Kitabı oku: «A mulher da estrela azul»

Editado por HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
A mulher da estrela azul
Título original: The Woman with the Blue Star
© 2021 by Pam Jenoff
© 2021, para esta edição da HarperCollins Ibérica, S.A.
Publicado originalmente por Park Row Books
Tradutor: Filipa Velosa
Reservados todos os direitos, inclusive os de reprodução total ou parcial em qualquer formato ou suporte.
Esta edição foi publicada com a permissão da Harlequin Books, S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são usados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos comerciais, factos ou situações são mera coincidência.
Direção de Arte: Kathleen Oudit | Ilustração Digital: Allan Davey
Design da Capa: Elita Sidiropoulou
Imagens da Capa: © Magdalena Russocka/Trevillion Images (sapatos)
1ª edição: Outubro 2021
ISBN: 978-84-9139-670-3
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Prólogo
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Epílogo
Nota da autora
Agradecimentos
Para o meu shtetl… Até à vista.
Prólogo
Cracóvia, Polónia
Junho 2016
A mulher que vejo perante mim não é de todo aquela que eu esperava.
Dez minutos antes, diante do espelho do meu quarto de hotel, estava a escovar uns fiapos do punho da minha blusa azul-celeste e a ajeitar um dos meus brincos de pérolas. O desgosto apoderou-se de mim. Tinha-me tornado na viva imagem de uma mulher de setenta anos: cabelo grisalho curto e prático, fato de calças e casaco a aconchegar o meu corpo robusto de forma mais apertada do que há um ano.
Afaguei o ramo de flores frescas na mesa de cabeceira, eram flores de um vermelho vivo embrulhadas em papel pardo. Então, dirigi-me à janela. O Hotel Wentzl, uma mansão do século XVI restaurada, situava-se na esquina sudoeste da Rynek Główny, a imensa praça do mercado da cidade. Escolhi o local deliberadamente, garantindo que o meu quarto tivesse a vista certa. A praça, com o seu canto sul côncavo a conferir-lhe a aparência de uma peneira, fervilhava de atividade. Os turistas amontoavam-se entre as igrejas e as bancas de lembranças do Sukiennice, o gigantesco mercado de tecidos que dividia a praça. Naquele fim de tarde quente, grupos de amigos juntavam-se nas esplanadas dos cafés para tomarem um copo depois do trabalho, enquanto os trabalhadores carregados se apressavam para chegar a casa, de olhos postos nas nuvens que escureciam sobre o Castelo Wawel, a sul.
Eu já tinha estado em Cracóvia duas vezes, a primeira logo após a queda do comunismo e, novamente, dez anos depois, quando comecei a minha investigação mais a sério. Fui imediatamente conquistada pela joia oculta que era aquela cidade. Embora eclipsada pelos reclames turísticos de Praga e Berlim, o centro histórico de Cracóvia, com as suas catedrais imaculadas e casas de pedra restauradas ao seu esplendor original, era um dos mais elegantes de toda a Europa.
Em cada uma das minhas visitas, notei a cidade muito mudada, tudo sempre mais brilhante e novo, tudo «melhor» aos olhos dos habitantes locais, que tinham passado por muitos anos de dificuldades e estagnação do progresso. As casas outrora cinzentas tinham sido pintadas de amarelos e azuis vivos, transformando as ruas antigas numa versão cinematográfica de si próprias. Os habitantes também eram um exemplo de contradição: jovens vestidos com roupas modernas falavam ao telemóvel enquanto caminhavam, alheios aos camponeses que vendiam camisolas de lã e queijo de ovelha em oleados estendidos no chão e a uma babcia de lenço na cabeça, sentada no pavimento, a pedir esmola. Sob a montra de uma loja que anuncia pacotes de WiFi e Internet, os pombos debicavam as pedras duras da praça do mercado como faziam há séculos. Debaixo de tanta modernidade e polimento, a arquitetura barroca da Cidade Velha resplandecia com audácia, uma história impossível de negar.
Mas não foi a história que me trouxe cá, pelo menos não essa história.
Quando o trompetista da torre da igreja Mariacki começou a tocar o Hejnał, assinalando a hora certa, observei o canto noroeste da praça, à espera de que a mulher aparecesse às cinco como fazia todos os dias. Não a vi e perguntei-me se não viria hoje, e, nesse caso, a minha viagem do outro lado do mundo teria sido em vão. No primeiro dia, quis ter a certeza de que ela era a pessoa correta. No segundo, tinha intenção de falar com ela, mas não tive coragem. Amanhã volto para casa, para a América. Era a minha última oportunidade.
Finalmente, ela apareceu ao virar da esquina da farmácia, o guarda-chuva bem enfiado debaixo do braço. Atravessou a praça a um ritmo surpreendente para uma mulher de quase noventa anos. Não estava curvada; tinha as costas direitas e altas. O seu cabelo branco estava apanhado num carrapito frouxo no alto da cabeça, mas algumas farripas soltas emolduravam-lhe o rosto. Em contraste com a minha roupa sóbria, ela envergava uma saia de cores vivas, com um estampado vibrante. O tecido reluzente parecia dançar por vontade própria em torno dos seus tornozelos enquanto andava e quase que conseguia ouvir o seu farfalhar.
A sua rotina era familiar, idêntica à dos dois dias anteriores, quando a vi dirigir-se para o Café Noworolski e pedir a mesa mais distante da praça, protegida da agitação e do bulício pelo arco profundo da entrada do prédio. Da última vez que vim a Cracóvia, ainda andava à procura. Agora sabia quem ela era e onde encontrá-la. A única coisa a fazer era ganhar coragem e abordá-la.
A mulher sentou-se à mesa, na mesma mesa de canto de sempre, e abriu o jornal. Ela não fazia ideia de que estávamos prestes a encontrar-nos, ou sequer de que eu estava viva.
Ao longe, ouviu-se o estrondo de um trovão. Começaram a cair uns pingos, salpicando os paralelepípedos como lágrimas negras. Tinha de me despachar. Se o café fechasse e a mulher se fosse embora, esfumar-se-ia tudo aquilo que vim buscar.
Ouvi as vozes dos meus filhos a dizerem que, na minha idade, era muito perigoso viajar para tão longe sozinha, que não havia motivo, nada mais para aprender ali. Eu devia partir e ir para casa. Não faria diferença a ninguém.
Exceto para mim, e para ela. Ouvi a sua voz na minha cabeça como imaginava que seria, a relembrar-me ao que tinha vindo.
Mentalizada, peguei nas flores e saí do quarto.
Lá fora, comecei a atravessar a praça. Então parei novamente. Dúvidas ecoavam no meu cérebro. Porque é que vim de tão longe? De que é que andava à procura? Obstinadamente, prossegui, sem sentir as gotas grossas que me salpicavam a roupa e o cabelo. Cheguei ao café e passei por mesas de clientes que pagavam as suas contas e se preparavam para sair à medida que a chuva caía com mais força. Quando me aproximei da mesa, a mulher de cabelo branco levantou o olhar do jornal. Os seus olhos arregalaram-se.
De perto, consigo ver o seu rosto. Consigo ver tudo. Fico imóvel, paralisada.
A mulher que vejo perante mim não é de todo aquela que eu esperava.
1
Sadie
Cracóvia, Polónia
Março 1942
Tudo mudou no dia em que vieram buscar as crianças.
Eu devia estar no entreforro do sótão do prédio de três andares que dividíamos com uma dúzia de outras famílias do gueto. Todas as manhãs, a minha mãe ajudava-me a esconder-me ali, antes de se juntar ao destacamento de trabalhadores fabris, deixando-me um balde limpo para fazer as vezes de casa de banho e a advertência severa de não sair do sítio. Mas eu ficava enregelada e nervosa sozinha naquele espaço diminuto e frio onde não era capaz de me mexer, correr ou nem sequer estar de pé. Os minutos decorriam lentamente, apenas interrompidos por uns arranhões — crianças invisíveis, muito mais novas do que eu, armazenadas no lado de lá da parede. Mantinham-nas separadas, sem espaço para correr e brincar. Enviavam mensagens umas às outras com pancadinhas e arranhões, numa espécie de código morse improvisado. Às vezes, de tão entediada, eu também participava.
«A liberdade está onde a encontrares», costumava dizer o meu pai sempre que me queixava. O meu pai via o mundo exatamente como queria. «A pior prisão é a tua cabeça.» Para ele, era fácil falar. Embora o trabalho braçal do gueto distasse muito da sua profissão de contabilista anterior à guerra, pelo menos ele saía de casa todos os dias, e via outras pessoas, não estava confinado como eu, que praticamente não saía daquele prédio desde que, há seis meses, nos obrigaram a mudar-nos do nosso apartamento no bairro judeu, perto do centro da cidade, para o bairro de Podgórze, onde o gueto fora criado na margem sul do rio. Eu queria uma vida normal, a minha vida, livre para transpor os muros do gueto e ir a todos os lugares que conhecia e dava como garantidos. Imaginei-me a apanhar o elétrico para as lojas da Rynek ou para o kino para ver um filme, a explorar os velhos montes verdejantes nos arrabaldes da cidade. Se, pelo menos, a minha melhor amiga, a Stefania, fosse uma das outras crianças escondidas nas proximidades… Em vez disso, ela morava num apartamento afastado, do outro lado do gueto, atribuído às famílias da polícia judia.
Dessa vez, não foi o tédio ou a solidão que me tiraram do meu esconderijo, mas sim a fome. Sempre tive um grande apetite e o pequeno-almoço dessa manhã tinha sido meia fatia de pão, ainda menos do que o normal. A minha mãe tinha-me oferecido a sua parte, mas eu sabia que ela precisava de energia para o longo dia de trabalho na fábrica.
À medida que a manhã avançava no esconderijo, a minha barriga vazia começou a doer. Pela minha cabeça, e sem terem sido convidadas, passavam visões dos alimentos que comíamos antes da guerra: a deliciosa sopa de cogumelos e o borscht saboroso, e pierogi, os dumplings fofos e maravilhosos que a minha avó costumava fazer. A meio da manhã, sentia-me tão fraca da fome que me aventurei a sair do esconderijo e descer até à cozinha comum no rés-do-chão, que não passava de um fogão solitário e uma pia que pingava água morna e acastanhada. Não fui à procura de comida — mesmo que houvesse alguma, nunca a roubaria. Só queria ver se havia algumas migalhas no armário e encher o estômago com um copo de água.
Fiquei na cozinha mais tempo do que devia, a ler o exemplar amarrotado do livro que tinha trazido comigo. O que mais detestava no meu esconderijo do sótão era o facto de ser demasiado escuro para ler. Sempre gostei de ler e o meu pai trouxera o máximo de livros que pôde do nosso apartamento para o gueto, apesar dos protestos da minha mãe, que dizia que precisávamos do espaço nas malas para roupa e comida. Era o meu pai que alimentava o meu amor pela aprendizagem e encorajava o meu sonho de estudar Medicina na Universidade Jaguelónica, antes de as leis alemãs o impossibilitarem, primeiro ao banirem os judeus e depois ao fecharem definitivamente a universidade. Mesmo no gueto, no fim dos seus longos e árduos dias de trabalho, o meu pai adorava ensinar-me e discutir ideias comigo. De alguma forma, tinha-me conseguido um livro novo, uns dias antes, O Conde de Monte Cristo. Mas o esconderijo do sótão era muito escuro para o poder ler e praticamente não sobrava tempo antes do toque de recolher obrigatório e de apagarem as luzes. Só mais um bocadinho, disse a mim própria, ao passar a página na cozinha. Mais uns minutos não fariam diferença.
Tinha acabado de lamber a faca do pão suja quando ouvi o chiar de uns pneus pesados, seguidos de vozes que mais pareciam cães a rosnar. Fiquei petrificada, e quase deixei cair o livro. As SS e a Gestapo estavam lá fora, flanqueadas pela vil Jüdischer Ordnungsdienst, a polícia judia do gueto, que obedecia às suas ordens. Era uma aktion, a prisão repentina e sem aviso prévio de grandes grupos de judeus levados do gueto para os campos de trabalho. Era a razão primordial pela qual me mantinha escondida. Saí a correr da cozinha, atravessei o corredor e subi as escadas. Lá de baixo, veio um grande estrondo quando a porta da frente do prédio se escancarou e a polícia entrou. Era impossível voltar para o sótão a tempo.
Em vez disso, corri para o nosso apartamento no terceiro andar. O meu coração batia com força enquanto olhava desesperadamente em volta, à espera de encontrar um armário ou qualquer outro móvel adequado para me esconder no quarto minúsculo, quase vazio, à exceção da cómoda e da cama. Eu sabia que havia outros lugares, como a parede de gesso falso que uma das outras famílias construiu no prédio adjacente há menos de uma semana. Isso agora era muito longe, impossível de lá chegar. Os meus olhos pousaram-se no grande baú situado aos pés da cama dos meus pais. Uma vez, a minha mãe ensinou-me a esconder-me lá dentro, pouco depois de nos termos mudado para o gueto. Praticámos como se fosse um jogo, a mãe a abrir o baú para eu entrar antes de ela fechar a tampa.
O baú era um esconderijo horrível, muito exposto no meio da sala. Mas simplesmente não havia mais nenhum lugar; eu tinha de tentar. Corri até à cama e enfiei-me dentro do baú, depois fechei a tampa com esforço. Agradeci aos céus por ser pequena como a minha mãe. Sempre odiei ser tão franzina, o que me fazia parecer dois anos mais nova do que realmente era. Naquele momento, era uma bênção, isso e o triste facto de ter emagrecido à conta daqueles meses de mísero racionamento no gueto. Ainda cabia no baú.
Naqueles ensaios, imaginámos que a minha mãe colocava um cobertor ou algumas roupas em cima do baú. Claro que eu era incapaz de fazer isso sozinha, logo, o baú estava ainda mais desprotegido e qualquer pessoa que entrasse no quarto podia vê-lo e abri-lo. Enrolei-me como um bicho-de-conta, com os braços à volta do corpo, sentindo a braçadeira branca com a estrela azul que todos os judeus eram obrigados a usar na manga.
Vindo do prédio do lado, chegou um grande estrondo, o som de gesso a ser esquartejado por um martelo ou machado. A polícia tinha encontrado o esconderijo atrás da parede, delatado pela tinta ainda fresca. Um grito desconhecido ecoou quando uma criança foi encontrada e arrastada do seu refúgio. Se eu tivesse ido para lá, também teria sido apanhada.
Alguém se aproximou da porta do nosso apartamento e escancarou-a. O meu coração parou. Conseguia ouvir a sua respiração, sentir os olhos a espiolharem o quarto. Desculpa, mãe, pensei, sentindo a sua reprovação por ter saído do sótão. Preparei-me para ser descoberta. Será que seriam mais brandos comigo se me entregasse? Os passos ficaram mais fracos à medida que o alemão avançava pelo corredor, parando diante de cada porta, à cata de fugitivos.
A guerra chegara a Cracóvia num dia quente de outono, dois anos e meio antes, quando as sirenes dos ataques aéreos se ouviram pela primeira vez e esvaziaram as ruas das crianças que aí brincavam. A vida tornou-se difícil antes de ficar péssima. A comida escasseava e esperávamos em longas filas pelos mantimentos mais básicos. Uma vez não houve pão durante uma semana inteira.
Então, há cerca de um ano, por ordem do Governo-Geral, milhares de judeus oriundos de pequenas cidades e aldeias, atordoados e de trouxa às costas, lotaram Cracóvia. No começo, perguntei-me como seria possível que encontrassem um lugar para ficar no Kazimierz, o já acanhado bairro judeu da cidade. Mas os recém-chegados foram forçados por decreto a viver numa área abarrotada do distrito industrial de Podgórze, na outra margem do rio, que tinha sido cercada por um muro alto. A minha mãe trabalhava com a Gmina, a organização da comunidade judaica local, para ajudá-los a instalar-se, e muitas vezes recebíamos amigos de amigos que almoçavam ou jantavam connosco quando chegavam, antes de irem definitivamente para o gueto. Contavam-nos histórias horríveis demais para serem verdade das suas cidades natal e a minha mãe enxotava-me da sala para não as ouvir.
Vários meses após a criação do gueto, recebemos ordens para nos mudarmos para lá também. Quando o meu pai me contou, não conseguia acreditar. Não éramos refugiados, mas moradores de Cracóvia; tínhamos vivido no nosso apartamento da rua Meiselsa a minha vida inteira. Tinha uma localização perfeita: numa extremidade do bairro judeu, mas a curta distância da diversão e bulício do centro da cidade e suficientemente perto do escritório do meu pai na rua Stradomska para ele poder vir a casa almoçar. A nossa casa ficava por cima de um café onde um pianista tocava todas as noites. Às vezes, a música chegava até nós e o meu pai rodopiava com a minha mãe pela cozinha ao som de acordes fracos. Mas de acordo com as ordens, os judeus eram judeus. Um dia. Uma mala por pessoa. E o mundo que conheci durante toda a vida desapareceu para sempre.
Espreitei pela nesga fina do baú, tentando avistar alguma coisa no quarto minúsculo que dividia com os meus pais. Sabia que tínhamos sorte por dispormos de uma divisão inteira só para nós, privilégio que nos fora concedido por o meu pai ser capataz no trabalho. Outros eram obrigados a dividir um apartamento, por norma duas ou três famílias juntas. Ainda assim, o espaço era acanhado em comparação com a nossa antiga casa. Estávamos sempre uns em cima dos outros, o que magnificava as imagens, os sons e os odores da vida diária.
«Kinder, raus!», a polícia chamou várias vezes enquanto patrulhava os corredores. «Crianças, fora.» Não era a primeira vez que os alemães vinham buscar crianças durante o dia, sabendo que os pais estariam no trabalho.
Mas eu não já não era uma criança. Tinha dezoito anos e poder-me-ia ter unido às forças de trabalho como outros da minha idade e alguns vários anos mais novos. Via-os cada manhã na fila para a chamada, antes de se arrastarem para uma das fábricas. E eu queria trabalhar, embora pudesse dizer pela maneira lenta e dolorosa como o meu pai agora caminhava, curvado como um velho, e como as mãos da minha mãe estavam gretadas e a sangrar, que era difícil e horrível. Trabalhar implicava ter uma oportunidade de sair, ver e conversar com outras pessoas. O meu esconderijo era um assunto de grande discussão entre os meus pais. O meu pai achava que eu devia trabalhar. A autorização de trabalho era altamente valorizada no gueto. Os trabalhadores eram avaliados e menos propensos a serem deportados para um dos campos. Mas a minha mãe, que raramente se opunha ao meu pai, tinha-o proibido. «Ela parece ter menos idade. O trabalho é muito duro. É mais seguro ela ficar longe da vista.» No meu refúgio atual e prestes a ser descoberta a qualquer segundo, interroguei-me se ela ainda pensaria ter razão.
Por fim, o prédio ficou em silêncio, à medida que os últimos passos horríveis foram esmorecendo. Porém, não me mexi. Essa era uma das formas de apanharem pessoas escondidas, fingiam que se iam embora e ficavam à coca, à espera de que elas saíssem dos seus refúgios. Fiquei imóvel, não me atrevendo a sair do esconderijo. Os meus membros doíam-me, depois ficaram dormentes. Não fazia ideia de quanto tempo tinha passado. Através da fenda, consegui ver que a penumbra invadira o quarto, como se o sol estivesse mais baixo.
Algum tempo depois, ouviram-se passos novamente, desta vez o som arrastado da chegada dos trabalhadores, silenciosos e exaustos do dia de trabalho. Tentei desenrolar-me no baú, mas tinha os membros rígidos e doridos e os movimentos lentos. Antes de conseguir sair, a porta do nosso apartamento abriu-se e alguém entrou a correr no quarto com passos leves e agitados.
— Sadie! — Era a minha mãe, e parecia histérica.
— Jestem tutaj — chamei. Estou aqui. Agora que ela estava em casa, podia ajudar-me a desdobrar-me e sair dali. Mas o baú abafou a minha voz. Quando tentei abrir o trinco, emperrou.
A minha mãe saiu a correr do quarto para o corredor. Ouvi-a abrir a porta do sótão e subir as escadas a correr, ainda à minha procura.
— Sadie! — chamou. — Minha filha, minha filha — dizia repetidamente enquanto me procurava e não me encontrava, a sua voz elevada a um guincho. Pensava que tinha sido levada.
— Mãe! — gritei. Mas ela estava longe demais para me ouvir; para além disso, os seus próprios gritos também eram muito altos. Em desespero, tentei mais uma vez libertar-me do baú, mas foi em vão. A minha mãe correu de volta para o quarto, ainda em pranto. Ouvi alguma coisa a raspar; era o som da janela a abrir-se. Por fim, lancei-me com tanta força contra a tampa do baú que o meu ombro latejou. O trinco abriu-se.
Liberta, levantei-me rapidamente.
— Mãe? — Ela estava de pé na posição mais estranha, com um pé no parapeito da janela, a sua silhueta esguia perfilada contra o céu frio do crepúsculo. — O que é que estás a fazer? — Por um segundo, pensei que ela estava à minha procura lá fora. Mas o seu rosto estava contorcido de tristeza e de dor. Então percebi porque é que a minha mãe estava no parapeito da janela. Ela presumiu que me tivessem levado juntamente com as outras crianças. E não queria viver. Se não me tivesse livrado do baú a tempo, a minha mãe teria saltado. Eu era a sua única filha, o seu mundo todo. Ela estava disposta a matar-se antes de viver sem mim.
Um arrepio percorreu o meu corpo enquanto corri na sua direção.
— Estou aqui, estou aqui.
Trôpega, ela cambaleou no parapeito da janela e agarrei-lhe o braço para a impedir de cair. O remorso varreu-me. Sempre quis agradar-lhe, trazer aquele sorriso arduamente conquistado ao seu lindo rosto. E acabava de lhe causar tamanha dor que quase a levara a fazer o impensável.
— Estava tão preocupada — disse ela depois de a ajudar a descer e fechar a janela. Como se isso explicasse tudo. — Não estavas no sótão.
— Mas, mãe, escondi-me onde me disseste. — Fiz um gesto para o baú. — O outro lugar, lembras-te? Porque é que não me procuraste ali?
A minha mãe parecia confusa.
— Achei que já não cabias lá dentro. — Houve uma pausa e então nós as duas começámos a rir, um som áspero e fora de lugar naquele quarto deplorável. Por uns segundos, foi como se estivéssemos de novo no nosso antigo apartamento da rua Meiselsa e nada daquilo tivesse acontecido. Se ainda nos conseguíamos rir, de certeza que tudo se havia de solucionar. Agarrei-me a esse último pensamento improvável como a um colete salva-vidas no mar.
Mas um grito ecoou pelo prédio, depois outro, silenciando as nossas gargalhadas. Eram as mães das outras crianças levadas pela polícia. Ouviu-se um baque do lado de fora. Dirigi-me para a janela, mas a minha mãe impediu-me.
— Não olhes — ordenou ela. Tarde demais. Vislumbrei a Helga Kolberg, que morava no final do corredor, deitada, imóvel, na neve tingida de carvão no pavimento, com os membros em ângulos estranhos e a saia aberta em volta de si como um leque. Ela percebeu que os seus filhos tinham desaparecido e, tal como a minha mãe, não queria viver sem eles. Perguntei-me se saltar era um instinto comum ou se elas o tinham combinado, uma espécie de pacto suicida para o caso de os seus piores pesadelos se tornarem realidade.
O meu pai entrou disparado no quarto. Nem a minha mãe nem eu proferimos uma palavra, mas percebi pela sua expressão estranhamente sombria que ele já sabia da aktion e do que tinha acontecido às outras famílias. Simplesmente aproximou-se e rodeou-nos às duas com os seus braços enormes, num abraço mais apertado do que o normal.
Quando nos sentámos, calados e quietos, olhei para os meus pais. A minha mãe era de uma beleza impressionante — magra e elegante, com o cabelo louro claro da cor de uma princesa nórdica. Não se parecia nada com as outras mulheres judias e, mais de uma vez, tinha ouvido sussurros que diziam que ela não era daqui. Se não fosse por nós, ela podia sair do gueto e viver como uma não judia. Mas eu saía ao meu pai, de cabelo escuro e encaracolado e pele cor de azeitona que tornavam inegável o facto de sermos judeus. O meu pai aparentava ser o trabalhador que os alemães tinham feito dele no gueto, de ombros largos e pronto para levantar grandes canos ou lajes de betão. Na verdade, era contabilista — ou tinha sido até que se tornou ilegal para a sua empresa continuar a contratá-lo. Sempre quis agradar à minha mãe, mas era o meu pai que era meu aliado, guardião dos meus segredos e tecelão dos meus sonhos, que ficava acordado até tarde a sussurrar-me segredos no escuro e deambulava pela cidade comigo, em busca de tesouros. Aproximei-me, tentando perder-me na segurança do seu abraço.
Contudo, os braços do meu pai eram incapazes de me proteger do facto de que tudo estava a mudar. O gueto, apesar das suas condições horrendas, em tempos parecera relativamente seguro. Vivíamos entre judeus e os alemães até tinham nomeado um conselho judaico, o Judenrat, para gerir os nossos afazeres diários. Talvez se nos acalmássemos e fizéssemos aquilo que nos mandavam, dizia muitas vezes o meu pai, os alemães nos deixassem em paz dentro daqueles muros até ao fim da guerra. Era a nossa esperança. Mas a partir de hoje, já não tinha tanta certeza disso. Olhei em volta, assolada pelo nojo e pelo medo, em partes iguais. No princípio, eu não queria estar ali; agora estava com medo de sermos obrigados a partir.
— Temos de fazer alguma coisa — a minha mãe explodiu, a sua voz num tom mais alto do que o normal enquanto ecoava os meus pensamentos ocultos.
— Vou levá-la amanhã e registá-la para obter uma autorização de trabalho — disse o meu pai. Dessa vez, a minha mãe não replicou. Antes da guerra, era bom ser criança. Mas agora, ser útil e capaz de trabalhar era a única coisa que poderia salvar-nos.
No entanto, a minha mãe referia-se a mais do que a um visto de trabalho.
— Eles hão de cá vir de novo e para a próxima vez não vamos ter tanta sorte. — Ela já não se preocupou em conter as palavras para meu benefício. Balancei a cabeça num sinal mudo de concordância. As coisas estavam a mudar, disse uma voz dentro de mim. Não podíamos ficar ali para sempre.
— Vai correr tudo bem, kochana — sossegou-me o meu pai. Como é que ele podia dizer semelhante coisa? Mas a minha mãe deitou a cabeça no seu ombro, parecendo confiar nele como sempre fazia. Eu também queria acreditar. — Vou pensar em alguma coisa. Pelo menos — acrescentou o meu pai enquanto nos aconchegávamos… — ainda estamos todos juntos. — As palavras ecoaram pela sala, num misto de promessa e prece em partes iguais.
2
Ella
Cracóvia, Polónia
Junho 1942
Era uma noite quente de início de verão quando atravessei a praça do mercado, e deambulei entre as aromáticas bancas de flores instaladas à sombra do mercado de tecidos, que exibiam flores que poucos tinham dinheiro para comprar. Ou vontade. As esplanadas dos cafés, menos movimentados do que outrora numa noite tão agradável, ainda estavam abertas e ganhavam a noite a servir cerveja a soldados alemães e a alguns outros temerários que ousavam juntar-se a eles. Não olhando com demasiada atenção, até poderia parecer que nada tinha mudado.
Claro que tudo tinha mudado. Cracóvia era uma cidade ocupada há quase três anos. Bandeiras vermelhas com suásticas pretas no centro ondulavam no Sukiennice, o longo corredor amarelo do mercado de tecidos situado no meio da praça, tal como na torre de tijolo do Ratusz, ou na câmara municipal. A praça Rynek chamava-se agora Adolf-Hitler-Platz e os centenários nomes polacos das ruas tinham sido substituídos por Reichsstrasse e Wehrmachtstrasse, e por aí fora. Hitler tinha designado Cracóvia como sede do Governo-Geral e a cidade estava a abarrotar de brutamontes das SS e outros soldados alemães, que caminhavam pelos passeios em filas de três e quatro, obrigando os outros transeuntes a desviar-se do seu caminho e assediando a seu bel-prazer os polacos normais. Numa esquina, um rapaz de calções vendia o Krakauer Zeitung, o pasquim propagandístico alemão que tinha substituído o nosso próprio jornal. «Partes baixas» era o que as pessoas lhe chamavam em sussurros irreverentes que insinuavam que só servia para limpar o traseiro.
Apesar do horror das mudanças, ainda era bom poder sair, sentir o sol a aquecer-me o rosto e esticar as pernas num fim de tarde tão lindo. Passeei pelas ruas da Cidade Velha todos os dias de que me lembrava dos meus dezanove anos, primeiro com o meu pai quando criança e depois sozinha. As suas características eram a topografia da minha vida, desde a Barbacã, a torre e o portão medievais no fim da rua Florianska, até ao Castelo Wawel, situado no alto de uma colina com vista para o rio Vístula. Pelos vistos, passear era a única coisa que nem o tempo nem a guerra podiam roubar-me.
Porém, não parei nos cafés. Em tempos, ter-me-ia aí sentado com os meus amigos, a rir e conversar enquanto o sol se punha e as luzes se acendiam à noite, refletindo-se no pavimento em cascatas amarelas. Mas já não havia luzes noturnas, tudo se escureceu por decreto alemão para proteger a cidade de um hipotético ataque aéreo. E já ninguém que eu conhecia combinava encontros. As pessoas saíam menos, relembrava com frequência, pois os convites outrora abundantes agora reduziam-se a nada. Poucos podiam comprar comida suficiente com cartões de racionamento para fazerem festas ou jantares em casa. Toda a gente estava mais preocupada com a própria sobrevivência, e ter companhia era um luxo ao qual não podíamos aspirar.
Mesmo assim, senti uma pontada de solidão. A minha vida era tão calma com o Krys longe que gostava de dar dois dedos de conversa com amigos da minha idade. Pondo os sentimentos de lado, circulei pela praça mais uma vez vendo as montras das lojas, que exibiam moda e outras mercadorias que já praticamente ninguém conseguia pagar. Fazia de tudo para adiar o regresso à casa onde vivia com a minha madrasta.
Mas era uma parvoíce ficar na rua por muito mais tempo. Os alemães tinham a fama de pararem com mais frequência as pessoas para interrogatório e inspeção conforme a noite caía e o toque de recolher obrigatório se aproximava. Saí da praça e comecei a descer a grande via que era a rua Grodzka rumo à casa onde tinha vivido a minha vida inteira, a tão só uns passos do centro da cidade. Então, virei para a rua Kanonicza, um caminho antigo e sinuoso pavimentado com paralelepípedos que a passagem do tempo alisou. Apesar de temer dar de caras com a minha madrasta, a Ana Lucia, a ampla casa que dividíamos ainda era uma visão gratificante. Com a sua fachada amarela brilhante e floreiras bem cuidadas nas janelas, era mais agradável do que qualquer coisa que os alemães achavam que um polaco merecia. Noutras circunstâncias, decerto teria sido confiscada para um oficial nazi.
Enquanto estava à frente da casa, memórias da minha família dançaram diante dos meus olhos. As visões da minha mãe, que morreu de gripe quando eu era pequena, eram as mais esbatidas. Eu era a mais nova de quatro filhos e tinha ciúmes dos meus irmãos, que tinham privado tantos anos com a nossa mãe, que eu mal conhecera. As minhas irmãs eram ambas casadas, uma com um advogado de Varsóvia e a outra com um capitão de navio de Gdansk.
O meu irmão, o Maciej, mais próximo de mim em idade, era de quem eu tinha mais saudades. Embora fosse oito anos mais velho, arranjava sempre um tempinho para brincar e conversar comigo. Era diferente dos outros; não tinha interesse em casamento, nem nas opções de carreira que o meu pai queria para ele. Então, aos dezassete anos, fugiu para Paris, onde morava com um homem chamado Phillipe. Claro que o Maciej não escapou do longo braço dos nazis. Eles também controlavam Paris, turvando o que ele outrora chamava de Cidade das Luzes. Mas as suas cartas continuavam otimistas e eu esperava que as coisas estivessem pelo menos um pouco melhores por lá.
Durante anos depois de os meus irmãos terem saído de casa, éramos apenas eu e o meu pai, a quem sempre chamei Tata. Então, ele começou a fazer viagens a Viena relacionadas com o seu negócio de impressão com mais frequência do que antes. Um dia voltou com a Ana Lucia, com quem casou sem me avisar. Na primeira vez em que a vi, soube logo que a odiaria. Vestia um casaco de pele grosso com a cabeça do animal ainda presa à gola. Os olhos do coitadinho encararam-me com pena, cheios de recriminação. Uma lufada do seu cheiro muito forte a jasmim encheu-me o nariz enquanto ela beijava a minha face no ar, a sua respiração quase um assobio. Pude perceber, pelo modo frio como me avaliou no nosso primeiro encontro, que eu não era desejada, como os móveis escolhidos por outra pessoa, aos quais estava presa porque vinham com a casa.
Quando a guerra estourou, o Tata decidiu renovar a sua comissão no exército. Na sua idade, decididamente não precisava de ir. Mas decidiu servir por um sentido de dever, não apenas para com o país, mas para com os jovens soldados, quase meninos, alguns dos quais não eram nascidos da última vez que a Polónia entrara numa guerra.
O telegrama não demorou a chegar: desaparecido, dado como morto na frente oriental. Os meus olhos ardiam ao pensar no Tata, a dor tão acutilante como no dia em que soubemos da notícia. Às vezes, sonhava que ele tinha sido capturado e voltaria para nós depois da guerra. Outras vezes, ficava com raiva: como é que ele podia ter partido deixando-me sozinha com a Ana Lucia? Ela era como a madrasta malvada das histórias infantis, só que pior pois era de verdade.
Cheguei à porta arqueada de carvalho da nossa casa e comecei a rodar a maçaneta de bronze. Parei ao ouvir vozes escandalosas vindas do interior. A Ana Lucia tinha visitas outra vez.
As festas da minha madrasta sempre eram barulhentas. Ela chamava-lhes soirées, fazendo-as parecer mais grandiosas do que realmente eram. Pareciam consistir em qualquer comida decente que pudesse ser encontrada nos dias que corriam, combinada com várias garrafas de vinho da adega cada vez menor do meu pai e um pouco de vodca do congelador, bastante aguada para render. Antes da guerra, até ia às suas festas, que estavam cheias de artistas, músicos e intelectuais. Adorava ouvir os seus debates animados, as ideias discutidas pela noite dentro. Mas todas essas pessoas tinham debandado, tendo fugido para a Suíça ou para a Inglaterra se conseguissem; os menos sortudos tinham sido presos e mandados embora. Todos eles foram substituídos por convidados da pior espécie: alemães, quanto mais alta a patente, melhor. A Ana Lucia era muito pragmática. No início da guerra, ela admitira a necessidade de fazer dos nossos captores amigos. Ao fim de semana, a nossa mesa enchia-se de brutamontes de pescoço grosso que conspurcavam a casa com fumo de charuto e sujavam os tapetes com as botas enlameadas que não se dignavam a limpar à porta.
Ao princípio, a Ana Lucia argumentava que o objetivo da confraternização com os alemães era obter informações sobre o meu pai. Isso foi nos primeiros dias, quando ainda esperávamos que pudesse estar preso ou desaparecido em combate. Mas então recebemos a notícia da sua morte e ela continuou a conviver com os alemães mais do que nunca. Era como se, livre do pretexto do casamento, ela pudesse ser exatamente tão horrível quanto queria ser.
Como era óbvio, eu não ousava confrontar a minha madrasta sobre o seu comportamento vergonhoso. Como o meu pai fora declarado morto sem testamento, a casa e todo o seu dinheiro ficariam legalmente em nome dela. Ela teria o maior prazer em desfazer-se de mim caso lhe criasse problemas, substituir a mobília que, em primeira instância, ela nunca quis. Eu ficaria sem nada. Por isso, era muito discreta. A Ana Lucia gostava de me relembrar muitas vezes que era devido ao facto de ela ter caído nas boas graças dos alemães que permanecíamos na nossa bela casa com comida suficiente e os carimbos apropriados no nosso Kennkarten que nos permitiam circular livremente pela cidade.
Afastei-me da porta de entrada. Da calçada, olhei com tristeza pela janela da frente da nossa casa para o serviço de porcelana e os copos de cristal, tão familiares. Mas não via os estranhos horrendos que agora usufruíam das nossas coisas. Em vez disso, o meu imaginário estava repleto de visões da minha família: eu a querer brincar às bonecas com as minhas irmãs muito mais velhas; a minha mãe a ralhar com o Maciej por ele me perseguir à volta da mesa e poder partir os objetos. Quando somos jovens, esperamos que a família na qual nascemos seja nossa para sempre. O tempo e a guerra fizeram com que esse não fosse o caso.
Temendo a companhia da Ana Lucia mais do que o toque de recolher obrigatório, afastei-me de casa e comecei a andar novamente, sem saber bem para onde me dirigia. Estava quase escuro e os parques estavam vedados aos polacos comuns, bem como a maioria dos melhores cafés, restaurantes e salas de cinema também. A minha indecisão nesse momento parecia ser o reflexo da minha vida mais abrangente, encurralada numa espécie de terra de ninguém. Não tinha para onde ir e ninguém com quem ir. Como moradora daquela Cracóvia ocupada, sentia-me como um pássaro de estimação, capaz de voar um bocadinho, mas sempre consciente de estar presa numa gaiola.
Poderia não ser assim se o Krys ainda ali estivesse, refleti enquanto me dirigia de novo à praça Rynek. Imaginei um mundo diferente em que a guerra não o tivesse obrigado a partir. Agora estaríamos a planear o casamento, quem sabe até já estivéssemos casados.
Eu e o Krys encontrámo-nos por acaso quase dois anos antes do início da guerra, quando eu e os meus amigos parámos para tomar um café num estabelecimento onde ele estava a fazer uma entrega. Alto e de ombros largos, era uma figura que dava nas vistas ao atravessar a passagem transportando um grande caixote. Tinha feições austeras, que pareciam esculpidas em pedra, e um olhar leonino que parecia abranger toda a sala. Quando passou pela nossa mesa, uma cebola caiu do caixote e rebolou até perto de mim. Ele ajoelhou-se para a apanhar, olhou para mim e sorriu. «Estou aos seus pés.» Às vezes pergunto-me se deixou cair o vegetal de propósito ou se foi o destino que o enviou a rodopiar na minha direção.
Convidou-me para sair nessa mesma noite. Eu deveria ter dito que não; era impróprio aceitar um encontro de forma tão repentina. Mas fiquei intrigada e, depois de um jantar de algumas horas, apaixonada. Não foi só a aparência que me atraiu nele. O Krys era diferente de todas as pessoas que conhecia. Tinha uma energia que parecia encher a sala e fazer todos os presentes desaparecerem. Embora proviesse de uma família operária e não tivesse concluído o ensino secundário, muito menos frequentado a faculdade, era um autodidata cujas ideias ousadas sobre o futuro e como o mundo deveria ser, o faziam parecer muito maior do que qualquer outra coisa em volta. Era a pessoa mais inteligente que já tinha conhecido. E ouviu as minhas opiniões de uma forma que ninguém fizera.
Começámos a passar todo o nosso tempo livre juntos. Éramos um casal improvável: eu era sociável e gostava de festas e amigos. Ele era um solitário que evitava multidões e preferia conversas profundas enquanto fazia longas caminhadas. O Krys amava a natureza e mostrou-me lugares de rara beleza fora da cidade, florestas antigas e ruínas de castelos enterrados nas profundezas da floresta que eu não sabia que existiam.
Certa noite, algumas semanas depois de nos conhecermos, estávamos a passear ao longo do alto cume da colina de St. Bronisława, uma colina nos arredores da cidade, a debater acaloradamente uma questão sobre os filósofos franceses, quando notei que me observava intensamente.
— O que é que foi?
— Quando nos conhecemos, esperava que fosses como as outras raparigas — disse ele. — Interessada em coisas superficiais. — Embora pudesse ter ficado ofendida, eu sabia o que ele queria dizer. As minhas amigas pareciam muito interessadas em festas, diversão e no último grito da moda. — Em vez disso, és totalmente diferente.
Em breve, passaríamos todo o nosso tempo livre juntos, a fazer planos para casar, viajar e conhecer o mundo.
Claro que a guerra mudou tudo isso. O Krys não foi recrutado, mas, como o meu pai, alistou-se para ir à luta desde o começo. Ele sempre se importou muito com tudo e a guerra não era uma exceção. Argumentei que, se ele esperasse um pouco, tudo acabaria antes de ele ir, mas o Krys não se deixou persuadir. Pior ainda, acabou tudo comigo antes de partir.
— Não sabemos quanto tempo vou estar fora. — Ou se vais voltar, pensei, uma ideia tão horrível que nenhum dos dois se atrevia a verbalizá-la. — Deves ser livre de conheceres outra pessoa.
Era uma piada. Mesmo que houvesse rapazes em Cracóvia, eu não teria nenhum interesse. Argumentei com mais veemência do que o meu orgulho me permite admitir que não devíamos separar-nos, mas sim ficar noivos ou até mesmo casar antes de ele partir, como tantos outros tinham feito. Se alguma coisa acontecesse, eu queria ter, pelo menos, aquele pedaço dele, ter partilhado aquele vínculo. Mas o Krys queria esperar e, quando metia uma coisa na cabeça, não havia nada no mundo que pudesse demovê-lo. Passámos a última noite juntos, tornando-nos mais íntimos do que deveríamos, porque talvez não houvesse outra oportunidade durante muito tempo, ou talvez nunca mais. Saí a chorar de madrugada, entrando sorrateiramente em casa antes que a minha madrasta se apercebesse da minha ausência.
Embora eu e o Krys já não estivéssemos realmente juntos, ainda o amava. Ele só tinha acabado comigo porque pensava que era o melhor para mim. Tinha a certeza de que, quando a guerra acabasse e ele voltasse em segurança, nos juntaríamos e tudo voltaria ao normal. Então, o exército polaco foi rapidamente derrotado, arrasado pelos tanques e artilharia alemães. Muitos dos homens que tinham ido à luta voltaram, feridos e humilhados. Presumi que o Krys faria o mesmo. Mas ele não voltou. As suas cartas, que já se tinham espaçado e imbuído de um tom mais distante, deixaram de chegar. Onde é que ele estava? Perguntava-mo sem parar. Certamente, eu teria sabido pelos seus pais se ele tivesse sido preso ou pior. Não, o Krys ainda andava algures lá fora, disse a mim própria de forma obstinada. A guerra simplesmente interrompeu o correio. E, assim que pudesse, o Krys voltaria para mim.
À distância, os sinos da igreja Mariacki tocaram, anunciando sete horas. Instintivamente, esperei que o trompetista tocasse o Hejnał como fizera a cada hora durante a maior parte da minha vida. Mas a música do trompetista, um grito de guerra medieval que lembrava como a Polónia tinha repelido hordas invasoras, foi grandemente silenciada pelos alemães, que agora apenas permitiam que tocasse duas vezes por dia. Atravessei novamente a praça do mercado, pensando se valia a pena parar para tomar um café e passar o tempo. Quando me aproximei de um dos cafés, um soldado alemão sentado com outros dois olhou para mim com interesse, com uma intenção inconfundível. Nada de bom viria de me sentar ali. Caminhei apressadamente.
Ao aproximar-me do Sukiennice, avistei duas figuras familiares, de braço dado e a olharem para a montra de uma loja. Encaminhei-me para elas.
— Boa noite.
— Oh, olá. — A Magda, a morena, espreitava por baixo de um chapéu de palha fora de moda há dois anos. A Magda era uma das minhas melhores amigas antes da guerra. Mas não a via ou tinha notícias dela há meses. Ela não me olhou nos olhos.
Ao lado dela, estava a Klara, uma rapariga superficial, com quem nunca simpatizei. Usava um corte de cabelo louro à pajem e sobrancelhas muito altas, o que lhe dava uma expressão de perpétua surpresa.
— Andamos a fazer umas comprinhas e vamos parar para comer qualquer coisa — informou-me ela com altivez.
E não me convidaram.
— Eu teria gostado desse programa — aventurei-me cuidadosamente na direção da Magda. Apesar de não termos falado recentemente, uma parte de mim tinha esperança de que a minha velha amiga tivesse pensado em mim e me tivesse convidado para acompanhá-la.
A Magda não respondeu. Mas a Klara, que sempre teve ciúmes da minha proximidade com à Magda, não mediu as palavras.
— Não te ligámos. Achámos que estarias ocupada com os novos amigos da tua madrasta. — O meu rosto doeu-me como se me tivessem dado uma bofetada. Durante meses, disse a mim própria que as minhas amigas tinham deixado de sair. A verdade é que elas tinham era deixado de sair comigo. Percebi então que o desaparecimento das minhas amigas nada tinha que ver com as adversidades da guerra. Elas evitavam-me porque a Ana Lucia era uma colaboradora, e talvez até acreditassem que eu também era.
Pigarreei.
— Não me dou com as mesmas pessoas que a minha madrasta — respondi lentamente, lutando para manter a voz calma. Nem a Klara nem a Magda disseram mais nada e um silêncio confrangedor instalou-se entre nós.
Ergui o queixo.
— Não faz mal — disse eu, tentando ignorar a rejeição. — Tenho andado ocupada. Há tantas coisas que preciso de fazer antes de o Krys voltar… — Não tinha contado às minhas amigas que eu e o Krys tínhamos acabado o namoro. Não era apenas o facto de raramente nos vermos ou de eu ter vergonha. Pelo contrário, dizê-lo em voz alta forçar-me-ia a admiti-lo para mim própria, a torná-lo real. — Ele há de voltar em breve e então podemos planear o casamento.
— Sim, claro que sim — replicou a Magda, e senti uma pontada de culpa ao lembrar-me do seu próprio noivo, o Albert, que tinha sido levado pelos alemães quando invadiram a universidade e prenderam todos os professores. Nunca mais voltou.
— Bom, temos de ir andando — disse a Klara. — Temos uma reserva às sete e meia. — Por uma fração de segundo, desejei que, apesar de toda a indelicadeza, elas ainda me convidassem para ir com elas. Uma parte patética de mim teria engolido o orgulho e dito que sim de bom grado a algumas horas de companhia.
Mas elas não me convidaram.
— Então adeus — disse a Klara friamente. Pegou no braço da Magda e levou-a embora, as suas gargalhadas e ecoarem pela praça com o vento. De cabeças conspirativamente inclinadas uma contra a outra, tinha a certeza de que estavam a falar sobre mim.
Não importa, disse a mim própria, afastando a rejeição. Puxei a camisola para me proteger da brisa estival, agora revestida de um frio sinistro. O Krys estaria de volta em breve e ficaríamos noivos. Continuaríamos a nossa relação do ponto onde a tínhamos deixado e seria como se aquele terrível interregno nunca tivesse acontecido.
3
Sadie
Março 1943
Fui acordada por um som alto de alguma coisa a raspar lá em baixo.
Não era a primeira vez que os barulhos do gueto à noite me incomodavam. As paredes do nosso apartamento, construídas à pressa para dividir as habitações originais em casas mais pequenas, eram finas como papel e os sons abafados do quotidiano trespassavam-nas com facilidade. No interior do nosso apartamento, os sons noturnos também eram constantes: a respiração pesada e o ressonar do meu pai; os grunhidos discretos da minha mãe enquanto tentava encontrar uma posição confortável para descansar a sua nova barriga inchada. Ouvia frequentemente os meus pais a bichanarem no nosso espaço diminuto, quando julgavam que eu já tinha adormecido.
Não que eles ainda tentassem esconder tantas coisas de mim. Desde que quase fui apanhada e levada na aktion, tornou-se praticamente impossível ignorar o horror da nossa cada vez mais grave situação. Depois de um inverno penoso, sem aquecimento e com pouca comida, a doença e a morte pairavam por todo o lado. Pessoas novas e velhas morreram de fome e doença ou foram baleadas por não obedecerem às ordens da polícia do gueto com rapidez suficiente ou por alguma outra infração, enquanto se alinhavam para irem para o trabalho cada manhã.
Nunca falámos do dia em que quase fui levada. Mas as coisas mudaram depois disso. Para começar, eu agora tinha um emprego, trabalhava com a minha mãe numa fábrica de sapatos. O meu pai tinha usado todas as suas influências para nos manter juntas e garantir que não fôssemos designadas para trabalhos pesados. Ainda assim, as minhas mãos ficaram calejadas e a sangrar por manusear o couro áspero doze horas por dia e os meus ossos doíam-me como os de uma velhota por estar continuamente curvada sobre o trabalho repetitivo.
Também havia uma coisa diferente na minha mãe — estava grávida com quase quarenta anos. Sempre soubera que os meus pais queriam desesperadamente outro filho. De forma inesperada, no pior momento, as suas preces tinham sido atendidas.
— Fim do verão — disse o meu pai, referindo-se à data prevista de nascimento do bebé. Já se notava, a barriga arredondada da minha mãe sobressaía do seu corpo magro.
Eu bem queria estar tão feliz quanto os meus pais por causa do bebé. Em tempos idos, tinha sonhado com um irmão mais novo, alguém mais próximo da minha idade. Mas agora tinha dezanove anos e poderia estar a formar a minha própria família. Um bebé parecia tão inútil, outra boca para alimentar na pior altura. Há tanto tempo que éramos apenas os três. No entanto, o bebé estava a caminho, quer me agradasse quer não. Não sabia bem se me agradava.
O barulho de raspagem voltou a elevar-se, como se alguém estivesse a cavar o cimento. A canalização antiga deve estar novamente a precisar de uma reparação, pensei. Talvez alguém estivesse por fim a arranjar a única casa de banho do rés-do-chão, que se alagava constantemente. Mas parecia estranho que estivessem a repará-la a meio da noite.
Sentei-me, irritada com a intromissão. Tinha tido um sono agitado. Não nos era permitido manter as janelas abertas e, mesmo em março, o quarto estava abafado, o ar estagnado e fedorento. Procurei os meus pais e fiquei surpreendida ao descobrir que não estavam. Às vezes, depois de eu ir para a cama, o meu pai desafiava as normas do gueto e ia sentar-se no degrau da frente a fumar com alguns dos outros homens que viviam no andar de baixo para escapar do confinamento do nosso quarto. Mas ele já devia estar de volta, e a minha mãe raramente saía, exceto para o trabalho. Havia algo errado.
Uns gritos irromperam na rua, alemães a gritar ordens. Fiquei tensa. Passara um ano desde o dia em que me tinha escondido no baú e, embora tivéssemos ouvido falar de aktions em grande escala noutras partes do gueto («liquidações», como o meu pai lhes chamara uma vez), os alemães não tinham entrado no nosso prédio desde então. Mas o terror nunca mais me abandonara e um instinto dizia-me, com certeza, que eles estavam de volta.
Levantei-me, vesti o roupão e calcei os chinelos, e corri para fora do apartamento para ir à procura dos meus pais. Sem saber para onde ir, comecei a descer. O corredor estava escuro, exceto pela luz fraca que vinha da casa de banho, para onde me dirigi. Quando transpus a porta, pestanejei, não só pela claridade inesperada, mas também de surpresa. A sanita tinha sido completamente retirada da sua base e empurrada para o lado, revelando um buraco irregular no chão. Eu não sabia que se podia desviar. O meu pai estava de joelhos no chão, a arranhar o buraco, literalmente a lascar os rebordos de cimento e a alargá-lo com as mãos.
— Pai?
Ele não ergueu os olhos.
— Veste-te depressa! — ordenou ele com uma rispidez inusitada na sua pessoa.
Ponderei fazer outra das dezenas de perguntas que me rodopiavam no cérebro. Mas fui criada como filha única entre adultos e era sensata o suficiente para saber quando me devia simplesmente calar e fazer o que me mandavam. Subi ao nosso quarto e abri o armário de madeira bolorenta que continha as nossas roupas. Então hesitei. Não fazia ideia do que vestir, mas não sabia onde estava a minha mãe e não ousei incomodar o meu pai novamente para lho perguntar. De qualquer modo, tínhamos chegado ao gueto com apenas algumas malas para os três, não havia propriamente muito por onde escolher. Tirei uma saia e uma blusa do cabide e comecei a vesti-las.
A minha mãe apareceu à porta e abanou a cabeça.
— Uma coisa mais quente — instruiu.
— Mas, mãe, não está assim tanto frio. — Ela não respondeu. Em vez disso, puxou a grossa camisola azul que a minha avó me tinha tricotado no inverno passado e o meu único par de calças de lã. Estava surpreendida; embora eu preferisse calças a saias, a minha mãe achava-as pouco femininas e antes da guerra costumava deixar-me usá-las só ao fim de semana quando não íamos a lugar nenhum. Quando acabei de me vestir, apontou para os meus pés.
— Botas — disse ela com firmeza.
As minhas botas eram de há dois invernos e muito apertadas.
— Ficam-me pequenas. — Tínhamos planeado comprar um par novo no outono passado, mas nessa altura tinham sido impostas restrições para os judeus entrarem nas lojas.
A minha mãe começou a dizer alguma coisa e tinha certeza de que ela me diria para usá-las mesmo assim. Então remexeu na última gaveta do armário com esforço e tirou as suas próprias botas.
— Mas o que é que tu vais calçar?
— Vá, calça-as já. — Ouvindo o seu tom firme, obedeci sem fazer mais perguntas. Os pés da minha mãe eram parecidos com os de um pássaro, estreitos e pequenos, e as botas eram apenas um número acima das minhas. Percebi então que, apesar de me ter mandado vestir roupa para o frio, a minha mãe continuava de saia, até porque ela não tinha calças, e mesmo que tivesse, não lhe serviriam na barriga, cada dia mais arredondada.
Quando a minha mãe acabou de enfiar alguns pertences num saco, olhei pela janela para a rua lá em baixo. À luz fraca da madrugada, vi homens fardados, não apenas a polícia, mas também as SS, a montar mesas. Ambas as extremidades da rua estavam bloqueadas. Os judeus estavam a ser forçados a reunir-se na Plac Zgody como faziam todas as manhãs. Só que não havia nenhuma ordem de chamada como quando fazíamos fila para ir trabalhar nas fábricas. A polícia estava a tirar as pessoas dos prédios e a tentar encurralar a multidão em filas com cassetetes e chicotes, conduzindo-as para uma dúzia de camiões parados numa esquina. Parecia que estavam a levar toda a gente do gueto. Deixei as cortinas cair com ansiedade.
Uma rajada de tiros matraqueou muito perto do nosso prédio, tão perto como nunca tinha ouvido. A minha mãe puxou-me para longe da janela e deitou-me ao chão, não sabia se para evitar que me vissem ou que fosse atingida.
Quando o tiroteio cessou por vários segundos, ela levantou-se e pôs-me de pé, então levou-me para longe da janela e conduziu-me até ao meu casaco.
— Vem agora! — Encaminhou-se para a porta, carregando uma pequena bolsa.
Olhei por cima do ombro. Por muito tempo, tinha odiado viver naquele espaço imundo e acanhado. Mas o apartamento que antes me parecera tão sombrio era agora um santuário, o único lugar seguro que conhecia. Teria dado qualquer coisa para ali ficar.
Pensei em recusar. Deixar o nosso apartamento agora com tantos polícias na rua parecia estúpido e inseguro. Então vi a expressão no rosto da minha mãe, não apenas zangada, mas com medo. Não se tratava de um passeio para pegar ou largar. Não havia escolha.
Segui a minha mãe escadas abaixo, ainda sem compreender. Achei que ia ter com os outros lá para fora para evitar chamar a atenção ou que os alemães viessem e nos mandassem sair. Quando chegámos ao rés-do-chão, dirigi-me para a porta da frente. Mas a minha mãe virou-me pelos ombros, empurrando-me para o fundo do corredor.
— Vem — disse a minha mãe.
— Para onde? — perguntei. Ela não respondeu, mas levou-me de volta para a casa de banho, como se me pedisse para usá-la uma última vez antes de uma longa viagem.
Quando nos aproximámos da casa de banho de novo, ouvi o meu pai a discutir com um homem cuja voz não reconheci.
— As coisas não estão prontas — disse o meu pai.
— Temos de ir já — insistiu o estranho.
Ir a qualquer lugar seria completamente impossível, pensei eu, lembrando-me do bloqueio na rua. Entrei na casa de banho. A sanita ainda estava arredada para o lado, revelando um buraco no chão. Fiquei surpreendida ao ver a cabeça de um homem assomada através dele. Parecia desmembrado, como uma excentricidade num espetáculo de horrores ou no Carnaval. Tinha um rosto largo, bochechas angelicais ásperas e em carne viva do trabalho ao ar livre no frio inverno polaco. Ao ver-me, sorriu.
— Dzień dobry — disse ele educadamente, cumprimentando-me como se tudo aquilo fosse perfeitamente normal. Então olhou para o meu pai e a sua expressão ficou sombria de novo. — Tem de vir agora.
— Mas para onde? — saiu-me sem pensar. As ruas estavam apinhadas de oficiais das SS e da Gestapo, para além de agentes da polícia do gueto judeu que, valha-nos Deus, eram quase tão maus como os outros. Olhei para o buraco no chão, e compreendi…
— De certeza que não pretende dizer…
Virei-me para a minha mãe, à espera que ela refilasse. A minha elegante e refinada mãe não se iria rebaixar a enfiar-se por um buraco debaixo da retrete. Mas o seu rosto estava pétreo e decidido, disposta a fazer o que o meu pai lhe pedisse.
Contudo, eu não estava pronta. Dei um passo atrás.
— E a babcia? — perguntei. A minha avó, que estava numa casa de repouso do outro lado da cidade, tendo de alguma forma escapado da deportação para o gueto.
A minha mãe hesitou, depois abanou a cabeça.
— Não há tempo. A casa de repouso não é judia — acrescentou ela —, ela vai ficar bem.
Pela janela sobre o lavatório, vi uma multidão de pessoas a serem conduzidas dos prédios para camiões. Avistei a minha amiga Stefania no meio da multidão. Fiquei surpreendida ao vê-la tão longe do seu próprio apartamento, do outro lado do gueto. Também tinha presumido que, por o seu pai ser um membro da polícia do gueto, ela poderia ser de alguma forma poupada, estar mais segura. Mas ali estava ela a ser levada, tal como todos os outros. Quase desejei poder ir com ela. Mas o seu rosto estava pálido de medo. Vem connosco, queria gritar. Assisti, impotente, enquanto era empurrada para a frente e desaparecia entre a multidão.
A minha mãe passou por mim.
— Eu vou primeiro.
Ao ver a sua barriga, o homem no buraco mostrou surpresa.
— Eu não sabia… — murmurou. O rosto do homem franziu-se de consternação. Via-o claramente a calcular as dificuldades acrescidas que um parto e um recém-nascido trariam. Por um segundo, perguntei-me se ele se recusaria a levar a minha mãe. Contive a respiração, esperando que ele dissesse que não funcionaria e que teríamos de encontrar outro caminho.
Mas o homem desapareceu buraco abaixo para abrir caminho e a minha mãe deu um passo em frente. Entregou o saco ao meu pai e sentou-se no chão com esforço, enfiando as pernas pelo buraco. Noutras circunstâncias, ter-se-ia por ali esgueirado com imensa facilidade. O meu pai chamava-lhe Passarinho, e a alcunha era adequada, pois ela era magra e parecia uma menina, mesmo estando já perto dos quarenta. Porém, agora era corpulenta, ao carregar a barriga arredondada no seu corpo esguio como se estivesse a segurar um melão. De forma embaraçosa, a sua saia foi puxada para baixo, revelando uma tira de barriga branca. Achei, como tantas outras vezes, que ela era demasiado velha para ter outro filho. A minha mãe deu um pequeno grito quando o meu pai a empurrou pelo buraco e desapareceu na escuridão.
— É a tua vez — disse o meu pai. Olhei em volta, a tentar ganhar tempo. Qualquer coisa para evitar enfiar-me no cano de esgoto. Mas os alemães já estavam à porta do prédio, aos murros fortes. Arrombariam a porta em pouco tempo e aí seria tarde demais. — Sadie, rápido! — disse ele, com a voz suplicante. O que quer que me estivesse a pedir para fazer era para salvar as nossas vidas.
Sentei-me no chão como a minha mãe tinha feito e olhei para o buraco, escuro e sinistro. Um fedor chegou-me às narinas e engasguei-me. Fui assolada por uma rebeldia e uma teimosia que eclipsaram a minha obediência habitual.
— Não sou capaz. — O buraco era escuro e aterrador, ao fundo não se via nada. Foi como daquela vez em que tentei pular de um ramo alto de uma árvore para um lago, só que mil vezes pior. Eu não era capaz de fazer aquilo.
— Tens de ser. — O meu pai não esperou por mais argumentos, e empurrou-me com força. O volume da minha roupa fez com que ficasse entalada a meio do caminho e ele empurrou-me outra vez, com mais força. Os rebordos imundos do cimento rasgaram-me as bochechas, cortando-as, e então dei por mim a cair na escuridão.
Aterrei com força de joelhos. Água fria e fétida salpicou à minha volta, encharcando as minhas meias. Evitei cair ainda mais agarrando-me a uma parede viscosa. Enquanto me levantava, tentei não pensar em que é que estava a tocar.
O meu pai desceu pelo buraco e aterrou ao meu lado. Lá em cima, alguém tapou o buraco no chão. Eu não tinha visto ninguém atrás de nós e perguntei-me quem seria, porventura um vizinho a quem o meu pai pagou ou talvez alguém a fazer uma boa ação ou receoso de se enfiar a si próprio no esgoto. O nosso último raio de luz foi eclipsado. Estávamos presos na escuridão total do esgoto.
E não estávamos sozinhos. Na escuridão, conseguia ouvir pessoas a mexer-se à nossa volta, embora fosse incapaz de dizer quem ou quantas eram. Admirei-me ao ver que havia mais gente. Também teriam vindo pelo cano da casa de banho abaixo? Pestanejei, tentando em vão habituar os olhos ao escuro.
— O que é que está a acontecer? — perguntou uma voz de mulher em iídiche. Ninguém respondeu.
Respirei e comecei a engasgar-me. O cheiro estava em todo o lado. Era o fedor da água repleta de fezes e urina, bem como de lixo e putrefação, que espessava o ar.
— Respira pela boca — a minha mãe sugeriu baixinho. Mas era pior, como se estivesse a comer a imundície. — Respirações superficiais. — Esta última sugestão também não ajudou muito. As águas negras do esgoto chegavam-me à altura do tornozelo, encharcando as minhas botas e meias, e a humidade gelada contra a pele fazia-me estremecer.
O estranho acendeu uma lâmpada de carboneto e a luz lambeu as paredes arredondadas, iluminando meia dúzia de rostos estranhos e assustados. Os mais próximos eram dois homens, um da idade do meu pai e outro que parecia seu filho, talvez com uns vinte anos. Vinham vestidos com os quipás e as roupas pretas próprias dos judeus religiosos. Antes da guerra e de estarmos todos amalgamados, o meu pai ter-lhes-ia chamado Yids[1]. Não o dizia de forma grosseira, mas sim como uma espécie de diminutivo para se referir aos judeus religiosos, que sempre me pareceram estranhíssimos com os seus costumes próprios que cumpriam com um rigor extremo. De certa forma, sentia que tinha mais em comum com os polacos gentios do que com aqueles outros judeus.
Atrás deles estava outra família, um casal jovem com um menino de dois ou três anos a dormir ao colo do pai, todos só de pijama por baixo dos casacos. Também havia uma senhora idosa e corcunda, mas como se mantinha à distância, não sabia dizer a qual das famílias pertencia. Talvez a nenhum das duas. Não vi mais nenhuma rapariga mais ou menos da minha idade.
Quando os meus olhos se adaptaram, olhei em volta. Tinha imaginado o esgoto, se é que alguma vez pensei expressamente nisso, como canos que corriam no subsolo. Mas estávamos numa passagem imensa e cavernosa com um teto abobadado de pelo menos seis metros de largura, um túnel pelo qual um comboio de carga poderia passar. O meio do túnel era preenchido por uma corrente rápida de águas negras, imensa e profunda o suficiente para ser um rio. Nunca imaginei que uma massa de água tão vasta corresse frenética sob os nossos pés. O som que ecoava nas paredes altas era quase ensurdecedor.
Parámos num rebordo fino de cimento de não mais de sessenta centímetros de largura que corria ao longo de uma das margens do rio e vi uma segunda saliência paralela no outro lado. A corrente era forte e parecia puxar-me enquanto me agarrava ao caminho estreito. Certa vez, li num livro sobre mitologia grega sobre Hades, senhor dos infernos do mundo inferior; parecia que me encontrava num lugar assim, uma espécie de mundo subterrâneo estranho que eu nunca pensara que existisse ou soubera da sua existência. Atordoada, fiquei a olhar para a água, com um medo em crescendo. Eu não sabia nadar. Não importava quantas vezes o meu pai tinha tentado ensinar-me, não suportava enfiar a cabeça debaixo de água, mesmo no lago mais calmo em pleno verão. Nunca sobreviveria se caísse ali.
— Vamos — disse o homem que irrompera pelo chão da nossa casa de banho. Agora que o via de corpo inteiro, reparei que tinha ombros largos e era robusto. Usava um simples chapéu de pano e botas altas. — Não podemos ficar aqui. — A sua voz ecoou muito alta na câmara abobadada.
Ele começou a caminhar ao longo do rebordo, segurando a lâmpada no alto à sua frente. Apesar da sua estrutura quadrada, movia-se facilmente ao longo do caminho estreito com a facilidade de quem trabalhava no esgoto e ali passava os seus dias.
— Pai, quem é ele? — sussurrei.
— Um trabalhador do esgoto — respondeu o meu pai. Seguimos o trabalhador numa fila única, usando a parede viscosa e arredondada para nos equilibrarmos. O túnel estendia-se infinitamente na escuridão à nossa frente. Perguntei-me qual o motivo que ele teria para nos ajudar, para onde é que estávamos a ir, como é que ele nos ia tirar daquele lugar miserável. Exceto pelo barulho da água, o ar à nossa volta estava silencioso e parado. Os ruídos horríveis dos alemães lá em cima foram abafados, praticamente perderam-se.
Chegámos a um lugar onde a parede do túnel parecia curvar-se para fora da água, formando uma pequena câmara. O trabalhador do esgoto conduziu-nos para dentro desse espaço maior.
— Descansem, antes de continuarmos.
Olhei com um ar duvidoso para as pequenas pedras pretas que cobriam o chão, perguntando-me onde é que podíamos descansar. Tive a sensação de que alguma coisa se mexia em cima delas. Mais perto, vi que estavam cobertas por milhares de minúsculos vermes amarelos. Abafei um grito.
O meu pai, aparentemente sem se importar, afundou-se nas pedras. As suas costas erguiam-se com grandes respirações de exaustão. Ele olhou para cima por um instante e eu vi algo, preocupação ou medo talvez, perpassar o seu rosto de uma forma que nunca tinha visto. Então, percebendo a minha presença, estendeu os braços.
— Anda cá. — Deitei-me no seu colo, permitindo que ele me protegesse do chão imundo e infestado de vermes.
— Venho buscar-vos quando for seguro — disse o trabalhador. Seguro para quê?, quis perguntar. Mas sabia que não devia interrogar a pessoa que estava a tentar salvar-nos. Ele saiu da câmara, levando a lâmpada consigo, mergulhando-nos na escuridão. Os outros acomodaram-se no chão. Ninguém falou. Percebi que ainda estávamos no gueto, ao ouvir os alemães mais uma vez. As detenções pareciam ter terminado, mas eles ainda andavam a vasculhar os prédios, à procura de mais alguém que pudesse estar escondido e remexiam nos parcos bens que as pessoas tinham deixado para trás, quais abutres. Imaginei-os a passarem pelo nosso diminuto apartamento. Já não tínhamos quase nada; tudo tinha sido vendido ou deixado para trás quando nos mudámos para o gueto. Mesmo assim, a ideia de remexerem nas nossas coisas e de já não termos direito a nada nosso, fazia-me sentir violada, menos humana.
Todos os meus medos e tristezas afloraram.
— Pai, não sei se consigo fazer isto — confessei-lhe num sussurro.
O meu pai passou os braços à minha volta e a sensação era tão cálida e reconfortante que poderíamos estar em casa. Enterrei a cabeça no seu peito, confortando-me com o cheiro familiar a menta e tabaco, e tentando ignorar o fedor do esgoto que se misturava com ele. A minha mãe acomodou-se ao seu lado e apoiou a cabeça no seu ombro. As minhas pálpebras ficaram pesadas.
Algum tempo depois, o meu pai mexeu-se, acordando-me do sono. Abri os olhos e olhei na penumbra para as outras famílias, que estavam espalhadas à nossa volta a dormir. Contudo, o homem mais novo da família religiosa estava acordado. Sob o chapéu preto, tinha feições gentis e uma barba curta e aparada. Os seus olhos castanhos brilharam na escuridão. Afastei-me com cuidado do meu pai e rastejei cautelosamente pelo chão escorregadio na sua direção.
— Que coisa mais esquisita para se fazer, dormir entre estranhos — disse eu. — Quero dizer, quem podia imaginar acabar num sítio assim? — Ele não respondeu, mas olhou-me cauteloso. — A propósito, chamo-me Sadie.
— Saul — respondeu ele com secura. Esperei que dissesse mais alguma coisa. Quando não o fez, recuei pelo chão em direção aos meus pais. O Saul era o único em todo o grupo quase da minha idade, mas não parecia ter interesse em ser meu amigo.
Pouco depois, o trabalhador voltou, iluminando novamente a câmara com a sua lâmpada e acordando os restantes. Gesticulou silenciosamente indicando que tínhamos de continuar. Então pusemo-nos de pé e formámos uma fila única para prosseguir o caminho ao longo do longo rio.
Poucos minutos depois, chegámos a uma encruzilhada. O trabalhador conduziu-nos para fora do canal principal, virando à direita num túnel mais estreito que nos levou para mais longe do rio de esgoto violento. Esse caminho acabava numa parede de cimento. Um beco sem saída. Ter-nos-ia conduzido de propósito para algum tipo de armadilha? Já tinha ouvido histórias de gentios que traíam os seus vizinhos judeus e os entregavam à polícia, mas aquela parecia uma maneira estranha de cometer uma traição.
O trabalhador ajoelhou-se com a lamparina e vi que mais abaixo na parede havia um pequeno círculo de metal, uma espécie de cobertura ou tampa. Ele abriu-a para revelar um tubo horizontal, então deu um passo para trás. A entrada do cano tinha apenas uns cinquenta centímetros de diâmetro. Decerto ele não queria que passássemos por ali. Mas ele ficou parado, esperando com expetativa.
— É a única maneira — disse ele, com um laivo de desculpa na voz que parecia dirigir-se principalmente à minha mãe. — A senhora vai ter de ir de barriga para baixo. Se enfiar a cabeça e os ombros, tudo o resto vai a seguir. — Ele entregou algo à minha mãe, depois entrou no cano e parecia impossível que o seu corpo robusto coubesse. No entanto, ela já tinha feito aquilo antes. Deslizou para o interior e, pouco depois, desapareceu.
A família religiosa foi a primeira e ouvi-os a gemer devido ao esforço. Então, foi a vez de a família com a criança pequena entrar no túnel. Só restávamos nós, eu, a minha mãe e o meu pai. Quando chegou a minha vez, ajoelhei-me em frente do cano, o que me lembrou o espaço empoeirado do sótão onde a Stefania e eu brincávamos no nosso antigo apartamento antes da guerra. Eu era capaz de passar de barriga para baixo. Mas e a minha mãe?
— És a próxima — disse a minha mãe. Hesitei, duvidando de que ela fosse capaz de me seguir. — Eu vou logo atrás de ti — prometeu a minha mãe, e eu sabia que não tinha escolha a não ser acreditar.
O meu pai deu-me uma cotovelada e comecei a trepar, tentando ignorar o fio de água húmida que escorria desagradavelmente pela parte da frente da minha roupa. O cano cercou-me, por todos os lados, encerrando-me num caixão aquoso. Parei, de súbito paralisada de medo, incapaz de me mexer ou respirar.
— Vem, vem — ouvi o estranho chamar do outro lado, e eu sabia que precisava de continuar ou morreria ali. O tubo tinha uns dez metros de comprimento e, quando cheguei ao outro lado e subi para outra saliência, virei-me à escuta. O mais certo era o meu pai ser grande demais para conseguir passar, e a minha mãe também, tendo em conta o seu estado atual. Morri de medo perante a ideia de poder ser deixada sozinho naquele lado, sem eles.
Passaram cinco minutos e mais ninguém apareceu pela abertura. O trabalhador do esgoto apanhou uma corda do chão e passou-a pelo cano, rastejando até ao meio para a fazer passar. Ele começou a puxá-la suavemente, parando de poucos em poucos segundos. Através do tubo, ouvia os gemidos suaves da minha mãe. Quando ela finalmente apareceu pelo cano com a corda amarrada à sua volta, estava coberta por uma espécie de graxa que o trabalhador lhe deve ter dado para a ajudar a deslizar. Decididamente eficaz, mas humilhante. Com o vestido enegrecido e o cabelo desgrenhado, distava muito do seu aspeto normalmente elegante e manteve os olhos semicerrados enquanto o estranho a ajudava a sair. O meu pai seguiu-a, empurrando com força de vontade. Nunca fiquei tão feliz por vê-lo em toda a minha vida.
Mas o meu alívio durou pouco. Precisamente no lugar onde desaguámos, havia uma grade de esgoto logo acima das nossas cabeças. Ainda estávamos debaixo do gueto, eu diria, já que ouvia vozes alemãs iguais às que nos acordaram poucas horas antes, a gritarem ordens. O feixe de luz de uma lanterna lambeu o bordo da tampa do esgoto e espalhou-se.
— Precisamos de continuar — sussurrou o trabalhador.
Seguimo-lo do túnel menor de onde tínhamos saído até ao túnel principal e às águas impetuosas do rio de esgoto. O rebordo de cimento desapareceu e fomos forçados a caminhar ao longo da margem pedregosa do esgoto, com os pés vários centímetros mergulhados na água. As pedras eram escorregadias e inclinadas e eu temia cair no rio a cada passo. Algo afiado debaixo de água cortou a minha bota e atingiu-me a pele. Agarrei-me ao pé, lutando contra a vontade de gritar. Queria parar e examinar o ferimento, mas o trabalhador do esgoto andava cada vez mais rápido, e senti que, se não acompanhássemos, seríamos deixados para trás para sempre.
Chegámos a um cruzamento onde o rio de esgoto que seguíamos era intercetado por outra enxurrada de água, igualmente volumosa e violenta. O barulho da água do esgoto cresceu até formar um rugido.
— Cuidado — preveniu o trabalhador. — Temos de atravessar por aqui. — Ele gesticulou indicando uma série de tábuas que tinham sido unidas frouxamente até formarem uma ponte sobre a água corrente.
Fiquei sem fôlego tal era o medo da ideia de atravessar o rio. Atrás de mim, o meu pai pousou a mão no meu ombro.
— Tem calma, Sadie. Lembras-te de quando entrámos no lago Kryspinów? As pedrinhas que eram como degraus? É a mesma coisa. — Gostava de destacar que as águas do Kryspinów, onde costumávamos fazer piqueniques no verão, eram calmas e mansas e cheias de pequenos girinos e peixes, não pejadas da imundície da cidade inteira.
O meu pai empurrou-me para a frente e não tive remédio a não ser seguir a minha mãe, que, apesar da sua barriga protuberante, começou a pisar as tábuas com a sua graça costumeira, como se estivesse a jogar à macaca. Comecei a avançar. O meu pé escorregou de uma das tábuas e o meu pai estendeu a mão para me segurar.
Virei-me para trás.
— Ó pai, isto é uma loucura! — exclamei. — Tem de haver outra maneira…
— Minha querida, o caminho é este. — A sua voz transpirava calma, a sua expressão segurança. O meu pai, que sempre me mantivera a salvo, acreditava que eu era capaz de fazer aquilo.
Respirei fundo, virei-me e comecei a avançar mais uma vez. Passei uma tábua, depois outra. Agora, estava no meio do rio, longe de ambas as margens. Não havia como voltar atrás. Dei outro passo. A prancha sob o meu pé cedeu e começou a escorregar para o lado.
— Socorro! — gritei, a minha voz a ecoar pelo túnel.
O meu pai avançou para me segurar e largou o pequeno saco que a minha mãe trouxera, e que ele carregava por ela. O saco, contendo o pouco que nos restava no mundo, parecia navegar em câmara lenta pelo ar, pairando sobre a água. Antes de cair, o meu pai tentou apanhá-lo. Agarrou no saco e atirou-mo, então tentou endireitar-se. Mas perdeu o equilíbrio.
— Pai! — berrei quando ele caiu na água escura do esgoto com um forte chapão. O trabalhador virou-se e correu rapidamente para as tábuas, puxando-me para um lugar seguro. Então, tentou alcançar o meu pai. Mas quando a sua mão se aproximou da mão do meu pai, a corrente forte puxou-o para longe e foi sugado para baixo. Na outra margem, a minha mãe gritou.
O meu pai reapareceu à superfície. Emergiu qual Fénix, com o tronco todo e a maior parte das pernas elevadas sobre a água, desafiando-a. A esperança subiu pela minha garganta. Ele ia conseguir. Então, a água pareceu agarrá-lo, uma mão gigante que se esticava para puxá-lo para baixo. Isso arrastou-o, com a cabeça e tudo, numa investida única sob a escuridão gelada. Contive a respiração, esperando que ele reaparecesse, para lutar e emergir mais uma vez. Mas a superfície do rio permaneceu intacta. As bolhas de ar que ele tinha deixado atrás diluíram-se na corrente e ele desapareceu.
[1] Calão ofensivo que significa judeu. (N.T.)
4
Sadie
Atordoados, olhámos para a superfície intacta do rio de esgoto.
— Paizinho! — gritei de novo. A minha mãe emitiu um som gutural baixo e tentou afundar-se na água atrás dele, mas trabalhador do esgoto impediu-a.
— Esperem aqui — ordenou ele, descendo pelo caminho e seguindo a corrente. Dei a mão à minha mãe para ela não tentar pular de novo.
— Ele é um homem forte — disse o Saul. Embora ele quisesse reconfortar-nos, a minha raiva cresceu: como é que ele sabia?
— E um bom nadador — concordou a minha mãe desesperada. — Pode ter sobrevivido. — Queria agarrar-me à esperança tanto quanto ela. Mas, ao lembrar-me de como a corrente o tinha sacudido como se fosse um boneco de trapos, sabia que mesmo a braçada forte do meu pai não teria a mínima possibilidade contra o rio.
Eu e a minha mãe e permanecemos aninhadas durante vários minutos, em silêncio, entorpecidas pela descrença. O trabalhador do esgoto voltou, com o rosto sério.
— Ele ficou preso debaixo de uns escombros. Tentei libertá-lo, mas já era tarde demais. Lamento, mas não há nada a fazer.
— Não! — gritei, a minha voz a ecoar perigosamente através do túnel cavernoso. A mão da minha mãe tapou-me a boca antes de eu poder falar de novo, nos meus lábios senti a sua pele, uma mistura de água suja do esgoto e lágrimas salgadas. Solucei contra a imundície quente da palma da sua mão. O meu pai estava ali uns minutos antes, a impedir-me de escorregar. Se ele não me tivesse segurado, ainda estaria vivo.
Pouco depois, a minha mãe largou-me.
— Ele morreu — disse eu. Encostei-me a ela, sentindo-me como uma menina pequena. O meu pai tinha sido um gigante gentil, o meu protetor, o meu confidente e o meu melhor amigo. O meu mundo. Mas o esgoto tinha-o arrastado e engolido como se fosse lixo.
— Eu sei, eu sei — a minha mãe murmurou por entre lágrimas. — Mas devemos estar quietas ou também passaremos à história. — O barulho poderia fazer com que fôssemos detetados pela polícia na rua, e nenhum dos outros correria esse risco. A minha mãe desabou contra a parede do esgoto, parecendo vulnerável e indefesa. A fuga tinha sido um plano do meu pai, como é que nos desenvencilharíamos sem ele?
O Saul deu um passo na minha direção, de olhos castanhos solenes.
— Sinto muito pelo teu pai. — A sua voz parecia mais amigável do que quando tentei falar com ele antes. Mas isso já não tinha importância. Ele tocou na aba do quipá e depois voltou para perto do seu pai.
— Temos de continuar — disse o trabalhador do esgoto.
Teimosamente fiquei no lugar, recusando-me a andar.
— Não podemos deixá-lo aqui. — Eu sabia que o meu pai tinha sido puxado rio abaixo, mas uma parte de mim acreditava que se ficasse ali, no preciso lugar onde ele tinha desaparecido, ele ressurgiria e seria como se nada daquilo tivesse acontecido. Estiquei a mão, desejando que o tempo parasse. Num minuto, o meu pai estava ali, real e firme, ao meu lado. Um minuto depois, esfumara-se, o ar vazio e parado.
— O meu pai morreu — disse eu, a realidade espetava-se dolorosamente nos meus ossos.
— Mas eu estou aqui. — A minha mãe segurou o meu rosto com ambas as mãos, obrigando-me a olhá-la nos olhos. — Estou aqui e nunca te vou abandonar.
O trabalhador do esgoto aproximou-se e ajoelhou-se à minha frente.
— O meu nome é Pawel — disse ele com simpatia. — Conhecia o teu pai e ele era um bom homem. Ele confiou-me a tua segurança e teria gostado que continuássemos. — Ele levantou-se, afastou-se e continuou, conduzindo os outros pelo caminho.
A minha mãe endireitou-se, parecendo ganhar força com aquelas palavras; a sua barriga arredondada cada vez mais saliente.
— De algum modo, vamos ultrapassar isto. — Olhei para ela, descrente. Como é que ela podia pensar assim, muito menos acreditar numa coisa dessas, agora que tínhamos perdido tudo? Por um segundo, perguntei-me se ela tinha enlouquecido. Mas havia uma confiança calma nas suas palavras que, de alguma forma, eu estava a precisar de ouvir. — Vamos ficar bem.
A minha mãe começou a puxar-me para a frente.
— Anda. — Ela sempre foi enganadoramente forte para o seu tamanho pequeno, e puxava-me com tanta força que receei que, se resistisse, poderia escorregar na água e afogar-me também. — Temos de nos despachar. — Tinha razão. Os restantes continuaram sem nós e agora iam vários metros à nossa frente. Tínhamos de segui-los ou ficaríamos sozinhas e perdidas no túnel estranho e escuro.
Mas hesitei mais uma vez, olhando com medo para o rio escuro e agitado que corria ao longo do caminho. Sempre tive medo da água, e agora esse medo parecia confirmado. Se o meu pai, um nadador forte, não conseguiu domar a corrente turva, que hipótese é que eu teria?
Olhei para o caminho tenebroso à nossa frente. Era impossível fazer aquilo.
— Anda — repetiu a minha mãe, com uma voz mais suave agora. — Imagina que és uma princesa guerreira e eu, a tua mãe, a grande rainha. Vamos percorrer os passadiços do Castelo Wawel até à masmorra para matar o dragão Smok. — Ela estava a referir-se ao jogo do faz-de-conta a que brincávamos quando eu era pequena. Agora, era muito crescida para aquelas infantilidades e a lembrança das brincadeiras que fazia, sobretudo com o meu pai, entristeceu-me mais ainda. Mas a capacidade que a minha mãe tinha de encarar qualquer situação com um espírito positivo era uma das coisas que mais adorava nela, e a sua vontade de me fazer sentir melhor, mesmo na situação presente, relembrou-me que estávamos naquilo as duas juntas.
Apanhámos os outros e continuámos ao longo do caminho do esgoto, que parecia não ter fim. O Pawel caminhava à frente, seguido pelo casal jovem e depois pela família religiosa com a velhota, que, apesar de parecer ter quase noventa anos, se mexia com uma velocidade incrível. Decerto já devíamos estar perto da saída da cidade, pensei. Talvez houvesse algum caminho para a liberdade mais à frente, talvez na floresta dos arredores da cidade onde tinha ouvido falar de judeus escondidos. Mal podia esperar para respirar de novo o ar fresco. O Pawel levou-nos para a direita numa bifurcação menor do túnel principal e o caminho parecia inclinar-se para cima, como se estivéssemos a aproximar-nos do exterior. Comovi-me ao imaginar que sentia a luz do sol da manhã no rosto e deixava o esgoto para trás para sempre.
O Pawel virou novamente, desta vez à esquerda, e conduziu-nos para uma câmara de cimento, sem janelas nem qualquer outra fonte de luz. Talvez tivesse quatro por quatro metros, era ligeiramente mais pequena do que o apartamento de um quarto que dividi com os meus pais no gueto. As águas do esgoto batiam na entrada inclinada como ondas na praia. Alguém tinha assentado umas tábuas estreitas sobre uns blocos de cimento para formar bancos improvisados e havia um fogão a lenha enferrujado a um canto. Era quase como se estivessem à nossa espera naquele lugar.
— É aqui que se vão esconder — confirmou o Pawel, apontando para a câmara. Percebi então que o Pawel não estava a conduzir-nos pelos canos de esgoto para chegarmos a outro lugar. O esgoto era esse outro lugar.
— Aqui? — repeti, ignorando o aviso anterior da minha mãe para estar calada. Todas as cabeças se viraram na minha direção. O Pawel assentiu. — Durante quanto tempo? — Não conseguia imaginar-me a passar mais de uma hora no esgoto.
— Não entendo — disse o Pawel.
A minha mãe pigarreou.
— Acho que o que a minha filha está a perguntar é para onde é que vamos depois daqui?
— Tolas — explodiu a velhota. Era a primeira vez que a ouvia falar. — O onde é aqui.
Incrédula, olhei para a minha mãe.
— Vamos ter de viver aqui? — Senti-me zonza. Podíamos sobreviver aqui umas horas, talvez uma noite. Quando o meu pai me mandou passar pelo buraco da sanita e entrar no esgoto, entendi que era um trânsito, uma passagem para um lugar mais seguro. E enquanto caminhávamos, em desespero, no meio da imundície, disse a mim própria que era necessário para fugir. Em vez disso, era o próprio destino da fuga. Apesar de todos os meus pesadelos mais selvagens, jamais me passou pela cabeça que fôssemos ficar no esgoto.
— Para sempre? — perguntei.
— Não, para sempre não, mas… — O Pawel olhou para a minha mãe com incerteza. As pessoas que viviam uma guerra não tinham uma maneira fácil de falar sobre o futuro. Então, olhou-me nos olhos mais uma vez. — Quando inicialmente fizemos planos, presumimos que vos tiraríamos do túnel no final do mesmo, no rio. — Percebi, pelo seu tom de voz, que o «nós» implícito nas suas palavras incluía o meu pai. — Só que agora os alemães têm essa saída vigiada. Se prosseguirmos, seremos mortos a tiro. — E se voltarmos para o gueto, também, pensei eu. Estávamos encurralados, sem nenhum lugar para onde ir. — Esta é a opção mais segura para todos vocês. A vossa única esperança. — Havia uma nota de súplica na sua voz. — Não há outra saída do esgoto e, mesmo que houvesse, as ruas agora são muito perigosas. Está bem? — perguntou-me, como se precisasse que eu concordasse. Como se eu tivesse escolha. Não respondi; não podia imaginar-me a dizer que sim a tal coisa. Porém, o meu pai não nos teria trazido para aqui a menos que acreditasse que era a única opção, a nossa melhor possibilidade de sobrevivência. Por fim, concordei.
— Não podemos ficar aqui — disse uma voz atrás de mim. Virei-me. Do outro lado da câmara, a mulher jovem com a criança estava a falar com o marido, repetindo o meu protesto. — Prometeram-nos uma saída. Não podemos ficar aqui.
— Sair é impossível — disse o Pawel pacientemente, como se não tivesse acabado de me explicar tudo. — Os alemães estão a vigiar o fim do túnel.
— Não há outra escolha — concordou o seu marido.
Mas a mulher arrebatou o filho ao marido e dirigiu-se para a entrada da câmara. — Há uma saída lá mais à frente, eu bem sei — insistiu ela com teimosia, empurrando o Pawel e desatando a andar na direção oposta àquela por onde tínhamos vindo.
— Por favor — disse o Pawel —, não deve ir por aí; não é seguro. Pense no seu filho. — Mas a mulher não parou e o marido seguiu-a. À distância, ainda conseguia ouvi-los a discutir.
— Esperem! — o Pawel chamou em voz baixa, à entrada da câmara. Mas não foi atrás deles. Ele tinha de nos proteger a todos nós, e a si próprio.
— O que será feito deles? — perguntei em voz alta. Ninguém respondeu. As vozes do casal esmoreceram ao longe. Imaginei-os a caminharem em direção ao local onde o esgoto desaguava no rio. Uma parte de mim desejou ter fugido com eles.
Poucos minutos depois, ouviu-se um som similar ao das bombinhas de Carnaval. Dei um pulo. Embora já tivesse ouvido tiros várias vezes no gueto, nunca me acostumei ao som. Virei-me para o Pawel.
— Acha que…? — Ele encolheu os ombros, incapaz de dizer se os tiros tinham sido dirigidos à família fugida ou eram disparos na rua acima de nós. Mas as vozes no corredor emudeceram.
Aproximei-me da minha mãe.
— Vai ficar tudo bem — confortou-me ela.
— Como é que podes dizer uma coisa dessas? — questionei. «Bem» era a última palavra para descrever o inferno em que tínhamos entrado.
— Só vamos ficar uns dias aqui, no máximo uma semana. — Eu queria acreditar nela.
Um rato passou pela entrada da câmara e olhou-nos não com medo, mas com desprezo. Gritei e os outros olharam-me por falar muito alto.
— Sussurra — advertiu-me a minha mãe com suavidade. Como é que ela podia estar tão calma quando o meu pai estava morto e havia ratos a olharem para nós?
— Mãe, isto está cheio de ratos! Não podemos ficar aqui! — A ideia de ficar ali no meio dos bichos era impossível de aguentar. — Temos de sair já! — A minha voz roçava a histeria.
O Pawel veio até mim.
— Não há volta atrás. Não há saída. Agora, este é o vosso mundo. Deves aceitá-lo pelo teu bem e pelo da tua mãe, e da criança que vai nascer. — Olhou-me nos olhos. — Estás a perceber? — A sua voz era gentil, mas firme. Eu concordei. — Esta é a única opção.
Atrás dele, o rato ainda estava parado à entrada, a olhar para nós com um ar de desafio, de algum modo sabia que tinha vencido. Nunca gostei de gatos. Mas, oh, como desejei que o velho gato malhado que deambulava no beco atrás do nosso apartamento viesse dar cabo daquela criatura!
A minha mãe virou-se para o Pawel.
— Vamos precisar de muito carboneto e fósforos, claro. — Ela falou com calma, como se tivesse aceitado o nosso destino e estivesse a tentar tirar o melhor partido do mesmo. Queria parecer-me que ela devia pedir por favor. Mas ela falou naquele tom especial e firme que usava ocasionalmente, e que parecia sempre fazer com que as pessoas lhe obedecessem.
— E vão ter. E há uma bica com uma fuga no caminho que podem usar para obter água doce. — O Pawel voltou a um tom mais suave, como se tentasse acalmar-nos. Então remexeu-se com embaraço. — Tem o dinheiro?
A minha mãe vacilou. Ela não fazia ideia de que o meu pai tinha combinado pagar-lhe, nem quanto. E a maior parte do dinheiro que trouxemos certamente estava no fundo no rio de esgoto com o meu pai. Ela enfiou a mão no vestido e estendeu uma nota engelhada. Um olhar atravessou o rosto de Pawel e percebi que não era tanto quanto lhe tinha sido prometido. O que aconteceria se não lhe pudéssemos pagar?
— Eu sei que não é muito. — A minha mãe implorou com o olhar para que ele o considerasse suficiente. Por fim, ele aceitou. O religioso, que estava parado a um canto com a família, também entregou algum dinheiro ao Pawel.
— Vou trazer-vos comida sempre que puder — disse o Pawel.
— Obrigada. — A minha mãe olhou por cima do ombro para a outra família. — Julgo que não fomos devidamente apresentados. — Ela atravessou a câmara. — Chamo-me Danuta Gault — disse ela, oferecendo a mão ao pai.
Ele não aceitou, mas assentiu formalmente, como se se encontrasse na rua.
— Meyer Rosenberg. — Tinha uma barba grisalha, amarelada à volta da boca com manchas de tabaco, mas tinha uns olhos amáveis e uma voz melódica e simpática. — Esta é a minha mãe, Esther, e o meu filho Saul.
Olhei para o Saul e ele sorriu.
— Toda a gente me chama Bubbe — interrompeu a mulher idosa, com uma voz rouca. Parecia estranho usar um nome tão familiar para uma mulher que acabava de conhecer.
— É um prazer conhecê-la, Bubbe — disse a minha mãe, respeitando o desejo da mulher mais velha. — Muito gosto, Pan Rosenberg — acrescentou ela, dirigindo-se a ele com o termo polaco mais formal para senhor. Então, virou-se para mim. — Estou aqui com o meu marido… Isto é… — Ela pareceu esquecer-se por um segundo que o meu pai já não estava connosco. — Quer dizer, estava. Esta é a minha filha Sadie.
— Aquela outra família — não pude evitar perguntar —, aquela com o menino… O que é que aconteceu com eles? — Parte de mim gostava de não o ter feito. Queria imaginar que eles tinham chegado à rua e encontrado um lugar para se esconderem. Mas nunca fui boa a fingir ou a fazer a vista grossa. Eu precisava de saber.
Dubitativo, o Pawel olhou por cima da minha cabeça para a minha mãe antes de responder, como quem pergunta se me deveria mentir.
— Não sei ao certo. Mas se calhar foram mortos à entrada do rio — disse ele por fim. Os tiros, pensei, lembrando-me do barulho. E nós também teríamos a mesma sorte, se tentássemos fazer o mesmo. — Percebem agora porque é que é tão importante que fiquem aqui, longe da vista e em silêncio?
— Mas como é que podemos ficar aqui? — A Bubbe Rosenberg exigiu saber. — Com certeza que agora que os outros foram apanhados, os alemães já sabem que há gente aqui em baixo e hão de vir à nossa procura. — O Saul aproximou-se da avó e pôs-lhe a mão no ombro como se quisesse confortá-la.
— Talvez — disse o Pawel suavemente, não querendo mentir para nos consolar. — Vi alguns alemães numa das sarjetas quando vos deixei mais cedo e fui à rua. Disse-lhes que há ratos para eles não virem. Eles queriam enviar a polícia polaca, mas disse-lhes que era impossível alguém sobreviver aqui. — Perguntei-me se aquilo não seria verdade…
— Mesmo assim, eles devem patrulhar os esgotos nalgum momento — disse o Saul solenemente, falando pela primeira vez. Com a testa vincada de preocupação.
O Pawel assentiu gravemente.
— E, quando o fizerem, vou ter de os guiar. — Um suspiro varreu o grupo. Será que ele acabaria por nos trair? — Vou levá-los por outros túneis para não vos verem. Se insistirem em vir por aqui, faço uns movimentos circulares com a lanterna para vos dar tempo para se esconderem. — Olhando para a câmara nua, era impossível imaginar onde.
— Tenho de ir andando — disse o Pawel. — Se não for trabalhar, o meu capataz vai desconfiar. — Devia ser de manhã, depreendi, embora a luz não chegasse ali. Remexeu no bolso e tirou um pacote embrulhado em papel. Abriu-o e continha algum tipo de carne que partiu ao meio, entregando metade à minha mãe e metade ao Pan Rosenberg, dividindo as parcas porções equitativamente entre as duas famílias.
— É golonka — sussurrou a minha mãe. — Joelho de porco. Come. — Embora nunca tivesse experimentado tal coisa, tinha o estômago a dar horas.
Mas o Pan Rosenberg olhou para a carne que o Pawel lhe ofereceu e torceu o nariz em sinal de desagrado.
— É trayf — disse ele, avesso à ideia de comer uma coisa que não era kosher. — Não podemos comer isso.
— Lamento muito, mas foi o que pude arranjar tão à pressa — disse o Pawel, parecendo bastante pesaroso. — Para a sua mãe e o seu filho, pelo menos? — O Pawel voltou à carga. — Receio que não haja mais durante um ou dois dias.
— De modo nenhum.
O Pawel encolheu os ombros e trouxe a carne extra para a minha mãe. Ela hesitou, entre querer alimentar-nos e não querer receber mais do que a sua parte.
— Se tem a certeza…
— Não se deve desperdiçar — disse ele. A minha mãe pegou num pedacinho de porco para si e deu-me o resto. Comi à pressa antes que o Pan Rosenberg mudasse de ideias, tentando ignorar os olhos sinistros do seu filho. A mulher idosa ficou atrás da família, sem reclamar, mas perguntei-me, com remorso, se ela quereria um pedaço. Olhei para os Rosenberg e para as suas esquisitas roupas escuras. O que é que eles terão feito para caírem nas boas graças do trabalhador do esgoto salvador? Eles eram tão diferentes de nós. No entanto, devíamos viver todos juntos ali. Fomos poupados da indignidade de dividir um apartamento no gueto. Mas agora, escondermo-nos naquele espaço ínfimo na companhia de uns estranhos era a nossa única esperança.
E então o Pawel foi-se embora, deixando-nos sozinhos na câmara.
— Aqui — disse a minha mãe, apontando para um dos bancos. Era uma zona tão suja e molhada que, um dia antes, ela ter-me-ia repreendido por me sentar ali.
O meu pé latejou quando me sentei, lembrando-me do meu ferimento anterior.
— Fiz um corte no pé — esclareci, embora parecesse uma parvoíce mencioná-lo tendo em conta tudo o que nos estava a acontecer. A minha mãe ajoelhou-se ao meu lado, a bainha já suja da sua saia mergulhada naquela água horrenda. Ergueu o meu pé direito e tirou-me o sapato encharcado; a seguir, limpou-o com uma parte seca do vestido. — Devemos manter os pés secos. — Não entendia como é que ela era capaz de pensar nessas coisas num momento como aquele.
Ela pegou no saco que continha todos os nossos pertences, aquele que o meu pai me tinha atirado pouco antes de cair à água. O que é que havia no saco que custou a vida ao meu pai? A minha mãe abriu-o. Remédios e ligaduras, uma mantinha azul e branca de bebé e um par de meias suplentes para mim. Enrolei-me numa pequena bola, a tristeza a esmagar-me de novo.
— Meias — disse eu lentamente, a voz carregada de incredulidade. — O meu pai morreu por um par de meias.
— Não — disse a minha mãe —, ele morreu para te salvar. — Ela puxou-me para si. — Eu sei que é difícil — sussurrou, os olhos marejados de lágrimas. — Mas devemos fazer o que for necessário para sobreviver. É o que ele queria. Compreendes? — Ela tinha uma expressão firme e determinada que eu nunca tinha visto. Encostou a cabeça à minha e os caracóis macios de cabelo em redor da orelha ainda cheiravam à água com canela com que se borrifou depois do banho do dia anterior. Perguntei-me quanto tempo permaneceríamos ali antes que aquele cheiro glorioso se esfumasse.
— Compreendo. — Deixei-a untar pomada no meu pé, depois calcei o par de meias limpas que me deu. Quando me baixei, vislumbrei na minha manga a braçadeira com a estrela azul que os alemães nos obrigavam a usar para nos identificarmos como judeus. — Pelo menos já não precisamos disto. — Puxei a braçadeira e arranquei o tecido com um rasgão gratificante.
A minha mãe sorriu.
— Esta é que é a minha menina, a ver sempre o lado bom das coisas. — Ela seguiu o exemplo e arrancou a sua própria braçadeira, dando uma gargalhada de satisfação.
Quando a minha mãe foi fechar o saco, algo pequeno e metálico caiu no chão do esgoto. Corri para apanhá-lo. Era o fio de ouro que o meu pai usava sempre debaixo da camisa, com um pingente com a palavra hebraica chai escrita, que significava vida. As joias não eram comuns entre os homens, mas o fio tinha sido um presente dos seus pais no bar mitzvah do meu pai. Pensei que ele o tinha consigo quando caiu, e que também se perdera no rio de esgoto, mas ele deve tê-lo tirado antes de fugirmos. Agora estava ali connosco.
Dei-o à minha mãe. Mas ela abanou a cabeça.
— Ele ia gostar que tu o tivesses. — Ela pôs-mo ao pescoço e o chai ficou ao meu peito, perto do coração.
Ouvimos um estrondo no exterior da câmara. Levantámo-nos, alarmados. Os alemães tinham vindo tão depressa? Mas era só o Pawel mais uma vez.
— A luz — disse ele, apontando para a solitária lâmpada de carboneto pendurada num gancho. — Está a sair vapor na rua lá em cima. Devem apagá-la. — Relutantemente, abandonámos a única fonte de luz que tínhamos e o esgoto ficou frio e escuro outra vez.
5
Ella
Abril 1943
A primavera chegava sempre lentamente a Cracóvia, qual criança estremunhada sem vontade de sair da cama num dia de escola. Nesse ano, parecia que nem sequer tinha dado o ar da sua graça. A neve suja ainda se acumulava na base da ponte que eu atravessava, vinda do centro da cidade, rumo a Dębniki, o bairro de classe operária na margem sul do rio Vístula. O ar estava gélido, o vento cortante, como se a própria mãe natureza se revoltasse contra a ocupação nazi que já se arrastava há quatro anos.
Não esperava dar por mim naquela longínqua parte da cidade, a fazer um recado, numa manhã de domingo. Uma hora antes, estava no meu quarto, a escrever uma carta ao meu irmão Maciej, que vivia em Paris há quase uma década. Embora ainda não tivesse tido a ocasião de o visitar, as suas cartas transmitiam uma vívida imagem da cidade, numa escrita alegre, com descrições minuciosas e um humor bizarro. Eu respondia-lhe sempre de um modo mais generalizado, tendo sempre em conta que as cartas podiam ser lidas. A Falconess tem andado à caça, disse a dada altura. Era o nome de código para a Ana Lucia e o seu amor por usar carcaças de animais como vestimenta. «À caça» era uma referência aos momentos em que era especialmente desprezível. Vem a Paris, insistira ele na última carta e eu sorri ao ouvir o seu romance francês a saltar da página através das suas palavras. Eu e o Phillipe adorávamos ter-te connosco. Como se fosse assim tão simples. De momento, era impossível viajar, mas talvez quando a guerra acabasse, ele pudesse mandar-me buscar. A minha madrasta não se importaria que eu desaparecesse, desde que a viagem não lhe custasse nada.
Tinha acabado de lacrar a carta com um pouco de cera quando ouvi a comoção na cozinha. A Ana Lucia estava a gritar à nossa empregada Hanna. A coitada da Hanna era com certa frequência o alvo da ira da minha madrasta. Em tempos, tivéramos quatro empregadas a tempo inteiro. Mas a guerra implicava sacrifícios para todos, e no mundo da minha madrasta isso significava desenvencilhar-se só com uma criada. A Hanna era a nossa empregada doméstica, uma escanzelada e minúscula rapariga do campo sem família própria. Fora ela a única disposta a assumir o trabalho de todo o pessoal doméstico e, portanto, foi ela que ficou connosco, executando corajosamente as funções de governanta, mordomo, jardineiro e cozinheira, tudo ao mesmo tempo, porque ela não tinha outro lugar para onde ir.
Perguntei-me qual seria o motivo da fúria da minha madrasta. Cerejas, percebi quando desci.
— Prometi ao Hauptsturmführer Kraus a melhor tarte de cereja de Cracóvia para a sobremesa desta noite. Só que não temos cerejas! — As faces da Ana Lucia estavam vermelhas de raiva, como se ela tivesse acabado de sair da banheira.
— Desculpe, minha senhora — disse a Hanna. O seu rosto marcado pelas bexigas exibia uma expressão aflita. — Não é época de cerejas.
— E então? — Os aspetos práticos da situação não importavam à Ana Lucia, que só pensava no que ela queria.
— Talvez cerejas secas — sugeri eu, numa tentativa de ser útil. — Ou de lata.
A Ana Lucia virou-se para mim e pensei que ia rejeitar a minha sugestão, como sempre fazia.
— Sim, isso — disse ela lentamente, como se a surpreendesse que eu tivesse uma boa ideia.
A Hanna abanou a cabeça.
— Bem tentei. Não há nada no mercado.
— Então vais a outros mercados! — A Ana Lucia explodiu. Eu temia que a minha sugestão, embora bem-intencionada, só fosse piorar a situação da pobre rapariga.
— Mas com o assado para meter no forno… — A voz da Hanna parecia impotente, horrorizada.
— Eu vou — interrompi. As duas fitaram-me, surpreendidas. Não que eu quisesse ajudar a minha madrasta a saciar o apetite de um porco nazi qualquer. Pelo contrário, preferia enfiar-lhe as cerejas pela goela abaixo, com caroços e tudo. Mas estava entediada. E queria ir aos correios enviar a carta para o Maciej, podia bem fazer as duas coisas na mesma viagem.
Esperava que a minha madrasta protestasse, mas ela não o fez. Em vez disso, deu-me um punhado de moedas, reichsmarks vis que tinham substituído o zloty polaco.
— Ouvi dizer que talvez haja cerejas em Dębniki — disse a Hanna, com a voz cheia de gratidão.
— Do outro lado do rio? — perguntei. A Hanna acenou com a cabeça, implorando com os olhos para que eu não mudasse de ideias. Dębniki, um bairro do outro lado do Vístula, ficava a pelo menos trinta minutos de elétrico, mais a pé. Eu não tinha planeado ir tão longe. Mas tinha dito que ia e não podia abandonar a Hanna à raiva da minha madrasta pela segunda vez.
— A tarte tem de estar no forno às três — disse a Ana Lucia com altivez, em vez de me agradecer.
Antes de sair de casa, vesti o casaco e peguei na pequena cesta que costumava usar para fazer compras. Podia ter apanhado o elétrico, mas aproveitei a oportunidade para esticar as pernas e apanhar o ar fresco, tingido de carvão. Segui a rua Grodzka para sul até chegar ao Planty, e atravessei a faixa agora murcha de parque que circundava o centro da cidade.
O caminho que tomei para além do Planty, rumo a sul e ao rio, levou-me a contornar o Kazimierz, o bairro a sudeste do centro da cidade que outrora fora o bairro judeu. Raramente tinha motivos para visitar o Kazimierz, mas sempre me parecera exótico e forasteiro com os seus homens ataviados de chapéus altos e escuros e montras com letreiros escritos em hebraico. Passei por uma antiga padaria e quase pude sentir o cheiro do challah, o pão trançado judeu, que ali costumavam confecionar. Desde que os alemães tinham deportado os judeus para o gueto de Podgórze, tudo tinha passado à história. As lojas estavam abandonadas, as janelas de vidro partidas ou fechadas. As sinagogas, durante séculos repletas de fiéis ao sábado de manhã, estavam agora mudas e quedas.
Nervosa, apressei-me a passar pela cidade-fantasma e cheguei à base da ponte que atravessava a vasta língua do Vístula. O rio separava o centro da cidade e o bairro de Kazimierz dos bairros de Dębniki e Podgórze ao sul. Olhei por cima do ombro para o enorme Castelo Wawel. Outrora sede da monarquia polaca, presidiu a cidade durante praticamente mil anos. Como tudo o resto, pertencia agora ao Governo-Geral, invadido pelos alemães que aí estabeleceram a sede da sua administração.
Agora, enquanto olhava para o castelo, fui assolada pela lembrança de uma noite, pouco depois da invasão, enquanto dava um passeio. Ao chegar ao alto cais sobre o rio, vi barcos agrupados em volta do castelo. Grandes caixas estavam a ser trazidas do interior e embarcadas por uma rampa, as mais pesadas com rodas. Um assalto, pensei eu, com a fertilidade da minha imaginação infantil de então. Fantasiei que chamava a polícia, sendo aclamada como uma heroína por frustrar a tramoia. Porém, as pessoas que estavam a levar as coisas não pareciam criminosas; eram antes trabalhadores do museu, a esconderem à socapa os nossos tesouros nacionais para os salvarem. Mas de quê? Da pilhagem? Dos ataques aéreos? Os quadros estavam a ser resgatados, já nós éramos deixados para trás para fazer face a qualquer destino que nos aguardasse sob o domínio dos alemães. Soube então que nada voltaria a ser igual.
Do outro lado da ponte, ficava Dębniki, o bairro onde a Hanna pensou que poderia haver cerejas à venda. O seu horizonte era uma amálgama de fábricas e armazéns, um mundo bem diferente das elegantes igrejas e torres do centro da cidade. Parei na Zamkowa, uma rua à beira do rio, para me orientar. Nunca tinha estado sozinha em Dębniki e só agora me ocorreu que poderia perder-me. Hesitei, olhando para o edifício baixo da esquina, que parecia ser o lugar de carregamento de caixas para uma barcaça que estava atracada à beira-rio. Não era o tipo de lugar em que me sentisse à vontade a pedir informações. Mas não havia transeuntes a quem pudesse perguntar, então parecia a melhor opção se quisesse chegar ao mercado a tempo de arranjar cerejas e salvar a Hanna. Reuni coragem e comecei a avançar em direção a um grupo de homens que fumavam perto de uma plataforma de carga.
— Com licença — disse, e vi nos seus rostos quão fora de lugar me encontrava ali.
— Ella? — Fiquei pasmada ao ouvir o meu nome. Virei-me para me deparar com um rosto familiar: o pai do Krys. O seu rosto forte e olhos fundos eram uma cópia do seu filho. O Krys fora criado no bairro operário de Dębniki. O seu pai era estivador, e a sua família totalmente imprópria para a nossa, relembrou-me a Ana Lucia mais de uma vez. Eu só tinha estado na casa do Krys algumas vezes para conhecer os seus pais. Embora ele nunca admitisse que tais coisas lhe importassem, suspeitei que uma parte dele ficara com vergonha de me mostrar a pequena casa numa rua simples e sem graça onde ele se criara. Porém, eu tinha ficado maravilhada com o calor simples da sua família e a maneira como a sua mãe adorava o seu «bebé», embora ele fosse um robusto rapaz de vinte anos que media quase mais trinta centímetros do que ela. Adorava passar tempo na casa deles, que era tão acolhedora quanto a minha era fria.
Claro que na casa deles agora também reinava a quietude. Os pais do Krys enviaram três filhos para a guerra, os dois mais velhos foram mortos e o terceiro ainda estava dado como desaparecido. O seu pai parecia mais velho do que eu recordava, as linhas do seu rosto mais vincadas, os ombros largos encurvados, o cabelo quase todo grisalho. Senti uma culpa crescente. Mesmo não sendo muito próxima dos pais do Krys, devia ter visto como eles estavam desde a sua partida.
Mas o seu pai não mostrou o mínimo laivo de recriminação quando deu um passo na minha direção, de olhos calorosos, mas perplexos.
— Ella, o que é que estás aqui a fazer? — Comecei por lhe dizer que precisava de indicações. — Se andas à procura do Krys, ele não demora a chegar — acrescentou.
— Chegar? — repeti a palavra, certa de ter percebido mal. Ele tinha recebido notícias do Krys? Senti um baque no coração. — Da guerra?
— Não, do almoço. Deve cá estar em menos de uma hora.
— Desculpe, não estou a perceber… O Krys ainda está na guerra. — Julguei que o homem idoso estava confuso, com a mente atormentada pela dor da perda.
Mas não havia resquícios de dúvida nos seus olhos.
— Não, ele voltou há duas semanas e tem trabalhado aqui comigo. — A sua voz transparecia segurança e certeza, não deixava dúvidas. Fiquei petrificada, atordoada e em silêncio. O Krys estava de volta. — Sinto muito — disse o pai do Krys. — Pensei que soubesses.
Não, não sabia.
— Por favor, sabe dizer-me onde é que posso encontrá-lo?
— Ele disse que tinha uma coisa para fazer. Acho que foi ao café da rua Barska, aquele onde ele parava muito antes da guerra. — Apontou para a rua que ia na direção oposta ao rio. — Segunda rua à direita. Vais encontrá-lo lá.
— Obrigada. — Enveredei na direção do café, com a mente desbocada. O Krys estava de volta. Parte de mim ficou radiante. Estava a poucos passos de distância e, em questão de minutos, ia vê-lo. Mas o homem com quem me deveria casar voltara da guerra e nem sequer mo tinha contado. Talvez fizesse sentido; afinal, ele tinha acabado comigo antes de partir. Eu era apenas uma rapariga do seu passado, alguém em quem já não pensava. Mesmo assim, era ultrajante que nem sequer tivesse tido a decência de me dizer que estava de volta, são e salvo, deixando-me preocupada e a matutar. Decididamente, merecia mais do que aquilo. Considerei as minhas opções: ir atrás dele ou não fazer nada. Se ele não tinha ido ver-me, eu não devia rebaixar-me a ir atrás dele. Mas precisava de saber o que tinha acontecido, porque é que ele não tinha voltado para mim. Que se danasse o decoro. Comecei a dirigir-me para o café.
A rua Barska, que o pai do Krys me tinha indicado, ficava perto do centro de Dębniki. Enquanto percorria as imediações, notei que os prédios da zona eram muito próximos, com fachadas esburacadas e sujas de fuligem. Cheguei rapidamente ao café. Não se tratava de um restaurante elegante como os que havia na praça do mercado, mas um café simples, onde as pessoas compravam uma chávena de substituto de café preto ou uma torta de sementes de papoila ou um pãozinho doce com queijo antes de irem para o trabalho. Observei os clientes ao redor das poucas mesas altas do outro lado da janela. Ao longo dos últimos anos, tinha imaginado ter visto o Krys uma infinidade de vezes. Ocasionalmente, cheguei a pensar que o tinha visto num elétrico que passava ou numa multidão em movimento. Claro que nunca era ele. Também não via o Krys agora e perguntei-me se o seu pai se tinha enganado. Ou talvez o Krys já cá não estivesse.
Entrei no estabelecimento e o cheiro quente de café e fumo de cigarro encheu-me as narinas. Abri caminho entre as mesas bem juntas. Por fim, avistei uma figura familiar sentada bem ao fundo, de costas para mim. Era o Krys. O meu coração acelerou, mas parou logo novamente. Sentada em frente do Krys estava uma mulher deslumbrante de cabelos escuros, alguns anos mais velha do que eu, a olhá-lo com uma expressão extasiada enquanto ele falava.
Encarei-o, como se visse uma aparição. Como era possível? Eu tinha sonhado e pensado nele sem cessar. No começo, imaginava-o em combate. À medida que as suas cartas escasseavam, imaginei-o morto ou ferido. Mas ei-lo, sentado num café, de chávena de café à frente e com outra mulher ao lado, como se nada tivesse acontecido. Como se nós não tivéssemos existido.
Por um segundo, fiquei aliviada, até feliz por vê-lo ali e seguro. Mas, quando a realidade da situação desabou sobre mim, a minha raiva explodiu. Atravessei o café. Então parei, momentaneamente hesitante, sem saber o que dizer. A mulher que estava com o Krys percebeu que me aproximava e a sua expressão tornou-se confusa. O Krys virou-se e os nossos olhos encontraram-se. A sala inteira pareceu ficar parada. O Krys sussurrou algo à mulher e levantou-se, vindo na minha direção. Comecei a afastar-me e saí dali, como se estivesse com falta de ar. Não parei.
O Krys seguiu-me.
— Ella, espera! — Eu queria correr, mas ele apanhou-me num instante com o seu passo largo, antes que pudesse esquivar-me. Os seus dedos quentes envolveram o meu antebraço, parando-me de um modo firme, mas gentil. O toque encheu o meu coração e despedaçou-o de novo, tudo ao mesmo tempo. Olhei para cima, inundada de raiva, dor e felicidade. Estando tão perto, queria tocar-lhe, encostar a minha cabeça ao seu peito e fazer com que o mundo inteiro desaparecesse como sempre tinha sido. Então, por cima do ombro dele, vi a mulher com quem ele estava sentado a olhar-nos com um ar inquisidor pela janela do café. Os meus sentimentos afetuosos desvaneceram-se.
— Ella — disse o Krys outra vez. Ele inclinou-se na minha direção. Mas o beijo que me tentou dar era dirigido à minha face, a mundos de distância do abraço apaixonado que tínhamos partilhado quando o vi pela última vez. Afastei-me. Um laivo do seu cheiro familiar flutuou pelo meu nariz e ondas de memórias dolorosas abateram-se sobre mim. Há uma hora, o homem que eu amava ainda era meu nas minhas memórias. Mas agora estava diante de mim, realmente ali, porém era um estranho.
— Quando é que voltaste? — perguntei.
— Há só uns dias. — Perguntei-me se isso era verdade. O seu pai tinha dito duas semanas. Não era típico do Krys mentir, mas também nunca pensei que ele me esconderia o seu regresso. — Ia visitar-te — acrescentou ele.
— Depois do teu encontro no café? — saiu-me em jeito de resposta impulsiva.
— Não é assim. Posso explicar, mas aqui não. Vens ter comigo mais tarde?
— Qual é a necessidade? Está tudo acabado entre nós, não está?
Ele olhou-me de frente, olhos nos olhos, incapaz de mentir.
— Sim. Não é o que estás a pensar, mas é verdade. Já não podemos ficar juntos. Tenho muita pena. Eu disse-to antes da guerra.
Pois foi, admiti em silêncio. Lembrei-me da nossa última conversa antes de ele partir, eu mais certa do que nunca de que éramos um casal, ele a afastar-se. Mas não quis dar-lhe ouvidos.
— Deves perceber que eu nunca faria nada para te magoar. — A súplica extravasava dos seus olhos. — Que isto é o melhor.
Como é que podia dizer uma coisa dessas? Considerei rebater. Queria lembrá-lo de tudo o que tínhamos significado um para o outro e do que ainda poderia haver entre nós. Mas o meu orgulho ergueu-se, impedindo-me. Não imploraria a alguém que já não me queria.
— Então, adeus — disse eu, conseguindo evitar que a minha voz tremesse.
Sem proferir nem mais uma palavra, dei meia-volta e comecei a afastar-me, quase colidindo com um homem que descarregava caixotes de uma carroça puxada por cavalos.
— Ella, espera! — chamou-me o Krys, mas eu continuei a correr, ansiosa para me distanciar ao máximo da dor de ver o Krys novamente, mas consciente de que não havia um futuro a dois para nós.
A vários quarteirões de distância, virei-me, quase desejosa de que ele me tivesse seguido. Mas não tinha. Prossegui o meu caminho, mais devagar agora, as lágrimas a escorrerem pela cara abaixo. O meu namoro tinha acabado. O meu futuro estava morto. Não entendia. Quando olhei o Krys nos olhos, senti o mesmo de sempre. Mas ele retribuiu-me um olhar petrificado, como se fôssemos estranhos. Como é que se poderia ter esquecido? Mesmo enquanto pensava nele com raiva, memórias ardentes inundaram o meu cérebro. Houve uma espécie de desespero quando a guerra rebentou, uma sensação de que cada vez que estivéssemos juntos poderia ser a última. Isso fez-me sentir inebriante, viva. Mas também me fez fazer coisas que de outra forma não faria. Tinha dormido com o Krys apenas uma vez antes de ele partir, em vez de esperar até ao casamento ou mesmo até que nos comprometêssemos formalmente, numa tentativa desesperada de segurar o que tínhamos mais um pouco. Achei que significava tanto para ele quanto ele para mim. Só que agora ele tinha-me deixado para sempre.
Poucos minutos depois, olhei para cima e vi o meu reflexo na montra de um talho. Tinha os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar, o rosto tumefacto. Patética, repreendi-me, enxugando as lágrimas. Mesmo assim, não conseguia parar de pensar no Krys. Imaginei-o a regressar ao café, para junto daquela mulher e a continuar a conversa como se nada fosse. Quem era ela? Tê-la-ia conhecido enquanto esteve fora? Apesar de tudo, eu sabia que o Krys era um homem honrado e descartava que ela fizesse parte da vida dele quando estávamos juntos. Mas ele parecia um estranho, e a sua vida desde que partira para a guerra e o presente estavam ocultos atrás de um vidro embaciado, turvos à vista.
Decidi que me era impossível ficar em Cracóvia. Já não havia futuro para mim ali. Eu e os meus amigos costumávamos dizer na brincadeira que Cracóvia era a maior das cidades pequenas. Estávamos sempre a dar de caras uns com os outros. Eu teria de ver o Krys e, mesmo que não fosse assim, a cidade estaria carregada de memórias dolorosas. Paris, pensei de repente, quando o rosto do meu irmão me veio à cabeça. Mais de uma vez, o Maciej tinha insistido nas suas cartas para que o fosse visitar. Ia reescrever a minha carta e pedir-lhe que me mandasse chamar assim que pudesse. A guerra podia dificultá-lo, até mesmo impossibilitá-lo, mas eu sabia que o Maciej ia tentar. Tirei a carta que tencionava enviar-lhe da cesta e deitei-a num caixote do lixo próximo, com a intenção de lhe escrever outra depois de concluir a minha missão.
Olhei para o céu. O sol já ia alto, indicando que era quase meio-dia, e eu ainda não tinha feito nada para conseguir as cerejas de que a Hanna precisava. Dirigi-me para o Rynek Dębniki, o mercado principal do bairro, onde aos sábados os vendedores expunham os seus produtos nas bancas simples de madeira. Ao aproximar-me do mercado, fiquei maravilhada por ainda estar aberto, já que não havia quase nada à venda depois de anos de racionamento e privação. Não havia carne e quase nenhum pão, e os poucos produtos que havia já começavam a apodrecer. Resguardada no meu mundo de privilégios e proteção, as dificuldades que as pessoas normais enfrentavam durante a guerra não eram visíveis para mim. Ali, enquanto observava os moradores a correrem entre as bancas para verem o que ainda estava disponível e se lhes era possível pagar, as nossas diferenças avultaram-se. Naquela zona, os compradores eram magros e as suas faces encovadas. E não pareciam surpreendidos com a falta de comida disponível, simplesmente levavam o que podiam e iam com as cestas e sacolas quase vazias.
Caminhei em direção ao vendedor mais próximo, examinei os poucos produtos disponíveis na banca, sobretudo batatas e um ou outro repolho podre.
— Cerejas secas ou enlatadas? — perguntei, já ciente da resposta. As cerejas cresciam abundantemente nas árvores fora da cidade no início do verão. Se devidamente preservadas no ano anterior, não deveria haver falta dessa fruta. Mas os alemães tinham despojado a Polónia de grande parte das suas riquezas naturais, de colheitas a rebanhos de gado e ovelhas. Certamente também teriam levado as cerejas. De todos os modos, perguntei ao homem na mesma, não fosse ele ter algumas que não estavam à mostra e das quais se quisesse desfazer caso lhe oferecesse um determinado preço. Quase queria que o vendedor me dissesse que estava sem cerejas para que a Ana Lucia não pudesse obsequiar o alemão com essa especialidade. Mas isso só daria à minha madrasta outra ocasião para se lamuriar das minhas falhas.
Ele abanou a cabeça, o boné a balançar sobre um rosto profundamente enrugado.
— Há meses que não — respondeu ele com os dentes manchados de tabaco. Fiquei aborrecida por ter vindo tão longe para nada e por a Hanna estar errada. O vendedor parecia arrependido por ter perdido a venda. Impulsivamente, apontei para um monte de crisântemos que ele também vendia. O seu rosto iluminou-se. — Talvez queira experimentar o czarny rynek na esquina da rua Pułaskiego — acrescentou ele, enquanto pegava nas flores de um vermelho vivo e as embrulhava em papel pardo. Entregou-me as flores e coloquei uma moeda na palma da sua mão.
Fiquei surpreendida com o facto de haver dois mercados tão próximos. Mas quando dobrei a esquina, descobri que o lugar que me tinha indicado não era propriamente um mercado, mas um beco estreito na parte de trás de uma igreja onde uma dúzia ou mais de pessoas se amontoavam. Então entendi. Czarny rynek significa mercado negro, um lugar ilegal onde as pessoas vendem mercadorias proibidas ou raras por um preço mais alto. Já tinha ouvido falar desses lugares, mas até agora não sabia se existiam realmente. Os poucos vendedores que por ali pululavam não tinham bancas, mas espalhavam os produtos em cobertores velhos ou lonas no chão, bancas móveis que podiam ser apanhadas num instante caso tivessem de fugir da polícia. Havia uma mistura de tudo, de alimentos difíceis de conseguir como chocolate e queijo a um rádio de contrabando e uma arma antiga tão velha que me perguntei se realmente funcionaria.
Pensei sair dali. O mercado negro era ilegal e qualquer um podia ser preso por comprar ou vender. Mas eis que avistei um vendedor de frutas no meio do beco com muito mais produtos do que os existentes no mercado verdadeiro. Comecei a avançar. Ali havia cerejas secas, pelo menos algumas, espalhadas sobre uma lona suja no chão. Peguei em todas as que havia e paguei ao proprietário desdentado, usando a maioria das moedas restantes que a minha madrasta me tinha dado. Pus uma das cerejas na boca para as provar, tentando não pensar nas unhas sujas do comerciante que acabara de mas entregar. O sabor agridoce da fruta arrepiou-me a cara. Chupei o caroço enquanto caminhava, depois cuspi-o numa sarjeta próxima.
Passei por cima da grelha com cuidado para não prender o salto do sapato. Lá do fundo veio um farfalhar que me assustou. Dei um pulo. Com toda a probabilidade era só um rato, disse a mim própria, como os que aparecem à noite para se banquetearem com o que puderem encontrar. Mas era de dia, e improvável que os roedores repugnantes andassem por ali.
Ouvi de novo o mesmo barulho, vindo lá de baixo, e demasiado alto para ser um rato. Olhei para o fundo e vi dois olhos que me fitavam. Não eram uns olhos redondos de animal, mas umas íris escuras rodeadas de branco. Olhos humanos. Havia uma pessoa no esgoto. Para ser mais específica, era uma rapariga. Ao princípio, pensei que fosse fruto da minha imaginação. Pestanejei para focar melhor, esperando que tal visão se tivesse esfumado como uma espécie de miragem. Mas quando olhei de novo, a rapariga ainda lá estava. Muito magra, suja e molhada, a olhar para cima. Ela recuou um pouco, como se tivesse medo de ser vista, mas ainda conseguia ver os seus olhos na escuridão, à procura. A observar-me.
Quis alertar em voz alta sobre a sua presença. Porém, algo me impediu, um punho que parecia apertar-me a garganta, silenciando a minha respiração para que nenhum som saísse. O que quer que a tivesse obrigado a enfiar-se naquele lugar horrendo significava que não queria ser encontrada. Eu não devia, não podia dizer nada. Sufocada, tentei respirar, desejando que o aperto diminuísse. Então olhei em volta, com curiosidade de saber se mais alguém tinha reparado, se tinha visto o que eu acabara de ver. Os outros transeuntes deambulavam, desatentos. Virei-me novamente, perguntando-me quem seria a rapariga e como é que ali tinha ido parar.
Quando olhei novamente para o esgoto, ela tinha desaparecido.
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