Kitabı oku: «As Variedades do Português no Ensino de Português Língua Não Materna»

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Christian Koch / Daniel Reimann

As Variedades do Português no Ensino de Português Língua Não Materna

Narr Francke Attempto Verlag Tübingen

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© 2019 • Narr Francke Attempto Verlag GmbH + Co. KG

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ISBN 978-3-8233-8221-8 (Print)

ISBN 978-3-8233-0178-3 (ePub)

Inhalt

 IntroduçãoO ensino de Português Língua Não Materna com enfoque na competência de variedadesA competência de variedades recetivaO conteúdo do livroAgradecimentos

 A polifonia do portuguêsO Português como língua pluricêntrica1 Línguas pluricêntricas do ponto de vista teórico-metodológico – O caso do Português2 A necessidade de ter em consideração o carácter pluricêntrico de uma língua a partir do exemplo do PB3 A questão controversa se existem normas-padrão endógenas do Português em Angola e em Moçambique4 Os meios de comunicação de massas e a aprendizagem de uma L2 e a questão da norma no caso de línguas pluricêntricas5 Integração de variedades extraeuropeias nas aulas de Português para Estrangeiros6 Conclusão – Um apelo à necessidade de entender o Português como língua pluricêntrica nas aulas de Português para Estrangeiros

 As variedades do português na formação universitária em PortugalPortuguês, Língua pluricêntrica: formação de professores de PLE na Universidade do Porto1 Introdução2 Mestrado em Português Língua Segunda / Língua Estrangeira da FLUP e pluricentrismo da Língua Portuguesa3 Como ensinar PLNM, como língua pluricêntrica4 Algumas conclusõesPortuguês língua estrangeira no ensino superior1 Introdução2 Enquadramento teórico3 Estudo realizado4 Análise dos resultados5 Considerações finaisUsos que criam vozes1 Introdução2 Contextualização3 Ensino explícito da dimensão pragmática4 Divergência pragmática: hipóteses5 Ensaio exploratório6 Considerações finais

 As variedades do português no material de ensinoAs variantes do português em manuais de Português Língua Estrangeira1 Introdução2 Vantagens e desvantagens de ensinar as variantes do Português de maneira integrada3 Análises dos manuais4 ConclusõesPE com PB e PB com PE?1 Introdução2 O caso particular dos ‘dois portugueses’ no ensino3 A possibilidade de desenvolver competências em duas (ou mais) variedades diatópicas do português4 Análise comparativa dos manuais Olá Portugal! e Beleza!5 Resumo da análise e conclusãoSugestões práticas para a integração das variedades da língua portuguesa nas aulas de PLE1 Introdução2 Os objetivos do ensino de Português como Língua Estrangeira em Baden-Vurtemberga3 A interculturalidade e a polifonia na sala de aula4 As primeiras lições de PLE5 Exercícios de pronúncia6 Trabalho de Vocabulário7 Os sons musicais da lusofonia8 Festas e Tradições: Os Santos Populares em Portugal e as Festas Juninas no Brasil9 Filmes e documentários10 Contos literários nas aulas de PLEPE e PB – duas variedades em diálogo1 Introdução – alguns lugares do Português2 Ensinar a variação no currículo nacional português2.1 O Dicionário Terminológico3 Breve sistematização das diferenças entre PE e PB4 Para compreensão do oral: proposta e sistematização de documentos autênticos5 Reflexões conclusivas

 As variedades no ensino de PLNM no mundo: Alemanha, Galícia e Timor-LesteEnsino Português no Estrangeiro1 O ensino do português no estrangeiro (EPE)2 Mas quando se começa a aprender uma língua?3 O sistema do EPE: Cursos de Língua e Cultura Portuguesas. Como e por que surgiram?4 O EPE na atualidade“Hai moitas palabras en Galego que pensas que son iguais no Portugués e isto non é así, pero como en Castelán son distintas que ao Galego, pensas que sí.”1 Introdução2 O galego e o português: línguas (muito) próximas – intercompreensão e interlíngua3 Perfil do estudante de português galego-falante4 Interação e produção oral5 Instrumentalização do estudo6 Desempenho dos aprendentes perante diferentes tipologias de exercícios7 Conclusões e perspetivasUma Abordagem Didática Plurilíngue para a Língua Portuguesa no Sistema de Educação em Timor-Leste1 Introdução2 Concorrência de Variantes da Língua Portuguesa no Sistema de Educação Timorense3 Abordagem Didática Plurilíngue e a Valorização da Variante Timorense em Formação4 Conclusão

Introdução
O ensino de Português Língua Não Materna com enfoque na competência de variedades

A relevância das variedades na aula

Daniel Reimann / Christian Koch

Que português ensinamos? Que português aprendem os estudantes? E é isso o português que eles querem aprender? Estas são as grandes questões vigentes na área do ensino de Português Língua Não Materna (doravante: PLNM) dado que não é possível falar um português sem se identificar com uma variedade diatópica precisa. Mas a questão clássica das duas variedades-padrão de Portugal e do Brasil só é um dos aspetos que se discutem na didática atual sob a etiqueta de ‘variedades no ensino’. Abrem-se novas perspetivas sobre outras variedades diatópicas do português na África e na Ásia, e também sobre as outras dimensões de variação linguística no sentido de socioletos (variação diastrática) e registos (variação diafásica).

A base do triângulo didático, que consiste do aprendente, do professor e do objeto da aprendizagem, podemos descrever as situações seguintes:

Fig. 1:

As variedades do português no triângulo didático

Os professores oriundos de Portugal, do Brasil ou de outro país lusófono trazem a sua variedade à aula e figuram um modelo autêntico que os aprendentes imitam. Mas que sucede se a fala do professor não coincide com a variedade transmitido pelo manual? Como reagem os aprendentes no momento de ter um novo professor que fala uma outra variedade (cf. Duarte 2016, 208sq.)? Para os professores não nativos é ademais uma questão de identificação com um espaço lusófono e de assimilação de uma variedade autêntica.1

Da parte dos aprendentes, não é que somente imitem os professores. Alguns também trazem experiências de estadias no estrangeiro, outros são filhos de falantes lusófonos dominando uma variedade do português como língua de herança. Portanto, os professores têm que dispor de várias competências profissionais (conhecimentos amplos do sistema variacional do português, abertura para a diversidade linguística) para lidar positivamente com a heterogeneidade das variedades na aula.

Quanto ao objetivo geral da aprendizagem – o domínio da língua portuguesa – é preciso considerar as variedades no currículo, sobretudo se usarmos o argumento da importância da língua portuguesa pela sua extensão no mundo. Ensinar uma língua moderna significa antecipar o encontro com a realidade linguística através de material autêntico e promover contatos privados e informais com falantes nativos. Evitar um contato pelo fato que uma pessoa não fala a norma-padrão do curso, então nunca pode formar parte de uma boa prática.

Nos últimos anos, o ensino das variedades linguísticas tornou-se uma temática importante na didática e linguística aplicada para as línguas estrangeiras. Para as línguas românicas já houve na Alemanha conferências com publicações subsequentes para francês (Frings / Schöpp, ed., 2011) e espanhol (Leitzke-Ungerer / Polzin-Haumann, ed., 2017).2

Nestas duas publicações Reimann desenvolveu o conceito de uma competência de variedades recetiva (rezeptive Varietätenkompetenz) exemplificando-o para as línguas pluricêntricas francês e espanhol (Reimann 2011; 2017). Este conceito seja apresentado aqui de novo em forma revisada e aplicada ao português.

A competência de variedades recetiva

A competência de variedades recetiva entende-se segundo Reimann (2011) como a capacidade de descodificar variedades linguísticas – sobretudo na dimensão diatópica – de uma língua-padrão (a língua-alvo do curso) na receção – sobretudo auditiva. Em palavras mais simples, trata-se da compreensão do oral em variedades e normas-padrão regionais da língua-alvo, aqui do português.

Definição:

A competência de variedades recetiva é a capacidade de descodificar variedades diatópicas e normas-padrão regionais na perceção auditiva (aqui: a compreensão do oral das variedades regionais do português).

Embora na perspetiva linguística as variedades não se atribuam ao fenómeno do plurilinguismo no sentido mais restrito, na perspetiva didática estas beneficiam a formação de competências plurilingues no sentido do desenvolvimento da consciência linguística. Nesta argumentação também é possível seguir o conceito do plurilinguismo interior (innere Mehrsprachigkeit) de Wandruszka que se refere às variedades – naquele caso na língua materna (cf. Wandruszka 1979). Nesse ponto parece-nos proveitoso postular o fomento sistemático de uma competência de variedades (recetiva) integrando esta competência nos objetivos da didática do plurilinguismo.

No modelo de competências para os exames finais no ensino secundário na Alemanha (Bildungsstandards für das Abitur, KMK 2012) a competência de variedades recetiva poderia ser situada na interface de três competências (parciais): na sua orientação nomeadamente oral contribui por um lado à competência da compreensão auditiva, por outro lado fornece o desenvolvimento de consciência linguística. Como facilita uma compreensão aprofundada com os falantes nativos de diferentes espaços culturais lusófonos, também forma parte da competência comunicativa inter- e transcultural.

Num outro lugar, Reimann introduziu a competência de variedades recetiva como uma das temáticas privilegiadas da didática do plurilinguismo românico depois do ano 2010 (junto à integração reforçada de habilidades produtivas, de outras línguas escolares (em especial inglês, latim, grego), de alemão como língua materna, segunda e estrangeira, das línguas de herança dos alunos, da Aprendizagem Integrada de Línguas e Conteúdos (AILC) e da competência comunicativa transcultural (cf. Reimann 2016).

As outras línguas escolares de caráter pluricêntrico são o inglês, o francês e o espanhol. Para o inglês, Schubert (2014) pôs em dia o discurso da ponta e forneceu perspetivas para continuar o desenvolvimento de uma didática do inglês pluricêntrico, para o francês provêm uns contributos relevantes de Pöll (2000) e de Reimann (2011), para o espanhol cf. o contributo mencionado de Reimann (2017).

A partir desta base seja introduzido aqui também o conceito de uma ‘didática do português pluricêntrico’: Ao constructo de uma ‘didática do português pluricêntrico’ com enfoque no desenvolvimento e fomento de uma competência de variedades recetiva influenciam diferentes discursos didáticos e linguísticos. Um entendimento básico do português como língua global está fornecido pela sociolinguística e transmitido pelo menos em parte aos discursos políticos do ensino. No lado originariamente didático acrescentam-se as esferas discursivas mencionadas da competência de compreensão do oral, da ‘nova’ competência da consciência linguística (cf. KMK 2012) e da competência comunicativa inter- e transcultural. Além disso, a linguística de variedades fornece resultados relevantes da perspetiva linguística. Por um lado, pensamos naturalmente na linguística de variedades ‘clássica’ com a sua orientação descritiva. Por outro lado, evolui-se ultimamente a pesquisa de um outro fenómeno central para o quotidiano e para a formação da competência comunicativa inter- e transcultural: a perceção de – entre outros – a variação diatópica pelo destinatário respetivo de um ato de fala. Isto foi o objeto de alguns estudos (‑piloto) sistemáticos da linguística românica. Thomas Krefeld e Elissa Pustka criaram com a edição de um volume (Krefeld / Pustka 2010a, cf. Krefeld / Pustka 2010b) o conceito de uma ‘linguística de variedades percetiva’ querendo enriquecer os precursores como a ‘dialetologia percetiva’ com um fundamento teórico. Aqui as diferentes variedades diatópicas são analisadas empiricamente através da perceção por falantes de outras variedades. Podemos resumir as influências discursivas a uma didática de português pluricêntrico e à competência de variedades recetiva de forma seguinte:

Fig. 2:

Didática do português como língua pluricêntrica

A partir disso propomos como complemento aos instrumentos existentes – QCER e CARAP1 – uma escala de descritores que se refere especialmente ao desenvolvimento de uma competência de variedades recetiva em português, sobretudo para o ensino do português na Alemanha. Trata-se de descritores normativo-prescritivos que se poderiam validar em estudos sobre o ensino de português atual assim como examinar em estudos de implementação. Os descritores são os seguintes:


Competência de variedades recetiva em Português (compreensão do oral)
C2 É capaz de compreender enunciados de quase todas as variedades lusófonas e normas-padrão regionais que mostram uma forte marcação diatópica em nível fonético e prosódico. Compreende quase sem exceção lexemas e particularidades semânticas das variedades respetivas na situação comunicativa. Pode compreender todas as particularidades morfossintáticas das variedades respetivas na situação comunicativa.
C1 É capaz de compreender enunciados de numerosas variedades lusófonas e normas-padrão regionais que mostram uma forte marcação diatópica em nível fonético e prosódico. Compreende em sua maioria lexemas e particularidades semânticas das variedades respetivas na situação comunicativa. Pode compreender em sua maioria as particularidades morfossintáticas das variedades respetivas na situação comunicativa.
B2 É capaz de compreender enunciados de várias variedades lusófonas e normas-padrão regionais que mostram uma forte marcação diatópica em nível fonético e prosódico. Lexemas e particularidades semânticas das variedades respetivas na situação comunicativa não produzem dificuldades de compreensão. Pode reconhecer e compreender particularidades morfossintáticas.
B1 É capaz de compreender enunciados de certas variedades lusófonas e normas-padrão regionais que mostram uma marcação diatópica claramente percetível em nível fonético e prosódico. Compreende geralmente lexemas e particularidades semânticas das variedades respetivas na situação comunicativa, eventualmente inferindo do contexto. Pode compreender particularidades morfossintáticas.
A2 É capaz de compreender enunciados de certas variedades lusófonas e normas-padrão regionais que mostram uma leve marcação diatópica em nível fonético.
A1 -/-

Tab. 1:

Competência de variedades recetivas em português

O conteúdo do livro

A secção didática “Variedades do Português no ensino secundário e superior” do 12º Congresso Alemão de Lusitanistas, realizado na Universidade Johannes Gutenberg em Mogúncia (Mainz) de 13 a 16 de setembro de 2017, ampliou o discurso para o português.1 Neste volume reúnem-se os contributos de doze participantes de contextos de ensino muito diversos: pesquisadores em linguística e didática assim como professores que trabalham no ensino escolar e universitário na Alemanha, em Portugal e noutras partes do mundo.

O livro abre com o contributo de Benjamin Meisnitzer, professor catedrático de Linguística Ibero-Românica na Universidade de Lípsia (Leipzig) que concretiza o desafio de ensinar o português como língua pluricêntrica presente em quatro continentes oferecendo orientações práticas para abordar a temática na aula.

Quanto às variedades do português na formação dos professores para PLNM, Isabel Margarida Duarte, professora associada de Linguística na Universidade do Porto, apresenta no seu contributo os avanços dos conteúdos no programa de mestrado da Universidade do Porto que favorecem a perspetiva pluricêntrica do português para os futuros professores de PLNM. Dulce Melão, professora adjunta do Departamento de Ciências da Linguagem na Escola Superior de Educação de Viseu, recorre ao título do congresso – Polifonia: uma língua, muitas vozes – para dar voz aos estudantes estrangeiros e à variação das suas opiniões do português. Anabela Fernandes, professora auxiliar convidada de Português para Estrangeiros no Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Universidade de Coimbra, e Joana Cortez-Smyth, assistente convidada de Português para Estrangeiros no mesmo departamento, abordam a competência pragmática como parte da variação diafásica no ensino de PLNM e oferecem atividades práticas para ilustrar a necessidade desta área na didática.

Os quatro contributos seguintes tratam as variedades do português no material didático. Thomas Johnen, professor catedrático de Línguas Românicas na Westsächsische Hochschule Zwickau, compara a abordagem das variantes diatópicas em mais de 30 manuais para Português Língua Estrangeira com o resultado que sobretudo os manuais do mercado europeu avançam em direção à pluricentricidade do português. Christian Koch, professor adjunto de Linguística Aplicada das Línguas Românicas na Universidade de Siegen, concentra-se numa análise crítica de dois manuais alemães que intentam introduzir paralelamente as normas-padrão de Portugal e do Brasil. Leonor Paula Santos, professora do Ensino Secundário em Estugarda (Stuttgart) oferece uma perspetiva prática nas aulas do português com enfoque nas variedades através de atividades criadas para o ensino num liceu alemão. Teresa Bagão, professora de Português e PLNM na Escola Secundária de Estarreja, propõe material e atividades para praticar a compreensão do oral do português europeu e do português brasileiro.

A última parte do livro reúne três contributos que enfocam o ensino do português em diferentes espaços. Maria Teresa Nóbrega Duarte Soares, professora do Ensino Secundário de Língua e Cultura Portuguesas (LCP) em Nuremberga (Nürnberg) e Erlangen, discute a situação do ensino do português como língua de herança na Alemanha. Problematiza a heterogeneidade das aulas tendo em conta o artigo 74 da Constituição da República Portuguesa que deve assegurar o ensino do português aos cidadãos portugueses no estrangeiro. Carla Sofia Amado, leitora do Camões na Universidade de Santiago de Compostela e responsável do Centro Cultural Português em Vigo, versa sobre as particularidades dos aprendentes galegos que através da proximidade linguística criam uma própria variedade do português. Karin Noemi Rühle Indart, professora convidada do Programa de Pós-Graduação e Pesquisa da Universidade Nacional Timor Lorosa’e, conclui o volume com um contributo sobre a questão das variedades do português em Timor-Leste onde não se parece estabelecer uma variedade-padrão, mas uma forma híbrida do português pelas influências europeias e brasileiras no ensino.

Agradecimentos

Damos agradecimentos à Associação Alemã de Lusitanistas (Deutscher Lusitanistenverband, DLV) por integrar a secção didática no seu programa dando-nos assim a oportunidade de reunir investigadores e professores de diferentes campos do ensino, ao Departamento de Línguas Românicas da Universidade de Siegen pelo subsídio da publicação e a Kathrin Heyng e à editora Narr pelo apoio na preparação deste volume.

Caloi, Irene / Schäfer, Elena. 2018. “Varietätenkompetenz im Italienischunterricht? Ma certo!”, in: Die Neueren Sprachen, 7 für 2016, 28-40.

Duarte, Isabel Margarida. 2016. “Portuguese, a polycentric language: which Portuguese should we teach in Foreign Language Classes?”, in: Carlos Andrade / Guaraciaba Micheletti / Isabel Seara (ed.): Memory, discourse and technology. São Paulo: Terracota, 208-228.

Frings, Michael / Schöpp, Frank (ed.). 2011. Varietäten im Französischunterricht. Stuttgart: ibidem.

Jodl, Frank. 2016. “Corporate Identity ‘Portugiesisch’ – historische Sprache versus Unterrichtsfach: das Problem der Identität des Portugiesischen im Spiegel ausländischer Lehrwerke”, in Lusorama, 105/106, 161-200.

KMK. 2012 [Ständige Konferenz der Kultusminister der Bundesrepublik Deutschland, ed.]: Bildungsstandards für die fortgeführte Fremdsprache (Englisch/ Französisch) für die Allgemeine Hochschulreife (Beschluss der Kultusministerkonferenz vom 18.10.2012).

Koch, Christian. 2017. “[ʃ]o me [ʃ]amo [ʃ]olanda. Überlegungen zur Akzeptabilität von Aussprachevarietät bei Spanisch-Lehrkräften”, in: Leitzke-Ungerer / Polzin-Haumann 2017, 97-113.

Krefeld, Thomas / Pustka, Elissa (ed.). 2010a. Perzeptive Varietätenlinguistik. Frankfurt am Main et al.: Lang.

Krefeld, Thomas / Pustka, Elissa. 2010b. “Für eine perzeptive Varietätenlinguistik”, in: Krefeld / Pustka 2010a, 9-28.

Leitzke-Ungerer, Eva / Polzin-Haumann, Claudia (ed.). 2017. Varietäten des Spanischen im Fremdsprachenunterricht. Ihre Rolle in Schule, Hochschule, Lehrerbildung und Sprachenzertifikaten. Stuttgart: ibidem.

Pöll, Bernhard. 2000. “Plurizentrische Sprachen im Fremdsprachenunterricht (am Beispiel des Französischen) ”, in: Wolfang Börner / Klaus Vogel (ed.): Normen im Fremdsprachenunterricht. Tübingen: Narr, 51-63.

Reimann, Daniel. 2011. “Diatopische Varietäten des Französischen, Minderheitensprachen und Bilinguismus im transkulturellen Fremdsprachenunterricht”, in: Frings / Schöpp 2011, 123-168.

Reimann, Daniel. 2016. “Aufgeklärte Mehrsprachigkeit – Sieben Forschungs- und Handlungsfelder zur (Re-) Modellierung der Mehrsprachigkeitsdidaktik”, in: Michaela Rückl (ed.): Mehrsprachigkeit und Inter-/Transkulturalität im Sprachenunterricht und in der Lehrer_innenbildung. Münster: Waxmann, 15-33.

Reimann, Daniel. 2017. “Rezeptive Varietätenkompetenz im Spanischen – Modellierung einer Teilkompetenz zwischen funktionaler kommunikativer Kompetenz und Sprachbewusstheit”, in: Leitzke-Ungerer / Polzin-Haumann 2017, 69-95.

Schubert, Christoph. 2014. „Internationale Varietäten des Englischen. Aktuelle Ansätze der Sprachwissenschaft im Fremdsprachenunterricht.“, in: Wolfgang Gehring / Matthias Merkl (ed.): Englisch lehren, lernen, erforschen. Oldenburg: BIS, 233-251.

Wandruzska, Mario. 1979. Die Mehrsprachigkeit des Menschen. München: Piper.

A polifonia do português
O Português como língua pluricêntrica

Um desafio para a didática do Português Língua Estrangeira

Benjamin Meisnitzer

1 Línguas pluricêntricas do ponto de vista teórico-metodológico – O caso do Português

O conceito de línguas pluricêntricas remonta à obra de Michael Clyne (1992a), na qual estas eram definidas como línguas com ‘diversos centros interativos, providenciando cada um uma variedade nacional com, pelo menos, algumas normas próprias (codificadas)’ (cf. Clyne 1992b, 4). A definição proposta por Clyne mantém-se bastante vaga e geral, podendo abranger constelações pluricêntricas bastante distintas. Contudo, a complexidade da realidade linguística das línguas em causa apresenta alguns desafios para a categorização derivados da definição proposta.

Deste modo, temos por um lado constelações nas quais a respetiva norma abrange territórios coincidentes com fronteiras de estados nacionais, nomeadamente no caso do Português do Brasil (PB) e do Português Europeu (PE) ou do Inglês Norte-Americano e do Inglês Britânico e casos nos quais, devido à vizinhança geográfica dos respetivos estados nacionais, é quase impossível encontrar peculiaridades linguísticas que tornem evidentes a existência de normas nacionais, sugerindo a existência de normas geográficas, como, por exemplo, no território do delta do La-Plata na América Latina, com Buenos Aires como centro normativo, no caso do Espanhol (cf. Oesterreicher 2001, 310). Se atendermos ainda ao Francês com as suas particularidades no Québec e a, todavia, fraca normatização das caraterísticas desta variedade, motivada pela política linguística e cultura linguística monocêntrica praticada por Paris que motiva a orientação do Francês na Suíça, na Bélgica e no Luxemburgo, por exemplo, segundo a norma do français hexagonal de Paris, não resta qualquer dúvida, que atendendo à pluralidade de constelações sociolinguísticas e contextos variacionais, o conceito continua a oferecer o potencial e a necessidade para mais estudos. A heterogeneidade de línguas definidas como pluricêntricas motiva diferentes interpretações e acepções do conceito em si. Ainda assim, o conceito é bastante pertinente do ponto de vista metodológico, pois falar do PB como variedade sintópica ou dialeto em relação ao PE seria inequivocamente erróneo. Não se trata de um dialeto, mas de um sistema próprio. É de salientar uma quase total ausência de interferências do PE no PB (cf. Pöll 2012, 35) nos tempos que correm e a emancipação da norma do PB, que revela diferenças linguísticas profundas, que constituem um conjunto de variantes, que formam uma variedade própria, com um sistema diafásico, diastrático e diatópico independente e alheio à norma do PE. Isto é, nas variedades do PB marcas diassistemáticas, tomam como ponto de referência uma norma-padrão, que não é a do PE. O conceito de pluricentrismo define deste modo um processo de consolidação de dois sistemas distintos dentro de uma mesma língua histórica, revelando este processo diversas etapas, correspondentes a diferentes níveis de consolidação das respetivas línguas (cf. Meisnitzer 2013).

Assim, enquanto bicha no PB é uma palavra com uma marcação diassistemática pertencendo a um estilo linguístico baixo, com o significado ‘homem homossexual’, no PE é a palavra neutra e não-marcada diassistematicamente para ‘fila’. Ao mesmo tempo, o lexema crocodilo apenas serve para designar o animal no PE, enquanto que no Brasil é um termo utilizado frequentemente no discurso de proximidade (cf. Koch / Oesterreicher 2007) para designar um ‘homem homossexual’. O mesmo podemos observar para o lexema rapariga, que em Portugal designa ‘jovem do sexo feminino’, sendo o termo neutro, sem qualquer marcação diassistemática para ‘moça’, enquanto que no Brasil é um termo diafasicamente marcado como baixo, para designar ‘amante’ ou ‘prostituta’, tendo um sentido pejorativo. Trata-se portanto de lexemas que existem em ambas as variedades, com valores diassistemáticos distintos. As diferenças não se cingem ao domínio do léxico, também a nível fonético-fonológico, morfossintático, semântico-lexical e pragmático são evidentes1, não podendo ser ignoradas na aprendizagem do Português como língua estrangeira, sob pena de causar situações de grande embaraço ao falante não-nativo e de dificultar a sua interação comunicativa. Deste modo, as diferenças entre o PE e o PB são de caráter estrutural tão profundo que temos de falar de dois sistemas para o PE e o PB, respetivamente, segundo Coseriu (1970)2, ainda que obviamente se trate da mesma língua histórica, daí o termo de variedades e não de variantes, restrito ao uso para marcações dentro do diassistema de uma variedade.

Sintetizando os argumentos teóricos que legitimam a classificação de uma língua como pluricêntrica, podemos, com Bierbach (2000, 144-147), destacar que uma língua pluricêntrica se carateriza pelos seguintes parâmetros:

1 Existência de um centro urbano com função de modelo linguístico e ativo em matéria de política linguística, determinando a formação, desenvolvimento e expansão da norma;

2 Associação da norma a um estado nacional ou seja a uma identidade nacional coletiva, no qual a língua nacional serve de marco de orientação para domínio discursivos, distância comunicativa, para os meios de comunicação social e para o sistema escolar (cf. Mateus/Cardeira 2007, 30);

3 Codificação desta variedade, que serve de ponto de referência às variantes marcadas dentro do respetivo diassistema, em dicionários e gramáticas e eventualmente sob forma de regras ortográficas próprias.

Sobretudo o ponto (3), segundo Bierbach (2000) é fulcral, pois é indício da consciência colectiva da comunidade linguística da existência de um centro normativo endógeno e da distância em relação a outras variedades (nacionais).3 Oesterreicher (2001) relativiza o ponto (2), defendendo que as variedades, não têm necessariamente de coincidir com marcos de territórios nacionais, o que todavia tem vindo a ser alvo de crítica, pois apesar de uma proximidade linguística, nomeadamente, das regiões no delta do rio La-Plata, tal não invalida o potencial de identificador nacional de um indivíduo originário do Uruguai, que facilmente seria identificado por um argentino, segundo informantes questionados. Assim, Pöll (2012, 40) sugere a existência de diversos níveis em que uma norma pode vigorar, considerando o pluricentrismo uma noção polifacetada, pois considera que temos casos de pluricentrismo a nível nacional, regional, podendo as zonas correspondentes abranger vários territórios nacionais e internacionais, podendo haver uma co-ocorrência de normas a diversos níveis.4 Do estudo apresentado por Oesterreicher (2001) importa acrescentar um quarto ponto crucial do ponto de vista linguístico para definição e identificação de uma norma que sirva de base a um diassistema próprio:

1 Um conjunto de elementos linguísticos neutral do ponto de vista da marcação diassistemática, que diverge de outras normas (nacionais) e que deve ser obtido mediante uma perspetiva descritiva (cf. Oesterreicher 2001, 308).

Um último ponto imprescindível na definição de línguas pluricêntricas, que até à data não mereceu a devida consideração é o papel dos meios de comunicação de massas para a emergência de uma norma (trans-)nacional (cf. Arden / Meisnitzer 2013):

1 Ainda que um processo de mudança linguística raramente seja desencadeado pelos media, estes contribuem de forma decisiva para a sua difusão e aceitação por parte da comunidade linguística em larga escala. Deste modo, os media desempenham um papel central na consolidação de normas, porque através destes as mudanças linguísticas são difundidas com grande rapidez, chegando a todo o lado, e devido ao acesso aos mesmos por parte de largas partes da população.

O papel dos media e, no caso de Portugal e do Brasil, sobretudo da televisão, no desenvolvimento da língua e das suas variedades pode ser definido do modo seguinte (Mateus / Cardeira 2007, 39):

A escola deixa de ser o único, ou o principal instrumento de educação. As novas gerações aprendem na televisão, na internet. A ortografia, a gramática, o vocabulário, fixaram uma norma que é, nos nossos dias, democraticamente difundida por um sistema escolar que chega a todos os recantos do país. Mas, mais que à escola, a responsabilidade pela difusão da norma cabe, agora, à televisão.

Para finalizar, importa ainda enfatizar que no caso de línguas pluricêntricas temos dois sistemas com pelo menos uma relativa autonomia relativamente um ao outro e que se desenvolveram dentro da mesma língua histórica, revelando ainda um grau significativo de semelhança (ao contrário, por exemplo, do Português e do Espanhol, que a dada altura emergiram do Latim). Definidos os critérios que nos permitem classificar uma língua como sendo pluricêntrica e face a alguns traços identificados, não resta qualquer dúvida de que o Português é uma língua pluricêntrica com pelo menos duas variedades: o PB e o PE (cf. Baxter 1992; Oesterreicher 2001; Pöll 2001; 2012). Deste modo, o PB apresenta um sistema diafásico, diastrático e diatópico independente e alheio à norma e às respetivas marcações diassistemáticas no PE, não existindo nos dias que correm praticamente qualquer tipo de influência do PE no PB. O processo inverso ocorre por influência das telenovelas da Globo, que retratam a alta classe média do Rio de Janeiro, permitindo ao mundo lusófono uma familiarização com a sua variedade falada. Os centros urbanos de proliferação da norma linguística são no caso de Portugal o eixo Lisboa – Coimbra, no caso do Brasil o eixo S. Paulo – Rio de Janeiro. O seu caráter modelo pode ser explicado pelo poder político-administrativo e pelo papel económico cultural das respetivas cidades.

O caso dos PALOPes afigura-se bastante mais complicado, dado os contextos de aquisição da linguagem, a independência de Portugal mais de um século mais tarde do que no Brasil, a falta de interesse político em fomentar uma política linguística própria e as dificuldades político-sociais vividas após a independência, nomeadamente os 30 anos de guerra civil em Angola. Ao mesmo tempo os fluxos migratórios na sequência deste mesmo conflito levaram a que um quarto da população angolana se concentrasse na grande área de Luanda, levando ao encontro de populações de diversas etnias e falantes de diversas línguas bantas, que utilizaram o Português (L2) como língua franca (Endruschat 2008, 87). Desde essa altura tem-se verificado um incremento da utilização do Português (cf. Castro 22006, 32). Existem fortes indícios para o desenvolvimento de uma norma endógena em Angola e em Moçambique respetivamente (cf. Arden / Meisnitzer 2013; Meisnitzer 2013). Deste modo, o Português utilizado nos respetivos países revela traços distintivos das demais variedades, caraterísticas do discurso de distância. Nos restantes países africanos dominam crioulos de base portuguesa (cf. Pereira 2006, 67). E também na Ásia o Português é uma língua circunscrita aos domínios comunicativos da proximidade (cf. Meisnitzer 2016), existindo paralelamente alguns crioulos de base portuguesa (cf. Pereira 2006, 67). O único caso em aberto é o de Timor-Leste, onde o Português é uma das línguas oficiais. Todavia seria prematuro falar de uma variedade própria, pois a independência é ainda demasiado recente, os materiais didáticos são facultados por Portugal e pelo Brasil, bem como os professores de Língua Portuguesa. Além disso, de acordo com o censo feito em 2010 apenas 595 habitantes falam Português como L1, enquanto que 449.085 falam um dialeto do Tétum como L1.5 O processo de génese de uma variedade nativizada do Português está portanto ainda longe de emergir e de se consolidar com caraterísticas que nos permitam indubitavelmente falar de um Português de Timor (cf. Cardeira 2006, 88; Costa 2005, 614sq.). O futuro do Português em Timor é desta forma, neste momento, uma incerteza.

No que concerne à didática o Português para Estrangeiros (L2 ou L3), a realidade pluricêntrica do Português continua a merecer apenas uma atenção marginal. Para tal basta contemplar um livro de Português para Estrangeiros, o que nos permite constatar rapidamente que as variedades são, na melhor das hipóteses, referidas de forma marginal e pouco sistemática, observação que pode ser generalizada aos manuais para aprendizagem das ditas línguas pluricêntricas como L2 (cf. Königs 2000, 86). Deste modo, os manuais brasileiros ignoram a realidade portuguesa e vice-versa. Antes de passarmos à necessidade de integrar o Português como língua pluricêntrica nas aulas de Português para Estrangeiros e algumas reflexões metodológicas, importa todavia salientar algumas das caraterísticas mais importantes das respetivas normas.

2 A necessidade de ter em consideração o carácter pluricêntrico de uma língua a partir do exemplo do PB

No caso da norma do Português do Brasil é de salientar a discrepância entre a norma-padrão, como norma prescritiva, que se aproxima bastante da norma do PE e as normas cultas faladas, como elementos que constituem a norma descritiva do PB, e o distanciamento diastrático entre as normas cultas faladas e as normas populares faladas, norma orientadora das classes sociais iletradas ou com um baixo nível de formação. No nível fonético-fonológico é de destacar a palatalização das consoantes oclusiva /t/ e /d/, quando seguidas da vogal [i] ou da semivogal [j], por exemplo, em tia e dente [dẽt͡ʃi], destacando-se na segunda palavra a elevação do <e> na sílaba átona no final da palavra, ao contrário do português europeu, onde teríamos uma centralização e uma elevação da vogal [ɨ] na mesma posição (Mattos e Silva 2013, 150). A fricativa coronal /s/ é apenas realizada como palatal em posição final de palavra e antes de consoante, como no PE [ʃ] na norma culta do rio de Janeiro (Mattos e Silva 2013, 150). Para finalizar, importa ainda destacar ao nível consonântico o enfraquecimento de <l> em posição final de sílaba realizado como [w] e de <r> (cf. amar pronunciada am[a], podendo, contudo, também ser realizada como fricativa glotal (ama[h]), como fricativa velar (ama[x]) ou como coronal simples (ama[ɾ]), conforme as regiões (cf. Mattos e Silva 2013, 150). Registam-se ainda diferenças a nível vocálico, na sílaba pretónica entre o PB e o PE:


Sílaba pretónica
PB PE
p[o]rtal p[u]rtal
l[e]vada l[ɨ]vada
c[a]rtada c[ɐ]rtada
l[o]bão l[u]bão
p[e]reira p[ɨ]reira
Sílaba átona em final de palavra
PB PE
lev[i] lev[ɨ], [lɛv]

Quadro 1 – Diferenças quanto ao timbre de vogais entre o PB e o PE (adaptado de Mattos e Silva 2013, 149).

É ainda de salientar a oposição entre as vogais tónicas médias seguidas de consoante nasal na posição de inicial da sílaba seguinte, realizadas como abertas no PE e como vogais fechadas no PB (ex. – homónimo e grémio).

As diferenças mais comummente realçadas pela investigação para distinguir entre a norma-padrão escrita e as normas faladas cultas no nível morfossintático são:


Norma (padrão) PB PB norma falada culta
1° Deu-me dinheiro para comprar roupa. Me deu dinheiro para comprar roupa.
2° Vi-o na rua. Vou comprá-los Vi ele na rua. Vou comprar Ø. / Vou comprar eles.
3° Deixa-me dizer o que penso disso. Vi-o sair da sala. Deixa eu dizer o que penso disso. Vi ele sair da sala.
4° Fui ao festival. Cheguei à estação atrasado. Fui no festival. Cheguei na estação atrasado.
5° Esse é um livro de que eu gosto muito. Essa é a vizinha em cuja casa jantei ontem. Esse é um livro Ø que eu gosto muito. Essa é a vizinha Ø que eu jantei na casa ontem.

Quadro 2 – Caraterísticas da norma falada culta brasileira em comparação com a norma-padrão vigente no discurso escrito (Arden 2010, 7).

1 A próclise encontra-se de tal modo generalizada no PB que me, te e se podem ocorrer em posição inicial dentro da oração e construções mesoclíticas do PE são transformadas em construções proclíticas (ex. – dar-me-ei > me darei) (cf. Mattos e Silva 2013, 153).

2 A norma prescritiva exige pronomes de objeto direto anafóricos na forma clítica, enquanto que as variedades faladas preferem o objeto nulo ou as formas plenas dos pronomes pessoais para expressar o COD.

3 Se os verbos mandar, fazer, deixar, ver, ouvir e sentir forem seguidos de uma forma verbal no infinitivo, a norma exige a colocação de um pronome pessoal clítico CDD, que é objeto do verbo e simultaneamente sujeito da forma verbal no infinitivo. A variedade culta falada dá preferência à forma plena dos pronomes pessoais.

4 Complementos circunstanciais de lugar com função diretiva introduzidos pelos verbos de movimento ir e chegar são regidos pela preposição a segundo a norma, mas na norma culta falada são precedidos de em.

5 Enquanto que a norma-padrão exige a colocação da preposição antecedendo o pronome relativo, as variedades cultas faladas caraterizam-se pela omissão da preposição, sendo a relação sintática marcada morfologicamente pelo pronome relativo exclusivamente.

Uma diferenciação entre o discurso de distância falado (variedade culta) e escrito (norma-padrão prescritiva) é fundamental para uma aprendizagem adequada do PB. Uma apresentação indiferenciada de caraterísticas sem uma explicação adequada, contextualizando, impossibilitam ao estudante de Português como L2 de consolidar os seus conhecimentos linguísticos de forma a poder selecionar as formas adequadas em contextos e situações comunicativos distintos.

Além disso, importa ainda distinguir as formas correspondentes às variedades cultas e às normas populares diastraticamente marcadas, não podendo elementos caraterizadores destas últimas variedades ser definidos como caraterísticas do PB, sem alertar para a marcação diassistemática da qual o falante nativo tem noção. Exemplos morfossintáticos frequentemente apontados na literatura são:


Português do Brasil falado (variedade culta) Português do Brasil falado (variedade popular)
eu trabalho eu trabalho
você trabalha tu/você trabalha
ele/ela ele, ela
a gente/ (nós) a gente/ nós
(trabalhamos)
vocês trabalham vocês
eles/elas eles/elas (trabalham)

Quadro 3 – A oposição entre um paradigma verbal tri- ou quadripartido caraterístico das normas cultas faladas e um paradigma reduzido distinguindo apenas duas ou três formas caraterístico das normas populares (adaptado de: Arden 2010, 9).


Português do Brasil falado (variedade culta) Português do Brasil falado (variedade popular)
umas casinhas umas casinhaØ
eles todos eles todoØ
as portas abertas as portaØ abertaØ

Quadro 4 – Marcação do plural apenas no primeiro elemento do sintagma nominal, caraterística típica das normas populares (adaptado de: Arden 2010, 9).

A apresentação indiferenciada de elementos caraterísticos da norma-padrão escrita e elementos linguísticos caraterísticos da norma culta falada têm gerado bastante confusão nas gramáticas (cf. Marcuschi 2000; 2003), sendo estritamente necessário distinguir entre a língua falada e a língua escrita e a proximidade e a distância comunicativa, segundo Koch / Oesterreicher (1985; 2007; 22011). O cânon da norma-padrão no BP cinge-se a tradições discursivas do âmbito medial escrito e do domínio da concetualidade escrita, isto é, textos correspondentes a um máximo de distância comunicativa, como os textos jurídicos. Ao mesmo tempo, as peculiaridades sintáticas e morfossintáticas da variedade culta falada diafasicamente neutral, começam a penetrar cada vez mais nas tradições discursivas do domínio da distância comunicativa. Deste modo, registam-se processos de mudança linguística que afetam caraterísticas, estruturas e estratégias discursivas ao nível concecional sob influência dos hábitos e das convenções da norma culta falada (cf. Arden 2010, 9sq.). Esta tendência revela que os falantes cultos do BP se distanciam cada vez mais da norma-padrão prescritiva vigente para a língua escrita, que prevalece bastante impermeável a inovações e mudanças.

3 A questão controversa se existem normas-padrão endógenas do Português em Angola e em Moçambique

A questão se o Português em Angola e em Moçambique se continuam a guiar pelas diretrizes prescritivas do PE ou se estão a desenvolver as suas próprias normas-padrão é uma questão que continua a ser discutida de forma controversa. Assim, por um lado os falantes de variedades dominantes, neste caso o PE por motivos históricos e o PB por motivos económico-financeiros e pela quantidade de falantes de Português como L1 no Brasil, tendem a contemplar outras variedades nacionais como “desvios” ou “particularidades”, sem lhes reconhecer igual estatuto e os falantes destas variedades não-dominantes, revelam tendência a fugir para as normas dominantes, dado que mais facilmente se adaptam a estas e aos seus ideais normativos (cf. Pöll 2000, 53). Por outro lado, normas dominantes estão bastante mais codificadas do que as menos dominantes, cujos falantes continua(ra)m a orientar-se por obras codificadoras prescritivas (gramáticas, dicionários, etc.) vindas do exterior durante bastante mais tempo (cf. Pöll 2000, 53). Esta situação regista-se em Angola e Moçambique. Todavia, na sequência da crise económica na Europa e da crise do Euro, a dinâmica da hegemonia linguística tem vindo a sofrer uma corrosão profunda nos últimos anos, dado o crescimento económico das ditas nações africanas e tal repercute-se na autoconfiança enquanto nação e fomenta a valorização da identidade nacional, à qual se encontra estreitamente associada o desenvolvimento de uma norma-padrão endógena.

Deste modo, seria prematuro comparar o Português em Angola (PA) ou o Português em Moçambique (PM) com o PB, mas em ambos os casos podemos identificar uma tendência nítida para a formação de uma norma própria e a génese de um sistema linguístico próprio. Importa não esquecer que ambos os países africanos apenas alcançaram a independência em 1975, mais de um século mais tarde do que o Brasil, pelo que não é de espantar que o processo de consolidação de normas-padrão nas respetivas regiões ainda se encontre numa fase bastante mais prematura do que no Brasil, onde nos deparamos com um sistema consolidado, que apenas ainda carece de uma gramática normativa, embora primeiros passos tenham sido dados com a gramática de Ataliba de Castilho (2010). Em Angola e em Moçambique ainda assistimos a um processo de nativização do Português acelerado pela Guerra Civil em Angola (1975-2002) e favorecido pela multietnicidade das respetivas nações, com falantes de diversas línguas bantas, que optam pelo português como símbolo de unidade e como língua franca (cf. Hagemeijer 2016, 47). Deste modo, o Português encontra-se numa fase em que os falantes nativos têm consciência das particularidades do uso do Português no seu país. Em Moçambique, uma parte significativa dos falantes nativos está convencida que apenas os outros utilizam as particularidades do PM e que eles próprios falam português segundo a norma europeia, faltando-lhes, todavia, em muitos casos, o devido e profundo conhecimento da mesma e, por conseguinte, o PE deixou de servir de referência. No caso Angolano, o processo de consolidação de uma norma emergente encontra-se um pouco mais avançado, favorecido por um elevado número de falantes do Português como L1 nas gerações <30. A Guerra Civil Angolana levou aproximadamente um terço da população a migrar para Luanda e os seus subúrbios. Oriundos de partes distintas do país, de origens étnicas distintas e falantes de línguas diferentes, adotaram o Português como língua franca e os seus filhos nasceram numa sociedade de língua portuguesa e receberam esta como L1. Favorecido por este processo acelerado de nativização, o português em Angola apresenta particularidades que divergem do PE, nos diversos níveis linguísticos até mesmo quando utilizado em contextos formais de distância comunicativa.

Importa todavia salientar que nas aulas de Português para Estrangeiros ainda parece precoce adotar uma das respetivas normas, dado que faltam os materiais didáticos e os instrumentos normativos (gramáticas, prontuários ortográficos e dicionários), pelo que as normas devem ser tema e algumas particularidades centrais ser abordadas, mas apenas num nível muito avançado da aprendizagem, para evitar confundir os alunos. Ainda assim, é pertinente uma crescente integração de África nos currículos universitários (também nos campos dos estudos culturais, da literatura e da linguística).

Assim, para o Português Angolano poderiam ser destacadas as seguintes caraterísticas linguísticas mais salientes (cf. Meisnitzer 2013):

1 Nível lexical: Empréstimos das línguas bantas (ex. do quimbundo kubaza ‘fugir’ > bazar ‘fugir’ ou ka-dienge ‘gato’ > cariengue ‘trabalhador ilegal ou clandestino’ e que, pelos mecanismos de derivação próprios do português, originou carienguista ‘pessoa que trabalha clandestinamente’); formação de verbos a partir de uma base nominal do PE (churrascar, Gonçalves 2013, 165) e estabilização de algumas unidades lexicais como parte do repertório lexical da comunidade angolana (ter ‘haver’: aqui tem muitas, muitas senhoras que vendem e assistir ‘ver’: [...] confessou já ter assistido vários documentários sobre Angola” (Gonçalves 2013, 166)). De salientar, ainda alterações semânticas de palavras existentes no PE (ex. – [...] aquela família que era possessa da pulseira (‘possuidora’) (Gonçalves 2013, 166));

2 Tendência para a utilização preferencial da próclise (cf. Inverno 2009, 101sq.) e para a supressão de preposições, que em PE regem complementos verbais ([...] estão sempre a conversar Ø a mesma coisa. (Gonçalves 2013, 167) (PE – ([...] estão sempre a conversar sobre a mesma coisa.);

3 Transitivização de verbos que no PE exigem um argumento preposicional: ex. “[…] todas as pequenas gostavam Ø lhe gozar […]” (in: Vieira, Luanda, p. 21 apud Endruschat 1997, 407);

4 Utilização do pronome clítico lhe em contextos, que no PE exigiriam as formas clíticas o e a ([...] a minha mãe diz que lhe vão buscar e que lhe vão levar todos os dias. (Gonçalves 2013, 175));

5 Generalização da preposição em, que ocorre especialmente com estruturas de argumento dativo (Ainda temos que pagar nos professores; Cabral 2005, 132) e com verbos de movimento (ir, chegar, vir, voltar) (Vamos em casa. Chavagne 2005, 225) (para ambos os casos confirmar: Hagemeijer 2016, 53sq.);

6 Ausência da marcação da congruência numeral dentro do sintagma nominal, ex. “eu trabalhava lá com os filipinoØ [...]” (Gonçalves 2013, 176), sob influência do contato com as línguas bantas provavelmente e que se regista quer nos discursos formais, quer nos informais, tanto na linguagem falada, como também cada vez mais na linguagem escrita, ainda que aqui seja considerado erro, pelo discurso normativo vigente; fenómeno que também se verifica no PM;

7 Neutralização das formas de tratamento da 2ª e 3ª pessoa, que também se verifica no PM ([...] aí você cultiva vai nas tuas lavra. (PE – suas); Gonçalves 2013, 177).

As divergências fonético-fonológicas, ainda que de interesse num curso de Português para Estrangeiros, poderão ser desprezadas, uma vez que os alunos, até mesmo os melhores já têm bastante dificuldade em muitos casos e seguir estritamente apenas as regras do PE ou do PB.

No caso do PM, aspetos linguísticos que poderiam ser abordados para dar a conhecer as particularidades desta variedade são (cf. Meisnitzer 2013):

1 No domínio lexical: Neologismos por meio de derivação, seguindo o padrão derivacional do português (ex. – depressar ‘ir depressa’; inesquecer ‘ato de ser impossível de esquecer’ ou bichar ‘fazer bicha’), alargamento semântico de palavras (ex. – chapa ‘meio de transporte’), empréstimos do banto (ex. – magumba ‘peixe com muitas espinhas’) e alteração das solidariedades lexicais (comer dinheiro ‘gastar dinheiro’ e acabar um mês ‘ficar um mês’ ou ‘demorar um mês’) (cf. Tamele 2011, 404);

2 No domínio morfossintático: Transitivização de verbos que regem argumentos preposicionados, com função sintática de oblíquo (ex. – muitas pessoas protestaram Ø a iniciativa), com a possibilidade de passivização do respetivo argumento, passando este a desempenhar a função de agente da passiva (ex. – a iniciativa foi protestada), e com a função de complemento indireto (ex. – dar alguém Ø alguma coisa) (Gonçalves 2005, 191; Tamele 2011, 404). Além disso, é de destacar a utilização do pronome clítico lhe com função de objeto direto (ex. – Não lhe vi desde ontem; Couto 42002, 59) e a utilização do infinitivo flexionado, em contextos que em PE exigem o infinitivo impessoal (ex. – propomos falarmos com ele; Gonçalves 2005, 192). Para finalizar importa ainda realçar a generalização da utilização da preposição a para introduzir complementos com o traço [+HUM] (ex. – A filha do imperador amou ao Manuel.; Gonçalves 1996, 315) e a tendência para complementos oracionais completivos serem regidos pelas preposições de e para, que no PE não requerem preposição (ex. – “Vimos por este meio avisar a todas as entidades para não transacionarem o cheque 3571090.” ou “A pessoa nem imagina de que está numa ilha.”; Gonçalves 1996, 319).

3 No domínio sintático: Preferência pela ênclise até mesmo na presença de atratores de próclise (Hagemeijer 2016, 61) (ex. – [...] daí que relaciono-me bem com eles (Mapasse 2005, 70). No campo das estratégias de relativização verifica-se uma preferência pelas estruturas com pronome de retoma (ex. – foi um amigo que conheci-o logo que cheguei) e pela estratégia cortadora (ex. – é uma profissão Ø que se fala de beleza) (Gonçalves 2013, 173).

A abordagem destas variedades e das suas particularidades não deve monopolizar as aulas, dado o caráter recente dos fenómenos descritos, em muitos casos ainda sujeitos a uma normativização, mediante a integração em obras de caráter prescritivo, todavia, o seu desprezo impede o aluno de conhecer o caráter polifacetado da Língua Portuguesa e é, atualmente, desfasado, atendendo a um crescente fluxo migratório por motivos profissionais para Angola e Moçambique.

4 Os meios de comunicação de massas e a aprendizagem de uma L2 e a questão da norma no caso de línguas pluricêntricas

O estudante de língua estrangeira revela uma relativa autonomia no seu processo de aprendizagem de uma língua, dado que a sua experiência de aquisição da L1 e a capacidade de abstração e de adoção de uma meta-perspetiva sobre a linguagem, permitem um certo grau de independência e uma postura crítica relativamente às propostas de aprendizagem oferecidas pelos cursos de língua (cf. Königs 2000, 89). Obviamente o processo de aprendizagem de uma língua estrangeira continua a ser um processo estruturado e guiado, mas o professor tem vindo a perder sucessivamente o seu papel de um transmissor de conhecimentos para passar a assumir a função de um consultor linguístico, dado que a internet e os meios de comunicação sociais de massas permitem um acesso direto à respetiva língua e às suas variedades (cf. Königs 2000, 90). É, por isso, impossível nos dias que correm menosprezar o papel dos mesmos meios de comunicação de massas na aprendizagem de uma língua estrangeira, mas também na definição e evolução da norma das respetivas variedades (cf. Arden / Meisnitzer 2013 para o caso do Português como língua pluricêntrica). Todavia, a crescente influência e a rápida difusão do acesso aos meios de comunicação de massas tem também o reverso da medalha: se a aprendizagem, que obviamente é fomentada por estes, não for acompanhada por profissionais em didática e ensino do português como língua estrangeira, existe o risco de uma aprendizagem com deficiências na sua consolidação e sem que o aluno ou o estudante desenvolva uma capacidade de avaliar a adequação situacional e contextual de determinados lexemas, formas ou expressões, uma vez que a inscrição nos respetivos registos e a identificação do valor no respetivo diassistema da variedade é algo que um aluno apenas consegue avaliar num nível bastante avançado, com profundos conhecimentos e um quase perfeito domínio da L2. Os próprios sítios disponíveis na internet dedicados ao assunto, nem sempre são fontes de informação fidedignas, dado a facilidade de aceder às plataformas e a quantidade de pessoas que se consideram habilitados a prestar explicações, sem, contudo, possuírem as bases científicas necessárias para essa tarefa.

Contudo, e como será desenvolvido no capítulo seguinte, um ensino do Português como se se tratasse de uma língua monocêntrica, seria desfasado da realidade e limitaria bastante a capacidade comunicativa dos discentes e o potencial e a mais-valia que a aprendizagem da mesma língua pode trazer num contexto, frequentemente académico.1

5 Integração de variedades extraeuropeias nas aulas de Português para Estrangeiros

Apresentados argumentos em prol de uma abordagem do português como língua pluricêntrica nas aulas como Língua Estrangeira, nomeando as variedades do PE, PB, PM e PA como sendo aquelas que revelam a emancipação linguística necessária e um grau de consolidação de uma norma ou de uma norma-padrão emergente, que legitimam que sejam tidas em conta como potenciais variedades do português. Contudo, importa aqui tecer algumas considerações didáticas para, de seguida, finalizamos com algumas sugestões para uma abordagem das caraterísticas das diversas variedades do português nas aulas de Português como Língua Estrangeira.

Para facilitar um acesso à língua, importa não menosprezar a cultura relacionada, pelo que frases soltas para substituir lexemas ou textos para substituir formas desviantes da norma-padrão do respetivo manual, se revelam obsoletos e na melhor das hipóteses podem ser aplicados nos cursos de iniciação. Para níveis mais avançados a literatura e excertos de diversos programas de formato televisivo podem servir, para permitir um acesso realista às respetivas variedades. Assim, poder-se-ia trabalhar com excertos de telenovelas, de entrevistas, de noticiários na televisão com a transcrição correspondente para facilitar ao aluno a compreensão.

Alguns exemplos práticos para uma abordagem das especificidades do PB numa aula de Português para Estrangeiros na variedade do PE

Devido ao conflito relacionado com o Acordo Ortográfico de 1990 e ao aumento do poder e prestígio do Brasil e à simultânea perda de importância de Portugal dentro do mundo lusófono, o tema é delicado e ambas as partes, por vezes, apresentam apenas uma disposição moderada para integrar a variedade do outro nas aulas: trata-se de um medir forças. Atendendo a uma maior facilidade em conseguir docentes portugueses e um crescente interesse pelo Brasil por parte daqueles que querem aprender Português no Estrangeiro, é imprescindível uma crescente integração do PB nas aulas de Português para Estrangeiros e um fomento dos leitorados brasileiros nas universidades europeias, onde é possível estudar Português como Língua Estrangeira, procurando criar um equilíbrio entre leitores nativos de PE e de PB. Uma integração de leitorados africanos seria bastante desejável, mas no caso da Alemanha, apenas dificilmente deverá ser viável, dado o número relativamente reduzido de estudantes em níveis avançados, na maior parte das universidades. Em estágios iniciais do estudo da Língua Portuguesa revela-se vantajosa a aprendizagem de apenas uma das variedades, para que os aprendentes possam consolidar os seus conhecimentos de fonética e pronúncia, de léxico e semântica, de gramática e de pragmática, dominando bem a língua numa das suas variedades e apenas num nível avançado deverão ou poderão ser integradas respetivamente outras variedades. Este reducionismo didático é imprescindível para garantir uma boa aprendizagem da língua estrangeira, sob pena de, no caso de alternâncias entre as variedades em estágios iniciais da aprendizagem da língua, os alunos adquirirem uma pronúncia que nem corresponde bem a uma, nem à outra variedade, de serem completamente incapazes de utilizar corretamente os pronomes clíticos, entre outros. A aquisição deficiente da língua traduzida por uma forma linguística que corresponde a uma mistura de variedades, permite alcançar certos objetivos comunicativos basilares e assegurar uma intercompreensão pelo menos parcial, mas dificulta atingir um grau elevado de proficiência e aprovar em exames que permitam obter certificados reconhecidos internacionalmente, como os exames CAPLE, por exemplo. É, por isso, vantajoso na fase inicial da aprendizagem do português como língua estrangeira, seguir o princípio didático da competência numa norma-padrão, preconizado também na didática de outras línguas estrangeiras pluricêntricas, nomeadamente do espanhol (cf. Leitzke-Ungerer 2017, 58sq.), e iniciar a introdução de uma segunda variedade em estágios mais avançados, atendendo ao princípio da autenticidade linguística das situações comunicativas apresentadas e recorrendo ao estudo contrastivo das variedades, conforme vem sendo prática comum na aprendizagem do Inglês como Língua Estrangeira. Na seleção da variedade lecionada, os docentes têm liberdade de escolha, embora seja imprescindível assegurar a continuidade do ensino na variedade eleita. Ou seja, se uma instituição opta pela variedade do BP, importa que todos os cursos nos níveis básico e intermédio sejam lecionados nessa mesma variedade. Só assim pode ser garantida uma aprendizagem adequada da língua estrangeira, neste caso do Português. Uma vez consolidados os conhecimentos nesta variedade, podem ser introduzidas outras. Esta abertura às variedades na didática de Línguas Estrangeiras é importante para providenciar aos aprendentes competências inter- e transculturais, imprescindíveis num mundo globalizado e reivindicados pela “didática pluricêntrica”, término e conceito didático cunhado por Reimann (2011, 125-128), pelo menos do ponto de vista passivo-recetivo, no sentido de os aprendentes serem capazes de identificar outras variedades e algumas das suas principais caraterísticas respetivamente (cf. Reimann 2017, 75).

Partindo do modelo clássico na sala de aula na Alemanha1, onde a variedade estudada é o PE, importa num nível avançado introduzir o PB, podendo o docente recorrer a peças televisivas jornalísticas ou ficcionais ou textos da literatura (popular) e contos, entre outros géneros textuais. Começar a aprendizagem do português com a variedade do PB não apresenta qualquer desvantagem do ponto de vista didático, podendo esta inclusivamente favorecer a compreensão da relação grafia-fonia para aprendentes de iniciação. Ao contrário do que acontece no caso do espanhol, existe também um leque diversificado de livros de Português para Estrangeiros (Novo Avenida Brasil da editora E.P.U., Panorama Brasil – Ensino do Português do Mundo dos Negócios da editora Galpão, Fala Brasil da editora Pontes, Bem-vindo! A língua portuguesa no mundo da comunicação da SBS editora, para mencionar apenas alguns exemplos) e material didático adicional diversificado (por exemplo, o Power-Sprachtraining Brasilianisches Portugiesisch da editora Pons), que adotam a norma do PB. Obviamente importa ter em conta que o intercâmbio de aprendentes, pela proximidade geográfica e pelos programas de apoio financeiro (Erasmus+, por exemplo) é mais fácil com Portugal. E a imersão na língua estrangeira e na respetiva cultura é imprescindível para uma boa consolidação da proficiência linguística.

5.1 Exemplo de uma análise a partir de uma peça televisiva

Uma vez que os professores de Português como Língua Estrangeira de um modo geral ou são falantes nativos ou da variedade europeia ou da variedade brasileira, a inclusão de peças televisivas devidamente comentadas e analisadas tem a vantagem do ponto de vista didático de trazer para o contexto da sala de aula material linguístico autêntico em contextos comunicativos reais, podendo ser abordadas a própria variedade, bem como a outra. Além disso, este tipo de material assegura a autenticidade linguística dos modelos discutidos. Aqui o docente pode trabalhar com trechos e, em níveis de aprendizagem mais avançados, incluir peças curtas integrais correspondentes a tradições discursivas da língua falada.

A título de exemplo, observemos o excerto seguinte do Jornal Nacional de 12 de Janeiro de 2009, onde o comissário da polícia Jorge Moreira prestou declarações, optando por um nível linguístico bastante formal e elaborado.

Exemplo 1

Jorge Moreira, Comissário da polícia – O Gerson teve o prazo para se apresentar, em razão de um arrependimento ou qualquer coisa assim, mas ele não Ø fez. Ele passou a ser considerado foragido. [ ] Estamos tentando localizá-lo para cumprir o mandato de prisão. (JN, 12/1/2009 apud Arden 2015, 148)

A partir do exemplo poder-se-ia por um lado abordar a proximidade da norma-padrão do PE da norma culta falada, nomeadamente, tomando em consideração a seleção lexical (foragido) e de expressões como em razão de um arrependimento. A referência anafórica por seu turno é interessante, pois revela a co-ocorrência de objetos nulos (Ø) e pronomes clíticos da terceira pessoa (-lo) num comunicado oficial das autoridades, ou seja, dentro de uma mesma tradição discursiva, num mesmo discurso com o mesmo sujeito de enunciação, o que é caraterístico de contextos de oralidade elaborada com elevado grau de formalidade no PB (cf. Arden 2015, 145-152). A norma do PE exige nestes contextos a utilização de pronomes clíticos. Seria ainda de destacar a diferença das construções progressivas no BP com auxiliar estar no presente do indicativo + verbo principal no gerúndio (estamos tentando), e no PE, formado com estar no presente do indicativo + preposição a + infinitivo do verbo principal (estamos a tentar).

Também a utilização da relativa cortadora podia ser abordado partindo de um exemplo real extraído do Jornal Nacional:

Exemplo 2:

C Carvalhar, nutricionista – A pessoa se serve muito, lá na frente acha uma coisa Ø que gostaria mais, coloca e acaba saindo do restaurante empanturrada (JN, 15/10/2008 apud Arden 2015, 254).

Além da elisão da preposição (de) para introduzir a oração relativa, bastante produtiva no PB falado, o exemplo serve para ilustrar a tendência para a utilização da próclise no PB (se serve vs. PE serve-se), a utilização desviante de preposições regendo Complementos Circunstanciais de Lugar (“Onde”) (lá na frente vs. EP lá à frente), a maior produtividade do condicional na variedade brasileira (gostaria), em contextos onde no PE hoje em dia, sobretudo na linguagem oral, domina o pretérito do imperfeito como equivalente funcional e diferenças na construção de perífrases verbais. À perífrase verbal acabar saindo no PB, corresponde acabar por sair no PE.

Para esta finalidade didática podem-se igualmente incluir trechos de novelas1 ou séries, uma vez que muitas vezes são representados grupos sociais e, por conseguinte, variedades distintas, ainda que importe ter em conta o problema da autenticidade caraterístico da oralidade fingida (cf. Goetsch 1985).

5.2 Exemplo de uma análise a partir de um excerto de um texto literário

Outra possibilidade é a de recorrer a textos literários com um grau de dificuldade moderado, como, por exemplo, O menino no espelho de Fernando Sabino (ex. 3), como sugerido por Pinto (21993, 19).1 Neste tipo de exercícios é de evitar a mera substituição de lexemas, pois as estruturas continuam, neste exemplo, a ser tipicamente brasileiras e o texto perderia a sua autenticidade, aumentando o risco de os alunos misturarem as respetivas normas e de serem introduzidos erros no significado do texto na altura da sua adaptação por parte dos professores na preparação dos respetivos exercícios ou dos autores dos manuais no caso de se tratar de equipas exclusivamente compostas por falantes nativos de uma das variedades (cf. Pöll 2000, 58sq., a propósito das variedades extra-europeias do Francês). Além disso, no caso de um suporte auditivo deve ser tido em conta que os leitores do texto sejam falantes nativos da respetiva variedade, evitando que, por exemplo, um leitor nativo do PE leia o excerto de um texto na variedade do PB, sob pena de perder a sua autenticidade (cf. Pöll 2000, 59).

Exemplo 3

 Vagabunda? Está me chamando (5) de vagabunda? Nabacinho é você, seu bicho ordinário! Não sei onde estou que não te corto o pescoço, asso no espeto e como, ouviu? E ainda chupo os ossinhos um por um!

 Ela correu de novo os olhos em torno:

 Por falar em comer: quéde a galinha? Já está na hora de fazer o almoço. Onde é que ela se meteu?

 Não sei.

 Você não estava brincando com ela ontem, menino?

 Isso foi ontem. Hoje eu não vi ela ainda.

 Será que ela fugiu? Ou alguém roubou?

 E ela olhou para o papagaio, cismada agora com o silêncio dele:

 Vai ver que é por isso que esse nabacinho (1) de uma figa estava gritando pega ladrão (4). Algum ladrão de galinha.

 Agarrei a ideia no ar, era a salvação:

 Isso mesmo! Quando eu estava ali no quintal vi um homem passar correndo Levava uma coisa escondida embaixo (3) do paletó (2). Só podia ser a galinha.

Fernando Sabino (1996 [1982]): O menino no espelho, 18sq.

Para começar a abordagem do texto e após contextualizá-lo na obra e esta na respetiva história literária e no respetivo contexto sociocultural brasileiro, seria interessante começar por ouvir uma cassete ou um CD áudio no qual o texto é falado por falantes nativos da respetiva variedade. De seguida poder-se-iam discutir particularidades da pronúncia do PB. Nomeadamente a palatalização de <d> ou <t> antes de <i> ou <e>, em ordinário, tio, pede; a semivocalização de <l> na coda da sílaba, por exemplo em beldade e quintal; a velarização do <r> na coda da última sílaba da palavra (ex. – fazer; seguir) e o fechamento de <e> e <o> abertos no PE (ex. – oxigénio e tónica) (cf. Pinto 21993, 19). Embora nesta passagem não haja exemplos, seria ainda importante advertir para a utilização do [i] epentético no BP, para desfazer clusters consonânticos e obter sílabas harmoniosas prototípicas (consoante + vogal), por exemplo, e ab[i]surdo e p[i]siquiatra (Pinto 21993, 19).

Após a leitura do texto, poder-se-ia começar por uma abordagem das especificidades lexicais, nomeadamente de lexemas, que o PE desconhece, tais como: nabacinho (1) (‘tonto’, ‘palerma’), caraterístico da proximidade comunicativa, marcado diafasicamente como baixo, ou paletó (2) (‘casaco (curto)’, ‘jaqueta’), preposições distintas embaixo (3) (‘debaixo de’) e até mesmo expressões idiomáticas fixas, tais como pega ladrão (4) (PE – ‘agarrem o ladrão’) ou não sei onde estou (PE ‘não sei quem sou para ’ ou ‘não sei por que é que ’). Um exercício para aplicação e gestão de conhecimentos, relativamente às diferenças lexicais pode ser feito logo após a leitura do texto, por exemplo, com exercícios de escolha múltipla.

De grande interesse para além da variação do valor semântico são, no entanto, aspetos gramaticais, que podem ser abordados mediante exercícios de escolha múltipla, preenchimento de lacunas ou redação, adaptando as frases às normas do PE. Numa primeira aproximação poderá também ser recomendável facultar um texto com uma explicação das respetivas especificidades.

Deste modo, no exemplo em análise (ex. 3) seria de salientar o uso distinto de formas pronominais, mais propriamente o domínio da próclise no caso de pronomes átonos (está me chamando (5) – PE está a chamar-me) e a preferência pelo objeto nulo (alguém Ø roubou – PE alguém a roubou; pega Ø ladrão – PE pega o ladrão) ou pela forma plena do pronome pessoal ou seja o pronome pessoal reto ou pleno para expressar o complemento direto (eu não vi ela – PE eu não a vi). Além disso, conforme se pode verificar em (5) seria de destacar o uso do gerúndio para expressar o caráter contínuo e progressivo de uma ação verbal no PB, adotando uma perspetiva interior sobre a ação verbal, contemplada no seio do seu decurso, sem focalizar o início e o fim da mesma (ex. – não estava brincando – PE não estava a brincar; estava gritando – PE estava a gritar), que no PE é expresso pela construção estar a + infinitivo do verbo principal. Esta preferência pelo gerúndio está também patente em construções em que o verbo desempenha uma função modalizadora (passar correndo – PE passar a correr) para expressar o modo como a ação foi desempenhada. No domínio da pragmática é de destacar a supressão da segunda pessoa do singular substituída pela forma você + verbo conjugado na terceira pessoa do singular (EstáØ me chamando de vagabunda? – PE Estás-me a chamar de vagabunda?). Esta supressão no paradigma verbal resulta na indiferenciação entre a forma de proximidade e de distância comunicativa nas formas de tratamento, caraterística do PB à semelhança do inglês. No PE a utilização de você para uma pessoa hierarquicamente superior, quer seja a nível profissional, quer seja social é completamente inaceitável e alvo de repreensão e correção (cf. Merlan 2011, 198sqq.).2 Nos exemplos até aqui discutidos, trata-se de utilizações caraterísticas da norma culta falada do PB.

Importa distinguir estas formas, daquelas que caraterizam a norma popular e que surgem, por norma, exclusivamente nas passagens dialogadas no discurso direto, para dar tonalidades de autenticidade à oralidade fingida (cf. Goetsch 1985) e ao mesmo tempo caraterizar personagens pertencentes às classes populares, como a cozinheira neste excerto. De destacar: a supressão de nexos mediante preposições (– Está me chamando Ø vagabunda? – PE Estás-me a chamar de vagabunda?) e o facto de BP nas normas populares faladas no caso de substantivos compostos, nos quais o segundo elemento serve para determinar o primeiro, apenas marcar o plural no primeiro substantivo (ladrão de galinhaØ – PE ladrão de galinhas). Uma repercussão desta regra é o facto de substantivos genéricos à diferença do que acontece no PE, serem, em regra geral, utilizados no singular.

Mediante os exemplos apresentados, esperamos ter deixado claro que uma boa abordagem de uma língua pluricêntrica passa sempre por uma aproximação às suas variedades partindo de textos autênticos, inscritos na respetiva ideologia, mentalidade e cultura, abordando diferenças de forma abrangente e evitando cingir-se a apenas um aspeto, sob pena de aumentar as interferências nos estudantes de língua não-materna, dado não estarem integrados numa comunidade linguística da respetiva, língua com os seus mecanismos reguladores automáticos de correção por parte de outros falantes, se a respetiva forma violar as normas do respetivo sistema, no sentido de Coseriu (1970). No caso da integração de excertos literários, importa escolher obras com umas passagens dialogadas e alguma diversidade de registos, dada a proximidade da norma-padrão do discurso escrito do PB à do PE, ainda nos dias que correm.

6 Conclusão – Um apelo à necessidade de entender o Português como língua pluricêntrica nas aulas de Português para Estrangeiros

O presente artigo pretende sensibilizar professores de Português para Estrangeiros para a diversidade e variedade dentro da Língua Portuguesa, enquanto língua falada em quatro continentes. Ao mesmo tempo pretende alertar para a necessidade de evitar uma proliferação arbitrária da noção de pluricentrismo e para a necessidade de uma aproximação cuidadosa e uma abordagem metodologicamente refletida às variedades do Português para evitar que os alunos deixem de distinguir entre as variedades, cometendo erros resultantes da amálgama indiferenciada de caraterísticas do PB e do PE, arbitrariamente adquiridos, e que os aprendentes não conseguem associar às devidas variedades. Além disso, procurámos alertar para a necessidade de alguma ponderação na descrição e explicação de caraterísticas do PB indiferenciadamente, ignorando se se trata de elementos integrados na norma-padrão prescritiva ou se se trata de elementos da norma culta falada ou de elementos diastraticamente marcados da norma popular falada. Ao mesmo tempo procurámos sensibilizar para a necessidade de deixar de contemplar África, e aqui Angola e Moçambique concretamente, como se se tratasse de sociedades falantes do Português segundo a norma-padrão do PE, apelando a que também especificidades destas variedades fossem abordadas num nível de aprendizagem avançado do Português para Estrangeiros. Os diferentes graus de desenvolvimento das respetivas normas comparativamente com o Brasil deve-se à estreita ligação entre identidade nacional, que se cristaliza na formação de normas linguísticas próprias, dado que a língua, mais do que qualquer outro símbolo cultural, serve como símbolo da identidade (cf. Pöll 2000, 52) e a emergência dessa identidade é um resultado da descolonização, no caso da língua de antigos territórios coloniais, processo levado a cabo mais de um século mais cedo no Brasil do que em África. Finalizámos com algumas sugestões práticas e advertências de como integrar a realidade pluricêntrica do Português nas aulas de Português para Estrangeiros, ponderando sobretudo o papel decisivo dos meios de comunicação de massas como veiculadores de mudanças linguísticas e elementos centrais na definição das respetivas normas-padrão, papel outrora desempenhado pela literatura.

Importa que os professores de Português para Estrangeiros evitem atitudes de exacerbado patriotismo e purismo linguístico nacionalista, vendo oportunidades na diversidade do Português em vez de recearem constantemente ameaças oriundas das outras variedades, pois tal também não deterá os processos de mudança linguística, nem travará o processo de formação e consolidação de normas-padrão do Português no Brasil, em Angola e em Moçambique. Tal processo depende exclusivamente da vontade dos falantes das respetivas comunidades linguísticas.

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As variedades do português na formação universitária em Portugal
Português, Língua pluricêntrica: formação de professores de PLE na Universidade do Porto

Isabel Margarida Duarte

1 Introdução

O caráter pluricêntrico da Língua Portuguesa, que obedece a todos os critérios propostos por Clyne (1992) e Muhr (2012) para esta classificação, não levanta hoje dúvidas. Há variedades nacionais com normas estandardizadas, pelo menos no que diz respeito ao Português Europeu e ao Português do Brasil. As identidades nacionais dos falantes de português são variadas e não coincidentes. Partindo da assunção de Kristiansen (2014, 2), segundo a qual “it is clear that pluricentricity and monocentricity are gradient rather than well-defined separate categories: some languages are much more pluricentric than others”, dentro desta gradação, o português está, sem dúvida, do lado das línguas mais pluricêntricas.

Por outro lado, tendo em conta as conclusões de Reto (2012) sobre o seu potencial económico e a sua previsível expansão nas próximas décadas, mormente em África (Reto 2016; Osório et al. 2017), esse pluricentrismo deveria ser pensado de forma estratégica e virada para o futuro da língua que terá, nos próximos cinquenta anos, segundo as previsões de Reto (2016), a maior parte dos seus falantes em África. Não é pois possível continuar a considerar apenas, para efeito de ensino do Português Língua Não Materna (PLNM), as variedades europeia e brasileira. Nenhum país é dono de uma língua e as suas variedades nacionais têm igual valor do ponto de vista linguístico, seja a do território onde a língua se formou, seja a daquele onde ela é língua materna do maior número de falantes nativos, pelo que deverão todas ser tomadas em consideração, quando se equacionam questões ligadas à promoção da língua em instâncias internacionais ou o seu ensino para falantes de outras línguas. Esses alunos que aprendem português fazem-no, com frequência, movidos pela possibilidade que esta língua lhes pode dar de acederem a diferentes culturas e, sobretudo, a mercados de trabalho diversificados.

Os objetivos desta reflexão serão, portanto:

1 Defender que o ensino do PLNM atente nas diferentes variedades da Língua Portuguesa.

2 Apresentar o que se faz, nesse sentido, no Mestrado em Português Língua Segunda / Língua Estrangeira, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

3 Promover a problematização do caráter policêntrico da Língua Portuguesa.

Como Aguiar e Silva (2010, 348) escreveu,

Se a língua e a cultura portuguesas não são obviamente entendíveis à margem das suas matrizes e dos seus contextos europeus, também é verdade que elas, muito em particular a língua, não podem nunca ser consideradas, entendidas e avaliadas, à margem da sua existência multissecular em terras do Oriente, em terras de África e, sobretudo, em terras do Brasil.

O português que se fala no Oriente, em África, na América e na Europa merece a atenção dos investigadores, dos professores e, obviamente, dos que o aprendem. Do contacto do português com línguas e povos de regiões muito dispersas e distantes, só podia resultar muita variação. Quando os portugueses chegaram a locais tão distantes entre si como a América do Sul, a Ásia, a África, as línguas que em cada espaço se falavam eram profundamente diferentes, de diversas famílias linguísticas. Além desses substratos muito diferentes, o que estava e está, linguisticamente, à volta dos territórios onde os portugueses se instalaram, que colonizaram ou com os quais estabeleceram diferentes tipos de relação, os adstratos, são também muito variados. Mais acresce que os povos que se vieram instalar depois da chegada dos portugueses, nos diferentes territórios, influenciam o modo como o português se fala em cada um. Veja-se, por exemplo, o caso do Brasil. Ora, do contacto das diferentes línguas com as quais o português foi interagindo em variados contextos geográficos e sociais, resultaram diferentes formas de o falar, que nem sempre correspondem a variedades com normas assumidas e mais ou menos fixas. Por isso falamos de variedades no que concerne ao Brasil ou a Portugal, mas de variedades em formação no que diz respeito a África, por exemplo. Os fenómenos de interferência linguística explicam diferentes características das variedades que se falam em diferentes países e zonas desses países.

Como sabemos, não é o mesmo o estatuto da Língua Portuguesa nos diferentes países em que é falada e esse estatuto vai variando ao longo dos tempos. Nuns países é língua oficial, em outros vai-se tornando, cada vez mais, língua materna da maior parte da população. É o caso de São Tomé e Príncipe mas também de largas zonas urbanas de Angola e Moçambique. Há zonas rurais do último país referido, no entanto, em que o português é uma língua estrangeira.

Não é o momento para fazer o balanço de qual a situação atual do português nos diferentes países em que é língua oficial, mas importa ter consciência de que, em alguns desses países, a língua concorre com outras até no mesmo falante. Muito interessante, como sugere Moisés de Lemos Martins, na Introdução a Brito (2013, 14), é o convívio, mas também a competição do português com outras línguas: “a ideia de pertença identitária, implícita no fato de um conjunto de povos falar um mesmo idioma, não dispensa a consideração de realidades nacionais multiculturais em específicas regiões do globo, com a língua portuguesa a ter que se relacionar com outros idiomas locais e a ter que, em muitos casos, entrar em competição com eles.” (Martins, in Brito 2013, 14). É assim em Cabo Verde e em Timor, para só dar dois exemplos.

O multilinguismo dos países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) é uma complexidade que esses países têm de enfrentar, com o que dela resulta para o insucesso escolar, mas é também uma das suas riquezas. E, se a política linguística dos diferentes países não é a mesma, desejavelmente dever-se-ia proteger as várias línguas que aí coexistem com o português.

Estes tópicos justificam, a nosso ver, que esta questão ocupe um lugar central na formação de professores de Português como língua não materna, independentemente da designação por que optemos.

2 Mestrado em Português Língua Segunda / Língua Estrangeira da FLUP e pluricentrismo da Língua Portuguesa

O mestrado em apreço – “Mestrado em Português Língua Segunda / Língua Estrangeira” – foi criado em 2007, mas a história da formação de professores de Português como Língua estrangeira começa, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, muitos anos antes. No ano letivo de 2004-2005, teve início o “Curso de Especialização em Ensino do Português Língua Estrangeira”. Como lembra Matos (2007, 105), também esse curso de especialização já tinha um passado feito de experiência:

No início dos anos 90, o Instituto Camões propôs à FLUP a realização de um curso de pós-graduação destinado à formação de professores de PLE, assegurando a atribuição de bolsas preferencialmente encaminhadas para candidatos estrangeiros. Esse curso, designado como “Diploma Universitário de Formação de Professores de Português Língua Estrangeira”, formou dezenas de docentes, quer portugueses, quer, sobretudo, estrangeiros. Em 2004, este “Diploma” foi reestruturado e substituído pelo “Curso de Especialização em Ensino de Português Língua Estrangeira”,

que, por sua vez, deu lugar ao mestrado.

O mestrado atual é composto por um primeiro ano apenas curricular e um segundo em que os estudantes deverão fazer estágio pedagógico, a par de um Seminário e do relatório / dissertação. No primeiro ano, o desenho curricular prevê oito unidades curriculares obrigatórias e duas opcionais. Dessas oito disciplinas, três têm como foco o policentrismo da língua Portuguesa:

 Variedades do Português

 Temas de Literatura dos Países de Língua Portuguesa

 Temas de Cultura dos Países de Língua Portuguesa

Nestas Unidades Curriculares, como se poderá verificar por uma consulta aos respetivos programas, a preocupação central é que a atenção à língua portuguesa não seja confinada ao Português Europeu, nem tampouco a esta variedade e ao Português Brasileiro.

Do programa da disciplina “Variedades do Português”, selecionamos alguns tópicos que testemunham isto mesmo:

3.4 O Português do Brasil.

3.4.1. Diferenciação fonética (o vocalismo átono, as fricativas palatais, a palatalização; características sintáticas (os paradigmas flexionais, a colocação e uso dos clíticos, o uso do artigo); particularidades lexicais.

3.5 A situação do Português em África: língua materna e língua segunda.

3.5.1 Algumas características que diferenciam as diversas variedades do Português em África.1

Na disciplina de “Temas de Cultura dos países de língua portuguesa”, diz-se, nos Objetivos, que o programa

privilegia a “literatura de viagens” nos séculos XVI e XVII, promovendo o conhecimento do encontro dos portugueses com outras culturas, e dedica atenção ao “olhar” do outro sobre a cultura portuguesa, estudando textos de estrangeiros que viajaram por Portugal nos séculos XVIII e XIX. No sentido em que o programa apela às culturas dos países de língua portuguesa, os textos de viagem selecionam espaços desde o Brasil a Angola, Moçambique, Índia e Timor, apresentando e discutindo o encontro de culturas em espaços e cronologias diferentes.2

Quanto a “Temas de Literatura dos países de língua portuguesa”, eis os principais pontos do Programa, que privilegiam a mesma visão pluricêntrica da língua portuguesa plasmada, neste caso, nas literaturas escritas em português:

2. Da condição pós-colonial e transnacional da língua portuguesa à literatura-mundo em português: questões e desafios;

3. Identidades e reconstrução da nação: as vozes dos poetas (Alexandre O’Neill, José Craveirinha; Jorge de Sena; Rui Knopfli; Miguel Torga; Ruy Duarte de Carvalho; Vinicius de Moraes; Sophia de Mello Breyner Andresen );

4. Condensação e comunicação da diversidade: a vez dos contos e das crónicas (José Rodrigues Miguéis; António Lobo Antunes; Clarice Lispector; Lídia Jorge; Ana Paula Tavares; Onésimo Teotónio Almeida; Mia Couto; José Eduardo Agualusa, Ondjaki).

5. (Re)visões literárias e cinematográficas de mundos migrantes lusófonos: alguns exemplos tendo em vista a planificação cultural (no ou para público estrangeiro).3

Nas restantes Unidades Curriculares do primeiro ano do mestrado (Pragmática e Análise do Discurso, Psicolinguística e Aprendizagem de Línguas, Gramática da Comunicação Oral e Escrita, Didática do Português Língua Não Materna e Prática Letiva), embora esta problemática não seja o centro dos conteúdos programáticos, ela está também presente em permanência, nos materiais, nos “Learning Objects” que são utilizados, nas variedades que são trabalhadas, nos exemplos dados, que não são, apenas nem sobretudo, do Português Europeu, mas sempre de diferentes origens.

Também no que diz respeito ao segundo ano, em que os estudantes devem fazer estágio acompanhado de Seminário e realizar um relatório de investigação-ação, existe a mesma consciência de que a Língua a ensinar não é homogénea, nem tem uma única variedade nacional, pelo que os aprendentes de PLE de que os nossos estudantes venham a ser professores estagiários deverão contactar com documentos que atestem as diferentes variedades da língua. Por outro lado, nos relatórios de investigação-ação4 do 2º ano, presta-se com frequência atenção a diferentes variedades, quer do ponto de vista estritamente linguístico, quer literário ou mais latamente cultural. Esta atenção recobre quatro eixos centrais de investigação-ação.

O primeiro diz respeito a alguns relatórios que têm por fim valorizar a língua e a cultura dos estudantes oriundos de países da CPLP, que não Portugal: Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor. São apenas exemplos dessa preocupação os seguintes:

Vera Cruz, Abdelaziz (2013), Abordagem Comunicativa – Enfoque na Competência Oral na Língua Segunda. Caso da Guiné Bissau; Nhamussua, Leonardo (2014), O português como Língua Segunda em Moçambique. Da indefinição conceptual à problemática de providência do modelo de ensino; Henriques, Paulo (2015), A comparação das dificuldades dos alunos timorenses e dos estudantes do nível elementar da FLUP; Cabral, Marcos (2016), Uso do tétum como língua de mediação para o ensino do PLE; Costa, Florindo (2016), Cultura e tradição timorense como contributo para a aprendizagem da língua portuguesa – um estudo de caso nos níveis A1.2 e A2.2.

Por outro lado, e num segundo eixo, também se têm debruçado sobre o policentrismo da língua portuguesa em contextos não europeus e não americanos, os relatórios de vários professores portugueses que trabalham ou trabalharam em Timor, Cabo Verde, Macau, por exemplo: Caravelas, Maria Alice (2016), Na senda da promoção da interação em língua portuguesa, em Timor-Leste: do espaço sala de aula ao contexto social; Rodrigues, Luís (2014), Pobre não fala português – análise etnográfica da política e planificação linguística em Cabo Verde; Silva, Cândida (2014), A implementação curricular da disciplina de Português no 10º ano de escolaridade do ensino secundário geral em Timor-Leste.

Passemos ao terceiro eixo de investigação. O Português com o estatuto de Língua de herança, de língua segunda (PLS), de língua estrangeira (PLE), de língua adicional e mesmo de língua materna (PLM), nomeadamente em contextos de Ensino de Português no Estrangeiro, falado por emigrantes de segunda e terceira geração, ou por lusodescendentes, é outro centro de interesse óbvio das nossas reflexões. Aquelas designações, como Carreira (2013) já referiu, sublinham a importância do contacto de línguas e revelam a sua centralidade para as decisões pedagógicas a tomar. Embora em menor escala, esta vertente do ensino do Português já foi também objeto de relatórios, para os casos da África do Sul, dos Estados Unidos e da Suíça, estando em curso mais seis, de docentes que trabalham no Ensino do Português no Estrangeiro, do Instituto Camões, três na secção Inglaterra e Ilhas do Canal e três na África do Sul. No caso dos aprendentes com ligações a histórias de emigração, é fundamental, por motivos identitários, que a sua relação com a língua seja positiva. Ora ela será eventualmente melhor se perceberem que fazem parte de uma comunidade muito alargada e variada de falantes, que podem, com esta língua, trabalhar em inúmeros países do mundo, para o que devem contactar com as diferentes realidades dos países lusófonos, e assim perceberem a importância geopolítica que ocupa, no mundo, a língua que falam, e com ela teçam uma relação compensadora.

Por fim, temos um quarto eixo de pesquisa, pois há um outro conjunto de relatórios que se debruçam, problematizando-o, sobre o conceito de “lusofonia” (Brito 2013; Martins 2015), mesmo fazendo a respetiva crítica. Seguem-se quatro exemplos: Consorti, Gioia (2016), Integração da cultura lusófona na aula de PLE: estudo de caso no nível A1.2; Lima, Solange (2016), Desenvolvimento da competência intercultural e literatura lusófona em aulas de PLE: relato de uma experiência em turmas de nível B; Sándor, Gabriela (2015), A Literatura oral tradicional lusófona no ensino/aprendizagem do PLE; Fava, Filipa (2008), A lusofonia na aula de Português Língua Estrangeira e o desenvolvimento da competência intercultural.

3 Como ensinar PLNM, como língua pluricêntrica

O ponto de partida para a reflexão que temos vindo a fazer no Mestrado foi, num primeiro momento, a preocupação com as dificuldades que se colocam a quem aprende com professores ora falantes de PE ora de PB, ou com professores uns falantes de PB e outros de PE simultaneamente (e, porque não, de Português de Moçambique, por exemplo?). Ou seja, formando nós professores de Português como língua não materna, temos de pensar obrigatoriamente na problematização do ensino multilateral do PLE, sublinhando a sua condição de língua pluricêntrica, no que toca às questões de ensino. Neste momento, temos dois relatórios que se debruçam sobre o ensino simultâneo das variedades europeia e brasileira, a saber: Stichini, Catarina (2014), Aquisição dos Clíticos no Ensino Simultâneo de PE e PB a Alunos Universitários da Suécia e Rodrigues, Telma (2016), As preposições em Português: Reflexão sobre a experiência de um minicurso na Universidade de Estocolmo.

O mais natural é que, exceto instruções em contrário, cada professor ensine, preferencialmente, a sua variedade nativa ou, no caso de ser falante nativo de uma língua que não o português, aquela que aprendeu, mas, segundo a experiência de Stichini, nas principais zonas geradoras de conflito e nas diferenças fundamentais, como a posição dos clíticos, as formas de tratamento, ou a existência de artigo antes dos possessivos, por exemplo, é preferível apresentar logo as alternativas de modo contrastivo. Quando fazê-lo? Só nos níveis avançados? Logo nos níveis iniciais? Embora o seu trabalho não tenha como foco a questão das variedades nacionais do espanhol como língua pluricêntrica, mas a variação dentro de uma única variedade, o espanhol peninsular, Briz (2002) defende que desde os níveis iniciais os aprendentes devem estar em contacto com documentos e materiais de diferentes variedades e não apenas perante o espanhol padrão.

Por outro lado, como acima ficou dito, a língua portuguesa pode abrir portas em várias partes do mundo, o que é um dos seus motivos de atração. Daí que o professor de PLE deva fazer com que os seus alunos tenham as competências necessárias para interagirem com falantes de português de diversas variedades e de diferentes regiões do globo. A variedade que cada um dos aprendentes fala deve ser compreensível para falantes de outra variedade e todos devem ter o ouvido habituado a diversas pronúncias, ou seja, a compreensão oral e a interação oral deverão fazer-se sem dificuldades, qualquer que seja a variedade que o aprendente conhece. No caso do português, parece-nos obrigatório apresentar diferentes textos de vários géneros discursivos, escritos e orais, simultaneamente em PB e PE ou PM, ou PA, para que os alunos sejam postos perante uma permanente visão contrastiva PB/PE/PM, mesmo que algumas variedades não tenham uma norma estabilizada. Contactar com documentos autênticos de todas as variedades, quer as mais estabilizadas quer outras, ainda em construção, parece-nos o modo mais feliz de mostrar a diversidade linguística do português, ao mesmo tempo que se melhora a inteligibilidade e a intercompreensão entre os diferentes modos de falar. O grande desafio, como lembra Regina Pires de Brito, é “conciliar diversidades linguísticas e culturais com a unidade que estrutura o sistema linguístico do português.” (Brito 2013, 53).1 A diversidade linguística e cultural é, a nosso ver, um fator de aumento da motivação dos aprendentes de Português língua não materna, embora possa ser, em certas fases, geradora de algumas indecisões e incertezas.

A intercompreensão de diferentes variedades faz intervir o conceito de inteligibilidade (Derwing / Munro 2005; Jenkins 2005) fundamental no ensino das chamadas línguas globais. Speelman / Impe / Geeraerts (2014) debruçam-se sobre a questão de saber em que medida as distâncias objetivas e as atitudes linguísticas podem interferir na inteligibilidade entre diferentes variedades nacionais de uma mesma língua, no caso o neerlandês. Veronica Manole (2013) equaciona esta questão a partir dos problemas de intercompreensão existentes entre falantes da variedade europeia e da variedade brasileira do português que se coloca, sobretudo, para falantes com menos escolarização o que nos permitiria problematizar o cruzamento do entendimento das variedades de uma língua policêntrica com a variação socioletal dentro de cada uma delas.2 Segundo Manole (2013, 54),

Embora a língua que os países lusófonos partilhem seja a mesma, as diferenças que existem entre as diversas variedades do português determinam a criação de identidades linguísticas nacionais e regionais bastante fortes. Um falante nativo consegue identificar sem grande esforço se o interlocutor fala de “um jeitinho diferente”: um português observa que a variante do Brasil é “mais doce”, alguns brasileiros consideram que o português europeu [ ] pode “parecer” mais culto porque o associa com os textos dos escritores clássicos que estuda na escola etc.

A individualidade de cada variedade do português manifesta-se em todos os níveis da língua: pronúncia, grafia, gramática, léxico e as divergências podem determinar problemas de compreensão até entre os nativos. Basta relembrar que no Brasil alguns filmes portugueses são legendados porque a pronúncia fechada das vogais átonas em PE dificulta de tal maneira a compreensão, que a mensagem oral se pode tornar incompreensível a um brasileiro que não teve contacto com os falantes de português do outro lado do Atlântico.

Diferentes membros da CPLP deslocam-se cada vez mais entre os países que a compõem. Muitos falantes de português como LNM viajam, nos nossos dias, de um país falante de português para um outro. O conceito de inteligibilidade deve ser tido em conta no âmbito do ensino/aprendizagem de PLE, nomeadamente no que diz respeito à produção e compreensão do oral, mormente quanto à pronúncia. Para que a comunicação se estabeleça, tendo em conta, sobretudo, problemas de compreensão oral, será necessário que os falantes tenham sido expostos a diferentes variedades da língua-alvo e lhes tenha sido chamada a atenção para as diferenças.

Por outro lado, a apresentação de documentos de diferentes origens implica que o docente conheça as características centrais do português falado nesses diferentes espaços. Por isso, exige-se ao docente que saiba o que trabalhos de descrição linguística, baseados em corpora, vêm dizendo sobre o assunto. Aliás, Albelda (2011) advoga as tarefas baseadas em corpora na aula de LE, o que nos parece uma boa opção, por pôr os estudantes em contacto com a língua real e documentos autênticos e não apenas com a língua normalizada que, geralmente, é selecionada nos textos dos manuais escolares e por, ainda, permitir aos aprendentes descobrirem regularidades, frequências, regras, em enunciados realmente produzidos. No que ao necessário conhecimento das características de diferentes variedades diz respeito, podemos exemplificar o que fica dito, com dois trabalhos recentes sobre aspetos específicos do carácter pluricêntrico da LP. Um deles é o texto de Silva (2014b): “The pluricentricity of Portuguese: A sociolectometrical approach to divergence between European and Brazilian Portuguese”. Nele, Augusto Soares da Silva estuda divergências e convergências das variedades portuguesa e brasileira. O autor investiga em que medida varáveis lexicais e construcionais são indicadores de convergência ou de divergência entre as duas variedades do português, durante 60 anos. Procura verificar, ainda, a correlação entre indicadores atitudinais subjetivos e indicadores objetivos, provenientes de corpora. No que diz respeito à terminologia do vestuário, as duas variedades divergem, mas convergem, pelo contrário, no que concerne à terminologia do futebol. Quanto às estruturas gramaticais e às atitudes linguísticas, nota-se em ambas divergência nas variedades estudadas. Sublinhe-se ainda que a divergência diacrónica (o período estudado foi de 60 anos) se aplicou a ambas as variedades, o que leva ao autor a concluir que há uma situação de simetria entre ambas.

Quanto ao outro estudo (Mendes et al. 2015), trata-se de “Pronominal constructions and subject indetermination in varieties of Portuguese”, onde se investiga o comportamento do pronome clítico SE (com diferentes valores e estatutos: o se reflexo, o inerente, o passivo e o impessoal) não apenas em Português Europeu e no do Brasil, mas também no que se fala em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e S. Tomé e Príncipe. As autoras mostram aspetos convergentes mas também divergentes do comportamento do clítico em corpora orais.

4 Algumas conclusões

Estes dois exemplos apenas pretendem mostrar um caminho. Há um percurso de investigação a fazer no que diz respeito à pluricentricidade da língua portuguesa, porque é preciso conhecê-la melhor, descrever as diferentes variedades e confrontá-las, de muitos pontos de vista. No que concerne à pragmática e aos usos mais informais do português, por exemplo, há um vazio que urge ir preenchendo com estudos contrastivos. Os contrastes não dizem respeito apenas a formas de tratamento, mas ainda a marcadores discursivos, formas de atenuação e cortesia linguística, por exemplo. Esta investigação é necessária para que saibamos o que propor, como reflexão e leituras, aos nossos estudantes de Mestrado. Eles próprios levam a cabo pequenos trabalhos de investigação, para a avaliação das diferentes Unidades Curriculares, que contribuem, na medida do possível, para um melhor conhecimento da pluricentricidade da língua portuguesa. A língua “como solo e como horizonte” (Silva 2018) é também a língua que devermos conhecer cada vez melhor e com mais segurança, para a podermos promover e projetar mais longe e com mais ousadia.

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