?

A mãe suspirou e a sua expressão suavizou-se.

– Eu sei, mas sinto-me melhor, portanto, certamente, poderei ir para casa em breve.

Embora a perda notável de peso da mãe lhe dissesse o contrário, Suki não respondeu e falaram sobre coisas pouco importantes durante algum tempo, antes que os olhos da mãe pousassem nela, desconfiados.

– Algo te preocupa.

Ia abanar a cabeça, mas decidiu que seria melhor contar-lhe a verdade.

– Recebi uma mensagem de correio eletrónico dos advogados do Ramón.

Moira semicerrou os olhos.

– E? O que tinha para te dizer? – inquiriu, com aspereza.

– Os advogados enviaram-me um bilhete de ida e volta para ir a Cuba, para ir a uma missa em memória do Luis e dos pais.

– E vais aceitar?

Ela assentiu devagar.

– Quero despedir-me dele.

Moira ficou calada por um bom bocado.

– O Luis era um bom homem e essa é a única razão por que não vou dizer-te para não ires. Mas tem cuidado e mantém-te afastada do irmão. Já te magoou bastante.

A dor insuportável e a necessidade de chorar a sós a perda do bebé tinham impedido Suki de contar à mãe que Ramón nem sequer soubera que seria pai. Tencionava contar-lhe no futuro, quando não lhe rasgasse o coração cada vez que pensava no bebé.

– A senhora Baron vem visitar-te todos os dias – recordou à mãe –, e eu estarei de volta antes de dares por isso.

Como se a tivesse invocado só de dizer o seu nome, a senhora Baron, a vizinha da mãe, chegou nesse momento. Era viúva e pelo menos quinze anos mais velha do que a mãe, mas era uma mulher jovial e cheia de vida. O seu bom humor era tão contagiante que, em breve, estava a fazer a mãe rir-se. Uma hora depois, Suki deixou-as a conversar e voltou para casa.

Ao abrir a caixa de correio, encontrou várias cartas. Agradecendo aquela pequena distração, entrou em casa e dirigiu-se para a cozinha enquanto as lia. Dois dos envelopes eram propaganda, mas o terceiro fez com que o coração lhe subisse à garganta. Rasgou-o com as mãos trémulas, tirou a carta que continha e leu-a, nervosa. O gemido abafado que fugiu da sua garganta ecoou no pequeno corredor. Obrigando-se a acalmar-se, voltou a ler a carta: «Foi aceite (…) primeira consulta: 15 de setembro (…)»

Dobrou a carta e apertou-a contra o peito enquanto tentava conter as lágrimas. Tinha de parar de chorar por tudo. Chorar não resolvia os problemas. Além disso, tinham acabado de lhe conceder uma oportunidade única.

Ter de renunciar ao bebé devastara-a. No dia da alta, quando a enfermeira lhe dera um monte de folhetos que, segundo ela, poderiam ajudá-la, quase os deitara para o lixo. Tinham passado dias antes de decidir dar-lhes uma olhadela.

Ao princípio, descartara aquela associação de beneficência que se oferecia a ajudar mulheres com poucos recursos com os procedimentos de inseminação artificial, mas, depois, mudara de opinião. Embora tivesse perdido o bebé, ainda tinha amor para dar. Além disso, daquela vez, seria uma gravidez por decisão própria e faria as coisas à sua maneira, sem o receio de um homem que não ficaria ao seu lado, como acontecera à mãe.

E ela que pensara que não teria sorte porque a associação só aceitava vinte e cinco mulheres no seu programa todos os anos… Voltou a desdobrar a carta e os seus lábios curvaram-se devagar num sorriso leve enquanto absorvia aquelas palavras de salvação.

Foi buscar o portátil e levou-o para a cozinha, banhada pela luz radiante do sol. A primeira coisa que fez foi responder aos advogados de Ramón e, depois, enviou uma mensagem de confirmação da consulta na clínica de fertilidade.

Depois, com um sorriso esperançado, foi ao quarto, tirou a mala do armário e começou a fazer a bagagem.

A chuva que envolvera o avião enquanto aterravam no Aeroporto Internacional José Martí de Havana já passara quando Suki foi buscar a mala.

Entre as pessoas, viu um homem vestido de motorista que segurava um cartaz com o seu nome. Entregou-lhe a mala e seguiu-o para fora do aeroporto. Uma fileira de táxis dos anos cinquenta, pintados de um amarelo brilhante, aguardava junto da calçada. O motorista parou junto de uma limusina prateada que atraía os olhares das pessoas. Quando entrou no veículo, os vidros fumados e o cheiro a couro recordaram-lhe vividamente a limusina em que entrara naquela noite com Ramón, só que, dessa vez, estava sozinha, tal como quando lhe tinham dito que era pouco provável que o bebé sobrevivesse.

Afastou esses pensamentos sombrios e olhou para fora enquanto se punham a caminho do Hotel Acosta Havana, onde se alojaria. A maioria dos edifícios pertencia à era anterior ao comunismo e muitos estavam muito deteriorados por causa da economia menos do que florescente, mas, em cada canto, via-se esforços para devolver o antigo esplendor ao património cultural rico da cidade: Estátuas, lugares com chão de mosaico, uma catedral barroca…

Meia hora depois, paravam à entrada do hotel, um edifício impressionante de dez andares numa avenida ladeada por palmeiras, onde convergiam a Havana antiga e a moderna. O hotel, que antigamente fora um palácio barroco, fora reformado, mas saltava à vista que se fizera um esforço para respeitar ao máximo o estilo original da fachada bonita.

O interior era igualmente espetacular. No vestíbulo, que tinha suportes de vasos com palmeiras de interior e poltronas elegantes de couro, destacava-se o teto, decorado com um mapa intrincado do mundo feito com ouro, e os lustres belos.

Quando chegaram ao balcão, o motorista trocou umas palavras em espanhol com a rececionista, que chamou um empregado e se virou para ela.

– Bem-vinda a Havana, menina Langston – cumprimentou, em inglês, com um sorriso. – Esperamos que desfrute da sua estadia connosco. Este é o Pedro – acrescentou, apontando para o empregado –, vai tomar conta da sua bagagem e levá-la à sua suíte.

A suíte não poderia ser mais ampla e luxuosa. Até tinha um almoço leve no terraço banhado pelo sol. Suki, que não tinha muita fome porque estava nervosa com a ideia de voltar a ver Ramón, só comeu um pouco da salada de marisco.

Levantou-se da mesa e voltou para dentro. Viu o correio eletrónico no telemóvel e descobriu que chegara outra mensagem do escritório de advogados, notificando-a de que iriam buscá-la às nove da manhã para a levar à missa em memória de Luis e dos pais.

Passou o resto da tarde a desfazer a mala, tomou um banho e, embora fosse cedo, deitou-se na cama. Era melhor estar descansada para o que a aguardava.

Na manhã seguinte, Suki levantou-se cedo. Tomou um duche, escolheu um vestido preto simples e uns sapatos de salto a condizer e apanhou o cabelo num coque. Pediu que lhe trouxessem o pequeno-almoço, mas estava tão nervosa que lhe custava a engolir os ovos mexidos de que se serviu no prato.

De repente, bateram à porta. Olhou para o relógio. Chegavam cedo para ir buscá-la, pensou, levantando-se. Passava pouco das oito.

Apressou-se a pegar na mala de mão para ir abrir e o coração acelerou ao encontrar Ramón. Vestido de preto parecia ainda mais intimidante. Os seus olhos verdes frios fixaram-se nela.

– Não vais cumprimentar-me? – perguntou, num tom gélido.

Suki sentiu um nó no estômago ao ouvir a sua voz e não pôde evitar recordar como parecera diferente naquela noite, tão aveludada e embriagadora…

– Bom-dia, Ramón. É que… Não esperava ver-te.

– Ah, não? – inquiriu, com os seus olhos ainda fixos nela. – Quem esperavas então?

– Não sei… Eu… – Suki calou-se, irritada por estar a balbuciar como uma parva de repente. – O que quero dizer é que esperava o teu motorista, não que viesses buscar-me pessoalmente.

– Estou a ver. Receio que não tenhas outra hipótese senão suportar a minha companhia incómoda – redarguiu, com aspereza.

Suki ergueu o queixo.

– A tua companhia não me incomoda, mas imagino que tenhas coisas mais importantes para fazer do que levar-me pessoalmente à igreja – comentou, desviando-se para o deixar passar.

Ramón entrou e fechou a porta.

– Sim, tenho uma agenda muito apertada – replicou –, embora talvez estivesse impaciente por voltar a ver-te, para me certificar de que és de carne e osso.

Algo no modo como pronunciou essas palavras inquietou Suki. Nervosa, estudou o seu rosto, mas tornou-se uma máscara ininterpretável.

– A que te referes?

Ramón cerrou os dentes.

– Que consigo pensar noutras formas de descrever alguém como tu.

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