Kitabı oku: «O playboy implacável»

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Editado por Harlequin Ibérica.
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© 2016 Miranda Lee
© 2020 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
O playboy implacável, n.º 108 - dezembro 2020
Título original: The Playboy’s Ruthless Pursuit
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-1348-994-0
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Capítulo 1
Devia estar mais contente, pensou Jeremy, enquanto se recostava na cadeira do escritório e punha os pés em cima da secretária. A sua vida era perfeita. Estava saudável, era imensamente rico e, graças a Deus, continuava solteiro. Além disso, já não era assessor-chefe de investimentos da sucursal em Londres do império bancário Barker-Whittle… E era um alívio!
Trabalhar para o pai não era a ideia que tinha de um emprego divertido. No entanto, infelizmente, fazia especialmente bem o seu trabalho. Apesar de todos os elogios e das bonificações generosas que ganhara ao longo dos anos, preferia ser o seu próprio patrão e usara parte da sua nova fortuna para comprar uma editora em crise. Estava a transformá-la num sucesso surpreendente, algo quase incompreensível se se tivesse em conta que fora uma compra acidental.
A sua primeira intenção fora entrar no setor imobiliário e comprara uma casa numa das melhores ruas de Mayfair. No entanto, fora muito difícil negociar com a editora que arrendava o edifício e o dono quisera ficar até acabar o arrendamento. Tivera de lhe fazer uma oferta que não pudera rejeitar com a intenção de mudar a empresa que comprara para um lugar mais barato e transformar esse edifício em três apartamentos de luxo.
No entanto, tudo mudara. Gostara muito das pessoas que trabalhavam na Mayfair Books e que, naturalmente, estavam muito preocupadas com os seus empregos. Também gostara das divisões tal como estavam; um pouco desmanteladas, sim, mas cheias de personalidade e encanto, com móveis antigos e as paredes revestidas de madeira. No entanto, também ficara claro, depois de falar com os empregados e de ver os números de vendas, que a empresa tinha de se modernizar. Embora não soubesse nada sobre esse setor, era inteligente, estava muito bem relacionado e conhecia o chefe de marketing de uma editora muito famosa de Londres.
Naquele momento, quase um ano depois, estava a gerir a Barker Books. Mudara o nome da editora e o seu destino. Tivera lucros no último trimestre e até se levantava todas as manhãs e ia, contente, para o escritório, ao contrário de quando trabalhava no banco e fazia quase todo o seu trabalho por telefone.
Então, o trabalho não era o motivo dessa sensação estranha de descontentamento e também sabia que não se tratava da sua vida amorosa. Seguia o seu curso habitual, ainda que, desde que comprara a editora, tivesse estado mais concentrado no trabalho do que nas mulheres.
Não se sentia sexualmente frustrado e também não lhe custava encontrar mulheres dispostas a acompanhá-lo aos muitos eventos sociais para os quais o convidavam. Um homem da sua categoria e fortuna era sempre um convidado cobiçado. A acompanhante acabava sempre por o acompanhar para a cama, embora deixasse sempre claro que sair com ele não ia levá-la ao altar. Não se apaixonava nem se casava. Felizmente, a maioria não se importava, porque ele também não partia corações.
Quando continuou sem encontrar o motivo do seu descontentamento, viu-se obrigado a refletir mais, algo que tentava evitar por todos os meios. Não via as vantagens de se analisar ou de ser… ajudado. Não servira de nada para os irmãos mais velhos. Não precisava de um psicólogo para que lhe dissesse que a sua aversão pelo amor e pelo casamento se devia aos divórcios e casamentos constantes dos pais. A isso e ao facto de o terem abandonado num internato quando tinha oito anos, onde o tinham maltratado de mil maneiras.
Odiava lembrar-se daquela época e começou a pensar nos tempos mais felizes. Desfrutara imenso da Universidade de Londres e, finalmente, conseguira usar plenamente o cérebro. Os resultados tinham entusiasmado a avó materna, que o tornara o seu herdeiro com a condição de que fosse estudar para Oxford. Fora para Oxford e os ganhos generosos (a avó falecera pouco depois de ele se matricular) tinham-lhe permitido ter um ritmo de vida a que se afeiçoara depressa. Estudara o suficiente para passar nos exames, mas a diversão fora a sua ocupação principal e chegara a tal ponto que poderia ter-se tornado um problema se não fosse amigo de dois rapazes um pouco mais sensatos.
Pensou em Sergio e Alex e desviou o olhar para a fotografia dos três que tinha na mesa. Harriet tirara-a no ano anterior, no dia em que Sergio se casara com Bella. Sergio pedira a ambos para serem os seus padrinhos e o casamento celebrara-se numa villa impressionante à beira do lago de Como. Embora já não tivesse medo de que Bella fosse como a mãe dela, uma caça-fortunas, também não estava convencido de que o casamento ia durar. O amor não durava, pois não? Era uma pena que visse o melhor amigo tão poucas vezes. Os seus melhores amigos. Vira-os em fevereiro, no casamento de Alex com Harriet na Austrália. Sentia a falta de quando todos viviam em Londres e se viam habitualmente, quando ainda eram solteiros e não se tinham tornado multimilionários.
Também não tinham trinta e cinco anos, tinham-nos feito no ano anterior, e isso fora a gota de água. Isso e a venda da WOW, a franquia de bares especializados em vinho. Tudo mudara de repente e o Clube de Solteiros que tinham criado em Oxford deixara de fazer sentido. Era possível que a sua amizade também já não tivesse sentido…
Suspirou e tirou os pés da secretária. Inclinou-se para a frente, pegou na fotografia, franziu o sobrolho e olhou atentamente para as três caras que lhe sorriam.
Não invejava os amigos e os seus casamentos, mas odiava a ideia de os ver poucas vezes a partir desse momento. As suas prioridades seriam as esposas e as famílias, não ele. Transformar-se-ia em algo do passado, algo que recordariam com um certo agrado quando olhassem para um álbum de fotografias a cada dez anos.
– Quem é esse homem? – perguntaria o filho a Alex.
Harriet estava à espera de um rapaz.
– Ah, é o Jeremy. Estivemos juntos em Oxford. Foi o padrinho no nosso casamento. Caramba… Há séculos que não o vejo.
Franziu o sobrolho, voltou a pousar a fotografia na mesa e agarrou no telefone.
– Não vou deixar que isso aconteça – murmurou, enquanto procurava o número de Alex.
Apercebeu-se de que seria de madrugada na Austrália e mandou-lhe uma mensagem de correio eletrónico a oferecer-se como padrinho do seu filho quando chegasse o momento. Depois, voltou a pôr a fotografia no seu lugar de honra e bateram à porta.
– Entra, Madge.
Madge entrou com brio, como fazia com tudo. Era uma mulher normal, de cinquenta e tal anos, magra, com o cabelo curto e grisalho, uns olhos azuis muito penetrantes e ar de professora.
Jeremy contratara-a pouco depois de comprar a editora. Madge impressionara-o com a sua atitude direta e os seus conhecimentos do setor editorial. Apreciava-a imenso e era um sentimento recíproco.
– Temos um problema – comunicou ela, sem rodeios. – O Kenneth Jacobs não pode ser o leiloeiro no leilão de beneficência desta noite. Tem uma constipação tremenda. Quase não entendia o que dizia ao telefone.
– Entendo…
Ainda que não entendesse nada. Sabia quem Kenneth Jacobs era, naturalmente. Como podia não o conhecer, se era o único autor que chegara com a editora e que vendia muitos livros? Kenneth escrevia uns romances policiais aterradores que tinham imensos seguidores, mas os seus livros para mais velhos não se tinham comercializado adequadamente. Kenneth, apesar de saber, não abandonara o editor que lhe dera a primeira oportunidade.
– Que leilão? – perguntou Jeremy.
– Sinceramente, ainda bem que me tens para organizar as coisas. Não é fácil trabalhar para um homem que se esquece de tudo.
– Posso dizer-te que tenho uma memória fotográfica – replicou Jeremy.
– Então, no futuro, vou fotografar tudo em vez de to dizer…
Jeremy costumava gostar do sentido de humor cáustico de Madge, mas, daquela vez, não lhe restava muita paciência.
– Parece-me muito bem, Madge, mas, neste caso, agradeceria se voltasses a explicar-me o assunto do leilão de beneficência e se me disseres o que posso fazer para resolver o problema de o Kenneth estar constipado.
Madge deixou escapar uns dos seus suspiros de desespero.
– Eu teria dito que as palavras «leilão de beneficência» não precisavam de explicação, mas isso é outro assunto. Depois do último jantar de beneficência a que foste, pediste-me para não aceitar mais nenhum convite para essas coisas. Disseste que não querias ir a outros desses jantares onde a comida é ínfima e os oradores são muito aborrecidos. Disseste que gostavas de fazer doações para o que fosse preciso, mas que tinhas deixado de ser masoquista quando deixaste de trabalhar para o teu pai. Disseste que…
– Muito bem – interrompeu Jeremy. – Compreendo, mas foi um jantar seguido de discursos, não algo tão interessante como um leilão. Agora, se não te importares, conta-me os detalhes importantes e esquece a lição de história antiga.
– Está bem. Vai celebrar-se na sala de baile do Hotel Chelsea e é para angariar fundos para os refúgios de mulheres nos bairros marginalizados. Há um jantar antes do leilão e garantiram-me que a comida será de primeira e que se angariará muito dinheiro porque os bilhetes são muito caros. Imagino que esteja cheio da flor e nata da sociedade. O Kenneth ia ser o leiloeiro e o prémio para o vencedor era que alguma das personagens do seu próximo romance tivesse o seu nome. Naturalmente, outros autores já o tinham feito, mas não o Kenneth. O pobre está desolado e preocupado por ter abandonado a Alice, a rapariga que organizou tudo. Por isso, disse-lhe que o substituirias.
– Disseste isso? – perguntou Jeremy.
– Estás a brincar, não estás?
Jeremy sorriu e ela corou com alívio. Adorava Jeremy e invejava a sua mãe por ter um filho tão carinhoso e maravilhoso. Podia ser diabólico com as mulheres, mas era um bom homem e um patrão fantástico. Era inteligente, sensato e incrivelmente sensível. Tinha a certeza de que se apaixonaria algum dia e assentaria.
– És um brincalhão. Queres que ligue à Alice para lhe dizer que serás o leiloeiro ou preferes fazê-lo?
– O que achas, Madge?
Essa era outra das coisas de que gostava no patrão. Perguntava-lhe muitas vezes a opinião e costumava tê-la em conta.
– Acho que devias ligar-lhe. Parecia bastante nervosa e isso vai tranquilizá-la. Tenho a sensação de que é nova nesse trabalho.
– Muito bem. Então, dá-me o número de telefone.
Naturalmente, Madge já o tinha à mão.
– És muito hábil – comentou ele, enquanto ela lho dava.
– E tu és encantador – replicou ela, sorrindo e virando-se para se ir embora.
Jeremy também sorriu enquanto marcava o número de Alice.
– Alice Waterhouse. – Ela atendeu imediatamente.
O seu tom era enérgico e eficiente e o sotaque denunciava que fora educada numa dessas escolas privadas para meninas que acabavam sempre por trabalhar como relações públicas ou a angariar fundos para causas de beneficência, antes de se casarem com alguém adequado para a sua classe.
Ele não era muito entusiasta das raparigas com uma origem privilegiada, algo bastante hipócrita, dada a sua origem. Houvera uma época em que nada importava. Se a rapariga fosse bonita e estivesse disposta, ia para a cama com ela sem pensar duas vezes. No entanto, naquele momento, parecia-lhe que as raparigas que tinham nascido numa família rica eram muito aborrecidas, dentro e fora da cama. Talvez fosse a atração dos opostos, mas parecia-lhe que as raparigas que tinham de trabalhar para ganhar a vida, que não contavam com o dinheiro do papá, tinham algo muito atraente.
Imaginava que Alice Waterhouse era uma dessas meninas do papá.
– Jeremy Barker-Whittle – apresentou-se ele.
Sabia muito bem que o seu tom não era snobe, mas que a sua voz era grave, profunda e imponente. Alex e Sergio diziam sempre que poderia ganhar uma fortuna na rádio. As pessoas que o conheciam por telefone costumavam ficar surpreendidas quando o viam em carne e osso. Evidentemente, esperavam alguém mais velho e como um cantor de ópera.
Algumas vezes, as pessoas enganavam-se e questionou-se se se enganara com Alice Waterhouse, mas decidiu que não.
– Sou o editor dos livros do Kenneth Jacobs – continuou ele. – Acho que vou ser o seu leiloeiro esta noite…
– Ah… Fantástico. – Alice não foi muito efusiva, mas estava claramente aliviada. – A Madge disse-me que poderia sê-lo. Tenho de confessar que estava a começar a sentir pânico. Muito obrigada.
Contra todo o prognóstico, Jeremy teve de reconhecer que sentiu uma certa simpatia por ela.
– Será um prazer, sinceramente.
– Pode trazer uma acompanhante, se desejar – ofereceu Alice. – Tinha atribuído dois lugares ao senhor Jacobs na mesa principal, mas disse-me que não tinha acompanhante e eu ia sentar-me com ele.
– Eu também vou sozinho – reconheceu Jeremy. – Eu também sou um solteirão resmungão. Talvez possa dar-me a honra de se sentar ao meu lado durante o jantar desta noite…
– Será um prazer.
– Suponho que seja de etiqueta.
– Sim. É um… inconveniente?
– Não. Não é inconveniente.
Se havia algo em que Jeremy nunca falhava, era em ir perfeitamente vestido a todos os eventos sociais. Adorava a moda e preocupava-se com a sua imagem. O seu guarda-roupa tinha uma variedade imensa de roupas.
Quando ela começou a agradecer-lhe outra vez, interrompeu-a, perguntou-lhe onde e quando podiam encontrar-se naquela noite, despediu-se e chamou Madge.
Ela espreitou imediatamente pela porta.
– Tudo resolvido? – perguntou ela.
– Resolvido, mas diz-me uma coisa. Viste a tal Alice?
– Não, só falei com ela ao telefone.
– E em que agência de relações públicas trabalha?
– Ela… Eu… – Madge hesitou com perplexidade. – Não te disse? Ela trabalha como assistente social em alguns refúgios para mulheres.
– Não, Madge, não me disseste.
– Lamento muito. Hoje, estou um pouco confusa. Em qualquer caso, a Alice explicou-me, da primeira vez que ligou, que não podiam permitir-se pagar a um angariador de fundos profissional e que estava a fazer tudo sozinha. Garanto-te que não é uma tarefa fácil.
– Não… – reconheceu Jeremy.
No entanto, aborrecia-o enganar-se. Imaginava que podia haver filhas de famílias ricas com consciência social e o desejo de fazer alguma coisa pelos menos favorecidos, mas, segundo a sua experiência, era muito estranho.
Ficou impressionado e decidiu que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para que o leilão daquela noite fosse um sucesso.
– Será melhor continuar a trabalhar – acrescentou ele.
No entanto, tinha a mente noutra coisa. Estava impaciente por saber tudo a respeito da enigmática Alice Waterhouse.
Capítulo 2
– Obrigada por me emprestares este vestido comprido tão bonito, Fiona.
Alice estava a olhar-se ao espelho de corpo inteiro. O vestido era preto, liso e sem alças, mas tinha um casaco a condizer para a proteger do fresco da noite até chegar ao hotel.
– É um prazer – replicou a companheira de apartamento.
Essas palavras recordaram-lhe a conversa que tivera com o editor de Kenneth Jacobs. Era um homem encantador e tinha uma voz linda. Seria um leiloeiro muito melhor do que o senhor Jacobs.
– Oxalá pudesse ter ido ao teu evento em vez de ter de jantar com os pais do Alistair – continuou Fiona –, mas é o aniversário da mãe dele… Não posso começar mal com a minha futura sogra.
– Suponho que não.
Alice alegrava-se por não ter de se preocupar com essas coisas, porque não tencionava casar-se.
– Estás muito bonita – elogiou Fiona. – Adoraria ter a tua classe, a tua altura e o teu cabelo.
Alice ficou perturbada com os elogios. Parecia-lhe que não era nada de especial, embora tivesse um cabelo bonito. Era loiro e fácil de pentear. Também não era tão alta, media um metro e setenta. Sim, era verdade que Fiona era mais baixa, mas era muito atraente. Tinha um cabelo escuro e denso, uns olhos grandes e castanhos e um corpo voluptuoso que os homens desejavam. Embora Alice não quisesse que a desejassem.
– Esse vestido fica-te muito melhor do que a mim – continuou Fiona. – Quando o visto, fico quase com os seios de fora e os homens não me tiram os olhos de cima toda a noite. O Alistair diz que não devo voltar a usá-lo, portanto, se o quiseres, querida, é todo teu.
Alice surpreendia-se por Fiona lhe chamar «querida» como se fosse uma criança quando, na verdade, tinham a mesma idade. Também não queria que a tratasse como se ainda fosse aquela rapariga que chegara a Londres e aparecera, sem um cêntimo, à sua porta.
Fiona acolhera-a e dera-lhe um quarto, sem custos, até ganhar algum dinheiro. Então, quando dissera que ia mudar-se ao fim de umas semanas, Fiona rogara-lhe que ficasse, pois divertia-se muito com ela. Ao longo dos sete anos que tinham vivido juntas, tinham-se tornado bastante íntimas e contado confidências. Fiona entendia porque não gostava dos homens, mas, mesmo assim, não perdera a esperança de que, algum dia, conhecesse um homem em quem pudesse confiar… e que pudesse amar.
– Tinha-te contado que o Kenneth Jacobs desistiu de ser o nosso leiloeiro no último momento? – perguntou Alice, enquanto Fiona lhe punha perfume. – Alegou uma constipação.
– A sério? O que fizeste?
– Fiquei em pânico.
– Tu? – Fiona riu-se. – Em pânico? Impossível! Tu terás sabido o que fazer.
Divertia-se com essa fé cega de Fiona na sua capacidade organizativa, embora, claro, qualquer pessoa parecesse fria e serena em comparação com Fiona, que era bastante despistada e muito desordenada. Às vezes, pensava que Fiona lhe pedira para ficar porque ela fazia quase todas as tarefas da casa.
– Tive sorte. O Kenneth Jacobs pôs-me em contacto com uma mulher encantadora da Barker Books e, antes de dar por isso, o dono da editora ligou-me e ofereceu-se para substituir o senhor Jacobs.
– Que sorte!
– Não consegues imaginar. Tem uma voz incrível. Vai ser um leiloeiro fantástico. Não me ponhas mais perfume, Fiona. Tenho de ir buscar as minhas coisas. Combinei encontrar-me com o senhor Barker-Whittle às sete no vestíbulo do hotel.
– O quê?
– Disse…
– Sei o que disseste – interrompeu Fiona. – Suponho que não te refiras ao Jeremy Barker-Whittle.
– Sim – respondeu Alice. – Foi assim que se apresentou. Porquê? O que se passa?
– Nada, mas é um dos playboys com pior reputação de Londres. É bonito e tem mais encanto do que um homem devia ter o direito de ter. A minha irmã saiu com ele durante cinco minutos e não parou de o elogiar. Diz que, depois de ter estado com o Jeremy, nenhum outro homem pode comparar-se. Nunca te teria emprestado um vestido tão sensual se soubesse ao lado de quem ias estar sentada esta noite!
Embora ficasse atordoada com a notícia, Alice sentiu-se incomodada por Fiona pensar que podia ser vítima dos encantos discutíveis de um playboy. Tinha de a conhecer melhor do que isso. Uma vez avisada, o senhor Barker-Whittle não tinha a mínima possibilidade de a enganar, por muito bonito e atraente que fosse…
– Mais vale prevenir do que remediar, Fiona. Agora que sei, estarei preparada contra qualquer tentativa de me seduzir. Embora devesses saber melhor do que ninguém que sou imune aos homens assim.
Alice soube que estava a mentir enquanto o dizia. Sempre achara que os libertinos eram muito atraentes. Saíra com um uma vez e pagara caro. Embora não estivesse totalmente imunizada, esperava ter aprendido a lição. No entanto, era uma pena que o seu leiloeiro substituto fosse sozinho. Se Jeremy Barker-Whittle achava que ia entretê-lo depois do leilão, estava muito enganado.
– No entanto, não entendo – continuou Fiona. – O Jeremy é banqueiro, não editor.
– Agora, é editor – replicou Alice.
– Que estranho… Embora suponha que possa fazer o que quiser. A família Barker-Whittle é rica. Passaram a vida a trabalhar nos bancos comerciais.
– Sabes muito sobre eles…
– Sim, bom, como te disse, a Melody esteve obcecada com ele durante uma temporada e descobriu tudo o que pôde.
– Há mais alguma coisa que deva saber antes de o ver esta noite? – perguntou Alice.
– Na verdade, não. Simplesmente, não acredites em nada do que esse descarado diga e nem penses em sair com ele.
Alice quase se riu. Como se ele quisesse…
– Deve ser o meu táxi – comentou Alice, quando o telemóvel tocou. – Diverte-te esta noite, Fiona, e não te preocupes comigo, não vai acontecer-me nada. O Jeremy Barker-Whittle não tem nenhuma possibilidade.
Jeremy Barker-Whittle já estava sentado num sofá e falava ao telemóvel. Soube que era ele, ainda que houvesse mais homens no vestíbulo. No entanto, nenhum deles usava um smoking preto ou encaixava com a imagem que tinha do playboy com pior reputação de Londres. Enquanto Fiona falava dele, ela imaginara um dos seus atores favoritos que se tornara famoso a fazer papéis de rapazes maus e ricos. Jeremy Barker-Whittle era quase idêntico. Era muito bonito e a elegância do seu rosto e da sua roupa não podia ser uma imitação. Era evidentemente rico e era um desses homens invejado por outros homens e desejado pelas mulheres.
Não o desejava, mas o coração acelerara. Respirou fundo e alegrou-se por ele ainda não a ter visto. Isso dava-lhe tempo para ordenar as ideias e organizar as defesas… e para o observar calmamente. O cabelo, castanho-claro, era ligeiramente ondulado, quase lhe chegava até à gola do casaco e uma madeixa caía de uma forma muito sensual por cima da testa. O nariz era firme e reto e os olhos tinham uma cor azul resplandecente. Efetivamente, resplandeciam mesmo… ou, pelo menos, resplandeceram quando levantou a cabeça e a viu a olhar para ele. Desligou o telemóvel imediatamente, levantou-se e dirigiu-se para ela com um sorriso. Isso fez com que reparasse na sua boca, no seu lábio inferior sensual e nos seus dentes brancos incríveis. O coração parou por um segundo e fê-la pensar que era muito vulnerável aos homens que pareciam perfeitos.
– Por favor, diz-me que és a Alice – disse ele.
Era difícil não reagir ao seu encanto, mas conseguiu dominar-se e usou a fachada hermética que usava com os homens da sua índole.
– Sim, sou eu – reconheceu ela, com frieza. – Suponho que seja o senhor Barker-Whittle…
As mulheres não costumavam ser tão frias com ele e muito menos as mulheres com o aspeto de Alice. Alterou-o por um instante e começou a procurar um motivo para que tivesse uma atitude tão negativa com ele. Só lhe ocorreu que talvez fosse porque lhe dissera que era um solteirão resmungão e não gostasse que a enganassem. Fora muito calorosa ao telefone e, naquele momento, era gélida.
Esboçou um sorriso enquanto se questionava se essa beleza com tão má reputação dos Barker-Whittle conseguiria derreter um pouco a princesa de gelo porque, se não fosse assim, a noite que se aproximava não seria tão divertida como previra… e seria uma pena, pois sentia fraqueza pelas loiras esbeltas de ar frio com uns olhos azuis maravilhosos e uma boca feita para pecar.
– Chama-me Jeremy, por favor – pediu, ele enquanto, dissimuladamente, a observava. – Ninguém me chama senhor Barker-Whittle, nem a Madge me chama assim. A Madge menos do que ninguém. A Madge disse que seria melhor leiloar o nome de duas personagens, não de uma – inventou ele. – Se te parecer bem…
– O que…? Sim, claro. Seria… fantástico. Obrigada.
Perturbara-a um pouco isso e fora exatamente o que quisera fazer. Fora, durante uma milésima de segundo, a Alice amável e agradecida com quem falara ao telefone, até essa máscara gélida ter voltado ao seu lugar.
No entanto, não ia desistir. Tinha toda a noite para descongelar Alice. No mínimo, divertir-se-ia com o desafio. Ao fim e ao cabo, era estranho que alguém do sexo oposto o ignorasse. Reparou que não usava anéis e isso era um sinal inequívoco de que era solteira.
Despertara a sua curiosidade desde que ouvira aquela voz clara e precisa ao telefone. Naquele momento, depois de a conhecer, o desejo juntou-se à curiosidade e decidiu que não descansaria até aceder a sair com ele.
– Ias mostrar-me o programa na sala de baile, mas, primeiro, deixa-me tirar-te o casaco…
O pânico embargou-a com a ideia de lhe tirar o casaco, com a ideia de se mostrar mais a esse homem com um olhar sensual. Enganava-se se achava que não percebera como olhara para ela. Sabia que os homens a achavam atraente. Era uma cruz que quase todas as loiras bonitas e com classe tinham de carregar. Felizmente, naquela época, não atraía muito os homens porque tinha sempre o cabelo apanhado, não se maquilhava e usava calças de ganga. Naquela noite, no entanto, estava a mostrar-se em todo o seu esplendor. Amaldiçoou Fiona por lhe ter emprestado aquele vestido e por lhe ter posto aquele perfume tão caro. Só podia reprovar-se pela maquilhagem, mas, na altura, não soubera que passaria a noite com um homem que poderia fazer com que quisesse ser uma mulher diferente da que era.
Era uma pena que tivesse escolhido aqueles brincos de brilhantes que lhe tocavam no pescoço quando andava. Pensou em dizer-lhe que ia ficar com o casaco, mas ele já estava atrás dela e, além disso, não podia passar toda a noite com um casaco vestido. Tirou o casaco dos ombros sem virar a cabeça para olhar para ele. Susteve a respiração quando sentiu que uns dedos lhe tocavam na nuca e sentiu um arrepio nas costas enquanto o casaco caía nas suas mãos.
O que é que aquele homem tinha para fazer com que se sentisse assim? Sentira a atração sexual antes, não fora sempre tão precavida. O sexo parecera-lhe fascinante quando chegara à puberdade e passara grande parte da adolescência a fantasiar com diferentes atores. Até conhecer aquele enganador na universidade, um rapaz alto, bonito e moreno que a atraíra. Esse rapaz que a convencera de que sentia o mesmo que ela. Como uma parva, aceitara sair com ele.
No entanto, a atração que sentira não se comparava com o que se apoderava dela naquele momento. Era um disparate. Queria esquecer a cautela, queria esquecer tudo o que aprendera sobre os homens, queria esquecer os avisos de Fiona e permitir que Jeremy Barker-Whittle usasse todas as suas manhas com ela que, naturalmente, era o que ele queria fazer. Era um playboy, não era? Era isso que os playboys faziam.
No entanto, não ia fazê-lo com ela, decidiu, enquanto reunia toda a sua força de vontade.
– Vou guardá-lo – informou ele, com delicadeza, quando ela se virou finalmente. – Depois, continuaremos.
Ela observou, com certo desespero, que se mexia como fazia tudo, com estilo e uma elegância natural. Depois, demasiado depressa, estava a voltar para ela e, daquela vez, observava-a abertamente, sem disfarçar que gostava do que via.
– Não há nada como um bom vestido preto, pois não? – comentou ele, enquanto a agarrava pelo cotovelo e a levava para os elevadores. – O gerente disse-me que a sala de baile é no primeiro andar – acrescentou ele, antes de ela conseguir perguntar o que estava a fazer.
Mesmo assim, soltou o braço assim que pôde e lançou-lhe um olhar que lhe transmitiu, taxativamente, a mensagem de que não voltasse a tocar nela. Não ia permitir que ele tivesse o controlo da noite… ou dela.
Jeremy dominou a vontade de revirar os olhos, mas a verdade era que parecia a protagonista de um romance vitoriano. Não lera nenhum, mas conseguia imaginar como seria essa mulher: Rígida, afetada, que olhava por cima do ombro para os homens, sobretudo, os que ousavam pôr um dedo na sua pele virginal.
Alice teria encaixado perfeitamente nesse papel, à exceção de três circunstâncias. A primeira era aquele vestido. Não tinha alças e era tão justo que lhe dava uma imagem evidente de como seria nua. Teria uns seios duros, uma barriga plana e atlética, uma cintura de vespa, umas pernas compridas e bem formadas e as ancas e o rabo perfeitos para serem acariciados. A segunda era como olhara para ele quando chegara ao hotel. Não fora o olhar de uma virgem dissimulada. Comera-o com o olhar e deixara muito claro que o achava atraente. A terceira fora esse arrepio que lhe percorrera todo o corpo quando lhe tocara na nuca, embora tivesse sido sem querer. Não tinha o costume de tocar dissimuladamente numa mulher. Nunca precisara, mas fora muito eloquente que Alice tivesse reagido dessa forma.
Durante o breve trajeto de elevador, chegou à conclusão de que Alice Waterhouse era uma farsante, que se fazia de princesa de gelo com ele, mas que era apenas uma representação. Não sabia o que havia por trás, mas estava disposto a descobrir.
Capítulo 3
Alice já sabia que a sala de baile era no primeiro andar. Estivera lá naquela manhã para verificar se tinham seguido as suas instruções. Também se ocupara pessoalmente de pôr os cartões com os nomes no seu lugar e tentara satisfazer os desejos dos convidados. Cada cartão tinha o nome do convidado à frente e um número para o leilão atrás.
Saiu primeiro do elevador para que Jeremy não a agarrasse pelo cotovelo outra vez. Odiava ser brusca, mas seria se tivesse de ser e teria de ser se continuasse a tratá-la daquela forma. O seu contacto fazia-lhe coisas no corpo em que não suportava pensar.
– Por aqui – indicou ela, enquanto se apressava pelo corredor.
Alcançou-a com dois passos. Era muito mais alto e tinha as pernas muito compridas. Além disso, ela não conseguia andar muito depressa com uns saltos de dez centímetros e uma saia tão justa.
O corredor acabava por se abrir para um espaço maior onde dois empregados estavam a dar os últimos retoques numa zona paralela a uma parede e reservada para o bar.
– As bebidas prévias ao jantar estão programadas a partir das sete e meia – comentou Alice, enquanto abria a porta dupla que dava para a sala de baile. – O jantar começa oficialmente às oito e meia. Pedi-te para vires às sete para que tivesses tempo de ler a lista de lotes que vão leiloar-se e para que comentássemos como queres… proceder.
– Proceder…? – repetiu ele, enquanto se inclinava para a frente para lhe segurar a porta.
Alice conteve um suspiro. Tinha umas maneiras perfeitas. Parte dos seus recursos para seduzir seria fazer-se de cavalheiro com as mulheres. Afastaria as cadeiras da mesa, abriria as portas dos táxis… e usaria sempre preservativo.
Conseguiu, por pouco, não ficar boquiaberta. Podia saber-se porque lhe acontecera aquilo? Efetivamente, Jeremy Barker-Whittle parecia-lhe atraente, como a todas as mulheres, porque era impressionante, mas o facto de lhe parecer atraente não tinha nada a ver com querer ir para a cama com ele. No entanto, quando olhou para aqueles olhos azuis lindos e para aquela boca tão sensual, não pôde evitar questionar-se como seria ir para a cama com ele. Tinha de ser bom se a irmã de Fiona não parara de o elogiar. Conhecera a irmã de Fiona, uma verdadeira foliona que, segundo Fiona, fora para a cama com todos. De acordo com isso, também teria ido para a cama com Jeremy.
– O gato comeu-te a língua? – perguntou ele, com ironia.
Alice pestanejou, engoliu em seco e esboçou um sorriso forçado.
– Lamento muito, mas pensei em algo terrível e distraí-me.
– Alguma coisa que deva saber?
– Não. Estive um pouco obcecada com a posição dos convidados para o jantar e pensava que tinha cometido um erro numa das mesas. Mesmo assim, pode corrigir-se. O que queria dizer com «proceder» era se queres que se leiloem todos os lotes depois do jantar ou se preferes que se leiloem alguns entre os pratos.
– Claramente, é melhor leiloar entre os pratos. Isso vai manter o interesse dos convidados e evitar que se aborreçam.
– Estou de acordo. Segue-me.
Jeremy seguiu-a e desfrutou muito mais da visão do seu rabo do que da sua atitude. A sua voz e o seu olhar eram frios, mas ainda faltava muito para que pudesse conversar com ela e satisfazer a sua curiosidade.
Alice levou-o por um bosque de mesas circulares com toalhas de linho branco, faqueiro de prata, copos de cristal e uns cartões lindos com os nomes dos convidados.
– Parece tudo fantástico – comentou ele.
– Sim, é verdade – concordou, gélida.
Jeremy franziu o sobrolho e interrogou-se o que incomodaria a linda menina Waterhouse. Não podia comportar-se assim com todos os homens que conhecia. Era algo contra ele ou era outra coisa? Talvez tivesse discutido com alguém. Podia ser um namorado ausente…
– Organizaste tudo?
– Quase tudo – respondeu ela, laconicamente. – Naturalmente, o pessoal do hotel ajudou-me muito.
Chegaram ao palco, que era ao fundo da sala de baile e que podia usar-se para diferentes eventos: Concertos, entregas de prémios, apresentações… Naquela noite, tinha um atril com um microfone e uma mesa muito comprida por trás com uma variedade de objetos e um computador portátil aberto num extremo. Aquele seria o lugar de Alice, que lhe daria os objetos e iria anotando os números dos vencedores.
Jeremy olhou para o atril e pensou que não era o melhor lugar para um homem nervoso. Ele, felizmente, não o era, mas interrogou-se como Jacobs teria aguentado. Embora também não o conhecesse muito bem. Que ele soubesse, Kenneth podia ser, no fundo, um exibicionista. Ser preguiçoso não significava que fosse tímido.
Havia três lances de degraus para chegar ao palco. Alice parou a meio e, finalmente, virou-se para olhar para ele. Estava corada, mas os olhos continuavam a ser gélidos.
– Deixei a lista dos lotes no atril. Podes dar-lhe uma olhadela enquanto vou verificar os lugares.
– Está bem.
Observou-a enquanto abria caminho entre as mesas. Não parou até chegar à que era mais perto da porta. Ele encolheu os ombros e foi para o palco.
A lista era comprida e variada. Havia lembranças de eventos desportivos e de espetáculos, jantares para dois em restaurantes exclusivos, um fim de semana familiar numa casa de hóspedes de Weymouth, umas férias breves para dois em Espanha, bilhetes preferenciais para um concerto de rock, voos de ida e volta para diferentes capitais da Europa, um retrato a óleo da duquesa de Cambridge pintado por um artista emergente de Londres e, por último, embora não o menos importante, o privilégio de Kenneth Jacobs usar o nome de duas pessoas no seu próximo romance.
Jeremy não demorou a ler a lista e voltou a deixá-la no atril, antes de pegar no maço de madeira, observá-lo e experimentá-lo, fazendo com que ecoasse na sala vazia. Os empregados levantaram a cabeça, mas Alice não. Já não estava na mesa próxima da porta. Questionou-se se não teria sido uma desculpa para não estar mais com ele do que o estritamente necessário. Cerrou os dentes enquanto saía do palco e se dirigia para a saída. Na verdade, começava a sentir-se incomodado e perturbado. Porque não gostava dele? As mulheres gostavam sempre dele e nunca o tratavam com essa displicência.
Depressa percebeu que Alice também não estava na zona das bebidas. Já tinham começado a chegar pessoas, mas a sala não estava cheia e um cabelo loiro como o dela destacava-se em qualquer lugar.
– Jeremy Barker-Whittle! – exclamou um homem, atrás dele. – É uma alegria ver-te aqui.
Jeremy virou-se, contrariado. George Peterson fora seu cliente quando era assessor de investimentos. Era dono de vários estacionamentos e confiara nele para que transformasse as suas economias consideráveis numa carteira de valores que lhe permitisse reformar-se antecipadamente. Felizmente, conseguira agradá-lo. George tinha cinquenta e muitos anos, como a esposa, e gostava que não tivesse trocado a esposa por uma modelo, como muitos homens que tinham começado do zero faziam.
– No outro dia, estive a falar com a Mandy sobre ti, não foi, querida? – George sorriu de orelha a orelha. – No mês passado, estive muito nervoso porque vendi todas as minhas ações e participações e pus o dinheiro no banco.
– Fizeste bem, George, está tudo muito volátil, mas o dinheiro não vai crescer no banco. Talvez devesses pensar comprar alguma propriedade.
– Vês? O que te disse, querida? O Jeremy sabe sempre o que está a acontecer. O que fazes agora, rapaz? Já tens uma namorada como é devido ou continuas a andar de flor em flor?
Foi um acaso que Alice aparecesse naquele momento com uma taça de champanhe na mão direita, sorrindo e falando enquanto percorria a sala. Os seus olhares encontraram-se e Jeremy sorriu. George virou o rosto corado para ver quem estava a sorrir.
– Muito bonita – comentou George. – É a tua acompanhante para esta noite?
– Não – reconheceu Jeremy. – É a mulher que organizou tudo isto. Chama-se Alice Waterhouse. Alice! – chamou-a. – Vem conhecer uns amigos muito bons.
Jeremy sorriu porque ela já não conseguiria evitá-lo.
– Conheço a Alice – interveio Mandy. – Falei com ela ao telefone quando recebi a primeira mensagem por causa deste evento. Quando lhe contei como gostava dos livros do Kenneth Jacobs, disse-me que me poria na mesa dele.
Alice esboçou um sorriso forçado e foi conhecer os amigos de Jeremy. Jeremy apresentou-lhos e ela lembrou-se depressa da sua conversa com Mandy.
– Lamento imenso, mas o senhor Jacobs não vai poder vir esta noite. Tem uma constipação horrível.
Alice alegrou-se por poder falar com alguém que não fosse o fastidioso Jeremy, que continuava a sorrir com aquele ar petulante, como se houvesse uma relação secreta entre os dois.
– No entanto – continuou ela –, vamos continuar com o leilão do seu prémio. O editor dele aceitou, muito amavelmente, fazer as honras como leiloeiro.
Alice esboçou um sorriso açucarado que não se refletiu nos seus olhos.
– O quê? – George esbugalhou os olhos. – Está a falar de ti, Jeremy?
– Efetivamente.
– Desde quando és editor?
– Desde pouco depois de deixar os bancos.
– Há dinheiro nisso…?
– Certamente, não – respondeu Jeremy, com franqueza –, mas, como costuma dizer-se, o dinheiro não é tudo.
Alice reparou, embora não se importasse, que os olhos de Jeremy tinham parado de brilhar por um segundo.
Aproximou-se um empregado com uma bandeja com bebidas e ofereceu-lhes taças de champanhe ou copos de sumo de laranja. Todos escolheram champanhe, menos Alice, que já tinha uma taça. Não podia beber demasiado se tivesse de lidar com esse Don Juan toda a noite. A sua tentativa de o evitar até ao jantar fracassara.
– Tenho de me misturar – interveio Alice. – Vejo-vos durante o jantar, estamos todos na mesma mesa.
– Que bom! – exclamou Mandy.
– Eu acompanho-te – ofereceu-se Jeremy.
– Não é preciso – replicou Alice. – Devias ficar com os teus amigos.
– Podemos ficar sozinhos – replicou George. – Vão à vontade.
Alice apercebeu-se do olhar de cumplicidade que George lançava a Jeremy. Preferia não imaginar o que lhe contara.
– Porque é que o George olhou assim para ti? – perguntou ela, enquanto abriam caminho entre a multidão crescente.
– Como?
Ela parou e observou-o com raiva.
– Como se estivesse a fazer de casamenteiro.
– Não percebi…
Alice suspirou com desespero.
– O George é um pouco romântico – continuou Jeremy. – Não faças caso.
Ela estava a tentar encontrar alguma coisa para dizer quando um casal, um executivo da televisão e a esposa, chamou a atenção de Jeremy. Isso foi o que aconteceu durante os quarenta minutos seguintes. Os convidados competiam para monopolizar a sua atenção como se fosse uma celebridade e presumiam que ela era a namorada dele, algo que ele nunca negou. Embora isso também não impedisse que as mulheres o seduzissem nem que ela se sentisse ridícula e irracionalmente ciumenta.
Alice, irritada e perplexa, mal conseguia manter a sua calma habitual. Mal conseguiu conter a vontade de gritar com uma loira muito maquilhada e com umas pestanas falsas tão grandes que estavam prestes a cair. Respirou fundo, virou-se para Jeremy e sorriu com desinteresse.
– Lamento muito, Jeremy, mas tenho de ir à casa de banho antes de começar o jantar. Vemo-nos na mesa, a nossa é a número um.
Sentiu um alívio enorme ao afastar-se dele, mas olhou-se ao espelho e viu que tinha os olhos demasiado brilhantes, algo preocupante. Tinha de ter cuidado, muito cuidado.
Jeremy encontrou George e a esposa quando entrou na sala de baile às oito e vinte e cinco e foram a conversar até à mesa número um, que era à frente do palco. Não via Alice e essa ausência constante desesperava-o. Como não gostava de desperdiçar energias, começou a aceitar que era possível que Alice não se sentisse atraída. No entanto, se fosse verdade, porque reagira negativamente quando algumas mulheres o tinham seduzido? Percebera a irritação na sua linguagem corporal, sobretudo, quando essa loira começara a babar-se.
Estava a pensar nos motivos que Alice podia ter para o evitar quando apareceu no palco e se dirigiu lentamente para o atril. Estava impressionante e não conseguia desviar o olhar dela. Era como uma Audrey Hepburn jovem, mas com o cabelo loiro. Que classe! Uma vez no atril, ligou o microfone e deu-lhe umas pancadinhas para conseguir silêncio na sala de baile buliçosa. Quando todos se sentaram, sorriu e começou a falar nesse tom refinado e cristalino.
– Bem-vindos. Para começar, quero agradecer-vos por terem vindo esta noite para apoiar uma causa tão querida para mim. É uma desdita que os refúgios para mulheres sejam necessários no nosso mundo, que devia ser civilizado e ilustrado, mas são. É possível que alguns de vocês não saibam, mas sou assistente social de alguns refúgios de bairros marginalizados e sei que custa imenso seguir em frente e ajudar todas as mulheres que lhes pedem ajuda. Precisamos de mais refúgios, de mais assistentes sociais, de mais assessores… Naturalmente, tudo isso implica mais dinheiro e, esta noite, esperamos angariar parte, graças à vossa generosidade. Por favor… abram os cordões à bolsa. Acreditem em mim quando vos digo que tudo será crucial para essas mulheres que não têm para onde ir nem a quem recorrer. Precisam da vossa ajuda. Obrigada.
Quando parou de falar, a sala irrompeu em aplausos. Jeremy sentiu-se orgulhoso dela e francamente comovido. Que discurso! Bela mulher! Os políticos deveriam aprender com ela. Se não fosse o leiloeiro, teria licitado em todos os lotes para que alcançassem o preço mais alto antes de cair o maço. No entanto, decidiu que faria uma doação considerável no fim da noite. Até era possível que esse gesto servisse para que ela aceitasse sair com ele. Porque, certamente, sabia que ia pedir-lhe.
Quando Alice se sentou à mesa, todos se dirigiram a ela ao mesmo tempo. Felicitaram-na e garantiram-lhe que doariam. Jeremy não conseguiu falar, mas, assim que pôde, inclinou-se para ela para falar em voz baixa.
– Foi um discurso muito impressionante, Alice. Se quisesses, poderias ser angariadora de fundos profissional.
Alice ficou rígida com a reação do seu corpo à voz dele e ao calor da respiração na orelha. Sentiu um nó no estômago e os mamilos endureceram. Era aterrador, mas também era maliciosamente cativante. Desejava virar-se e sorrir a sério, com um sorriso que lhe indicasse como queria deixar-se levar por esse feitiço carregado de erotismo que achava que poderia fazer-lhe… se deixasse.
No entanto, seria como brincar com o fogo. Vira o que os homens podiam fazer a uma mulher.
Era possível que Jeremy não fosse tão atroz como o marido abusador da irmã ou como esse descarado desalmado com quem saíra na universidade, mas era um mulherengo compulsivo que queria as mulheres apenas para uma coisa. Embora também tivesse de reconhecer que a sua mente traiçoeira estivera a pensar nessa coisa desde que o conhecera. Evidentemente, Jeremy era um Casanova consumado que não precisava de levantar um dedo para que as mulheres se derretessem. A sua elegância e beleza naturais faziam-no por ele… e essa voz tão maravilhosa e sensual, claro.
Apesar da tentação poderosa, recusou-se a ser mais uma das suas conquistas de playboy. Esboçou um sorriso de mera cortesia, antes de virar a cabeça para responder. No entanto, infelizmente, não esperara que Jeremy estivesse tão perto. Os seus narizes, os seus olhos e as suas bocas ficaram a escassos centímetros. O seu sorriso congelou, olhou para os lábios dele e odiou-se por se questionar como seria beijá-los. Mesmo assim, desejou-o. Efetivamente, desejava-o e, durante um instante, quase cedeu a esse impulso premente de encurtar a distância que havia entre eles. No entanto, conseguiu dominar-se no último segundo e ele, graças a Deus, endireitou-se na sua cadeira.
– Não poderia ser uma angariadora de fundos profissional – replicou ela, com a frieza habitual. – Não gosto de pedir dinheiro a ninguém. Pelo menos, desta forma, as pessoas recebem alguma coisa em troca da doação. Garantiram-me que a comida e o vinho serão bons, mas, claro, não haverá muito por onde escolher. É um menu fixo com duas alternativas em cada prato. Era a única forma de conseguir servir tantos jantares.
– Parece-me bem – comentou Jeremy, enquanto chegavam os primeiros pratos.
Alice alegrou-se por poder concentrar-se em algo que não fossem essas sensações desatinadas. Conteve um suspiro de alívio quando todas as pessoas da sua mesa começaram a comer com aparente satisfação. Os empregados ofereciam constantemente vinho branco ou tinto e cada mesa tinha jarros de água fresca e de sumo de laranja para o caso de alguém não beber álcool. Mandy, que estava à sua direita, e ela escolheram vinho branco, embora não tencionasse beber muito.
– Come – disse Jeremy, ao vê-la com o garfo na mão e a cabeça noutro lugar. – Adoro as mulheres que desfrutam da comida.
– Parece-me que gostas de todas as mulheres.
– É possível que tenhas razão, são o sexo mais bonito sem nenhum género de dúvidas.
– Com especial ênfase no sexo – troçou ela.
– Não gostas muito dos homens, pois não? – perguntou ele. – Ou é só comigo?
O remorso corroeu-a por dentro quando percebeu como fora antipática quando não lhe fizera nada. Fora tudo fruto da sua imaginação.
– Lamento – desculpou-se ela, sinceramente. – Não costumo ser tão desagradável, mas foi um dia complicado. Gosto de ti, a sério, e agradeço que tenhas vindo para ser o leiloeiro. É que…
– O quê?
Alice fechou os olhos e abanou a cabeça. Era impossível explicar-lhe sem ser desagradável outra vez.
– Nada – respondeu ela. – Estou um pouco cansada.
– Não pareces cansada, estás muito bonita.
– Por favor, não…
– Não o quê? – interrompeu ele. – Não queres que te diga que me pareces maravilhosa? Eu gostaria de te convidar para jantar, Alice.
Não conseguia acreditar que estivesse tão tentada a aceitar o jantar e, depois, a cama. A intensidade dessa tentação deixou-a atónita. Fiona tivera toda a razão do mundo. Jeremy era muito perigoso.
– Obrigada, lisonjeias-me, mas não posso aceitar.
– Posso perguntar porquê? Acabaste de me dizer que gostas de mim
– Tenho de te dar um motivo? Talvez tenha namorado.
– Tens?
– Não.
Alice levou o copo de vinho aos lábios. Decidira não beber, mas esse homem faria qualquer mulher beber.
– Tens namorado? – insistiu ele.
O susto fez com que lhe caísse um pouco de vinho. Ele, rapidamente, pegou no lenço branco que tinha no bolso do casaco e limpou-lhe o vinho que lhe caíra pelo queixo e pelo pescoço e que se aproximava do decote.
– Não faças isso! – ordenou ela, embora tivesse ficado com pele de galinha.
– Não sejas ridícula – replicou ele, enquanto continuava a limpar-lhe o vinho.
George e Mandy disseram qualquer coisa, mas ela só conseguia concentrar-se nesse lenço endiabrado que se dirigia para os seus mamilos duros e eretos.
Ele parou antes de os alcançar e retirou o lenço. Alice não soube se devia sentir-se aliviada ou dececionada.
– Então, qual é o verdadeiro motivo para que não possas aceitar o meu convite? – perguntou ele, sem se alterar, enquanto ela tentava acabar o primeiro prato. – E, por favor, gostaria que me dissesses a verdade.
– Se queres sabê-lo, é por causa da tua reputação.
– Que reputação? – perguntou ele, perplexo.
– Vá lá, Jeremy, tens de saber o que as pessoas dizem de ti. És um playboy.
– Ah, é só isso? Esse é o único motivo?
– Não te parece um motivo suficiente? – perguntou ela.
– Nunca me tinha acontecido.
Observou-o fixamente. Era arrogante, sem dúvida, mas com uma naturalidade maravilhosa que fazia com que fosse irresistível e terrivelmente sedutor.
– Imagino que não haja muitas mulheres que te… rejeitem, Jeremy, mas eu, sim. Não penses muito nisso. É que, simplesmente, não quero perder tempo com um homem que acha que sair com alguém é um jogo e que as mulheres são intercambiáveis.
– Não consigo imaginar-te a ser intercambiável, Alice. Pareces-me única.
– Porquê? Porque te rejeitei?
Ele sorriu e ela quis esbofeteá-lo… e beijá-lo… e aceitar o convite.
Endireitou-se, como fazia quando a vida a punha entre a espada e a parede.
– Temos de leiloar algumas coisas – comentou ela, com frieza, enquanto se levantava.
Ücretsiz ön izlemeyi tamamladınız.