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TRANSMISSÃO
(AS CRÓNICAS DA INVASÃO – LIVRO 1)
MORGAN RICE
Morgan Rice
Morgan Rice é a best-seller nº1 e a autora do best-selling do USA TODAY da série de fantasia épica O ANEL DO FEITICEIRO, composta por dezassete livros; do best-seller nº1 da série OS DIÁRIOS DO VAMPIRO, composta por doze livros; do best-seller nº1 da série TRILOGIA DA SOBREVIVÊNCIA, um thriller pós-apocalíptico composto por três livros; da série de fantasia épica REIS E FEITICEIROS, composta por seis livros; da série de fantasia épica DE COROAS E GLÓRIA, composta por oito livros; e da série de fantasia épica UM TRONO PARA IRMÃS, composta por 5 livros (a continuar); e da nova série de ficção científica AS CRÓNICAS DA INVASÃO. Os livros de Morgan estão disponíveis em edições áudio e impressas e as traduções estão disponíveis em mais de 25 idiomas.
Morgan adora ouvir a sua opinião, pelo que, por favor, sinta-se à vontade para visitar www.morganricebooks.com e juntar-se à lista de endereços eletrónicos, receber um livro grátis, receber ofertas, fazer o download da aplicação grátis, obter as últimas notícias exclusivas, ligar-se ao Facebook e ao Twitter e manter-se em contacto!
Seleção de aclamações para Morgan Rice
"Se pensava que já não havia motivo para viver depois do fim da série O ANEL DO FEITICEIRO, estava enganado. Em A ASCENSÃO DOS DRAGÕES Morgan Rice surgiu com o que promete ser mais uma série brilhante, fazendo-nos imergir numa fantasia de trolls e dragões, de valentia, honra, coragem, magia e fé no seu destino. Morgan conseguiu mais uma vez produzir um conjunto forte de personagens que nos faz torcer por eles em todas as páginas… Recomendado para a biblioteca permanente de todos os leitores que adoram uma fantasia bem escrita."
--Books and Movie Reviews, Roberto Mattos
“Uma fantasia repleta de ação que irá certamente agradar aos fãs das histórias anteriores de Morgan rice, juntamente com os fãs de trabalhos tais como O CICLO DA HERANÇA de Christopher Paolini…Os fãs de ficção para jovens adultos irão devorar este último trabalho de Rice e suplicar por mais.”
--The Wanderer, A Literary Journal (referente a Ascensão dos Dragões
"Uma fantasia espirituosa que entrelaça elementos de mistério e intriga no seu enredo. Uma Busca de Heróis tem tudo a ver com a criação da coragem e com a compreensão do propósito da vida que leva ao crescimento, maturidade e excelência… Para os que procuram aventuras de fantasia com sentido, os protagonistas, estratagemas e ações proporcionam um conjunto vigoroso de encontros que se relacionam com a evolução de Thor desde uma criança sonhadora a um jovem adulto que procura sobreviver apesar das dificuldades… Apenas o princípio do que promete ser uma série de literatura juvenil épica."
--Midwest Book Review, D. Donovan, eBook Reviewer
"O ANEL DO FEITICEIRO tem todos os ingredientes para um sucesso instantâneo: enredos, intrigas, mistério, valentes cavaleiros e relacionamentos que florescem repletos de corações partidos, deceções e traições. O livro manterá o leitor entretido por horas e agradará a pessoas de todas as idades. Recomendado para a biblioteca permanente de todos os leitores do género de fantasia."
--Books and Movie Reviews, Roberto Mattos.
"Neste primeiro livro repleto de ação da série de fantasia épica Anel do Feiticeiro (que conta atualmente com 14 livros), Rice introduz os leitores ao Thorgrin "Thor" McLeod de 14 anos, cujo sonho é juntar-se à Legião de Prata, aos cavaleiros de elite que servem o rei... A escrita de Rice é sólida e a premissa intrigante."
--Publishers Weekly
Livros de Morgan Rice
AS CRÓNICAS DA INVASÃO
TRANSMISSÃO (Livro #1)
CHEGADA (Livro #2)
O CAMINHO DA ROBUSTEZ
APENAS OS DIGNOS (Livro #1)
UM TRONO PARA IRMÃS
UM TRONO PARA IRMÃS (Livro #1)
UMA CORTE PARA LADRAS (Livro #2)
UMA CANÇÃO PARA ÓRFÃS (Livro #3)
UMA ENDECHA PARA PRÍNCIPES (Livro #4)
UMA JOIA PARA REALEZAS (Livro #5)
UM BEIJO PARA RAINHAS (Livro #6)
DE COROAS E GLÓRIA
ESCRAVA, GUERREIRA, RAINHA (Livro #1)
VADIA, PRISIONEIRA, PRINCESA (Livro #2)
CAVALEIRO, HERDEIRO, PRÍNCIPE (Livro #3)
REBELDE, PEÃO, REI (Livro #4)
SOLDADO, IRMÃO, FEITICEIRO (Livro #5)
HEROÍNA, TRAIDORA, FILHA (Livro #6)
GOVERNANTE, RIVAL, EXILADA (Livro #7)
VENCEDORA, DERROTADA, FILHO (Livro #8)
REIS E FEITICEIROS
A ASCENSÃO DOS DRAGÕES (Livro #1)
A ASCENSÃO DOS BRAVOS (Livro #2)
O PESO DA HONRA (Livro #3)
UMA FORJA DE VALENTIA (Livro #4)
UM REINO DE SOMBRAS (Livro #5)
A NOITE DOS CORAJOSOS (Livro #6)
O ANEL DO FEITICEIRO
UMA BUSCA DE HERÓIS (Livro #1)
UMA MARCHA DE REIS (Livro #2)
UM DESTINO DE DRAGÕES (Livro #3)
UM GRITO DE HONRA (Livro #4)
UM VOTO DE GLÓRIA (Livro #5)
UMA CARGA DE VALOR (Livro #6)
UM RITO DE ESPADAS (Livro #7)
UM ESCUDO DE ARMAS (Livro #8)
UM CÉU DE FEITIÇOS (Livro #9)
UM MAR DE ESCUDOS (Livro #10)
UM REINADO DE AÇO (Livro #11)
UMA TERRA DE FOGO (Livro #12)
UM GOVERNO DE RAINHAS (Livro #13)
UM JURAMENTO DE IRMÃOS (Livro #14)
UM SONHO DE MORTAIS (Livro #15)
UMA JUSTA DE CAVALEIROS (Livro #16)
O DOM DA BATALHA (Livro #17)
TRILOGIA DE SOBREVIVÊNCIA
ARENA UM: TRAFICANTES DE ESCRAVOS (Livro #1)
ARENA DOIS (Livro #2)
ARENA TRÊS (Livro #3)
VAMPIRO, APAIXONADA
ANTES DO AMANHECER (Livro #1)
MEMÓRIAS DE UM VAMPIRO
TRANSFORMADA (Livro #1)
AMADA (Livro #2)
TRAÍDA (Livro #3)
PREDESTINADA (Livro #4)
DESEJADA (Livro #5)
COMPROMETIDA (Livro #6)
PROMETIDA (Livro #7)
ENCONTRADA (Livro #8)
RESSUSCITADA (Livro #9)
ALMEJADA (Livro #10)
DESTINADA (Livro #11)
OBCECADA (Livro #12)
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Copyright © 2018 por Morgan Rice. Todos os direitos reservados. Exceto conforme permitido pela Lei de Direitos de Autor dos EUA de 1976, nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de qualquer forma ou por qualquer meio, ou armazenada numa base de dados ou sistema de recuperação, sem a autorização prévia da autora. Este e-book está licenciado para o seu uso pessoal. Este e-book não pode ser revendido ou cedido a outras pessoas. Se quiser partilhar este livro com outra pessoa, por favor, compre uma cópia adicional para cada destinatário. Se está a ler este livro e não o comprou, ou se ele não foi comprado apenas para seu uso pessoal, por favor, devolva-o e adquira a sua própria cópia. Obrigado por respeitar o trabalho árduo desta autora. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, lugares, eventos e incidentes são produto da imaginação da autora ou foram usados de maneira fictícia. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou falecidas, é mera coincidência.
CONTEÚDO
CAPÍTULO UM
CAPÍTULO DOIS
CAPÍTULO TRÊS
CAPÍTULO QUATRO
CAPÍTULO CINCO
CAPÍTULO SEIS
CAPÍTULO SETE
CAPÍTULO OITO
CAPÍTULO NOVE
CAPÍTULO DEZ
CAPÍTULO ONZE
CAPÍTULO DOZE
CAPÍTULO TREZE
CAPÍTULO CATORZE
CAPÍTULO QUINZE
CAPÍTULO DEZASSEIS
CAPÍTULO DEZASSETE
CAPÍTULO DEZOITO
CAPÍTULO DEZANOVE
CAPÍTULO VINTE
CAPÍTULO VINTE E UM
CAPÍTULO VINTE E DOIS
CAPÍTULO VINTE E TRÊS
CAPÍTULO VINTE E QUATRO
CAPÍTULO VINTE E CINCO
CAPÍTULO VINTE E SEIS
CAPÍTULO VINTE E SETE
CAPÍTULO UM
Kevin estava bastante convicto de que não lhe deviam dizer que estava a morrer quando tinha treze anos. Provavelmente não havia um bom momento para lho dizerem, para ser franco, mas definitivamente não quando se tinha treze anos.
“Kevin” disse o Dr. Markham, inclinando-se para a frente na sua cadeira “entende o que lhe estou a dizer? Tem alguma pergunta? Você tem, Sra. McKenzie?”
Kevin olhou para a sua mãe, à espera que ela soubesse melhor do que ele o que dizer a seguir. À espera talvez de ter ouvido mal tudo aquilo e que ela lhe explicasse. Ela era baixa e magra, com o olhar duro de alguém que tinha trabalhado arduamente para criar sozinha o seu filho em Walnut Creek, na Califórnia. Kevin já era mais alto do que ela, e uma vez, apenas uma vez, ela tinha dito que ele era parecido com o seu pai.
Neste momento, ela parecia estar a tentar segurar as lágrimas.
“Tem a certeza de que isto não é um engano?” ela perguntou. “Nós só viemos ao médico por causa das coisas que o Kevin andava a ver.”
As coisas que ele andava a ver. Essa era uma maneira delicada de o dizer, como se só de falar naquilo o pudesse piorar ou aumentar. Quando Kevin contou pela primeira vez à sua mãe sobre isto, ela ficou a olhar para ele e depois disse-lhe que ele o devia ignorar. Por fim, depois de desmaiar, ele acordou e descobriu que tinha uma consulta com o médico de família.
Eles foram rapidamente do consultório do médico para o hospital para fazer exames, e depois para o consultório do Dr. Markham, que tinha paredes brancas e estava cheio de lembranças do que pareciam ser viagens a todos os cantos do planeta. Quando Kevin entrou lá pela primeira vez, ele teve a sensação de tal era uma tentativa de fazer com que um ambiente frio e clínico parecesse caseiro. Agora ele pensava que talvez o Dr. Markham gostasse de ser lembrado de que havia vida que não incluía dizer às pessoas que elas estavam a morrer.
“As alucinações podem ser um fator quando se trata de doenças como esta” disse o Dr. Markham, num tom cuidadoso.
Falar em alucinações não parecia ser a melhor forma de o dizer a Kevin. Fazia com que soasse como se fossem coisas irreais, fantasmagóricas, mas as coisas que ele via pareciam encher o mundo quando surgiam. Imagens de paisagens que ele não tinha visto, vestígios de horizontes.
E, claro, os números.
“23h 06m 29,283s, −05° 02′ 28,59” disse ele. “Deve significar alguma coisa. Tem que significar alguma coisa.”
O Dr. Markham abanou a cabeça. “Tenho a certeza que deve ser isso que lhe parece, Kevin. Tenho a certeza que deve querer que tudo isso signifique alguma coisa, mas neste momento, preciso que entenda o que está a acontecer consigo.”
Acima de tudo, tal tinha sido parte do motivo pelo qual Kevin o havia contado à sua mãe. Ele tinha demorado algumas semanas a convencê-la de que ele não estava a brincar ou a jogar um jogo qualquer. Ao início, ela estava convencida de que ele não estava a falar a sério. Quando ele começou a ter as dores de cabeça, ela começou a levar aquilo mais a sério, deixando-o faltar à escola para ficar em casa no dia em que a dor estava paralisante. Quando ele desmaiou pela primeira vez, ela apressou-se a levá-lo ao médico.
“O que está a acontecer comigo?” Kevin perguntou. O que era estranho era como ele se sentia calmo - bem, não propriamente calmo. Talvez mais meio adormecido. Adormecido era provavelmente a palavra certa. A sua mãe parecia estar prestes a ir-se abaixo, mas, para Kevin, tudo parecia longe, ainda à espera para entrar em ação precipitadamente.
“Você tem uma doença pertencente a um grupo de doenças degenerativas do cérebro conhecidas como leucodistrofias” disse o Dr. Markham. “Eu ponho por escrito se quiser.”
“Mas eu nunca ouvi falar disso antes” disse a mãe de Kevin, no tom de alguém para quem isto significava que não poderia ser real. Ele via as lágrimas que ela estava a tentar evitar. “Como é que o meu filho pode ter algo sobre o qual eu nunca ouvi falar?”
Ver a sua mãe assim era provavelmente a parte mais difícil para Kevin. Ela tinha sempre sido tão forte. Ele nunca tinha tido um problema que ela não tivesse sido capaz de resolver. Ele suspeitava que isso era o que ela estava a pensar também.
“É uma doença muito rara, Sra. McKenzie” disse o Dr. Markham. “Ou melhor, uma coleção de doenças, sendo que cada uma se manifesta de maneira diferente. Existem diferentes formas, todas causadas por uma anormalidade genética que afeta a matéria branca, à qual chamamos de bainha de mielina, do cérebro. Geralmente, há apenas algumas centenas de pacientes com cada uma destas doenças simultaneamente.”
“Se sabe o que as causa, não consegue fazer nada?” a mãe de Kevin perguntou. “Não há nenhuma terapia genética ou algo assim?”
Kevin tinha visto a sua mãe na Internet. Agora, ele suponha que sabia o que ela tinha estado a ver. Ela não tinha dito nada, mas talvez ela tivesse tido esperança de estar errada. Talvez ela tivesse tido esperança que houvesse algo que lhe tivesse escapado.
“Existem terapias disponíveis para algumas formas de leucodistrofia” disse o Dr. Markham. Ele abanou a cabeça. “E temos esperança de que, no futuro, elas possam ajudar, mas para a de Kevin não há um tratamento estabelecido. A triste verdade é que, quanto mais rara é a doença, menos pesquisa foi feita sobre ela, porque menos financiamento existe para essa pesquisa.”
“Deve haver alguma coisa” disse a sua mãe. “Alguma opção experimental, algum estudo…”
Kevin estendeu a mão colocando-a sobre a da sua mãe. Era estranho que eles já fossem quase do mesmo tamanho.
“Está tudo bem, Mãe” disse ele, tentando soar como se tivesse tudo sob controlo.
“Não, não está.” A mãe dele estava em tal estado de choque com tudo aquilo que parecia que poderia explodir. “Se não há nada, então o que fazemos a seguir?”
“Usamos os tratamentos disponíveis para dar a Kevin a melhor qualidade de vida possível” disse o Dr. Markham. “Pelo tempo que ainda lhe resta. Lamento, gostaria de ter notícias melhores.”
Kevin viu a sua mãe a esforçar-se por ser forte, recompondo-se aos poucos. Ele poderia dizer que ela estava a fazer isto por causa dele, e quase se sentia culpado por ela o ter que fazer.
“O que é que isso significa?” ela perguntou. “O que é que está exatamente a propor fazer por Kevin?”
“Eu vou prescrever comprimidos para ajudar a controlar a dor” disse o Dr. Markham “e reduzir as probabilidades de convulsões. Kevin, sei que as alucinações podem ser angustiantes, pelo que eu gostaria que você falasse com alguém sobre técnicas para lidar com elas e sobre as suas respostas a elas.”
“O doutor quer que Kevin consulte um psicólogo?” a sua mãe perguntou.
“Linda Yalestrom é uma especialista em ajudar pessoas, particularmente jovens, a lidar com os sintomas que doenças raras como esta podem causar” disse o Dr. Markham. “Eu recomendo fortemente que você vá com o Kevin a uma consulta com ela, dadas as coisas que ele tem visto.”
“Não são apenas alucinações” insistiu Kevin. Ele tinha a certeza de que elas eram mais do que isso.
“Tenho a certeza que deve parecer assim” disse o Dr. Markham. “A Dra. Yalestrom talvez possa ajudar.”
“O que quer que seja... que o doutor achar que é melhor” disse a mãe de Kevin. Kevin percebeu que ela não queria outra coisa senão sair dali. No entanto, havia algo que ele precisava de saber. Algo óbvio que ele achava que provavelmente deveria perguntar, mesmo que não quisesse realmente ouvir a resposta.
“Quanto tempo?” ele perguntou. “Quanto tempo tenho até... morrer?”
Ainda era difícil acreditar nessa palavra difícil. Kevin ainda tinha a esperança de que tudo aquilo não passasse de um engano, até mesmo agora, mas ele sabia que não era. Não podia ser.
“É impossível dizer com certeza” disse o Dr. Markham. “A taxa de progressão das leucodistrofias pode variar, e cada caso é diferente.”
“Quanto tempo?” Kevin repetiu.
“Talvez seis meses.” O Dr. Markham abriu os braços. “Sinto muito, Kevin. Eu não consigo ser mais exato do que isto.”
***
Kevin e a sua mãe foram para casa, com a sua mãe a conduzir com o tipo de cuidado de alguém que sabia que provavelmente desmoronaria se não se concentrasse completamente. Durante a maior parte da viagem em direção aos subúrbios, eles permaneceram em silêncio. Kevin não tinha a certeza do que poderia dizer.
A sua mãe falou primeiro. “Nós vamos arranjar uma solução” disse ela. “Nós vamos encontrar outro médico, obter uma segunda opinião. Vamos tentar qualquer tratamento de que eles se lembrem.”
“Tu não tens dinheiro para isso” disse Kevin. A sua mãe trabalhava arduamente numa agência de marketing, mas a casa deles era pequena, e Kevin sabia que não havia muito dinheiro para extras. Ele tentava não exigir muito, porque isso só fazia com que a sua mãe se sentisse triste quando não lho conseguia dar. Ele odiava ver a sua mãe assim, e isso só tornava as coisas mais difíceis.
“Achas que isso me importa?” a sua mãe perguntou. Kevin pôde ver as lágrimas a saírem-lhe dos olhos. “Tu és o meu filho, e tu estás a morrer, e... eu não consigo... eu não consigo salvar-te.”
“Tu não tens que me salvar” disse Kevin, embora, neste preciso momento, ele desejasse que alguém o fizesse. Ele desejava que aparecesse alguém que acabasse com tudo isto.
Ele estava a começar a interiorizar o que isto poderia significar. O que isto poderia significar antes do ano letivo acabar. Ele iria morrer. Ele estaria morto. Tudo com o que ele havia sonhado ser-lhe-ia vedado, tudo o que ele havia desejado para o seu futuro não aconteceria porque não haveria futuro.
Kevin não tinha a certeza de como se sentia. Triste, sim, porque era o tipo de notícia com a qual uma pessoa supostamente ficava triste, e porque ele não queria morrer. Zangado, porque o que ele queria não parecia importar no que a este assunto dizia respeito. Confuso, porque ele não tinha a certeza porque é que tinha de ser com ele, quando havia milhões de outras pessoas no mundo.
Comparado a sua mãe, porém, ele estava calmo. Ela estava a tremer enquanto conduzia. Kevin estava tão preocupado que eles pudessem ter um acidente que suspirou de alívio quando entraram na rua da sua casa. Era uma das casas mais pequenas do quarteirão, velha e remendada com reparações.
“Vai correr tudo bem” disse a sua mãe. Ela não soava como se acreditasse no que estava a dizer. Ao entrarem em casa, ela deu o braço a Kevin, mas parecia que Kevin é que a estava a apoiar.
“Sim” Kevin respondeu, porque ele suspeitava que a sua mãe precisava ouvir isso ainda mais do que ele. Poderia ter ajudado se fosse verdade.
Eles entraram, e parecia quase errado fazer coisas normais depois das notícias que o Dr. Markham lhes transmitira. Como se fazer coisas normais fosse uma espécie de traição. Kevin colocou uma pizza congelada no forno, enquanto, ao fundo, ouvia a mãe a soluçar no sofá. Ele ia consolá-la mas duas coisas o impediram. A primeira foi pensar que a sua mãe provavelmente não iria querer que ele o fizesse. Ela sempre fora a forte, a que cuidara dele mesmo depois do seu pai se ter ido embora quando ele era apenas um bebé.
A segunda foi a visão.
Ele viu uma paisagem sob um céu que parecia mais púrpura do que azul, com as árvores por baixo com formas estranhas, com folhas que o faziam lembrar as palmeiras nas praias, mas com troncos que se retorciam como as palmeiras nunca o faziam. O céu parecia como se o sol se estivesse a pôr. Mas parecia haver algo de errado com o sol. Kevin não sabia o quê, porque não passara o tempo a olhar para ele, mas ele sabia que o sol não era o mesmo.
Num canto da sua mente, os números pulsavam repetidas vezes.
Ele estava a caminhar por um espaço coberto de areia avermelhada agora, e ele sentia os dedos dos pés a afundarem-se nela. Havia criaturas ali, pequenas e semelhantes a lagartos, que se afastaram quando ele se chegou muito perto delas. Ele olhou ao redor…
... e o mundo se dissolveu em chamas.
Kevin acordou no chão da cozinha, com o cronómetro do forno a apitar para dizer que a pizza estava pronta e o cheiro de comida a queimar a arrancarem-no do chão até ao forno antes que a sua mãe tivesse que fazê-lo. Ele não queria que ela o visse assim, não lhe queria dar mais motivos para ela se preocupar.
Ele foi buscar a pizza, cortou-a em fatias e levou-as para a sala de estar. A sua mãe estava no sofá e, embora tivesse parado de chorar, os seus olhos estavam vermelhos. Kevin colocou a pizza na mesa de café, sentou-se ao lado dela e ligou a televisão para que pudessem pelo menos fingir que as coisas estavam normais.
“Tu não deverias ter de fazer isto” a sua mãe disse, e Kevin não sabia se ela se estava a referir à pizza ou a tudo o resto. Naquele momento, isso não era importante.
Ainda assim, os números pairavam na sua cabeça: 23h 06m 29,283s, −05° 02′ 28,59.
CAPÍTULO DOIS
Kevin não tinha a certeza se já se tinha sentido tão cansado quanto se sentia quando ele e a sua mãe entraram no parque de estacionamento da escola. O plano era tentar continuar normalmente, mas ele sentia-se como se pudesse adormecer a qualquer momento. Aquilo estava muito longe de ser normal.
E isso era provavelmente por causa dos tratamentos. Tinha havido muitos tratamentos nos últimos dias. A sua mãe tinha encontrado mais médicos, e cada um tinha um plano diferente para tentar pelo menos retardar as coisas. Era o que eles sempre diziam, com as palavras a deixarem claro que mesmo isso seria algo especial, e que, na verdade, parar as coisas era algo que eles não podiam esperar.
“Tem um bom dia na escola, querido” disse a sua mãe. Havia algo de falso na vivacidade daquela frase, uma ponta frágil que dizia o quanto ela estava a tentar esforçar-se para produzir um sorriso. Kevin sabia que ela estava a fazer um esforço por ele, e ele fez também o seu melhor.
“Eu vou tentar, Mãe” ele assegurou-lhe, e ele pôde ouvir que a sua própria voz também não pareceu natural. Era como se ambos estivessem a desempenhar papéis porque eles tinham medo da verdade. Kevin desempenhava o seu porque ele não queria que a sua mãe chorasse novamente.
Quantas vezes é que ela já tinha chorado até agora? Quantos dias já tinham passado desde que eles tinham ido ao Dr. Markham pela primeira vez? Kevin havia perdido a noção. Tinha havido um dia ou dois em que ele tinha faltado à escola, antes de se ter tornado óbvio que nenhum deles queria isso. Depois tinha havido o seguinte: a escola intercalada com testes e tentativas de terapias. Tinha havido injeções, exames de sangue, suplementos porque a sua mãe tinha lido online que eles poderiam ajudar, e comida saudável que estava muito distante de pizza.
“Eu só quero que as coisas sejam tão normais quanto possível” disse a sua mãe. Nenhum deles mencionou que, num dia normal, Kevin teria ido de autocarro para a escola, e eles não teriam tido que se preocupar com o que era normal ou não.
Ou que num dia normal, ele não estaria a esconder o que se passava com ele, ou a sentir-se grato pela sua amiga mais próxima ter ido para uma escola diferente depois da última vez que ele e a sua mãe se tinham mudado, para que ela não tivesse de ver nada disto. Ele já não telefonava à Luna há dias, e as mensagens estavam a aumentar no seu telefone. Kevin ignorava-as, porque ele não sabia como lhes responder.
Kevin pôde sentir os olhos sobre si desde o momento em que ele entrou na escola. Os rumores circulavam agora, mesmo que ninguém soubesse com garantias o que se passava com ele. Ele viu um professor adiante, o Sr. Williams, e num dia normal, Kevin teria sido capaz de passar por ele sem sequer atrair um momento de atenção. Ele não era uma daquelas crianças que os professores ficavam de olho porque estavam sempre a fazer algo de errado. Agora, o professor fê-lo parar, olhando-o de cima a baixo como se esperasse sinais de que ele pudesse morrer a qualquer momento.
“Como é que te sentes, Kevin?” ele perguntou. “Estás bem?”
“Estou bem, Sr. Williams” assegurou Kevin. Era mais fácil estar bem do que tentar explicar a verdade: como ele estava preocupado com a sua mãe, e sempre cansado com as tentativas de tratamento, e com medo do que fosse acontecer a seguir.
Como os números ainda estavam à volta na sua cabeça.
23h 06m 29,283s, −05° 02′ 28,59. Eles estavam lá no fundo da sua mente, agachados como um sapo que não se mexia, impossíveis de esquecer, impossíveis de ignorar, por mais que Kevin tentasse seguir as instruções da sua mãe para os esquecer.
“Bem, diz-nos se precisares de alguma coisa” disse o professor.
Kevin ainda não tinha a certeza de como responder a isso. Era, ao mesmo tempo, uma daquelas coisas gentis que as pessoas diziam que era mais ou menos inútil. A única coisa que ele precisava era uma coisa que não lhe podiam dar: desfazer tudo isto; para as coisas voltarem à normalidade. Os professores sabiam muitas coisas, mas não isto.
Ainda assim, ele fez o seu melhor para fingir ser normal durante toda a aula de matemática, e pela maior parte da aula de história a seguir. A Sra. Kapinski estava a contar-lhes algo sobre a história Europeia dos primórdios, que Kevin não tinha a certeza se estava realmente em qualquer tipo de teste, mas que aparentemente tinha sido o que ela fez na faculdade, e assim pareceu realçar mais do que deveria.
“Vocês sabiam que a maioria dos vestígios Romanos encontrados no norte da Europa não são realmente Romanos?” ela perguntou. Kevin geralmente gostava das aulas da Sra. Kapinski, porque ela não tinha medo de se desviar do assunto e contar-lhes sobre quaisquer fragmentos do passado que tivessem entrado na sua cabeça. Era um lembrete do quanto tinha havido no mundo antes de qualquer um deles.
“Então eles são falsos?” Francis de Longe perguntou. Normalmente, seria Kevin a perguntar, mas ele estava a aproveitar a oportunidade para ficar quieto, quase invisível.
“Não exatamente” disse a Sra. Kapinski. “Quando eu digo que eles não são Romanos, quero dizer que são vestígios deixados para trás por pessoas que nunca estiveram perto do que é hoje a Itália. Eram as populações locais, mas à medida que os romanos avançavam, à medida que conquistavam, a população local percebeu que a melhor maneira de se sair bem era adaptar-se aos costumes Romanos. A maneira como se vestiam, as casas em que viviam, a linguagem que falavam, eles mudaram tudo para deixarem claro de que lado estavam e porque isso lhes dava melhores oportunidades de boas posições na nova ordem. Ela sorriu. “Depois, quando houve rebeliões contra Roma, uma das chaves para fazer parte disso era não usar esses símbolos.”
Kevin tentou imaginar isso: as mesmas pessoas num lugar a mudar quem elas eram quando a maré política mudava, com todo o seu ser a mudar consoante quem governasse. Ele pensou que poderia ser um pouco como estar numa das multidões populares na escola, tentando usar as roupas certas e dizer as coisas certas. Mesmo assim, era difícil imaginar, e não apenas porque imagens de paisagens impossíveis continuavam a infiltrar-se no fundo da sua mente.
Essa era provavelmente a única coisa boa sobre o que se passava com ele: os sintomas eram invisíveis. E isso era também a coisa assustadora de certa forma. Havia essa coisa que o estava a matar e, se as pessoas ainda não soubessem, elas nunca iriam descobrir. Ele poderia apenas ficar ali e ninguém jamais...
Kevin sentiu a visão a aproximar-se, elevando-se através dele como um tipo de pressão que crescia através do seu corpo. Houve a tontura, a sensação do mundo a afastar-se enquanto ele se conectava com alguma outra... coisa. Ele levantou-se repentinamente para perguntar se poderia ser dispensado, mas já era tarde demais. Ele sentiu as suas pernas a ficarem fracas e caiu.
Ele estava a ver as mesmas paisagens de que ele se lembrava de antes, o céu com o tom errado, as árvores demasiado torcidas. Ele estava a ver o fogo a percorrê-las, de forma cega e brilhante, parecendo vir de todos os lugares ao mesmo tempo. Ele já tinha visto tudo isso antes. Agora, porém, havia um novo elemento: um batimento fraco que se parecia repetir em intervalos regulares, com a precisão de um relógio.
Uma parte de Kevin sabia que um relógio era o que aquilo tinha que ser, assim como ele sabia por instinto que tal estava a contar algo de forma decrescente, não apenas a marcar o tempo. Parecia que os batimentos estavam a ficar subtilmente mais intensos, como se estivessem a acumular-se para algum crescendo distante. Houve uma palavra numa língua que ele não devia ter entendido, mas ele entendeu-a.
“Espera.”
Kevin queria perguntar do que é que supostamente ele deveria ficar à espera, ou por quanto tempo ou porquê. Ele não o fez, em parte porque não tinha a certeza de a quem ele deveria perguntar, e em parte porque quase tão subitamente quanto tinha chegado, o momento passou, deixando Kevin a erguer-se da escuridão para dar por si deitado no chão da sala de aula, com a Sra. Kapinski debruçada sobre si.
“Deixa-te estar aqui deitado e quieto durante um pouco, Kevin” ela disse. “Eu mandei chamar o médico da escola. O Hal não vai demorar a chegar aqui.”
Kevin sentou-se apesar das instruções dela, porque ele já sabia como é que isto era.
“Eu estou bem” ele assegurou.
“Eu acho que devemos deixar que seja o Hal a avaliar isso.”
Hal era um antigo paramédico, grande e gordo, que servia para garantir que os alunos da Escola St. Brendan's resistiam a qualquer emergência médica que sofressem. Às vezes, Kevin suspeitava que eles o faziam porque pensar na ideia de cuidados médicos fazia com que eles ignorassem o pior dos ferimentos.
“Eu vi coisas” Kevin conseguiu. “Havia um planeta, um sol ardente e uma espécie de mensagem... como uma contagem decrescente.”
Nos filmes, alguém teria insistido em contactar alguém importante. Eles teriam reconhecido a mensagem pelo que ela era. Haveria reuniões e investigações. Alguém teria feito algo sobre isto. Fora dos filmes, Kevin era apenas um rapaz de treze anos, e a Sra. Kapinski olhou para ele com uma mistura de pena e leve perplexidade.
“Bem, tenho a certeza de que não é nada” disse ela. “É provavelmente normal ver todo o tipo de coisas se estás a ter este tipo de... episódio.”
Ao redor deles, Kevin ouvia os murmúrios dos outros na sala de aula. Isso não fazia com que ele se sentisse melhor.
“... caiu e começou a se contorcer...”
“… eu ouvi dizer que ele estava doente, espero que não seja contagioso…”
“... o Kevin acha que vê planetas...”
O último foi o que doeu. Fazia parecer como se ele estivesse a ficar louco. Kevin não estava a ficar louco. Pelo menos, ele não achava que estivesse.
Apesar das suas melhores tentativas para insistir que estava bem, Kevin ainda teve que ir com Hal quando o médico chegou. Kevin teve que se sentar no consultório do médico enquanto ele direcionava luzes para os seus olhos e fazia perguntas sobre uma condição tão rara sobre a qual ele obviamente não sabia mais do que Kevin sobre o que estava a acontecer.
“O diretor queria ver-nos assim que eu tivesse a certeza de que tu estavas bem” disse ele. “Achas que consegues caminhar até ao seu gabinete, ou dever-lhe-íamos pedir para vir até aqui?”
“Eu consigo andar” disse Kevin. “Eu estou bem.”
“Se o dizes” Hal disse.
Eles foram até ao gabinete do diretor, e Kevin não ficou muito surpreendido ao descobrir que a sua mãe estava lá. É claro que eles a teriam chamado em caso de uma emergência médica, é claro que ela estaria lá se ele desmaiasse, mas isso não era bom, não quando ela deveria estar no trabalho.
“Kevin, estás bem?” a sua mãe perguntou assim que ele chegou, virando-se para ele e dando-lhe um abraço. “O que aconteceu?”
“Estou bem, Mãe” disse Kevin.
“Sra. McKenzie, tenho a certeza de que não a teríamos chamado se não fosse sério” disse o diretor. “Kevin desmaiou.”
“Eu estou bem agora” insistiu Kevin.
Porém, não parecia fazer nenhuma diferença quantas vezes ele o dissesse.
“Além disso” disse o diretor “parece que ele estava muito confuso quando recuperou os sentidos. Ele estava a falar sobre... bem, outros planetas.”
“Planetas” repetiu a mãe de Kevin. O tom da sua voz foi racional ao dizer isto.
“A Sra Kapinski diz que isto interrompeu bastante a sua aula” disse o diretor. Ele suspirou. “Eu questiono-me se não seria melhor para Kevin se ele ficasse em casa durante um tempo.”
Ele disse-o sem olhar para Kevin. Havia uma decisão que estava a ser tomada ali, e embora Kevin estivesse no centro dessa decisão, estava claro que a opinião dele não seria considerada.
“Eu não quero faltar à escola” disse Kevin, olhando para a sua mãe. Certamente que ela também não iria querer que ele faltasse.
“Eu acho que o que temos que perguntar” disse o diretor “é se, neste momento, a escola é realmente a melhor coisa que Kevin pode estar a fazer com o tempo que tem.”
Provavelmente tinha tido a intenção de ser uma forma gentil de o dizer, mas tudo o que fez foi lembrar a Kevin do que o médico havia dito. Seis meses de vida. Não parecia tempo suficiente para nada, muito menos para ter uma vida. Seis meses de segundos, cada um a passar numa batida constante que combinava com a contagem decrescente na sua cabeça.
“Está a dizer que não faz sentido o meu filho vir à escola porque ele estará morto em breve?” a sua mãe retrucou. “É isto que está a dizer?”
“Não, claro que não” disse o diretor, apressadamente, levantando as mãos para acalmá-la.
“Mas é o que parece que está a dizer” disse a mãe de Kevin. “Parece que está assustado com a doença do meu filho, tanto quanto as crianças aqui.”
“Eu estou a dizer que vai ser difícil ensinar Kevin à medida que ele for piorando” disse o diretor. “Nós vamos tentar, mas... não queres aproveitar ao máximo o tempo que tens?”
Ele disse aquilo num tom gentil que ainda assim conseguiu atingir diretamente o coração de Kevin. Ele estava a dizer exatamente o que a sua mãe tinha pensado, só que em palavras gentis. A pior parte era que ele estava certo. Kevin não iria viver o suficiente para ir para a faculdade ou conseguir um emprego, ou fazer qualquer coisa para o qual ele precisasse que a escola o preparasse, então por que se preocupar em estar lá.
“Está tudo bem, Mãe” disse ele, estendendo a mão para tocar no braço dela.
Isso pareceu ser uma discussão suficiente para convencer a sua mãe, e só isto dizia a Kevin como isto tudo era sério. Em qualquer outra ocasião, ele sabia que ela teria lutado. Agora parecia que a luta tinha sido sugada dela.
Eles saíram para o carro em silêncio. Kevin olhou para a escola. Ele foi atingido pelo pensamento de que provavelmente não voltaria. Ele nem sequer tinha tido oportunidade de se despedir.
“Lamento que eles te tenham ligado para o trabalho” Kevin disse quando eles se sentaram no carro. Ele pôde sentir a tensão ali. A sua mãe não ligou o motor, limitando-se a sentar.
“Não é isso” disse ela. “É apenas... estava a ficar fácil fingir que nada estava errado.” Ela parecia tão triste, tão profundamente magoada. Kevin já se acostumara com a sua expressão que significava que ela estava a tentar não chorar. Ela não estava a conseguir.
“Estás bem, Kevin?” ela perguntou, embora naquele momento, fosse ele que estava agarrado a ela, com tanta força quanto conseguia.
“Eu... eu gostaria de não ter que sair da escola” disse Kevin. Ele nunca pensara ouvir-se a si próprio dizer isso. Ele nunca pensara que alguém o dissesse.
“Nós poderíamos voltar a entrar na escola” a sua mãe disse. “Eu poderia dizer ao diretor que te vou trazer novamente amanhã, e todos os dias depois disso, até...”
Ela calou-se repentinamente.
“Até ficar demasiado mau” disse Kevin. Ele fechou os olhos com força. “Eu acho que talvez já seja muito mau, Mãe.”
Ele ouviu a sua mãe bater no painel de instrumentos do carro, provocando um baque seco que ecoou ao redor do carro.
“Eu sei” disse ela. “Eu sei e odeio isto. Eu odeio esta doença que me está a levar o meu rapaz.”
Ela chorou novamente durante mais um bocado de tempo. Apesar das suas tentativas para se manter forte, Kevin também chorou. Pareceu demorar algum tempo até a sua mãe estar calma o bastante para dizer qualquer outra coisa.
“Eles disseram que tu viste... planetas, Kevin?” ela perguntou.
“Vi” disse Kevin. Como é que ele lhe poderia explicar como é que aquilo era? O quão real era?
A sua mãe olhou, e Kevin teve a sensação de que ela estava a lutar pelas palavras certas a dizer. Estava a lutar para ser consoladora, firme e calma, tudo ao mesmo tempo. “Tu percebes que isso não é real, certo, querido? É só... é só a doença.”
Kevin sabia que ele deveria perceber isso, mas...
“Não parece ser assim” disse Kevin.
“Eu sei que não” disse a sua mãe. “E eu odeio isso, porque é apenas um lembrete de que o meu rapaz está a escapar. Quem me dera que eu conseguisse acabar com isto tudo.”
Kevin não sabia o que dizer. Ele também desejava que tudo aquilo acabasse
“Parece real” disse Kevin, mesmo assim.
A sua mãe ficou calada por um longo tempo. Quando ela finalmente falou, a sua voz estava frágil, dificilmente mantendo-se unida. Ela tinha esta voz apenas desde o diagnóstico, mas agora tinha-se tornado demasiado familiar.
“Talvez... talvez tenha chegado o momento de te levarmos aquela psicóloga.”
CAPÍTULO TRÊS
O consultório da Dra. Linda Yalestrom não parecia tão médico quanto todos os outros onde Kevin tinha estado recentemente. Para começar, era a casa dela em Berkeley, com a universidade tão perto que parecia apoiar as suas credenciais tão seguramente quanto os certificados que estavam perfeitamente pendurados na parede.
O resto parecia o tipo de gabinete em casa que Kevin esperava da televisão, com mobília leve obviamente relegada para aqui depois de alguma mudança anterior, uma secretária onde a desordem se havia arrastado do resto da casa para ali, e alguns vasos com plantas que pareciam estar à espera do seu tempo, prontos para invadir.
Kevin deu por si a gostar da Dra. Yalestrom. Ela era uma mulher baixa, de cabelos escuros, na faixa dos cinquenta anos, cujas roupas eram brilhantemente padronizadas e tão distantes das roupas médicas quanto era possível conseguir. Kevin suspeitava que poderia ser esse o motivo, se ela passasse muito tempo a trabalhar com pessoas que já tivessem recebido as piores notícias dos médicos.
“Podes sentar-te, Kevin” disse ela com um sorriso, apontando para um amplo sofá vermelho que estava bem gasto com anos de pessoas a sentarem-se nele. “Sra, McKenzie, pode dar-nos um momento? Eu quero queo Kevin sinta que ele pode dizer qualquer coisa que ele precise de dizer. A minha assistente vai-lhe buscar um café.”
A sua mãe assentiu. “Eu estarei lá fora.”
Kevin sentou-se no sofá, que se mostrou ser exatamente tão confortável quanto parecia. Ele olhou ao redor da sala para fotos de viagens de pesca e férias. Ele demorou algum tempo a perceber algo importante.
“Você não está em nenhuma das fotos aqui” disse ele.
A Dra. Yalestrom sorriu. “A maioria dos meus clientes nunca repara nisso. A verdade é que muitos desses lugares são lugares onde eu sempre quis ir, ou lugares que ouvi dizer que eram interessantes. Eu tenho-as expostas porque rapazes como tu passam muito tempo a olhar para a sala, a fazer qualquer coisa menos falarem comigo, e assim pelo menos têm algo para onde olhar.”
Para Kevin, isso parecia um pouco batota.
“Se você trabalha muito com pessoas que estão a morrer” ele disse “porque é que você tem fotos de lugares onde você sempre quis ir? Porquê adiar, quando você já viu...”
“Quando eu já vi o quão rápido tudo pode acabar?” a Dra. Yalestrom perguntou gentilmente.
Kevin assentiu.
“Talvez por causa da maravilhosa capacidade humana de saber disso e ainda assim procrastinar. Ou talvez eu já tenha ido a alguns desses lugares, e a razão pela qual eu não estou nas fotos é apenas porque eu acho que uma de mim a olhar para as pessoas é mais do que suficiente.”
Kevin não tinha a certeza se essas eram boas razões ou não. Elas não pareciam suficientes, de alguma forma.
“Onde é que irias, Kevin?” a Dra. Yalestrom perguntou. “Onde é que irias se pudesses ir a qualquer lugar?”
“Eu não sei” ele respondeu.
“Bem, pensa nisso. Não precisas de me dizer agora.”
Kevin abanou a cabeça. Era estranho conversar com um adulto desta forma. Geralmente, quando se tinha treze anos, as conversas resumiam-se a perguntas ou instruções. Com a possível exceção da sua mãe, que estava no trabalho a maior parte do tempo, os adultos não estavam realmente interessados no que alguém da idade dele tinha a dizer.
“Eu não sei” ele repetiu. “Quero dizer, eu nunca pensei a sério que teria a oportunidade de ir a qualquer lugar.” Ele tentou pensar em lugares onde ele gostaria de ir, mas era difícil conceber algum lugar, especialmente agora que ele só tinha alguns meses para o fazer. “Eu sinto como se, onde quer que eu pensasse ir, qual é o objetivo? Eu vou morrer muito em breve.”
“Qual é que achas que é o objetivo?” a Dra. Yalestrom perguntou.
Kevin fez o melhor que pôde para pensar num motivo. “Eu acho que... porque muito em breve não é a mesma coisa que agora?”
A psicóloga assentiu. “Eu acho que é uma boa maneira de o colocar. Então, há alguma coisa que gostasses de fazer muito em breve, Kevin?”
Kevin pensou sobre isso. “Eu acho que... eu acho que devo dizer a Luna o que está a acontecer.”
“E quem é a Luna?”
“Ela é minha amiga” disse Kevin. “Nós já não frequentamos a mesma escola, pelo que ela não me viu desmaiar nem nada, e eu já não lhe telefono há alguns dias, mas...”
“Mas tu devias dizer-lhe” disse a Dra. Yalestrom. “Não é saudável afastar os amigos nos maus momentos, Kevin. Nem mesmo para os proteger.”
Kevin engoliu em negação, porque era o que ele estava a fazer. Ele não queria infligir isto em Luna, não queria que ela sofresse com a notícia do que ia acontecer. Era parte da razão pela qual ele não lhe telefonava há tanto tempo.
“E que mais?” a Dra.Yalestrom perguntou. “Vamos tentar lugares novamente. Se pudesses ir a qualquer lugar, onde irias?”
Kevin tentou escolher entre todos os lugares da sala, mas a verdade era que havia apenas uma paisagem que continuava a surgir na sua cabeça, com cores que nenhuma câmara de fotografia normal conseguiria capturar.
“Iria parecer estúpido” disse ele.
“Não há nada de errado em parecer estúpido” garantiu a Dra. Yalestrom. “Eu vou contar-te um segredo. As pessoas geralmente pensam que todos os outros, menos eles, são especiais. Elas pensam que as outras pessoas devem ser mais espertas, ou mais corajosas, ou melhores, porque só elas conseguem ver as partes de si mesmas que não são essas coisas. Elas preocupam-se que enquanto todas as outras pessoas dizem as coisas acertadas, eles pareçam estúpidos. Porém, isso não é verdade.”
Mesmo assim, Kevin ficou ali por vários segundos, examinando detalhadamente o estofamento do sofá. “Eu… eu vejo lugares. Um lugar. Eu acho que essa é a razão pela qual eu tive que vir aqui.”
A Dra. Yalestrom sorriu. “Tu estás aqui porque uma doença como a tua pode criar muitos efeitos estranhos, Kevin. Eu estou aqui para te ajudar a lidar com eles, sem que eles dominem a tua vida. Gostavas de me contar mais sobre as coisas que vês?”
Mais uma vez, Kevin fez um exame detalhado ao sofá, aprendendo sobre a sua topografia, pegando uma pequena partícula de cotão. A Dra. Yalestrom ficou em silêncio enquanto ele o fazia; o tipo de silêncio que parecia dar-lhe espaço para as palavras saírem.
“Eu vejo um lugar onde nada é igual aqui. As cores estão erradas, os animais e as plantas são diferentes” disse Kevin. “Eu vejo-o destruído… pelo menos, acho que vejo. Há fogo e calor, um clarão luminoso. Há um conjunto de números. E há algo que parece uma contagem decrescente.”
“Porque é que parece uma contagem decrescente?” a Dra. Yalestrom perguntou.
Kevin encolheu os ombros. “Não tenho a certeza. Porque os batimentos estão a aproximar-se uns dos outros, imagino?”
A psicóloga assentiu, depois foi até à sua secretária. Ela voltou com papel e lápis.
“Como é que te sais em arte?” ela perguntou. “Não, não respondas. Não importa se é uma grande obra de arte ou não. Eu só quero que tentes desenhar o que vês, para que eu possa ter uma noção de como é. Não prestes demasiada atenção ao desenho, desenha apenas. Podes fazer isto por mim, Kevin?”
Kevin encolheu os ombros. “Vou tentar.”
Ele pegou nos lápis e no papel, tentando trazer à sua mente a paisagem que ele tinha visto, tentando lembrar-se de todos os detalhes. Era difícil de fazer, porque, embora os números permanecessem na sua cabeça, parecia que ele tinha que mergulhar fundo em si mesmo para extrair as imagens. Elas estavam abaixo da superfície, e para chegar até elas, Kevin teve que recuar para dentro de si mesmo, concentrando-se só naquilo, deixando o lápis fluir sobre o papel quase automaticamente...
“Ok, Kevin” disse ela, tirando o bloco a Kevin antes que ele conseguisse dar uma olhadela ao que ele tinha desenhado. “Vamos ver o que tu...”
Ele viu o olhar de choque no rosto dela, tão breve que quase não esteve lá. Esteve lá, porém, e Kevin tinha que se questionar sobre o que seria necessário para chocar alguém que todos os dias ouvia histórias sobre pessoas que estavam a morrer.
“O que foi?” Kevin perguntou. “O que é que eu desenhei?”
“Não sabes?” a Dra. Yalestrom perguntou.
“Eu estava a tentar não pensar demasiado” disse Kevin. “Fiz algo de errado?”
A Dra. Yalestrom abanou a cabeça. “Não, Kevin, não fizeste nada de errado.”
Ela segurou o desenho de Kevin. “Gostavas de ver o que produziste? Talvez te ajude a entender as coisas.”
Ela entregou-o dobrado, segurando-o apenas nas pontas dos dedos, como se não quisesse tocar no desenho mais do que o necessário. Isso fez com que Kevin ficasse um pouco preocupado. O que é que ele poderia ter desenhado que tivesse feito com que um adulto reagisse assim? Ele agarrou no desenho, desdobrando.
Um desenho de uma nave espacial estava lá, só que “desenho” provavelmente não era a palavra certa para isto. Isto era mais como um esquema, completo em todos os detalhes, o que parecia impossível no tempo que Kevin teve para desenhar. Ele nunca tinha visto isto antes, mas aqui estava, na página, parecendo gigante e plano, como uma cidade empoleirada num disco. Havia discos menores ao redor, como abelhas operárias em volta de uma rainha.
O detalhe significava que havia algo limpo, quase clínico, sobre o modo como estava desenhado, mas havia mais do que isto. Havia algo na geometria daquilo que, de alguma forma, estava simplesmente... errado, parecendo ter profundidades e ângulos que não deveriam ser possíveis de capturar apenas num esboço como este.
“Mas isto...” Kevin não sabia o que dizer. Isto não provava o que estava a acontecer? Alguém achava que ele poderia simplesmente ter inventado algo assim?
Aparentemente, a Dra. Yalestrom não estava convencida, no entanto. Ela pegou novamente no desenho, dobrando-o com cuidado, como se não quisesse olhar para ele. Kevin suspeitou que a estranheza do desenho fosse demais para ela.
“Eu acho que é importante que falemos sobre as coisas que tu estás a ver” disse ela. “Achas que essas coisas são reais?”
Kevin hesitou. “Não tenho a certeza. Elas parecem reais, mas muitas pessoas já me disseram que não podem ser.”
“Faz sentido” disse a Dra. Yalestrom. “O que tu estás a sentir é muito comum.”
“É?” O que ele estava a sentir não parecia de todo muito comum. “Eu achava que a minha doença era rara.”
A Dra. Yalestrom foi até à sua mesa, colocando o desenho de Kevin numa pasta. Ela pegou num tablet e começou a fazer anotações. “É importante que outras pessoas não sintam o que tu estás a sentir, Kevin?”
“Não, não é isso” disse Kevin. “Foi só que o Dr. Markham disse que esta doença afeta apenas algumas pessoas.”
“É verdade” concordou a Dra. Yalestrom. “Mas vejo muitas pessoas que têm alucinações de algum tipo por outras razões.”
“Você acha que estou a ficar louco” Kevin supôs. Todas as outras pessoas pareciam achar isso. Até mesmo a sua mãe, presumivelmente, uma vez que tinha sido ela a trazê-lo aqui depois de ele ter começado a falar sobre elas. Ele não se sentia como se estivesse a enlouquecer, no entanto.
“Essa não é uma palavra que eu goste de usar aqui” disse a Dra. Yalestrom. “Eu acho que, muitas vezes, o comportamento que rotulamos de louco está lá por um bom motivo. É que muitas vezes, essas razões só fazem sentido para a pessoa em questão. As pessoas farão coisas para se protegerem de situações com as quais têm muita dificuldade em lidar, que parecem ser... fora do comum.”
“Você acha que é o que eu estou a fazer com estas visões?” Kevin perguntou. Ele abanou a cabeça. “Elas são reais. Eu não as estou a inventar.”
“Posso contar-te o que eu acho, Kevin? Acho que uma parte de ti pode estar ligada a essas 'visões' porque isso te ajuda a pensar que a tua doença pode estar a acontecer por algum tipo de bem maior. Acho que talvez essas 'visões' sejam na verdade tu a tentares entender a tua doença. As imagens nelas... há um lugar estranho que não é como o mundo normal. Achas que isso poderia representar a maneira como as coisas mudaram?”
“Talvez” disse Kevin. Ele não estava convencido. As coisas que ele tinha visto não eram sobre um mundo onde ele não tinha a sua doença. Eles eram sobre um lugar que ele não entendia de todo.
“Então tu tens a sensação de morte iminente com fogo e luz” disse a Dra. Yalestrom. “A sensação de coisas a chegarem ao fim. Tu até tens uma contagem decrescente, completa com números.”
Os números não faziam parte da contagem decrescente; era apenas os batimentos lentos, a ficarem mais rápidos aos poucos. Kevin suspeitou que não ia convencê-la disso agora. Quando os adultos decidiam qual era a verdade de alguma coisa, ele não era capaz de lhes mudar de ideias.
“Portanto, o que é que eu posso fazer?” Kevin perguntou. “Se você acha que elas não são reais, eu não deveria querer livrar-me delas?”
“Queres livrar-te delas?” a Dra. Yalestrom perguntou.
Kevin pensou sobre isto. “Não sei. Eu acho que elas podem ser importantes, mas eu não pedi para as ter.”
“Da mesma forma que não pediste para ser diagnosticado com uma doença cerebral degenerativa” disse a Dra. Yalestrom. “Talvez essas duas coisas estejam ligadas, Kevin.”
Kevin já tinha estado a pensar que as suas visões estavam ligadas à doença de alguma forma. Que talvez isso tivesse mudado o seu cérebro o suficiente para ser recetivo às visões. Porém, ele não achava que isso fosse o que a psicóloga queria dizer.
“Então o que é que eu posso fazer?” Kevin perguntou novamente.
“Há coisas que podes fazer, não para as fazeres ir embora, mas pelo menos para seres capaz de lidar com elas.”
“Tais como?” Kevin perguntou. Ele tinha que admitir que tinha ficado com esperança ao pensar nisso. Ele não queria que tudo isto ficasse a girar na sua cabeça. Ele não pedira para receber mensagens que ninguém mais entendia, e isto só o fazia parecer maluco quando falava sobre elas.
“Podes tentar encontrar coisas para te distraires das alucinações quando elas vierem” disse a Dra. Yalestrom. “Podes tentar lembrar-te de que não é real. Se ficares com dúvidas, encontra maneiras de verificar. Talvez perguntar a outra pessoa se ela está a ver a mesma coisa. Lembra-te, não tem mal nenhum veres o que vês, mas a forma como reages a isso depende de ti.”
Kevin achava que ele se conseguia lembrar de tudo aquilo. Mesmo assim, tal não fazia nada para acalmar os batimentos fracos da contagem decrescente, vibrando ao fundo, acelerando aos poucos.
“E eu acho que tu precisas de dizer às pessoas que não sabem” disse a Dra. Yalestrom. “Não é justo para elas mantê-las no escuro sobre isto.”
Ela tinha razão.
E havia uma pessoa a quem ele precisava de contar mais do que a qualquer outra pessoa.
Luna.
CAPÍTULO QUATRO
“Então” Luna disse, enquanto ela e Kevin caminhavam ao longo de um dos caminhos da Área de Recreação do Reservatório de Lafayette, esquivando-se dos turistas e das famílias que aproveitavam o seu dia de folga “porque é que tens andado a evitar-me?”
Confiando em Luna para ir diretamente ao assunto. Era uma das coisas que Kevin gostava nela. Não que ele gostasse dela como mais do que uma amiga. As pessoas pareciam sempre assumir isso. Eles pensavam que, lá porque ela era bonita e loira, e provavelmente porque era chefe de claque, claro, eles seriam namorados. Eles apenas assumiam que era assim que o mundo funcionava.
Eles não estavam juntos. Luna era a sua melhor amiga. A pessoa com quem ele passava a maior parte do tempo fora da escola. Provavelmente a única pessoa no mundo com quem ele poderia falar sobre absolutamente qualquer coisa.
Exceto, como se viu, sobre isto.
“Eu não tenho...” Kevin parou perante o olhar fixo de Luna. Ela era boa com os olhares. Kevin suspeitava que ela provavelmente praticava. Ele tinha visto todo o género de pessoas, desde valentões a rudes donos de lojas, a recuarem, em vez de a terem a olhar para eles por mais tempo. Diante daquele olhar, era impossível mentir para ela. “Bem, eu tenho, mas é difícil, Luna. Eu tenho algo... bem, algo que não sei como te contar.”
“Oh, não sejas idiota” disse Luna. Ela encontrou uma lata de refrigerante abandonada e deu-lhe um pontapé, sacudindo-a de um pé para outro com o tipo de habilidade que vinha de o fazer com demasiada frequência. “Quero dizer, quão mau pode isso ser? Vais-te embora? Vais mudar de escola novamente?”
Talvez ela tenha percebido algo na sua expressão, porque ficou em silêncio por alguns segundos. Havia algo frágil naquele silêncio, como se ambos estivessem na ponta dos pés para evitar quebrá-lo. Mesmo assim, eles tinham de o fazer. Eles não podiam simplesmente andar assim para sempre.
“Algo mau então?” ela disse, atirando a lata para um recipiente do lixo com um último movimento do pé.
Kevin assentiu. Mau era uma palavra para isso.
“Quão mau?”
“Mau” disse ele. “O reservatório?”
O reservatório era o lugar onde ambos iam quando se queriam sentar e conversar sobre as coisas. Eles tinham falado sobre Billy Hames gostar de Luna quando eles tinham nove anos, e sobre o gato de Kevin, Tiger, a morrer quando eles tinham dez anos. Nada disso parecia uma boa preparação para isto. Ele não era um gato.
Eles desceram até a beira da água, olhando para as árvores do outro lado, para as pessoas com as suas canoas e barcos a remos no reservatório. Em comparação com alguns dos lugares que eles iam, isto era agradável. As pessoas achavam que Kevin era o rapaz do lado errado da cidade, que levava Luna por maus caminhos, mas era ela que tinha o dom de se esgueirar por cercas e escalar edifícios abandonados, deixando que Kevin a seguisse se conseguisse. Aqui, não havia nada disso, apenas a água e as árvores.
“O que é?” Luna perguntou. Ela tirou os sapatos e balançou os pés na água. Kevin não sentiu vontade de fazer o mesmo. Naquele momento, ele queria fugir, esconder-se. Qualquer coisa para evitar contar a verdade. Era como se, quanto mais tempo ele conseguisse evitar contar a Luna, mais tempo aquilo não seria realmente real.
“Kevin?” Luna disse. “Estás a deixar-me preocupanda agora. Olha, se não me dizes o que é, então eu vou ligar para a tua mãe e descobrir dessa forma.”
“Não, não faças isso” Kevin disse rapidamente. “Eu não tenho a certeza... a Mãe não está a lidar bem com isto.”
Luna estava a ficar mais preocupada a cada momento que passava. “O que é que se passa?” Ela está doente? Tu estás doente?”
Kevin acenou com a cabeça à última. “Estou doente” disse ele. Ele colocou a mão no ombro de Luna. “Eu tenho algo chamado leucodistrofia. Estou a morrer, Luna.”
Ele sabia que o havia dito demasiado rápido. Para algo assim, deveria haver toda uma grande explicação, uma construção adequada, mas honestamente, essa era a parte que importava.
Ela olhou para ele, abanando a cabeça em óbvia descrença. “Não, não podes estar, isso é...”
Ela abraçou-o então, com tal força que Kevin mal conseguia respirar.
“Diz-me que é uma piada. Diz-me que não é real.”
“Eu gostaria que não fosse” disse Kevin. Ele desejava isso mais do que qualquer coisa naquele momento.
Luna afastou-se, e Kevin pôde vê-la a contorcer as suas feições com o esforço para não chorar. Normalmente, Luna era boa em não chorar. Agora, porém, ele conseguia ver que ela não se estava a aguentar.
“Isto... quanto tempo?” ela perguntou.
“Eles disseram que talvez seis meses” disse Kevin.
“E isso foi há dias, portanto agora é menos tempo” ripostou Luna. “E tu tens tido que lidar com isto sozinho, e...” Ela caiu em silêncio quando a clara enormidade daquilo obviamente a atingiu.
Kevin pode vê-la a olhar para as pessoas no reservatório, observando-as com os seus pequenos barcos e as suas incursões rápidas para a água. Eles pareciam tão felizes lá. Ela olhou para eles como se eles fossem a parte que ela não conseguia acreditar, não a doença.
“Não parece justo” disse ela. “Todas estas pessoas, simplesmente continuam como se o mundo fosse o mesmo, a divertirem-se enquanto tu estás a morrer.”
Kevin sorriu tristemente. “O que devemos fazer? Dizermos-lhes a todos para pararem de se divertir?”
Ele apercebeu-se, um pouco tarde demais, do perigo de o dizer quando Luna se levantou num ápice, colocou as suas mãos em forma de taça na boca, e gritou o mais alto que conseguiu.
“Ei, vocês todos, vocês têm que parar! O meu amigo está a morrer e eu exijo que vocês parem de se divertir imediatamente!”
Algumas pessoas olharam em volta, mas ninguém parou. Kevin suspeitava que não tinha sido essa a questão. Luna ficou ali por alguns segundos, e, desta vez, foi ele que a abraçou, segurando-a enquanto ela chorava. Era suficientemente raro que o enorme choque daquilo mantivesse Kevin ali. Luna a gritar com as pessoas, comportando-se de uma forma que elas nunca esperariam de alguém como ela, era normal. Luna a descontrolar-se não era.
“Sentes-te melhor?” ele perguntou passado um pouco.
Ela abanou a cabeça. “Na verdade não. E tu?”
“Bem, é bom saber que há alguém que tentaria parar o mundo por mim” disse ele. “Sabes qual é a pior parte?”
Luna conseguiu outro sorriso. “Não ser capaz de soletrar o que te está a matar?”
Kevin só pôde retribuir aquele sorriso. Confiando que Luna soubesse que ele precisava que ela fosse o seu eu habitual, brincando com ele.
“Eu consigo, eu pratiquei. A pior parte é que tudo isto significa que ninguém acredita em mim quando eu digo que tenho andado a ver coisas. Eles acham que é tudo apenas da doença.”
Luna inclinou a cabeça para um lado. “Que tipo de coisas?”
Kevin explicou-lhe sobre as estranhas paisagens que ele tinha andado a ver, com o fogo a devastá-las, a sensação de uma contagem decrescente.
“Isso...” Luna começou quando ele terminou. Ela não parecia saber como acabar embora.
“Eu sei, é uma loucura, sou louco” disse Kevin. Mesmo Luna não acreditou nele.
“Não me deixaste terminar” disse Luna, inspirando. “Isso... é tão fantástico.”
“Fantástico?” Kevin repetiu. Não tinha sido a reação que ele esperava, mesmo vindo dela. “Todas as outras pessoas acham que eu estou a ficar louco ou que o meu cérebro está a derreter, ou algo assim.”
“Todas as outras pessoas são estúpidas” declarou Luna, embora, para ser justo, esse parecesse ser o seu parâmetro padrão para a vida. Para ela, todas as pessoas eram estúpidas até prova em contrário.
“Então acreditas em mim?” Kevin perguntou. Até mesmo ele já não tinha a certeza, depois de tudo o que as pessoas lhe haviam dito.
Luna colocou as suas mãos nos ombros dele, olhando-o diretamente nos olhos. Com outra miúda, Kevin poderia ter pensado que ela estava prestes a beijá-lo. Não com Luna, no entanto.
“Se me disseres que essas visões são reais, então elas são reais. Eu acredito em ti. E ser capaz de ver mundos alienígenas é definitivamente fantástico.”
Os olhos de Kevin arregalaram-se um pouco. “O que é que te faz pensar que é um mundo alienígena?”
Luna deu um passo para trás, encolhendo os ombros. “O que mais vai ser?”
Quando ela perguntou isto, Kevin teve a sensação de que ela estava tão atordoada com tudo isto quanto ele. Ela só fazia um trabalho melhor a escondê-lo.
“Talvez...” ela supôs “... talvez tudo isto tenha mudado o teu cérebro, pelo que ele tenha uma ligação direta para esse lugar alienígena?”
Se Luna alguma vez adquirisse um superpoder, provavelmente seria a capacidade de saltar para grandes conclusões num único salto. Kevin gostava disso nela, especialmente quando isto significava que ela era a única pessoa que poderia acreditar nele, mas mesmo assim, parecia muito a decidir, tão rapidamente.
“Tu sabes o quão louco isso soa, certo?” ele perguntou.
“Não é mais louco do que a ideia de que o mundo vai simplesmente arrancar para longe de mim o meu amigo sem um bom motivo” Luna ripostou, com os punhos cerrados de uma forma que sugeria que ela lutaria alegremente sobre o assunto. Ou talvez simplesmente cerrados pelo esforço para não chorar novamente. Luna costumava ficar com raiva, fazer piadas ou fazer coisas loucas em vez de ficar chateada. Naquele momento, Kevin não a podia culpar.
Ele viu-a a parar de chorar, pouco e pouco, forçando um sorriso.
“Portanto, doença terrível, visões fantásticas de mundos alienígenas... há mais alguma coisa que não me estejas a contar?”
“Apenas os números” disse Kevin.
Luna olhou para ele com óbvio aborrecimento. “Entendes que não era suposto teres dito sim?”
“Eu queria contar-te tudo” disse Kevin, embora achasse que era provavelmente um pouco tarde agora. “Desculpa.”
“Ok” disse Luna. Mais uma vez, Kevin teve a sensação que ela estava a trabalhar para processar tudo aquilo. “Números?”
“Eu também os vejo” disse Kevin. Ele repetiu-os de memória. “23h 06m 29,283s, −05° 02′ 28,59.”
“Ok” disse Luna. Ela franziu os lábios. “Eu questiono-me o que eles significam.”
Que eles não pudessem significar nada não lhe pareceu ocorrer. Kevin adorava isto nela.
Ela tinha o telefone dela. “Não é uma matrícula de carro, e seria estranho para uma palavra-passe. “Que mais?”
Kevin não tinha pensado nisso, pelo menos não com o tipo de objetividade que Luna parecia estar a aplicar ao problema.
“Talvez como um número de um objeto, um número de série?” Kevin sugeriu.
“Mas há horas e minutos lá” disse Luna. Ela parecia totalmente envolvida no problema do que isso poderia significar. “E que mais?”
“Talvez como um tempo de entrega e um local?” Kevin sugeriu. “Essas segundas partes soam como se fossem coordenadas.”
“Não está propriamente correto para uma referência de mapa” disse Luna. “Talvez se eu pesquisar no Google... oh, fantástico.”
“O quê é?” Kevin perguntou. Um olhar no rosto de Luna disse que eles tinham acertado.
“Quando digitas essa cadeia de números num motor de busca, só obténs resultados sobre uma coisa” disse Luna. Ela fê-lo soar tão certo como isso. Ela virou o telefone para lho mostrar, as páginas marcadas numa fileira organizada. “O sistema de estrelas Trappist 1.”
Kevin sentiu o seu entusiamo a aumentar. Mais do que isto, ele sentiu a sua esperança a aumentar. Esperança que isto pudesse realmente significar alguma coisa, e que não era apenas a sua doença, independentemente do que todos diziam. Esperança que isto pudesse realmente ser real.
“Porém, porque é que eu veria esses números?” ele perguntou.
“Talvez porque é suposto que o sistema Trappist seja um dos que têm a possibilidade de abrigar vida?” Luna perguntou. “Pelo que diz aqui, existem vários planetas lá no que pensamos ser uma zona habitável.”
Ela disse-o como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo. A ideia de planetas que poderiam ter vida parecia demais para ser uma coincidência quando Kevin tinha visto aquela vida. Ou visto uma vida estranha, pelo menos.
“Precisas de falar com alguém sobre isto” declarou Luna. “Tu és… como, a primeira prova de contacto extraterrestre, ou algo assim. Quem eram aquelas pessoas que procuravam alienígenas, os cientistas? Eu vi uma coisa sobre eles na televisão.”
“SETI?” Kevin perguntou.
“São esses” disse Luna. “Eles não estão localizados em São Francisco, ou São Jose, ou algo assim?”
Kevin não sabia, mas quanto mais ele pensava sobre isso, mais a ideia o puxava.
“Tens que ir, Kevin” disse Luna. “Tens de, pelo menos, falar com eles.”
***
“Não” disse a sua mãe, pousando o café com tanta força que entornou. “Não, Kevin, nem pensar!”
“Mas Mãe...”
“Eu não te vou levar de carro até São Francisco, para que tu possas incomodar um monte de loucos” disse a sua mãe.
Kevin estendeu o telefone, mostrando-lhe as informações sobre o SETI. “Eles não são loucos” disse ele. “Eles são cientistas.”
“Os cientistas podem ser loucos também” disse a sua mãe. “E toda essa ideia... Kevin, não consegues simplesmente aceitar que estás a ver coisas que não existem?”
Esse era o problema; seria muito fácil aceitar isso. Seria fácil dizer a si mesmo que isso não era real, mas havia algo perturbador na parte de trás do seu cérebro que dizia que seria uma péssima ideia se ele o fizesse. A contagem decrescente continuava, e Kevin suspeitava que ele precisava de falar com alguém que acreditasse nele antes que tal chegasse ao fim.
“Mãe, os números que eu te disse que estava a ver... eles são o local de um sistema estelar.”
“Há tantas estrelas por aí que tenho a certeza de que qualquer sequência aleatória de números se conectaria a uma delas” disse a sua mãe. “Seria o mesmo que a massa da estrela ou... ou, eu não sei o suficiente sobre as estrelas para saber o que mais, mas seria algo.”
“Não é isso que eu quero dizer” disse Kevin. “Quero dizer que era exatamente o mesmo. A Luna introduziu os números e o sistema Trappist 1 foi a primeira coisa a sair. A única coisa a sair.
“Eu deveria saber que a Luna estaria envolvida” a sua mãe disse com um suspiro. “Eu adoro essa miúda, mas ela tem muita imaginação para o seu próprio bem.”
“Por favor, Mãe” disse Kevin. “Isto é real.”
A sua mãe colocou as mãos nos ombros dele. Desde quando é que ela tinha começado a esticar-se para cima para o conseguir fazer? “Não é, Kevin. A Dra. Yalestrom disse que tu estavas a ter problemas em aceitar tudo isto. Tu precisas entender o que está a acontecer e eu tenho que te ajudar a aceitá-lo.”
“Eu sei que estou a morrer, Mãe” disse Kevin. Ele não deveria ter dito aquilo assim, porque ele pôde ver as lágrimas nos olhos da sua mãe.
“Sabes?” Porque isto...”
“Vou encontrar uma maneira de chegar lá” prometeu Kevin. “Vou de autocarro se for preciso. Vou de comboio até à cidade e caminho. Eu tenho que pelo menos falar com eles.
“E rirem-se de ti?” a sua mãe afastou-se, sem olhar para ele. “Sabes que é isso que vai acontecer, certo, Kevin? Estou a tentar proteger-te.”
“Eu sei que estás” disse Kevin. “E eu sei que eles provavelmente se vão rir de mim, mas eu tenho que tentar pelo menos, Mãe. Tenho a sensação de que isto é realmente importante.”
Ele queria dizer mais, mas não tinha a certeza se isso ajudaria naquele momento. A sua mãe estava calada o que queria dizer que ela estava a pensar, e naquele momento era o melhor que Kevin podia esperar. Ela continuava a pensar, com a sua mão a bater no balcão da cozinha, marcando o tempo enquanto ela se decidia.
Kevin ouviu o suspiro da sua mãe.
“Pois bem” disse ela. “Eu faço-o. Vou levar-te, mas só porque suspeito que, se não o fizer, receberei um telefonema da polícia para me dizer que o meu filho desmaiou num autocarro algures.”
“Obrigado, Mãe” disse Kevin, avançando para abraçá-la.
Ele sabia que ela não acreditava mesmo nele, mas de certa forma, isto tornava a demonstração de amor ainda mais impressionante.
CAPÍTULO CINCO
Foi preciso cerca de uma hora para ir de Walnut Creek até ao Instituto SETI em Mountain View, mas, para Kevin, pareceu uma vida inteira. Não foi só porque esse tráfego na cidade arrastava-se por estradas congestionadas; cada momento era algo desperdiçado quando ele poderia estar lá, poderia estar a descobrir o que estava a acontecer com ele. Eles saberiam, ele estava certo disso.
“Tenta não ficar demasiado entusiasmado” a sua mãe avisou-o, pelo que parecia ser a vigésima vez. Kevin sabia que ela estava apenas a tentar protegê-lo, mas mesmo assim, ele não queria que o seu entusiasmo diminuísse. Ele tinha a certeza de que este seria o lugar onde ele iria descobrir o que estava a acontecer. Eles eram cientistas que estudavam alienígenas. Certamente eles saberiam tudo?
Porém, quando eles lá chegaram, o instituto não era o que ele estava à espera. A Avenida Bernardo, n.º 189 mais parecia uma galeria de arte ou uma parte de uma universidade do que o tipo de edifícios de alta tecnologia que a imaginação de Kevin havia conjeturado. Ele estava à espera de edifícios que parecessem ser do espaço sideral, mas em vez disso, pareciam versões caras do tipo de edifícios que a escola tinha.
Eles avançaram e estacionaram em frente aos edifícios. Kevin respirou fundo. Era isto. Eles entraram numa sala de entrada, onde uma mulher sorriu para eles, conseguindo transformar isso numa pergunta antes mesmo de ela falar.
“Olá, têm a certeza de que estão no lugar certo?”
“Eu preciso de falar com alguém sobre sinais alienígenas” disse Kevin, antes que a sua mãe pudesse tentar explicar.
“Sinto muito” disse a mulher. “Nós, na verdade, não temos visitas abertas ao público.”
Kevin abanou a cabeça. Ele sabia que precisava fazê-la entender. “Eu não estou aqui para uma visita” disse ele. “Eu acho que... eu acho que estou a receber algum tipo de sinal alienígena.”
A mulher não olhou para ele com o tipo de choque e descrença que a maioria das outras pessoas poderia ter olhado, ou até mesmo com a surpresa que a sua mãe teve quando ele se saiu com uma daquelas. Este era mais um olhar de resignação, como se ela tivesse que aturar esse tipo de coisa com mais frequência do que gostaria.
“Estou a ver” disse ela. “Infelizmente, não podemos conversar com as pessoas que entram aqui vindas da rua. Se quiser enviar uma mensagem para nós através do nosso e-mail de contacto, teremos prazer em considerá-lo, mas no momento…”
“Vamos, Kevin” a sua mãe disse. “Nós tentámos.”
Para sua própria surpresa tanto quanto para qualquer um. Kevin abanou a cabeça. “Não, eu não vou.”
“Kevin, tens de vir” disse a sua mãe.
Kevin sentou-se bem no meio da entrada. O tapete não era muito confortável, mas ele não se importava. “Eu não vou a lugar nenhum até falar com alguém sobre isto.”
“Espere, você não pode fazer isto” disse a rececionista.
“Eu não vou a lugar nenhum” disse Kevin.
“Kevin...” a sua mãe começou.
Kevin abanou a cabeça. Ele sabia que aquilo era infantil, mas da forma que ele o via, ele tinha treze anos, e ele podia fazê-lo. Além disso, isto era importante. Se ele saísse e se fosse embora agora, isto terminava. Ele não podia deixar isto terminar.
“Levante-se ou terei que chamar a segurança” disse a rececionista. Ela caminhou até Kevin e segurou o seu braço com firmeza.
Instantaneamente, a mãe de Kevin mudou a sua atenção dele para a rececionista, estreitando os olhos.
“Tire as mãos do meu filho agora mesmo.”
“Então faça o seu filho se levantar e sair antes que eu tenha que envolver a polícia.” A rececionista soltou-o de qualquer maneira, embora isto pudesse ter algo a ver com o olhar que a sua mãe lhe deu. Kevin tinha a sensação de que, agora que havia uma maneira de ela conseguir proteger o seu filho, a sua mãe iria fazê-lo, independentemente do que fosse preciso.
“Não nos ameace com a polícia. Kevin não está a fazer mal nenhum a ninguém.”
“Acha que não temos loucos aqui regularmente?”
“O Kevin não é louco!” a sua mãe gritou, num volume que ela normalmente reservava para quando Kevin tinha feito algo realmente errado.
Os minutos seguintes tiveram mais discussões do que Kevin teria desejado. A sua mãe gritou para ele se levantar. A rececionista gritou que ligaria para a segurança. Elas gritaram uma para a outra, enquanto a mãe de Kevin decidia que ela não queria que ninguém ameaçasse o seu filho com a segurança, e a mulher parecia supor que a sua mãe seria capaz de mover Kevin. Kevin manteve-se sempre sentado com surpreendente serenidade.
Isso acalmou-o e, nessas profundezas, ele viu algo...
A escuridão fria do espaço estava ao seu redor, com estrelas a cintilar, com a Terra a parecer tão diferente de cima que isso quase tirou o fôlego de Kevin. Havia um objeto prateado a flutuar no espaço, apenas um de tantos outros em órbita. As palavras Pioneer 11 estavam gravadas de lado…
Depois ele estava deitado no chão do Instituto SETI, com a sua mãe a ajudar a levantá-lo, juntamente com a rececionista.
“Ele está bem?” a rececionista perguntou. “Quer que eu chame uma ambulância?”
“Não, eu estou bem” insistiu Kevin.
A sua mãe abanou a cabeça. “Nós sabemos o que se passa. O meu filho está a morrer. Tudo isto... eu pensei que isto o ajudaria a aceitar que o que ele estava a ver não era real, que era por causa da doença.”
Colocado assim, parecia uma traição, como se a mãe de Kevin estivesse estado a planear que os sonhos dele fossem sempre destruídos.
“Eu entendo” disse a rececionista. “Ok, vamos pôr-te de pé, Kevin. Posso ir buscar alguma coisa para vocês?”
“Eu só quero falar com alguém” disse Kevin.
A rececionista mordeu o lábio e assentiu. “Ok, eu vou ver o que consigo fazer.”
Assim, sem mais nem menos, toda a sua atitude parecia ter mudado.
“Esperem aqui. Sentem-se. Vou ver se há alguém por perto que possa ao menos falar contigo, talvez mostrar-te algumas coisas por aqui. Embora não haja muito que ver.”
Kevin sentou-se com a sua mãe. Ele queria contar-lhe sobre tudo o que acabara de ver, mas ele pôde ver pelo rosto dela que isto só lhe iria causar sofrimento. Em vez disso, ele esperou em silêncio.
Finalmente, uma mulher apareceu. Ela devia ter cinquenta e poucos anos, vestida com um fato escuro que sugeria que ela tinha o tipo de reuniões onde roupas mais casuais não funcionavam. Havia algo nela que dizia que ela era uma académica - talvez algo na curiosidade com que ela olhou para Kevin. Ela ofereceu a sua mão à mãe de Kevin e depois a ele.
“Olá, Kevin” disse ela. “Eu sou a Dra. Elise Levin. Eu sou a diretora aqui no instituto.”
“É a responsável?” Kevin perguntou, com a esperança a crescer dentro de si. “De todas as coisas alienígenas?”
Ela sorriu com um ar divertido. “Eu acho que isto é um pouco forte. Muitas das buscas por vida extraterrestre acontecem em outros lugares. A NASA fornece dados, algumas universidades se envolvem e muitas vezes pedimos emprestado tempo aos telescópios de outras pessoas onde conseguimos. Mas sim, eu sou a responsável por este instituto e pelas coisas que acontecem aqui.”
“Então eu preciso de lhe contar” disse Kevin. Ele estava a falar mais rápido do que queria, tentando soltar as palavras antes que aquele adulto tivesse tempo para não acreditar em si. “Está algo a acontecer. Eu sei o quão estranho parece, mas eu tenho visto coisas, há uma espécie de contagem decrescente...”
Como é que ele poderia explicar a contagem decrescente? Não era como números, não havia um ponto óbvio que ele pudesse dizer que marcava o seu fim. Havia apenas um batimento fraco que acompanhava o sinal no seu cérebro, a ficar firme, quase impercetivelmente mais rápido, à medida que se aproximava de algo que Kevin não conseguia adivinhar.
“Porque não me falas sobre isto enquanto damos uma volta?” a Dra. Levin sugeriu. “Eu vou mostrar-te um pouco do que fazemos aqui.”
Ela levou Kevin e a mãe pelos corredores do instituto e, para ser honesto, Kevin tinha pensado que seria mais emocionante. Ele tinha pensado que seria menos como um conjunto de gabinetes de gabinete.
“Eu pensava que haveria grandes telescópios aqui, ou laboratórios cheios de equipamentos para testar coisas do espaço” disse Kevin.
A Dra. Levin encolheu os ombros. “Temos alguns laboratórios e testamos materiais ocasionalmente, mas não temos telescópios. Porém, estamos a trabalhar com Berkeley para construir um sistema dedicado de antenas de radiotelescópio.”
“Então, como é que vocês procuram alienígenas?” a mãe de Kevin perguntou. Parecia que ela estava tão surpreendida quanto Kevin com a falta de telescópios gigantes e equipamentos de escuta.
“Nós trabalhamos com outras pessoas” disse a Dra. Levin. “Pedimos ou contratamos tempo em telescópios e sistema de antenas de sensores. Trabalhamos com dados da NASA. Apresentamos-lhes sugestões sobre os lugares que eles podem querer procurar ou os tipos de dados que podem querer reunir. Lamento, eu sei que não é tão entusiasmante quanto as pessoas às vezes pensam. Venham comigo.”
Ela levou-os até um gabinete que, pelo menos, parecia um pouco mais interessante do que alguns dos outros espaços. Tinha alguns computadores, vários cartazes relacionados com o sistema solar, algumas revistas que mencionavam o trabalho do SETI, e algumas mobílias que pareciam ter sido especialmente projetadas para serem ergonómicas, elegantes e tão confortáveis quanto um tijolo.
“Deixem-me que vos mostre algumas das coisas em que estamos a trabalhar” disse a Dra. Levin, chamando imagens de grandes sistemas de antenas de telescópios no processo de construção. “Estamos a olhar para o desenvolvimento de sistemas de antenas de radiotelescópios que podem ser poderosas o suficiente para captar frequências de rádio ambiente, em vez de apenas esperar que alguém nos direcione um sinal.”
“Mas eu acho que alguém está a mandar-nos sinais” disse Kevin. Ele precisava que ela entendesse.
A Dra. Levin fez uma pausa. “Eu ia perguntar se te estás a referir à teoria de que o que algumas pessoas acham que são explosões de rádio de alta frequência de um pulsar podem ser sinais inteligíveis, mas não estás, pois não?”
“Eu tenho andado a ver coisas” disse Kevin. Ele tentou explicar sobre as visões. Ele contou-lhe sobre a paisagem que ele tinha visto e sobre a contagem decrescente.
“Estou a ver” disse a Dra. Levin. “Mas eu tenho que perguntar uma coisa, Kevin. Entendes que o SETI trata de explorar essa questão com a ciência, procurando provas reais? É a única maneira de fazer isto e saber que qualquer coisa que encontramos é real. Portanto, eu tenho que te perguntar, Kevin, como é que sabes que o que estás a ver é real?”
Kevin já havia conseguido responder isto a Luna. “Eu vi uns números. Quando os pesquisei, descobriu-se que eles eram o local de algo chamado sistema Trappist 1.”
“Um dos candidatos mais promissores para a vida alienígena” disse a Dra. Levin. “Mesmo assim, Kevin, entendes o meu problema agora? Dizes que viste esses números e eu acredito em ti, mas talvez os tenhas visto porque os leste em algum lugar. Eu não posso redirecionar os recursos do SETI com base nisso, e em qualquer caso, não tenho a certeza do que mais poderíamos fazer quando se trata do sistema Trappist 1. Para algo assim, eu precisaria de algo novo. Algo que não conseguirias ter obtido de outra maneira.”
Kevin percebeu que ela estava a tentar dececioná-lo o mais suavemente possível, mas ainda assim, isso doía. Como é que ele lhes poderia fornecer isso? Então ele pensou no que ele tinha visto na entrada. Ele tinha que o ter visto por um motivo, não era?
“Eu acho que...” Ele não tinha a certeza se o deveria dizer ou não, mas ele sabia que tinha que o dizer. “Eu acho que vocês vão receber um sinal de algo chamado Pioneer 11.”
A Dra. Levin olhou para ele por alguns segundos. “Sinto muito, Kevin, mas isso não parece muito provável.”
Kevin viu a sua mãe franzir a testa. “O que é o Pioneer 11?”
“É uma das sondas espaciais que a NASA enviou” explicou a Dra. Levin. “Ela voou através do nosso sistema solar, enviando dados de volta e tinha velocidade suficiente para enviá-los para além dos limites do sistema solar. Infelizmente, o último contacto que tivemos com a sonda foi em 1995, pelo que eu realmente não acho que...”
Ela parou quando o seu telefone começou a tocar, tirando-o como se para ignorar a chamada. Kevin viu quando ela parou e ficou a olhar fixamente.
“Sinto muito, tenho que atender esta chamada” disse ela. “Sim, estou, o que foi? Isso pode esperar um momento, estou no meio de... tudo bem, se é assim tão urgente. Um sinal? Estão a telefonar-me porque a NASA tem dados a chegar? Mas a NASA tem sempre...” Ela parou novamente, olhando para Kevin, com uma expressão de óbvia descrença no seu rosto. Mesmo assim, ela disse-o. “Posso dar um palpite?” ela disse ao telefone. “Acabaram de receber um sinal qualquer da Pioneer 11? Receberam? Não, não vos posso dizer. Não tenho a certeza se vocês acreditariam em mim se eu o fizesse.”
Ela desligou o telefone, olhando para Kevin como se o estivesse a ver pela primeira vez naquele momento.
“Como é que fizeste isso?” ela perguntou.
Kevin encolheu os ombros. “Eu vi-o quando estava à espera na entrada.”
“Viste-o? Da mesma forma que 'viste' essa paisagem alienígena?” A Dra. Levin olhou para ele e Kevin teve a sensação de que ela estava a tentar descobrir alguma coisa. Provavelmente ela estava a tentar descobrir alguma maneira de ele poder tê-los enganado com isto, ou feito isto acontecer.
Foi quase um minuto antes de ela chegar a uma decisão.
“Eu acho” disse a Dra. Levin, no tom cuidadoso de alguém a tentar se certificar de que ela não tinha enlouquecido “que é melhor virem comigo.”
CAPÍTULO SEIS
Kevin e a sua mãe seguiram a Dra. Levin desde as instalações do SETI até um carro que parecia pequeno demais para pertencer a alguém na sua posição.
“É muito amigo do ambiente” ela disse, num tom que sugeria que ela tinha enfrentado muitas vezes essa pergunta. “Vamos lá, será mais fácil se eu vos levar aos dois até lá. Eles são bastante rigorosos quanto à segurança.”
“Quem?” a mãe de Kevin perguntou.
“A NASA.”
Kevin susteve a respiração ao ouvir isso. Eles iam falar com a NASA? Quando se tratava de alienígenas, isso era ainda melhor que o SETI.
A viagem através de Mountain View foi curta, de alguns minutos no máximo. Mesmo assim, foi o suficiente para Kevin olhar pelas janelas para as empresas de alta tecnologia espalhadas pela área, obviamente atraídas para ali pela NASA e Berkeley, com a presença de tantas pessoas inteligentes num só lugar a atraírem-nas.
“Estamos mesmo a ir para a NASA?” Kevin perguntou. Ele não conseguia acreditar, o que não fazia sentido, dadas todas as coisas em que ele tinha tido que acreditar nos últimos dias.
O campus da NASA era tudo o que o edifício do SETI não tinha sido. Era grande, espalhado por vários edifícios e localizado num espaço que conseguia ter vistas tanto das colinas circundantes quanto da baía. Havia um centro de visitantes que era essencialmente uma tenda construída numa escala que parecia difícil de acreditar, num branco brilhante e pintada com o logotipo da NASA. Eles passaram por ela de carro, porém, para um espaço fechado ao público, atrás de uma cerca de arame e de uma barreira onde a Dra. Levin teve que mostrar a identificação para entrar.
“Estão à minha espera” disse ela.
“E quem são eles, minha senhora?” o guarda perguntou.
“Kevin McKenzie e a sua mãe” disse a Dra. Levin. “Eles estão comigo.”
“Eles não estão no...”
“Eles estão comigo” disse a Dra. Levin novamente, e, pela primeira vez, Kevin teve uma noção do tipo de dureza que a posição dela envolvia. O guarda hesitou por um momento, e, depois, produziu dois passes de visitantes, que a Dra. Levin lhes entregou. Kevin pendurou o seu ao seu pescoço, e ele sentiu-o como se fosse um troféu, um talismã. Com isto, ele poderia ir onde ele precisava. Com isto, as pessoas, efetivamente, acreditavam nele.
“Precisamos de entrar nas áreas de pesquisa” disse a Dra. Levin. “Por favor, tenham cuidado para não tocarem em nada, porque algumas das experiências são delicadas.”
Ela levou-os para dentro de um edifício que parecia ser composto principalmente por delicadas curvas de aço e vidro. Este era o tipo de lugar que Kevin tinha esperado encontrar quando eles chegaram a Mountain View. Isto era como um lugar que observava o espaço deveria ser. Havia laboratórios de ambos os lados, com o tipo de equipamento avançado que sugeria que podiam testar quase qualquer coisa que o espaço lhes atirasse. Havia lasers e computadores, bancos e aparelhos que pareciam projetados para a química. Havia oficinas cheias de equipamentos de solda e peças que poderiam ter sido para carros, mas que Kevin queria acreditar que eram para veículos para uso em outros planetas.
A Dra. Levin perguntava ao seu redor enquanto eles seguiam, aparentemente tentando descobrir onde estavam todos os que estavam ligados com as notícias sobre a mensagem da Pioneer 11. Sempre que passavam por alguém, ela os detinha, e Kevin achava que ela conhecia todos ali. O SETI podia estar separado de tudo isto, da maneira que ela dizia que estava, mas era óbvio que a Dra. Levin passava muito tempo aqui.
“Ei, Marvin, onde é que estão todos?” ela perguntou a um homem com barba que vestia uma camisa xadrez.
“Eles estão maioritariamente reunidos no centro para pesquisa de supercomputadores” disse ele. “Algo assim, eles querem ver o que os recintos vão inventar.”
“Os fossos?” Kevin perguntou.
A Dra. Levin sorriu. “Já vais ver.”
“Quem são eles?” o homem com barba perguntou.
“O que dirias se eu te dissesse que aqui o Kevin consegue ver alienígenas?” a Dra. Levin perguntou.
Marvin riu-se. “Podes tentar jogar com a reputação do caçador alienígena louco o quanto quiseres, Elise. Tu és tão cética quanto todos nós.”
“Talvez não sobre isto” disse a Dra. Levin. Ela olhou para o Kevin e para a sua mãe. “Por aqui.”
Ela levou-os para outra parte do edifício, e agora Kevin teve a sensação de segurança extra, com scanners de identificação e câmaras em quase todos os cantos. Mais do que isso, era provavelmente o lugar mais limpo onde ele já havia estado. Muito mais limpo do que, por exemplo, o seu quarto. Parecia que nenhuma partícula de poeira era permitida a entrar sem permissão, muito menos as pilhas de roupas velhas que enchiam o seu espaço até a sua mãe lhe dizer para ele arrumar tudo.
Os laboratórios estavam quase vazios naquele momento e vazios de uma forma que sugeria que eles tinham sido deixados de uma forma apressada porque algo mais excitante estava a acontecer. Era fácil perceber onde eles tinham ido. As pessoas estavam aglomeradas nos corredores quando os três se aproximaram do destino, trocando rumores que Kevin só conseguia apanhar fragmentos.
“Há um sinal, um sinal real.”
“Depois de todo esse tempo.”
“Não são apenas dados de telemetria ou até mesmo digitalizações. Há algo... mais.”
“Estamos aqui” disse a Dra. Levin, quando chegaram a uma sala onde a porta havia sido deixada aberta, obviamente para permitir que a multidão de pessoas tentasse se espremer lá para dentro. “Deixem-nos passar, por favor. Precisamos de falar com o Sam.”
O “aqui” acabou por ser uma grande sala, cheia de luzes a piscar abaixo e cercada por passarelas que pareciam um pouco como um teatro onde os atores eram todos os computadores. Kevin reconheceu-os como computadores, embora não se parecessem em nada com o pequeno computador portátil, que mal trabalhava, que a sua mãe comprara para ele fazer os trabalhos da escola. Estes eram aparelhos do tamanho de mesas de café, carros, quartos, todos em preto fosco e brilhantes com luzes. As pessoas em pé ou sentadas perto deles usavam fatos como os que as pessoas da medicina forense usavam nos programas de televisão.
“Impressionado?” a Dra. Levin perguntou.
Kevin apenas conseguiu assentir. Ele não tinha palavras para um lugar como este. Era... incrível.
“O que é este lugar?” a sua mãe perguntou, e Kevin não sabia se era uma coisa boa ou má que nem a sua mãe o entendia.
“É onde a NASA faz a sua pesquisa de supercomputadores” explicou a Dra. Levin. “Trabalho em Inteligência Artificial, computação quântica, supercondutores mais avançados. É também o equipamento que eles usam para trabalhar em... problemas complexos. Vamos, nós precisamos conversar com o Sam.”
Ela levou-os através da multidão e Kevin seguiu-a, tentando ser rápido o suficiente para se mover entre os espaços que ela ia criando antes de eles se fechassem novamente. Ele apressou--se na sua esteira até que chegaram a um homem alto e levemente encurvado que estava num dos computadores. Ao contrário dos outros, ele não estava a usar um fato limpo. Os seus dedos longos e ossudos pareciam estar a amarrar-se em nós enquanto ele escrevia no teclado.
“Professor Brewster” disse a Dra. Levin.
“Dra. Levin, fico contente que você tenha conseguido... espere, você trouxe visitas. Este não é o momento adequado para passear, Elise.”
Se a Dra. Levin ficou irritada com isso, ela não o demonstrou. David, este é Kevin McKenzie e a sua mãe. Eles não estão aqui para passear. Eu acho que o Kevin pode vir a ser útil com isto. Precisamos consultar o Sam.”
O Professor Brewster acenou com a mão para a máquina na frente deles. Era ainda mais alta do que ele, com tubos a subir pelo lado que estavam tão frios que soltavam vapor para o ar. Foi só quando Kevin viu a placa ao lado “Máquina de Análise de Sinais” que percebeu que Sam não era o nome de uma pessoa, mas um acrônimo.
“Você quer deixar uma criança brincar com uma peça multimilionária de engenharia?” o Professor Brewster perguntou. “Quero dizer, que idade é que ele tem? Dez?”
“Tenho treze anos” disse Kevin. A diferença podia não ser muita para a idade do Professor Brewster, mas para ele era um quarto da sua vida. Era mais de que lhe restava. Colocado assim, três anos era uma quantidade enorme.
“Bem, eu tenho quarenta e três anos, tirei um doutoramento em Princeton, um edifício cheio de génios muitas vezes francamente impossíveis que deveriam estar a fazer o seu trabalho” - ele olhou ao redor da sala incisivamente, mas ninguém se mexeu - “e agora, aparentemente um rapaz de treze anos que quer brincar com o meu supercomputador no momento em que ele está prestes a trabalhar num sinal de uma sonda que há muito achávamos morta.”
Ele parecia ser um homem que não gostava muito de stress. Kevin achava que era provavelmente uma desvantagem no seu trabalho.
“O Kevin está aqui por causa do sinal” disse a Dra. Levin. “Ele... bem, ele previu que isto ocorreria.”
“Impossível” disse o Professor Brewster. “Elise, você sabe que eu sempre respeitei os seus esforços para manter a pesquisa do SETI no campo da ciência séria, mas isto parece correr completamente na direção oposta. É obviamente uma artimanha.”
A Dra. Levin suspirou. “Eu sei o que vi, David. Ele disse-me que iria haver algo a acontecer com a Pioneer 11, e, depois, nós recebemos o sinal. Você vai pelo menos jogar para nós?”
“Oh, muito bem” disse o Professor Brewster. Ele gesticulou para um dos cientistas que trabalhava ao redor do supercomputador. “Põe o áudio para que possamos continuar com o nosso trabalho.”
O cientista assentiu e tocou num interface de controlo algumas vezes. Os dados apareceram a brilhar numa ecrã em sequências de números, mas Kevin estava mais interessado no sinal de áudio que o acompanhava. Era uma conversa mecânica estranha que não se parecia em nada com linguagem. Era mais como o tipo de interferência que pode acontecer quando um computador dá erro.
Mesmo assim, ele entendeu-a. Ele simplesmente não sabia como.
“Você precisa de ajustar um dos seus radiotelescópios” disse Kevin, com o conhecimento apenas na sua mente. Havia números também. Dois conjuntos deles, um marginalmente diferente do outro. “Eu acho que... o primeiro parece errado de alguma forma, e o segundo é o que deveria ser.”
“O quê?” o Professor Brewster e a Dra. Levin perguntaram quase simultaneamente, embora com expressões muito diferentes. A Dra. Levin parecia fascinada. O Professor Brewster parecia principalmente irritado.
“É o que significa” disse Kevin. Ele encolheu os ombros. “Quero dizer, eu acho. Eu não sei como eu sei isso.”
“Tu não sabes” insistiu o Professor Brewster. “Se isso quiser dizer mesmo alguma coisa, o que francamente não é provável, levará horas ao SAM para o descodificar, se for de todo possível.
“Acabei de lhe dizer o que significa” insistiu Kevin. “Eu consigo... isto simplesmente faz sentido para mim.”
“Você deveria ouvi-lo, David” disse a Dra. Levin. “Pelo menos procure os números, veja se eles significam alguma coisa. Pode anotá-los, Kevin?”
Ela estendeu-lhe um pedaço de papel e uma caneta, e Kevin tomou nota deles tão claramente quanto pôde. Ele entregou o papel ao Professor Brewster, que o agarrou de má vontade.
“Temos coisas melhores para fazer do que isto, Elise” disse ele. “Certo, já chega. Fora. Temos trabalho a fazer aqui.”
Ele enxotou-os e a Dra. Levin não parecia inclinada a discutir. Em vez disso, ela levou Kevin e a sua mãe dali para fora para os corredores da instalação de pesquisa novamente.
“Vamos” disse ela. “David pode estar muito ocupado para efetivamente usar esse cérebro gigantesco dele, mas há muitas pessoas aqui que me devem favores.”
“Que tipo de favores?” a mãe de Kevin perguntou.
A Dra. Levin olhou para Kevin. “O tipo de favor em que descobrimos exatamente como é que o Kevin está a conseguir receber e descodificar sinais do espaço sideral.”
***
“Precisas de ficar quieto, Kevin” disse um investigador com excesso de peso que usava uma camisa havaiana por baixo da sua bata de laboratório. Ele simplesmente passava por “Phil” embora a placa de identificação na sua porta declarasse que ele tinha pelo menos tantos doutoramentos quanto todos os outros. Ele parecia ser amigo da Dra. Levin, embora isto pudesse ter algo a ver com a sanduíche enorme que ela tinha levado da cantina antes de o ir visitar. “Não vai produzir uma imagem clara se te moveres.”
Kevin fez o seu melhor, deitado no interior apertado de uma máquina de ressonância magnética. Tal fez com que ele se sentisse como um torpedo prestes a ser lançado no oceano, e o espaço confinado apenas ficou pior com um baque surdo e regular, que soava como se alguém estivesse a martelar do lado de fora enquanto ele estava ali. As suas experiências no hospital diziam-lhe que aquilo provavelmente era normal, e não era um sinal de que aquilo estava prestes a avariar-se. Mesmo assim, era difícil ficar parado pelo tempo que demorava a que a coisa o examinasse.
“Já falta pouco” Phil disse. “Apenas prende a respiração por um momento. E relaxa.”
Kevin desejava poder relaxar. As últimas duas horas tinham sido atarefadas. Tinha havido cientistas, laboratórios e testes. Muitos testes. Houve testes cognitivos e exames de imagem, coisas como raios-x e testes de associação de palavras, enquanto Kevin encontrava vários tipos de dispositivos apontados para si, projetados para bombear diferentes tipos de sinais em direção ao seu corpo.
Por fim, até Phil pareceu estar a ficar cansado de atirar raios a Kevin.
“Ok, podes sair.”
Ele ajudou Kevin a sair da máquina e depois levou-o até onde a sua mãe e a Dra. Levin estavam à espera. O investigador abanou a cabeça quando apontou para o ecrã, para uma série de imagens a preto e branco que Kevin supôs serem do interior do seu cérebro. Se assim fosse, os cérebros pareciam mais estranhos do que ele pensara.
“Sinto muito, Elise, mas não há sinal de nada diferente nele que não fosse explicado pela sua doença” disse ele.
“Continue à procura” disse a Dra. Levin.
“Como exatamente?” ele perguntou. “Estou a dizer-lhe, eu fiz quase todos os testes que é possível fazer num ser humano - ressonância magnética funcional, tomografia computadorizada, bateria psiquiátrica, e só dizer. Eu disparei tantas frequências diferentes para Kevin que é extraordinário que ele não esteja a captar a rádio local. A não ser submetê-lo a isótopos radioativos ou realmente dissecá-lo...”
“Não” disse a mãe de Kevin, com firmeza. Kevin também não gostou da ideia.
Phil abanou a cabeça. “Não há mais nada lá para encontrar.”
Kevin percebeu a deceção do homem. Ao contrário do Professor Brewster, ele obviamente gostava da ideia de alguém ser capaz de ouvir sinais estranhos. Essa deceção espelhava a sua própria. Ele tinha a certeza de que essas pessoas, com todos os seus cérebros e os seus laboratórios, seriam capazes de descobrir o que estava a acontecer, mas parecia...
Um homem invadiu a sala, e Kevin levou um momento para reconhecer a estrutura desengonçada do Professor Brewster. Ele parecia ainda mais agitado do que quando os tinha expulsado do recinto dos supercomputadores. Ele estava com um tablet, segurando-o com tanta força que Kevin suspeitava que ele o pudesse partir.
“David, se isto é sobre o uso de recursos...” a Dra. Levin começou.
O cientista alto olhou para ela como se tentasse descobrir o que ela estava a falar, e, depois, abanou a cabeça. “Não é isso. Eu só quero saber como é que o fizeste. Como é que sabias?”
“Sabia o quê?” Kevin perguntou.
“Não te faças de tolo” disse o cientista. Ele estendeu o tablet para eles olharem. “Um dos nossos funcionários correu os números que tu nos deste nos nossos sistemas. Acontece que eles eram as configurações atuais de um dos nossos radiotelescópios, tal como disseste. Ninguém que não estivesse a trabalhar no observatório poderia saber disso. Portanto, como é que sabias?”
“Sabia o quê?” Kevin perguntou.
“Sabias o que aconteceria quando o mudássemos!”
O Professor Brewster pressionou algo no seu tablet.
“Este é um sinal de transmissão dele.”
Ele estendeu o bloco na direção de Kevin, como uma acusação. Um zumbido, um sinal de clique veio dele, soando como se fosse apenas estático, ou um problema mecânico, ou grilos presos algures dentro da máquina.
Para Kevin, porém, as palavras eram claras.
Nós estamos a chegar. Estejam preparados para nos aceitarem.
CAPÍTULO SETE
“Nós?” a Dra. Levin perguntou. Ela mal parecia conter o seu entusiasmo. “Quem somos nós? Estamos a falar de algum tipo de civilização alienígena?”
“Espere um segundo” o Professor Brewster disse rapidamente, soando cético. “Talvez Kevin seja a tradução errada. Talvez nem sequer haja nada para traduzir - talvez seja apenas um monte de barulho. Talvez seja apenas uma invenção resultante da imaginação do rapaz.”
“Então como é que ela sabia as coordenadas?” a Dra. Levin perguntou. “Nós sabemos que alguém enviou este sinal. Pense apenas nas possibilidades...”
Ela parou, como se não conseguisse compreender todas as possibilidades.
“Talvez ninguém o tenha enviado” outro cientista disse. “O espaço está cheio de sinais que não têm remetente ou recetor.”
“Ainda assim” insistiu a Dra. Levin, “você não pode descartar a possibilidade de que este seja realmente um sinal enviado por outra sociedade. E que Kevin efetivamente interpretou-o diretamente. E se ele o fez? Você está preparado para encerrar essa possibilidade? Você está preparado para simplesmente virar costas a isto? A aceitar as consequências?”
Brewster caiu num silêncio relutante.
“Nós precisamos de mais informações” ele disse finalmente. “Precisamos estudar Kevin ainda mais.”
“Estudá-lo ainda mais?” a sua mãe perguntou. “Trata-se do meu filho.”
“Verdade” respondeu a Dra. Levin. “E, no entanto, o seu filho também pode ser simplesmente o único elo do nosso planeta com a vida alienígena.”
*
Kevin estava no quarto que lhe haviam dado e olhava em volta, questionando-se para que serviria. Parecia que poderia ter sido projetado para a observação de pessoas por longos períodos. Ou isso, ou peixe-dourado gigante.
Era confortável, mas era impossível esquecer que era no meio do laboratório. A cama estava no meio do quarto, e tudo parecia ser um branco clínico e imaculado. Kevin suspeitava que houvesse câmaras de vigilância. Havia certamente um vidro comprido ao longo de uma parede que obviamente era um caminho. Isso fazia com que ele se sentisse um pouco como um sapo à espera para ser dissecado na aula de biologia de alguém.
“Tens tudo o que precisas?” a sua mãe perguntou. “Eles, ao menos, já te deram comida?”
A mãe dele encontrava sempre uma maneira de o envergonhar, mesmo numa situação como esta.
“Sim, Mãe, eles estão a dar-me comida” disse Kevin.
“Eu apenas me preocupo contigo” disse ela.
“Tu tens que trabalhar” disse Kevin. Ele entendia. A sua mãe já não se podia dar ao luxo de não trabalhar mais. Nem mesmo por isto. Havia muitas contas para pagar, e a doença de Kevin só acrescentara contas médicas à lista. Ele não gostava de ouvir a culpa na voz da sua mãe, como se ela estivesse a fazer algo errado por o levar para o lugar onde eles perseguiam alienígenas.
“No entanto, este é o melhor lugar para ti” disse a sua mãe. Ela parecia como se estivesse a tentar convencer-se a si própria.
“É um lugar fantástico para se estar” Kevin assegurou. “Eles têm tantas coisas a acontecer.”
Era incrível fazer parte de algo tão importante.
“Olá, Kevin” disse Phil, enfiando a cabeça pela porta. Ele pareceu ficar ainda mais contente ao ver a mãe de Kevin. “Olá, Sra. McKenzie.”
“Pode tratar-me por Rebecca” a sua mãe disse. Havia algo estranho nisso, talvez porque não fosse algo que ela dissesse com frequência.
“Eu pensei que levaria Kevin a dar o grande passeio” disse Phil. “Talvez queira se juntar a nós?”
“Parece um boa ideia” a sua mãe disse, e novamente, Kevin teve a sensação que isto era... não, ele não deveria pensar assim. Isso era simplesmente nojento. Os pais não deveriam andar por aí a gostar de pessoas. Isso era praticamente... bem, isso fazia com que a ideia de mundos alienígenas parecesse normal.
“Se ambos quiserem vir comigo” disse Phil, liderando o caminho pelos corredores. “Quero dizer, oficialmente, acho que não é suposto andarmos por aí a passear, porque alguns dos projetos são meio sensíveis, mas às vezes eu acho que nós exageramos, percebem?”
Ele levou-os até um espaço onde os cientistas pareciam disparar um laser numa superfície em branco, uma e outra vez, fazendo pequenos ajustes entre cada tentativa.
“Eles estão à procura de maneiras em que os lasers possam ser usados na mineração de asteroides” explicou Phil. Houve algo no olhar que ele deu à mãe de Kevin, que disse que ele estava a tentar impressioná-la. Kevin achou isto meio engraçado. A sua mãe era a sua mãe. Ela não ficaria impressionada com lasers. Mesmo que eles fossem fantásticos.
Depois disso, ele mostrou-lhes um espaço onde os drones voavam em torno de uma sala grande como insetos, movendo-se rapidamente, mas, de alguma forma, nunca colidindo uns com os outros.
“Estamos a trabalhar no uso da inteligência artificial para fazer com que os drones possam interagir sem colidir” disse Phil.
Kevin viu a sua mãe sorrir. “Para que haja menos probabilidade de se perder o próximo pacote que eu encomende?”
Phil assentiu. “Bem, isso ou eles poderiam ser usados em obras de construção, ou para trabalho em ambientes extremos.”
Kevin não tinha a certeza de como se sentia sobre a sua mãe e Phil a darem-se tão bem. Ele provavelmente deveria se sentir feliz por ela ou algo assim, mas esta era a sua mãe. Ele tinha a certeza de que deveria haver regras sobre este tipo de coisas. Ele partiu em direção a outra porta, esperando apressar o passeio antes que os dois trocassem olhares ou algo assim.
Ele abriu-a e deu por si a olhar para uma coisa saída dos seus pesadelos.
Kevin cambaleou para trás ao se ver cara a cara com um robô quase tão grande quanto ele, coberto de espigões e lâminas, com duas grandes tenazes saindo da frente como uma formiga faminta. Demorou algum tempo até que ele percebesse que o robô não se estava a mover e que não era qualquer tipo de ameaça para si, apesar de parecer muito feroz.
“Isto é algum tipo de projeto de armas?” Kevin perguntou. “Algo para os militares?”
Parecia o tipo de coisa que seria aterrorizante vindo na direção de alguém num campo de batalha. Conseguia ser bastante aterrorizante mesmo parado.
“É para a liga local de combate a robôs” disse Phil. “Alguns dos licenciados de Berkeley surgem com coisas cruéis.”
Ele olhou para a mãe de Kevin como se estivesse à espera que ela se declarasse uma grande fã de luta de robôs. Ela não pareceu particularmente impressionada e Kevin atreveu-se a respirar aliviado. Parecia que o mundo havia voltado ao normal, mais ou menos.
A sua mãe abraçou-o. “Eu tenho que ir, Kevin. Quem me dera não o ter de fazer, mas...”
Kevin abraçou-a também. “Eu sei.”
Mesmo sabendo que ela voltaria em breve, era difícil deixá-la ir.
Quando ela se foi embora, Kevin virou-se para Phil. “Então” ele disse. “E agora?”
“Agora, temos mais um conjunto de testes para fazer” disse Phil.
Um conjunto não cobria isso. Apesar de Phil já ter tentado baterias completas de testes em Kevin antes, tanto o Professor Brewster quanto a Dra. Levin pareciam determinados a continuar. A Dra. Levin parecia esperar que, ao entender o que Kevin poderia fazer melhor, eles talvez conseguissem ter mais contacto com as civilizações alienígenas. O Professor Brewster... bem, Kevin suspeitava que ele esperava que se provasse que tudo aquilo não era nada, era um erro.
De qualquer forma, isto significava teste após teste com diferentes grupos de cientistas, pergunta após pergunta, para a maioria das quais Kevin não tinha as respostas.
“Eu não tenho qualquer controlo sobre o que eu traduzo” insistiu Kevin, quando um dos cientistas quis saber se ele poderia olhar ao redor do mundo alienígena que ele via para lhes dar mais dados. “Eu nem sei como o estou a fazer. Quando vocês põem os sinais a tocar, é apenas... óbvio.”
Ele suspeitava que os cientistas não estavam muito satisfeitos com isto, mas Kevin não sabia mais o que dizer. Ele conseguia o que conseguia e, de momento, tal parecia ser a contagem decrescente na sua cabeça, com os batimentos cada vez mais rápidos, juntamente com a lembrança de um mundo eclipsado por uma luz brilhante e devoradora. Até agora, tinha sido a única imagem que ele tinha conseguido. O sinal parecia ser apenas palavras.
Kevin, precisando de uma pausa, encontrou um canto silencioso numa das salas de recreação do centro de pesquisas, pegou no seu telefone e fez uma ligação pelo Skype com Luna.
Ele sorriu quando a viu; ele não tinha percebido o quanto sentia falta de ver o rosto dela.
Ela sorriu de volta.
“Ei, estranho” disse ela. “Eles estão a fazer-te passar um mau bocado?”
“Todos os testes que consigas imaginar.”
“Ser picado e espicaçado deve tornar-se muito mau” disse Luna. “Mas provavelmente significa que estás a ser examinado por mais médicos do que serias de outra forma. Isso tem que ser bom, certo?”
“Eu não acho que isso signifique que eles conseguem fazer qualquer coisa por mim” disse Kevin. Ele tinha pensado sobre isto, brevemente, mas decidiu que não se podia permitir a si mesmo esse tipo de esperança quando se tratava da sua doença. Ele sabia o que ia acontecer. “A maioria deles nem sequer é esse tipo de médico.”
“Mas alguns deles devem ser, e eu aposto que se houver alguma investigação sobre...” Luna olhou para baixo, e Kevin supôs que ela tinha tomado nota para não se esquecer “...leucodistrofias, vai estar algures perto de ti.”
“Se há, eu não ouvi falar disso” disse Kevin. Ninguém tinha exatamente chegado até si e dito que, de repente, havia uma cura para o que ele tinha.
“E tens procurado?” Luna perguntou. Ela tinha aquela sua expressão determinada, aquela que significava que ela não aceitaria um não como resposta.
“Eu tenho estado muito ocupado a tentar traduzir mensagens de uma espécie alienígena” destacou Kevin.
“Ok” disse Luna, “como desculpa, eu admito que é bastante boa. Mas pensa, quando eles vierem aqui e disserem 'Leva-me ao teu líder', serás o único que consegue traduzir, pelo que estarás lá. O teu nome estará nos livros de história.”
“E desde quando é que prestas atenção às aulas de história?” Kevin ripostou. “Eu lembro-me de te tentar ajudar a estudar para os testes, lembras-te?”
“Bem, talvez eu prestasse mais atenção se houvesse mais alienígenas neles.”
“Kevin?” o Professor Brewster estava ali, parecendo impaciente. “Quando estiveres pronto, o sinal está à espera.”
“Parece que eu tenho que ir” disse Kevin para Luna.
“Eu sinto a tua falta” disse ela, com um tom melancólico que habitualmente não estava na voz de Luna.
“Bem, talvez possas visitar” disse Kevin, mas então ele viu a expressão do Professor Brewster. “Eu tenho de ir.”
“Deves ter cuidado com o que dizes” disse o Professor Brewster quando Kevin desligou. “É suposto o nosso trabalho aqui ser confidencial.”
“Eu confio em Luna” disse Kevin.
“E se tudo isto se tornar um absurdo, isto prejudica a reputação que tanto trabalhámos para construir, o que, por sua vez, afetará o nosso financiamento.”
“Não é um absurdo” insistiu Kevin. Porque é que o Professor Brewster não entendia isso? “Eu vejo isto.”
“Aparentemente” disse o Professor Brewster. “Embora dada a tua condição...”
Kevin levantou-se. Naquele momento, ele sentia-se cansado, e não apenas por causa da doença que estava a devorar lentamente o seu cérebro. Ele sentia-se cansado de tudo isto, de não ser levado a sério.
“Você está determinado a acabar com isto independentemente do que eu faça” disse ele. “Eu consegui traduzir a mensagem.”
“Aparentemente.” Essa palavra novamente. “Isso me faz lembrar, no entanto. Não há razão para acreditar que começaste a ouvir os desses sinais. Assim nós queremos que tu ouças o nosso arquivo de sinais de outros setores e vejas se algum desencadeia traduções repentinas.”
Ele disse-o como se ele não tivesse acabado de entrar, e eles não estivessem a ter uma discussão sobre isto. Ele disse-o como se já estivesse decidido que Kevin o faria. Kevin estava ali, pronto para lhe dizer não. Pronto para se ir embora.
No entanto, ele não podia, e não apenas porque tinha treze anos, enquanto este era um cientista eminente que provavelmente sabia do que ele estava a falar. Ele não podia arriscar não ouvir o que os alienígenas tinham a dizer.
“Tudo bem” disse Kevin.
Professor Brewster levou-o, não para o recinto dos supercomputadores desta vez, mas para um pequeno espaço de laboratório onde não havia nada além de uma mesa branca simples, um par de auscultadores de ouvido igualmente simples e um painel de vidro duplo que sugeria que dezenas de cientistas poderiam estar à espera logo atrás.
“Vai para dentro, coloca os auscultadores de ouvido, e vamos ver se algum dos sinais desencadeia as traduções” disse o Professor Brewster numa voz que sugeria que ele sabia qual seria o resultado provável.
*
As horas seguintes estiveram entre as mais aborrecidas da vida de Kevin, e isto incluía o tempo que ele passara na aula de matemática. Quem quer que estivesse na outra sala, tocava-lhe ruídos após ruídos, sinal após sinal, tudo presumivelmente interpretado a partir de padrões de luz ou descargas eletromagnéticas. Kevin esperava que um deles desencadeasse alguma coisa a qualquer momento, mas não houve nada de novo e...
“Se alguém receber isto, mais comunicações se seguirão”, disse ele ao ouvir um. Quase já não parecia a sua voz, como se alguma coisa estivesse a falar através dele. Simplesmente pareceu natural dizer isto quando os sons atingiram os seus ouvidos.
Pareceu haver uma atividade imediata atrás do vidro, e a voz de Phil entrou nos seus auscultadores de ouvido.
“O que foi isso, Kevin?”
“Esse último sinal, eu acho que significa esperar por mais” disse Kevin.
“Tens a certeza?”
Kevin não sabia como responder a isso. Não era como se ele fosse algum tipo de especialista no que estava a acontecer. Ele provavelmente sabia menos do que os cientistas que tentavam entender tudo aquilo. Ele apenas traduzia o que ouvia, confiando no seu cérebro alterado para entender.
“Talvez se tentarmos obter mais sinais daquela área” disse a voz de Phil sobre os auscultadores de ouvido, e Kevin não sabia se ele estava a falar com ele, consigo mesmo ou com outros cientistas.
De qualquer forma, mais sinais se seguiram. Alguns eram apenas barulho. Outros, porém...
“Estamos a chegar, preparem-se para nos receberem.”
Eram todas variações sobre o mesmo tema, a mesma mensagem, embora nenhuma delas parecesse dizer alguma coisa útil. Kevin deu por si a pensar há quanto tempo estas mensagens teriam sido lançadas no espaço, à espera que alguém as ouvisse. Talvez elas estivessem a atingir a Terra há meses, até anos, mas só agora alguém tinha sido capaz de entender.
Phil parecia ter a mesma ideia. Ele entrou, usando o que se parecia muito com a camisa havaiana do dia anterior, parecendo animado.
“Estes sinais… alguns deles remontam a meses, talvez mais, todos da região do espaço que associamos ao sistema Trappist 1. Isto significa que, se eles foram enviados usando luz, levaram quase quarenta anos para chegar. E tu és a primeira pessoa a ser capaz de os compreender. Ao contrário do Dr. Brewster, Phil parecia mais do que feliz com a perspetiva. Ele parecia realmente animado.
“Eu acho que a tua doença deve ter mudado o teu cérebro de maneiras que não entendemos” disse ele. “Acho que te deve ter dado a capacidade de entrar em sintonia de maneiras que nós não podemos. Isto explicaria porque é que não conseguimos ver nada para lá do progresso da tua doença. A tua doença está a fazer isto.”
Kevin sorriu com reservas. “Portanto, eu sou basicamente uma aberração.”
“Mas uma muito importante” disse Phil com um sorriso muito próprio. “Podemos não ter compreendido isto completamente. Mais do que isso, parece que há uma mensagem maior a chegar, algo tão importante que eles queriam ter a certeza de que todos a saberiam.”
Kevin pensou na contagem decrescente. Estava a ficar mais rápida.
Agora, ele suspeitava, ele sabia para o que é que estava a contar.
A única maneira de testar isto era continuar, trabalhando no laboratório de testes do instituto com os seus auscultadores de ouvido, ouvindo enquanto eles bombeavam a alimentação de sinais dos seus equipamentos de escuta. Ele estava ali e fazia o seu melhor para traduzir os sinais enquanto Phil os enviava, um por um.
“Nada com este” disse Kevin, abanando a cabeça.
“Eu teria pensado que haveria alguma coisa” Phil respondeu, com a sua voz a soar nos ouvidos de Kevin enquanto ele trabalhava no outro lado de um painel de vidro transparente.
Kevin também pensara assim, com a contagem decrescente a pulsar tão rápido dentro de si. Kevin conseguia sentir o batimento depressa dentro de si agora, impossível de ignorar e sugerindo que o que quer que estivesse a vir estaria aqui em breve. Ele estava cansado de esperar, e cansado das pessoas a olharem para si, e às vezes apenas cansado.
“O Kevin deveria fazer um intervalo.” A voz da sua mãe, do lado de fora da sala. Kevin ficou feliz por ela estar ali. Ele não tinha a certeza do que isto significava para o trabalho dela, mas ele estava feliz por ela estar ali.
“Sinto muito, Rebecca, o Dr. Brewster foi bem claro que precisamos continuar a transmitir a Kevin o sinal estando tão perto do final da sua contagem decrescente.”
“E você vai ouvi-lo a ele ou a mim?”
Kevin suspeitou que ele estivesse prestes a ter um intervalo. Ele sorriu ao pensar nisso. Um pensamento mais preocupante substituiu-o. E se nada acontecesse? E se ele estivesse aqui dia após dia, e a contagem decrescente chegasse a zero sem que nada acontecesse? E se eles tivessem feito todo aquele esforço e tudo fosse em vão? Como é que eles todos reagiriam a isso?
Um pensamento pior ocorreu-lhe, um pensamento que fez Kevin fechar os olhos com força na tentativa de o afastar. Não funcionou. E se tudo isto fosse a sua doença? E se a contagem decrescente não fosse para uma mensagem, mas para algum tipo de ataque? E se aquela batida rápida demais fosse o seu próprio coração, ou os vasos sanguíneos ao redor de seu cérebro a se prepararem para explodir? As pessoas do instituto tinham-se reunido em torno de Kevin como um profeta prestes a falar, mas e se ele estivesse simplesmente a morrer?
Então o sinal chegou, passando por si.
E ele soube que tinha chegado o momento.
***
Kevin pôde ver pessoas a correr para entrar na sala do outro lado, obviamente a quererem estar ali quando a mensagem chegasse. Ele mal lhes prestou atenção. A mensagem era demasiado importante para isso.
“Se vocês estão a ouvir isto” disse Kevin, traduzindo automaticamente, embora não soubesse como o estava a fazer “o nosso mundo acabou.”
Ele ouviu os arquejos do lado de fora enquanto as pessoas ouviam e percebiam um pouco do que isto significava. Alguns cientistas que ali estavam começaram a escrever notas e Kevin ouvia-os a falar ao fundo.
“Isto significaria que não tem havido alienígenas há pelo menos quarenta anos” disse um deles.
“Se houver” acrescentou outro. “Nós só temos a palavra do rapaz para a tradução.”
Os outros ignoraram-no. Eles pareciam tão envolvidos no momento quanto Kevin.
A mensagem continuou, e Kevin continuou a traduzir. “Estamos a enviar estas mensagens para preservar o que conseguirmos do nosso povo e para garantir que o nosso conhecimento não morre.”
O sinal pareceu se intensificar, e agora era como uma corrente que Kevin não poderia ter começado a conter. Havia apenas os sons estranhos da língua alienígena e as palavras que surgiam quando ele as traduzia quase automaticamente.
“O nosso planeta era um de sete, com três habitados. As colónias entraram em colapso primeiro. A nossa casa foi destruída no fogo. Esta é a nossa história, o nosso registo. Talvez ouvir isto ajude os outros a evitar o mesmo destino que nós.”
Kevin dizia as palavras quase sem registar o sinal que as acionava. O sinal era uma coisa complexa e conversadora, e se ele se concentrasse, ele conseguiria apenas entender os cliques e os zumbidos que o compunham. Na maioria das vezes, ele apenas entendia o significado, entrando direto na sua mente enquanto ouvia.
Parecia que apenas manter o seu cérebro preso ao sinal era um esforço, e Kevin pôde sentir uma gota de suor a formar-se acima dos seus olhos enquanto ele trabalhava para manter o controlo.
“Devemos enviar estas mensagens com cuidado, apenas uma parte de cada vez, mas se vocês ouvirem, vocês vão saber.”
O sinal foi cortado. Kevin esperou e continuou à espera, tentando ouvir mais, mas não parecia haver mais nada.
Finalmente, Kevin olhou para cima. Ele pôde ver Phil e a sua mãe a olharem para ele do outro lado do vidro, mas havia outros ali, muitos outros. O Professor Brewster e a Dra. Levin estavam ambos lá, juntamente com os funcionários todos que conseguiam caber na sala para lá daquela. Ele pôde ver o choque em tantos dos seus rostos, e ele adivinhou o porquê: eles não tinham ousado acreditar que isto era real. Eles tinham pensado que isto não resultaria em nada.
Isto, no entanto, estava longe de não ser nada.
Ele também pôde ver a outra razão deles para o choque: eles claramente esperavam que a mensagem continuasse.
Ninguém tinha esperado que aquilo caísse em silêncio.
CAPÍTULO OITO
Kevin estava muito quieto no gabinete do Professor Brewster enquanto ao seu redor os adultos tentavam descobrir o que tudo isto significava e o que deveriam fazer em seguida. Principalmente, eles faziam-no a falar demasiado.
O Professor Brewster parecia surpreendentemente satisfeito pela primeira vez. “Isso foi muito impressionante, Kevin. Eu nunca pensei que iria ver resultados. Contacto real com outro mundo! Embora precisemos de ter cuidado, é claro. Considerar as possibilidades alternativas.”
Como é que o Professor Brewster conseguia parecer animado e cético ao mesmo tempo?
“Você não acredita?” a Dra. Levin perguntou.
“Temos que considerar as coisas com cuidado” disse o Professor Brewster. “Afinal, nós não ouvimos as mensagens diretamente, só recebemos traduções através de um rapaz que sofre de uma doença degenerativa.”
“Você ainda acha que eu estou a inventar coisas” disse Kevin.
“Eu não estou a dizer isso” disse o Professor Brewster. “Ainda assim... contacto direto...”
“Eu não acho que tenha sido contacto direto” disse Kevin. “Parecia... quase como uma mensagem gravada.”
“Pelo menos isto torna-o mais plausível” disse o Professor Brewster. “Porque um sinal como esse teria que viajar por anos, mesmo deslocando-se nas velocidades mais altas. O sistema Trappist 1 está a quase a quarenta anos-luz de distância, afinal de contas.”
Kevin sabia disso. Eles tinham-lhe dito antes da mensagem chegar. Ele e Phil haviam-no discutido, e ele não tinha a certeza se gostava que o Professor Brewster estivesse a dizer isto como se fosse algo que ele tivesse acabado de descobrir.
Além disso, apesar de tudo isto, uma parte de Kevin esperava algo mais, algo vivo.
“Eu acho que não apanhei tudo” disse ele. “Eu acho que há mais.”
“Isto não importa, Kevin” a sua mãe disse. “O importante é que estás em segurança”.
“E porque estás em segurança” o Professor Brewster acrescentou, “serás capaz de capturar mais.”
A visão prometera que havia mais por vir. Uma série inteira de mensagens. Uma hipótese de aprender tudo o que havia para aprender sobre outro mundo, e Kevin era a chave para isso.
Alguns dos outros pareciam estar tão excitados quanto ele.
“Temos que publicar isto” disse a Dra. Levin.
O Professor Brewster levantou a mão. “Elise, é importante não nos apressarmos demasiado com isso. Temos as mensagens iniciais, certamente, mas precisamos de mais antes de envolvermos qualquer outra pessoa.”
Quanto mais? a Dra. Levin perguntou. Kevin podia imaginar porque é que ela parecia tão frustrada. Ela tinha dedicado toda a sua vida a procurar alienígenas. Agora ela tinha a prova, e obviamente ela gostaria de espalhar isso. Ela queria que as pessoas soubessem, e Kevin... bem, ele meio que concordava com ela.
“Porque é que não podemos dizer às pessoas?” Kevin perguntou. “Porque é que não podemos deixar que eles saibam o que encontrámos? Se eu estivesse lá fora, eu gostaria de saber se as pessoas tinham encontrado alienígenas.
“É demasiado cedo” insistiu o Professor Brewster. “Deveríamos ter um conjunto completo de dados antes de anunciarmos qualquer coisa. Dessa forma...”
“Dessa forma, ninguém pode dizer que estás a inventar?” Kevin supôs.
Para sua surpresa, a sua mãe apoiou o Professor Brewster. “Talvez não seja tão boa ideia assim dizer alguma coisa agora, Kevin. Todos nós já vimos o que consegues fazer, mas as outras pessoas… “
“Você acha que eles não acreditariam em mim?” Kevin perguntou.
O Professor Brewster assentiu. “Acho que as pessoas precisarão de muitas provas antes de acreditarem em algo assim” disse ele. “Devemos ter o cuidado de lhes demonstrar que isto é mais do que apenas a tua imaginação e que, na verdade, representa uma comunicação alienígena”.
“Mas eu estou a traduzi-la” insistiu Kevin.
“Pareces estar” disse o Professor Brewster. “Precisamos estabelecer os padrões entre o que tu estás a dizer e os sinais que recebemos. Enquanto isto, se o mantivermos para nós mesmos, isto irá evitar muitos problemas.”
“Que tipo de problemas?” Kevin perguntou. Ele não conseguia perceber como é que algo tão incrível poderia ser um problema. A notícia de que as pessoas não estavam sozinhas no universo parecia incrível para ele.
“Fazemos muita pesquisa aqui que é considerada secreta por razões de segurança nacional” disse o Professor Brewster. “Eu imagino que os meus superiores considerariam isto um desses segredos.”
“Portanto, você está preocupado com os seus chefes?” Kevin perguntou. Não parecia ser uma boa razão para não contar às pessoas.
“Há também a questão de como as pessoas podem reagir” disse o Professor Brewster. “As pessoas podem entrar em pânico.”
“Nós entendemos” disse a mãe de Kevin, colocando uma mão no ombro de Kevin.
Kevin não entendia, no entanto. Ele não via como é que as pessoas entrariam em pânico com a notícia de que não estavam sozinhas no universo. Para ele, parecia a coisa mais fantástica que era possível saber. Ele olhou para a Dra. Levin, à espera pelo menos do apoio dela. Mas parecia que até ela estava convencida por agora.
“Suponho que, se esperássemos algum tempo” ela disse, “isso nos permitiria receber mais mensagens.”
“Eles disseram que eu só conseguiria obter uma parte da informação de uma só vez” disse Kevin. “Porque é que eles fariam isso? Porque é que não haveriam de a dar toda de uma vez?”
“Talvez eles tivessem de o fazer assim” disse a Dra. Levin. “Talvez eles tivessem restrições de energia, ou talvez eles quisessem maximizar a probabilidade de alguém ouvir algo.”
“Ou talvez eles tenham muito a enviar” sugeriu o Professor Brewster. “Como dividir ficheiros ao enviar e-mails para que o destinatário não precise de os transferir numa tentativa enorme.”
Isso fazia algum sentido, embora Kevin não tivesse a certeza de que gostasse de ser chamado apenas de recetor. Isso fazia com que ele se sentisse como uma máquina e não como um ser humano, útil apenas pelo que ele poderia fazer. A sua mãe, ou Luna, nunca o veria assim. Se Luna estivesse aqui, ela veria o quanto isto o magoava.
“De qualquer maneira” continuou a Dra. Levin apressadamente “não acho que seja o fim disto. O que achas, Kevin? Quando é que achas que poderá haver mais?”
Kevin pôde ouvir a sua voz de esperança. Este era o tipo de momento para o qual toda a sua carreira havia estado a trabalhar, afinal. Depois de tanto tempo a pensar, e talvez à espera, quem é que iria ficar satisfeito com apenas uma comunicação? Ele iria querer mais, se ele fosse ela. Ele queria mais. Ele queria ouvir tudo o que os alienígenas tinham a dizer.
Kevin tentou sentir o sentido da mensagem no seu rescaldo. O batimento constante da contagem decrescente para as mensagens já não estava lá, mas ele ainda tinha uma sensação de expectativa algures dentro de si de que iria haver mais. Os alienígenas tinham dito isso, não tinham?
“Eu acho que haverá mais” disse ele. Era estranho ter tantos adultos pendurados nas suas palavras, realmente a ouvirem-no. Ele suspeitava que muitas crianças de treze anos não tinham isso.
“Então precisamos de voltar a colocar o Kevin a ouvir os sinais” disse o Professor Brewster.
“David” disse a Dra. Levin “o Kevin acabou de traduzir o primeiro sinal. E ele também está muito doente. Não é certo pedir-lhe para mergulhar de volta nisso sem lhe dar algum tempo para se recuperar.”
“Mas a informação...” o Professor Brewster começou.
“Ninguém se importa mais com isso mais do que eu” disse a Dra. Levin. “Eu não sou a diretora do SETI para nada. Mas também sei que não se aprendem coisas forçando demasiado rapazes de 13 anos. Dê-lhe tempo, David. Podemos, entretanto, registar quaisquer sinais que provenham dessa área do espaço. Isso também nos dará um registo deles também.”
Para surpresa de Kevin, o Professor Brewster pareceu recuar. Ele não tinha tido a certeza que o cientista alto ouviria a Dra. Levin sobre isto.
“Tudo bem” disse o Professor Brewster. “Vamos dar tempo ao Kevin para se recuperar. Isso nos permitirá descobrir a melhor maneira de trabalhar com essas informações. Mas espero resultados.”
***
Kevin estava ali a ouvir, tentando escolher o silêncio para algo mais. Ao seu redor, ele via cientistas à espera, alguns com tablets preparados, outros com câmaras. Ele sentia a pressão ali para atuar para eles, para fazer isto sob ordem, quando a verdade era que ele só podia esperar.
Havia uma espécie de ritmo na espera, sentado com um conjunto de auscultadores de ouvido portáteis conectados à corrente do radiotelescópio. Ele sentia-se ansioso pela chegada das rajadas de transmissão, com a sensação de um batimento no seu cérebro que era como um sinal de alerta para mandar os cientistas apressarem-se a registá-lo.
Chegou agora e Kevin olhou para cima.
“Eu acho que há uma mensagem a caminho” disse ele.
Era tudo o que era necessário para mandar os cientistas apressarem-se para se prepararem, a maioria deles movendo-se mais depressa do que eles se moviam em qualquer outro momento. Mesmo assim, eles mal estavam no lugar antes das palavras chegarem.
“A nossa civilização começou de uma forma simples, na margem dos oceanos do nosso planeta” traduziu Kevin. “Nós espalhamo-nos e aprendemos, por muitos séculos. Nós construímos casas. Nós construímos cidades. Nós construímos...”
A transmissão foi interrompida, tão subitamente como começara. Kevin esperou um momento ou dois mais, para o caso de começar de novo, mas isto não aconteceu. Tal parecia ser o que era agora: breves estouros e longas pausas, sem sinal de quando começaria de novo.
Os cientistas estavam ao redor para registar tudo o que ele era capaz de lhes dar, enquanto eles faziam Kevin escrever o que ele conseguia, apenas no caso das impressões serem diferentes. Os cientistas faziam com que tal parecessem trabalhos de casa.
Não era fácil, e não apenas porque alguns dos investigadores pareciam determinados a tirar toda a diversão daquilo. A tradução exigia um esforço mental, de tal modo que o cérebro de Kevin vibrava ao fazê-lo, e ele não conseguia evitar ficar instável a seguir. Ele não tinha esperado que isto fosse fisicamente tão difícil. Bem, na verdade, ele não tinha de todo esperado nada disto.
“Isto não é bom para ti” disse Phil quando viu o quão instável Kevin estava. “Não tenhas pressa. Não te esforces mais do que consegues. Não no teu estado.”
O seu estado era o que fazia Kevin querer obter tudo o que conseguia. Era difícil pensar, mas quanto tempo tinha ele agora? Quantas mensagens ele receberia antes do seu cérebro mudar ao ponto de ele não as conseguir mais entender? E se… e se ele morresse antes de terminar? E se ele não conseguisse chegar ao fim antes do seu corpo e cérebro cederem?
Era mais do que isto, no entanto. Sempre que ele se sentava ali a traduzir, a ouvir através dos seus auscultadores de ouvido a última rajada de informação, Kevin sentia que tudo isto poderia significar alguma coisa. Era um lembrete de que ele não era apenas um rapaz de 13 anos a morrer de uma doença da qual praticamente ninguém ouvira falar. Ele estava a fazer algo que ninguém mais na história do mundo havia feito. Se tudo isto era para alguma coisa, então isto era uma coisa boa.
“Eu tenho que continuar” disse Kevin. “Precisamos de conseguir tudo”
Na maioria das vezes, o que Kevin conseguia extrair eram factos, e cada um parecia estimular mais os cientistas ao seu redor. Algumas delas, como a presença de sete planetas ao redor da estrela, ou as órbitas gravitacionais interligadas das suas luas, eram coisas que eles haviam conseguido extrair das suas observações usando os telescópios disponíveis na Terra. Outras partes, como a presença de tanta vida, fazia com que eles coçassem a cabeça.
“Achamos que os planetas estão todos bloqueados como uma maré” disse um deles. “Há evidências da mudança do dia para a noite? Se não, um dos lados dos planetas deveria estar a arder, enquanto o outro a congelar.”
Kevin não lhe conseguiu dizer ao início, até que outra mensagem explicou que sim, os planetas giravam, de formas que pareceram estimular ainda mais os cientistas.
“Nós vamos ter que reescrever o que sabemos sobre tudo isto. E a exposição à radiação por estar tão perto da estrela?”
Eles faziam, sem parar, perguntas para as quais Kevin não sabia as respostas. Eles não pareciam entender que ele não tinha qualquer controlo sobre o que os alienígenas tinham enviado nas suas rajadas de mensagens. Eles enviavam o que enviavam, Kevin traduzia, e os cientistas tinham que se esforçar para tentarem decifrar o possível sentido de tal.
Estranhamente, a Dra. Levin era a única pessoa que não parecia se importar com isso.
“É impressionante que eles tenham escolhido comunicar dessa maneira” disse ela. “Eles estão a enviar tanta informação sobre si mesmos, a tentar preservar alguma compreensão de quem eles são.”
“De quem eles eram” Kevin corrigiu. Essa era uma das coisas sobre as quais as mensagens tinham sido claras. As pessoas que as enviavam tinham morrido há muito tempo. Isso era incrivelmente triste e também fantástico, saber que ele era praticamente o último elo com uma civilização morta.
Uma coisa estranha era o quão simples e factual tudo era. Kevin estava à espera de aprender mais sobre a cultura ou as línguas dos seres que habitaram o planeta, mas ele ainda não tinha visto o suficiente sobre deles para entender o que eles realmente eram. Quais das criaturas na superfície do planeta é que eles eram? Eles eram as criaturas com carapaça de quitina que lá rastejavam, ou as coisas de pescoço comprido parecidas com girafas com escamas? A imaginação de Kevin fazia com que ele estivesse à espera de algo parecido com os humanos e familiar, mas até agora ele não tinha ouvido nenhuma referência a isso.
Kevin só queria poder compartilhar mais dessas palavras com o mundo. Quando não aguentou mais, ele procurou a Dra. Levin, porque ele suspeitava que ela seria a sua maior aliada. Ele encontrou-a na cantina com Phil.
“Eu estou preocupado que eu esteja a dizer tudo isto, e que isto se vá limitar a ficar trancado em segredo em algum lugar” disse ele.
“O Professor Brewster está apenas a ser cuidadoso” disse a Dra. Levin. Para Kevin, parecia que ela se estava a convencer a si própria.
“E se ele for tão cuidadoso que ninguém nunca vai saber sobre os alienígenas?” Kevin perguntou. Era uma preocupação real. Ele podia imaginar o cientista alto a fazer isso muito facilmente. “E se minha mãe só concordar porque ela não quer que as pessoas se riam de mim?”
“Tenho a certeza de que isso não vai acontecer” disse a Dra. Levin. Mais uma vez, ela não parecia ter a certeza.
“O que é que não me está a contar?” Kevin perguntou. Ele não tinha a certeza se a Dra. Levin responderia ou não.
“David... o Professor Brewster... tem que responder perante as pessoas dentro do governo” disse a Dra. Levin. “Alguns dos seus fundos são do exército. Algo assim... e eles podem querer manter isto em segredo.”
Kevin percebeu que ela não estava satisfeita com isso. “Então ele poderá nunca dizer às pessoas?”
“Eles provavelmente ficariam preocupados porque as pessoas poderiam entrar em pânico” disse a Dra. Levin. Mais uma vez, Kevin teve a sensação de que ela não concordava.
“Você deve querer dizer às pessoas” disse Kevin. “Toda a sua organização quer encontrar alienígenas.”
A Dra. Levin sorriu com contenção. “Eu não o posso fazer” disse ela. “Se eu o fizer, isto tornará as coisas mais difíceis para o SETI. O Professor Brewster não iria deixar passar isso em branco, e alguns dos seus chefes... bem, eles veriam isto como uma traição.”
“Apesar de as pessoas terem o direito de saber?” Kevin perguntou.
“Eles iriam dizer que as pessoas só têm o direito de saber o que lhes dizem” disse a Dra. Levin.
Kevin abanou a cabeça. “Isto não está certo. O Professor Brewster não deveria fazer isto.”
“Eu vou tentar falar com ele. Enquanto isto, Phil, porque é que não leva Kevin a passear pelas instalações? Tenho a certeza que deve ser muito chato passares todo o teu tempo aqui ou na tua sala.”
E era, de uma maneira que fazia com que até a escola parecesse interessante por comparação. Kevin poderia nunca ter sido um daqueles rapazes que se dedicavam a atividades diferentes a cada noite, e a acampar no verão, mas ele nunca passara o tempo numa sala, a não fazer nada para além de atuar como uma espécie de antena parabólica humana para mensagens alienígenas.
Ele tinha andado pelas instalação antes, mas era bom passar algum tempo sendo algo diferente do rapaz que ouvia as mensagens. Phil levou-o, usando o seu acesso de segurança. Apesar de efetivamente morar lá agora, Kevin não tinha nenhum. Aparentemente, eles podiam confiar nele o suficiente para receber sinais alienígenas, mas não para poder ir e vir conforme quisesse.
“Estamos a trabalhar na produção de plantas que podem sobreviver em ambientes extremos” disse Phil, apontando para uma sala cheia do que pareciam ser plantas de tomate. “Talvez se tudo isto levar a que a humanidade conheça alienígenas, lhes possamos oferecer uma boa planta para levar para casa.”
Kevin sorriu ao pensar nisso. “Os alienígenas estão mortos, lembra-se? Eles disseram que o planeta deles foi destruído.”
“Mas alguém deve ter enviado esse sinal” disse Phil. “Portanto eles devem ter sobrevivido para o fazer.”
“Talvez” disse Kevin, mas mesmo assim, ele não estava esperançoso. E se eles tivessem sobrevivido apenas o tempo suficiente para enviar as suas mensagens? E se eles tivessem vivido mais alguns anos, apenas para morrer em algum mundo distante? O contacto com os alienígenas parecia quase tão condenado a longo prazo quanto tudo o mais sobre a vida dele.
“E este elevador leva até ao bunker” disse Phil, apontando para um conjunto de portas.
“Um bunker?” Kevin perguntou. “Tipo, um bunker nuclear?”
“Nuclear, químico, biológico” disse Phil. “A ideia é ter um por perto no caso de haver algum tipo de guerra, ou ataque, ou algo assim. Há bunkers por todo o lado, e eles darão algumas chaves a algumas pessoas mais velhas para salvarem os 'melhores e mais brilhantes' se parecer que o mundo vai acabar.”
Ele não parecia particularmente feliz com a ideia. Talvez ele suspeitasse que ele não iria estar na lista.
“Então esses bunkers estão por todo o lado?” Kevin perguntou.
Phil assentiu e pegou no telefone. “Há um mapa completo deles” disse ele. “Embora o Professor Brewster não saiba que eu tenho isto.”
Ele mostrou a Kevin o mapa, coberto de pequenos pontos vermelhos. Havia um bem debaixo deles e outro escondido a leste, no parque estadual sob o Monte Diablo.
“Isto parece um lugar estranho para um bunker” disse Kevin.
“É porque está longe da cidade” respondeu Phil. “Isso significa que é mais provável que sobreviva a um ataque. Além disso, ninguém fala sobre isto, mas eles costumavam fazer testes militares lá.”
Parecia o tipo de segredo que Kevin não deveria saber, mas ele suspeitava que os alienígenas eram o tipo de segredo que ele não deveria saber naquele momento.
“Eu acho que eu não conseguiria chegar a um bunker de qualquer das formas” disse Kevin. Ele não pôde evitar uma nota de ressentimento ali.
“Ainda com raiva que o professor tenha decidido manter-te aqui em segredo?” Phil perguntou.
Kevin estava prestes a dizer não, dizer o que era suposto dizer, mas a verdade era que ele estava com raiva.
“Ele não pode simplesmente fazer isto” disse Kevin. “Os alienígenas estão a enviar uma mensagem para o mundo inteiro. Não deveriam todos ouvir isto?”
Phil encolheu os ombros. “O problema é que ele pode. Especialmente se os seus chefes quiserem manter qualquer coisa que tu faças para aplicações militares. Esta é uma instalação que se dedica a pesquisas confidenciais e tem muita segurança. Manter as pessoas fora é fácil. Manter os segredos dentro, porém...”
“O que é que quer dizer com isso?” Kevin perguntou.
O investigador gesticulou para que ele o seguisse, e levou-a até uma janela larga perto da entrada da frente do edifício, com vista para o terreno à frente da instalação de pesquisa. Para lá da cerca, onde ficava a parte pública das instalações da NASA, Kevin podia ver uma grande multidão de pessoas a olharem para o edifício. Vários deles tinham câmaras.
“Quem são eles?” Kevin perguntou.
“Alguém deve ter deixado escapar que estávamos a trabalhar em algo que tinha a ver com alienígenas” disse Phil, num tom que sugeria exatamente quem poderia ser esse alguém. “Provavelmente um cientista que decidiu que não se deveria manter as coisas assim tão silenciosas.”
“Ou você” Kevin sugeriu, porque ele nunca tinha realmente entendido quando os adultos tentavam dizer coisas sem realmente dizê-las, assim desta forma.
“Poderia ter sido a tua mãe” apontou Phil “e a Dra. Levin adoraria poder dizer ao público que a vida extraterrestre é real. Quero dizer, é literalmente o trabalho dela. Ou...”
“Mas não foram eles” disse Kevin. “Foi você, não foi?”
“Shh” disse Phil. “Queres que eu perda o meu emprego? Agora, ocorre-me que, se tu fosses lá e falasses com aquelas pessoas, o velho Brewster não seria capaz de te manter fechado. Eu só estou a falar hipoteticamente, tu entendes.”
Kevin olhou para as portas. Elas eram coisas sólidas, com uma fechadura que funcionava com cartão de segurança para o qual ele não tinha um cartão. Elas pareciam uma barreira impossível. Até o vidro ao lado delas era fortalecido.
“Eu não consigo sair” disse ele.
“Porque é que precisarias de sair de casa?” Phil respondeu, com uma expressão de choque fingido. “Eu só estou a falar hipoteticamente. Espero que entendas que se eu fizesse alguma coisa para te ajudar, Kevin, eu podia meter-me em sarilhos.”
“Eu... acho que entendo” disse Kevin, franzindo levemente a testa, porque não tinha muita certeza se entendia. A sério, porque é que as pessoas não diziam o que queriam dizer?
“Oh” disse Phil “acabei de me lembrar, eu deveria ajudar a arranjar um problema de segurança com as câmaras que estão à frente das portas.”
“Que problema de segurança?” Kevin perguntou franzindo a testa.
“Um que vai acontecer em cerca de dois minutos. Alguém vai decidir que seria uma boa ideia deixar um dos da Inteligência Artificial experimental jogar xadrez com eles. A propósito, podes fazer-me um favor, Kevin?”
Kevin olhou para ele. “O quê?”
Phil tirou o que se parecia muito com um cartão-chave. “O Professor Brewster deixou cair isto. Importas-te de lhe devolveres isto quando o vires? Tenho a certeza de que ele vai estar próximo para te exigir respostas em algum momento.”
Kevin agarrou nele. “Eu faço-o” disse ele. “E Phil... obrigado.”
“Pelo quê?” o investigador perguntou. “Eu não fiz nada. Na verdade, é bastante importante que te lembres dessa parte.”
“Eu vou lembrar-me” Kevin prometeu.
Quando Phil se afastou, Kevin obrigou-se a esperar, contando os segundos em voz baixa. Ele viu as luzes nas câmaras perto da porta escurecerem e rapidamente passou o cartão na porta.
Ele saiu do edifício, sentindo-se estranho ao ar livre pela primeira vez em dias. O ar na instalação era tão intocado, tão cuidadosamente filtrado, que parecia quase ar viciado ao pé disto. Também era estranho estar a andar assim, quando ele passara tanto tempo sentado ou deitado, a fazer nada para além de transmitir o conteúdo daquele fio de ouro de informação. Ele continuou a andar e depois correu, ouvindo um grito atrás de si. Ele olhou para trás e viu um segurança lá, sem saber o que fazer a seguir e a falar via rádio.
Kevin continuou a ir para a cerca, não tendo a certeza de quanto tempo mais teria.
O Professor Brewster estava agora algures atrás de si, gritando para ele voltar. Kevin sorriu. Isso apenas tornaria mais provável que as pessoas acreditassem no que ele ia fazer a seguir. Podia significar que as pessoas ouviam.
Ele correu até à cerca e parou, olhando para as pessoas que ali estavam, olhando para as câmaras. Algumas eram de estações de notícias locais. Pelo menos duas pareciam ser das nacionais. Perante tal, Kevin engoliu em seco nervoso. Ele não sabia o que dizer.
“Hum… olá, eu sou o Kevin. Vocês provavelmente já ouviram alguns dos rumores sobre o que está a acontecer aqui? Bem, eles são verdadeiros.”
CAPÍTULO NOVE
Kevin estava no gabinete do Professor Brewster, sentindo que o cientista iria adorar gritar com ele, se ao menos tivesse tempo suficiente. Ele certamente parecia zangado o suficiente para o fazer. Francamente, naquele momento, ele parecia estar com raiva suficiente para explodir. Ele não tinha tempo suficiente, porque estava ocupado demais atendendo telefonemas, tentando conversar com o Kevin e com a Dra. Levin no intervalos.
“Sim senhor. Sim, tenho a certeza que sim. Sim, é verdade que o rapaz parece... sim, sim, claro. Mas senhor, é o nosso projeto e... sim senhor, claro que estou ciente das implicações.” Ele desligou o telefone. “Era o diretor da NASA. Consegues entender o quão difícil, isto é, Kevin? O quão complicado isto está prestes a...”
Ele atendeu o telefone novamente quando este tocou.
“Estou? Quem? Não, lamento. Não. Não, não aceito que o rapaz seja levado para a custódia do FBI para sua própria segurança.”
Ele desligou o telefone.
“Isto é apenas o começo” disse ele. Ele olhou para Kevin. “Percebes, Kevin, que parte da razão pela qual eu queria manter isto em segredo era porque eu sabia como algumas pessoas reagiriam? Notícias de vida alienígena são muito importantes para este país, para o mundo. Eu queria proteger-te de todas as diferentes pessoas que gostariam de tentar controlar parte disso.”
Kevin olhava fixamente para o homem mais velho. Ele não achava que o Professor Brewster estivesse interessado em muito para além do sucesso do seu instituto. Era estranho pensar que ele pudesse estar a tentar olhar por ele. Os adultos, ele decidiu, eram demasiado complicados.
O telefone tocou novamente.
“A CIA? Mas nós estamos na América... sim, eu aceito que o espaço está além das fronteiras Americanas, mas…”
Enquanto eles estavam ocupados a discutir sobre isto, a Dra. Levin colocou a mão no seu ombro.
“E se te levarmos de volta para o teu quarto, Kevin?” ela sugeriu. “Tenho a certeza que eles vão estar a discutir ainda por algum tempo.”
Kevin assentiu e eles saíram. Ele não tinha a certeza se o Professor Brewster tinha notado, ele estava muito ocupado encaminhando chamadas. Por breves momentos, ele se perguntou o que aconteceria se ele simplesmente saísse da instalação novamente e continuasse a andar, não voltando. O cientista faria alguma coisa para o impedir? Ele conseguiria?
Um olhar pela janela sugeriu que tal não seria fácil. A multidão de repórteres já havia aumentado até parecerem uma horda deles querendo entrar, com a segurança no local insuficiente para os manter afastados. Aquela segurança parecia estar prestes a ser reforçada, porque os veículos militares estavam a circular, espalhando-se pelo perímetro da instalação, com homens armados a saltarem para fora.
“Tudo isto porque eu falei sobre alienígenas na televisão?” Kevin perguntou. Parecia muito, dado o número de pessoas que faziam isto.
“Tudo isto porque nós lhes provámos que havia alienígenas” a Dra. Levin corrigiu-o, e Kevin supôs que muito menos pessoas haviam feito isto. “Haverá muito mais.”
“Quantos mais?” Kevin perguntou. Ele não tinha a certeza se estava confortável com a ideia de estar cercado só porque dissera alguma coisa.
“Segue-me.” Ela levou-o até uma das salas de recreação. A televisão estava ligada, com cientistas a olharem para um dos canais de notícias.
“O rapaz, identificado como Kevin McKenzie de Walnut Creek, Califórnia, afirmou estar em contacto com uma fonte extraterrestre de informações e deu detalhes extensos sobre o sistema planetário Trappist 1, que muitos especialistas acreditavam ser...”
A Dra. Levin mudou o canal, e agora aparecia uma entrevista com um homem de olhos arregalados numa t-shirt suja por uma banda que Kevin não conhecia.
“É tudo mentira”, disse ele. “É uma distração. O governo quer que nós olhemos para isto, para que não olhemos para a verdade! É uma desculpa para que, quando começarem a drogar a água potável, tudo pareça normal!”
A Dra. Levin mudou o canal novamente. Agora, havia um pastor no ecrã a falar diante de uma grande congregação.
“Está claro que o que o rapaz está realmente a ouvir é a voz de Deus, preparando-nos para o Êxtase! Nós devemos ...”
Ela desligou a televisão, ignorando os protestos dos cientistas ao fazê-lo.
“Já chega” disse ela. “Vocês todos têm trabalho para fazer, e já é suficientemente complicado sem ouvir todas estas porcarias. Vocês sabem a verdade. Vocês já a viram. Voltem para o trabalho.”
Para surpresa de Kevin, eles fizeram-no, embora a Dra. Levin não fosse a chefe deles. Talvez eles estivessem apenas à procura de alguém que lhes dissesse o que fazer. Ele sabia que ele estava, naquele momento. Ele podia entender as mensagens dos alienígenas, mas ele não tinha a certeza se realmente entendia o que metade disso poderia significar.
“As coisas vão ficar complicadas” disse a Dra. Levin a Kevin. “Haverá pessoas a tentar agora deturpar o que tu dizes e a usar isso para os seus próprios fins.”
“Então o que é que eu faço?” Kevin perguntou.
Ela encolheu os ombros. “Continua simplesmente a dizer as coisas exatamente como as vês. Tu estás no centro de algo arrebatador, mas precisas de dizer a verdade, fazer o teu melhor com isso. É tudo o que qualquer um de nós pode esperar fazer agora.”
Kevin assentiu, mas duvidava que fosse assim tão fácil. Pelo menos uma das razões pelas quais não seria fácil era a mãe dele, e ela estava do outro lado da sala de recreação agora. Ele descobriu que estava com medo. O que ela diria? Ele sabia que ela tinha estado quase tão ansiosa para manter isto em segredo quanto o Professor Brewster, e ainda assim ele havia contado tudo às pessoas.
Ela correu para abraçá-lo. “Kevin, estás bem? Eu pensei que eles te levariam de volta para o teu quarto, e então eu fui ao gabinete do Professor Brewster e ele estava ao telefone com o Papa, e...”
“Eu estou bem, Mãe” assegurou Kevin. Naquele momento, ele teria dito aquilo, mesmo que não estivesse, apenas para tirar um pouco do olhar de preocupação do rosto da sua mãe.
“Há tantas pessoas lá fora agora” disse ela. “Kevin, estávamos apenas a tentar manter-te em segurança.”
Kevin abanou a cabeça. Era importante que as pessoas soubessem o que estava a acontecer. Não importava se ele estava em segurança. “Eu tinha que lhes dizer.”
“E agora eu acho que eles vão enlouquecer se ninguém lhes contar mais nada” disse a sua mãe.
A Dra. Levin inclinou a cabeça para um lado e depois olhou para a multidão que estava do outro lado do edifício. “A tua mãe tem razão, Kevin. Alguém precisa explicar tudo às pessoas.”
“O que é que está a pensar?” Kevin perguntou.
“Eu acho que precisamos de organizar uma conferência de imprensa.”
***
“Precisamos ter muito cuidado com isto” disse o Professor Brewster, enquanto ele, Kevin e a Dra. Levin entravam numa das salas de conferências do instituto. “Só estou a concordar com isto porque a alternativa é deixar as pessoas inventarem o que quiserem no lugar da verdade.”
Kevin supunha que ele também não gostava da ideia de as pessoas tentarem entrar no seu centro de pesquisa para saberem a verdade.
“Então, contamos a verdade” disse Kevin.
Para sua surpresa, ele viu o Professor Brewster abanar a cabeça. “Idealmente, Kevin, acho melhor dizeres o mínimo possível. Precisamos gerir as expectativas das pessoas sobre tudo isto e o que isto pode significar para elas.”
“Mas existem alienígenas” disse Kevin.
“E isto vai assustar muita gente” explicou o Professor Brewster. “Precisamos ter cuidado. Confia em mim, eu já estive envolvido em anunciar muitas descobertas científicas. É importante passar bem a mensagem com estas coisas para que as pessoas possam entender as possíveis implicações disto tudo.”
Ele foi à frente até uma pequena plataforma, onde alguns dos investigadores tinham montado uma pequena mesa. Kevin sentou-se no meio, flanqueado pelos dois adultos. À frente dele estava o que parecia ser um mar de pessoas, muitas delas com câmaras. Eles começaram a gritar perguntas assim que Kevin e os outros se sentaram.
“Professor Brewster, você encontrou mesmo evidências de vida alienígena?”
“Podemos esperar ser visitados por alienígenas no futuro próximo?”
“Isto tudo é algum tipo de piada?”
“Quem é o rapaz?”
Kevin fez o melhor que pôde para se limitar a ficar ali sentado, quando o Professor Brewster se inclinou para frente e começou a responder, parecendo ofensivo.
“Bem, essas são todas questões muito complexas” começou o diretor do instituto, e Kevin pôde ver como isto ia ser.
Aparentemente, também a Dra. Levin. “Sim” disse ela. “Existem alienígenas. Não, isto não é uma piada, e a maioria de vocês já conhece o Kevin. Pelo que vi nas notícias, metade de vocês já começou a vasculhar a sua vida. Na verdade, não adianta nada. Nós não estamos a tentar esconder nada. Para provar isto, vamos realizar conferências de imprensa regulares aqui, explicando o que descobrirmos.”
O Professor Brewster parecia como se tivesse engolido algo desagradável, mas as perguntas já estavam a voltar.
“Mas o rapaz, o Kevin, tem mesmo comunicações com uma civilização alienígena?” um repórter gritou. “Ele está a falar com eles?”
Quando a Dra. Levin olhou para ele, Kevin levantou-se, tentando não parecer tão nervoso quanto se sentia naquele momento.
“Eu não estou a falar com alienígenas” disse ele. “Eu tenho tido… algumas visões, eu acho… e eu consigo traduzir o sinal deles quando o ouço. É só isso.”
“Só isso?” um repórter perguntou, dando uma gargalhada “Parece muito. Será que vamos ouvir esses sinais?”
“Eu não tenho a certeza se alguém os iria entender” disse Kevin. Mas, e se alguém os entendesse? E se houvesse alguém lá fora como ele? Isso seria uma coisa boa ou má? Naquele momento, Kevin não sabia.
“Mas nós temos o Kevin para traduzir, não é?” outro repórter gritou. “O público não tem o direito de ouvir estas mensagens?”
“Têm” disse a Dra. Levin, e novamente, Kevin teve a impressão de que ela se tinha apressado a falar antes que o Professor Brewster pudesse dizer alguma coisa. “É por isto que vamos realizar conferências de imprensa regulares a partir de agora, onde Kevin tentará decifrar os sinais que registámos dessa região.”
O Professor Brewster levantou-se. Ele tinha um sorriso fixo na cara que parecia que poderia desmanchar-se a qualquer momento. “Ok, pessoal. Acho que não devemos cansar muito o Kevin. Já chega por um dia.”
***
Desta vez, o Professor Brewster teve tempo mais que suficiente para gritar.
“Emboscou-me, Elise!” o Professor Brewster disse. “Conferências de imprensa regulares?”
“Vá lá, David” disse a Dra. Levin. “Você sabe que é a coisa certa a fazer, e assim você consegue manter tudo em ordem, em vez de ter pessoas a tentarem entrar para obter informações. Você é um cientista. Você não acredita em esconder as coisas.”
“Eu também não acredito em ficarmos com o nosso financiamento cortado porque alguém no Congresso acha que estou a revelar algo que devemos segurar” disse o Professor Brewster, e Kevin podia ouvir alguma preocupação sob a raiva.
Kevin questionou-se em como deveria ser ter o trabalho do Professor Brewster. Presumivelmente, ele tinha querido ser um cientista quando tinha a idade de Kevin, tinha querido descobrir coisas. Agora, parecia que ele passava a maior parte do tempo a organizar coisas e a preocupar-se com dinheiro. Parecia o tipo de coisa que alguém tinha que fazer se fosse um gestor ou algo assim, não um cientista. Não era algo que Kevin gostasse de ter que fazer.
“Já as anunciámos agora” disse a Dra. Levin.
“Você anunciou-as” disse o Professor Brewster. “Ainda podemos...”
Ele foi interrompido por um telefonema, e algo na sua expressão ao atender dizia que este era diferente dos outros que recebera até agora sobre isto.
“Estou? Sim, é o próprio... desculpe, eu ouvi bem?... Sim, imediatamente. Ele parecia pálido quando desligou o telefone. “Precisamos ir para a entrada agora.”
“Porquê?” Kevin perguntou.
“Porque eles estão a dizer que o Presidente está aqui.”
Kevin poderia ter perguntado se ele estava a brincar, mas uma olhadela para o rosto do Professor Brewster tornou óbvio que ele não estava. O coração de Kevin ficou apertado no seu peito só de pensar nisso. O Presidente vinha ai para o ver? De alguma forma, até mesmo a presença dos alienígenas parecia mais possível do que isso. De repente, Kevin deu por si a questionar-se se tinha acabado de fazer o que era certo, ficando nervoso. Não parecia certo que ele se fosse encontrar com o Presidente.
Ele seguiu o Professor Brewster e a Dra. Levin até à entrada do instituto de investigação, tendo que se apressar para o conseguir acompanhar. Era óbvio que eles não queriam manter o Presidente à espera. Quando se aproximaram, Kevin olhou para fora das janelas do edifício, e viu um longo cortejo de automóveis com janelas escurecidas.
Quando eles chegaram à entrada, o Presidente já estava no edifício e não era o único. Agentes dos Serviços Secretos de fato escuro estavam espalhados como se esperassem uma ameaça a qualquer momento. Conselheiros e assistentes seguiam-no num amontoado, alguns deles parecendo um pouco surpreendidos por eles estarem ali. Kevin também viu outras pessoas, com distintivos a proclamarem que eles eram do exército, da NSA, do FBI e muito mais. Parecia que ninguém queria deixar de fazer parte disso.
O Presidente aproximou-se quando eles chegaram, agarrando na mão do Professor Brewster e depois voltando a sua atenção para Kevin. Kevin engoliu em seco nervosamente quando o homem mais velho olhou para ele.
“Então é este o rapaz?” O Presidente perguntou, olhando Kevin de cima a baixo como se esperasse muito mais.
“Sim, senhor” disse o Professor Brewster, soando positivamente deferente. “Este é o Kevin.”
“Kevin? Muito bem, Kevin, sabes quem eu sou?”
“É o presidente” disse Kevin. No seu interior, uma pequena voz repetia as palavras tu estás a falar com o Presidente várias vezes. Ele fez o melhor que conseguiu para ignorar isso, porque, se escutasse demasiado, ele suspeitava que talvez não conseguisse dizer nada.
“Muito bem rapaz. Agora, diz-me honestamente, consegues realmente falar com alienígenas?”
“Não senhor” disse Kevin.
“Eu sabia!” disse o Presidente. “Eu disse-lhe no comité de contingências de emergência que...”
“Eu não consigo falar com eles, mas recebo mensagens deles” prosseguiu Kevin. “Eles enviam informações sobre si mesmos e sobre o seu planeta, e eu consigo traduzi-lo.”
A expressão do Presidente mudou, como se ele não soubesse o que dizer sobre isso. O Kevin estava a habituar-se a essa expressão das pessoas agora.
“Bem, então” disse o Presidente, abanando um dedo. “Lembra-te que esta informação nos foi dada, na América. Era obviamente destinada a nós como a nação mais avançada na Terra.”
“Senhor” disse o Professor Brewster “o sinal atinge o mundo inteiro. Kevin é apenas aquele que é capaz de o traduzir. Também devias estar ciente de que concordamos em conferência de imprensa para que não possamos ser acusados de ocultar a informação.”
Kevin ficou surpreendido por encontrar o homem a tentar partilhar as informações daquela maneira. A tomar o partido dele assim. Um conselheiro aproximou-se do Presidente e sussurrou algo no seu ouvido.
“Bem” disse o Presidente “talvez isso seja uma coisa boa. Outros países irão ver-nos a partilhar isso e saberão que não o teriam conseguido sem nós.”
“Sim, senhor” disse o Professor Brewster.
“Mas agora, eu gostaria de ver uma demonstração. Kevin, podes mostrar-me o que consegues fazer?”
Kevin olhou para os outros, que assentiram. “Nós só o conseguimos se houver um sinal” disse ele.
Mas precisamente quando o disse, ele sentiu a pressão no seu crânio que precedia um. Um alarme soou e eles correram na direção da sala onde ele fazia a tradução, sentando-se e esperando. Kevin sentou-se ali, enquanto lá fora, o Presidente e os seus assessores permaneciam por perto, parecendo não saber o que estava a acontecer.
As palavras filtraram-se na sua mente, com a tradução a acontecer automaticamente.
O nosso mundo foi destruído. As palavras soaram frias, sem emoção. Nós tivemos que fugir. Muito poucos sobreviveram.
Kevin repetiu as palavras e pôde ver a expressão do Presidente a mudar, primeiro para surpresa e depois para algo parecido com maravilhado.
Nós escondemos tudo o que éramos, disse a voz, e Kevin repetiu, tanto de nós próprios quanto conseguimos antes dos disparos chegarem. As mensagens foram enviadas, para que as pessoas soubessem de nós. Enviámos cápsulas em todas as direções, em direção a todos os mundos habitados.
Kevin tentou imaginá-lo, naves espaciais enviadas em todas as direções, tentando encontrar segurança. Quanto esforço teria sido necessário para organizar isso? Como é que eles teriam sido capazes de organizá-lo com um desastre a ameaçá-los?
Cada nave detém um registo da nossa história, a voz continuou.
As coordenadas serão enviadas ao longo deste percurso, a voz disse, mas a vedação hidráulica da nave será apertada para nos preservar. Vocês devem encontrá-la. Vocês devem preparar-se para nos receberem...
Kevin ofegava com o esforço de traduzir, com o mundo ao redor dele focando-se novamente quando ele parou. Ele pôde ver o presidente a olhar para ele agora, e, depois, a olhar para o Professor Brewster.
“O que é que tudo isto significa?” ele perguntou. “O que me estás a dizer?”
Kevin sabia responder a essa pergunta.
“Eu acho que...” Kevin disse. “Eu acho que os alienígenas estão a chegar.”
O Presidente olhou para ele. E os outros também. Então o caos começou, com uma dúzia de pessoas a tentarem falar ao mesmo tempo. O Presidente falou por cima delas.
“Já chega” ele disse, gesticulando para eles se acalmarem. “Eu conheço todas as vossas preocupações. Professor Brewster, há aqueles na minha equipa que acham que Kevin não está seguro nas suas instalações; que ele é vulnerável a ser roubado ou atacado pelos nossos inimigos. Eles querem levá-lo para um lugar seguro.”
“Você quer dizer que me quer esconder em algum tipo de bunker” disse Kevin. Ele abanou a cabeça. “Eu não quero fazer isso.”
“Às vezes não é sobre o que nós queremos, filho” disse o Presidente. “É sobre o que é bom para o país”.
“Com todo o respeito, senhor Presidente” disse o Professor Brewster. “Os desejos de Kevin sobre o assunto devem contar para algo. Ele não cometeu um crime, pelo que seria errado, até mesmo ilegal, trancá-lo. Esta é uma instalação segura, e se os outros aqui quiserem contribuir para essa segurança, isto seria muito útil. Mas eles devem fazer isso aqui, onde há o conhecimento tecnológico para estudar o que está a acontecer.”
Kevin ficou surpreendido ao encontrar o Professor Brewster a defendê-lo daquela forma, mesmo sabendo que era em parte porque ele não queria arriscar perder a oportunidade de fazer parte de tudo isso. Pareceu que o Presidente também ficou um pouco surpreendido ao ouvir aquilo.
“Esse é um ponto muito... forte, professor” disse ele. “Muito bem, o rapaz vai ficar aqui. Vamos fornecer às suas instalações tudo o que precisa, mas você vai-se coordenar com o meu gabinete. Eu preciso que você entenda a seriedade disto.”
“Sim senhor” disse o Professor Brewster. “Obrigado, senhor Presidente.”
Kevin não tinha a certeza do que o professor acabara de aceitar. Soava como se ele tivesse acabado de prescindir de muito do controlo do projeto.
“Eu preciso que tu também entendas a seriedade disto, Kevin” disse o Presidente. “Eu pensava antes de vir até aqui que isto era um absurdo e agora não tenho tanta certeza.”
“É verdade” insistiu Kevin.
“A verdade é que isso não importa” disse o Presidente. “Não agora. Temos relatos de que a Rússia e a China estão a mobilizar os seus militares, realizando “exercícios” em caso de algum tipo de ataque. Houve tumultos nas Filipinas, porque as pessoas acham que isto significa o fim do mundo. Precisamos ter muito cuidado com tudo isto, Kevin. Vou permitir que as coisas continuem por enquanto, mas haverá pessoas aqui para observar o que está a acontecer.”
Isso não importava para Kevin. O que importava era que eles continuassem. Os alienígenas estavam a enviar algo para a Terra, e, o que quer que fosse, Kevin estava determinado a encontrá-lo.
CAPÍTULO DEZ
Kevin estava sentado no seu quarto, sem ouvir nada. Havia sinais, registados pelos cientistas através dos seus equipamentos de longo alcance, mas nenhum desses sinais se transformava em palavras dentro da sua mente. Nenhum deles parecia ter significado.
Kevin estava a começar a ficar preocupado com isto, e parecia que ele não era o único.
“Porque é que não estás a ouvir nada, Kevin?” o Professor Brewster perguntou. Ele e a Dra. Levin ficaram ali a observar, à espera pelo que viria a seguir.
Kevin não tinha uma resposta. “Não sei. Talvez não haja nada para ouvir.”
“Tens de tentar, Kevin” disse o Professor Brewster, com um olhar de desaprovação, como se a solução residisse simplesmente em fazer mais, ou superar a dificuldade de contacto.
“David” disse a Dra. Levin. “Não pressione o Kevin. Não consegue ver que ele está a ficar cada vez mais doente?”
Kevin sabia que essa parte era verdade. Ele tinha começado a notar um pequeno tremor agora na sua mão esquerda que parava se ele se concentrasse, mas rapidamente recomeçava sempre que ele ficava sob pressão. Isso significava a maior parte do tempo agora no instituto de investigação.
“Então, precisamos de lhe dar mais cuidados médicos” declarou o Professor Brewster. “Kevin, tens que entender. Eu tenho departamentos do governo dos quais eu mal ouvi falar a ligarem-me para saber o que está a acontecer. Eu tive um general a ligar-me mais cedo, querendo saber se havia alguma potencial aplicação militar para essa informação. Com o Presidente a querer saber o que está a acontecer, não é um bom momento para não conseguirmos dizer nada.”
“Eu não consigo traduzir as coisas se elas não aparecem” disse Kevin. O que é que eles queriam que ele fizesse? Inventasse coisas? Talvez eles ainda pensassem que ele estava a fazer isso, apesar de tudo. Kevin odiava esse pensamento.
“Talvez só precises de uma pausa” disse a Dra. Levin. “Vai dar um passeio pelo instituto, tenta relaxar um pouco e poderemos retomar mais tarde, quando já tiveres descansado um pouco.”
Kevin assentiu e saiu pelo instituto, decidindo procurar a sua mãe. Agora quando ela não estava no seu quarto, estava geralmente algures perto de onde Phil estava a trabalhar, ou no pequeno espaço que o centro de pesquisa lhe tinha dado para que ela pudesse ficar perto de Kevin. Kevin decidiu verificar aí primeiro e partiu pelos corredores.
Parecia haver mais pessoas no instituto de investigação agora do que antes. Kevin podia ver pessoas em uniformes militares e outras em fatos a usarem auscultadores de ouvido. Um trio a usar crachás da NSA parou quando Kevin passou, olhando para ele como se questionando-se como é que ele podia vaguear pelos corredores daquela maneira.
Uma das pessoas mais estranhas que havia ali era um homem que parecia ter quarenta e poucos anos, cabelos curtos e a postura ereta de alguns militares, apesar de estar a vestir um blusão de couro e jeans em vez de um uniforme, e claramente não se barbeava há uma semana.
“Estás a perguntar-te quem é que eu sou” disse ele, enquanto Kevin olhava para ele.
Kevin assentiu nervosamente. Ele suspeitava que algumas pessoas não reagiriam muito bem a serem encaradas assim.
“Tens bons instintos” disse ele. “O número de cientistas que passaram por mim sem se questionarem... com tantas pessoas a entrarem e a saírem, qualquer pessoa consegue entrar aqui se eles não tiverem cuidado.”
“Qualquer pessoa?” Kevin perguntou. “Quem é você?”
“Eu sou o Ted” disse ele, estendendo a mão. Um grupo de soldados passou e Ted acenou para eles. Para surpresa de Kevin, um deles saudou-o brevemente.
“Você está com os militares?” Kevin perguntou. “A CIA? A polícia?”
“Algo assim” disse Ted. Ele pensou por um momento. “Na verdade, nada disso, hoje em dia. E tu és o Kevin, o rapaz que consegue decifrar os sinais alienígenas.”
Ele era provavelmente a primeira pessoa que tinha acertado. A maioria parecia pensar que ele estava a receber uma transmissão ao vivo de uma civilização alienígena, ou poderia realmente conversar com eles. Essa parte fê-lo querer parar e falar com esse homem, mas mesmo assim, havia algo sobre a sua presença ali que Kevin não entendia. Ele não se encaixava ali.
“Sinto muito” disse Kevin. “Eu preciso de ir andando.”
“Tudo bem, Kevin” disse o homem. “Tenho a certeza de que nos veremos novamente.”
Kevin foi-se embora apressadamente. Ele praticamente conseguia sentir Ted a observá-lo enquanto ele ia. Ele encontrou a sua mãe no pequeno quarto que o instituto lhe fornecera para que ela pudesse ficar por perto.
“Kevin, estás bem?” ela perguntou. “Pareces um pouco pálido.”
“Estou bem” disse Kevin. “Mãe, está um homem lá fora, e eu não tenho a certeza...”
Ele cambaleou ligeiramente enquanto o quarto rodava. Num momento ele estava em pé; no seguinte, ele estava no chão, com pessoas ao seu redor. Kevin demorou um segundo ou dois a perceber que provavelmente tinha tido uma convulsão. Ali havia médicos e investigadores, e, claro a sua mãe, mas nenhum sinal do homem que estivera lá antes.
“Estou bem” disse Kevin, tentando sentar-se. Ele ainda se sentia tonto, porém, e apenas o braço da mãe ao redor dele o impediu de cair de novo.
“Tu não estás bem” disse ela. “Vamos, vamos levar-te de volta para o teu quarto, e depois eu vou perguntar ao Professor Brewster porque é que ele não está a tomar conta do meu bebé.”
“Mãe” Kevin conseguiu dizer, porque ele não era um bebé, ele tinha treze anos. Mesmo assim, ele deixou a sua mãe ajudá-lo de volta em direção ao seu quarto. Algures ao longo da linha, Phil juntou-se a eles, os dois mais ou menos sustentando Kevin entre eles até conseguirem levá-lo de volta para a sua cama.
“Eu vou descobrir porque é que eles não estão a cuidar da tua saúde melhor do que isto” a sua mãe disse, e ela partiu com o olhar determinado de alguém que precisava ficar com raiva de algo antes de começar a chorar.
“Eu acho que devíamos descobrir exatamente o que está a acontecer” disse Phil, quando ela saiu. “O que me dizes, Kevin? Estás pronto para mais alguns testes?”
“Mais testes?” Kevin ripostou.
Havia, porque Phil queria fazer uma ressonância magnética, e depois análises de sangue. Kevin só tinha percebido nas últimas duas semanas o quanto ele odiava ter agulhas enfiadas em si, porque parecia que todas as pessoas queriam o seu sangue para alguma coisa. Os investigadores e a equipa médica iam e vinham, todos explicando o que estavam a fazer durante o processo, quase nenhum deles usando palavras que Kevin conseguisse realmente entender.
“Fizemos avanços com medicação anti convulsões” disse uma das enfermeiras a Kevin “mas os médicos estão atualmente em discussões com todas as pessoas aqui, perguntando se é a melhor coisa.”
Isso significa que eles estavam preocupados que isso pudesse bloquear a sua capacidade de entender o sinal, sempre que este aparecesse. Kevin conseguia imaginá-los ali, tentando equacionar a possibilidade de perder a informação que os poderia levar até aos alienígenas contra a possibilidade de ele morrer e nunca mais lhes poder dar nada. Provavelmente, apenas alguns deles pensariam sobre o que tudo isto significava para si e, até agora, nenhum deles havia pensado em perguntar-lhe qual o tratamento que ele queria.
“É a melhor coisa?” Kevin perguntou.
A enfermeira encolheu os ombros. “Oficialmente, eu não deveria ter uma opinião sobre isso. Não oficialmente... eu ouvi dizer que alguns médicos estão a falar sobre usarem variações nas terapias genéticas desenvolvidas para pessoas com outras doenças, como a síndrome de Alexander.”
“Eu achava que não havia nada parecido que estivesse disponível para mim” disse Kevin, lembrando-se da consulta com o Dr. Markham e de todos os que se seguiram.
“Não tem havido, mas atualmente tu tens a maioria dos grandes cérebros do país ao teu lado. Se alguém conseguir adaptar algo à tua condição, são eles.”
E então Kevin iria dar por si a fazer um tratamento experimental que o poderia curar, não fazer nada ou piorar as coisas. Isso valeria o risco de perder completamente o sinal alienígena?
“Entretanto, porém, tens uma visita.”
Ela assentiu na direção da porta e a figura baixa entrou. Os olhos de Kevin arregalaram-se ao ver Luna, parecendo tão casual como se ela tivesse acabado de ligar para a casa dele para ver se ele queria ir andar de bicicleta até ao reservatório.
“Luna? Como é que chegaste aqui?”
“A minha mãe trouxe-me” disse Luna com um sorriso. “Porque a tua mãe pensou que tu gostarias de me ver.” Ela ergueu uma laranja, e, depois, atirou-a para ele. “Eu não tinha uvas.”
Kevin apanhou-a desajeitadamente enquanto Luna se empoleirava na beira da cama. A expressão dela passou de feliz por o ver a preocupada.
“O quão mau é que isto é?” ela perguntou, com a maior parte da sua alegria habitual a desaparecer da sua voz.
“Eu não sei” disse Kevin. Ele desviou o olhar por um momento. “Bem, eu acho que nós meio que sabemos.”
Luna colocou a mão no seu ombro. “Eles podem ter dito que tu vais morrer, mas eu recuso-me a deixar que tu morras já, Kevin. Eu ainda nem sequer me apaixonei loucamente por ti.”
Kevin riu-se. “Se eu tiver que esperar por isso, poderei viver para sempre.”
“Verdade” disse Luna, mas o seu sorriso não alcançou os seus olhos. Kevin podia ver o quanto a magoava ter que ser forte por ele, ter que ser alegre.
“Não faz mal chorar se quiseres” disse Kevin.
“Como se eu fosse chorar” disse Luna, embora parecesse que ela poderia por um momento.
Ela não chorou, mas abraçou-o com tanta força que Kevin achou que as suas costelas poder-se-iam partir. Ele ficou surpreendido por perceber o quanto ela cheirava bem.
“Senti a tua falta, sabes?” ela perguntou.
“Eu também senti a tua falta” assegurou-lhe Kevin. Ele tinha-lhe dito a ela que não fazia mal chorar, mas agora era ele que tinha lágrimas nos cantos dos olhos.
“Ei, eu não deveria estar a pôr-te triste” disse Luna. “Um dos militares no corredor provavelmente dispararia contra mim se eu o fizesse.”
Isso foi o suficiente para fazer Kevin se rir. Luna sempre tivera jeito para o fazer.
“Como é que está lá fora?” ele perguntou. “No mundo real? Como é que está na escola ou na televisão? Estou farto de tudo ser apenas sobre as coisas que consigo ver pelas pessoas.”
“Desculpa desapontar-te” disse Luna. “Mas há muito sobre ti na televisão. Há repórteres na tua casa agora e pessoas a falar se isto é real, ou uma farsa, ou uma campanha publicitária que se descontrolou. Há até mesmo um estranho culto alienígena que começou, com pessoas a usarem antenas enquanto andam por aí e alegando que os alienígenas vão nos salvar de tudo, desde o colapso ambiental até aos altos preços das mercearias.”
“Estás a inventar isso” Kevin supôs.
“Talvez a parte sobre as antenas” disse Luna. Ela olhou em volta. “Deve ser tranquilo estar aqui. É bastante sossegado.”
“Tem sido muito mais atarefado desde que as pessoas descobriram o que eu conseguia fazer” disse Kevin. “E eu passo a maior parte do meu tempo a ouvir os sinais, pelo que não é exatamente uma biblioteca.”
Luna esboçou o sorriso de alguém que geralmente não se calava nas bibliotecas, de qualquer maneira.
Não se manteve tão pacífico assim, porque o Professor Brewster, a Dra. Levin e a mãe de Kevin entraram juntos.
“Vocês estão a esforçar o Kevin demasiado” a mãe dele estava a dizer.
“Nós realmente não estamos a tentar fazê-lo, Rebecca” a Dra. Levin assegurou. “Nós não temos qualquer controlo sobre os sinais que recebemos, e o Kevin pode parar quando precisa.”
“E Kevin mal ouviu sinais hoje” disse o Professor Brewster. “Além disso, ele está a receber melhor tratamento aqui do que aconteceria em qualquer outro lugar do país.”
“Isso é... verdade” admitiu a sua mãe. Porém, ela parecia muito relutante em o fazer.
“Nós estamos a cuidar do seu filho” o diretor do instituto continuou. “E o Kevin está a fazer um trabalho importante aqui. Por falar nisso, Kevin, achas que consegues enfrentar as câmaras?
“Agora?” Kevin perguntou. Ele não tinha a certeza.
“Tem havido rumores de que não te estás a sentir bem hoje, e parece ser uma boa ideia mostrar às pessoas que estás bem” disse o Professor Brewster.
“Mesmo não estando?” Luna perguntou, ao lado de Kevin.
“Especialmente por causa disso” disse o Professor Brewster. “E, de qualquer maneira, as pessoas estão à espera para ouvir mais de Kevin. Kevin?”
“Não tens de o fazer” disse a sua mãe.
Kevin assentiu. “Pode ser. Estou a sentir-me muito melhor agora. Se isso ajudar, eu o farei.”
***
Kevin achava que estar perante pessoas devia ficar mais fácil. Ele não estava a fazer nada, afinal de contas, que ele não tivesse feito antes. Ele havia-lhes mostrado o que ele conseguia fazer nos portões da instalação e numa conferência de imprensa antes. Mesmo assim, ele estava nervoso com tantas pessoas a olharem para si.
“Vai correr tudo bem” disse Luna. Como é que ela parecia sempre perceber quando ele se estava a sentir mal? “E não podes desistir agora. Eu quero ver-te a fazer essas tuas coisas alienígenas.”
“Coisas alienígenas” Kevin repetiu. “Nós definitivamente precisamos de um nome melhor para isto do que isso.”
Mesmo assim, ele saiu para encarar a multidão. Havia mais pessoas aqui hoje, enchendo todos os cantos da sala de conferências onde Kevin estaria prestes a atuar. Havia repórteres, obviamente, cientistas, pessoas do governo...
... e Ted, a olhar fixamente para ele da multidão.
“Aquele indivíduo está aqui” disse Kevin.
“Que indivíduo?” Luna perguntou.
“Eu encontrei-o nos corredores enquanto estava à procura da minha mãe, e ele simplesmente parecia… eu não sei, fora do lugar. Ele meio que parecia como se pudesse ter sido um dos soldados, mas ele disse que já não era. Eu nem sei se ele deveria estar aqui.”
“Achas que ele é algum louco?” a Luna perguntou. “Achas que ele está aqui para matar as pessoas?”
“Eu não achava até tu o dizeres” disse Kevin. Agora que ela o tinha dito, Kevin pôs os olhos em cima do local onde Ted estava. Ele questionou-se se deveria dizer a alguém sobre ele.
“Chegou a hora de fazeres as tuas coisas, Kevin” disse o Professor Brewster, empurrando-o para o centro da plataforma que eles tinham montado. “Olá a todos, como podem ver, o Kevin está bem, e alguns dos rumores que circulam por aí são muito exagerados.”
“Que rumores?” Kevin perguntou-lhe e depois pôs os olhos em cima de Ted novamente. “Professor Brewster, há um homem...”
O Professor Brewster ignorou-o. “O Kevin está bastante cansado hoje, portanto não vamos demorar muito. Kevin?”
Kevin deu um passo à frente e colocou os seus auscultadores de ouvido, imaginando que provavelmente era melhor seguir em frente com isto. O problema era que ainda havia silêncio, nada de novo para traduzir, nenhum sinal a chegar. Ele ficou ali parado em silêncio por vários segundos, sentindo-se cada vez mais envergonhado. Pior, ele não conseguia tirar os olhos de Ted, convencido de que no momento em que o fizesse, o homem faria alguma coisa.
Foi quando um homem completamente diferente, na frente do salão, começou a gritar. “Tu és maldito!” ele gritou. “Vais fazer com que os alienígenas nos ataquem a todos!”
Ele correu para frente e, embora tivesse uma credencial de imprensa, e estivesse vestido elegantemente de fato, havia algo selvagem nos seus olhos. Ele avançou para o palco, e Kevin viu-o a empurrar Luna para fora do caminho, atirando-a para o chão.
“Luna!” Kevin gritou, mas não havia tempo para a ajudar, porque o homem ainda estava a ir na sua direção, e agora Kevin pôde ver que ele tinha uma faca. Ele agarrou Kevin, e, no momento seguinte, o homem estava atrás dele, com a lâmina pressionada na garganta de Kevin.
“Tu estás a tentar trazê-los aqui. Tu estás a tentar deixar que eles nos destruam a todos. Eu tenho que te impedir, independentemente do que for preciso.”
Kevin nunca estivera tão assustado antes, mas a parte mais estranha era que a maior parte daquele medo não era por si. Luna ainda estava estendida imóvel onde o homem a havia derrubado, e agora Kevin questionava-se se ele a poderia ter esfaqueado, só porque ela estava no caminho.
“Calma aí, amigo.”
Enquanto Kevin tinha estado a olhar para onde Luna estava, Ted, de todas as pessoas, subiu ao palco, e ele tinha uma arma habilmente em ambas as mãos.
“Se você colocar a arma no chão, podemos conversar sobre isto” disse ele.
O homem por trás de Kevin não moveu a faca da sua garganta. “Está a falar, esse é o problema. Ele está a falar com eles. Ele está a trazê-los para aqui para nos matarem! Não, não avance!”
Ele pontuou esse comando apontando a faca para Ted que avançava. Com a faca afastada da sua garganta por um momento, Kevin fez a única coisa que de que se conseguiu lembrar e deixou-se cair no chão.
Dois tiros soaram, tão altos que pareciam ensurdecedores. Kevin ouviu algo metálico a bater no palco, e algo suave se seguiu logo a seguir. Um instante depois, Ted estava lá, colocando-o de pé.
“Não olhes ao redor. Há coisas que uma criança não deveria ter que ver. Corre para os outros.”
Kevin queria fazer tudo isso. Ele queria fugir e ver se Luna estava bem. Ele queria correr para a sua mãe, que estava agora a abrir caminho no meio do caos. Ele queria fazer tudo isso, mas não podia por uma simples razão.
“Está a chegar um sinal!” ele disse.
CAPÍTULO ONZE
Kevin pôde sentir a mensagem seguinte a chegar, com o sinal a começar nos seus auscultadores de ouvido, o início de uma tradução a subir por si acima. Isto estava a acontecer agora, quer ele quisesse ou não.
“Eu acho que não temos muito tempo” disse ele. “Eu consigo sentir os sinais a chegarem.”
As pessoas já se estavam a aglomerar em torno dele. A sua mãe estava lá, envolvendo os seus braços ao redor dele como se ela conseguisse protegê-lo de qualquer coisa que acontecesse. A Dra. Levin e o Professor Brewster estavam lá, ambos parecendo preocupados. Para alívio de Kevin, Luna estava de pé novamente. Ela não havia sido esfaqueada. Kevin correu para ela, abraçando-a.
“Estás bem?” ele perguntou.
“Isto depende” disse ela. “Quantos de ti estão aí?”
Kevin abanou a cabeça. “Não brinques, eu estava preocupado contigo.”
“Tu estavas preocupado comigo? Não era eu que tinha uma faca na garganta.”
Ao longo de tudo aquilo, é claro, as câmaras continuavam a rodar. Não iam parar no meio de algo tão dramático.
O Professor Brewster estava ali, parecendo que estava com medo que Kevin pudesse não aguentar. Ou talvez fosse apenas porque ele estava a olhar para o homem morto atrás de Kevin, a quem ele não se atreveu a virar a cara para cima.
“O que se passa?” ele quis saber. “Porque é que não estamos a tirar o Kevin daqui?”
“Ele diz que há outra mensagem a chegar” explicou Ted.
Kevin não sabia como explicar isto mais claramente do que isto.
“Bem, suspende-o até te pormos em segurança” disse o Professor Brewster, mas certamente ele tinha que saber que já não funcionava assim.
Kevin rangeu os dentes. “Eu não consigo controlar quando a mensagem chega. Eu apenas a recebo e traduzo.”
“Porque... porque é que é um problema se receberes a mensagem aqui?” Luna perguntou. Ela parecia instável, o que era compreensível, considerando tudo o que os dois tinham acabado de passar. Mesmo assim, era ela quem fazia as perguntas certas, não o professor.
“Porque serão as coordenadas para as cápsulas de fuga” disse Kevin. “Estou certo disso. O que mais poderia ser?”
“Tu lembravas-te dos números do sistema antes” Luna apontou. “Tu conseguias lembrar-te disto.”
“E se for uma longa lista?” Kevin ripostou. “E se me escapar alguma?”
Luna apontou para as câmaras e Kevin percebeu que ela tinha razão. Tudo o que ele tinha que fazer era falar, e tudo o que ele dizia seria gravado por tantas câmaras que ele nem sabia quantas. Estaria pelo mundo inteiro num instante.
Ele foi até eles e, ao fazê-lo, o sinal atingiu-o.
As séries de números pareciam não acabar. Não era de admirar que os seres que as enviavam tivessem dado a Kevin um aviso de que elas viriam. Eles queriam dar-lhe uma hipótese de se preparar para gravar os números de alguma forma, para que as informações não fossem perdidas. Cada vez que Kevin terminava de repetir uma série de números, uma nova série de dígitos e símbolos começava, mal lhe dando tempo suficiente para respirar. Ele estava a traduzir à medida que recebia as mensagens, tremendo com o esforço, ou talvez apenas com os efeitos posteriores de tudo o que ele tinha passado nos últimos minutos.
Ele recitou os números e as letras numa longa, quase interminável sequência, mas a verdade era que, pela primeira vez desde que Luna o tinha ajudado a resolver a conexão com o sistema Trappist, ele não sabia exatamente o que isto significava.
Finalmente, o fluxo de números parou e Kevin ficou parado, tentando recuperar o fôlego.
“É tudo?” Luna perguntou. “Kevin, estás bem?”
Kevin conseguiu acenar com a cabeça, embora até isso fosse um esforço naquele momento. Ele não tinha a certeza para qual das perguntas ele estava a acenar.
A Dra. Levin estava ali naquele momento, colocando um braço ao redor de cada um deles.
“Ok” disse a Dra. Levin “vamos levar vocês de volta para dentro. Depois de tudo o que aconteceu, o meu palpite é que muitas pessoas vão querer conversar com vocês os dois, mas quero que vocês saiam daqui primeiro e se certifiquem de que estão bem. Eu não gosto do quão perto vocês os dois estiveram de serem feridos lá atrás.”
Quando se viraram para ir e saíram daquele silêncio atordoado em que tinham sido apanhados, Kevin conseguiu ouvir os gritos da multidão reunida.
“Kevin, quando é que os alienígenas vêm ter connosco?” um homem gritou.
“Kevin, o que é que a vida significa?”
“Quando é que vais admitir que isto é uma farsa?”
“Estás ferido?”
Havia tantas perguntas diferentes a serem gritadas ao mesmo tempo que, por um momento ou dois, Kevin queria apenas ir-se embora e deixá-los ali. Mas ele não o fez, no entanto. Ele sentiu como se tivesse que dizer algo, e desta vez não tinha nada a ver com as pressões dos sinais alienígenas.
“Eu sei que muitos de vocês querem que eu vos dê respostas, mas a verdade é que eu não tenho muitas” disse Kevin. “Eu sou apenas uma criança. Eu não tenho nenhum entendimento especial. Eu nem sei porque é que sou eu quem recebe as mensagens que os alienígenas estão a enviar.”
“O que aconteceu hoje?” um repórter perguntou. “Porquê todos esses números? Do que se trata?”
Kevin inclinou a cabeça, tentando descobrir o quanto ele podia dizer. Então ele percebeu que era provavelmente a maneira errada de pensar sobre isto. Não compreender isto tinha causado isto. Alguém tinha tentado matá-lo hoje, porque eles não entenderam a informação que ele tinha. Porque, dado o espaço para o fazer, eles tiraram a conclusão errada.
“Alguém tentou-me matar hoje” ele disse “porque eles acham que a informação que estou a receber é perigosa o suficiente para valer a pena matar.”
“E é?” alguém gritou.
Kevin abanou a cabeça. “Saber que há uma civilização alienígena lá fora, que havia uma, é incrível, mas não vale a pena matar pessoas por causa disso, e eu não quero que mais ninguém fique em perigo por mim. “Ele quase parou ao lembrar-se de Luna a ser derrubada para o lado e do som da arma de Ted quando ele disparou. “Eu não importo. O que importa é que o mundo dos alienígenas estava a morrer, e eles enviaram... eu acho que podemos chamá-las de cápsulas do tempo. E sabemos para onde essas estão a ir agora.”
Ele também sabia para onde estava a ir agora, porque a sua mãe estava a afastar Kevin da plataforma para o instituto.
***
“Se o meu filho vai ser atacado, então eu não quero que ele fique aqui!” a mãe de Kevin disse enquanto ela e o Professor Brewster discutiam.
Kevin estava a vê-los a partir da beira da sua cama. Ele estremeceu quando uma das equipas médicas do instituto desinfetou um pequeno corte que a faca lhe tinha feito. Ao lado dele, Luna tinha um curativo envolto em torno de sua cabeça, enquanto Ted estava ali, parecendo estar meio à espera de outro ataque.
“Eu entendo a sua preocupação” disse o Professor Brewster, e até mesmo Kevin sabia que isso era a coisa errada a dizer a sua mãe naquele momento.
“Você entende como é ver o seu filho a ser atacado porque ele está envolvido em algo louco?” a mãe de Kevin exigiu saber. “Ao menos você tem filhos?”
“Bem, não, mas...”
“Quem é você?” Kevin perguntou a Ted, ignorando a discussão entre a mãe e o professor naquele momento.
“Oh, eu sou apenas alguém que ajuda onde consegue” disse Ted.
“Isso não é uma resposta” disse Luna.
Ele pareceu pensar por um momento ou dois, depois encolheu os ombros. “Eu acho que não pode doer. Desculpem, eu tenho o hábito de não dizer nada. Eu costumava estar no exército. Forças Especiais. Depois eu fui emprestado para a CIA por um tempo, então... bem, então eu tentei me aposentar, mas eu recebi um telefonema quando tudo isto começou, e eu não podia propriamente recusar.”
“Você disse antes que o Presidente ligou para si” disse Kevin. “Ele não faria isto se você fosse uma pessoa qualquer.”
“Bem, talvez eu já tenha visto algumas coisas no meu tempo” disse Ted. Ele olhou para onde o Professor Brewster e a mãe de Kevin ainda estavam a discutir. “Pelo que ouvi, ele encontrou-se contigo por causa disto. Isso só te torna mais especial do que eu. Vocês os dois querem vir ver como os intelectuais se estão a dar com os números que tu tiraste do ar?”
Kevin assentiu e, juntos, os três partiram pela instalação. Kevin sentia-se um pouco mais forte agora, a maior parte da fraqueza que ele sentia, obviamente, causada pela combinação de receber a mensagem e do stress do ataque. Ele também se sentia estranhamente vazio, e ele demorou algum momento a perceber o porquê:
Pela primeira vez desde que isto tinha começado, não havia nenhum sinal dos alienígenas.
Não havia nenhuma contagem decrescente a pulsar na sua cabeça. Não havia sinal iminente do qual ele deveria estar à espera. Não havia mensagens. Tudo ficou em silêncio. Deveria ter parecido calmo, mas pela primeira vez desde que chegara lá, Kevin sentia-se... inútil, como se não tivesse nada para fazer.
Ele era o único que se sentia assim. As pessoas por quem eles passavam estavam ocupadas, e todas pareciam estar a trabalhar no problema das coordenadas. Os laboratórios que eram usados para outras coisas estavam vazios e, em vez disso, os cientistas estavam reunidos em salas de conferência, trabalhando em sequências de números de uma centena de maneiras diferentes. Algumas pessoas da NSA também pareciam estar envolvidas.
Kevin achava que poderia haver um problema com a segurança quando se aproximaram do espaço que abrigava os supercomputadores, mas Ted passava por tudo, soldados e agentes do FBI assentindo para ele enquanto ele passava e deixando os três passarem.
“Uau” disse Luna quando eles chegaram ao recinto dos supercomputadores. “Imaginem os jogos que poderiam jogar com eles.”
Kevin duvidava que eles fossem muito úteis para isto, mas quando se tratava de dissecar sequências de números, parecia que eles eram muito bons. O SAM estava a cuspir possibilidades usando os sinais, enquanto metade das outras máquinas também havia sido acionada, e os cientistas corriam entre elas, gritando os resultados.
“É outra falha” um gritou. “Eu acho que esta bate algures nas Plêiades.”
Kevin ouviu um gemido de frustração dos outros cientistas ali.
“Eles estão a tentar restringir a pesquisa” explicou Ted.
A Dra. Levin estava lá e, para surpresa de Kevin, as pessoas pareciam estar a ouvi-la. Talvez o fato de que definitivamente havia alienígenas tornasse mais fácil receber ordens da diretora do SETI.
“O problema é demasiada informação” disse ela. “Deste-nos tantas possibilidade, Kevin, que não podemos trabalhar com tudo isto, mesmo com o nosso poder de computação.”
“Já tentaram a Internet?” Kevin perguntou.
“Acho que isto não é o tipo de coisa que encontraríamos na Internet” disse o Professor Brewster, aproximando-se deles. “Nós temos aqui alguns dos computadores mais sofisticados do mundo.”
Kevin abanou a cabeça. “Talvez conseguíssemos. Quando eu traduzi, dei aos repórteres a informação, certo? Então, as pessoas de todo o mundo devem ter estado a olhar para isto? Você disse que o problema era ter pessoas suficientes para o fazer. Bem, isto não significa que você tem o mundo inteiro a ajudar?
“O rapaz tem razão” disse Ted. “Já verificou?”
“Bem... não” admitiu o Professor Brewster.
A Dra. Levin encolheu os ombros. “Talvez valha a pena tentar. O SETI já usou emprestado muitas vezes o poder de computação das pessoas ao redor do mundo.”
“Faça-o” disse Ted.
A Dra. Levin saiu por alguns instantes. Ela voltou com um tablet e um olhar levemente chocado.
“Eu... eu não acredito” ela disse, e começou a escrever nele. “Esperem, eu vou fazê-lo aparecer num ecrã maior.”
Ela tocou em alguns pontos no tablet, e um ecrã de computador na frente deles ligou-se, grande o suficiente para que toda a sala o conseguisse ver. As coordenadas apareceram no ecrã, juntamente com as palavras “Nave alienígena vai atingir a Terra!” O site parecia ser anónimo, mas não havia dúvidas sobre o que estava a dizer.
“Se tirarmos este conjunto de coordenadas” disse a Dra. Levin “bem, vejam.”
Um mapa do mundo apareceu no ecrã, ao princípio tão amplo que Kevin não conseguiu descobrir onde o local do acidente deveria ser. Virou-se, aproximando-se da América do Sul e continuou. Aproximou-se de um país, depois de uma região, e, depois, do que parecia ser um pedaço de selva com apenas alguns quilómetros de diâmetro.
“A floresta tropical Colombiana” disse Ted, olhando para ela.
“Temos a certeza sobre isto?” o Professor Brewster perguntou.
“Vamos verificar, é claro” disse a Dra. Levin “mas à primeira vista... sim, parece correto. O que é surpreendente à sua maneira. A ideia de que uma civilização poderia prever onde a sua nave iria aterrar exatamente a tal distância é... quase impossível de acreditar.”
“Bem, acho que precisamos de começar a acreditar nisso.” Ted pôs a mão no ombro de Kevin. “Se estiveres certo sobre tudo isto, os nossos amigos alienígenas estão a enviar a sua carga para a Colômbia.”
“E isso é uma coisa má?” Kevin perguntou.
Ted encolheu os ombros. “Não sei. Pode tornar as coisas complicadas. Estou mais preocupado com quantas pessoas já viram isto. Dra. Levin?”
“Não há como saber” disse a diretora do SETI. “Eu diria que se nós o encontramos, muitas outras pessoas tê-lo-ão também.”
“O que significa que metade do mundo estará lá” disse Ted. “O que me dizes se formos até lá para nos encontrarmos, Kevin?”
“Encontrarmos quem?” a mãe de Kevin perguntou, entrando no recinto dos computadores. “O que está a acontecer?”
Kevin tentou pensar na melhor maneira de o dizer. “Mãe, hum... posso ir à Colômbia?”
CAPÍTULO DOZE
“Não precisas de vir, Mãe” disse Kevin enquanto lhes acenavam, a eles e aos outros, através da segurança no aeroporto de São Francisco. Ela estava apenas a um passo dele, como se temesse perdê-lo no caos do aeroporto se se deslocasse mais um pouco. Ted também estava perto, embora Kevin suspeitasse que fosse por motivos diferentes.
“É claro que preciso ir” disse a sua mãe, arrastando uma pequena mala que dava a impressão de que ela tinha feito as malas para as férias. “Num momento as pessoas estão a tentar matar-te, e no seguinte, tu estás a voar para o meio de uma selva? Achas que eu vou deixar que tu o faças sozinho?”
“Eu não estaria sozinho, Mãe” destacou Kevin. De qualquer forma, parecia que todo o instituto estava a ir para a Colômbia, empacotando-se a bordo não de um, mas de dois aviões fretados, e levando consigo uma série de equipamentos destinados a procurar a cápsula de fuga.
“Ainda assim eu vou” a sua mãe disse, e Kevin sabia que não devia discutir com esse tom.
Uma pessoa que não ia era Luna, e Kevin percebeu que já estava a sentir a falta dela ali. Ela tinha ido para casa, porque os seus pais aparentemente tinham visões mais rígidas sobre ela voar para a América do Sul em busca de alienígenas.
O Professor Brewster estava à frente, ordenando os cientistas, os soldados, os agentes e os repórteres ocasionais enquanto eles subiam para o avião.
“Estás pronto, Kevin?” ele perguntou. “Temos um longo voo à nossa frente.”
Kevin assentiu. “Eu não consigo acreditar que estamos a fazer isto.”
“Nós quase que não estamos” disse o Professor Brewster. “Muitas pessoas estão a ter que puxar os cordelinhos para que nos deixem voar para a Colômbia por causa disto. Agora, despacha-te e entra a bordo.”
Kevin entrou no avião e encontrou um assento de onde podia olhar pela janela. A sua mãe sentou-se ao lado dele, enquanto Ted sentou-se no lugar à frente dele.
“É um longo caminho até à Colômbia” disse Ted. “Faz algum tempo.”
“Já lá estiveste?” Kevin perguntou.
“Oficialmente?” ele disse com um leve sorriso. “Nunca lá estive em toda a minha vida.”
“E não oficialmente?” Kevin perguntou.
“Ah, foi muito não oficialmente a última vez que lá estive” respondeu Ted. “Porém, as coisas estão um pouco mais tranquilas lá agora. Ainda há alguns cartéis, mas sem a guerra civil, o governo pode prestar um pouco mais de atenção a eles.”
“Parece fantástico” disse Kevin.
A sua mãe não concordou. “Parece um lugar perigoso para onde levar o meu filho.”
“Tenho a certeza de que vai correr tudo bem” disse Ted. Kevin ouviu as portas do avião a fecharem-se depois das últimas pessoas entrarem a bordo. “Além disso, agora é tarde demais para voltar para trás. Daqui a nove horas estaremos em Bogotá.”
Nove horas. Como é que se passavam nove horas confinado num espaço ínfimo com um grupo de cientistas? A Kevin parecia-lhe que praticamente todos estavam a ter que encontrar a resposta para essa pergunta. Alguns jogavam jogos nos telemóveis, outros liam ou assistiam a filmes. A mãe de Kevin estava praticamente sempre a dormir. Kevin alternadamente olhava pela janela tentando descansar um pouco e ocasionalmente colocava os auscultadores de ouvido com o fluxo de sinal, não se fosse dar o caso de haver algo para ouvir. Não havia.
“Eu nem sei se isto vai funcionar tão longe do instituto de investigação” disse Kevin, depois de o ter feito por três vezes.
“Perguntei aos cientistas isso antes de sairmos” disse Ted. “Eles configuraram-no para que o sinal de base fosse transmitido pela Internet. Em qualquer lugar onde haja uma ligação, podes aceder ao sinal.”
Kevin supôs que não deveria ter ficado surpreendido com isso. É claro que eles iriam querer ter a certeza de que ele conseguia ouvir, independentemente do que acontecesse. Eles não iriam querer arriscar perder uma mensagem importante. Mesmo assim, a ideia de poder ouvir de qualquer lugar do mundo parecia impressionante.
Kevin passou algum tempo a olhar para os lugares por onde passavam. Ele nem nunca sequer tinha saído do estado antes, mas aqui estava ele a voar sobre desertos e densas florestas tropicais, cidades e trechos do oceano. Ele pensou sobre as pessoas lá em baixo. Elas sabiam sobre a cápsula de fuga? O que é que eles pensavam sobre a possibilidade de realmente se encontrar vida alienígena?
Ele conseguiu parte de uma resposta quando eles aterraram em Bogotá. Ele imediatamente viu uma dúzia de grupos semelhantes, todos carregando equipamentos que pareciam suspeitosamente semelhantes aos equipamentos que eles traziam consigo.
“Parece que não fomos os únicos a descobrir onde essas coordenadas levavam” disse Ted, enquanto olhava para todos eles. Ele parecia bastante calmo, mas o Professor Brewster não estava nada calmo.
“Isto é simplesmente inaceitável” disse o cientista. “Os Suíços estão aqui, e aquele parece um grupo do setor privado da tecnologia, e esses são do Canadá. Depois de todo o esforço que fizemos para descobrir essa informação, não posso acreditar que eles estejam a planear arrebatar a cápsula debaixo do nosso nariz.”
Kevin queria dizer que eles não sabiam ao certo se os outros grupos estavam ali para isso, mas ele não conseguia pensar noutra razão para eles estarem ali. Ele não tinha a certeza de como se sentia sobre a presença deles.
Por um lado, ele queria acreditar que a mensagem dos alienígenas se destinava a toda a humanidade e que deveria ser partilhada. Ele estava feliz por ter tido de gritar as coordenadas para as câmaras de notícias ou por ter arriscado perdê-las por esse motivo. Ao mesmo tempo, o Professor Brewster estava certo: Kevin foi quem conseguiu traduzir o sinal alienígena, não os outros, e ele queria pelo menos ver a cápsula de fuga agora que ele tinha.
“Nós vamos ter que ser os primeiros a fazê-lo” disse o Professor Brewster, embora Kevin suspeitasse que seria mais fácil falar do que fazer. Ele não conseguia ver como é que eles iriam atravessar o aeroporto mais rápido do que os outros, ou chegar à selva mais rápido, ou até procurar mais rápido.
Eles tentaram, no entanto. Kevin ter-se-ia rido ao ver uma dúzia de cientistas a correrem de uma forma estranha pelo aeroporto de Bogotá, mas ele tinha que os acompanhar a todos, tentando encontrar espaços na confusão de pessoas e certificando-se de que não perdia a sua mãe de vista ao mesmo tempo.
“Por aqui!” o Professor Brewster gritou, levando-os por um caminho em direção ao que parecia ser um balcão de aluguer de carros. “Olá, nós precisamos de alugar... vamos ver, provavelmente, uma dúzia de veículos todo-o-terreno e um pequeno camião.”
“Sinto muito” a mulher ao balcão disse. “Como eu disse ao último cavalheiro que pedir isso, simplesmente não é algo que tenhamos aqui no aeroporto. A maioria das pessoas... bem, elas não precisam disso para as suas férias, entende?”
“Isto não são férias” declarou o Professor Brewster. “Esta é uma expedição científica da maior importância!”
“Mesmo assim.”
A Dra. Levin entrou em cena. “Vá lá, David, você sabe que vamos precisar de descansar primeiro, e depois podemos trabalhar na expedição depois disso.”
“E enquanto isto, os Canadenses passarão à nossa frente!” ele reclamou. “Como é que eles chegaram aqui tão rápido?”
Não parecia haver uma resposta para isso, mas Kevin deu por si a ser arrastado enquanto saíam do aeroporto para o local onde a embaixada americana os esperava, parecendo um grande bloco cinzento no meio de Bogotá.
O embaixador estava à espera por eles lá dentro. Ele deu um aperto de mão ao Professor Brewster e, depois, a Kevin, muito para sua surpresa.
“Recebi um telefonema do Presidente a dizer que vocês estavam a vir, há cerca de duas. Vai ser um pouco apertado com tantos de vocês aqui, mas eu mandei preparar quartos para todos vocês, e estou a trabalhar para organizar o transporte da vossa equipa para a floresta tropical. Deviam estar cientes de que o governo Colombiano não está totalmente satisfeito com isto, mas estamos a trabalhar para vos facilitar o caminho.”
Não parecia bom que o governo do país onde eles estavam a procurar não gostasse que eles estivessem ali. A essa altura, Kevin estava demasiado cansado para se preocupar com isso. Adormeceu quase imediatamente após o pessoal da embaixada o levar até um quarto e não acordou de novo até ouvir a voz do Professor Brewster a gritar do lado de fora.
“Venham todos! A embaixada conseguiu arranjar-nos transporte, e precisamos estar prontos para ir antes que todos nos tirem o prémio!”
Kevin deu o seu melhor para se despachar. Mesmo assim, quando lá chegou, a maioria dos outros já estava pronta. O Professor Brewster adquirira uma camisa caqui e calças que o faziam parecer como alguém poderia pensar que um explorador se pareceria se pelo menos tivesse visto fotos deles. A sua mãe estava a usar as suas roupas normais, complementadas por um amplo chapéu de sol. O Ted apenas parecia o Ted.
“Depressa” disse o Professor Brewster, batendo palmas. “Depressa.” Não podemos permitir que mais ninguém se adiante a nós.”
Ele saiu apressado, tentando tirar todos do hotel.
“Será que toda a gente já está na cápsula?” Kevin perguntou a Ted. O Professor Brewster poderia estar encarregado da expedição, mas Ted era quem sabia o que estava a fazer. Metade das pessoas ali já pareciam recorrer a ele para saberem o que fazer.
O ex-soldado abanou a cabeça. “Duvido. A floresta tropical à noite é complicada. É fácil perdermo-nos, mesmo sem a vida selvagem. O movimento sensato era ter ficado por aqui durante a noite que passou e partir esta manhã.”
Kevin achava que era também o movimento que todos haviam feito, pelo menos se os hotéis tivessem chegado para todos. Deve haver pessoas de todo o mundo a tentarem encontrar a cápsula de fuga, e tudo por causa dos números que ele tinha conseguido traduzir.
“Bem, rapaz” disse Ted. “Trouxeste-nos até aqui. Eu acho que está na hora de descobrir o que está no final de tudo isto.”
Eles desceram as escadas, até ao lugar onde a embaixada tinha conseguido arranjar-lhes camiões e SUVs, dois jipes antigos e alguns carros mais antigos.
“Fiquem próximo” disse o Ted, enquanto escolhia um jipe e pulava para o banco do motorista.
Eles conduziam, mantendo-se juntos e formando um comboio que serpenteava à velocidade do carro mais lento, que era, Kevin achava, demasiado lento. Uma parte dele não se importava muito com isso, porque a Colômbia era linda. Mas ele queria amaldiçoar os veículos lentos e as estradas cada vez mais escarpadas, porque queria ver a nave que os alienígenas tinham usado para se transportarem a si mesmos. Ele queria ver o resultado de tudo o que ele fizera.
Eles continuaram, e quando se aproximaram da área de floresta tropical que as coordenadas apontavam, as estradas pioraram. Então, quando as árvores começaram a acompanhar a estrada de ambos os lados, eles ficaram totalmente bloqueados pelo tráfego, e Kevin levou alguns instantes para perceber o que estava a acontecer.
Estava um camião capotado no meio da estrada e outro com amolgadelas grandes o bastante para sugerir uma colisão. Havia mais camiões e carros por toda a parte, com pessoas paradas à espera, ou a tentarem descobrir o que fazer, ou a discutirem numa dúzia de idiomas. Kevin reconheceu algumas das pessoas e ele percebeu quem elas deveriam ser.
“Eles não são dos outros grupos de pesquisa?” Kevin perguntou, quando eles pararam. Ele viu Ted concordar, mas antes que o ex-soldado pudesse dizer alguma coisa, o Professor Brewster estava lá, saindo de outro veículo.
“Porque é que estamos parados?” ele perguntou.
“Você pode ver o porquê” disse Ted.
“Mas não podemos simplesmente contorná-los?” o Professor Brewster perguntou.
Ted fez um gesto para as árvores que estavam próximas de ambos os lados da estrada. “Se conseguir, não se iniba.”
O Professor Brewster parecia que ia dizer algo, mas depois abanou a cabeça e partiu para se juntar à discussão.
“Você acha que vai fazer alguma diferença?” a mãe de Kevin perguntou.
Ted encolheu os ombros.
À frente, o Professor Brewster começou a discutir com meia dúzia de outras pessoas, alguns apontando os dedos enquanto tentavam descobrir exatamente quem era o responsável por lidar com os problemas ali. Como Kevin não conseguia imaginar o diretor do instituto de investigação a contentar-se em conversar com alguém que não estava ao comando, ele supôs que as outras pessoas que estavam a discutir na estrada enlameada deviam ser diretores das suas próprias organizações. Às vezes os adultos não faziam sentido.
Ele pulou do jipe, tanto porque queria ver o que estava a acontecer tanto porque, na verdade, achava que poderia ajudar. Ele caminhou até onde duas ou três pessoas estavam a discutir por causa de um guindaste, enquanto uma multidão de cientistas e soldados entediados observava.
“Se você tem um guindaste, porque é que ninguém o está a usar?” ele perguntou.
Um homem com um forte sotaque Escandinavo respondeu. “Porque é o nosso guindaste, e nosso diretor não nos quer a ajudar os outros a chegarem ao... objeto primeiro.”
“Mas isso é estúpido” disse Kevin.
“Kevin” a sua mãe disse, apanhando a conversa. “Todas estas pessoas são muito inteligentes. Provavelmente, todos têm Doutoramentos.”
“Ainda assim eles estão a ser estúpidos” disse Kevin, e ficou surpreendido ao encontrá-los a olharem para si, em vez de simplesmente o ignorarem. Eles sabiam quem ele era, ele percebeu, e eles pareciam estar a olhar para ele como se esperassem que ele decidisse o que fazer.
“Porque é que vocês simplesmente não trabalham juntos?” ele perguntou.
“Eu disse-te” o homem que tinha falado antes disse. “Não podemos deixá-los usar o nosso guindaste até...”
“Não é o guindaste” disse Kevin. “Tudo. Os alienígenas enviaram a sua cápsula de fuga para este planeta, não para um país, então porque é que não trabalhamos juntos para a encontrar?”
“E vê-la a ser levada para a América?” um daqueles ali perguntou.
“Bem, poderíamos encontrar outro lugar” sugeriu Kevin. “Um lugar para onde todos nós pudéssemos olhar para a nave.”
Os homens ficaram em silêncio por alguns instantes enquanto começavam a pensar. Um tirou um mapa.
“Há uma instalação da ONU a alguns quilómetros de Bogotá” disse ele.
Outro assentiu. “Eu fiz algum trabalho lá em plantas recém-descobertas. Tem boas instalações.”
“Os nossos chefes ainda podem querer discutir” disse o primeiro, um pouco incerto.
Kevin tinha uma resposta para isso. “Então eles podem discutir enquanto todos nós estamos a abrir a cápsula de fuga alienígena.”
Quando ele o colocou assim, os outros não pareceram querer discutir mais. Em vez disso, eles começaram a ligar o guindaste, com os investigadores que tinham estado ali a movimentarem-se para deslocar o camião de onde havia tombado.
“Muito bem” disse Ted enquanto Kevin voltava para ele. “Muitas poucas pessoas tê-los-iam convencido a trabalharem juntos.”
Kevin encolheu os ombros. Tinha parecido a coisa óbvia a fazer.
“O que é tudo isto?” o Professor Brewster perguntou. “O que está a acontecer? Porque é que eles estão a mover-se novamente?”
“Nós vamos encontrar a cápsula de fuga juntos” explicou a mãe de Kevin.
“Mas ninguém autorizou isso” disse o Professor Brewster. “Eu não autorizei isso.”
“Mas isto significa que nos estamos a mover” disse a mãe de Kevin. “É assim tão errado estarmos a trabalhar juntos?”
“Não” disse o Professor Brewster. Kevin achou que ele estava um pouco surpreendido por não ter sido ele a tomar a decisão pela primeira vez. “Suponho que não. Mas isto não significa que eu confie neles. Quando se trata do debate académico, eu não confiaria naqueles Canadenses. Fiquem atentos, todos vocês.”
Ele saiu, dando ordens ao seu pessoal e a alguns dos outros grupos também. Kevin tinha dúvidas se alguém estaria a prestar atenção. Ele olhou para Ted.
“Devíamos desconfiar dos outros?” ele perguntou.
O ex-soldado encolheu os ombros. “Talvez, talvez não. Às vezes trabalha-se com pessoas e não se sabe o que elas farão no futuro. De momento, só uma coisa importa.”
“Vamos encontrar a cápsula” disse Kevin.
Ted assentiu. “Vamos encontrar a cápsula.”
CAPÍTULO TREZE
Kevin nunca tinha estado numa floresta antes, mas não era nada como ele tinha visto na televisão. Lá, as selvas eram apenas algumas folhas de palmeira ao fundo, com muito espaço para as pessoas correrem e lutarem, e elas moviam-se depressa. Na vida real, a vida vegetal pressionava por todos os lados, com apenas alguns rastos usados pelos animais, e os soldados a terem que desbravar um caminho para eles, à medida que eles iam entrando mais na selva.
Também não mostravam a chuva. Esta caía enquanto eles caminhavam, ensopando-os em rajadas que pareciam encher o mundo inteiro sob a canópia.
“É sempre assim?” o Professor Brewster gritou.
Um dos guias encolheu os ombros. “É chamada de floresta tropical por alguma razão, senhor.”
Kevin não tinha a certeza do quão rápido eles estavam a andar, mas não parecia ser muito rápido. Ele tinha assumido que, por mais doente que estivesse, não conseguiria acompanhar o resto. Em vez disso, ele caminhava juntamente com eles, com o mais lento dos cientistas a andar muito mais devagar do que ele. Talvez não ajudasse que metade deles quisesse parar a cada cem metros para apanhar amostras de vida de insetos ou plantas incomuns.
“Eles não conseguem evitar” disse Ted. Ele manteve o ritmo juntamente com Kevin, sempre ao seu lado, como se estivesse com medo de que se se afastasse o perdesse na selva. “As pessoas mais inteligentes que alguma vez irás conhecer, mas significa apenas que um lugar como este está demasiado cheio de descobertas potenciais. Eles pensam em ser aquele que vê uma nova espécie de borboleta, ou encontra uma substância que irá curar o cancro, e eles esquecem-se o quão extraordinária é a coisa que viemos aqui fazer. Tudo o que eles conseguem pensar é o quão cheia de vida é a selva.”
Kevin não os podia censurar, porque a selva era cheia de vida, de uma maneira que ele não conseguiria ter acreditado. Parecia que para onde quer que ele olhasse, havia plantas que ele não tinha visto antes, desde as árvores gigantes que formavam uma canópia até às trepadeiras que serpenteavam entre elas e as coisas mais baixas que arrebatavam a luz que podiam no chão da selva. Havia insetos e lagartos, pequenos mamíferos e ocasionais sussurros no mato que sugeriam coisas maiores.
Ah, e aranhas, grandes o suficiente para que Kevin não quisesse chegar perto delas. A única parte divertida disso era que parecia que o Professor Brewster estava particularmente com medo delas, saltando tão alto sempre que via uma que Kevin achava que ele poderia alcançar a canópia.
“Em que é que pensa quando está aqui?” Kevin perguntou a Ted.
“Além da missão?” O soldado encolheu os ombros. “Principalmente memórias da última vez que estive aqui. Precisas de ter cuidado, Kevin.”
“Eu não me vou afastar” disse Kevin. Às vezes as pessoas tratavam-no como se ele não tivesse treze anos. Como se ele fosse apenas... uma criança ou algo assim.
“Não foi isso que eu quis dizer” disse Ted. “As coisas estão melhores depois da paz com as FARC, mas ainda há cartéis por aí que não gostam que as pessoas entrem no seu território. Até o exército. Uma coleção de diferentes grupos científicos? Seríamos uma presa fácil para as pessoas erradas.”
Ele deu uma olhadela para onde um grupo de soldados de meia dúzia de nações diferentes estava a ajudar a abrir caminho, desbravando com a certeza de pessoas que o tinham tido de o fazer muitas vezes antes em outros lugares.
“Não é só isto, pois não?” Kevin perguntou. “Você não confia nas pessoas com quem estamos a trabalhar.”
“Depois de eles terem passado o último dia a apressarem-se para serem os primeiros a lá chegarem?” Ted abanou a cabeça. “Mas isto é bastante comum. Estamos todos a ir para algo valioso. Nós temos um ativo valioso em ti, porque tu consegues traduzir os sinais. Talvez nada aconteça. Talvez tudo corra bem, mas tu sabes o que se diz: espera pelo melhor, prepara-te para o pior.”
Colocado assim, a selva parecia um lugar mais ameaçador do que antes, cheio de pontos onde seria fácil chegar e agarrar em alguém. Kevin fez o melhor que pôde para ignorar isso.
Uma coisa que ele não conseguia ignorar era o calor. Ele pensara que, já que ele era da Califórnia, a diferença não seria demasiada, apenas alguns graus mais quente, no máximo. Ele não tinha pensado nos efeitos da chuva, que combinados com o calor transformavam todo o lugar numa espécie de panela de pressão gigante, com o vapor visivelmente a sair das pessoas enquanto elas andavam.
“Estás bem, Kevin?” a Dra. Levin perguntou.
Ele assentiu. “Estou bem.”
“Dizes a alguém se não estiveres?” ela perguntou. Ela olhou para onde estava a mãe de Kevin caminhando atrás deles. “A tua mãe está bastante preocupada por podermos estar a fazer a coisa errada, trazendo-te aqui.”
“Eu quero estar aqui” disse Kevin. Ele sabia que a cientista estava apenas a tentar olhar por ele, mas ele queria ver isto. Ele queria encontrar o objeto que os alienígenas haviam enviado para a Terra. Ele queria ver onde é que tudo o que ele tinha traduzido levava.
“Bem, eu só espero que não seja muito mais longe” disse a Dra. Levin. “Tu podes estar bem, mas eu estou a derreter neste calor.”
“Não muito longe do local que nós vimos” disse Ted, verificando uma leitura de GPS de aparência robusta. “Só um pouco mais por ali.”
Eles continuaram, encontrando uma clareira para usar como base enquanto procuravam. Alguns dos soldados começaram a montar toldos ásperos para manter a chuva afastada, enquanto os diferentes grupos de cientistas montavam equipamentos que haviam transportado pela selva. Eles tinham o que pareciam ser detetores de metal e dispositivos estranhos que cabiam em pequenos carros que podiam ser puxados à mão. Alguns montaram equipamentos de computação suficientes que eles podiam provavelmente ter os seus laboratórios habituais de lá, se não estivessem tão isolados do mundo. A parte mais estranha era assistir a meia dúzia de equipamentos quase idênticos a serem arrastados.
“O objeto que veio para a Terra caiu algures nesta vizinhança” disse o Professor Brewster, obviamente assumindo que ele estava no comando. “Precisamos encontrá-lo. Isso significa que nos espalhamos e localizamos a área geral do local de um acidente, procurando por danos e, em seguida, usamos o nosso equipamento para localizar o objeto.”
“Mantenham-se em segurança” disse Ted, e Kevin suspeitou que, se ele não dissesse, ninguém o teria dito. O Professor Brewster teria alegremente mandado pessoas para a floresta sem mais indicações do que isto. “Trabalhem sempre aos pares, para que, se algo acontecer, o outro possa obter ajuda. Fiquem perto do acampamento e fiquem em contacto. A selva vai tentar que se percam. Cuidado com a vida selvagem e não entrem em nenhum curso de água. Há jacarés e cobras nesta área.”
Os cientistas saíram com cautela, acompanhados por soldados e quaisquer guias locais que conseguissem encontrar.
“Vamos procurar?” Kevin perguntou.
Ted abanou a cabeça. “É melhor esperar por agora. Deixa que sejam outras pessoas a fazerem o trabalho para encontrar. Vais ver em breve. Agora, é melhor eu ir fazer um telefonema.”
Ele levantou-se, pegando num telefone via satélite que provavelmente funcionaria agora que eles estavam na clareira com um caminho aberto para o céu. Ele afastou-se um bocado, falando baixinho. Kevin pensou em se aproximar para ouvir o que ele estava a dizer, mas algo sobre a maneira como o soldado falava sugeriu que talvez não fosse uma boa ideia.
“Acho que encontramos algo!” um dos cientistas gritou de dentro da selva.
Kevin não conseguia ficar ali, e, ao que parecia, também nenhum dos outros que estavam no pequeno acampamento. Ele era apenas um dos que se apressaram a avançar, a correr pela selva para conseguirem acompanhar, com a terra macia por baixo a ceder quando os seus pés a pisavam. Ele seguiu os cientistas até outra pequena clareira. Kevin tinha estado meio à espera de uma cratera ali, cercada de desolação. Em vez disso, havia apenas algumas cicatrizes na terra, insinuando algo a vir por ali.
A parte estranha era que as árvores ao redor não pareciam estar danificadas. Se algo tivesse caído na Terra no passado recente, não deveria ter havido danos, destroços, até mesmo brasas ardentes?
Então Kevin percebeu que ele estava a pensar naquilo da forma errada. Os alienígenas haviam enviado as suas mensagens anos atrás, mesmo viajando à velocidade da luz. Porque é que a sua cápsula de fuga acabara de chegar? Porque é que não estaria aqui há anos, até décadas, à espera que alguém a descobrisse? Ele descobriu que gostava dessa ideia, de algo secreto à espera de si para o descobrir. Isso fê-lo sentir-se como se fosse um caçador de tesouros.
Os cientistas já haviam começado a trabalhar, com os seus vários dispositivos. Pelo que Kevin podia ouvir, ele não achava que estivesse a ir muito bem.
“Eu não estou a receber nenhuma resposta do detetor de metais” Phil gritou. O investigador já havia suado a camisa havaiana. “Eu não o ouvi tão silencioso... bem, nunca.”
“Eu não estou a receber nenhuma resposta à procura de uma assinatura de calor” outro deles gritou.
“Bem, não receberíamos” Phil disse em resposta. “Está a arrefecer o tempo todo desde que pousou e não sabemos quando isso aconteceu. E quanto ao magnetómetro?”
Um cientista arrastando a coisa que parecia um carrinho de mão abanou a cabeça. “O solo é muito irregular. Eu não consigo dizer se estou a receber sinais ou apenas interferências.”
Aparentemente, o radar de penetração no solo tinha o mesmo problema, embora Kevin não soubesse antes que tal coisa existia. Ele realmente não sabia como metade do equipamento dos cientistas funcionava; poderia ter sido magia, embora ele duvidasse que eles tivessem gostado dessa comparação. De onde ele estava, significava apenas assistir a um bando de cientistas a correr com dispositivos e fios, olhando para ecrãs ou ouvindo coisas. Foi divertido assistir, talvez na primeira hora.
“Nós teremos simplesmente que cavar” disse finalmente o Professor Brewster. “Deve estar aqui em algum lugar, portanto se desenterrarmos tudo isto nós vamos encontrá-la.”
Parecia que o “nós” neste caso, não incluía o Professor Brewster, porque o diretor do instituto não fez nenhum movimento para pegar uma pá. Muitos cientistas fizeram-no, no entanto, e até mesmo alguns soldados ajudaram, atacando a terra ao redor deles, como se isso pudesse revelar os seus segredos, se eles trabalhassem arduamente.
Não parecia haver nada para Kevin fazer a não ser esperar. Ele não tinha uma pá e, de qualquer forma, não parecia ser a melhor maneira de encontrar alguma coisa. Tratava-se apenas de cavar aleatoriamente na esperança de que algo acontecesse. Parecia um pouco como cavar buracos aleatórios numa praia na esperança de que um deles contivesse um baú de piratas. Ele ficou ali parado, tentando manter-se fora do caminho enquanto eles cavavam.
Foi quando ele sentiu o sussurro da conexão através das árvores, quase indefinível. Parecia-se um pouco como o batimento da contagem decrescente dentro de si, exceto que esse batimento pareceu ficar mais forte quando ele deu alguns passos ao longo do caminho que a cápsula de fuga deve ter percorrido. Quando ele deu um passo para o outro lado, ficou mais fraco.
Kevin parou, tentando ter a certeza. Ele não queria dizer que sabia o que estava a fazer até ter a certeza de que tal era mais do que apenas um sentimento aleatório dentro de si. E se fosse apenas o calor?
“Não é” disse Kevin a si mesmo, desejando estar tão seguro quanto tentava soar.
Kevin avançou, tentando seguir aquele batimento, ficar com ele quando ficava mais forte, abrindo caminho entre as árvores. Sempre que voltava a ficar mais fraco, ele parava, andando em círculos até encontrar a direção onde ele sentia que era mais forte. Não demorou muito para que ele tivesse uma rota clara, que o levou para o que parecia ser um pequena trilho de cervos. Kevin seguiu-o até chegar a um espaço onde se abria para revelar uma grande piscina natural, tão larga quanto uma piscina, com uma água verde acastanhada. Instintivamente, Kevin soube que o objeto que chegara à Terra estava algures abaixo da superfície. Ele podia sentir a sua atração tão forte agora que ele deu um passo em direção à piscina, depois outro, tentando se lembrar da razão pela qual lhe tinham dito que ele não deveria fazer precisamente isso...
Uma forma com escamas surgiu da água, com os dentes a saírem repentinamente com um salto, o que fez Kevin retroceder rapidamente, escapando por pouco. Ele teria pensado em jacarés se Ted não os tivesse avisado a todos antes. O focinho desta criatura era muito comprido e afiado, a sua forma demasiado esguia. O jacaré continuava a aproximar-se, rastejando da água até ao chão, com a cauda a fazer um trilho em forma de S.
“Socorro!” Kevin gritou. Ele queria voltar-se e correr, mas ele supôs que no momento em que o tentasse, a coisa estaria sobre si. Em vez disso, ele continuou a recuar, enquanto o jacaré avançava com um grunhido que prometia que Kevin seria a sua próxima refeição. Kevin sentiu a pressão de uma árvore nas suas costas e percebeu que havia perdido o trilho o que significava que o jacaré ganhava terreno. Abriu as mandíbulas, mostrando o que pareciam ser dentes sem fim...
O rugido do disparos chegaram, tão alto contra a selva que Kevin achou que poderia ficar surdo. O jacaré soltou um som de dor e depois caiu. Kevin também caiu, apenas com a árvore a mantê-lo de pé quando Ted apareceu com uma espingarda erguida ao ombro. Ele só a baixou quando teve a certeza que o animal estava morto.
“Estás bem?” ele perguntou.
Kevin conseguiu assentir, apesar do medo que ainda o dominava. “Eu acho que sim.”
“O que estavas a fazer? Pensei ter-te dito para não te afastares.”
Kevin queria dizer que ele não era criança pequena. Em vez disso, ele fez sinal com a cabeça na direção da piscina de água escura. “Eu tinha de o fazer, eu senti... acho que está lá dentro.”
Ele viu o soldado pestanejar, depois olhou para a água. “Tens a certeza?”
“Sim” disse Kevin. “Eu não sei como tenho a certeza, mas está lá dentro.”
Para sua surpresa, Ted não questionou mais nada, apenas chamou os outros. Eles vieram, com tanta pressa como quando encontraram os primeiros sinais de danos. Porém, eles não foram tão rápidos a mergulhar na água, obviamente, com medo do que ainda poderia estar lá. Por fim, Ted e três outros soldados, dois Escandinavos e um Norte-americano, entraram lá, caminhando à volta com uma lona a fazer de rede.
“Temos aqui alguma coisa” Ted gritou, e eles enrolaram-na em torno da coisa, puxando juntos para a erguer, arrastando-a da água. Pareceu demorar uma eternidade, e Kevin estava à espera que fosse uma coisa enorme enquanto eles trabalhavam para a retirar, uma dúzia de cientistas movendo-se para os ajudar.
Quando finalmente rolou para fora da lona para o chão, Kevin viu que não era de todo o que ele esperava. Ele tinha pensado que seria maior, por um lado. A sua imaginação tinha-lhe dito que estaria ali um veículo maior que um carro, talvez próximo do tamanho de uma casa. Ele tinha pensado que seria prateado e brilhante, ou tão preto que parecia o espaço através do qual aquilo voara.
Em vez disso, uma esfera perfeita de rocha redonda estava ali, ainda cheia de limo com a água, mas lisa por baixo. Parecia que alguém tinha disparado uma bola de bowling rochosa pelo universo, ou talvez a atirado de algum grande canhão em direção à Terra.
Mesmo assim, os cientistas agruparam-se em torno da esfera até Kevin mal a conseguir ver, porque eles eram muitos.
“É isto?” o Professor Brewster perguntou. “Deixem-me passar, deixem-me passar. Encontrámo-la?”
“Encontramos algo, definitivamente” disse a Dra. Levin. Parecia que ela estava a tentar esforçar-se a ficar calma, a não se entusiasmar demasiado. “Agora só temos que descobrir exatamente o quê.”
Ted estava a abanar a cabeça. “Antes de fazermos isso, há pelo menos uma outra coisa que precisamos de fazer. Precisamos de levá-la connosco.”
CAPÍTULO CATORZE
Kevin não queria tirar os olhos da pedra enquanto eles a carregavam de volta numa espécie de maca, não inteiramente certo do que fazer enquanto caminhavam de volta pela floresta até ao acampamento base. Ele estava excitado e confuso, preso entre a alegria de ter encontrado o que os sinais alienígenas haviam apontado e a surpresa de aquilo não ser a grande nave espacial prateada que ele imaginava que poderia ser.
Parecia estranho, ter realmente encontrado aquilo, apesar de todos eles terem vindo aqui para fazer exatamente isso. Parecia que não deveria estar lá, mas estava, e agora Kevin mal podia conter a sua excitação com a possibilidade de ver o que havia lá dentro.
“Vamos abri-la lá, certo? ele perguntou à Dra. Levin, que parecia estar a observar com o ar de alguém à espera do Natal.
Ao lado dele, a Dra. Levin assentiu. “Essa é a ideia. Haverá um laboratório à espera por nós no complexo da ONU fora de Bogotá, e veremos o que está lá dentro.”
Ele percebeu que ela estava a tentar não ficar demasiado entusiasmada com tudo isto. Na verdade, a maioria dos cientistas parecia estar tão feliz por ter encontrado essa rocha estranhamente lisa como teria ficado se eles tivessem encontrado algum tipo de nave espacial alienígena intacta, repleta de tecnologia avançada. Talvez fosse apenas por serem cientistas, e uma rocha parecia mais real, de alguma forma, para eles. Eles provavelmente estavam acostumados a testar rochas do espaço sideral, sendo eles da NASA, enquanto as naves espaciais pareciam impossíveis para eles.
Mesmo assim, Kevin esperava que as coisas ficassem bem mais fantásticas assim que a abrissem. Talvez houvesse tecnologia alienígena lá dentro, ou mensagens lá deixadas como uma mensagem numa garrafa. A menos que os alienígenas fossem realmente minúsculos, ele duvidava que houvesse algum ali, mas talvez eles fossem assim tão pequenos, ou eles tivessem encontrado uma forma de se encaixarem mais em espaços, ou algo assim.
Fosse o que fosse, seria incrível.
Eles voltaram para o espaço onde eles tinham deixado os camiões, e já havia cientistas lá a arrumarem os equipamentos. Parecia que eles estavam tão ansiosos quanto Kevin para voltar e abrir a rocha que tinham recuperado. Quando eles tinham estado a tirar para fora o equipamento, eles tinham sido delicados, mas agora eles praticamente atiravam-nos para a parte de trás dos veículos.
“Devíamos entrar nos camiões” disse a Dra. Levin. “Estamos quase prontos para ir, eu acho.”
Kevin assentiu, começando a voltar para o jipe. Ele viu o Professor Brewster ao longo do caminho e ia correr ao seu redor, mas, para surpresa de Kevin, o chefe do instituto da NASA parecia realmente feliz. Ele estava praticamente a dançar entusiasmado no lugar.
“Nós encontrámo-la” disse o Professor Brewster. “Nós encontrámo-la mesmo. Isto é… eu sei que tenho sido exigente contigo, Kevin, mas foi só porque eu queria ter a certeza disto. Desde que eu tinha... bem, desde que eu tinha a tua idade.”
Kevin mal podia acreditar no que estava a ouvir; ele nunca esperara que o Professor Brewster, de todas as pessoas, tivesse um otimismo infantil.
Ele correu de volta para o jipe, onde Ted e a sua mãe esperavam. Possivelmente, pela primeira vez desde que isto começara, a sua mãe tinha o tipo de admiração no seu rosto que dizia a Kevin que ela finalmente entendeu isto, que ela não estava apenas a fazer isto pelo bem de Kevin. Ted parecia um pouco menos obviamente feliz. Se Ted estava preocupado com alguma coisa, isto não poderia ser bom. Afinal, ele tinha enfrentado um jacaré sem problemas.
Isso não podia danificar a felicidade de Kevin, no entanto. Todos os cientistas tinham aparecido com as suas máquinas de teste, e tinha sido ele a detetar o local onde a cápsula alienígena estava. Parecia que aquilo era dele, de alguma forma, por causa disso, mesmo quando estava num camião a vinte metros de distância, guardado por uma mistura de cientistas e soldados de diferentes nações. Parecia como se, independentemente do que acontecesse a partir de agora, seria a sua vez.
“O que é que você acha que vai estar dentro da cápsula quando a abrirmos?” Kevin perguntou.
Ted pensou nisso por alguns segundos
“Eles poderiam ter enviado uma cápsula do tempo cheia de informações. Talvez eles estejam à espera que alguém tenha a tecnologia para trazê-los de volta do que aconteceu com eles. Você teria que perguntar aos cientistas. Eles saberiam mais.”
Talvez eles soubessem. No mínimo, a maioria deles parecia estar a falar sobre isto, de modo que os rádios do comboio dos veículos pareciam vivos com especulações em diferentes idiomas. Kevin não os ouvia tão excitados assim desde que as mensagens tinham começado. Talvez fosse a parte em que eles tinham algo mais do que um sinal traduzido por um rapaz de treze anos. Talvez eles gostassem de ter algo sólido para provar o que estava a acontecer.
Kevin não podia censurá-los por isso. Mesmo sabendo que o que ele estava a ver era real, encontrar a rocha tinha sido uma espécie de alívio. Tinha sido uma prova do quanto isto significava.
“Quanto tempo falta até chegarmos ao complexo da ONU?” Kevin perguntou. Ele só queria chegar lá agora, para puder continuar à procura.
“Isto depende” disse Ted. “Já vimos como as estradas podem ser complicadas... raios.”
Por um momento, Kevin achou que devia haver outro bloqueio do outro lado da estrada. Então ele viu a faixa de figuras com uniformes a segurarem armas.
Ele olhou para eles em estado de choque. Kevin pôde ouvir as conversas dos outros no rádio quando viram o que estava a acontecer. Até Ted parecia tenso. Embora não surpreendido. Ele parecia praticamente como se estivesse à espera disto.
“Demasiado tarde para voltar para trás” disse Ted, diminuindo a velocidade do jipe. “Há muitas pessoas atrás de nós. Parece que vamos ter que fazer isto da maneira mais difícil.”
Ele parou o veículo, voltando-se para Kevin. “Eles parecem-se com militares Colombianos, e não dos cartéis, pelo que isto deve correr bem, mas se não correr bem, fiquem aqui e mantenham a cabeça baixa. Entendido?”
“Sim” disse a mãe de Kevin.
Ted olhou para Kevin. “Entendido?”
“Ok” disse Kevin, O que é que o ex-soldado achava que ele ia fazer? “Hum... eles não vão disparar contra nós, pois não?”
“Provavelmente não” disse Ted.
“Provavelmente não?” Isso não parecia muito reconfortante. Kevin teria preferido “definitivamente não” ou mesmo “não te preocupes com isto.”
Ted acenou com a cabeça para a frente do comboio de veículos para onde o Professor Brewster já estava a ir. “Eu suspeito que depende de quem deixamos falar.”
Ele pulou para baixo, e Kevin pôde ver um monte de outras figuras a passarem também, ansiosas para ajudar, ou a quererem mostrar que tinham algum tipo de autoridade ali, ou talvez apenas a quererem ver o que estava a acontecer.
Essa era certamente a razão pela qual ele se apressou a sair do jipe.
“Kevin” a sua mãe disse. “O Ted disse-nos para ficarmos dentro no veículo.”
“Eu sei, Mãe” ele disse “mas não acho que fará muita diferença se houver algum tipo de luta.”
“Kevin!” a sua mãe disse novamente, enquanto Kevin descia do jipe e começava a avançar. Ele ouviu a sua mãe a seguir atrás de si, mas ele continuou. Ele não ia perder isto.
Quando ele chegou ao grupo de figuras armadas, eles já estavam a discutir coisas num tom que parecia perigosamente próximo da violência. Kevin tinha visto crianças na escola a insultarem-se uns aos outros, e eles não queriam voltar atrás porque achavam que isso os iria fazer parecer estúpidos. Eles tinham sempre a sensação de que não queriam lutar, que estavam com medo e a coisa toda era estúpida, mas eles faziam-no de qualquer maneira. Kevin nunca esperara ouvir adultos a soar assim, mas pelo menos alguns deles faziam-no.
“... E eu estou a dizer-lhe, professor, que este é o território soberano da Colômbia” um homem mais velho estava a dizer ao Professor Brewster. “Se esse artefacto tivesse caído em território americano, está a dizer-me que nos permitiria levá-lo connosco, como você está a tentar?”
“Não, claro que não, general” o Professor Brewster retrucou. “Porque nós temos as melhores instalações científicas do mundo.”
“Você está a contestar a qualidade do programa científico da Colômbia?” o General perguntou.
“Eu estou a dizer que não tem um décimo dos recursos que nós temos” o Professor Brewster respondeu.
Isso não pareceu impressionar o outro homem. Isso parecia apenas irritá-lo.
“Então é isto, não é? Os EUA são os maiores e mais ricos, e por isso todos devemos nos curvar ao que querem? Kevin viu-o abanar a cabeça. “Já tivemos o suficiente disso no passado. Você acha que eu não reconheço alguns dos homens aqui do passado?”
“Quando fomos convidados” disse Ted, dirigindo-se a eles. “General Marquez, eu não o ouvi reclamar quando estivemos aqui a ajudar o seu país contra os cartéis.”
“E agora vocês estão a ajudar-se a vocês próprios” disse o outro homem.
“Estabelecemos contacto através de canais diplomáticos” disse o Professor Brewster. “Nós dissemos-vos que estaríamos a chegar.”
“Mas não esperaram pela permissão” disse o General Marquez. Kevin teve a sensação de que tudo isto estava a ir rápido demais, e ele estava no meio daquilo com adultos a discutirem ao seu redor. Adultos que definitivamente não ouviriam alguém como ele e que pareciam determinados a discutir e a gritar até que tudo se transformasse em violência.
“Se me der um minuto, senhor” disse Ted “tenho a certeza de que consigo que o nosso Presidente e o vosso falem ao telefone.”
“Para que eles possam acordar que devemos fazer o que vocês querem em troca de alguma concessão menor, alguma promessa vazia?” o general exigiu saber. “O nosso presidente é um bom homem, mas isto é uma questão militar.”
“Parece que se pode tornar uma” disse Ted. O estranho para Kevin foi que ele não levantava a voz, mesmo no meio de uma situação perigosa como aquela. O Professor Brewster estava a suar, e Kevin sentia os seus próprios nervos a aumentar, mas parecia que o ex-soldado estava apenas... calmo.
Era um tipo perigoso de calma, e isso preocupava Kevin quase tanto quanto o resto.
“Vou simplificar isto” disse o General Marquez. “O artefacto que vocês estão a transportar pertence ao povo Colombiano. Nós estaremos tomando posse dele. Se vocês nos tentarem impedir de o fazer, serão detidos e presos. Agora, recuem.”
Ele fez um movimento em direção ao primeiro dos camiões no comboio, obviamente com a intenção de verificar se havia algum sinal de algo alienígena.
“Não posso permitir que você toque naquele camião, senhor” disse Ted, e agora, de alguma forma, havia uma arma na sua mão, apontada diretamente para o general Colombiano.
Instantaneamente, havia mais armas a apontar do que Kevin tinha visto na sua vida.
CAPÍTULO QUINZE
Kevin tentou ao máximo não parecer assustado quando dezenas de armas apontavam na sua direção. Não era fácil. A maioria dos Colombianos pareciam estar a apontar para Ted, mas como Kevin não estava assim tão longe, a distinção não lhe fazia muita diferença. Enquanto isso, soldados ao lado deles, aproveitaram a oportunidade para nivelar as suas próprias armas contra os Colombianos. O que tinha sido uma coisa unilateral havia-se transformado num impasse perigoso em questão de segundos.
“Vocês estão em desvantagem numérica” disse o General Marquez. “Se vocês dispararem, todos vocês morrerão.”
Ted encolheu os ombros. “Com todo o respeito, senhor, vocês morreriam primeiro.”
Ele deslocou-se e o general ficou entre ele e os outros Colombianos.
“Achas que eu me importo com isso?” o General Marquez exigiu saber. “Algo como isto é mais importante que você, mais importante que eu, e eu ainda tenho poder de fogo superior.”
“Então ainda bem que chamei apoio aéreo” disse Ted.
“Você está a fazer bluff”
Mas Kevin ouviu o som de pás de rotor à distância, e parecia que todos os outros também ouviram. Tal deveria tê-lo feito sentir-se seguro, mas até onde ele conseguia perceber, isso tornava toda a situação mais perigosa. Apenas aumentava o número de pessoas que podiam decidir abrir fogo no momento errado.
Um helicóptero surgiu sobre as árvores, parecendo angular e guarnecido de armas. Kevin deu por si a pensar no telefonema que Ted havia feito antes. Ele estava à espera que isto acontecesse, ou pelo menos algo parecido. Ele olhou para cima, depois ao redor para todos os homens com armas apontadas uns para os outros. Mais alguns segundos, e podia haver balas a voarem por toda a parte.
Então Kevin fez a única coisa que podia fazer e colocou-se entre Ted e o general.
“Sai da frente, Kevin” disse Ted.
“Tu devias desviar-te” concordou Marquez.
Kevin abanou a cabeça. “Não.”
“Kevin!” a sua mãe gritou mais atrás, mas alguns investigadores apanharam-na pelos braços quando ela começou a avançar. “Sai daí!”
Kevin não se mexeu. Ele olhava de Ted para o general Colombiano, ficando entre os dois, enquanto o helicóptero pairava em constante ameaça.
“Vocês estão os dois a ser idiotas” disse Kevin. Não era como se deveria falar com os adultos, certamente não com aqueles que estavam fortemente armados, mas, até onde Kevin podia perceber, era apenas a verdade.
“Tu não entendes o que está a acontecer aqui, Kevin” disse Ted.
“Ele tem razão” concordou o General Marquez. “Tu não entendes as implicações disto.”
Porque é que os adultos sempre achavam que eram os únicos que entendiam as coisas? Porque é que eles achavam que os rapazes como Kevin eram idiotas?
“Você não quer que um grupo de pessoas de fora da Colômbia chegue aqui para levar o que é seu, ou para lhe dizer o que fazer” disse Kevin “porque você acha que é como se lhe tivessem a dizer que são melhores que você. E Ted não quer desistir da cápsula, em parte porque ele acha que fizemos a maior parte do trabalho para a encontramos, em parte porque ele acha que nos fará parecer fracos se a deixarmos ir, e em parte porque ele tem ordens e ele é o tipo de pessoa que as vai seguir, não importa o quê. Tudo isto é idiota.”
Ted inclinou a cabeça para um lado. “O Kevin não está totalmente errado. Eu tenho efetivamente ordens.”
“E eu não quero ver a Colômbia a ser insultada por esse artefacto ter sido levado pelos Americanos” disse o General Marquez. “Vocês já interferiram muito no nosso país.”
“Portanto, vocês os dois estão apenas a ser teimosos” disse Kevin. Parecia errado falar com os dois adultos assim, mas era apenas a verdade, e, de qualquer forma, se ele não o fizesse, eles provavelmente seriam todos mortos. Parecia um bom motivo para continuar, e, então, ele apontou para os cientistas. “Olhem para todos os diferentes países aqui a trabalharem juntos. Se eles o conseguem fazer, porque é que não o fazem também?”
“O que sugeres?” o General Marquez perguntou.
Kevin tinha uma resposta para isso, pelo menos. “Nós íamos levar a cápsula para um lugar da ONU…”
“O centro da OMS que existe lá” Ted forneceu.
“Então, porque não fazer isso?” Kevin perguntou. “Iria parecer que tudo estava a acontecer porque vocês o permitiram, e vocês poderiam estar lá quando a abríssemos. Todo a gente iria ver isso.”
“Incluindo as câmaras” disse Ted. Ele baixou a arma. “Ouvi dizer que você está a pensar em entrar na política, General.”
O general ficou calado por vários segundos enquanto pensava, e Kevin achou que entendia um pouco disso agora.
“Tal não faria com que você parecesse fraco” disse ele. “Isso faria parecer que você era responsável por dar isto ao mundo. Isto foi enviado para a Terra, não para um país específico. É para todos. Não é algo que alguém possa possuir.”
O General Marquez pensou um pouco mais e depois assentiu. “Muito bem.” Ele gritou para os seus homens em espanhol e eles baixaram as armas. “Vamos acompanhar-vos ao complexo da ONU e veremos esse artefacto a ser aberto lá. Foste muito corajoso, jovem.”
Kevin sentiu-se orgulhoso, apesar de um olhar para o rosto da sua mãe lhe dizer o quanto ele estava metido em sarilhos por se ter colocado em perigo. Ted colocou um braço à volta dos seus ombros, levando-o de volta para o jipe.
“Muito bem” ele disse “mas não voltes a fazer nada assim tão estúpido. Nós poderíamos ter sido todos mortos.”
Eles poderiam ter sido, mas não foram. Melhor do que isso, quando os camiões começaram a rolar novamente em comboio, eles estavam a ir em direção a um lugar onde eles poderiam finalmente descobrir o que os alienígenas tinham enviado do seu mundo para a Terra.
“Vamos abrir a cápsula” disse Kevin. Ele não conseguia evitar o entusiasmo na sua voz.
“Vamos” o Ted concordou, e pela primeira vez ele parecia quase tão animado quanto Kevin. “Nós vamos ver o que os alienígenas nos enviaram.”
CAPÍTULO DEZASSEIS
Kevin manteve os olhos no camião que transportava a cápsula durante todo o caminho de volta até Bogotá. Ele tinha receio que, se ele tirasse os olhos dele por um momento, um dos diferentes grupos que haviam passado tanto tempo a discutir sobre isto tentaria pegá-la.
“Não vai desaparecer” disse Ted. “Tu fizeste um bom trabalho a convencer todos a trabalharem juntos nisto, Kevin.”
Kevin queria acreditar nisso, mas a cápsula praticamente tinha aparecido do nada, não tinha? Porque é que não encontraria uma maneira de desaparecer da mesma maneira? Porque é que eles não iriam ficar a olhar para um espaço vazio, enquanto ansiavam por todos os segredos que os alienígenas haviam preparado para eles?
“Vai correr tudo bem, Kevin” a sua mãe disse, colocando a mão no seu ombro. “Tu já fizeste a parte difícil.”
Kevin entendia isto, mas mesmo assim, ele vigiava o camião. Não se tratava apenas de querer garantir que nada acontecia. Era mais a promessa disso e a necessidade de esperar. Parecia como esperar pela manhã de Natal e uma ida ao consultório do médico, tudo junto. Ele não tirou os olhos do camião até conseguir ver Bogotá à frente.
“A unidade da ONU está apenas um pouco mais à frente” disse Ted, apontando.
O edifício à frente deles parecia cerca de cinquenta anos mais moderno do que a maioria dos edifícios ao redor, construído de vidro e aço, enquanto as casas que o rodeavam pareciam meio bizarras e antiquadas. Havia um complexo em volta, completo com soldados em capacetes azuis. Eles não fizeram nenhum movimento para parar o comboio quando este rolou na direção do complexo, e Kevin supôs que as pessoas deveriam ter ligado antes para avisá-los do que estava por vir.
Isso significava que não havia qualquer hipótese de o levar para lá em silêncio. O pessoal da ONU já estava parado ali, olhando para o comboio de veículos enquanto estes paravam. Kevin via o que pareciam ser repórteres presos atrás de uma barreira, sendo contidos com alguma dificuldade pela presença dos soldados. Eles apontavam câmaras e os flashes dispararam quando o comboio de veículos parou. Kevin atreveu-se a suspirar aliviado. Eles tinham conseguido chegar aqui. Eles tinham a cápsula.
Ele observou um grupo de investigadores de aparência forte a carregarem-na para dentro, coberta com um cobertor para que as câmaras não a vissem bem.
“Eu gostaria que eles não tivessem que a esconder” disse Kevin.
Ted olhou da cápsula para as câmaras. “Algo me diz que eles não serão capazes de fazer isto por muito tempo. Vamos lá, vamos entrar.”
Kevin desceu do jipe e partiu com Ted, com a sua mãe e com todos os outros para o complexo da ONU. Ele não ficou surpreendido ao encontrar mais repórteres, que tinham obviamente decido desistir da hipótese de uma primeira foto para estar numa posição melhor para fazerem perguntas quando todos entrassem.
“É verdade?” um gritou. “Encontraram uma nave espacial alienígena?”
O Professor Brewster pareceu pensar que era óbvio que ele deveria responder, dando um passo à frente para fazê-lo. “Olá, sou o professor David Brewster, da NASA. Descobrimos algo na floresta tropical, mas de momento não podemos dizer exatamente o que é. O meu pessoal não responderá a nenhuma pergunta sobre isto de momento, mas haverá uma conferência de imprensa em breve, onde estaremos a examinar publicamente o artefacto que encontrámos.”
A imprensa continuou a disparar perguntas na direção dele, mas o Professor Brewster ignorou-as, caminhando em direção ao edifício principal do complexo. Kevin e os outros apressaram-se para o acompanhar.
“Estamos mesmo a ir diretamente para uma conferência de imprensa?” a Dra. Levin perguntou. Para Kevin, ela não parecia triste com isso, apenas surpreendida.
“As coisas progrediram muito rapidamente” disse o Professor Brewster. “Discussões sobre quem ia começar a trabalhar na rocha estavam a tornar-se bastante... vocais.”
Kevin esperava que, depois de tudo o que se tinha passado na estrada, os cientistas se conseguissem entender melhor do que isso.
“Foi decidido que a única maneira de evitar mais problemas é lidar com a situação aqui. Haverá uma conferência de imprensa para anunciá-lo e, uma vez que muitos dos meus colegas estão a pressionar, cortaremos a rocha para discernir sobre o seu conteúdo.”
“Vão mesmo abri-la?” Kevin perguntou. Ele não tinha tido a certeza se eles o iriam fazer ou não.
“Sob condições estritamente controladas” disse o Professor Brewster. “Não podemos arriscar uma possível contaminação, seja da rocha ou do ambiente circundante. A sala em que realizarmos a abertura será um espaço fechado.”
Ele partiu para organizá-la e Kevin pôde sentir o seu entusiasmo a aumentar.
“Eles vão mesmo abri-la” disse ele com um sorriso. Isto era mesmo fantástico.
“E nós vamos fazer parte disso” disse a Dra. Levin.
“Eles vão precisar que Kevin faça parte da conferência de imprensa?” a mãe de Kevin perguntou.
“Provavelmente” disse a Dra. Levin. “Ele merece fazer, não acha?”
A mãe de Kevin assentiu. “Merece. Depois de tudo isto, ele merece.”
***
A sala de imprensa era uma grande sala de conferências, obviamente projetada para acomodar um grande número de pessoas. Mesmo assim, parecia apinhada quando Kevin entrou, tão cheia de repórteres e investigadores que era quase impossível passar por todos eles. Um ecrã havia sido colocado na parede oposta, mostrando um laboratório de paredes brancas, onde, numa mesa de metal, estava a cápsula, ladeada por um trio de investigadores. Eles usavam fatos de plástico branco que Kevin supôs que os impedissem de contaminar a cápsula. Eles também usavam máscaras faciais e óculos de proteção.
Na parte da frente da sala de conferências, havia uma longa mesa com uma variedade de homens e mulheres de aparência séria sentados atrás dela. Kevin reconheceu alguns deles da sua expedição e o General Marquez estava no centro de todos eles. Kevin, a Dra. Levin e o Professor Brewster foram juntar-se a eles.
“Obrigado a todos por terem vindo” disse o Professor Brewster. “Como vocês provavelmente já devem saber, regressámos recentemente de uma expedição científica à floresta tropical da Colômbia. Durante essa expedição, localizamos o objeto que vocês podem ver.”
“O que é?” um repórter perguntou.
“De onde veio?” outro quis saber.
O Professor Brewster fez uma pausa antes de responder. Kevin questionava-se como é que deveria ser para ele, tendo que dizer algo que parecia impossível, mesmo sabendo que era verdade.
“Temos razões para acreditar que esta rocha é uma cápsula enviada por uma civilização alienígena” disse o Professor Brewster.
Suspiros surgiram ao redor da sala e os repórteres começaram todos a fazer perguntas imediatamente. O Professor Brewster levantou as mãos por silêncio.
“Vocês já devem saber que a NASA tem estado a receber comunicações de uma civilização alienígena” disse ele. “Elas têm sido descodificadas por Kevin McKenzie e, com base nelas, fomos capazes de localizar este... objeto.”
Ele fez um sinal para Kevin, e, quase instantaneamente, Kevin ficou cego por causa dos flashes das dezenas de câmaras.
“Com a cooperação do governo Colombiano e uma equipa internacional de cientistas” continuou o Professor Brewster “nós recuperamos o objeto e trouxemo-lo até aqui.”
Ele fez com que parecesse que tudo tinha sido muito mais pacífico do que tinha sido, mas Kevin supôs que era a história que todos eles queriam contar, de trabalharem juntos e ajudarem-se uns aos outros. Não parecia uma história má, se encorajava as pessoas a fazerem-no da próxima vez.
“Vamos realizar testes preliminares no objeto” disse o Professor Brewster. “E, dependendo dos resultados, é claro, abriremos a cápsula de acordo com as mensagens que recebemos.”
Mais uma vez, um zumbido de excitação percorreu a sala. Um certamente passou por Kevin. Toda esta conversa era frustrante agora. Ele queria chegar ao ponto em que eles realmente abriam a cápsula e viam o que havia lá dentro. Ele tentou imaginar o que estaria lá, mas a verdade era que era impossível imaginar. Poderia haver qualquer coisa, desde informações codificadas num supercomputador oculto até frascos de material vivo... qualquer coisa.
“Kevin” um dos repórteres gritou. “O que achas que tudo isto irá significar? Vais continuar a receber mensagens? Que impacto achas que terá na humanidade?”
“Eu não sei” respondeu Kevin. “Eu acho que… eu acho que eu gostaria que isto fosse uma espécie de um novo começo para as pessoas. Se sabemos que existem alienígenas por aí, acho que teremos que pensar em quem somos.”
Haveria tantas mudanças no mundo, e a parte mais triste disso era que ele provavelmente não estaria presente para ver a maioria delas. Mesmo esse pensamento não conseguiu afastar o seu entusiamo. Ele queria ver o que estava dentro da rocha. Ele pensou que, naquele momento, quase todos queriam.
“Se não há mais perguntas” disse o Professor Brewster “começaremos o processo de testes.”
Ele fez sinal para os cientistas no ecrã, que começaram a trabalhar com dispositivos que Kevin não sabia os nomes. Kevin deu por si a suster a respiração enquanto eles o faziam.
“O raio X parece inconclusivo” disse um dos cientistas. “Pode ser sólido, mas é difícil dizer o que é um resultado normal para um objeto como este.”
“A espectrometria sugere uma composição consistente com uma origem além da Terra” disse outro. “Semelhante a várias composições de meteoritos no nosso banco de dados.”
Kevin sentiu as suas esperanças se elevarem com isto, enquanto outra onda de barulho percorreu a sala. Parecia que os repórteres que ali estavam queriam descobrir o que havia dentro da cápsula tanto quanto ele. Ou quase tanto, pelo menos. Kevin não conseguia imaginar alguém a querer saber tanto quanto ele.
“Dado os nossos dados preliminares” o Professor Brewster perguntou aos cientistas no ecrã “existe alguma razão pela qual não deveríamos tentar abrir o objeto?”
Para Kevin, ele parecia estar a tentar soar o mais calmo e autoritário possível. Kevin apenas desejava que eles se apressassem. Ele não tinha a certeza de quanto tempo mais conseguiria ficar ali, à espera que eles fizessem a única coisa que todos eles sabiam que queriam fazer.
“Não há perigos óbvios” disse o cientista do outro lado da hiperligação do vídeo. “A estrutura da rocha parece suficiente para sobreviver ao processo, e as precauções apropriadas de segurança estão em vigor.”
Parecia uma maneira muito longa de dizer que eles poderiam fazê-lo, para Kevin, mas o principal era que eles estavam a dizê-lo.
“Muito bem” disse o Professor Brewster. “Comecem a cortar o objeto.”
Ele acenou para os cientistas no ecrã, e eles foram até à rocha, fixando-a no lugar para que pudessem trabalhar nela. Um voltou com uma serra elétrica que parecia grande demais para uma pessoa segurar. Parecia o tipo de coisa que poderia cortar com facilidade cimento ou metal.
Apesar de tudo, Kevin achava que ela podia ressaltar da superfície da rocha. Ele achava que uma cápsula alienígena suficientemente forte para fazer todo o caminho desde o sistema Trappist 1 deveria ser forte o suficiente para resistir a uma serra.
Porém, a serra começou a cortá-la, com faíscas e poeira a voarem enquanto ela mastigava a rocha.
“Estamos a encontrar alguma resistência” disse um dos investigadores. “Podemos ter que mudar para uma lâmina mais resistente.”
Eles continuaram, primeiro fazendo uma incisão ao redor da rocha como se esperassem que ela caísse aberta como um ovo de Páscoa no momento em que o fizeram, então arando-a com a serra quando isso não aconteceu. Eles continuaram até a poeira quase encher o ecrã, apenas abrindo lentamente, mostrando duas metades da cápsula bem divididas.
Kevin olhou para aquela imagem e supôs que todos os outros ali e ao redor do mundo estivessem a olhar naquele momento, tentando entender o sentido daquilo. Ele olhou para aquilo até os seus olhos lhe doerem, tentando identificar os detalhes que lhe diriam o que os alienígenas lhes haviam enviado. O que havia dentro da cápsula? O que é que tinha sido tão importante que eles tinham enviado a anos luz para um mundo completamente diferente?
Ele olhou para aquilo, primeiro com esperança primeiro, depois com descrença.
O que ele estava a ver simplesmente não fazia sentido.
CAPÍTULO DEZASSETE
Ao redor da sala, Kevin podia ouvir o murmúrio dos cientistas e dos repórteres quando começaram a perceber a mesma coisa que Kevin.
O interior da “cápsula” era apenas uma superfície sólida e rochosa. Não havia nenhum buraco, nenhum sinal de qualquer tecnologia avançada. A rocha que os cientistas tinham acabado de cortar era...
… bem, era uma rocha.
Instantaneamente, houve alvoroço, enquanto cem repórteres gritavam perguntas simultaneamente. No ecrã, os cientistas pareciam chocados, parados ali como se não soubessem o que fazer a seguir.
“Como quer que procedamos, Professor Brewster?” um perguntou. “Professor Brewster?”
Ele não respondeu. Do que Kevin conseguia ver, ele estava muito ocupado ali com o rosto vermelho, sem saber como responder.
“Professor Brewster, o que está a acontecer?” um jornalista disse mais alto do que os outros.
“Isto é algum tipo de brincadeira?” outro conseguiu gritar.
“Porque é que esta rocha está vazia?” um terceiro gritou.
Kevin podia ver o Professor Brewster a olhar em volta como se houvesse alguém que pudesse ter todas as respostas para si. Ele parecia tão envergonhado naquele momento que Kevin sentiu mesmo pena dele.
“Eu... eu não...” o Professor Brewster disse. Ele abanou a cabeça. “Sinto muito, mas houve algum engano…”
***
Kevin nunca se tinha sentido tão desapontado como se sentiu no voo de volta para São Francisco com os outros. Eles iam voltar para o instituto, porque tinham equipamentos para levar de volta, e porque o Professor Brewster dissera alguma coisa sobre querer fazer um relatório apropriado ali. Naquela momento, porém, uma parte de Kevin só queria correr para casa e se esconder.
Ele sentou-se ali, desejando ter a sensação que vinha antes de um sinal, à espera que houvesse algum tipo de resposta, uma explicação, mas não havia nada. Não havia há tanto tempo que era difícil lembrar que os sinais tinham sido reais, que eles não tinham sido apenas um produto da sua imaginação. Ele aninhou-se sobre si mesmo, sem saber o que pensar ou o que fazer naquele momento.
Talvez tivessem sido os auscultadores de ouvido, mas ali ninguém o incomodava. A sua mãe sentou-se ao lado dele no avião. Todos os outros pareciam manter a sua distância, até mesmo pessoas como Phil, Ted e a Dra. Levin, como se alguém os houvesse alertado sobre se aproximarem demasiado, dizendo-lhes que isto os prejudicaria agora pela associação com o fracasso de Kevin.
Era dele. Tinha sido ele a descodificar todos os sinais. Tinha sido ele a levá-los para a América do Sul e, em seguida, para o pequeno lago onde estava o meteorito. Alguma coisa tinha corrido mal algures, e Kevin não pôde deixar de sentir que tinha sido ele a falhar.
“Não te culpes” a sua mãe insistiu, obviamente adivinhando o que Kevin estava a pensar. “Não poderias saber que seria assim. Talvez devêssemos todos ter sido mais cuidadosos ao concordar com isto.
Parecia que a sua mãe se estava a culpar por ter levado Kevin ao SETI, para começar. Talvez ela estivesse a pensar que deveria ter sido mais firme sobre isto.
“Eu não sei o que correu mal, Mãe” disse Kevin. “Quero dizer, eu ouvi os sinais. E nós encontrámos a cápsula exatamente onde eles disseram que estaria.”
“Nós encontramos alguma coisa” a sua mãe corrigiu-o gentilmente. “Talvez estivéssemos todos tão ansiosos para a descobrir que pensámos que sabíamos o que seria. Todos nos convencemos.”
Só que tinha sido Kevin quem os tinha convencido, porque tinha sido ele quem tinha ouvido os sinais. Eles eram reais. Eles tinham vindo através do equipamento de escuta do instituto. Todos os tinham ouvido. Se sim, porque é que a cápsula não estava onde deveria estar?
“O que vai acontecer com a cápsula agora?” Kevin perguntou.
“Eu não sei” disse a sua mãe. “Acho que os vi a levarem-na para o avião. Eu acho que ninguém se importa com quem é dono dela agora já que é apenas uma rocha. Isto já não importa agora. O importante é que a gente te leve de volta em segurança.”
Algo sobre a maneira como ela disse aquilo a Kevin que lhe disse a ele que a sua mãe estava preocupada em ser capaz de o fazer. Ela parecia estar à espera de problemas, e Kevin não conseguia entender porquê.
Ele percebeu assim que eles aterraram, porém, descendo do avião e depois saindo para a área das chegadas do aeroporto. Quase logo a seguir, ele ouviu um conjunto de vozes, com flashes de câmaras a soarem em todos os lugares.
“Porque é que fizeste isto, Kevin?” um repórter perguntou.
“Diz-nos que isto não é uma farsa!” um homem ao fundo gritou.
“Nós acreditámos em ti!”
Havia repórteres ali, mas havia outras pessoas também, algumas com cartazes, algumas apenas a gritar. Ninguém ali parecia feliz em ver Kevin. Eles juntaram-se em torno dos cientistas, pressionado enquanto eles começavam a descarregar os seus equipamentos. O meteorito estava algures por ali. Agora que não havia sinal de alienígenas, ninguém se importava se eles o levassem de volta para a instalação da NASA.
“É correto que o público pague por tudo isto quando vocês vão para a Colômbia perseguir pedras?” um repórter disse falando alto. “Não acham que isto é um desperdício de dinheiro que poderia ser gasto em escolas ou no exército?”
As pessoas aproximaram-se, ainda a gritarem perguntas, e, por um momento ou dois, Kevin sentiu-as a pressionarem de todos os lados. Ele deixou de ver a sua mãe no aperto, e então foi como se ele estivesse a afogar-se nos flashes das câmaras, com as perguntas a aparecerem tão rápido a ponto de serem quase ensurdecedoras.
“Porque é que mentiste, Kevin?”
“Foi só para chamar a atenção?”
“Foi tudo por causa da tua doença?”
Kevin manteve a cabeça baixa, sem saber o que dizer. Ele procurou um caminho através da multidão, mas em todos os lugares para onde ele olhava havia pessoas a olharem para si com expressões acusadoras. Alguns agarravam-no; não os repórteres, mas eles estavam felizes o suficiente para tirarem fotos enquanto as pessoas com os sinais o faziam.
“Fraude! “Mentiroso!”
Kevin encolheu-se ainda mais, e ele sentiu como se a qualquer momento pudesse cair no chão sob o peso de todos eles, empurrado para baixo pelo grande número de pessoas ao seu redor. Outra mão agarrou-o, mas esta não o largou, puxando-o através da multidão. Kevin viu Ted ali, empurrando para trás qualquer um que chegasse perto demais, pondo a sua mão entre ele e os flashes da câmara.
“Continua a andar!” ele gritou acima do barulho. “Está um carro à espera lá fora!”
Kevin deu o melhor de si, não parando quando Ted abria caminho entre os repórteres como alguém a abrir caminho pela neve. Kevin apressou-se a entrar naquele espaço antes de esse se tornar pequeno novamente, continuando enquanto eles seguiam em frente, em direção à entrada principal do aeroporto.
“Ali fora!” disse Ted, apontando para onde uma minivan estava à espera, com a mãe de Kevin e meia dúzia de cientistas já lá dentro. Houve um breve momento de espaço ali, e Kevin correu para o veículo, saltando lá para dentro para o lado da sua mãe. Ela agarrou-se a ele como se temesse que, se o soltasse, ele desaparecesse. Pela primeira vez, Kevin não se queixou.
Ted conduziu, encaixando-se num comboio de veículos que parecia tão tenso, de certa forma, como tinha sido na floresta tropical. Kevin via carros a aproximarem-se, com as suas janelas a abrirem-se para revelarem mais câmaras, mas Ted continuava a conduzir.
Pareceu demorar uma eternidade até chegarem à instalação da NASA. As multidões que a tinham rodeado antes ainda estavam lá, mas agora não estavam curiosas, estavam zangadas. Kevin conseguia ouvi-los a gritar enquanto eles entravam com a minivan e, quando Ted parou em frente às portas do instituto, Kevin entrou sem hesitar. Ele nem sequer tentou falar com eles, para explicar. Ele não tinha a certeza se tinha uma explicação. Em vez disso, Kevin correu de volta para o seu quarto na instalação. Ele ignorou a sua mãe quando ela o seguiu, ficando lá à espera que, de alguma forma, alguma coisa fizesse sentido.
Como não fazia sentido, ele foi para uma das salas de recreação e usou um computador que estava lá para ligar para a única pessoa que poderia entender o que estava a acontecer com ele.
Luna parecia preocupada quando Kevin ligou, e Kevin conseguia imaginar porquê.
“Tu viste a transmissão” disse ele.
“Eu acho que toda a gente viu a transmissão” respondeu Luna. “Eu não entendo. Eu pensava que deveria haver alguma coisa especial...não sei, coisas de alienígenas.
“Eu também pensava isso” disse Kevin. “Agora... tenho a certeza que interpretei bem os sinais.”
“Não comeces com isso” disse Luna, na sua voz firme. “Não comeces a duvidar de tudo isto. Eu estava lá quando tu viste os números, lembras-te? Eu sei que isto é real.”
Era bom sentir que alguém acreditava em si, especialmente Luna. Havia algo de muito tranquilizador na convicção de Luna. Era uma convicção trabalhada, inabalável e forte. Kevin precisava disso naquele momento.
“Podes não querer voltar para a tua casa agora” disse Luna. “Sabes como tem havido repórteres lá desde que isto começou?”
Kevin assentiu.
“Bem, agora há mais do dobro, além de um monte de outras pessoas que não parecem felizes. É como uma multidão ou algo assim.”
“É porque eu lhes dei um sonho” disse Kevin. “E eles acham que eu lhes menti.”
“Bem, eles não deviam culpar-te” disse Luna. “Quero dizer, eu estava a assistir a essa transmissão. O próprio Professor Brewster disse que a rocha era do espaço sideral.”
Porem, isto não era suficiente, pois não?
“Eu não acho que isto vá melhorar as coisas” disse Kevin. “Eles dirão que foi apenas um meteorito qualquer. Há muitos desses.”
Na verdade, ele suspeitava que isso iria piorar as coisas, porque se havia uma pessoa que não gostava de parecer estúpida, era...
“Kevin” a sua mãe chamou da porta. Ela estava ali com Phil. “Precisas de vir connosco. O Professor Brewster quer falar contigo e comigo.”
Kevin engoliu em seco, porque isso era muito parecido como quando o diretor queria falar com alguém na escola.
“Parece que eu tenho que ir” disse Kevin para Luna.
“Ok” respondeu Luna. “Mas lembra-te, isto não é culpa tua.”
Kevin tentou lembrar-se disso ao fazer o seu caminho com a sua mãe e Phil pela instalação. Normalmente, o investigador poderia ter brincado, mas agora ele tinha um olhar sério, e mal abria a boca, apenas abrindo as portas à frente deles à medida que era preciso. Quando eles chegaram ao gabinete do Professor Brewster, Phil não disse nada, apenas se virou e saiu.
“O que foi aquilo?” Kevin perguntou à sua mãe.
“Eu acho que muitas pessoas ficam magoadas quando as pessoas estão muito zangadas com elas” disse ela. “Todas acreditavam que encontrariam alienígenas e... não encontraram, Kevin.” Ela pegou na mão dele. “Tens que estar preparado. Eu... eu acho que isto não vai ser nada bom.”
Eles entraram no gabinete do Professor Brewster. Ele estava à espera deles, sentado atrás da sua secretária, parecendo formal, mesmo imponente. Ele não os cumprimentou quando eles entraram, apenas fez sinal para Kevin e para a sua mãe se sentarem em duas cadeiras que estavam à frente da sua secretária.
“Kevin” disse ele “Sra. McKenzie, precisamos de conversar.” Ele fez uma pausa, olhando para Kevin como se estivesse a tentar vê-lo. “Kevin, eu preciso de te perguntar, inventaste tudo isto?”
“Como é que se atreve a perguntar isso ao meu filho?” a mãe dele exigiu saber, praticamente levantando-se da cadeira. “O Kevin não é um mentiroso.”
“Por favor, sente-se, Sra. McKenzie” disse o Professor Brewster. “Kevin, inventaste isto?”
Kevin não podia acreditar que ele estava a perguntar aquilo.
“Não” Kevin disse, abanando a cabeça.
“Tens a certeza?”
“Isto é desnecessário” disse a mãe de Kevin. “Você não tem o direito de perguntar isso.”
O Professor Brewster juntou os dedos. “Dada a quantidade de dinheiro que o governo colocou neste projeto, não só tenho o direito de perguntar, como também tenho a obrigação. Kevin?”
“Você ouviu os sinais” disse Kevin. “Eu não inventei isto!”
“Eu ouvi sinais, sim” disse o Professor Brewster. “Mas tu eras o único que conseguia 'traduzi-los' e o espaço é cheio de excentricidades eletromagnéticas.”
“Eu não inventei isto” disse Kevin. “Eu dei-lhe os números para as coordenadas. Eu dei-lhe informações que mais ninguém sabia sobre os planetas.”
“Que tu poderias ter memorizado” disse o Professor Brewster. Ele olhou para a mãe de Kevin. “Talvez tenhas sido treinado.”
“Está a acusar-me de alguma coisa?” a mãe de Kevin reagiu.
“Estou apenas a dar nota da possibilidade” disse o Professor Brewster. Ele suspirou. “Assim como muitas outras pessoas. A verdade é que vocês vieram ter connosco e nós apostámos recursos em vocês que não deveríamos. Nós providenciámos-vos com assistência médica, testes... e agora eu tenho pessoas importantes a telefonarem-me para perguntar se isto tudo foi uma artimanha.”
“Não foi” insistiu Kevin. Porque é que as pessoas não estavam a acreditar nele agora?
“Então porque é que não havia nada para além de pedra quando cortamos aquela tua 'cápsula'?” o Professor Brewster perguntou.
“Eu... não sei” admitiu Kevin. Deveria ter havido mais. Ele não entendia isto. “Você disse que era do espaço.”
Ele viu o Professor Brewster estremecer ao ouvir isso. “Não me lembres. Eu coloquei a minha reputação em risco ao apoiar-te, Kevin. Eu levantei-me em frente das pessoas e disse-lhes que tu eras real. Mas muitas rochas são do espaço. A qualquer momento, a Terra é salpicada por fragmentos do espaço. Temos caçadores de meteoritos que os vendem pela Internet. A verdade é que este não tinha nenhuma evidência dos alienígenas que tu prometeste.”
Kevin tentou se lembrar do que Luna lhe havia dito. “Isto não é culpa minha.”
O Professor Brewster pousou as mãos na mesa, abanando a cabeça. “A verdade é que isso não importa neste momento” disse ele. “O facto é que a tua presença aqui tornou-se tóxica para esta instalação. Pessoas poderosas esperavam resultados de nós e não conseguimos entregá-los. Já recebi telefonemas a sugerirem que nosso financiamento será cortado se não rompermos todos os vínculos contigo imediatamente.”
Kevin tentou entender isso. “Você... você está a mandar-me embora?”
Professor Brewster estava com o rosto impassível. “Eu não sei se tu fingiste tudo isto ou não, mas eu vou dizer isto: o FBI já está a investigar se tu e a tua mãe cometeram crimes através das vossas ações aqui. A melhor coisa que podes fazer agora é ires-te embora, irem-se os dois embora. Não levarás nada contigo e receberás uma fatura em devido tempo por quaisquer serviços médicos que tenhamos prestado.”
“Vamos, Kevin” a sua mãe disse. “Vamo-nos embora.”
Ela conseguiu fazer com que soasse como algo que eles estavam a escolher fazer, ao invés de algo que eles tinham acabado de ser ordenados a fazer. Ela caminhou com raiva pelos corredores que levavam até à saída do edifício, e se Kevin não tivesse conseguisse ver as lágrimas nos cantos dos olhos dela, ele poderia ter acreditado que ela estava realmente furiosa e não magoada.
Eles passaram pela Dra. Levin, que praticamente se afastou deles. Kevin parou à frente dela, à espera que ela conseguisse resolver tudo isto.
“Dra. Levin...” ele começou.
A diretora do SETI não lhe deu tempo para terminar. “Sinto muito, Kevin. Eu ouvi o que aconteceu.”
“Você poderia conversar com o Professor Brewster” disse ele.
A Dra. Levin abanou a cabeça. “Eu não acho que o David me fosse ouvir agora. Eu perdi muito da minha credibilidade por aqui, ao trazer-te até eles.”
“Mas eu não estou a inventar isto” insistiu Kevin.
A Dra. Levin suspirou. “Eu sei que tu acreditas nisso, Kevin” disse ela. “É só que… talvez eu devesse ter verificado as coisas com mais cuidado. Talvez tu tenhas descoberto as coisas de outra maneira e nem te tenhas apercebido.”
“Isso não aconteceu” insistiu Kevin.
A sua mãe agarrou-o pelo braço. “Vamos, Kevin. Já acabámos o que tínhamos para fazer aqui. Nós vamos para casa.”
Ela afastou-o da Dra. Levin e, quando Kevin olhou para a cientista, a Dra. Levin não olhou para ele. Os dois continuaram na direção da saída e saíram para o barulho das perguntas que estavam a ser gritadas de todos os ângulos.
Para sua surpresa, Ted estava ali à espera, parado ao lado do carro da mãe de Kevin. Ele devia ter ido buscá-lo, trazendo-o de volta para eles.
“Também está aqui para questionar a honestidade do meu filho?” a mãe de Kevin perguntou, movendo-se entre ele e Ted.
Para surpresa de Kevin, ou talvez não, Ted abanou a cabeça. “Nada disso. Eu só queria falar com ele.”
A mãe de Kevin parecia não ter a certeza, mas Kevin pôs a mão no braço dela.
“Tudo bem, Mãe” disse ele. “Eu confio no Ted.”
Ele tinha confiado em muitos cientistas também. Ele olhou para Ted.
“Eu não inventei isto” disse ele.
“Eu nunca disse isso” respondeu Ted. “As pessoas mudam o que pensam para se encaixarem. Elas ficam desapontadas porque as coisas não dão certo, e, então, procuram alguém para culpar. Elas começam a pensar que a prova que viram com os seus próprios olhos devia ser uma artimanha.”
Ele estendeu a mão e Kevin agarrou-a. “Obrigado, Ted.”
“Toma cuidado contigo” disse Ted. “E... tenta não deixar que as coisas que eles vão dizer te afetem demais, ok?”
“Ok” Kevin prometeu.
No entanto, ele não conseguia ver como poderia evitar isso. Ele tinha prometido ao mundo alienígenas e ele tinha falhado.
Ele tinha falhado.
Ele era uma fraude, afinal? Ele havia inconscientemente imaginado tudo aquilo?
CAPÍTULO DEZOITO
Havia repórteres a cercarem a casa de Kevin quando eles lá chegaram. Repórteres e manifestantes, e até mesmo alguns polícias, obviamente ali para manter os restantes afastados. Kevin mantinha a cabeça baixa no banco do passageiro do carro da mãe, na esperança de que ninguém o visse, mas não havia nenhuma verdadeira esperança de que tal acontecesse. No momento em que viram o carro a estacionar, a massa de pessoas cercou-o e o carro praticamente brilhava com o clarão dos flashes da câmara.
“Quando eu abrir a tua porta, não pares” disse a sua mãe. Ela saiu e Kevin preparou-se.
Ela abriu a porta do lado dele, envolvendo um braço protetor em torno de Kevin, embora ele fosse mais alto do que ela.
“Afastem-se” ela gritou para eles. “Saiam da minha propriedade.”
Os repórteres recuaram um pouco, mas a pressão das pessoas mal diminuiu. Kevin segurou-se com força à sua mãe enquanto eles tentavam passar. Os polícias gritavam para as pessoas recuarem, mas não faziam nada para ajudar os dois fisicamente. Kevin teve a sensação de que provavelmente eles estavam tão chateados quanto todos os outros sobre o que havia acontecido. Quantos deles tinham acreditado que estavam prestes a falar diretamente com os alienígenas? Quantos deles agora o odiavam porque a cápsula não tinha sido o que eles esperavam?
Ele e a sua mãe avançaram de qualquer maneira, empurrando as pessoas que os agarravam, exigindo respostas a perguntas para as quais Kevin não tinha uma resposta.
“Porque é que não havia alienígenas lá?”
“Porque é que fizeste tudo isto?”
“Sabes quantas pessoas magoaste?”
Kevin viu a sua mãe a virar-se para eles com raiva e tentou puxá-la de volta, mas era demasiado tarde para fazer alguma coisa a esse respeito.
“Deixem o meu filho em paz!” ela gritou. “Ele não fez nada de errado. Ele está doente!”
Eles abriram caminho até à casa, fechando a porta atrás deles. Kevin viu a sua mãe a fechá-la da mesma forma que ela a poderia ter fechado se achasse que as pessoas iriam tentar entrar. Ela percorreu a casa, puxando as cortinas, bloqueando os flashes dos fotógrafos juntamente com a luz.
Kevin foi até à televisão e ligou-a. Estavam a dar as notícias, com fotos da sua casa do lado de fora, e um pequeno vídeo da sua mãe que a fez parecer como uma louca quando ela repeliu os repórteres.
“Deixem o meu filho em paz. Ele não fez nada de errado aqui. Ele está doente!”
As palavras ‘Uma admissão do embuste?’ passavam na parte inferior do ecrã, numa pergunta que conseguia acusar sem acusar. Fazia com que aquilo parecesse como se a mãe de Kevin estivesse a tentar desculpá-lo de fazer algo errado, ao invés de defendê-lo como ela tinha feito.
Ela tinha, não tinha?
“Devias desligar isso” disse a sua mãe. Ela passou por Kevin, a fazer exatamente isto, enviando a ecrã para a escuridão. “Não vai adiantar nada vê-los a dizer tudo isto sobre ti.”
“Mãe” disse Kevin “o que eles estão a dizer... Eles estão a insinuar que tu, na verdade, não acreditas em mim. Como se tu pensasses que eu estou a inventar porque estou doente.”
A mãe dele não respondeu por um momento ou dois.
“Tu pensas isso” disse Kevin. Ele não podia acreditar. Ele havia pensado que a sua mãe, de todas as pessoas, acreditaria nele a esta altura.
“Eu não sei o que pensar, Kevin” disse a sua mãe. Ela parecia tão cansada naquele momento. “Eu sei que tu acreditas em tudo isto.”
“Nós encontrámos o sinal” insistiu Kevin. “Tu defendeste-me perante o Professor Brewster.”
“Tu és meu filho” disse a mãe dele. “Eu não vou deixar que eles digam coisas más sobre ti, independentemente do que aconteça. Seja verdade ou não… não sei. Eu estava convencida, mas tudo o que aconteceu com a pedra...”
Kevin sentia-se mal por dentro. Ele sentiu como se as coisas estivessem de volta ao ponto em que a sua mãe o tinha levado para o SETI, a fazê-lo apenas porque achava que era algo que Kevin precisava de fazer. Ele não queria que ela fizesse coisas porque ela era a sua mãe e sentia que tinha que as fazer. Ele queria que ela acreditasse em si.
“Eles vão acabar por se irem embora” disse a sua mãe. “Eles vão se esquecer de tudo isto. Podemos continuar com as nossas vidas sem eles, sem alienígenas, sem nada disso.”
Ela soava como se estivesse a tentar tranquilizar Kevin, mas Kevin não tinha a certeza se era assim tão reconfortante.
Ele poderia ter dito exatamente isto, mas o telefone da sua mãe tocou naquele momento.
“Estou” disse ela. “Quem é... não, eu não tenho nada a dizer-lhe a si ou a qualquer outro repórter.”
Ela mal tinha desligado quando o telefone tocou outra vez e mais outra vez. De cada vez, ela desligava apenas depois de alguns segundos de conversa. Quando o telefone tocou de novo, Kevin pensou que a sua mãe poderia atirar o telefone para o outro lado da sala. Porém, ela fez uma pausa enquanto o segurava, olhando para a ecrã com uma expressão preocupada.
“O que é, Mãe?” Kevin perguntou.
“É do trabalho” a sua mãe disse, e algo sobre a maneira como ela o referiu disse a Kevin o quão assustada ela estava. Ela aceitou a chamada, fazendo sinal a Kevin para ele não fazer barulho. “Estou, Sr. Banks. Sim, é muito mau. Sim, eu sei que estive fora, mas o meu filho... sim, eu sei. Não, eu entendo isso, mas… você não pode fazer isto. Eu sei que é má publicidade, mas você não pode...” Ela ficou em silêncio, ouvindo por vários segundos. “Não, eu entendo.”
Ela terminou a chamada, e, desta vez, ela atirou mesmo o seu telefone, sentando-se na beira do sofá, com a cabeça entre as mãos.
“Mãe?” Kevin disse, estendendo-lhe a sua mão. “O que aconteceu?”
“Era do meu trabalho” disse ela, sem olhar para cima. “Eles… eles despediram-me. Eles disseram que não querem a publicidade negativa que pode advir de empregarem alguém ligado a tudo isto.”
Eles podem fazer isso?” Kevin perguntou. Não parecia o tipo de coisa que as pessoas deveriam poder fazer, especialmente quando eles não tinham feito nada de errado.
“Eles dizem que podem” disse a sua mãe “e se eu lutar contra isto, bem, tenho a certeza que eles iriam torna-lo tão dispendioso que eu não conseguiria fazer nada, e talvez um juiz concordasse que sou eu que estou a causar os seus problemas de negócio por estar lá de qualquer maneira.”
Não parecia justo para Kevin. Não parecia certo. Pior, não soava como se houvesse algo que eles pudessem fazer sobre o assunto.
“Sinto muito, Mãe” disse ele. “Se eu tivesse guardado tudo isto para mim...”
“Não é culpa tua” disse a sua mãe.
Kevin sabia que isso não era verdade. Graças à televisão, ele sabia que a sua mãe nem pensava isso. Ele tinha ido à NASA falar sobre alienígenas, e agora a sua a mãe estava a ser despedida, enquanto ninguém acreditava nele relativamente ao que ele tinha ouvido.
“Vai ficar tudo bem” disse a sua mãe. Ela não parecia acreditar nisso. “Nós vamos encontrar uma maneira de resolver as coisas.”
Ela sentou-se ali no sofá, sem ligar a televisão, sem nenhum dos dois se atrever a abrir as cortinas. Por fim, Kevin foi até ao seu quarto, sentando-se lá no escuro para que a sua mãe não se preocupasse tanto com ele.
Depois de um tempo, ele agarrou nos auscultadores de ouvido que Ted lhe dera antes de deixar o instituto, e colocou-os mais para afastar os sons dos repórteres lá fora do que porque ele realmente achava que algo iria acontecer. Talvez ele tivesse esperança que isso acontecesse. Se, ao menos, ele conseguisse outra mensagem que ajudasse a entender tudo isto, talvez ele pudesse ir até aos repórteres lá fora e explicar tudo. Talvez ele pudesse fazer as pessoas entenderem novamente que era real, e que ele não estava a mentir.
No entanto, apenas houve silêncio. Nenhum sinal, nenhuma palavra na sua cabeça, nenhum sinal de qualquer coisa que ajudaria. Kevin tirou os auscultadores de ouvido e atirou-os para o lado, acomodando-se para dormir. Talvez de manhã, as coisas ficassem melhores.
***
Kevin foi até à janela do seu quarto, olhando lá para fora da mesma maneira que estaria a olhar se estivesse à procura de neve em outro lugar que não a Califórnia. Ele estava à procura de jornalistas, com a esperança de que a esta altura, alguns dias depois, eles já se tivessem entediado por estarem à espera ao redor da casa e voltassem para as suas casas.
Eles não tinham voltado. Ainda havia câmaras na frente da casa, ainda havia repórteres com microfones à espera de qualquer próximo passo na sua história. Kevin desejava que eles se fossem embora, e pensou pela centésima vez em ir até lá para lhes dizer para fazerem exatamente isto, mas ele não fez. Não era a mesma coisa que traduzir as mensagens enquanto as pessoas assistiam numa conferência de imprensa, e, de qualquer forma, Kevin suspeitava que era exatamente o que eles estavam à espera.
Em vez disso, ele foi-se vestir e cambaleou um pouco quando uma onda de tontura o atingiu. Seguiu-se a dor, latejando o seu crânio, e Kevin sentiu humidade nos seus lábios. Quando ele colocou a mão no nariz, ele ficou vermelho de sangue. Ele até se sentia mais doente hoje, com o esforço de ir à casa de banho e se limpar quase o exaurindo.
Ainda assim ele fê-lo. Ele não queria preocupar a sua mãe. Ele certificou-se de que estava com bom aspeto ao descer as escadas, tentando esconder o leve tremor nas suas mãos que não se tinha ido embora.
Ele não tinha percebido até então o quanto tinham cuidado dele no instituto de investigação. Ele tinha reclamado de todos os testes, exames e do resto, mas talvez algures no meio de tudo aquilo tivesse havido algo que tivesse estado a retardar a sua doença. Ou talvez ele estivesse estado tão ocupado que não tivesse notado a sua progressão.
“Não posso preocupar a minha Mãe” ele disse a si mesmo.
Quando ele desceu, ele ouviu vozes.
“Sinto muito, Sra. McKenzie, mas isto não é uma piada. Estão a ser intentadas ações contra si por usar o seu filho para defraudar pessoas, e nós precisamos de as levar a sério.”
Kevin correu até lá e viu algumas pessoas de fato a conversarem com a sua mãe. Ela estava com um aspeto de quem não tinha dormido nada e, quando ela olhou para Kevin, ele viu as suas olheiras.
“Ah, aqui está o seu filho” disse um dos homens. “Talvez pudéssemos tomar nota de uma declaração dele agora, e isso poderia ajudar.”
“Não” a sua mãe disse “não agora, não assim. Eu só quero que as pessoas deixem o meu filho em paz.”
“Eu não me importo, Mãe” disse Kevin.
“Bem, mas eu importo-me” a sua mãe disse. “Vai para a cozinha, Kevin. Eu preciso de falar com estas pessoas.”
Se ela tivesse gritado, Kevin poderia ter argumentado. Em vez disso, ela soava incrivelmente triste, e Kevin fez o que ela pediu, indo até a cozinha e sentando-se à mesa da cozinha. Durante todo o tempo, ele tentou ouvir através das paredes o que estava a acontecer.
“Eu vou ter que vender a casa” disse a sua mãe. “O que isto vai custar... não consigo pensar em outra maneira.”
“Eu entendo que isto é difícil, Sra. McKenzie, mas é importante lidarmos com isto. A alternativa poderia ser prendê-la a si ou ao seu filho.”
Os dedos de Kevin agarraram a borda da mesa da cozinha com tal força que ele se magoou. Eles não poderiam fazer isto, pois não? Eles não podiam atirar a sua mãe para a cadeia, quando ele tinha dito a verdade. Ele ficou ali, parte dele querendo explodir, parte dele sabendo que tudo aquilo era demasiado importante para ele o fazer.
Ele ainda estava sentado lá quando viu uma figura a esgueirar-se no seu quintal, com um gorro a cobrir a sua cabeça e um casaco grosso puxado para cima para esconder as suas feições. Ela saltou com a graciosidade de alguém que já tinha feito esse tipo de coisas muitas vezes antes, aterrando ordenadamente no quintal.
Se tivesse sido um repórter ou algum estranho a escalar a cerca, ele não sabia o que teria feito. Chamado por ajuda, provavelmente. Interrompido a sua mãe apesar da seriedade do que estava a acontecer. Em vez disso, ele abriu a porta da parte de trás da casa, deixando Luna entrar enquanto ela se apressava.
“Ei” disse ela, abraçando-o tão de repente que quase apanhou Kevin de surpresa.
“Ei” respondeu Kevin. “Imagino que não poderias chegar aqui pela entrada da frente?”
“Demasiados repórteres” Luna concordou, recuando. Ela afastou o gorro. “Gostas do meu disfarce?”
“É ótimo” disse Kevin, mas ele não conseguiu sorrir.
“O que foi?” Luna perguntou. Ela abanou a cabeça. “Pergunta estúpida.”
Kevin sentou-se e Luna juntou-se a ele. Quantas vezes eles tinham feito os deveres da escola assim? Porém, isto parecia diferente, mais sério.
“Há advogados na outra sala” disse ele. “Eles estão a dizer que minha mãe pode ir para a cadeia e que talvez tenhamos que vender a casa.”
“Porquê?” Luna quis saber, no tom indignado que dizia que ela estava pronta para os combater, advogados ou não. “Tu não fizeste nada de mal.”
“Eles acham que eu fiz” disse Kevin. “Eles acham... eu acho que eles pensam que eu fiz tudo isto para chamar a atenção, ou para que eles me dessem tratamento médico, ou algo assim.”
“Então eles são idiotas” declarou Luna, com o tipo de certeza de ferro que ninguém ao seu redor parecia ter. “Tu deste-lhes mensagens de outro mundo. Tu contaste-lhes tudo sobre um planeta, do qual, caso contrário, eles mal saberiam alguma coisa. Tu ajudaste-os a encontrar o meteorito, mesmo que estivesse vazio. Não é culpa tua que os alienígenas sejam esquisitos e enviem pedras para as pessoas como presentes.”
Era uma maneira de ver as coisas e Kevin suspeitava que ninguém além de Luna o conseguisse ver assim. Mesmo assim, ele gostava disso.
“Então, tu acreditas em mim?” ele perguntou.
Ela assentiu. “Eu acredito no que tu dizes. E eu acredito em ti também. Tu vais encontrar uma maneira de lidar com isto.”
“E tu trepaste a minha cerca só para me dizer isso?” Kevin perguntou.
Luna colocou uma mão no ombro dele. “Para que servem os amigos? Eu gosto de entrar sorrateiramente. É divertido. Além disso, preciso de te levar a um lugar.”
Kevin olhou para ela surpreendido.
“Onde?” ele perguntou.
Ela sorriu escancaradamente.
“É uma surpresa.”
CAPÍTULO DEZANOVE
Kevin viu-se ao espelho antes de sair. Não era vaidade; ele queria ter a certeza de que não havia como alguém conseguir reconhecê-lo. Ele tinha o capuz puxado para cima sobre a cabeça, óculos escuros para quebrar algumas das linhas do rosto. Não estava fantástico, mas se ele se curvasse o suficiente, ele poderia quase se convencer de que as pessoas não seriam capazes de o reconhecer.
“Vai ter que servir” disse ele para si mesmo.
A sua mãe havia saído de casa alguns minutos antes, para ir conversar com mais advogados, ou talvez tentando encontrar outro emprego, não que alguém quisesse contratar a mãe do rapaz que tinha mentido. As portas estavam trancadas contra a presença contínua dos repórteres na frente, e provavelmente permaneceriam assim mesmo depois que ela voltasse.
“Ela vai ficar furiosa se descobrir que eu fiz isto” disse Kevin, mas isto era parte do motivo pelo qual ele estava a usar o disfarce. Ele já estava na casa há muito tempo, sem escola por causa da sua doença, sem possibilidade de sair por causa dos repórteres e do medo da sua mãe pelo que poderia acontecer. Ele estava a ficar louco ali, e ele suspeitava que isto só estava a dificultar as coisas para a sua mãe. Ele precisava sair pelo menos por um tempo.
O telefone dele estava cheio de mensagens de pessoas que ele não conhecia. Algumas eram perguntas, mais ainda eram insultos. Uma ou duas ameaçavam ou prometiam que pagariam a Kevin se ele lhes contasse a sua história.
Kevin não tinha a certeza se queria ser cuidadoso então. Ele sentia-se como se pudesse explodir se permanecesse escondido por muito mais tempo. Ele espreitou para a para de trás da casa, tentando avaliar se iria conseguir sair de lá da mesma maneira que Luna tinha entrado. Há algumas semanas, ele não teria tido que se preocupar com isto.
Agora, ele pensava sobre os tremores que iam e vinham no seu corpo, os momentos em que ele perdia a noção do tempo e as tonturas. Ele foi buscar um escadote que a sua mãe guardava na garagem, colocando-a contra a cerca e usando-o para subir, para um pequeno caminho que passava entre os pátios.
Kevin manteve a cabeça baixa enquanto prosseguia, certificando-se de que ninguém via o seu rosto. Apesar da parte da cidade onde ele morava não ser má, ficava a poucos quarteirões de uma área mais industrial, onde as fábricas ficavam presas como caixas cercadas e, ocasionalmente, máquinas enferrujadas indicavam quais os negócios que não se tinham saído tão bem.
“Vamos” disse Luna, depois de eles saltarem a cerca, partindo numa caminhada que os levou através de alguns dos edifícios abandonados, passando por grafites que pareciam ter sido pintados por alguém com os olhos fechados.
Eles dirigiram-se mais para o centro da cidade. Kevin manteve o capuz para cima, certo de que mesmo aqui, longe da sua casa, as pessoas o localizariam.
“Podíamos ir ao centro comercial” sugeriu Luna.
Kevin abanou a cabeça. “Demasiadas pessoas.”
“À praça então” sugeriu Luna.
Kevin assentiu. Podia haver quase tantas pessoas lá no meio da cidade, mas elas estariam a deslocar-se mais, menos propensas a reparar num rapaz que mantinha a cabeça baixa. No centro comercial, a segurança provavelmente pensaria que ele estava lá para roubar alguma coisa, mas a céu aberto, ele e Luna poderiam andar onde quisessem sem que isto fosse um problema.
Eles dirigiram-se para o centro da cidade, para uma pequena praça para onde eles e os seus amigos iam desde crianças. Havia um bloco de parque mais pequeno ali, com árvores em cada canto, e uma estátua no meio que provavelmente já fora um monumento a alguém muito importante, mas que agora estava gasta pelo vento e pela chuva. Quando lá chegaram, Kevin estava tão exausto que começou a procurar um banco para se sentar.
“Kevin” disse Luna “o que se passa?”
“Estou cansado” disse Kevin.
Luna franziu a testa, obviamente não acreditando. “Bem, podemos sempre ir ao Frankie's.”
O restaurante era um dos lugares favoritos deles há muito tempo. Talvez se Kevin não estivesse tão exausto, ele pudesse ter ficado preocupado com isso, mas assim, dava-lhe jeito ir para algum lugar onde ele conseguisse recuperar um pouco do esforço da caminhada. Ele assentiu.
“Eu pensei que tu tinhas conseguido caminhar pela selva” disse Luna.
“Eu acho que as coisas estão a piorar” disse Kevin, enquanto seguiam em direção ao restaurante. “É como se eu tivesse que me concentrar para fazer com que o meu corpo faça as coisas.”
Mesmo isto não lhe estava a sair bem, mas ele não tinha a certeza se havia palavras para isto. Essa era uma das partes mais difíceis sobre ter uma doença tão rara: significava que não havia realmente palavras para descrever tudo o que estava a acontecer.
“Devias ir ao hospital” disse Luna, e ela parecia querer chamar uma ambulância imediatamente.
Kevin abanou a cabeça. “Não adianta. Nós sabemos o que está a acontecer comigo. Não é como se eles pudessem fazer muito para ajudar.”
“Isso não pode ser verdade” disse Luna. Por um momento, ela calou-se, e Kevin pensou que talvez ela pudesse chorar. “Eu sei… eu sei que eles não te podem curar, mas eles podem ajudar-te com os sintomas e coisas, certo? Eles podem retardar as coisas? Eles estavam a fazer isto na NASA.”
“Porque eles tinham alguns dos cientistas mais inteligentes do mundo” destacou Kevin. “Eu acho que eles não vão querer ajudar agora. E… se eu for ao hospital agora, acho que seria muito caro. Eu acho que a minha Mãe nem sequer podia pagar o meu tratamento mesmo antes de tudo isto. Agora, com os advogados e outras coisas...”
Kevin não sabia quanto custava um processo judicial. Muito, ele supunha. O seu tratamento custava muito também. Isso era duas vezes um lote, então? Um lote quadrado? Quando ele não tinha qualquer ideia dos valores envolvidos, a sua imaginação não podia sequer começar a fornecer os valores.
“Ok” disse Luna, “mas devemos pelo menos entrar. Vem, Frankie's não está longe.”
Eles entraram e não estava cheio àquela hora do dia. Havia alguns rapazes que Kevin reconheceu, dois indivíduos mais velhos num canto e o dono, um homem de cinquenta e poucos anos que parecia passar a maior parte do tempo a limpar o balcão com um pano. Era um lugar deliberadamente antiquado, significando que os amigos de Kevin não gostavam, mas, por outro lado, também tinham ótimos gelados.
“Eu vou buscar gelados” disse Luna, apontando para uma banca de canto. “Senta-te.”
Era uma ordem, e Kevin fez o que ela disse. Ele precisava de se sentar de qualquer maneira, e se isso significava que Luna estava a comprar o gelado, melhor ainda. Havia uma televisão no canto do restaurante e, por um momento ou dois, Kevin achou que isso não fazia mal. Então a notícia chegou e as fotos das cenas em torno da sua casa continuavam.
Kevin fez o possível para ignorar aquilo, mas não era fácil. Que a estação de televisão ainda lá estivesse não o surpreendia; talvez alguém ainda acreditasse, ou talvez eles não tivessem conseguido olhar para outra coisa ainda. De qualquer forma, ele estava ali sentado, curvado sobre si mesmo. Era difícil imaginar que apenas até há algumas semanas, ele e Luna vinham aqui regularmente; que tudo era normal. Agora, ele estava sentado aqui, e, até onde Kevin sabia, ele estava praticamente à espera para morrer.
Esse era um pensamento que ele não queria, mas que se arrastava até si quando ele não estava a olhar, instalando-se na sua mente e recusando-se a ceder, independentemente do quanto ele o tentasse afastar. Ele ia morrer. Ele tinha sido capaz de ignorar isto enquanto ainda havia todas as coisas com os alienígenas, as mensagens e a viagem para a floresta tropical. Agora, não havia nada a fazer além de ficar sentado a pensar sobre isto.
“Bem” disse Luna, voltando com dois copos cheios de gelado até à borda “tu pareces infeliz. É melhor animares-te ou não recebes nenhum gelado.”
Só Luna para brincar com dele quando ele estava assim. Só Luna saberia que era exatamente o que Kevin precisava.
“Estás apenas à procura de uma desculpa para ficares com os dois” disse Kevin.
Luna sorriu. “Talvez. Ainda estás preso a pensar no que poderias ter feito de forma diferente?”
Kevin assentiu. “Eu não sei porquê. Eu acho... eu só espero que faça sentido.”
“A esperança é uma coisa boa” disse Luna. “Eu acho que é bom ainda estares a ouvir. Não deves desistir, mesmo que as pessoas não acreditem em ti.”
Kevin assentiu. Ele precisava disso. Ele precisava de algo onde se agarrar, caso contrário...
“Ei, espera, tu és o Kevin McKenzie, não és? O rapaz que inventou essa coisa alienígena? Tu costumavas frequentar a nossa escola.”
Kevin viu que algumas das crianças estavam a olhar na sua direção. Ele estava prestes a dizer-lhes que não queria problemas, mas Luna já estava de pé, indo na direção deles.
“Kevin não inventou nada!”
“É claro que ele inventou” disse um rapaz. “Quem seria estúpido o suficiente para acreditar em alienígenas?”
“Tu e todos os outros, aparentemente” Luna retrucou.
“Estás a chamar-me estúpido?”
Kevin levantou-se, juntando-se a ela. “Nós não queremos nenhum problema.”
“Então, porque é que o fizeste?” uma miúda lá trás quis saber. “Os meus pais estavam tão preocupados porque estavam a chegar alienígenas que eles falaram sobre vender a nossa casa e se mudarem para o campo.”
Estavam mais pessoas a olhar para eles agora, e as pessoas tinham os seus telefones desligados. Kevin sabia que ele não podia ser visto aqui assim. A sua mãe ficaria louca. Além disso, ele tinha visto como grandes grupos de pessoas poderiam ser.
“Nós vamo-nos embora” disse Kevin, levantando as mãos. “Nós não queremos causar um problema.”
“Vocês não vão a lugar nenhum” o rapaz que tinha falado primeiro disse. “Não até tu admitires o que fizeste.”
Ele ficou ali com os braços cruzados, parecendo estar a falar a sério. Isso era um problema, porque quanto mais tempo eles permanecessem ali, mais pessoas estariam assistindo. Luna parecia estar a pensar a mesma coisa e, sendo Luna, ela adotou uma abordagem mais direta ao problema:
Ela caminhou até ao rapaz na porta e empurrou-o com força.
“Corre, Kevin!”
Ela já estava a correr, e Kevin demorou um pouco a perceber que deveria fazer o mesmo, mas apenas um pouco. Ele tinha estado tão cansado, mas agora ele estava suficientemente recuperado para passar pelo rapaz a correr, seguindo Luna enquanto ela corria para o meio da cidade. Ele correu o mais rápido que pôde, ignorando o modo como a sua respiração vinha em rajadas curtas, tentando manter o ritmo enquanto os outros perseguiam os passos deles, fazendo o caminho de volta pelas fábricas e passando pelo metal enferrujado. Kevin correu até sentir que o seu coração poderia explodir no seu peito, com os seus pulmões em esforço.
Quando ficou óbvio que ninguém estava a segui-los, ele e Luna pararam e, para sua surpresa, Kevin deu por si a rir-se.
Luna riu-se também. “Isto foi divertido.”
“A minha mãe vai matar-me” Kevin salientou, mas naquele momento, nem isso soava tão mal. A verdade é que ele se sentia melhor do que há alguns dias. Há tanto tempo que ele não fazia algo tão simples como se meter em sarilhos com Luna, fugindo antes que tal se pudesse transformar em algo pior.
“A tua mãe não se vai aborrecer por causa disto” a Luna disse.
“Eu não tenho tanta certeza disso” Kevin respondeu, porque ela iria ficar com raiva por ele ter saído assim, com raiva por ele ter arriscado tudo indo até onde as pessoas pudessem vê-lo. “Quando eu chegar a casa, vou ter que...”
Ele parou quando um sentimento começou a subir através dele. Um sentimento que ele conhecia muito bem, porque já lá tinha estado antes da instalação, antes da NASA, antes de tudo.
“O que é?” Luna disse. “O que é que vais ter que fazer?”
Kevin abanou a cabeça. “Luna, eu acho...”
“O quê?” ela disse.
“Eu acho que está outra mensagem a chegar.”
CAPÍTULO VINTE
Kevin estava entre as fábricas, ouvindo a transmissão quando esta começou a chegar. Ele lutou para acompanhar permanentemente a mensagem. Tal foi difícil ao princípio; mais difícil do que tinha sido, e mais difícil do que Kevin suspeitava que deveria ser.
Ele começou a ficar preocupado. E se o que quer que fosse no seu cérebro que se conectava com as transmissões tivesse mudado, alterando-se com o lento progresso da sua doença? E se tivesse apenas havido uma breve janela quando o seu cérebro tinha estado recetivo a tudo isto e agora o seu cérebro estivesse a começar a passar para lá dessa janela? Ele tentou concentrar-se, focando-se nos sons e desejando que fizessem sentido.
Uma imagem ardia no seu cérebro, com números a brilhar em fileiras ordenadas de coordenadas. Kevin não os teria reconhecido assim, mas já vira sequências deles antes, quando soubera trocar o telescópio pela primeira vez para captar o fluxo da mensagem.
“Kevin?” Luna disse. “Estás bem?”
Kevin não sabia como responder a isso. A parte estranha era que ele se sentia melhor do que nos últimos dias, talvez alguma interação entre a sua doença e a mensagem a fazer os sintomas parecerem melhores por enquanto.
“Eu não sei” disse ele. “Eu acho que... eu acho que os alienígenas querem que procuremos sinais num novo lugar.”
Era o que eles tinham querido da última vez que ele tinha tido um sinal direto para o seu cérebro assim. O poder disso era quase impossível de segurar. Tinha sido o começo de tudo.
“Então, a quem dizemos?” Luna perguntou.
Kevin deve ter ficado a olhar para ela durante muito tempo, porque ela gesticulou.
“O quê?” Temos que contar a alguém” disse ela.
Kevin sabia que provavelmente ela tinha razão. Se houvesse uma mensagem nova, as pessoas gostariam de saber. O problema era que ele não tinha a certeza de como reagiriam. Ele tinha visto todos os repórteres que ainda estavam à porta da sua casa. Ele tinha visto a dor que isso tinha causado à sua mãe. Não seria melhor apenas ficar quieto e protegê-la?
“Eu não tenho a certeza se alguém vai acreditar em mim” disse ele. “Eles acham que eu sou um impostor. Se eu disser às pessoas, elas presumirão que estou apenas a tentar chamar atenção.”
As pessoas não o iriam escutar agora, o que quer que ele dissesse. Se ele apresentasse outra série de números, não assumiriam que ele estava apenas a tentar começar tudo de novo?
“Nós poderíamos dizer à tua mãe” disse Luna. “Ela acreditaria em ti e saberia o que fazer.”
Kevin abanou a cabeça. “Eu não tenho a certeza se ela saberia agora, não depois de todos os problemas que isto causou. Mesmo que soubesse, também não sei se alguém iria ouvi-la.”
“Quem então?” Luna perguntou. “Temos que contar a alguém. Um repórter, talvez?”
Isso pelo menos faria com que as notícias fossem difundidas, mas, mais uma vez, isso não parecia ser a ideia certa. Se ele recorresse aos repórteres, tentando explicar, eles não iriam zombar? Ele precisava de ser capaz de provar isto. Havia apenas um lugar onde ele poderia fazer isto, apenas um lugar onde eles poderiam ser capazes de realinhar um telescópio para pegar qualquer novo sinal esperado.
“Precisamos entrar em contacto com alguém nas instalações da NASA” disse Kevin.
Mesmo ao dizê-lo, ele poderia adivinhar o quão difícil isso poderia ser. Ele pegou no telefone, tentando pensar na melhor maneira de o fazer. Não era como se ele tivesse números diretos para qualquer pessoa que pudesse ajudar.
Ele decidiu começar pela Dra. Levin, porque pelo menos a diretora do SETI parecia mais simpática do que o Professor Brewster. Ele encontrou online um número para o SETI e ligou para lá. O telefone chamou e, finalmente, chegou à receção.
“Estou” disse a rececionista. “Instituto SETI. Como posso ajudá-lo?”
“Eu preciso falar com a Dra. Levin sobre um assunto urgente” disse Kevin, tentando parecer o mais adulto que conseguia. Talvez se ele conseguisse fazer parecer que era um colega ou algo assim, eles poderiam deixá-lo falar com ela.
“Quem é?” a rececionista perguntou.
“Bem... hum...” Kevin olhou para Luna, que encolheu os ombros. “Kevin McKenzie. Mas eu tenho que falar com ela imediatamente. Houve outra mensagem, e há um segundo conjunto de coordenadas e...”
Ele ouviu o clique quando a rececionista desligou.
“Eles nem me deixaram explicar” disse Kevin. Isso doía, que, depois de tanto, eles desligassem sem sequer deixá-lo dizer qualquer coisa.
“Precisamos continuar a tentar” insistiu Luna. “Deixa-me tentar. Nós vamos tentar a NASA. Eles têm os telescópios, afinal de contas.”
Ela tocou e pressionou em alguns botões. Parecia que ela era melhor a fazer voz de adulta, porque quando falava, a Kevin ela soava mais como a sua mãe do que como a sua amiga.
“Olá, eu queria saber se você me poderia passar a chamada ao Professor Brewster? É bastante urgente, sim. É a professora Sophie Langford, da Universidade de Wisconsin. Sim, eu espero.”
Kevin não sabia que Luna era tão boa a fazer as coisas de improviso. Ela empurrou o telefone para ele, e Kevin agarrou nele, bem a tempo da voz do Professor Brewster aparecer do outro lado da linha.
“Olá?” o Professor Brewster disse. “Professora... Langford, correto?”
Kevin respirou fundo. “Professor Brewster, sou eu, Kevin. Não desligue, é urgente.”
“Porque é que me estás a ligar para este número?” O Professor Brewster exigiu saber. “E chegar até mim sob falsos pretextos? Não achas que já tens problemas suficientes, meu jovem?”
“Ouça-me” disse Kevin. “Eu não ligaria se não fosse importante. Há coisas que você precisa de saber.”
“Eu sei o suficiente sobre a tua situação” disse o Professor Brewster.
“Não é isso” insistiu Kevin. “Houve outra mensagem! Um novo conjunto de coordenadas. Os alienígenas disseram...”
“Já chega” disse o Professor Brewster. “Todos nós dedicámos tempo e esforço suficientes para perseguir essa charada, sem tentar ressuscitá-la. Eu vou desligar agora, Kevin. Se entrares em contacto com esta instituição novamente, eu vou passar os detalhes para a polícia.”
Ele desligou, com a mesma firmeza da rececionista.
Kevin ficou ali, tentando descobrir o que fazer a seguir. Ele não tinha nenhum outro número de telefone para tentar, a menos que tentasse ligar para um jornalista ou para a Casa Branca ou algo assim, e, em ambos os casos, ele suspeitava que receberia praticamente a mesma resposta que ele tinha acabado de receber. Ele poderia ir para casa e tentar conversar com os jornalistas lá, ou ele poderia esperar pela sua mãe, mas ambas as opções arriscavam a que ele fosse ignorado, e...
“Então” disse Luna, interrompendo o seu processo de pensamento “como vamos chegar ao SETI?”
“O quê?” Kevin disse.
“É a melhor opção que temos” disse Luna. “Se formos até eles, eles verão que estás a falar a sério, e eles conseguirão persuadir a NASA a mover os seus telescópios. A Dra. Levin sempre pareceu muito mais simpática do que aquele Professor Brewster, de qualquer maneira.”
Posto assim, ela conseguia fazer com que tal soasse tão altamente lógico que não havia como argumentar contra tal. Luna tinha muito jeito para fazer este tipo de coisa, o que se tornava meio aterrorizante, à sua maneira. Mesmo assim, Kevin achou que ele deveria pelo menos tentar.
“A minha mãe vai matar-me se eu fizer algo assim” salientou.
“A tua mãe ama-te demasiado para fazer isso” disse Luna. “De qualquer forma, ela vai castigar-te para sempre por te esgueirares. Já que estás em sarilhos, podes pelo menos salvar o mundo.”
“Tu não precisas de te meteres em problemas” destacou Kevin. “Os teus pais vão ficar zangados se tu simplesmente fores para São Francisco.”
“Achas que eu te vou deixar fazer isto sozinho?” Luna exigiu saber. “Achas que eu te vou deixar obter todo o crédito por encontrares os alienígenas novamente? Achas que eu vou deixar que sejas apenas tu a ter toda a diversão?”
“Não tenho a certeza se será exatamente diversão” disse Kevin.
Luna já estava a abanar a cabeça. “Tiveste de ir para a floresta sem mim, mas não me vais deixar para trás nesta parte, Kevin.”
CAPÍTULO VINTE E UM
Eles compraram bilhetes de autocarro para São Francisco a um funcionário que os olhou com desconfiança. Kevin não tinha a certeza se era porque o homem o reconhecia do noticiário, ou porque achava que provavelmente eram fugitivos ou ambos. Ainda assim eles conseguiram comprar os bilhetes e sentaram-se na parte de trás do autocarro que balançava meio cheio em direção à cidade. Kevin estava grato por Luna estar ali Ele não tinha a certeza se seria capaz de fazer isto sem ela.
A viagem de autocarro parecia durar uma eternidade, e Kevin passou a maior parte do tempo a tentar descobrir o que ele poderia dizer que seria capaz de convencê-los de que ele estava a dizer a verdade. Ele não podia simplesmente pedir que eles confiassem nele, não depois do que se tinha passado.
“Claro que podes” disse Luna quando ele lhe disse isso. “Pedes-lhes para eles verificarem a localização do sinal. Eles podem não conseguir descobrir o que significa, mas ainda assim vão ouvi-lo.”
Ela fazia com que parecesse fácil, mas a verdade é que provavelmente era a melhor opção deles. Então, quando o autocarro entrou na estação, Kevin partiu com Luna, encontrando um táxi que os levaria na direção certa, tentando ignorar o modo como o seu corpo estava a começar a tremer.
“Vão para o entusiasmo de lá?” o taxista perguntou. “Já perderam a maior parte. Eles pararam de falar sobre alienígenas há alguns dias atrás.”
“Talvez eles comecem de novo” disse Luna. “Nunca se sabe.”
O motorista levou-os até a entrada do SETI. Não havia aqui as pessoas acampadas que havia na instalação da NASA, e isso agradava a Kevin. Significava que ele podia simplesmente entrar sem que as pessoas o vissem, ou o agarrassem, ou...
“Tu?” a rececionista disse quase assim que ele entrou pela porta. “Não entendeste a mensagem quando eu te desliguei o telefone? Tu já causaste tantos problemas aqui. Saiam antes que eu chame a segurança.”
Antes, fora a mãe de Kevin que gritara com a rececionista. Agora Luna começava a avançar, obviamente indo para uma discussão.
“Está tudo bem” disse a Dra. Levin, saindo para a entrada. “Eu trato disto. Kevin, o que é que estás a fazer aqui?”
“Ele está a tentar conseguir falar consigo” disse Luna, com uma irritação fácil de perceber na sua voz. “Mas, aparentemente, as pessoas que já o traíram não estão dispostas a ouvir.”
“Olá, Luna” disse a Dra. Levin. “Os vossos pais sabem que vocês os dois estão aqui? Vocês realmente não deveriam estar aqui.”
“Houve outra mensagem” disse Kevin, adivinhando que não tinham muito tempo. Ele não sentia como se tivesse muito tempo naquele momento. Talvez tivesse sido o esforço de fazer todo aquele caminho, mas Kevin sentia a pressão na sua cabeça, juntamente com uma vertigem que fazia o mundo ondular. Ele ignorou aquilo. Isto era importante.
“Kevin” disse a Dra. Levin, “todos sabemos que as mensagens não são reais. Mesmo se tu achas que são, tu tens de parar com isto.”
“Como é que eu sabia sobre a Pioneer 11?” Kevin exigiu saber. Ele tinha tido uma viagem inteira de autocarro para pensar no que ia dizer, e como é que ele poderia convencer a Dra. Levin. “Como é que eu sabia onde seria o primeiro sinal? Você viu-me a fazer isto com os seus próprios olhos, Dra. Levin.”
A cientista começou a abanar a cabeça. “Isso não importa.”
“Importa” insistiu Kevin. “Se você não acredita nas evidências que estão diante de si, então para que é que serve a ciência?” Ele fez uma pausa. “Se você me conseguir explicar, por favor diga-me. Diga-me como é que eu estou a fazer isto, e eu dou meia volta e vou-me embora, mas acho que você não consegue, e não consegue, porque isto é real, e há outra mensagem.”
Ele teria dito mais que isto, mas não conseguiu conter a pressão repentina na sua cabeça.
De repente, ele desmaiou.
*
A escuridão reivindicou Kevin. Pela primeira vez, não houve visões, mensagens e sinais de nada.
Apenas um vazio.
Ele acordou numa luz forte, pestanejando, tentando perceber onde estava.
Luna e a Dra. Levin estavam a olhar para ele.
“Kevin, estás bem?” Luna perguntou.
“Devíamos chamar-te um médico” disse a Dra. Levin.
“Não” Kevin conseguiu dizer, e por um momento, nem ele tinha a certeza qual pergunta ele estava a responder. “Mais médicos não. Não ligue para a minha mãe. Temos que ouvir o sinal.”
Ele percebeu que havia desmaiado. Ele estava deitado no chão, no mesmo lugar em que antes tinha estado de pé.
Ele ouviu a Dra. Levin suspirar. Ele não tinha a certeza do que faria se ela o expulsasse. Colocar a informação na Internet, talvez? Enviá-la diretamente para algum outro observatório, na esperança que eles fizessem algo com a informação? Provavelmente, ele estaria em apuros com a sua mãe por isso nessa altura. Ele só tinha que ficar lá e esperar.
Ele viu-a a olhar para si com mais compaixão do que antes; ele suspeitou que o seu desmaio tivesse mudado algo dentro dela.
“Tudo bem” disse a Dra. Levin “tudo bem, admito, estive a pensar em tudo o que aconteceu desde que chegaste aqui pela primeira vez. A menos que tenhas conseguido controlar todos os sistemas da NASA... Não, simplesmente não funciona. Mas isso significa...”
“Isto significa que você acredita em mim” disse Kevin.
A Dra. Levin assentiu. “Sim, eu acredito em ti. Eu não quero, mas não vejo outra maneira. Que mensagem é essa?”
“Coordenadas” disse Kevin. “Como da última vez que tivemos que mudar o alinhamento do telescópio, apenas diferente. Eles querem que nos concentremos num lugar diferente.”
“Para mensagens vindas de um pedaço diferente do céu?” a Dra. Levin perguntou. Kevin a ouviu suspirar. “Tu sabes que ninguém vai mexer um telescópio apenas pela minha palavra, certo? Não depois…”
“Não depois de tudo que eu fiz?” Kevin supôs.
A Dra. Levin assentiu.
“Deve haver alguém” insistiu Luna, ao lado deles. “O Professor Brewster não precisa de saber. Ou poderíamos encontrar uma maneira de entrar.”
Era surpreendente, às vezes, o pouco respeito pelas regras que Luna conseguia ter. Para surpresa de Kevin, a Dra. Levin parecia estar a levar a sua sugestão a sério.
“Piratear a NASA é difícil” disse ela. “Para fazer isso, precisaríamos de alguém que...”
Então os seus olhos se iluminaram ao ter uma ideia.
“Claro” ela disse para si mesma. “Phil”
Kevin assentiu com a menção do nome do cientista. “Você acha que... você acha que ele ajudaria?”
“Talvez” disse a Dra. Levin. “Ele é a nossa melhor hipótese, pelo menos.”
Ela e Luna ajudaram Kevin a se levantar. Foi preciso algum esforço, mas ele ia acompanhar isto.
“Não posso acreditar que estou a fazer isto de novo” ela disse “mas acho que… acho que precisamos fazer uma viagem à NASA.”
CAPÍTULO VINTE E DOIS
Eles foram até a instalação da NASA no carro da Dra. Levin. Enquanto os três iam, ainda havia algumas pessoas à espera do lado de fora, mas menos do que tinha havido antes. Eles foram até aos portões no carro da Dra. Levin. Havia um guarda da segurança ali, atrás de uma barreira baixa.
“Isto pode ser complicado” disse a Dra. Levin. “Eu não voltei desde que isto aconteceu.”
Eles foram até lá de carro e o guarda levantou uma mão.
“Não podem entrar aqui” disse ele, levantando a mão. “Se eu já disse a um de vocês, devo ter dito a um… Dra. Levin, o que está a fazer aqui? Você não está na lista de hoje.”
“Precisamos de entrar, Neil” disse ela. “Eu preciso de falar com o Phil.”
“Nós?” perguntou o guarda. Ele olhou de volta para o carro. “Espere, esse não é o...”
Kevin não se esquivou do olhar do guarda. Naquele momento, era a única esperança deles.
“Tu? Tu não deverias estar aqui. Eles disseram...”
“Eles provavelmente disseram todo o tipo de coisas” disse a Dra. Levin “mas nós precisamos de entrar. Por favor.”
“Sinto muito, Dra. Levin” disse o guarda da segurança. “Mas eu simplesmente não posso deixá-la entrar assim, especialmente se você o está a trazer aqui.”
Kevin olhou para Luna, que assentiu.
“Por favor, Neil, isto é vital” disse a Dra. Levin.
“Sinto muito, você precisa virar o seu carro e... Ei!”
Kevin e Luna saíram, de rompante, do carro praticamente ao mesmo tempo.
Kevin passou por ele a correr quase ao mesmo tempo que Luna. O homem não conseguiu agarrar os dois de uma só vez, e, assim, eles conseguiram passar pela barreira, a correr para as portas da instalação, mesmo quando o guarda da segurança se virou para correr atrás deles. Os esforços do guarda foram prejudicados por algumas pessoas que tinham vindo para protestar, e que claramente decidiram segui-los e ver o que estava a acontecer.
Kevin correu para a frente na direção da porta. Ele e Luna foram mais rápidos do que o homem e chegaram às portas antes do guarda cobrir metade do espaço. Isto provavelmente teria significado muito mais se as portas não tivessem trancadas. Kevin bateu com os punhos na porta, mas ele não tinha autorização da segurança para passar por elas, nunca tinha tido autorização para passar por elas, e agora o guarda estava a aproximar-se deles.
“Vocês os dois vão diretamente para a polícia!” ele prometeu enquanto se aproximava.
Então as portas da instalação abriram-se, e Kevin e Luna entraram em desequilíbrio um passo à frente do guarda. A porta fechou-se ele ficou do lado de fora. Kevin olhou para a figura que havia aberto a porta.
“Ted?” Ele era a última pessoa que Kevin esperava ali, mas provavelmente também a melhor pessoa que poderiam ter encontrado. “Você ainda está aqui?”
Ted assentiu. “Eu tive que ficar por perto para responder a algumas perguntas sobre tudo isto. Mas isso não importa. O que estás a fazer aqui, Kevin? Ele olhou para Luna. “Vocês estão os dois aqui?”
“Houve outra mensagem” disse Kevin.
Enquanto os outros tinham desligado ou olhado para ele como se ele estivesse louco, Ted olhou para ele com um olhar sério. “Tens a certeza?”
Kevin assentiu. “Precisamos de alguém que possa realinhar o telescópio. Há outro conjunto de coordenadas.”
Ted viu a Dra. Levin chegar, capaz de passar agora que Ted tinha conseguido que o guarda recuasse. “Você vinha para verificar isto?”
A Dra. Levin assentiu. “Eu estava à espera que Phil estivesse disposto a realinhar as coisas discretamente. O truque é chegar lá.”
“Eu posso tratar disso” disse Ted. “Eu só deveria estar aqui a arrumar as coisas, mas ainda tenho acesso total.”
Ele pegou num cartão-chave, deixando-os entrar no edifício. Algumas das pessoas na entrada ficaram a olhar para eles quando eles chegaram, mas ninguém disse nada. Kevin supôs que isso tinha muito a ver com a presença de Ted e a da Dra. Levin.
“Temos de ser rápidos” disse Ted. “Em breve, alguém vai dizer ao Professor Brewster que tu estás aqui.”
“Desde que tenhamos as novas mensagens até lá” disse a Dra. Levin.
Ela levou-os em direção ao gabinete de Phil, com Kevin, Luna e Ted seguindo atrás. Kevin via os olhares que algumas das pessoas lhe davam, ouvia o murmúrio ao passar. Eles não tinham esquecido o que havia acontecido antes. Kevin só esperava que Phil estivesse disposto a ajudar.
A Dra. Levin bateu na porta do investigador e Kevin observou o seu rosto quando os viu lá. A expressão dele passou de reconhecimento para surpresa e depois para uma espécie de compreensão preocupada.
“Não” disse ele, erguendo as mãos. “Seja o que for, não.”
“Nós nem sequer lhe perguntámos nada ainda” destacou a Dra. Levin.
“Mas vão perguntar” disse Phil “e o Professor Brewster vai ouvir falar sobre isto, e...”
“Importa-se com o que o David diz?” a Dra. Levin contrapôs.
Phil encolheu os ombros e suspirou. “O que é que vocês precisam?”
“Precisamos que você aponte os telescópios para umas novas coordenadas” disse Kevin, respondendo por eles. “Eu recebi outra mensagem.”
“Queres que eu... sabes o que estás a pedir?” Phil perguntou.
“Olhe para isto desta maneira” destacou a Dra. Levin. “Se você fizer isto, você vai ser o sujeito que provou que Kevin teve sempre razão.”
Phil engoliu em seco e depois assentiu. “Ok, mas nós temos que fazer isto discretamente. Vamos.”
Ele levou-os pela instalação na direção de um laboratório equipado com monitores e ecrãs. Depois de alguns toques de Phil no teclado, começou a mostrar os dados de um dos sistemas de antenas do telescópio.
“Muito bem” ele disse “parece que estamos aqui. Nós apenas... oh, lá se vai minha carreira.”
Kevin olhou em volta. Através das portas do espaço do laboratório, ele pôde ver o Professor Brewster a aproximar-se, com uma expressão enfurecida no rosto.
“O que eles estão a fazer aqui?” ele exigiu saber enquanto avançava. “Parem o que estão a fazer imediatamente!”
Kevin supôs que tinha sido inevitável que alguém lhe dissesse que eles estavam aqui. Ele apenas tinha pensado que talvez eles tivessem um pouco mais de tempo antes de isso acontecer.
“Parece que terminámos” disse Phil.
“Não se fizermos isto depressa” respondeu Kevin.
“Nem mesmo assim tão rápido” disse Luna. Ela correu até à porta, fechando-a e colocando uma cadeira debaixo da maçaneta. “O que é que foi?” ela perguntou enquanto os outros olhavam para ela. “É apenas a coisa óbvia a fazer.”
“Só para ti” Kevin disse com um sorriso.
Do lado de fora, o Professor Brewster batia na porta de vidro. “Abram isto imediatamente! Eu vou chamar a segurança! Qualquer um que ajudar esse rapaz será tratado como um criminoso!”
Kevin olhou para Phil. Sem ele, eles não seriam capazes de realinhar o telescópio, pelo que se ele decidisse não fazer isto…
“Tudo bem” disse ele. “Quais são as coordenadas?”
Kevin deu um suspiro de alívio e recitou de memória. Como no primeiro conjunto de números, estes quase ardiam dentro de si. Portanto, quando ele fechou os olhos foi quase mais como os ler do que como os recordar.
“Tens a certeza?” Phil perguntou.
Kevin assentiu, abrindo os olhos. Havia mais pessoas do lado de fora da porta agora, reunidas para observar o que estava a acontecer, ou tentando ajudar o Professor Brewster a chegar lá.
“Aqui vamos nós, então” disse Phil. Ele pressionou outro botão e Kevin viu os números no ecrã mudarem à medida que o foco do radiotelescópio começava a mudar. Eles mudavam pouco a pouco, com os números a aproximarem-se daqueles que ele via, cada vez mais perto, até que...
No momento em que eles combinaram, um sinal veio, claro e forte. Os sons começaram a vir do sistema. Eles tinham um ar familiar para eles, mas ao mesmo tempo pareciam diferentes de alguns dos que Kevin havia traduzido. Menos precisos e mecânicos, mais fluidos.
Mesmo assim, ele deu por si a traduzi-los automaticamente.
“Se você está a receber isto, cuidado” ele traduziu. “Você está em perigo. As últimas mensagens que você recebeu foram uma artimanha.”
Kevin podia ouvir o Professor Brewster a continuar a bater na porta, mas ele continuava a ouvir, e agora a tradução fluía de si.
“As transmissões deles foram uma mentira, projetadas para vos fazerem abrir a cápsula. Não é uma cápsula do tempo. É uma arma. Isso destruiu-nos completamente. Esta é a nossa transmissão final, para alertar os outros a não cometer o mesmo erro que nós cometemos.”
Kevin franziu a testa, não tendo a certeza se estava a traduzir corretamente, mas a mensagem não tinha acabado.
Brewster e a sua equipa irromperam pela porta.
“O que é que se passa aqui?” ele exigiu saber - mas parou ao ouvir também.
“Não cometam os mesmos erros que nós cometemos. Não abram o que eles vos enviam.”
A mensagem parou, depois repetiu-se, como se estivesse a ser enviada através de algum tipo de circuito
“Alguém queria ter a certeza de que a ouvíamos” disse Luna.
Kevin assentiu, tentando entender o sentido. Ele olhou para os adultos.
“Onde está a rocha?” Brewster perguntou.
“Lá em baixo - Laboratório 3b.”
“Telefonem-lhes!” Ted gritou. “AGORA!”
CAPÍTULO VINTE E TRÊS
Kevin corria, tentando acompanhar a Dra. Levin, Luna e Ted enquanto eles corriam pelo instituto da NASA, tentando chegar ao espaço onde a rocha estava senda ser guardada. Ele conseguia ver os olhares de choque nos rostos dos cientistas pelos quais eles passavam, alguns obviamente reconhecendo-o, outros provavelmente apenas surpreendidos que alguém corresse tão rápido por uma instalação científica séria.
A Dra. Levin estendeu um molho de chaves para Kevin.
“Se isto correr mal” ela disse enquanto corria “se houver algo que tu não consigas conter, há um espaço seguro abaixo da instalação, no subsolo. Uma dessas chaves dá acesso à rede do bunker, se não estiver bloqueada. Usa isto, e o elevador deve levar-te diretamente para lá.”
“Onde está a rocha da expedição?” Ted gritou para um grupo de cientistas enquanto eles passavam.
“Laboratório de pesquisa 3b” disse um deles. “Porquê?” Existe alguma coisa...”
Eles já estavam a correr, tentando chegar lá a tempo. Eles pararam nas portas de segurança, mas aquelas só os abrandaram um pouco, abrindo-se com o cartão de segurança de Ted com luzes verdes e tranquilizadores sopros fortes de ar.
Kevin podia ouvir o Professor Brewster gritando atrás deles, mas ele não diminuiu a velocidade.
Entraram fundo nas entranhas do edifício, em laboratórios antigos que Kevin tinha visto quando Phil tinha andado com ele a passear pelas instalações. Ele passou pelos lasers e pelos laboratórios em crescimento, as coisas que prometiam dar à humanidade uma hipótese de sobreviver e prosperar se alguma vez chegassem a outro mundo, e as coisas que carregavam a promessa de fazer desse lugar um lugar melhor. Naquele momento, a única coisa que importava era a ameaça do que poderia acontecer se eles não se certificassem de que a rocha estava contida.
Eles pararam num conjunto de placas, depois correram de novo, desceram um lance de escadas e entraram numa parte do edifício onde a única luz era artificial. Parecia estéril para Kevin, hostil em comparação com o resto do lugar. Os cientistas pelos quais passaram estavam, na sua maioria, com fatos limpos ou batas de laboratório, obviamente tentando resguardar-se de experiências de contaminação.
Quando chegaram ao laboratório, Kevin teve que admitir que parecia um espaço seguro. Tinha paredes de vidro endurecido em três lados, enquanto o quarto recuava até à parede externa do edifício. A rocha estava no meio dela, exibida numa mesa como um ovo de Páscoa que estava rachado ao meio. Três cientistas, vestidos com fatos limpos de plástico branco, estavam ao redor dela. Dois usavam máscaras, enquanto um não se parecia ter dado ao trabalho, já que ele estava longe da rocha, trabalhando com um microscópio.
O vidro era grosso, mas Kevin ainda podia ouvir o que eles estavam a dizer enquanto Ted trabalhava na fechadura, tentando entrar.
“Essas amostras ainda são interessantes” disse o cientista. “Mesmo que não seja nada que nos tenha sido prometido.”
“Não deixe Brewster ouvi-lo a dizer isto” respondeu outro. “No que diz respeito a ele, quanto mais cedo pudermos declarar que a rocha é inútil e nos livrarmos dela, melhor.”
“Bem, ele pode ter que esperar, isto é...”
“O quê?” o terceiro cientista perguntou. “E você vai colocar uma máscara? É protocolo.”
Kevin viu o momento em que o vapor começou a subir da superfície da rocha. Era quase claro, e ele podê-lo-ia ter confundido com vapor a subir devido a alguma mudança de temperatura na rocha, mas de alguma forma, ele sabia que não era.
“Isso está sempre a acontecer” disse um dos cientistas.
Kevin bateu com a mão contra o vidro, enquanto Ted continuava a trabalhar na fechadura.
“É um código, bem como um cartão” disse ele. “Eu acho que é porque é uma sala fechada.”
“Vocês precisam de sair daí” Kevin disse. “Vocês estão todos em perigo.”
Eles viraram-se para ele enquanto ele continuava a bater a mão no vidro, obviamente sem saber porque ele estava ali, ou o que deveriam fazer. Os dois com as máscaras pareciam confusos. Aquele sem…
Os olhos daquele que não estava a usar máscara de repente mudaram, as pupilas mudaram de preto para branco, parecendo quase brilhar. Ele olhou fixamente para Kevin e havia uma espécie de reconhecimento ali que não tinha estado presente antes. Havia uma espécie de hostilidade naquele olhar que encheu Kevin de medo.
Era inteligente e perigoso.
E tudo menos humano.
CAPÍTULO VINTE E QUATRO
“Afastem-se dele!” Kevin gritou. “Há algo errado com ele.”
O cientista virou-se para os outros dois e agarrou-os, afastando as máscaras antes que eles percebessem o que estava a acontecer. Kevin queria lançar um aviso, mas parecia que já era tarde demais. Ele viu os olhos dos cientistas mudarem, com as suas pupilas a ficarem brancas como as do outro.
Kevin afastou-se do vidro, olhando para Luna. Ela parecia tão assustada quanto ele naquele momento, o que provavelmente não era um bom sinal. Luna não costumava ficar com medo.
Ted parecia estar a tentar descobrir o que fazer também, e isso era quase tão assustador. Kevin estava acostumado a que ele tivesse todas as respostas. Ele tinha um telefone e estava a fazer um telefonema.
“Temos uma violação de nível quatro” disse ele. “Estou a trabalhar para a conter, mas é preciso iniciar os protocolos de emergência agora.”
Havia um painel na parede. Ted abriu-o, digitando uma série de números num teclado. Ele carregou num botão e as luzes começaram a piscar em vermelho ao longo de todos os corredores, enquanto uma voz computadorizada soava pelos alto-falantes.
“Emergência, emergência. Contenção em curso.”
Persianas metálicas deslizaram pelos lados de todos os laboratórios naquele nível, transformando-as efetivamente em gigantescas caixas de metal das quais nada poderia escapar. Kevin ouviu um rugido de frustração de dentro do laboratório e atreveu-se a respirar aliviado.
“Conseguimos?” ele perguntou. “Conseguimos detê-los?”
“Espero que sim” disse Ted. Apesar disso, ele foi até um armário, retirando o tipo de máscaras de filtração que os cientistas tinham estado a usar. Ele passou uma para Luna e outra para Kevin, e, depois, pegou outra para si mesmo.
“O que está a acontecer aqui?” Porque é que todo este espaço está isolado?”
Kevin virou-se e viu o Professor Brewster a aproximar-se, juntamente com a Dra. Levin e pelo menos uma dúzia de outros. Um guarda da segurança segurava o cotovelo da Dra. Levin, com um ar de quem a queria desculpar, mas não a soltando.
“Vocês foram demasiado longe” disse o diretor da instalação, apontando um dedo na direção deles. “Vocês não tinham o direito de fazer isto.”
“Você teve sorte de nós o fazermos” disse Luna, antes que Kevin ou Ted pudessem dizer qualquer coisa “porque você estaria cercado por alienígenas agora se não o tivéssemos feito.”
“Alienígenas” disse o Professor Brewster com uma nota de desprezo. “Não ouvimos já o suficiente desse disparate?”
“Oh, está longe de ser um disparate” disse Ted. “Eu já o vi.”
“É verdade” disse Kevin. “Eles conseguem assumir o controlo do corpo das pessoas. Um gás saiu da rocha que encontrámos e assumiu o controlo dos cientistas que lá estavam.”
O Professor Brewster abanou a cabeça. “Existem muitos gases que podem produzir comportamentos erráticos, e isto é se alguma coisa aconteceu de todo. Nós só temos a sua palavra para isto.”
“A minha palavra” disse Ted, num tom que ousou o outro homem contradizê-lo.
Foi quando os batimentos soaram.
“Batimentos” não era bem a palavra certa para isto. Isso fazia com que parecesse quase educado, até mesmo delicado, mas o som que reverberava nos ouvidos de Kevin era algo de esmagador, duro, contra as paredes da sala.
“Há pessoas trancadas lá?” o Professor Brewster quis saber.
“Os alienígenas estão a controlá-los” disse Kevin. “As pupilas deles ficaram brancas quando isto aconteceu.”
“Provavelmente apenas um truque de reação química” insistiu o Professor Brewster. “De qualquer forma, essa loucura perdura há tempo suficiente. Eu vou libertar o meu pessoal, chamar a segurança aqui e mandar retirar-vos a todos desta instalação.”
Ele dirigiu-se ao painel de segurança que Ted usara e Kevin viu o soldado sacar de uma arma.
“Eu disparo contra qualquer um que toque nesses controlos” Ted prometeu.
Isso chocou Kevin um pouco. Ele não queria que ninguém fosse baleado por causa disso. No entanto, se tivesse que ser alguém de lá, o Professor Brewster provavelmente estava no topo da lista. O cientista voltou-se para eles, com os braços erguidos.
“Você não se atreveria!” ele exclamou. De dentro da caixa de aço das persianas, retomou-se o barulho.
“Hum... acho que ele se atreveria” respondeu Kevin. “Professor Brewster, não podemos deixá-los sair daquela sala. Temos que parar os alienígenas enquanto conseguimos.”
“Não há nenhuns alienígenas!” o Professor Brewster insistiu. “Tu aprisionaste o meu povo numa ilusão e...”
Os batimentos pararam, e a rapidez com que isso aconteceu fez com que até o diretor da instalação parasse. Algo clicou e zumbiu, depois as luzes do corredor pararam de piscar e as persianas de aço começaram a subir.
“Isto não tem bom aspeto” disse Luna.
Isso era um eufemismo. As persianas ergueram-se e Kevin viu os cientistas parados lá passivamente, parecendo calmos enquanto esperavam pela hipótese de se libertarem. Kevin supôs que fazia sentido que os alienígenas conseguissem invadir um computador. Afinal, eles tinham uma tecnologia que os tinha enviado meio caminho através de uma galáxia. Comparado a isso, um computador provavelmente não era demasiado complicado.
“Vejam” disse o Professor Brewster. “Não há alienígenas, apenas três perfeitamente normais...”
Os cientistas abriram a boca, gritando em uníssono, um ruído que parecia mais parecido com insetos do que com humanos, mais estranho que qualquer um. Kevin viu o choque nas expressões dos cientistas ao seu redor quando perceberam que esses já não eram mais os seus colegas.
“Olhem para os olhos deles” disse um dos investigadores.
Kevin olhou para Ted. “Estamos seguros aqui, certo?”
“Desde que eles não consigam passar pelo vidro” disse Ted. “Todos vocês, vocês precisam de máscaras. Se algum daquele vapor sair, vocês estão todos em perigo.”
O Professor Brewster dava a impressão de estar a tentar se recompor para dizer que não havia problema, que estava tudo bem, mas ele parecia estar com dificuldades em o fazer. Ele ainda estava a tentar dizê-lo quando os cientistas controlados pelos alienígenas pegaram numa cadeira de metal e começaram a golpear o vidro com ela, como se fossem um aríete, os três a trabalharem em conjunto enquanto o som se espalhava em torno da instalação.
Começaram a aparecer rachas no vidro. Kevin viu-as a espalharem-se como uma teia de aranha sobre a superfície, ondulando e se juntando a cada golpe. Ted apontou a arma para os cientistas, mas isto não os fez parar ou diminuir a velocidade.
O vidro partiu-se e eles saíram. Kevin ouviu a arma de Ted disparar, mas não pareceu fazer qualquer diferença. Kevin viu aqueles cientistas que não estavam a usar máscaras a congelarem no lugar, ofegando enquanto agarravam as suas gargantas, e, depois, endireitando-se. Um atacou um vizinho que estava mascarado, arrancando a máscara e depois expirando uma névoa clara que preencheu o espaço à frente deles. Em instantes, aquele cientista ficou também convertido.
Um agarrou Kevin, arrancando-lhe a máscara que ele usava. Kevin tentou prender a respiração, tentou se afastar, mas não havia como fazê-lo. Um vapor fétido apoderou-se dele…
… e nada aconteceu.
Luna bateu no cientista que segurava Kevin. Ela era pequena, mas ela tinha muita experiência a atingir pessoas maiores do que ela, e isso foi pelo menos suficiente para fazer o cientista afrouxar a força com que agarrava Kevin.
“Fujam!” Ted gritou. “Vão para o bunker!”
Ele começou a disparar a sua arma para a multidão. Isso não deteve os cientistas. O que quer que os estivesse a controlar não parecia se importar com coisas humanas como dor, ou o dano que estava a ser feito aos corpos que os tinham. Enquanto Kevin observava, três cientistas seguraram Ted, arrastando-o para baixo.
Kevin queria ajudar Ted, queria avançar e arrancá-lo da confusão, mas não havia como fazê-lo, nem mesmo como começar a ajudar. O máximo que ele podia fazer era agarrar o braço de Luna e puxá-la para longe, os dois a fugir dos cientistas que avançavam.
Olhando para trás, Kevin viu-os a transformarem-se um a um. Ele viu a Dra. Levin ofegar, agarrando a garganta dela enquanto o gás penetrava em si, depois endireitou-se de uma forma muito calma, muito parada.
Ele viu o Professor Brewster a mudar em questão de momentos, com o gás a dominá-lo.
Alguma parte dele achava que Ted, de alguma forma, lutaria contra isto, que ele se libertaria e viria ajudá-los. Kevin soltou um grito de desespero quando viu o soldado ficar parado, depois se levantando, juntando-se aos outros enquanto os perseguiam.
Eles correram juntos pelos corredores da instalação, com mais e mais cientistas a seguirem-nos com uma determinação que já não era humana, nem perto disso. Ao olhar para trás, Kevin pôde ver Ted, a Dra. Levin e o Professor Brewster, tão estranhos quanto os restantes. Uma parte dele queria apenas cair de joelhos, destroçado pelo choque daquilo. Apenas a presença de Luna ao seu lado o mantinha a correr.
“Por aqui” disse Luna, puxando-o por um corredor lateral, depois por uma série de salas com equipamentos científicos. Eles baixaram-se atrás de uma série de grandes microscópios, ficando quietos, enquanto para além das portas, cientistas alienígenas avançavam pela instalação, quase sem pensar, agarrando qualquer um que encontrassem para os converter.
Luna ajoelhou-se e olhou para Kevin. “Deixa-me olhar nos teus olhos.”
Kevin sabia do que ele devia estar à procura. “Eu não sou um alienígena.”
“Não, tu não és, mas deverias ser. Eu não sei como é que tu não és. Ela abanou a cabeça. “O que é que fazemos?”
Ela parecia tomar como certo de que haveria algo que eles poderiam fazer. Kevin não. Se a sua doença lhe ensinara alguma coisa, era que havia algumas coisas impossíveis de fazer.
“Ted disse para irmos para o bunker” disse Kevin.
Luna assentiu. “Tens a chave?”
Kevin ergueu-a.
“Ok” disse ela. “Vamos.”
Kevin liderou o caminho, rastejando pelo equipamento científico, indo na direção dos elevadores. De vez em quando eles paravam, e tanto Kevin quanto Luna congelavam no lugar, à espera enquanto os cientistas passavam. Não havia muitos agora. Kevin supunha que eles provavelmente estavam a deslocar-se pelo resto da instalação, convertendo as pessoas à medida que iam. Era um pouco como aqueles dias em que eles rastejavam em lugares em que não deviam estar, e tinham que ficar fora da vista dos adultos, só que realmente, não era nada disso. Eles simplesmente não iam receber um aviso severo ou ninguém lhes ia dizer para seguirem em frente, se fossem apanhados.
Os elevadores estavam à frente, logo depois de uma sala cheia de plantas preparadas para testes. Diante deles, meia dúzia de cientistas esperava, como se soubesse que os dois iriam para lá.
Eles provavelmente sabiam, Kevin percebeu. Pelo que tinha acontecido no laboratório, parecia que eles tinham acesso aos pensamentos e lembranças das pessoas que controlavam, então porque é que não saberiam sobre o bunker?
“O que é que nós fazemos?” Luna perguntou.
Kevin tentou pensar. “Precisamos de uma distração.”
Ele pegou numa das plantas, considerando o seu pote de cerâmica. Ele se moveu para a porta da sala mais distante do elevador, escolhendo uma direção. Então ele fez o recipiente da planta rebolar, com tanta força quanto conseguiu, correndo apressadamente na direção de Luna bem a tempo de um estrondo que soasse à distância.
Os cientistas controlados pelos alienígenas voltaram-se para o som, e, depois, correram para a frente naquele terrível silêncio sincronizado que eles tinham.
“Agora” disse Kevin, e ele e Luna correram em direção aos elevadores. Havia uma fechadura colocada por eles ao nível do peito.
“Rápido” disse Luna “usa a chave”.
Kevin enfiou-a numa fechadura junto aos elevadores e uma luz verde brilhou. As portas do elevador abriram-se com uma lentidão agonizante. Quanto tempo levaria para os alienígenas descobrirem o que tinha provocado o som e perceberem que tinham sido enganados? Quanto tempo antes de eles voltarem para irem atrás deles?
Um som desumano não distante sugeriu que não iria demorar muito.
“Entra” disse Luna, e ambos entraram em desequilíbrio no carro do elevador.
Havia outro buraco de fechadura dentro do elevador, juntamente com um botão na parte de baixo dos controlos, etiquetado simplesmente como “Bunker”. Havia também outros botões, para os vários níveis da instalação, para a entrada e a garagem. Kevin ficou ali, considerando-os.
“Do que é que estás à espera?” Luna perguntou. “Tu ouviste o Ted, precisamos chegar ao bunker.”
Kevin assentiu. Ele tinha ouvido. Havia apenas um problema.
“O que vai acontecer com os nossos pais?” ele perguntou.
Ele viu os olhos de Luna se arregalarem.
Lá fora, ele viu alienígenas a virarem a esquina, todos eles movendo-se em direção aos elevadores com perfeita sincronização.
“Se formos para o bunker, quem salvará os nossos pais?” Kevin perguntou. Ele não podia simplesmente abandonar a sua mãe para ela se tornar um alienígena. Ele não podia.
Assim, quando os cientistas controlados pelos alienígenas começaram a se apressar, Kevin pressionou o único botão que podia.
CAPÍTULO VINTE E CINCO
Kevin só pôde ficar ali enquanto o elevador se dirigia para cima na direção da entrada. Os segundos pareciam se estender, e com cada um que passava ele podia imaginar os cientistas a correrem pelo edifício, apanhando mais pessoas e respirando o vapor sobre elas, ou apenas à espera enquanto aquilo se espalhava pelo edifício, talvez além.
O elevador ressoou e as luzes piscaram de uma forma que sugeria que algo estava a acontecer em outro lugar do edifício; algo violento.
Achas que eles serão capazes de parar isto?” Luna perguntou. Ela na verdade parecia assustada. Tão assustada quanto Kevin estava naquele momento.
“Eu não sei” ele admitiu, e não saber era uma das piores partes daquilo. Ele não tinha ideia do que iria acontecer, ou se isto poderia ser interrompido, ou como.
Lentamente, o elevador parou, e as portas abriram-se para revelar a entrada. Kevin e Luna entraram em silêncio, sem se atrever a tirar as máscaras enquanto se apressavam.
Um olhar para o chão disse a Kevin que era a coisa certa. Ele conseguia ver o vapor arrastando-se ao longo do chão como a névoa numa manhã fria, saindo de debaixo das portas e se espalhando, capturado pela brisa do lado de fora. Ele não conseguiu ver quando o vapor tocou nos manifestantes, mas ele conseguia ver os efeitos quando eles respiravam, podia vê-los a irem, um por um, olhando para cima como se esperassem por algo.
“Não” disse Luna, e Kevin pôde ouvir o horror na sua voz. “Não, não se pode estar a espalhar tão rapidamente.”
Kevin engoliu o seu próprio medo. Como é que o vapor poderia estar a fazer tanto, tão rápido? Mas ele sabia a resposta para isto: tinha sido projetado para o tempo todo, e esse era o pensamento mais aterrorizante de todos, porque significava que as pessoas de fora eram apenas o começo.
Kevin não conseguia descobrir como eles iriam passar por eles, mas parecia que Luna tinha uma ideia. Ela já estava à frente para a saída do instituto, indo para o estacionamento lá fora.
“O que é que estás a fazer?” Kevin perguntou-lhe.
“Se nós vamos chegar a casa a tempo, não podemos ir de autocarro” disse Luna. “Precisamos de um carro.”
“Portanto, vais roubar um?” Kevin perguntou. “Consegues pelo menos conduzir?”
Parecia inconcebível para ele que qualquer pessoa da idade deles conseguisse, mas Luna parecia bastante confiante.
“Roubar não, levar emprestado” disse Luna. “E sim, eu consigo conduzir. Provavelmente. Um dos meus primos deixou-me conduzir o seu camião uma vez. Não é assim tão difícil.”
Eles entraram no estacionamento, olhando para todos os carros lá. Kevin não tinha a certeza do que seria necessário para roubar um deles ou quanto tempo levaria para fazê-lo. Ele não tinha a certeza de que eles tivessem muito tempo. Ele já via alguns dos que estavam do lado de fora da cerca da instalação a virarem-se para eles.
“Hum... Luna?” ele perguntou. “Acho que precisamos de nos apressar.”
“Ali!” ela disse, apontando. Kevin reconheceu imediatamente o carro compacto da Dra. Levin. “Ela deu-te todas as suas chaves, certo?”
“Não tenho a certeza” disse Kevin. Ele tirou-as para fora. “Ela deu-me a que era para o elevador, mas...” Uma destacou-se imediatamente. “Achas que esta se parece com uma chave de carro?”
“Parece” disse Luna. Ela tirou-a da mão dele, indo até ao carro e abrindo as portas. Olhando para trás, Kevin pôde ver as pessoas que os alienígenas controlavam a avançarem agora, indo na direção deles e na direção da instalação, num grupo sincronizado e único.
Kevin mergulhou no carro, onde Luna já estava a trabalhar com a chave, tentando fazer com que a coisa começasse a trabalhar.
“Eu pensava que tu sabias o que estávamos a fazer” disse ele.
“Isto é diferente do camião do meu primo” ela respondeu. “Dá-me um minuto.”
Kevin olhou por cima do painel de instrumentos para a horda de cientistas que avançava. “Eu não tenho a certeza se temos um minuto.”
“Espera, acho que consegui!” O motor não rugiu exatamente, dado o quão pequeno o carro era, mas começou a trabalhar. Luna colocou-o em marcha, e eles avançaram, esmagando-o contra o carro que estava à frente.
“Por outro caminho” disse Kevin.
“Queres conduzir?” Luna contrapôs. Ela conseguiu colocá-lo em marcha a ré, saindo do estacionamento com outro arranhão de metal no metal. Ela colocou o carro novamente a andar e eles partiram para o portão.
Um manifestante atirou-se para a frente do carro, saltando do capô e, em seguida, levantou-se, aparentemente ileso. Kevin tinha visto Ted atirar nos cientistas controlados sem que, porém, isso os impedisse, por isto duvidava que o carro tivesse feito muito. Outro atirou-se sobre o capô, segurando-se com força, com olhos com as pupilas brancas, olhando diretamente para eles.
“Larga! Larga!” Luna gritou.
Kevin não sabia ao certo como deveria fazer aquilo, mas fez o melhor que pôde. Baixando a janela do seu lado, ele inclinou-se para fora, fazendo com que o manifestante se soltasse. Ele deu uma sacudidela e o manifestante caiu diretamente no cimento.
O caminho deles ficou desimpedido então, e eles foram pelo complexo da NASA, para a autoestrada enquanto pessoas controladas seguiam atrás deles. O pequeno carro ia depressa pelas estradas, e Kevin olhou em volta, à espera de ver as pessoas a tratarem da sua vida normal, meio que à espera que houvesse polícias lá que os impedissem de conduzir tão irregularmente, para que pudessem alertar as pessoas sobre o que estava a acontecer.
Em vez disso, as pessoas estavam paradas nas bermas da estrada, perfeitamente imóveis enquanto olhavam para o céu.
“O vapor está a espalhar-se” disse Kevin.
Luna assentiu. “Temos que chegar aos nossos pais. Agora.”
Eles foram a toda a velocidade pela estrada. Kevin podia ver que os nós dos dedos de Luna estavam brancos no volante enquanto ela conduzia, numa expressão de concentração. Apesar disso, eles teciam e travavam enquanto ela lutava para se acostumar com isto. Se houvesse outras pessoas a conduzirem lá, Kevin não tinha dúvidas de que teriam tido um acidente dentro da primeira milha. Em vez disso, os únicos outros carros nas estradas eram estacionários, abandonados nas bermas ou, ocasionalmente, apenas no meio da estrada, enquanto os seus proprietários saíam para olhar para o céu.
Isto era culpa dele. Se ele nunca tivesse dito nada sobre o que ele tinha visto, se ele nunca tivesse levado as pessoas para a rocha, então isto não teria acontecido. Não haveria pessoas tão inexpressivas quanto manequins, e o efeito a espalhar-se...
A mãe dele. Ela estaria por aí, sem saber o que estava a acontecer. Sem saber o que fazer. Ela estaria segura? E se ela fosse como eles aqui? Não, Kevin não suportava esse pensamento. Kevin pegou no telemóvel, tentando ligar para a sua mãe para a avisar. Ele não ficou surpreendido ao encontrar meia dúzia de ligações perdidas dela, todas as mensagens querendo saber onde ele estava. Ele telefonou-lhe de volta.
“Kevin?” ela disse ao atender. “Kevin, onde estás? Onde é que estiveste? Não estavas em casa quando eu voltei. Tenho andado que nem uma doida!
Kevin suspirou aliviado porque, ao que parecia, a sua mãe ainda ocupava muito a sua mente.
“Mãe, eu estou com a Luna” disse ele.
“Luna? O que é que vocês os dois estão a fazer? Onde é que estão? Há umas coisas na televisão... Eles estão a dizer todo o tipo de coisas.”
“É difícil explicar, Mãe” disse Kevin. “Nós fomos ao instituto da NASA para avisar as pessoas que os alienígenas nos tinham enganado, mas chegámos demasiado tarde.”
“Os alienígenas?” a mãe de Kevin questionou. “Kevin, vocês foram todo esse caminho? Não era seguro e...”
“Mãe” disse Kevin “tens que me ouvir. Havia uma espécie de gás ou algo dentro da rocha. Isso muda as pessoas, deixa os alienígenas controlá-las. Tens que encontrar uma máscara ou um lugar que não esteja aberto ao ar.”
“Kevin” a sua mãe disse. “Isto realmente não parece...”
“Eu não sou louco, Mãe” insistiu Kevin, antes que a sua mãe conseguisse terminar. “Não sou.” Basta veres a televisão. Se não acreditas em mim, a Luna vai contar-te.”
Ele estendeu o telefone para Luna falar. Ele não tinha a certeza se era uma ideia assim tão boa, distraí-la assim, mas ele precisava fazer alguma coisa para tentar manter a sua mãe segura.
“Sra. McKenzie, é tudo verdade” disse Luna. “Você precisa de me ouvir. Eu vi. Eu vi os cientistas mudarem… sim, eu sei que parece loucura, mas eu juro que é verdade. Estamos a caminho para a ir buscar agora.”
Ela virou o volante bruscamente para evitar outro carro e Kevin tirou-lhe o telefone.
“Mãe? Nós estaremos aí o mais depressa que conseguirmos. Se alguém tentar entrar, olha para os olhos deles. Se as suas pupilas estiverem brancas, não os deixes entrar. Até nós. E mãe? Eu amo-te.”
Provavelmente não era uma coisa fantástica para dizer, mas naquele momento, Kevin não se importava. Ele queria que a sua mãe soubesse.
“Eu também te amo” disse a sua mãe. “O que quer que seja isto, vamos encontrar uma maneira de o resolver.”
Kevin não tinha tanta certeza de que seria assim tão fácil. Ele desligou, ligando para os pais de Luna, já que não havia como ela conseguir fazer isso sem parar ou bater. Ele ligou para a mãe dela, depois para o pai dela, ouvindo sempre a chamada passar para o correio de voz.
“Ninguém atende” disse ele.
Luna olhou para ele. “Achas que isso significa...”
“Cuidado!” Kevin disse, agarrando no volante para os afastar de um grupo de pessoas que foram para a estrada para olhar para o céu. O carro deles derrapou brevemente, raspando ao longo do lancil antes de continuar.
Luna agarrou o volante com mais força novamente, sem dizer nada agora enquanto conduzia, cada vez mais rápido à medida que a sua confiança aumentava. Kevin suspeitava que ela provavelmente deveria desacelerar um pouco, mas não ia ser ele a dizer-lhe isso naquele momento, especialmente quando eles ainda precisavam de ir até à sua própria mãe.
Pareceu demorar uma eternidade antes de entrarem em Walnut Creek, e tudo parecia calmo demais; sinistro até. Quando Luna parou o carro em frente à casa de Kevin, ocorreu-lhe a ele que ela não deveria ter sido capaz. Eles deveriam ter sido cercados por repórteres, todos ansiosos para fotografá-lo a fazer algo que ele não deveria estar a fazer.
Em vez disso, a rua estava vazia.
“Onde é que estão todos eles?” Kevin perguntou em voz alta.
“Queres ser importunado pelos repórteres?” Luna ripostou. “Provavelmente eles estão cobrindo tudo o que está a acontecer, ou eles decidiram se proteger. Era o que eu faria.”
“É o que nós vamos fazer” Kevin prometeu. Assim que eles conseguissem salvar os seus pais. “A minha mãe dever-nos-ia ter visto a chegar.”
Ele foi do carro até à casa, tocando à campainha e batendo à porta.
“Mãe” ele gritou “não é um repórter. Sou eu, o Kevin.”
Ele esperou por vários segundos, sem ter a certeza se o silêncio era porque a sua mãe estava a esconder-se, ou porque isso significava algo mais sinistro. Ele atreveu-se a dar um suspiro de alívio quando ouviu o clique do trinco e a porta a começar-se a abrir.
“Mãe!” Kevin disse, abrindo os braços para abraçá-la, não se importando de isso não ser uma coisa fantástica de se fazer na sua idade. Ela ficou parada à frente dele, sorrindo com os braços abertos, parecendo segura, parecendo feliz...
… Então Kevin viu os olhos dela, num branco vazio e a olharem fixamente, e percebeu que a sua mãe estava a agarrá-lo, não a abraçá-lo.
Era demasiado tarde, ele percebeu, e um buraco abriu-se no seu estômago.
Os alienígenas tinham-na.
CAPÍTULO VINTE E SEIS
Por um momento, Kevin ficou parado ali, paralisado pela dor que sentia. Ele sentiu as lágrimas a começarem a escorrer-lhe pelas suas bochechas abaixo. Eles tinham assumido o controlo da sua mãe. Eles tinham-na controlado, como tinham controlado tantas outras pessoas, mas isto era diferente, porque era a sua mãe, não outra pessoa. Ele sentia-se zangado, triste e culpado simultaneamente. Ele tinha provocado isto. Ele havia-lhes dito onde encontrar a rocha. Ele...
“Kevin, corre!” Luna disse, empurrando-o da sua mãe.
Ele conseguiu soltar-se da sua mãe, saltando para trás, mas ela foi atrás dos dois cambaleando, expirando o vapor que poderia convertê-los.
Mais figuras vieram dos edifícios ao redor, saindo deles de uma forma que dizia que eles tinham estado à espera que Kevin e Luna chegassem apenas para que o pudessem fazer. Alguns deles pareciam repórteres, com equipamentos de câmara ainda presos a eles enquanto eles iam atrás deles. Kevin podia ver pior que isso. Os pais de Luna estavam ali, com os olhos vazios e sem verem como os restantes. A coisa mais aterrorizante era o quão normal eles pareciam.
Foi o suficiente para Kevin correr para o carro. Ele fê-lo enquanto Luna se sentava no lugar do motorista.
“Conduz!” ele gritou para Luna quando conseguiu cair para o banco do passageiro.
“Aqueles... aqueles são os meus pais” disse Luna, e apesar da sua máscara, Kevin pôde ver o quão pálidas as feições dela estavam e o quão preocupada ela estava.
“Eu sei, Luna, mas se não sairmos daqui, vamos acabar como eles, ou pior.”
Luna olhou para ele e Kevin podia ver as suas lágrimas. Mesmo assim, Luna assentiu com a cabeça, pisando no acelerador para que o carro disparasse para a frente. Repórteres saltaram do capô. Kevin estava agradecido por não serem os pais de Luna, mesmo que os repórteres voltassem a subir.
Eles continuaram mais de um quilômetro antes de pararem, no meio de um terreno deserto onde não havia sinal de ninguém. Luna desligou o motor e chorou. Naquele momento, Kevin sabia como ela se sentia. A mãe dele tinha ido, levada pelos alienígenas daquela maneira. Ele tinha tentado avisá-la. Ela não teria acreditado nele, abrindo a porta a alguém? Teria sido tarde demais?
Kevin não sabia. Naquele momento, isto não importava. A sua mãe tinha desaparecido, mudado, e os pais de Luna também. Assim como todos os adultos em quem eles tinham podido confiar. A Dra. Levin. Ted. Todos eles se tinham ido. O mundo parecia um lugar muito maior e mais assustador sem eles para ajudar.
Ele sentia-se vazio naquele momento, de uma forma que fazia com todas as coisas que ele tinha sentido ao saber que ia morrer não parecessem nada. Era isto que a sua mãe sentira ao ouvir que ele estava a morrer? Esta sensação de perda?
“Promete-me uma coisa” disse Luna entre as lágrimas. “Promete-me que não me vais deixar ficar assim.”
“Estamos a salvo” disse Kevin. Nem mesmo para si mesmo, ele parecia convincente. “Nós temos máscaras.”
“Uma máscara não os vai deter se eles as afastarem e respirarem essas coisas para cima de mim” disse Luna. Ela parecia zangada agora. Não com Kevin; zangada com o mundo. “A máscara não vai me impedir de ficar como eles. Então promete-me que não me vais deixar ficar como eles.”
“Como é que eu posso...?” Kevin começou.
“Podes matar-me” disse Luna. As lágrimas nos olhos dela faziam-nos brilhar. “Eu não quero ser uma coisa estúpida, presa no meu próprio corpo. Se eu acabar assim, quero que me mates. Diz que o irás fazer, Kevin.”
Kevin não o podia dizer. Ele não poderia prometer matar Luna. Como é que alguém poderia prometer isso? O melhor que ele podia fazer era ficar em silêncio enquanto Luna chorava, com a sua mão no ombro dela num apoio silencioso.
“Para onde vamos, Kevin?” Luna perguntou. Parecia que ela estava a reprimir os seus soluços agora. “Para onde é que nós podemos ir? “O que é que podemos fazer?” E se... e se todos estiverem assim?”
Kevin não tinha a certeza se ele tinha uma resposta para isso.
“Precisamos chegar a algum lugar seguro” disse ele. “Ted queria que o fizéssemos.”
“Ele queria que chegássemos ao bunker” disse Luna. “Não conseguimos ir para lá agora, pois não?”
Kevin pensou em todos os cientistas que estariam no caminho, naqueles que tinham vindo atrás deles. Ele abanou a cabeça.
“Não. Nós não conseguiríamos passar.”
“Então para onde?” Luna perguntou. “Temos que ir para algum lugar. Não podemos tirar as máscaras a menos que o façamos.”
Kevin não tinha tanta certeza disso. Afinal, um dos cientistas tinha agarrado a sua máscara. “Eu acho que... eu acho que posso” disse ele.
“Bem, eu não posso” Luna ripostou. “Como é que é suposto eu comer, Kevin? Ou beber alguma coisa, ou...”
“Vamos pensar em algo” disse Kevin, e então ficou estático ao perceber algo. “Há mais bunkers.”
“Mais bunkers?” Luna perguntou. “Mas eles não estariam escondidos?”
“Phil falou-me sobre algumas quando ele me levou a visitar o instituto” disse Kevin. “Ele até me mostrou um mapa.”
Atrás da sua máscara, Luna parecia esperançosa. “Consegues lembrar-te onde eles são?”
“Eu...”
“Tenta, Kevin” insistiu Luna.
Kevin fez o melhor que pôde. Ele conseguia lembrar-se de um garantidamente. “Phil disse que havia um no parque estadual no Monte Diablo. Ele disse algo sobre ser um lugar onde costumavam fazer testes militares.”
“Tens a certeza?” Luna perguntou.
Kevin assentiu. “Seria mais seguro do que estar do lado de fora” disse Kevin. Ele tentou pensar sobre o que precisariam e como funcionaria. “Nós precisaríamos de suprimentos. Comida e outras coisas.”
No final, eles levaram o que precisavam de um posto de gasolina. Eles não tinham dinheiro para pagar, mas o funcionário estava ocupado na parte de trás da loja, olhando para o céu. Kevin deixou um bilhete de qualquer maneira, com o endereço da sua mãe. Não parecia certo apenas roubar coisas, mesmo com tudo o que estava a acontecer.
Eles seguiram em frente, e agora Luna parecia estar a apanhar o jeito, porque a jornada inteira pareceu mais suave. Houve certamente menos colisões, embora eles ainda tivessem que se esquivar dos carros que haviam sido abandonados no meio da estrada, com os ex-motoristas tendo saído para olhar para cima. Havia até um par de carros de polícia lá, e Luna desacelerou quase automaticamente quando eles passaram. Mas a polícia estava tão ocupada a olhar fixamente como todos os outros. Não havia ninguém para lhes causar problemas - e ninguém para ajudá-los também.
“Achas que há alguma coisa que possamos fazer para ajudar os nossos pais?” Luna perguntou passado um pouco.
“Eu não sei” admitiu Kevin. Ele estava a pensar nisto quase constantemente desde que tinha visto a sua mãe assim. “Eu acho que eu deveria saber.”
Ele tinha tido tantas mensagens dos alienígenas, mas nenhum havia dito nada sobre como desfazer tudo isto. Nenhuma tinha fornecido uma cura para o que quer que fosse, ou até sugerido que tal poderia ser desfeito. Kevin teve um pensamento horrível naquele momento: os alienígenas haviam queimado o seu próprio mundo para impedir que isto se espalhasse, tentando acabar com a ameaça, e mesmo isso não o tinha impedido.
“E se não houver uma maneira?” Luna perguntou. “E se toda a gente ficar presa assim para sempre?”
“Se houver alguma coisa, vamos encontrá-la” disse Kevin, embora nem sequer soubesse como poderiam começar a fazê-lo. Ele tinha que ter esperança, no entanto. Ele queria trazer a sua mãe de volta e não passar o resto da vida a esconder-se de qualquer grupo de pessoas que encontrasse.
Eles dirigiram-se para leste e continuaram a conduzir. A estrada contorcia-se e virava enquanto eles subiam pelas encostas, obscurecendo a montanha por um momento, mas logo voltando à vista. Eles estavam a subir, e Kevin fez o melhor que pôde para pensar onde é que o ponto vermelho no mapa estava a marcar o bunker. Era difícil, porque ele só o tinha visto brevemente, e muita coisa tinha acontecido desde então.
“Acho que está perto do topo” disse ele.
Luna assentiu e continuou a conduzir. Havia menos pessoas aqui, mas, mesmo assim, estavam a fazer as mesmas coisas que os outros: parados na estrada, a olharem para o céu. Alguns estavam caminhando de volta para a cidade também, como se houvesse alguma coisa lá à espera por eles.
Era suposto haver um estacionamento no topo da montanha, mas Luna tirou o carro da estrada um pouco antes, escondendo-o num conjunto de árvores.
“De forma a que ainda aqui esteja se precisarmos dele”, disse ela. Kevin não conseguia ver quem poderia estar ali para roubá-lo, mas, mesmo assim, parecia uma boa ideia. Ele supôs que poderia haver pessoas nas áreas turísticas, todas controladas pelos alienígenas agora.
Eles levaram comida e suprimentos do carro, algumas latas e pacotes que não pareciam suficientes agora que eles estavam aqui. Eles avançaram pelas árvores, tentando não fazer um único som.
“Qual é o caminho para o bunker a partir daqui?” Luna perguntou.
“Não tenho a certeza” admitiu Kevin. “Eu acho que é bem no topo.”
Luna assentiu e eles começaram a subir. Era difícil, subir assim, mas eles continuaram. Eles estavam quase no topo. A perspetiva de segurança atraía-los.
Havia pessoas perto do topo. Kevin conseguiu vê-los quando eles se aproximaram. Alguns pareciam turistas, mas havia outros com uniformes militares, sugerindo que a conversa de Phil sobre um local de testes militares oculto poderia ser verdadeira. Todos pareciam tão imóveis quanto todos os outros que ele tinha visto, como se estivessem à espera de ordens. Ele sabia que não podia simplesmente passar por eles, porém. Mesmo se só um o visse, quantos mais viriam? Se eles fossem muitos, não importaria que eles tivessem um bunker para onde ir.
Então eles se arrastaram o melhor que puderam, tentando manter o maior número de árvores possível entre eles e as pessoas que ali estavam. Kevin manteve a cabeça baixa, tentando se manter fora de vista. Ele viu pessoas a virarem-se lentamente para olhar para ele através das árvores, e ele soube que os esforços deles para permanecer fora da vista não tinham resultado.
“Corre!” ele gritou para Luna.
Eles correram, enquanto o grupo daqueles à beira do lago avançava como um só, movendo-se a não mais do que um passo de caminhada, mas parecendo não parar por nada. Kevin e Luna corriam através das árvores, afastando-se de vista.
“Ali” Luna sussurrou, apontando.
Kevin suspirou de alívio. Ela estava certa. Eles tinham-no encontrado.
A entrada do bunker estava camuflada de verde, cinzento, musgo e pequenas plantas. A entrada parecia um pequeno buraco no chão à distância, mas, mais perto, era possível ver os degraus que desciam. Havia uma porta ali fechada por uma maçaneta redonda antiquada, como uma roda de navio ou um cofre. Um buraco de fechadura estava no centro. Kevin só esperava que Phil estivesse certo sobre as mesmas chaves funcionarem em todos os lugares.
“Rapidamente” disse Luna.
Kevin ouvia o barulho das pessoas controladas pelos alienígenas a aproximarem-se. Os dois correram para a porta. Kevin colocou a chave na fechadura e, tão lentamente que o aterrorizou, a roda começou a girar.
A porta abriu-se bem a tempo.
Ele e Luna mergulharam lá para dentro, fechando-a com força atrás deles e trancando a fechadura. Algo bateu do outro lado, mas a porta aguentou-se
“Iniciar o procedimento de descontaminação” disse uma voz eletrónica. A água caiu numa explosão rápida que encharcou os dois como uma tempestade violenta. Naquele momento, Kevin nem se importou.
“Conseguimos” disse ele. “Estamos a salvo.”
CAPÍTULO VINTE E SETE
Para surpresa de Kevin, o bunker estava vazio, sem ninguém, independentemente de eventuais precauções que pudessem estar em vigor. Parecia estranho estar preso ali tendo Luna como única companhia.
O bunker tinha um centro de operações com ecrãs maiores do que eles. Kevin apertou um botão e ficou aliviado ao ver que os sistemas do bunker permitiam que eles acedessem à televisão, à Internet, a imagens de satélite e a muito mais. Havia até mesmo coisas que pareciam poder ter acesso a canais de comunicações militares, embora Kevin ainda não tivesse descoberto como lidar com isso.
“Restou alguém?” Luna perguntou.
Kevin não tinha a certeza de como responder a isso. “Há transmissões e coisas” ele disse, “então deve haver alguém”.
Não parecia haver muitas pessoas, no entanto. Do lado de fora do bunker, Kevin e Luna viam o mundo mudar. Havia notícias na Internet a falar sobre as pessoas a serem transformadas. Não era apenas a América agora, e estava a espalhar-se depressa demais para se conter. Talvez se as pessoas tivessem conseguido fechar as suas fronteiras a tempo, talvez conseguissem ter parado aquilo, mas, mesmo assim, o que é que elas poderiam fazer com um vapor carregado pelo vento?
“O que é que achas que os nossos pais estão a fazer agora?” Luna perguntou.
“Eu não sei” admitiu Kevin. Era uma sensação estranha e dolorosa não saber isso. Seria que a sua mãe estava lá fora com os outros, apenas a olhar fixamente? As pessoas que estavam assim comiam ou bebiam, lembrar-se-iam de dormir? Ou apenas ficariam ali até caírem de exaustão?
“Ainda há algumas pessoas a tentarem mostrar o que está a acontecer” disse Luna. Ela mostrou a Kevin imagens de uma estação de televisão onde eles estavam a tentar mapear tudo na frente do que parecia ser um mapa do tempo, e um site da Internet onde alguém tinha conseguido entrar num monte de câmaras ao redor do mundo.
“Londres, Paris, Pequim” disse Kevin, lendo as legendas. Era difícil distingui-las, porque cada uma mostrava quase a mesma cena, com as pessoas apenas ali paradas. Depois piorou, porque nos ecrãs, as imagens começaram a mudar, mostrando as pessoas a olharem para o céu agora a saírem para as ruas às centenas, milhares, reunindo-se para olhar para cima.
Foi preciso algum tempo para perceber para o que é que eles estavam a olhar.
Kevin observou o ecrã e não pôde acreditar no que estava a ver. Ele viu as pessoas a olharem para o céu, e viu a sombra que começou a passar sobre elas, repentina demais para ser algo natural.
E, de longe, demasiado grande, para ser alguma coisa construída por mãos humanas.

CHEGADA
(As Crónicas da Invasão—Livro Dois)
Da autora de fantasia bestselling nº1 do mundo inteiro chega uma nova série de ficção científica há muito esperada. SETI recebeu um sinal de uma civilização alienígena. Há tempo para salvar o mundo?
“Um grande enredo, o tipo de livro que você terá problemas para parar de ler à noite. O suspense do final é tão espetacular que você vai imediatamente querer comprar o livro seguinte só para ver o que acontece.”
–The Dallas Examiner (referente a Amada)
“Outra série brilhante, mergulhando-nos numa fantasia de honra, coragem, magia e fé no seu destino… Recomendado para a biblioteca permanente de todos os leitores que adoram uma fantasia bem escrita.”
–Books and Movie Reviews, Roberto Mattos (referente a Ascenção dos Dragões)
"Uma leitura rápida e fácil... você tem de ler o que acontece a seguir e não quer parar."
–FantasyOnline.net (referente a Uma Busca de Heróis)
No rescaldo do SETI receber o sinal, Kevin, de 13 anos, percebe: ele é o único que pode salvar o mundo. Mas há tempo? O que é que ele deve fazer?
E o que é que os alienígenas planeam a seguir?
“Repleta de ação... A escrita de Rice é sólida e a premissa intrigante."
--Publishers Weekly (referente a Uma Busca de Heróis)
“Uma fantasia superior… Um vencedor recomendado para quem gosta de escrita de fantasia épica impulsionada por poderosos e credíveis protagonistas jovens adultos.”
–Midwest Book Review (referente a Ascensão dos Dragões)
“Uma fantasia repleta de ação que irá certamente agradar aos fãs das histórias anteriores de Morgan rice, juntamente com os fãs de trabalhos tais como O CICLO DA HERANÇA de Christopher Paolini…Os fãs de ficção para jovens adultos irão devorar este último trabalho de Rice e suplicar por mais.”
--The Wanderer, A Literary Journal (referente a Ascensão dos Dragões)
O livro #3 da série estará disponível brevemente.
Também estão disponíveis muitas séries de Morgan Rice do género de fantasia, incluindo UMA BUSCA DE HERÓIS (LIVRO #1 da série o ANEL DO FEITICEIRO), um download gratuito com mais de 1.300 avaliações com 5 estrelas!

CHEGADA
(As Crónicas da Invasão—Livro Dois)
Sabia que eu já escrevi múltiplas séries? Se não leu todas as minhas séries, clique na imagem abaixo e faça o download do primeiro livro de cada série!
Livros de Morgan Rice
AS CRÓNICAS DA INVASÃO
TRANSMISSÃO (Livro #1)
CHEGADA (Livro #2)
O CAMINHO DA ROBUSTEZ
APENAS OS DIGNOS (Livro #1)
UM TRONO PARA IRMÃS
UM TRONO PARA IRMÃS (Livro #1)
UMA CORTE PARA LADRAS (Livro #2)
UMA CANÇÃO PARA ÓRFÃS (Livro #3)
UMA ENDECHA PARA PRÍNCIPES (Livro #4)
UMA JOIA PARA REALEZAS (Livro #5)
UM BEIJO PARA RAINHAS (Livro #6)
DE COROAS E GLÓRIA
ESCRAVA, GUERREIRA, RAINHA (Livro #1)
VADIA, PRISIONEIRA, PRINCESA (Livro #2)
CAVALEIRO, HERDEIRO, PRÍNCIPE (Livro #3)
REBELDE, PEÃO, REI (Livro #4)
SOLDADO, IRMÃO, FEITICEIRO (Livro #5)
HEROÍNA, TRAIDORA, FILHA (Livro #6)
GOVERNANTE, RIVAL, EXILADA (Livro #7)
VENCEDORA, DERROTADA, FILHO (Livro #8)
REIS E FEITICEIROS
A ASCENSÃO DOS DRAGÕES (Livro #1)
A ASCENSÃO DOS BRAVOS (Livro #2)
O PESO DA HONRA (Livro #3)
UMA FORJA DE VALENTIA (Livro #4)
UM REINO DE SOMBRAS (Livro #5)
A NOITE DOS CORAJOSOS (Livro #6)
O ANEL DO FEITICEIRO
UMA BUSCA DE HERÓIS (Livro #1)
UMA MARCHA DE REIS (Livro #2)
UM DESTINO DE DRAGÕES (Livro #3)
UM GRITO DE HONRA (Livro #4)
UM VOTO DE GLÓRIA (Livro #5)
UMA CARGA DE VALOR (Livro #6)
UM RITO DE ESPADAS (Livro #7)
UM ESCUDO DE ARMAS (Livro #8)
UM CÉU DE FEITIÇOS (Livro #9)
UM MAR DE ESCUDOS (Livro #10)
UM REINADO DE AÇO (Livro #11)
UMA TERRA DE FOGO (Livro #12)
UM GOVERNO DE RAINHAS (Livro #13)
UM JURAMENTO DE IRMÃOS (Livro #14)
UM SONHO DE MORTAIS (Livro #15)
UMA JUSTA DE CAVALEIROS (Livro #16)
O DOM DA BATALHA (Livro #17)
TRILOGIA DE SOBREVIVÊNCIA
ARENA UM: TRAFICANTES DE ESCRAVOS (Livro #1)
ARENA DOIS (Livro #2)
ARENA TRÊS (Livro #3)
VAMPIRO, APAIXONADA
ANTES DO AMANHECER (Livro #1)
MEMÓRIAS DE UM VAMPIRO
TRANSFORMADA (Livro #1)
AMADA (Livro #2)
TRAÍDA (Livro #3)
PREDESTINADA (Livro #4)
DESEJADA (Livro #5)
COMPROMETIDA (Livro #6)
PROMETIDA (Livro #7)
ENCONTRADA (Livro #8)
RESSUSCITADA (Livro #9)
ALMEJADA (Livro #10)
DESTINADA (Livro #11)
OBCECADA (Livro #12)
Sobre Morgan Rice
Morgan Rice é a best-seller nº1 e a autora do best-selling do USA TODAY da série de fantasia épica O ANEL DO FEITICEIRO, composta por dezassete livros; do best-seller nº1 da série OS DIÁRIOS DO VAMPIRO, composta por doze livros; do best-seller nº1 da série TRILOGIA DA SOBREVIVÊNCIA, um thriller pós-apocalíptico composto por três livros; da série de fantasia épica REIS E FEITICEIROS, composta por seis livros; da série de fantasia épica DE COROAS E GLÓRIA, composta por oito livros; e da série de fantasia épica UM TRONO PARA IRMÃS, composta por 5 livros (a continuar); e da nova série de ficção científica AS CRÓNICAS DA INVASÃO. Os livros de Morgan estão disponíveis em edições áudio e impressas e as traduções estão disponíveis em mais de 25 idiomas.
Morgan adora ouvir a sua opinião, pelo que, por favor, sinta-se à vontade para visitar www.morganricebooks.com e juntar-se à lista de endereços eletrónicos, receber um livro grátis, receber ofertas, fazer o download da aplicação grátis, obter as últimas notícias exclusivas, ligar-se ao Facebook e ao Twitter e manter-se em contacto!