Kitabı oku: «Castrado», sayfa 7

Yazı tipi:

Não demorou e, logo, vi-o ressonar. Então, levantei-me da cama, cobri-o, fechei as cortinas e saí da suíte em busca de Alyce.

No corredor do resort, um pouco distante dos seguranças, Alyce olhava a tela do seu celular. Percebendo que eu me aproximava, ergueu a cabeça, engoliu em seco, constrangida, e estendeu o visor para mim, mostrando-me que o vídeo já estava disponível na internet. E comentou, quase em tom de reprovação:

— Max fez um bom trabalho. Está em todos os sites de fofocas. Hoje ou amanhã estará nas primeiras páginas dos tabloides.

Encarei aquela cena no celular dela e respondi com o rosto impassível, sentindo o ódio vibrar dentro de mim:

— Ótimo! Aidan está dormindo. Agora, está bêbado. Quando acordar, vou fazê-lo tomar banho e comer alguma coisa. Então, você entra na suíte e dá a notícia a nós dois juntos do meu vídeo pornô que vazou na internet. Quero que ele esteja sóbrio ao saber do vídeo. Assim, será melhor — e senti meus lábios se apertarem de raiva ao terminar de falar.

— Gaius, você tem certeza de que... — falava ela, quando a interrompi.

— Tenho sim, Alyce.

E, depois, virei-me para um dos seguranças e ordenei, arrogantemente, mas feliz:

— Ethan, vá até a recepção e peça para separarem o melhor champanhe que eles tiverem aqui. Na hora certa, aviso para trazer. Precisamos comemorar.

E voltei a encarar os olhos de Alyce, ansioso para que Aidan acordasse logo. Recordo-me bem de que meu sentimento, naquele instante, era somente um. Queria destruir a vida de Aidan. E aquilo era só o começo do escândalo que estava por vir.

***

CAPÍTULO TRÊS

Dupla penetração

__________________

Não foi o filósofo grego Aristóteles que afirmou que “a beleza é dom de Deus”? Buscava em minha memória de leitor ávido se essa frase era dele ou do filósofo Immanuel Kant. Confundindo-me entre os dois, instantes depois, encontrei a resposta. Foi Aristóteles. Kant nunca casou ou teve filhos, e sua ética sexual sempre me pareceu muito castradora. Somente um homem que vai à cama com outro constantemente é capaz de apreciar a beleza masculina e, dela, extrair todo o vigor para sua vida. Quanto a isso, os gregos têm mais experiência que os prussianos. O que faltou a Kant foram umas boas fodas ao longo da vida. Será que ele gostaria mais de dar ou de comer? Eu o comeria! Pensava, enquanto acarinhava levemente os cabelos de Aidan e apreciava sua beleza de forma tão filosófica, observando-o dormir primitivamente. Aidan era espaçoso, ocupava parte da cama com suas pernas abertas e braços fortes. Seu peito e tórax, mesmo cobertos pela camiseta branca que vestia, preenchiam aquele colchão. Seu corpo era forte, e intimidava, mesmo dormindo, apenas pela sua brutalidade sensual. Apoiei meu cotovelo sobre um travesseiro, pressionei a palma da minha mão em meu rosto e contemplei-o com os olhos, sentindo o desejo e o tesão surgirem em mim. Precisei me controlar, pois naquele instante tive uma grande vontade de transar com ele. Parece estranho, mas ali fiz uma associação interessante sobre o prazer, depois de pensar nos homens gregos que transavam com seus professores depois das aulas de filosofia. E cheguei a considerar que a morte é extremamente excitante, tanto para quem morre quanto para quem mata. Deve ser maravilhoso morrer transando. Aquela mulher devia estar gostando de ser estrangulada. Pensei, recordando-me de uma cena que presenciei no passado.

Ele se mexia, acordando lentamente e, de um lado para o outro, procurava-me na cama com as mãos, até que seus dedos tocaram meu joelho. Ao abrir os olhos, vi-o sorrir para mim, feliz por eu ter sido a primeira coisa que enxergou. Fiz um carinho em seu rosto e aproximei-me para beijá-lo. Toquei seus lábios docemente e afastei-me um pouco para poder enxergá-lo melhor. Nisso, ele segurou minha mão e perguntou:

— Foi um sonho, não foi? — e franziu a testa, esperando minha resposta.

— Sinto muito, meu amor — e, logo, vi-o fazer cara de choro.

Ele soluçou, cobrindo o rosto com as mãos. Por que os homens escondem a face ao chorarem? Será que é vergonha de mostrar sua vulnerabilidade? Estou muito filosófico hoje. Deve ser a morte. Esta realidade faz isso ao ser humano. Pensei, em uma fração de segundos. E já me percebi abraçando-o e consolando-o.

— Meu amor, queria tanto que isso não tivesse acontecido. Como gostaria de retirar essa dor do seu peito e colocá-la dentro do meu para aliviar você — e ouvia-o soluçar mais e mais.

— Por favor, ajude-me. Ele era meu pai. Eu não sei o que fazer. Não tenho mais ninguém no mundo — e puxou meu corpo contra o dele bruscamente, em um abraço desesperado.

— Iremos passar tudo isso juntos, meu amor. Estou aqui e não vou a lugar algum. Prometi que ficaria com você. Estou aqui. Você tem a mim. Eu amo você — e repeti várias vezes ao pé do seu ouvido essas frases, até que o vi se controlar novamente.

— Gaius, você é a pessoa que eu mais amo neste mundo. Quero que saiba que você me completa em tudo. Sinto-me pleno ao seu lado. Tenho medo de perder você... — e, novamente, caiu no choro sem conseguir terminar a frase inteira.

Era visível que Aidan estava desorganizado mentalmente. A morte do pai o abalou profundamente e, como ele não tinha uma boa comunicação com sua mãe, que há anos se separou do Senhor Daan e passou a morar, em Katherine, na Austrália, eu era a única pessoa com quem ele poderia contar. Sempre soube da importância que tinha na vida de Aidan, mas confesso que não evitava ouvi-lo repetir algumas vezes para o meu próprio deleite. Certificar-me que a partir daquele momento ele era mais dependente de mim que antes me conferiu mais poder sobre ele. E não posso dizer que nunca gostei disso.

Depois de acalmá-lo mais uma vez, cantando para ele, começamos a conversar sobre coisas que ocorreram com o Senhor Daan e nós. Lembrei-lhe do dia em que ele me apresentou ao pai como namorado, e de como o Senhor Daan reagiu, dizendo que sabia que nós dois, um dia, iríamos nos acertar. Depois, falamos dos jantares que oferecíamos para ele em nosso apartamento, e de como ele gostava de dançar.

— Lembra-se do dia em que ele quis dançar com Rosa? — e o ouvi sorrir de alegria.

— Ele foi um bom homem. É uma pena que feriu a minha mãe de uma forma que ela nunca mais se recuperou — comentou Aidan, assumindo um aspecto pensativo.

— O que houve de fato para que eles terminassem o casamento? — perguntei despretensiosamente.

— Meu pai a traiu anos atrás. Minha mãe nunca conseguiu perdoá-lo. Ela sofreu muito com aquilo. Então, decidiu se separar e voltar para a cidade onde nasceu, para ficar com as irmãs e sobrinhas — comentou ele, cheio de compaixão pela mãe.

— Lamento que o casamento deles tenha acabado — e apertei sua mão, olhando-o com ternura.

— Meu amor, vi o relacionamento dos meus pais se desfazer por causa de traição. Ainda era um adolescente, mas já entendi que aquele não era o caminho que queria para mim. Sempre quis um homem para casar e amar até a morte. Apaixonei-me por você, e, hoje, estamos aqui. Quero fazê-lo muito feliz. Quero viver a minha vida inteira para fazê-lo feliz. Você sabe disso, não é? — perguntou, apertando minha mão, declarando seu amor infinito.

— Claro que sei. E sou muito grato por ter lutado por mim — e beijei-o, consolando-o.

— Gosto tanto de ficar com você na cama, deitado, olhando você, sua beleza, sentindo seu cheiro perto de mim. Sinto-me tão realizado. Por mim, o mundo poderia acabar agora. Não me importaria — e sorriu para mim.

— Sei disso, meu bem. Mas as coisas não funcionam assim. Temos que enfrentar a vida como ela é. E, nem sempre, ela nos traz coisas boas. Estive pensando. Acho que deveríamos oferecer ao seu pai um enterro discreto, sem muitas pessoas, inclusive por causa da imprensa que não me deixa em paz... — e fui interrompido por ele.

— Ele será cremado. Pediu-me isso várias vezes. Comentava que tinha medo de não estar morto, ser enterrado e acordar dentro do caixão. Falava em tom de risada, mas senti que era sério. Ele será cremado. Pediu para que suas cinzas fossem jogadas nas águas de um lago nas proximidades da cidade que minha mãe mora... — falou e emocionou-se novamente.

— Faremos como ele pediu. Por favor, não chore mais. Assim você maltrata meu coração. Não gosto de vê-lo assim, Aidan. Lembre-se das coisas boas do seu pai. Isso nos confortará. Por favor, não chore mais. Promete para mim? — e acarinhei seu rosto, olhando-o com doçura.

— Você tem razão. Preciso me lembrar das coisas boas. Vou tentar me controlar — respondeu e sorriu.

— Muito bem. Estive pensando. Acho que seria bom passarmos um tempo distantes de Nova Iorque. Podemos oferecer uma cerimônia de cremação a seu pai, guardarmos suas cinzas e fazermos uma pequena viagem. O que acha? — perguntei sugerindo.

— Meu amor, há tanto o que fazer na empresa. Não sei se consigo viajar agora — respondeu preocupado, tentando recusar o convite da forma mais elegante possível.

— Aidan, posso pedir a Alexander para cuidar de algumas coisas. Você pode adiar alguns compromissos, e seus diretores podem resolver o que for mais urgente. Pensei em uma semana, no máximo. Um tempo a sós. Só você e eu em outro país para conseguirmos enfrentar essa perda tão dolorosa e, também, para celebrar nosso futuro casamento — e deslizei minha mão em seu rosto, persuadindo-o, docemente, a aceitar minha proposta.

Aidan ficou pensativo, tentando assimilar como faria para que conseguisse parar de trabalhar por uma semana. De fato, a Holding Lifting exigia mãos de ferro para administrá-la, algo que nunca lhe faltou. Sempre acordava cedo e trabalhava até tarde da noite, inclusive nos fins de semana e feriados. Mesmo em momentos de lazer, resolvia problemas pelo celular, o que, às vezes, irritava-me, pois tirava a atenção do momento em que vivíamos. Quase ouso dizer que ele era um workaholic. Ali, pensando em minha proposta, vi seus olhos brilharem quando afirmou que eu estava certo:

— Você tem razão. Eu nunca tiro férias. Uma semana não fará mal à empresa — e percebi sua voz ficar entusiasmada.

— Será bom para você sair desse universo de trabalho um pouco. Vou pedir a Alyce para providenciar tudo. Agora, vamos levantar dessa cama. Quero que tome um banho bem demorado, pois vou pedir algo para você comer. Está há muitas horas sem se alimentar. Com certeza, não deve nem ter tomado café da manhã — e fiquei puxando seu braço em um movimento divertido, convidando-o a se levantar.

— Quer ir para o chuveiro comigo? — perguntou ele, assumindo um semblante de luxúria.

— Adoraria ficar horas no chuveiro com você, mas não trouxe roupa, maquiagem e tudo que preciso depois. E não estou pensando em dormir aqui. Quero voltar ainda hoje para Nova Iorque. Você sabe que a viagem é cansativa. Mas prometo que, ao chegarmos em casa, passo quantas horas quiser debaixo do chuveiro com você — e mordi o lábio inferior, insinuando-me para ele.

Aidan entendeu a mensagem, logo, beijou-me demoradamente e, depois, sussurrou ao meu ouvido:

— Quero na banheira — e encarou-me os olhos, explodindo de tesão.

— Então, será como você quiser. Sabe que a última calcinha que usei era apenas uma das várias que comprei, não é? — comentei, deixando um rastro de beijinhos em seu pescoço.

— Tem alguma vermelha? — perguntou ele, com os olhos faiscando.

— Comprei quase todas as cores da loja — e dei um sorrisinho para ele, vendo-o transfigurar seu rosto em um semblante de tesão.

Depois de tê-lo animado, levantei-o da cama com beijos e o empurrei para o banheiro, divertidamente.

“Peça para mandarem o champanhe.”

Foi o que escrevi para Alyce em uma mensagem, enquanto acendi um cigarro e fiquei esperando na varanda. Instantes depois, ouvi alguém bater na porta da suíte. Alyce e um garçom chegaram com a bebida e entraram juntos. Pedi ao garçom para abri-la e nos servir. Ao vê-lo sair, esperei que fechasse a porta. E, antes que eu falasse, Alyce perguntou, sussurrando:

— Onde ele está?

— No banho. Não podemos falar muito. Peça para trazerem uma salada para ele almoçar. Tente agilizar a liberação do corpo do Senhor Daan o máximo que puder. Não quero dormir aqui. Levamos o corpo para Nova Iorque ainda hoje, mesmo que tarde da noite. Depois de amanhã, fazemos uma cerimônia íntima de cremação. Nada de amigos ou conhecidos. A imprensa está em cima de mim, e o meu foco é outro. Providencie isso somente para depois das 14h. Não vou acordar cedo. Preciso que encontre um médico em Nova Iorque. Um que não seja bem estabelecido na carreira, mas que tenha ambição e seja subornável. Aidan e eu vamos viajar, no máximo, um dia depois da cremação. Prepare o avião... — e fui interrompido por ela, que tentava anotar tudo que dizia em sua agenda.

— Um instante, por favor. Vou providenciar o que pediu. Para onde querem ir? Preciso comprar um gravador para mim. Será melhor que usar o celular. Isso facilitará meu trabalho — comentou, ainda anotando.

— Vamos começar por Londres. Preciso sentir como vai estar o clima com ele, depois da notícia do vídeo. Se tudo ocorrer como imagino, de lá iremos para Bruxelas, e, por último, para Munique. Dois ou três dias em cada cidade. Serão somente oito ou nove dias fora. Preciso aproveitar, visto que vivo preso em Nova Iorque — e dei um gole no champanhe, tomando mais um cigarro entre os dedos, sugerindo à Alyce que me acompanhasse até a varanda da suíte.

— Seus exames semestrais estão marcados para daqui a quinze dias. Quer trocar de médico?

— Não, Alyce. Vou continuar com meu médico. Preciso de outro para umas coisas que andei pensando — e dei um sorrisinho para ela, tentando esconder minhas intenções com um trago demorado no cigarro.

— Gaius, você me disse que não teríamos... — falava, quando a interrompi.

— Não se preocupe. Não é nada demais. Agora, vá! E coma alguma coisa. Você está pálida. Parece estar com fome. Peça aos seguranças para se alimentarem também. Avise-os que não sairemos da suíte. Não há necessidade de eles ficarem no corredor. Leve-os para descansar — e fiz sinal a ela para sair, ainda sussurrando para que Aidan não ouvisse o que conversávamos, tentando não rir.

Ela bateu a porta. Eu, logo, tomei o celular e liguei para Alexander:

— Gaius? — disse ele, atendendo.

— Alexander, o pai de Aidan faleceu. Ele está triste. Vamos viajar alguns dias, inclusive para comemorar nosso casamento. Decidi aceitar o pedido dele. Vamos nos casar. Preciso que visite a Holding Lifting pelos próximos dias e veja como as coisas estão por lá. Veja se pode fazer alguma coisa para ajudar em assuntos mais urgentes. Aidan vai mandar para você o contato de alguns diretores. Comunique-se com eles, se precisar resolver algo. Aproveite para colher informações. Quero um relatório detalhado de toda a movimentação financeira da empresa de Aidan, lucros dos últimos dez anos, aplicações e investimentos, e, principalmente, em quanto ela está avaliada no momento. Isso é extremamente importante. Preciso disso, quando retornar daqui a sete ou oito dias... — e parei de falar, quando o ouvi respirar para dizer algo:

— Parabéns pelo noivado. Vou providenciar o que pediu sobre a empresa, embora já tenha quase tudo de que precisamos. É o que estou pensando, Gaius?

— Disse a você que o momento chegaria. Faremos tudo como planejamos. Não se preocupe com nada. Tudo dará certo. Estou no controle e sei o que estou fazendo. Ficou com alguma dúvida, Alexander? — e dei mais um trago no cigarro.

— Não. Só espero que esteja certo do que quer fazer, Gaius — comentou com uma suave voz de desaprovação.

— Estou. E se prepare, pois estamos só começando — e dei um gole demorado no champanhe, secando a taça.

Aidan e eu estávamos à mesa. Ele comia uma salada, enquanto tentava manter, junto aos outros, alguns fios de cabelo molhado, que insistiam em cair em sua testa. Estávamos em silêncio e seu rosto baixo me permitia olhá-lo sem que percebesse. Meus olhos intercalavam-se entre aquele seu semblante triste e a beleza da apresentação da salada que ele comia. Não tenho certeza, mas pelo que vi em seu prato não foi difícil supor que era feita com alface, noz chilena, aipo, maçã e um molho de maionese. Aidan a comia com cerimônia, quase com reverência, lentamente, por vezes, não permitindo que o excesso de maionese lhe melasse os lábios. Ele é tão educado à mesa. Como de costume, ele e eu fazíamos nossas refeições, sempre que possível, juntos, pois ele gostava de me ter à mesa, enquanto comia. Eram sempre as mesmas perguntas, os mesmos assuntos. Nada de novidade durante aquelas refeições tediosas.

— O que está lendo agora, meu amor? — perguntou ele, ainda de olhos baixos.

— Blake — respondi meio que sem vontade.

—Algum em especial?

O matrimônio entre o céu e o inferno — respondi e tomei meu celular, tentando fugir daquela conversa tediosa.

— E o que está achando?

— Não sei ainda. Estou na metade do livro.

— Diga-me alguma coisa. Gosto quando você fala do que pensa dos autores e das obras. Seus raciocínios são bem interessantes.

E, nesse instante, fui possuído por um sentimento estranho. Quase ouso dizer que vi meu irmão na minha frente. Ele já está dormindo. Vamos! Leia para mim. Lembrava, e senti um arrepio em meus braços. Em silêncio, instantes depois, ouvi uma voz distante:

— O que disse, amor? — perguntou Aidan, segurando minha mão.

Pisquei os olhos e voltei a enxergá-lo novamente. Aidan me olhava com o rosto intrigado, esperando minha resposta.

— Desculpe. Desconcentrei-me. O que perguntou? — disse eu.

— Você pediu para eu deitar em seu colo, pois iria ler para mim. Falou de forma estranha — e franziu a testa, esperando que eu me explicasse.

Permaneci em silêncio, tentando equilibrar minhas emoções, que se desordenaram com aquela lembrança maldita.

— Gaius? — chamou-me ele, percebendo que algo estava estranho.

— Oi, meu amor.

— Está tudo bem? — e apertou minha mão.

— Sim. Está tudo bem. É que a morte de seu pai me pegou desprevenido. Lembrei-me da morte de papai. Foi traumático não poder me despedir dele — e levantei-me da mesa, enquanto falava, procurando um cigarro.

— Entendo você. Lamento que não tenha se despedido do seu pai. A salada estava ótima. Sinto-me melhor agora — e sorriu para mim.

Dei um trago e caminhei para a varanda, respondendo ao seu sorriso. Talvez, agora, não seja um bom momento. Durante a cremação será mais doloroso e impactante. Ele está bem agora. Refletia comigo mesmo. Enquanto ele se levantava da mesa, Alyce bateu na porta e, logo, entrou para fazer o que havíamos combinado. Subitamente, antecipei-me a ela e falei:

— Alyce, seja o que for, conversaremos em Nova Iorque. Agora não é um bom momento — e arregalei meus olhos discretamente na intenção de ela perceber que não queria que falasse do vídeo naquele instante.

— Desculpe, Gaius. Entendi o que quis dizer. Vim somente avisar que o corpo do Senhor Daan estará liberado em até três horas. Quando estiver no avião, aviso-os para que possamos retornar à Nova Iorque — e balançou a cabeça para mim, sinalizando com os olhos que tinha entendido o que pedi.

— Ótimo. Assim, não precisamos dormir aqui. Obrigado, Alyce. Alimentou-se? — perguntei a ela.

— Sim. Mas acredito que os seguranças estejam com fome, Gaius — comentou.

— E por que eles não comeram com você? — indaguei.

Alyce emitiu um barulho com a garganta, sugerindo que iria falar algo desconfortável.

— Eles disseram que não podem sair do corredor do hotel, enquanto você estiver aqui na suíte, pois estão somente em dois, e que têm ordens expressas de não deixá-lo em nenhum momento somente com um segurança — e apontou os olhos para Aidan, que estava de costas para nós, preparando uma dose de uísque, sugerindo que a ordem era dele.

Senti minha raiva inflar.

— Aidan, os seguranças ainda não almoçaram! — e tentei controlar a voz para que não soasse grosseira.

— O que disse, meu amor? — respondeu, dando um gole no uísque.

— Os seguranças, Aidan! Eles não almoçaram! Por que ordenou que tenho que ficar sempre com dois deles? — e encarei-o.

— Não entendo. Não vieram os três? Eles podem almoçar um de cada vez — respondeu, calmamente, caminhando em minha direção.

— Anthony está de folga, Aidan! Apenas Ethan e Henry estão aqui. Eles não se alimentam desde que saímos de Nova Iorque. Estamos no início da tarde. Devem estar com fome...

— Calma, meu amor. Por que está irritado? Um pode almoçar e, depois, o outro. Pronto. Está resolvido. Eu fico aqui para proteger você — respondeu, interrompendo-me, sorrindo tranquilamente, enquanto me abraçava.

— Não gosto dessa fiscalização, Aidan. Sinto-me preso com todos esses homens me seguindo em todos os lugares que vou...

— Não vamos falar sobre isso, meu amor. É para o seu bem. Fico mais tranquilo assim — e abraçou-me novamente, dando mais um gole demorado no uísque, enquanto sua mão pressionava meu peito contra o dele.

Afastei-me do seu corpo, deixei-o na varanda e caminhei para dentro da suíte.

— Alyce, peça para eles almoçarem, por favor. Não iremos sair do quarto — disse eu a ela.

— Alyce, chame-os aqui, por favor — disse Aidan a ela.

Depois que Ethan e Henry entraram, Aidan ordenou:

— Ethan, tire vinte minutos para almoçar. Quando voltar, Henry pode ir. Obrigado.

Naquele instante, olhando Aidan ordenando os seguranças com aquela firmeza, algo ficou claro para mim. Como não percebi isso antes? Os homens que faziam a minha segurança desde que retornei a Nova Iorque só aceitavam as ordens dele e de ninguém mais. Ciente do controle que Aidan exercia sobre eles, percebi que teria um problema a enfrentar. Além de tudo que tinha que fazer, precisava driblar aqueles três homens que não saíam do meu lado nunca. Naquele instante, inspirei fundo e controlei minha emoção, disfarçando não perceber o que acontecia ali. Sorri para Aidan, demonstrando que tinha ficado feliz pela ordem. Vendo os seguranças saírem, falei com Alyce:

— Por favor, providencie para que eles se alimentem bem. Ligue para Rosa, e diga que retornaremos ainda hoje. Veja como estão as coisas com Arthur e Juanita. Hoje e amanhã não será preciso que George vá trabalhar. Peça para ele chegar mais tarde no dia da cremação, no fim da tarde. Creio que a cerimônia não vá demorar. Sei que precisarei de alguns drinks depois.

— Com licença — falou ela, e saiu.

Enquanto caminhava para me deitar na cama, Aidan perguntou:

— Quer que eu deite com você?

— Não. Só preciso descansar um pouco — e, logo, livrei-me dos tênis.

— Estarei aqui, se precisar — comentou ele, enquanto eu me virei e cobri-me com as cobertas, escondendo-me da claridade da suíte.

Instantes depois, ouvi os tênis de Aidan baterem no piso do quarto, e, logo, percebi-o fechando as cortinas, escurecendo o ambiente. Ele caminhava descalço para evitar fazer barulho e atrapalhar meu sono. Eu tinha os olhos fechados e a mente inquieta. Tentando não pensar, sentia meu coração palpitar forte ao me lembrar do que ouvi: Ele já está dormindo. Vamos! Leia para mim. Tive vontade de chorar, mas não o fiz. E, em alguns instantes, percebi-me adormecendo.

Dois dias depois, já em meu apartamento em Nova Iorque, Rosa entrou em meu quarto e abriu as cortinas. Odeio ser acordado. Ela cantarolava baixinho uma canção de ninar em espanhol. Todas as vezes que me acordava, cantava a mesma música. Algumas partes da letra machucavam meu coração. Era saudade misturada com várias coisas que não sei descrever:

“Eu perdi meu garoto. Este menino fofo. Ele quer dormir, e o sonho desonesto não quer vir. Este menino quer ser carregado para um passeio. Eu perdi meu garoto.”

A letra não fazia sentido algum, mas isso não era importante para Rosa. Ela cantarolava de forma quase automática. Foi a maneira educada que encontrou para me acordar, quando fosse preciso. Cheio de sentimentos contrastantes em mim, abri os olhos e afastei as cobertas do meu corpo, sentando-me na cama, tentando não sentir raiva dela. Retorcendo meu pescoço, procurando relaxar e criar coragem para levantar-me, ouvi-a mexer nas gavetas do meu closet, entrar e sair do meu banheiro, depois de ligar o chuveiro, preparando meu banho, ainda cantarolando aquela música maldita. Estava de costas para ela, quando a senti se aproximando de mim e estendendo meu roupão e uma caneca de café, quase me obrigando a sair da cama. Olhei-a com o rosto desanimado, levantei e vi seus olhos arregalarem.

— Uau! Você está de calcinha? — e desviou os olhos, possuída de vergonha.

Ainda sem motivação e humor para risos, limitei-me a responder de forma objetiva:

— Aidan gosta. Fazer o quê? — e cobri meus ombros e tórax com o roupão.

Dei um gole no café e acendi um cigarro, caminhando para a varanda, esperando a coragem surgir. Rosa arrumava minha cama, separando cobertas e lençóis que seriam lavados e continuou cantarolando aquela música. Dei um gole demorado no café e suguei o cigarro com raiva. Incomodado, comentei, quase de forma aborrecida:

— Não gosto dessa música.

E antes que ela pudesse parar para pensar, sua boca falou o que não devia:

— Você parecia gostar, quando Pablo a cantava para Arthur dormir.

Fiquei estático e senti uma quentura subir pelo meu corpo, fazendo meu coração disparar. Não respondi nada. Encarando-a com ódio dentro de mim, percebi-me pressionando a palma da minha mão contra a caneca de café. Desejei que aquela caneca tivesse explodido em minha mão.

— Não é verdade? — perguntou ela, erguendo os olhos para mim.

Foi inevitável. Minha cara de choro logo apareceu. Percebendo-a, Rosa foi até à varanda, passou a mão em meu rosto em um gesto maternal e abraçou-me. Ao pé do meu ouvido, sussurrou:

— Ele se foi, meu menino. Precisa aceitar e continuar a sua vida.

Rapidamente, em uma atitude de negação, afastei-me dos braços dela, limpei as lágrimas de forma violenta com as costas das mãos e respondi, encarando-a:

— Ele ainda está aqui, dentro de mim. Ele não se foi. Quem está na sala? — perguntei, mudando de assunto bruscamente, enquanto apagava o cigarro, saindo da varanda e entrando no quarto.

— George está fazendo drinks. Alyce flertando com ele. E Richard esperando você acordar para ajudá-lo a se vestir. Alyce e Richard não tiveram coragem de vir acordar você. Então, pediram-me. A cremação está marcada para as 16h. Já são 13h, menino. E sabemos como você é lento ao acordar, não é? — respondeu.

— Até parece que eu os pago para ficarem bebendo durante o trabalho. Peça para trazer algumas frutas e um pouco de queijo. Diga a George que tomarei uísque puro. Mande com as frutas. Avise a Alyce e Richard para vir aqui, agora, por favor. Vou tomar banho. Enquanto estiver fora, Rosa, mande limpar o meu quarto inteiro. Tenho espirrado durante a noite. As arrumadeiras não estão cumprindo com seus afazeres como deveriam — ordenei de forma incisiva e dei mais um gole no café, enquanto a vi passar por mim em silêncio e sair do quarto, com certeza, ciente de que eu estava aborrecido.

Não gosto de falar rude com Rosa. Sinto-me mal depois. Que inferno! Odeio ser acordado! Odeio ser acordado! Inferno! Brigava comigo mesmo. Richard e Alyce entraram no quarto. Olhei-os com cara de bravo:

— O que peço para o seu drink? — perguntou Alyce.

— Já pedi a Rosa, visto que você não estava aqui. Richard, o que houve para que não estivesse aqui e separasse a roupa que iria usar no dia da minha viagem ao Havaí? — e encarei-o com o rosto impassível.

— Desculpe, Gaius. Tudo foi muito repentino. Dei instruções a Alyce pelo celular do que deveria separar para você...

— Alyce não é minha stylist, Richard. Você é! Pensei que tinha dito a você que suas obrigações incluem, também, auxiliar-me em eventos e viagens. Tive que ir ao Havaí ver meu marido, que tinha acabado de perder o pai. Viajei com uma roupa que você recomendou por telefone à minha assistente. Não gosto de como está fazendo seu trabalho, Richard — e, interrompendo-o, deixei claro que estava aborrecido.

— De fato. Desculpe. Não irá acontecer novamente — e, logo, baixou os olhos, entendendo que tinha acabado de ganhar uma bronca.

Duas batidas na porta e, logo, meus olhos viram George entrar com uma bandeja e o meu uísque.

— Com licença. Trouxe sua bebida — falou animadamente, caminhando para deixá-la sobre a mesa.

— Pedi que ela viesse com as frutas, George. Onde elas estão? Quero meu uísque com elas. E eu pedi puro. Você trouxe com gelo. Leve de volta. Não quero assim. Prepare outro e peça a alguém da cozinha que o traga com meu café. É difícil fazer as coisas como peço? — e encarei-o com os lábios fechados.

Vi-o sair no mesmo instante.

— Onde está meu marido, Alyce?

— Está na biblioteca tocando piano. Está pronto. Esperando você — respondeu ela, nervosa diante do meu mau humor.

— Alyce, já contou a novidade a Richard? — e olhei para ele, dando um sorrisinho falso.

— Ainda não. Não sabia se deveria — respondeu.

— Aidan e eu vamos nos casar, Richard — e, logo, vi seu rosto se transfigurar em um semblante de tristeza, mesmo que ele tentasse esconder.

O maior desafio de Richard era conviver com Aidan, que foi seu namorado. Não deve ter sido fácil para ele ser abandonado no período em que eu fui sequestrado anos atrás. Ali, ficou claro para ele quem Aidan amava. Por mais que ele tentasse esconder, sempre desconfiei ao ouvi-lo afirmar que não tinha raiva ou ressentimento de nós dois. Talvez não. Mas também não acreditava que tenha esquecido ou deixado de amar Aidan. Foi prazeroso dar a notícia a ele de supetão, pegando-o de surpresa.

— Que notícia boa. Fico feliz por vocês. Parabéns! — e sorriu, tentando disfarçar a surpresa.

— Obrigado. Resolvi aceitar o pedido que ele me fez nove meses atrás. Por favor, separe a minha roupa no segundo quarto. Após eu terminar o banho, encontro-o lá — e passei por eles, caminhando para o banheiro.

Ücretsiz ön izlemeyi tamamladınız.

₺174,11
Yaş sınırı:
0+
Litres'teki yayın tarihi:
29 temmuz 2021
Hacim:
610 s. 1 illüstrasyon
ISBN:
9788835426370
Telif hakkı:
Tektime S.r.l.s.
İndirme biçimi: