Kitabı oku: «Poder e desejo»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2017 Michelle Smart

© 2020 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Poder e desejo, n.º 104 - agosto 2020

Título original: Claiming His One-Night Baby

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

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Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1348-499-0

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Epílogo

Se gostou deste livro…

Capítulo 1

Matteo Manaserro, com os dentes cerrados e o coração alterado, olhou para o caixão que enterravam no cemitério privado do castelo Miniato.

À volta, havia centenas de entes queridos de Pietro Pellegrini: Amigos, familiares, colegas e até alguns chefes de estado com os guarda-costas a certa distância. Todos queriam despedir-se de um homem respeitado por todos pelo seu trabalho filantrópico.

Vanessa Pellegrini, a mãe de Pietro, que enterrara Fabio, o marido, na sepultura do lado há apenas um ano, deu um passo, apoiada na sua filha Francesca. Ambas agarravam umas rosas vermelhas e Francesca virou-se para esticar uma mão a Natasha, a viúva de Pietro, que olhava para a caixa de madeira como se fosse uma estátua esvaída. A brisa cessara e nem uma madeixa do cabelo loiro como o mel se mexia, o que lhe dava mais ar de estátua.

Levantou o olhar, pestanejou para voltar à realidade e segurou a mão de Francesca para se aproximar das mulheres soluçantes. Uma vez juntas, as três mulheres Pellegrini atiraram as rosas para o caixão.

Matteo fez um esforço para expirar o ar que sustivera e olhou para a viúva.

Era um dia para despedidas, para chorar e honrar um homem que merecia que o chorassem e honrassem, não era um dia para olhar para a viúva e pensar em como era bonita, mesmo de luto… Ou para pensar como queria agarrá-la pelos ombros e…

Daniele, o irmão de Pietro, mexeu-se ao seu lado. Era a vez deles.

Despediu-se de Pietro, o primo e amigo, e agradeceu por tudo. Teria saudades.

Depois de a família mais próxima, Matteo entre eles, deixar as rosas no caixão, os outros assistentes fizeram o mesmo.

Tentou não se alterar e olhou para os pais quando se aproximaram para se despedirem do sobrinho. Não olharam para o filho, mas sabia que o pai sentia o olhar dele. Não falavam há cinco anos, desde que mudara legalmente o apelido poucas semanas depois de o irmão morrer.

Demasiada morte.

Demasiados enterros.

Demasiada tristeza.

Demasiada dor.

Quando o enterro acabou e o sacerdote levou os assistentes para o castelo para o velório, Matteo ficou para trás para visitar uma sepultura na fila de trás. A lápide de mármore tinha uma inscrição muito simples.

Roberto Pellegrini

Filho amado

Nenhuma menção a ser um irmão amado.

Gerações de Pellegrini, que remontavam há seis séculos, estavam enterradas ali. Roberto, com vinte e oito anos, era o mais jovem dos últimos cinquenta anos. Baixou-se e tocou na lápide.

– Olá, Roberto, desculpa-me por não te ter visitado ultimamente, mas estive muito ocupado.

Deixou escapar uma gargalhada. Desde a morte do irmão, há cinco anos, só visitara a sepultura um punhado de vezes, mas pensara nele todos os dias e sentira a perda a todas as horas.

– Já estou a justificar-me outra vez. Não suporto ver-te aqui. Amo-te e sinto a tua falta. Só queria que soubesses.

Pestanejou para conter as lágrimas e, com o coração apertado, arrastou-se até ao castelo para se encontrar com os outros.

Tinham instalado um bar enorme na sala para o velório. Matteo reservara um quarto num hotel de Pisa para os dois dias seguintes, mas pensou que podia beber um copo de bourbon. No quarto do hotel, havia um minibar muito bem sortido e podia esvaziá-lo quando voltasse. Só ficaria o suficiente para não ser indelicado.

Acabara de beber um gole quando Francesca apareceu ao seu lado. Abraçou-a com força.

– Como estás?

Matteo tinha treze anos quando o tio Fabio e a esposa, Vanessa, o tinham acolhido em sua casa. Francesca era um bebé e ele estivera lá quando dera os seus primeiros passos, quando fizera o seu primeiro recital de música na escola, tocara trompete, e sorrira com o orgulho de um irmão mais velho quando, há uns meses, se licenciara.

Ela encolheu os ombros e agarrou-o pelo braço.

– Anda, temos de falar.

Seguiu-a por um corredor gélido. O castelo precisava de uma modernização que custava milhões. Entraram no que fora o escritório de Fabio e que, a julgar pelo cheiro a fechado, não se usava desde que ficara doente e acabara por morrer.

Daniele e Natasha, atrás dele, apareceram em poucos segundos.

Uns olhos azuis esbugalhados observaram-no e, depois, olharam para outro lado enquanto Francesca fechava a porta e lhes pedia para se sentarem ao redor da mesa ovalada.

Matteo respirou fundo e praguejou. Era o que lhe faltava, estar fechado e ao lado dela, da mulher que brincara com ele como se fosse a sua marioneta, a mulher que o fizera acreditar que sentia alguma coisa por ele e que havia um futuro para os dois quando estivera a fazer o mesmo com o primo.

Parecera-lhe que estivera durante todo o dia com ele, ainda que estivesse longe, mas, nesse momento, estava sentada à frente, tão perto que conseguiria tocar no seu rosto falacioso.

Não devia vestir-se de preto, mas de vermelho.

Infelizmente, continuava a ser a mulher mais bonita que alguma vez vira e, além disso, melhorara com os anos. Olhou com atenção para os olhos azuis intensos que o evitavam e para o seu rosto ovalado com uma cútis branca que costumava ter um tom dourado, mas que, naquele momento, estava pálido. Para encontrar algum defeito, o nariz era um pouco comprido e os lábios um pouco largos, mas, em vez de defeitos, davam personalidade à cara com que tanto sonhara.

Naquele momento, desprezava o ar que respirava.

– Para resumir, vou tratar da parte legal, o Daniele vai construí-lo e o Matteo vai tratar da parte médica. E tu, Natasha, queres tratar da publicidade?

Natasha ouviu as palavras de Francesca, mas o seu cérebro demorou uns segundos a decifrá-las.

Tentara prestar atenção durante a reunião que Francesca convocara, mas só conseguira concentrar-se nos arrebatamentos entre Daniele e a irmã.

– Poderia, sim… – sussurrou Natasha, enquanto continha a histeria.

Tinha de esquecer Matteo e ouvi-los, pensou, com desespero. Além disso, não sabia nada de publicidade.

Sabia que Francesca estava a fazer o que achava que tinha de fazer ao convidá-la para aquela reunião dos irmãos Pellegrini. Consideravam o primo Matteo como mais um irmão e presumiam que ela também quereria participar. Qualquer viúva íntegra e amante quereria participar na criação de um monumento ao marido amado e, efetivamente, queria participar.

Apesar dos seus defeitos como marido, Pietro fora sincera e desinteressadamente humanitário. Constituíra uma fundação há dez anos para construir edifícios em zonas danificadas por desastres naturais: Escolas, casas, hospitais, o que fosse preciso. Na semana antes de morrer, a ilha caribenha de Caballeros sofrera o pior furacão que se recordava e arrasara a maioria das instalações médicas da ilha. Pietro soubera imediatamente que construiria um hospital lá, mas morrera num acidente de helicóptero antes de acabar os planos.

Merecia que o recordassem e os habitantes devastados de Caballeros mereciam o hospital que Francesca queria construir.

Por isso, Natasha esforçara-se para prestar atenção. Não quisera defraudar os irmãos Pellegrini, que tinham feito parte da sua vida desde que ela recordava porque o pai e Fabio tinham sido amigos de escola. Não tivera irmãos e essa proximidade aumentara desde que comunicara que se casaria com alguém da família, mesmo durante os seis longos anos de noivado.

Ainda que, se Matteo não estivesse ali, conseguisse concentrar-se melhor.

Não houvera nenhuma vez, durante os últimos sete anos, em que não tivesse sentido o seu rancor quando estavam juntos. Era suficientemente cortês e simpático para que ninguém conseguisse perceber como a odiava, mas percebia quando se olhavam nos olhos.

Sentia-o naquele momento. Como era possível que Francesca e Daniele não percebessem? Como era possível que não flutuasse no ambiente?

Em parte, entendia porque a desprezava assim e tentara desculpar-se, mas tinham passado sete anos. Mudara e ele também. Deixara a cirurgia reconstrutiva, em que tanto lhe custara especializar-se, e começara o caminho da cirurgia… estética. Tinha vinte e oito centros por todo o mundo e a patente de uma gama de produtos para o cuidado da pele, desde a redução das cicatrizes à redução dos sinais do envelhecimento. Assim, já não era um cirurgião vocacional e transformara-se num empresário que só operava se tivesse tempo. Ele próprio criara esses produtos e juntara uma fortuna comparável com toda a fortuna dos Pellegrini e de Pietro juntas.

Até mudara de apelido e tornara-se famoso. Era alto, bonito, com o queixo firme e com um cabelo moreno e encaracolado. A imprensa sensacionalista chamava-lhe o doutor Bombom. Parecia-lhe que não podia passar à frente de um quiosque ou abrir uma página de Internet sem encontrar o seu rosto sedutor a sorrir, normalmente, de braço dado com uma modelo de lingerie.

Naquele dia, no entanto, não tinha a arrogância habitual. O seu desprezo abrasador afetava-a, mas conseguia perceber o seu desassossego. Pietro fora mais do que um primo e um irmão suplente, fora o melhor amigo de Matteo.

Gostaria de chorar por ele e por todos eles.

Matteo estacionou junto da calçada. A casa imponente estava às escuras. Fechou os olhos e deixou-se cair por cima do volante.

Podia saber-se o que estava a fazer ali?

Devia estar no quarto do hotel a beber o minibar inteiro. Organizara-o presumindo que Natasha ficaria no castelo com o resto da família. Não dormia na mesma casa do que ela desde que aceitara o pedido de Pietro.

No entanto, não ficara. Algumas horas depois da reunião para falar sobre o hospital de Pietro, despedira-se de todos com um abraço, menos dele. Segundo um acordo tácito, tácito porque não trocara mais de quatro palavras com ela em sete anos, ele manteria uma certa distância física, mas não a suficiente para que os outros pensassem que não se tinham despedido.

Levantou a cabeça outra vez, respirou fundo e desejou que o coração se apaziguasse.

Podia saber-se o que se passava? Porque não conseguia tirá-la da cabeça? Porque é que, quando estava a chorar a morte do primo e melhor amigo, as lembranças tinham voltado?

Conseguia vê-lo como se fosse naquele momento. Saíra do quarto no castelo para se encontrar com o resto da família na tenda onde ia celebrar-se a festa do trigésimo aniversário do casamento dos tios. Natasha saíra do quarto que partilhava com Francesca e que era no mesmo corredor do que o dele. O coração acelerara quando vira que usava o colar que lhe dera quando fizera dezoito anos. Odiara não poder ir à festa que dera em Inglaterra, mas era médico residente num hospital da Florida, que era muito perto da faculdade de Medicina, e houvera uma urgência no fim do turno. Houvera um acidente de viação múltiplo com muitos feridos graves que precisara da contribuição de todos. Quando acabara de atender o último ferido, já perdera o avião.

Avançara com calma e esperara que ela fizesse dezoito anos para dar o primeiro passo… físico. Então, naquele corredor gélido do castelo, quando Natasha, com um vestido azul elétrico, era o melhor exemplo de uma mulher elegante e refinada, compreendeu que já não tinha de se reprimir mais.

Todas as cartas e chamadas noturnas que tinham trocado durante meses, todos os sonhos e todas as esperanças que tinham partilhado, tudo os levara até àquele momento. O futuro de ambos começava nesse momento e tocou no colar antes de a beijar pela primeira vez.

Fora o beijo mais doce e embriagador que dera durante os seus vinte e oito anos e só Francesca o interrompera quando saíra do quarto e se dirigira para eles. Se tivesse saído três segundos antes, tê-los-ia encontrado juntos. Questionou-se o que teria feito se os tivesse surpreendido a beijar-se porque, apenas duas horas depois, à frente de trezentos convidados, Pietro levantara-se e pedira Natasha em casamento. E ela aceitara.

Matteo esfregou os olhos para apagar as lembranças. Não devia estar a pensar nisso naquele momento. Porque estava ali, na casa onde Pietro e ela tinham vivido?

Acendeu-se uma luz nas escadas.

Natasha acordara ou estivera às escuras? Francesca tinha razão ao estar preocupada com ela?

Francesca falara com ele quando tentava fugir do velório e pedira-lhe para tomar conta de Natasha enquanto ela estava em Caballeros. Estava preocupada com ela, parecia-lhe que se transformara num espetro.

Embora Natasha e Pietro só estivessem casados há um ano, tinham estado sete juntos. Talvez fosse apenas uma caçadora de fortunas, mas devia ter sentido alguma coisa por ele.

Esperava que sentisse algo sincero, pelo bem do primo. No entanto, como poderia ser quando estivera com os dois ao mesmo tempo?

Afastara-a completamente da sua vida, menos em algumas ocasiões familiares e ineludíveis. Bloqueara o seu número de telefone, apagara todas as mensagens e queimara as cartas antiquadas escritas à mão. Para quando tinha de estar com ela, aperfeiçoara a arte de a ignorar sem que ninguém percebesse, menos ela.

Devia ter mentido a Francesca e ter-lhe dito que tinha de voltar a Miami antes do previsto, mas assentira e prometera que passaria por lá se tivesse tempo… Então, porque fora lá quando saíra do castelo disposto a voltar ao hotel?

Natasha abriu a porta do escritório de Pietro e engoliu em seco antes de entrar. Acendeu a luz um instante depois. Depois de passear pela casa completamente às escuras, os seus olhos demoraram um pouco a habituar-se à luz. Não sabia o que procurava, não sabia nada. Sentia-se perdida e sozinha.

Ficara no velório para não parecer ingrata, mas o consolo dos outros chegara a ser cansativo, tal como ter de ver Matteo. O pior fora quando a própria mãe se afastara com ela para lhe perguntar se havia alguma possibilidade de estar grávida.

Tivera de se ir embora antes de perder a cabeça.

O resto dos Pellegrini ficaria no castelo e, com um ar compreensivo e preocupado, aceitara a sua explicação de que queria estar sozinha.

Face à sua insistência, todos os empregados da sua casa ficaram no velório.

Era a primeira vez que estava completamente sozinha na casa desde que lhe tinham dado a notícia terrível.

Como uma intrusa na sala que fora a guarida do marido, olhou para as paredes cheias dos livros que ele lera. Na mesa, estavam umas pastas que trouxera do seu escritório de advogados ou da fundação que tanto o orgulhava. Ao lado, via-se o livro grosso com capa de couro sobre Livingstone e Stanley que lhe oferecera no seu aniversário recente. Um marcador assinalava que já lera um terço.

Com um nó na garganta, pegou no livro, levou-o ao peito, deixou-se cair com um gemido que não soube de onde brotou e chorou pelo homem que lhe mentira, e a todos, durante anos, mas que fizera tantas coisas boas pela humanidade.

Pietro nunca acabaria aquele livro e também não veria o hospital que os irmãos iam construir em honra dele. Nunca entraria no carro que contratara no dia antes de morrer. Nunca teria a oportunidade de dizer à família quem realmente fora.

– Pietro… – sussurrou ela, entre lágrimas. – Estejas onde estiveres, espero que tenhas finalmente encontrado paz.

Ouviu a campainha da porta. Enrolou-se e tapou as orelhas. Fosse quem fosse, continuou a tocar até não conseguir ignorá-lo mais. Limpou as lágrimas, levantou-se do chão do escritório e desceu as escadas, segurando-se ao corrimão, enquanto se preparava para o que teria de dizer ao visitante inesperado para se livrar dele.

Rezou para que não fossem os pais.

Virou a chave e entreabriu a porta para olhar para fora. Convencida de que estava a alucinar, abriu-a por completo.

O coração parou.

Ali estava Matteo. Tirara a gravata preta e a camisa branca abria-se no pescoço. Tinha a respiração entrecortada e os dentes cerrados e a desolação refletia-se nos olhos.

Entreolharam-se, mas nenhum dos dois falou.

Natasha sentiu uma pressão no peito e o tempo parou.

Ficaram assim durante uma eternidade, falando-se apenas com os olhos. Viu uma centena de coisas nos dele: Diferentes formas de dor, desdita, raiva e algo mais, algo que não voltara a ver desde antes de a abraçar e de lhe dar o único beijo que tinham trocado, há sete anos.

Era a primeira vez que o via a sós desde aquele beijo.

Nunca esqueceria a expressão nos seus olhos quando, duas horas depois, aceitara o pedido de Pietro e os seus olhares se encontraram através da tenda. Ficaria gravada no coração até ao dia da sua morte e sempre se arrependeria de tudo o que perdera.

Mexeu-se como se tivesse vontade própria, deu um passo e pôs-lhe uma mão na face quente.

Ele não se alterou.

Matteo viu uns olhos inchados de tanto chorar, mas que o observavam com um brilho quase suplicante, e esqueceu tudo o que tencionava dizer. Nem sequer se lembrava de como saíra do carro.

Sentia a mão delicada e trémula na face, o calor penetrava a pele e só pôde observar a cara com que sonhara.

Uma força irresistível apoderou-se dele. De repente, não pôde recordar porque a odiava, todos os pensamentos desapareceram e só conseguia ver Natasha. Há quase oito anos, quando a vira pela primeira vez, soubera que a sua vida não voltaria a ser igual.

Capítulo 2

Ficaram isolados do mundo e Matteo, sem ter dito nada, entrou, fechou a porta com um pé e pegou nela ao colo.

Ela introduziu os dedos entre o cabelo da sua nuca sem deixar de olhar para ele nos olhos enquanto subia as escadas e a levava para o quarto. Uma vez lá, deitou-a na cama, fechou os olhos e beijou-a nos lábios.

Esse sabor…

Quando ela afastou os lábios e ele se apoderou da sua boca com a língua, foi dominado pelo sabor doce e embriagador que não esquecera e soube que estava perdido.

Despiram-se entre beijos embriagadores e atiraram as roupas à sorte, desejavam estar nus e colar os seus corpos. Matteo esticou-lhe o cabelo com as mãos e devorou-a.

Não pensavam nem falavam, só estavam dominados por essa loucura incontrolável.

Segurou os seios pequenos e perfeitos e levou-os à boca. O gemido de prazer fez com que o sangue bulisse. Acariciou-lhe a barriga com as mãos e com a língua, deleitou-se com ela. Nunca vivera uma coisa dessas, algo tão devastador e primitivo, essa necessidade de a saborear e de a marcar.

Natasha sentia-se à deriva num mundo onde não estivera antes. Matteo era a sua âncora e agarrou-se a ele como se fosse a única coisa a que podia agarrar-se. Acariciava toda a pele que podia com as mãos ávidas.

O seu primeiro beijo, há sete anos, despertara algo nela, um calor que aumentava devagar, até a direção da sua vida o sufocar. Naquele momento, ele reacendera-o e as chamas chegavam até ao último canto do seu corpo. O desejo era tão intenso que não sabia onde o prazer acabava e a dor começava. Podia chorar de emoção, todos esses anos a viver sem aquilo…

E não era suficiente, precisava de mais, precisava de tudo.

Matteo, como se tivesse percebido, percorreu-lhe a barriga com a língua, chegou aos seios e continuou até à boca. Beijou-a com tanta paixão que a deixou com falta de ar. Afastou-lhe uma coxa com uma mão, ela afastou a outra e rodeou-o com as pernas. A ereção tocou no centro da sua feminilidade e ela susteve a respiração devido ao tamanho e à dureza. Depois, respirou fundo quando a penetrou.

Não sentiu dor, só sentiu o fogo que a queimava por dentro e um desconforto leve enquanto o corpo se adaptava a essa novidade vertiginosa. Então, Matteo ficou imóvel e foi como uma pausa no frenesim.

Com medo de que tivesse percebido algo estranho, agarrou-o pela cabeça e beijou-o com voracidade. Então, esqueceu tudo menos esse momento, a sensação de o ter dentro dela, o prazer que se apoderava dela, até as palpitações lhe rasgarem todo o seu ser.

Enquanto assimilava essas sensações maravilhosas, Matteo acelerou os movimentos, beijou-a na boca, gemeu entre os seus lábios e tremeu, antes de cair em cima dela.

Ficaram assim por um instante, sem dizer nada, ofegantes, com os corações a bater ao mesmo ritmo e abraçados com força.

Então, como se todas as sensações se tivessem apagado, algo foi ocupando o seu lugar, o espanto.

Ouviu que Matteo engolia em seco, que se afastava dela, se virava, se sentava na beira da cama e praguejava, primeiro, em italiano e, depois, em inglês.

Ficou gelada.

Alegrou-se por estar deitada, porque, se estivesse de pé, teria perdido as forças. O que tinham feito? Como acontecera?

Não conseguia explicá-lo e duvidava muito que ele conseguisse. Olhou fixamente para o teto e respirou fundo para conter uma náusea. Se conseguisse descongelar as cordas vocais, certamente, também praguejaria.

Matteo respirou fundo para se acalmar, levantou-se e começou à procura da roupa. Tinha de sair daquela casa naquele preciso instante. Encontrou a camisa por baixo do vestido dela e uma meia presa ao sutiã.

Sentiu uma náusea.

O que fizera? Porque saíra do maldito carro? Porque não se fora embora?

Vestiu as calças pretas, sem se incomodar em abotoá-las, e também vestiu a camisa sem se importar que estivesse ao contrário.

A outra meia caíra por baixo do pequeno toucador com uma jarra com flores secas. O facto de, evidentemente, ser um quarto de hóspedes, era o único consolo que conseguia encontrar.

Pôs as meias nos bolsos do casaco, calçou os sapatos e foi até à porta. Então, quando ia sair a correr, pensou em algo que foi como uma martelada no cérebro. Cerrou os punhos enquanto se insultava pela sua estupidez total e absoluta. Virou-se e observou-a.

Ela não se mexera. Agarrava os lençóis e tinha o olhar fixo no teto. Então, como se tivesse sentido o peso do seu olhar, virou a cara para ele com os olhos esbugalhados de espanto.

Essa expressão confirmava tudo e não era preciso dizer nada.

Natasha sabia tão bem como ele que a loucura que se apoderara deles fora incontrolável e que não tinham usado um preservativo.

Ele também sabia que Natasha não tomava a pílula. Pietro contara-lhe que estavam a tentar ter um bebé.

Matteo, embargado por mil sentimentos, foi-se embora sem falar, atravessou a rua com quatro passadas e entrou no carro.

Uma vez lá dentro, deu rédea solta a toda a raiva que acumulara, bateu no volante com todas as forças e, depois, agarrou a cabeça.

Passaram vinte minutos até se sentir suficientemente tranquilo para conseguir conduzir e nem sequer voltou a olhar para a casa.

Duas semanas depois

Natasha tinha de fazer um esforço sobre-humano para não roer as unhas, mas ainda lhe custava mais não abrir uma das garrafas de vinho branco que tinha no frigorífico desde o enterro de Pietro. Não bebia desde o velório e, se começasse, tinha medo de não parar.

Francesca, a qualquer momento, ia falar-lhe dos planos para o hospital que iam construir em honra de Pietro. Como seria de esperar, a cunhada demorara apenas uma semana a comprar o terreno e a conseguir todas as licenças necessárias. Certamente, a cunhada era uma das mulheres mais decididas que conhecera. Gostaria de ter metade da sua energia e tenacidade.

Parecia-lhe que perdera toda a energia que tivera. Sentia-se muito cansada, como se pudesse dormir para sempre.

Não sabia de onde saíra essa letargia e tinha de presumir que era uma daquelas fases do luto de que lhe tinham falado. Aparentemente, todos eram peritos em luto, todos a observavam e todos esperavam que se desmoronasse.

Além disso, e apesar de tudo, estava magoada, mas não pelo motivo que todos pensavam. A dor não era por causa do futuro que perdera, mas pelos sete anos que Matteo e ela tinham desperdiçado… E também se misturavam as náuseas que sentia cada vez que se lembrava de como a noite do funeral acabara. Não queria pensar nisso, mas fazia-o, por muito que tentasse bloquear as lembranças.

A campainha tocou.

Soprou e tentou recompor-se antes de a empregada abrir a porta a Francesca. Ouviu os passos no chão da casa enorme onde vivera com Pietro e Francesca entrou no escritório, acompanhada pelo irmão Daniele. No entanto, a figura que apareceu atrás do cunhado deixou-a em choque.

Como era costume entre a família italiana, beijaram-se e abraçaram-se efusivamente entre palavras de consolo sussurradas… Até ter de cumprimentar Matteo.

Preparou-se, pôs-lhe uma mão no ombro enquanto lhe punha outra na anca e representaram um gesto inevitável se não quisessem levantar suspeitas.

Quando sentiu a barba incipiente na face, teve de fechar os olhos com todas as forças para tentar não ver a lembrança dessa mesma barba a tocar-lhe no interior da coxa, algo que tinha de esquecer. No entanto, conseguia cheirar a pele e o perfume dele, conseguia sentir a força do corpo, conseguia sentir os caracóis morenos por baixo dos dedos…

Fora um erro enorme, algo que não tinham de expressar com palavras.

Não sabia se era possível odiar-se tanto como ela se odiava. Não devia nada a Pietro, mas…

Simplesmente, não conseguia acreditar que acontecera, não conseguia acreditar que perdera o domínio sobre si própria, não conseguia entender como ou porque acontecera.

Era como se uma espécie de loucura se tivesse apoderado dos dois.

Durante uma hora, deixara de ser a menina que fizera algo para agradar aos pais, que renunciara à vida que desejara e mostrara a mulher que nunca deixara que existisse.

A última coisa em que pensara fora a… proteção, tinham sido néscios e irrefletidos.

Francesca não lhe dissera que viria com o irmão e o primo e não pensara em perguntar-lhe. Daniele e Matteo geriam umas empresas incrivelmente prósperas que os levavam por todo o mundo e pensara que a sua contribuição para o hospital, sobretudo a de Matteo, chegaria mais tarde.

Então, olhou melhor para Francesca e compreendeu porque Daniele, pelo menos, ficara em Pisa. A cunhada parecia mais consumida do que no funeral, melhor dizendo, parecia que se apagara a luz que sempre a iluminara por dentro. Daniele nunca abandonaria a irmã nesse estado.

Francesca também olhou para ela com atenção.

– Como estás? Estás pálida.

– Só estou cansada.

– Seguras as costas, doem-te?

– Um pouco.

A empregada chegou com uma bandeja de café com biscotti e pararam de falar da saúde de Natasha. Sentaram-se ao redor da mesa de sala de jantar onde Francesca deixara os documentos. Natasha já nem sequer se lembrava deles. Estar com Matteo sob o mesmo teto fazia com que o seu cérebro parasse.

Porque viera? Para a torturar?

Aceitara essa tortura cada vez que o vira durante os últimos sete anos. Deixara que a beijasse e depois, algumas horas mais tarde, aceitara casar-se com outro homem e fizera-o à frente dele e de todos. E fora com o primo e melhor amigo. Naquele momento, deveria ter-lhe dito que ia casar-se com Pietro, mas esquecera tudo com o beijo.

As coisas teriam mudado se lhe tivesse dito, tanto nesse momento como semanas antes, quando as intenções de Pietro se tinham tornado claras ou o resultado teria sido o mesmo?

Ligara-lhe e deixara dúzias de mensagens, mas Matteo não atendera nem reagira. Tirara-a da sua vida.

No entanto, se as coisas tivessem sido de outra forma, teria sido mais feliz? Há muito tempo que não pensava assim. Matteo não era o homem que ela pensara que era, nenhuma mulher com a mínima prudência quereria passar a vida com esse homem, a não ser que fosse masoquista. Não só se transformara num homem que adorava o dinheiro desde que achara ter estado apaixonada por ele, como também se tornara lascivo. Nenhum homem que tinha uma mulher diferente todas as semanas quereria assentar com apenas uma.

Daniele tomou as rédeas da reunião e explicou como estava o projeto e que Matteo e ele tencionavam viajar para Caballeros durante as próximas duas semanas. Esperava-se que a construção começasse pouco depois.

– Tão cedo? – conseguiu perguntar ela.

– É Caballeros, não a Europa – respondeu Daniele. – A burocracia não é como aqui.

– Tiveste alguma ideia para a publicidade? – perguntou Francesca.

– Lamento muito, mas não. Vou começar a pensar e envio-vos algumas ideias um dia destes.

Esfregou a cabeça com a esperança de não estar a prometer algo que não ia conseguir cumprir. Quanto mais publicidade tivessem, mais doações receberiam e, quantas mais doações recebessem, mais pessoal poderiam contratar.

Ela, como familiar mais próxima de Pietro, era a responsável. Tudo o que dizia respeito à fundação do marido recaía sobre os seus ombros e, até à data, evitara qualquer responsabilidade… e evitaria todas as responsabilidades, se dependesse dela.

Em algum momento, em breve, teria de pensar nas coisas com clareza, mas, naquele momento, tinha a cabeça tão cheia e dispersa ao mesmo tempo que não conseguiria decidir o que queria comer ao pequeno-almoço.

Não podia continuar assim. Não sabia se era por causa do choque da morte de Pietro ou por causa do que acontecera com Matteo, mas tinha de recuperar a integridade.

Tinha um futuro pela frente e, mais cedo ou mais tarde, teria de decidir o que queria fazer com ele. Até ao momento, e que ela soubesse, passá-lo-ia sozinha. Não voltaria a casar-se, não voltaria a permitir que alguém, nem um homem nem os pais, tivesse o controlo da sua vida.

– Não há pressa. – Francesca fez um ar de cansaço. – No fim da semana que vem, seria bom.

O suplício acabou finalmente. A família levantou-se e ela também tentou, mas enjoou-se tanto que teve de se agarrar à beira da mesa.

Francesca, que estivera sentada ao seu lado, foi a primeira a perceber e agarrou-a pelo pulso.

– Passa-se alguma coisa?

Natasha abanou a cabeça.

– Só estou cansada. Certamente, deveria comer alguma coisa.

Francesca observou-a antes de ceder.

– Sabes onde estou se precisares de alguma coisa.

Era uma oferta risível se se tivesse em conta que Francesca tinha tão mau aspeto como devia ter, mas a cunhada fizera-a de coração e não se riria, mesmo que tivesse as forças necessárias.

Sentiu que ardia com o olhar, igualmente penetrante, de Matteo e só pôde respirar com tranquilidade quando todos se foram embora.

Mandou a empregada fazer uns recados. Precisava de estar sozinha e agradeceu a Pietro por ter acedido a deixar que o resto dos empregados fossem externos, como ela pedira. Era triste que tivesse tido de pedir essas coisas…

Fora tudo triste no seu casamento e a sua duração fora a menor das tristezas. Não tivera nenhuma autonomia.

Já passara o enjoo e percebeu que tinha fome. Tivera náuseas ao acordar e saltara o pequeno-almoço, o que evitara ter de tomar a decisão do que comer e, além disso, conseguira esquecer-se de almoçar.

Abriu o frigorífico e tentou pensar no que lhe apetecia comer. A empregada deixara-o bem sortido e podia escolher demasiadas coisas. Depois de deliberar, pegou num pedaço de queijo e procurou umas bolachas para o acompanhar.

O estômago queixava-se quando finalmente desembrulhou o queijo, mas sentiu um vómito ao cheirá-lo. Atirou o pedaço de queijo para o lixo. Levou uma mão à barriga, tapou a boca com a outra e respirou fundo com a esperança de que as náuseas passassem.

Tinham acabado de passar quando a campainha da porta tocou.

Ficou imóvel e pensou se devia abri-la ou não. A casa estivera cheia durante as últimas duas semanas e só queria estar sozinha.

Voltou a tocar.

Podia ser a sogra… Vanessa, a mãe de Pietro, visitara-a muitas vezes desde que se tinham casado e visitara-a ou ligara-lhe todos os dias desde que o filho morrera. O que estava a sentir não podia comparar-se com o que Vanessa sentia.

Mesmo assim, embora continuasse a tentar convencer-se de que ia encontrar a sogra adorável à porta, não pôde surpreender-se quando viu Matteo.

– O que queres? – perguntou Natasha, agarrando-se à ombreira da porta.

– Quero dar-te isto.

Deu-lhe uma caixa comprida e estreita, um teste de gravidez.

Capítulo 3

O rosto dela empalideceu mais.

– Não estou grávida.

– Faz o teste e prova-o. Não me vou embora até o fazeres.

Ela desviou o olhar por cima do seu ombro.

– Esperas alguém? – perguntou ele, num tom cortante. – Outro amante talvez?

– A Vanessa gosta de me visitar.

– A mãe desconsolada que visita a viúva emocionada? Que bonito…

Enojava-o que a tia, como todos os Pellegrini, achasse que tudo começava e acabava com Natasha. Fora a preocupação e compaixão de Francesca pela jovem viúva que começara uma série de acontecimentos que o levara àquele momento.

– Se não queres que me encontre aqui e tenhas de lhe explicar porque tenho isto na mão, recomendo-te que me deixes entrar – continuou Matteo.

Ela suspirou e afastou-se.

Pela segunda vez nesse dia, entrou em casa de Pietro com o mesmo desprezo por si próprio do que da primeira vez. Só estivera uma vez naquela casa antes de Pietro morrer e fora enquanto Natasha estivera em Inglaterra a visitar os pais.

– Tiveste o período desde…?

Não conseguiu acabar a pergunta, mas ela corou por ser tão íntima.

– Não – sussurrou Natasha.

– Quando devias tê-lo?

– Há alguns dias – respondeu ela –, mas nunca fui regular. Não significa nada.

– Estás cansada, tens dores nas costas e foste três vezes à casa de banho durante a reunião de duas horas. O meu voo de regresso a Miami sai dentro de três horas. Faz o teste. Se o resultado for negativo, poderei sair de Pisa e ambos esqueceremos o que aconteceu.

Nenhum deles falou do que aconteceria se o resultado fosse positivo.

Natasha olhou para a caixa antes de lha arrebatar e afastar-se. Ele ouviu que subia a escada e que fechava uma porta.

Matteo, uma vez sozinho, foi para a sala, sentou-se no sofá e segurou a cabeça enquanto esperava. Na sala contígua, havia um bar muito bem sortido e Pietro e ele tinham bebido juntos. Sentiu vontade de se servir de um copo, mas a rejeição foi mais forte. Já se servira da esposa do primo e amigo e não queria beber o seu álcool.

Lera as instruções e sabia que o resultado do teste se saberia em três minutos. Olhou para o relógio e verificou que Natasha estava há dez minutos no andar de cima. O tempo parecia eterno e só podia ocupá-lo a olhar para os móveis escolhidos pelo homem que fora como um irmão para ele. Não conseguia ver a influência de Natasha na decoração.

Lembrou-se de que, uma vez, durante uma conversa por telefone que tinham tido quando ele voltara para casa depois de um turno de dezoito horas, lhe contara que queria ser decoradora de interiores.

Matteo achara que nunca se odiaria tanto como quando tinha dez anos e arruinara a vida do irmão mais novo com a sua negligência. O ódio que sentia naquele momento era muito parecido, era como uma sensação de podridão… E o que sentia por Natasha não ficava atrás. Maldita fosse. Fora a esposa de Pietro e, horas depois de o ter enterrado, precipitara-se para os seus braços e ele…

Maldito fosse, deixara.

Adoraria apagar todas as lembranças dessa noite, mas tinha cada segundo gravado na mente. Naquela manhã, acordara com a sensação de que fora o primeiro a possuí-la e de que algo correra mal. Era uma sensação que o incomodava e que crescia à medida que o tempo passava.

Esfregou a nuca com uma mão e amaldiçoou a memória enganosa.

Natasha não era virgem. Estivera casada e tentara ter um filho com o marido!

Passaram mais cinco minutos antes de ouvir movimentos e ela aparecer à porta.

Soube a resposta ao vê-la.

– Tem de haver… algum erro – balbuciou Natasha. – Tenho de fazer outro teste.

Ficara tanto tempo a olhar para o resultado positivo que os olhos se tinham toldado.

Durante duas semanas, recusara-se a acreditar que podia acontecer.

Tinham sido inconcebivelmente insensatos, mas a natureza não podia ser tão desumana com eles. O remorso e o desprezo por si próprios com que teriam de viver não eram castigo suficiente?

Uns olhos verdes e inflexíveis fixaram-se nela e passou um instante antes de ele falar.

– Esse teste é o mais confiável do mercado. Se é positivo, estás grávida. Isso só deixa um enigma por resolver, quem é o pai?

Com medo de desmaiar, sentou-se no chão e abraçou os joelhos.

– Quando foi a última vez que o Pietro e tu…?

O desagrado que se refletia na sua voz, embora não tivesse acabado a frase, foi como uma onda abrasadora na sua cabeça gelada e, pela primeira vez na sua vida, não soube o que dizer ou fazer. Sempre, quando tivera um dilema, a resposta fora muito clara, tinha de fazer o que os pais queriam. Fora por isso que se casara com Pietro. No entanto, naquele momento, não pensava nos pais.

– Tenho de interpretar, pelo teu silêncio, que o Pietro e tu foram… ativos até à sua morte?

Como podia responder? Não podia.

– Se o teu último período foi há um mês, parece lógico pensar que estivemos juntos quando eras mais fértil. No entanto, todas as mulheres têm ciclos diferentes e se o Pietro e tu… foram íntimos até à sua morte, existe a possibilidade de ele ser o pai. Quem mais está na lista?

A cabeça dava voltas porque ele, como médico, entendia muito melhor do que ela como o corpo funcionava e não entendeu o que queria dizer.

– O quê…?

– Não te faças de parva. Com quem mais foste para a cama no último mês?

– Isso é insultante – queixou-se ela.

Ele deixou escapar uma gargalhada.

– Não me interpretes mal, estás a representar muito bem o papel de viúva desconsolada, mas, quando estiveste comigo, parecia que estavas com cio e não seria de estranhar que estivesses com outros.

Com o cio? Natasha tapou os ouvidos e cravou as unhas no couro cabeludo. Como era possível que ele, um médico, não tivesse percebido?

Houvera um momento, quando a penetrara, em que parara, mas só durara um instante, porque o beijara com avidez para que continuasse o que começara… e tivera medo de que descobrisse a verdade.

– Estou à espera da resposta. Quantos?

Natasha lembrou-se de que houvera um tempo, muito longínquo, em que o leve sotaque italiano do seu inglês impecável fora como um bálsamo para ela. Supôs que fosse o que acontecia quando se criava, do zero, uma empresa que valia milhares de milhões, a humanidade mais elementar desaparecia com os princípios.

– Nenhum. Não houve ninguém.

– Uma ecografia vai dizer-nos a data da conceção com precisão e, assim, poderemos saber quem é o pai.

O tom cortante de Matteo afetou-a.

A ideia de uma ecografia, de ver esse ser minúsculo que crescia dentro dela… De repente, percebeu que estava grávida, que ia ser mãe.

Levou uma mão à barriga, apagou o rosto crispado de Matteo da mente e imaginou a vida que estava a gerar-se dentro dela. Cumprimentou o bebé em silêncio e sentiu uma felicidade avassaladora.

Há muito tempo que queria ter um filho. Depois do que acontecera com Pietro, pensara que seria um caminho comprido e tortuoso, se conseguisse e se aceitasse seguir o caminho que ele queria para o ter. No entanto, acontecera como por arte de magia.

Ia ter um bebé.

– Como podes estar a sorrir neste momento? – perguntou Matteo. – Parece-te divertido?

Parou de sorrir, embora não soubesse que o fazia, e endireitou-se. Fosse o que fosse que o futuro proporcionava, mesmo que fosse apenas humilhação, tinha de pensar nessa pequena semente. Não podia cair no desânimo, seria forte, seria uma mãe.

– Estou grávida – afirmou. – Não podes saber há quanto tempo o desejo e, sim, vou sorrir e alegrar-me com a conceção do meu filho porque é um milagre.

– Então, tencionas tê-lo.

– Como podes perguntar uma coisa dessas?

Aproximou-se, pôs-lhe uma mão na nuca e observou-a como se a examinasse.

– Porque te conheço, Natasha – declarou ele. – És egoísta, só pensas em ti e no que te dá jeito.

Natasha, atónita, ficou em silêncio devido à sua proximidade, ao calor da sua pele, às carícias quase distraídas dos seus dedos, devido às lembranças da única vez que tinham estado juntos. Pestanejou várias vezes, para que o cérebro funcionasse outra vez, respirou fundo, levantou uma mão, agarrou a mão dele, cravou-lhe as unhas e retirou-a do pescoço. Endireitou-se o máximo possível, embora fosse quase trinta centímetros mais baixa do que o metro e oitenta dele.

– Não me conheces – replicou ela. – Se me conhecesses, não terias tido de me perguntar se ficaria com o bebé. Farei mais do que ficar com ele, vou amá-lo e criá-lo.

Já o desejara uma vez. Se lhe tivessem dito, quando tinha dezoito anos que, sete anos mais tarde, estaria à espera de um filho de Matteo, daria saltos de alegria. No entanto, não podia dizer-lhe porque não acreditaria.

Esfregou a mão onde lhe espetara as unhas.

– Espero, pelo bem do teu filho, que as tuas palavras não sejam tão vãs como costumam ser, mas o tempo dirá. Tenho uma amiga em Florença que gere uma clínica ao lado da minha e que tem os equipamentos mais modernos e precisos. Vou levar-te lá. Ela poderá descobrir a data da conceção para que possamos determinar se existe a possibilidade de eu ser o pai. A discrição dela está garantida e ambos concordamos que a discrição é imprescindível.

Natasha fez um esforço para respirar.

Estava tudo a acontecer muito depressa. Não podia permitir que a manipulasse, mas também era verdade que tinha de fazer o que fosse melhor para o bebé e que precisava de toda a discrição que conseguisse até decidir o que ia fazer.

As repercussões eram terríveis e não queria pensar nelas. Quantas vidas ficariam arruinadas quando se soubesse a verdade?

O pior de tudo era que nunca poderia dizer toda a verdade, pois ninguém podia sabê-la. Como Matteo não podia saber que ela já conhecia uma clínica excelente em Paris e que também garantia a discrição. Também não podia saber que era o único homem que podia ser pai do bebé.

Dominou outro enjoo e assentiu.

– Quando?

– Dentro de algumas semanas. Então, os batimentos do coração do bebé já devem ouvir-se.

– Tão cedo?

Há vinte minutos que sabia que estava grávida e ele já estava a dizer-lhe que o coração estava a formar-se. Era incrível.

– A gravidez conta-se desde o teu último período e, dentro de algumas semanas, estarás grávida de seis semanas. Só a ecografia nos dará uma data precisa da conceção.

– E poderei ouvir os batimentos?

– Ambos poderemos. – Com um ar inexpressivo, dirigiu-se para a porta. – Estarei em contacto.

Então, quando ouviu que a porta se fechava, deixou-se cair no sofá com a cabeça entre os joelhos. Magoaria muitas pessoas, Vanessa, Francesca… Sabia que olhavam para a barriga dela desde que se casara com Pietro para ver indícios de que estava a gerar uma vida e os olhares tinham sido ainda mais evidentes desde que ele morrera. Sabia como ansiavam que estivesse à espera de um filho de Pietro e Francesca já suspeitava.

Recostou-se e esfregou as têmporas.

Não sabia como resolver aquilo. Todos seriam magoados, independentemente do que fizesse. Teriam ilusões que destruiria mais tarde. Além disso, havia o património dos Pellegrini…

Era demasiado para ela.

Natasha, emocionada, começou a chorar.

Tinha de ser assim. Rodeou a barriga com os braços como se quisesse proteger a semente pequena e já forte, mesmo que fosse das lágrimas.

A realidade crua ia devastá-los a todos e Matteo entre eles.

Seria melhor aguentar e deixar que todos, incluindo os pais, a considerassem uma perdida do que deixar que isso acontecesse. Quase não conseguia suportar imaginar o desprezo e desilusão que veria nos seus olhos quando descobrissem que estava grávida e que Pietro não era o pai.

A única coisa que fizera nos seus vinte e cinco anos de vida que agradara aos pais fora casar-se com Pietro. Permitira-lhes gabar-se de que o grande Pietro Pellegrini era o seu genro e tinham-no feito sempre que podiam.

Natasha limpou as lágrimas e soprou com força.

Nada ia mudar, por muito que chorasse. Ia ser mãe e isso significava que tinha de ser forte pelo filho. Além disso, por muito que chorasse, era preferível que todos a considerassem uma perdida a deixar que todos soubessem que Matteo era o único candidato a ser o pai.

Ninguém podia saber que fora virgem até à noite depois do enterro do marido.

A clínica onde Matteo a levou era num edifício medieval lindo no centro de Florença e podia parecer um dos muitos museus que davam fama à cidade.

O interior era o contrário. Ninguém poderia duvidar de que entrara num centro médico de vanguarda. A rececionista fria fez uma chamada e, um instante depois, Julianna, a diretora, saiu por uma porta para os cumprimentar.

Matteo conhecera Julianna, uma mulher alta e esbelta de quarenta e tal anos, porque se tinham encontrado em muitas conferências. Cumprimentaram-se como velhos amigos e trocaram alguns beijos. Depois, apresentou Natasha e levaram-nos para a sala impoluta onde estava tudo preparado para a ecografia.

– Importas-te que o doutor Manaserro fique enquanto a faço? – perguntou Julianna a Natasha, em inglês.

Ela desviou o olhar para ele com uma certa surpresa, antes de encolher os ombros.

– Vais ficar um pouco… exposta – avisou Julianna.

– Pode ficar, se quiser – respondeu ela, inexpressivamente.

Matteo sentiu uma pontada de remorso tão inesperada como desagradável.

Era a primeira vez que via Natasha em duas semanas. Nesse tempo, para além de organizar aquela ecografia, fizera o que pudera para a esquecer e à gravidez.

Repetia-se que havia poucas possibilidades de ser o pai e que era improvável, mesmo que a ecografia confirmasse que podia ser. Só tinham estado juntos uma vez enquanto Pietro e ela…

Sentiu um nó no estômago só de pensar em todas as vezes que teriam estado juntos nesses anos. Pietro e Natasha tinham tentado ter um filho, Pietro contara-lhe da última vez que o vira.

Além disso, ela estava contente por estar grávida e dissera que era um milagre. Era porque desejava ter um filho ou porque gostava que uma parte de Pietro pudesse estar a gerar-se dentro dela? Tinha de ter sentido alguma coisa pelo marido, independentemente do que fizera na noite do seu enterro. Teria reagido assim se achasse que ele poderia ser o pai?

Não podia pensar isso. Apagara Natasha da mente desde que aceitara o pedido de Pietro algumas horas depois de se beijarem. Nunca pensava nela, nunca pensava em Pietro e ela juntos. Só a detestava quando tinham de se encontrar e aprendera a disfarçá-lo, evitando-a sempre que podia. Virara a página depressa e, além disso, Pietro era um amigo e um primo demasiado íntimo para que uma mulher se interpusesse entre eles.

Pietro não soubera que Natasha e ele se tinham aproximado, algo que, pensando bem, fora estranho, porque Pietro e ele contavam muitas histórias sobre mulheres. Na altura, parecera-lhe demasiado especial para falar dela, algo que, a posteriori, fora cómico. Devia ser um arrebatamento de sentimentalismo e nunca mais voltara a pensar em algo tão ridículo.

Se fosse o filho de Pietro, também se alegraria por uma parte do melhor amigo permanecer viva, mesmo que a mãe fosse uma maldita farsante.

Tinha de ser de Pietro. Se não, destruiria tudo.

Deixá-la-ia em paz e dominaria a vontade de lhe ligar a cada cinco minutos para se certificar de que estava a comer e a dormir bem. Ao vê-la naquele momento, parecia-lhe que não comera decentemente desde a última vez que a vira.

– Muito bem, Natasha, queres uma ecografia para saber a data, não é?

Ela assentiu.

– Foste examinada por um médico ou uma parteira?

Ela abanou a cabeça.

– Vais ter o filho aqui ou em Inglaterra?

Voltou a olhar para Matteo e Julianna sorriu tranquilizadoramente.

– Não faz mal, não há respostas certas ou erradas.

– Ainda não pensei nisso – sussurrou Natasha.

– Tens muito tempo para decidir, mas temos de te fazer um seguimento. O nosso ginecologista é o melhor de Florença, mas posso recomendar-te uma mulher, se preferires.

Matteo sentiu que suava e teve de morder a língua para não intervir. Uma vez ali, com o ecrã do ultrassom ligado, queria acabar aquilo.

– Pronta…?

– Sim.

Respondera no tom mais animado que ele ouvira desde que lhe abrira a porta.

– Deita-te, levanta o top e baixa a saia para despir as ancas e a barriga.

Matteo olhou para o ecrã. Natasha acabou, Julianna sentou-se. Embora não estivesse a olhar diretamente para ela, viu Natasha a mexer-se quando lhe aplicaram o gel na barriga.

Então, Julianna pegou na sonda e passou-a por cima do gel com os três olhares fixos no ecrã.

– Aqui está! – exclamou Julianna. – Vês, Natasha? É o teu bebé.

– Onde? – perguntou Natasha, esticando o pescoço para tentar vê-lo.

– Ali. – Julianna pôs um dedo no ecrã. – Vês?

Natasha não sabia o que esperara ver, nem sequer a sua imaginação vira um bebé em miniatura, mas esperara mais do que aquela massa. Então, Julianna tocou em algumas teclas e focou melhor. Continuava a ser apenas uma sombra, mas tinha algo mais definido que fez com que o seu coração, já bastante acelerado, quase rebentasse.

– Queres ouvir os batimentos?

Um instante depois, o som mais maravilhoso que ouvira na sua vida ecoou pelo quarto.

Não se atreveu a olhar para Matteo. Se visse alguma coisa no seu rosto que não fosse felicidade, estragar-lhe-ia para sempre aquele momento tão especial. Continuou a olhar para a pequena avelã e a ouvir os batimentos, até Julianna se levantar e lhe limpar a barriga com uma toalhita.

– Parece estar tudo bem, por enquanto.

– Por enquanto?

– Sou médica e nunca falamos em termos absolutos. – Julianna sorriu. – O que posso dizer com sinceridade é que, neste momento, o teu filho está a evoluir bem e que devias estar contente com isso. Quanto à data do parto…

Julianna disse uma data no fim de junho e Natasha fechou os olhos. A julgar pelo movimento de Matteo na sua cadeira, ele fizera a mesma conta. Sabia que, segundo essa data de nascimento, Pietro não podia ser o pai, que a data de conceção tinha de ter sido depois da sua morte.

Sabia que era o pai do bebé.

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