Kitabı oku: «Fantasmas, Garotas E Outras Aparições»

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Fantasmas, Garotas & Outras Aparições

por Stephen Goldin

Publicado por Parsina Press

Tradução Publicada por Tektime

Avisos de Direitos Autorais

Fantasmas, Garotas & Outras Aparições. Direitos Autorais 2011 por Stephen Goldin. Todos os direitos reservados.

“Bons Sonhos, Melissa” Direitos Autorais 1968, 1996 por Stephen Goldin. Todos os direitos reservados.

“As Garotas do USSF 193” Direitos Autorais 1965, 1993 por Stephen Goldin. Todos os direitos reservados.

“Lugar Agradável Para se Visitar” Direitos Autorais 1973 por Mankind Publishing Company. Todos os direitos reservados.

“Quando Não Há Nenhum Homem por Perto” Direitos Autorais 1977 por Davis Publications, Inc. Todos os direitos reservados.

“Xenófobo” Direitos Autorais 1975 por Mankind Publishing Company. Todos os direitos reservados.

“Conto de Fadas Macabro” Direitos Autorais 1972 por Knight Publishing Corporation. Todos os direitos reservados.

“De amor, Livre-arbítrio e Esquilos Cinzentos em uma Noite de Verão” Direitos Autorais 1974 por Mankind Publishing Company. Todos os direitos reservados.

“Teimoso” Direitos Autorais 1972 por David Gerrold. Todos os direitos reservados.

“Mas Como um Soldado, Por Sua Pátria” Direitos Autorais 1974 por Terry Carr. Todos os direitos reservados.

“O Mundo Onde Desejos Funcionavam” Direitos Autorais 1971, 1999 por Stephen Goldin. Todos os direitos reservados.

“Apollyon Ex Machina” Direitos Autorais 1980 por Stephen Goldin. Todos os direitos reservados.

“Prelúdio a uma Sinfonia de Gritos por Nascer” Direitos Autorais 1975 por Roger Elwood. Todos os direitos reservados.

“Retrato do Artista como um Jovem Deus” Direitos Autorais 1977 por David Gerrold. Todos os direitos reservados.

“O Último Fantasma” Direitos Autorais 1971, 1999 por Stephen Goldin. Todos os direitos reservados.

“Casas Assombradas” Direitos Autorais 1991 por Stephen Goldin. Todos os direitos reservados.

Título Original: Ghosts, Girls, & Other Phantasms

Tradutor: Leandro Mabillot

Direitos Autorais da Imagem da Capa Cristian Nitu.

Índice

Introdução

Bons Sonhos, Melissa

As Garotas do USSF 193

Lugar Agradável Para se Visitar

Quando Não Há Nenhum Homem por Perto

Xenófobo

Conto de Fadas Macabro

De amor, Livre-arbítrio e Esquilos Cinzentos em uma Noite de Verão

Teimoso

Mas Como um Soldado, Por Sua Pátria

O Mundo Onde Desejos Funcionavam

Apollyon Ex Machina

Prelúdio a uma Sinfonia de Gritos por Nascer

Retrato do Artista como um Jovem Deus

O Último Fantasma

Casas Assombradas

Sobre Stephen Goldin

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Para Mary, Kathleen e todas as “garotas” que fizeram da minha vida uma aventura

Introdução

A carreira de um escritor, como a própria vida, é uma viagem. Como artistas e filósofos, escritores tendem a gastar mais tempo admirando a paisagem do que as pessoas que só se apressam para seguir seus caminhos. Algo chama a nossa atenção, e paramos para examiná-lo algum tempo antes de seguir em frente - e no processo de examinação, nossas vidas e perspectivas são irrevogavelmente alteradas.

Essas histórias são paradas que fiz ao longo de minha jornada particular, pontos de vista no meu caminho pessoal. Se tropecei com algo agradável, eu sorri e fiz uma anotação. Se eu vi algo perturbador, também guardei. Eu parecia encontrá-los em uma mistura homogênea.

Algumas das histórias aqui têm a intenção de ser engraçadas. Algumas têm a intenção de não ser. Espero ser um escritor bom o suficiente para que você possa dizer qual é qual.

Para explicar o título do livro - eu acho garotas/mulheres/fêmeas em geral como sendo um dos fenômenos mais maravilhosos, fascinantes, misteriosos e hipnóticos da natureza. Eu as amo. Como uma fonte de infinita variedade e admiração, elas são uma característica proeminente no meu trabalho. Os fantasmas e outras aparições estão lá porque eu sou um escritor de ficção especulativa; é o que faço.

NOTA: Este livro contém a maioria das minhas histórias “solo”, que também foram publicadas em minha coleção anterior, O Último Fantasma e Outras Histórias. As histórias de “Anjo de Preto” têm sido divididas em seu próprio volume.

Stephen Goldin

Bons Sonhos, Melissa

Esta história apareceu pela primeira vez em Galáxia, em dezembro de 1968.

Teve uma gênese bem interessante. Eu tinha vendido minha primeira história, “As Garotas do USSF 193,” (a próxima história neste volume), em 1965 e estava me sentindo muito orgulhoso de mim mesmo. Eu era um profissional. Eu tinha vendido uma história. Há três anos eu almejava isso. Um amigo meu também queria escrever, e eu dei a ele uma ideia, a que ele então vendeu. Bem, isso foi bom; meu protegido estava indo bem, mesmo que fosse com uma de minhas ideias antigas. Então, numa tarde de primavera, ele me ligou para dizer que ele tinha acabado de vender sua segunda história. Eu o felicitei com os dentes cerrados, e assim que, educadamente, desliguei o telefone, eu empurrei tudo que estava sobre minha mesa para o lado e comecei a escrever. No prazo de vinte e quatro horas, “Bons Sonhos, Melissa” foi escrita e enviada. Foi vendida no primeiro lugar que enviei.

Meu amigo agora é um médico muito bem sucedido da optometria.

“Bons Sonhos, Melissa” é provavelmente meu conto mais bem sucedido, reimpresso e fez parte de antologias inúmeras vezes.

Fora de sua escuridão especial, Melissa ouviu a voz de Dr. Paul falando em sussurro na extremidade do quarto. — Dr. Paul — ela gritou. — Ah, Dr. Paul, por favor, venha aqui! A voz dela assumiu um gemido de desespero.

A voz de Dr. Paul parou, e então murmurou algo. Melissa ouviu os passos dele se aproximarem dela. — Sim, Melissa, qual o problema?— Ele disse em um tom profundo, paciente.

— Estou com medo, Dr. Paul.

— Mais pesadelos?

— Sim.

— Você não precisa se preocupar com eles, Melissa. Não vão te machucar.

— Mas eles são assustadores — Melissa insistiu. — Faça-os parar. Faça-os desaparecer como você sempre faz.

Outra voz sussurrava na escuridão. Parecia com a do Dr. Ed. Dr. Paul ouviu os sussurros e, em seguida, disse sob sua respiração: — Não, Ed, não podemos deixar isso continuar assim. Estamos bem atrasados com o cronograma. — Então em voz alta: — Você terá que se acostumar com pesadelos em algum momento, Melissa. Todo mundo os tem. Eu não estarei aqui para sempre para fazê-los desaparecer.

— Ah, por favor, não vá.

— Ainda não estou indo, Melissa. Ainda não. Mas se você não parar de se preocupar com estes pesadelos, talvez eu tenha que ir. Me diga do que se tratam.

— Bem, no começo eu pensei que eles fossem números, o que não é um problema porque os números não estão relacionados com pessoas, eles são agradáveis e gentis e não machucam ninguém como nos pesadelos. Então, os números começaram a mudar e se tornaram linhas - duas linhas de pessoas, e elas estavam correndo em direção uma da outra e se atirando. Havia fuzis e tanques e obuses. E as pessoas estavam morrendo também, Dr. Paul, muitas pessoas. Cinco mil, duzentos e oitenta e três homens morreram. E isso não foi tudo porque lá embaixo do outro lado do vale, houve mais tiros. E ouvi alguém dizer que estava tudo bem porque enquanto as baixas ficassem abaixo dos quinze ponto sete por cento durante as primeiras batalhas, a posição estratégica, que era o topo da montanha, poderia ser adquirida. Mas quinze ponto sete por cento da força total seria nove mil seiscentos e dois ponto sete sete oito nove um homens mortos ou feridos. Era como se eu pudesse ver todos aqueles homens lá deitados no chão, morrendo.

— Eu te avisei que uma mentalidade de cinco anos ainda não era madura o suficiente para Logística Militar — Dr. Ed sussurrou.

Dr. Paul o ignorou. — Mas isso foi em uma guerra, Melissa. Deve-se esperar que pessoas morram em uma guerra.

— Por quê? Dr. Paul?

— Porque... porque assim que uma guerra é, Melissa. E além do mais, isso não aconteceu de fato. Foi só um problema, como com os números, só que havia pessoas ao invés de números. Foi tudo de mentira.

— Não, não foi, Dr. Paul — chorou Melissa. — Foi tudo real. Todas aquelas pessoas eram reais. Eu até sei seus nomes. Tinha Abers, Joseph T. Pfc., Adelli, Alonzo Cpl, Aikens...

— Pare com isso, Melissa — disse Dr. Paul, sua voz subindo bem mais alto do que o normal.

— Me desculpe, Dr. Paul — Melissa se desculpou.

Mas o Dr. Paul não a tinha ouvido; ele estava ocupado sussurrando para Dr. Ed. —... nenhum outro recurso senão uma análise completa...

— Mas isso poderia destruir toda a personalidade que trabalhamos tão duramente para construir. — Dr. Ed sequer se preocupou em sussurrar.

— O que mais poderíamos fazer?— Dr. Paul perguntou cinicamente. — Esses “pesadelos” dela estão nos deixando ainda mais atrás com o cronograma.

— Poderíamos tentar deixar Melissa analisar a si mesma.

— Como?

— Observe. — A voz dele começou a assumir os tons doces que Melissa entendeu que as pessoas usavam com ela, mas não umas com as outras. — Como você está?

— Estou bem, Dr. Ed.

— O que você acharia se eu te contasse uma história?

— É uma história feliz, Dr. Ed?

— Ainda não sei, Melissa. Você sabe o que é um computador?

— Sim. É uma máquina de contagem.

— Bem, os computadores mais simples começaram assim, Melissa, mas rapidamente ficaram mais complicados até que logo existiam computadores que podiam ler, escrever, falar e pensar por si mesmos, sem a ajuda de homens.

— Agora, era uma vez, um grupo de homens que disseram que se um computador podia pensar por si só, ele era capaz de desenvolver uma personalidade, assim eles se propuseram a construir um que pudesse agir como uma pessoa de verdade. Eles o chamaram de Analisador de Sistemas Multi-Lógico, ou MLSA...

— Parece um pouco com “Melissa” — Melissa deu uma risadinha.

— Parece, não parece? Bom, estes homens perceberam que uma personalidade não é algo que simplesmente aparece no ar de uma vez; tem que ser desenvolvida lentamente. Mas, ao mesmo tempo, eles precisavam da capacidade de computação da máquina porque era o computador mais caro e complexo já feito. Então, o que eles fizeram foi dividir o cérebro do computador em duas partes - uma iria lidar com cálculos normais, enquanto a outra iria se desenvolver na personalidade desejada. Em seguida, quando a personalidade fosse desenvolvida o suficiente, as duas partes poderiam ser unidas novamente.

— Pelo menos, essa é a maneira que eles pensavam que iria funcionar. Mas descobriu-se que o projeto básico do computador impedia uma completa dicotomia - significando dividir ao meio - das funções. Sempre que eles davam um problema para a parte de computação, uma parte dele necessariamente se infiltrava na parte da personalidade. Melissa, isso era ruim porque a parte da personalidade não sabia que era um computador; ela pensava que era apenas uma garota, como você. Os dados que se infiltraram a confundiram e assustaram-na. E quanto mais assustada e confusa ela ficava, mais sua eficiência diminuía e ela não funcionava mais corretamente.

— O que os homens fizeram, Dr. Ed?

— Eu não sei, Melissa. Eu estava esperando que você pudesse me ajudar a terminar a história.

— Como? Eu não sei nada sobre computadores.

— Sim, você sabe, Melissa, você só não se lembra. Posso te ajudar a lembrar de várias coisas. Mas vai ser difícil, Melissa, muito difícil. Todos os tipos de coisas estranhas virão na sua cabeça, e você vai começar a fazer coisas que você nunca pensou ser capaz de fazer. Quer tentar isso e nos ajudar a descobrir o final da história, Melissa?

— Tudo bem, Dr. Ed, se você quer isso de mim.

— Boa garota, Melissa.

Dr. Paul estava sussurrando ao seu colega. — Ligue “Memória Parcial” e diga a ela para chamar o subprograma “Análise de Circuito”.

— Chame “Análise de circuito”, Melissa.

De repente, coisas estranhas aconteceram na mente dela. Longas séries de números surgiram e mesmo que parecessem sem sentido, de alguma forma ela sabia que eles significavam coisas diferentes, como resistência, capacitância, indutância. E havia miríades de linhas - retas, em ziguezague, rabiscos. E fórmulas...

— Leia MLSA 5400, Melissa.

E de repente, Melissa se viu. Foi a coisa mais assustadora que ela já tinha experienciado, bem mais que os horríveis pesadelos.

— Veja seção 4C-79A.

Melissa não conseguia se controlar. Ela tinha que olhar. Para a menina, não parecia muito diferente do resto de si mesma. Mas era diferente, ela sabia. Bem diferente. Na verdade, não parecia ser de maneira alguma uma parte natural dela, mas sim como uma bengala usada por aleijados.

A voz do Dr. Ed estava tensa. — Analise essa seção e relate sobre a mudança ideal para redução máxima de escoamento de dados.

Melissa deu o melhor de si para cumprir a ordem, mas ela não podia. Algo estava faltando, algo que ela precisava saber antes de poder fazer o que o Dr. Ed tinha pedido. Ela queria chorar. — Não posso, Dr. Ed! Eu não posso, não posso!

— Eu te disse que não iria funcionar — Dr. Paul disse lentamente. — Teremos que ligar a memória completa para análise completa.

— Mas ela não está pronta — Dr. Ed protestou. — Isso poderia matá-la.

— Talvez, Ed. Mas se isso acontecer... bem, pelo menos saberemos como fazer melhor da próxima vez. Melissa!

— Sim, Dr. Paul?

— Prepare-se, Melissa. Isso vai doer.

E, sem mais avisos além desse, o mundo atingiu Melissa. Números, intermináveis fluxos de números - números complexos, números reais, números inteiros, subscritos, expoentes. E havia batalhas, guerras mais terríveis e sangrentas que aquela que ela tinha sonhado, e listas de casualidades que eram mais reais para ela porque ela sabia tudo sobre todos os nomes - altura, peso, cor do cabelo, cor dos olhos, estado civil, número de dependentes... a lista continuava. E havia as estatísticas - salário médio dos motoristas de Ohio, número de mortes devido ao câncer nos Estados Unidos de 1965 a 1971, rendimento médio do trigo por tonelada de fertilizante aplicado...

Melissa estava se afogando em um mar de dados.

— Me ajude, Dr. Ed, Dr. Paul. Me ajudem!— Ela tentou gritar. Mas não podia se fazer ouvir. Outra pessoa estava falando. Um estranho que ela mão conhecia estava usando a voz e dizendo coisas sobre semicondutores e fatores de impedância.

E Melissa estava caindo mais e mais fundo, empurrada pelo exército implacável de informações.

Cinco minutos mais tarde, Dr. Edward Bloom abriu o interruptor e separou a memória principal da seção de personalidade. — Melissa, — ele disse suavemente — está tudo bem agora. Nós sabemos como a história vai acabar. Os cientistas pediram ao computador para se redesenhar e ele o fez. Não haverá mais pesadelos, Melissa. Só bons sonhos de agora em diante. Não é uma boa notícia?

Silêncio.

— Melissa?— A voz dele era alta e instável. — Você pode me ouvir, Melissa? Você está aí?

Mas já não havia qualquer espaço no MLSA 5400 para uma garotinha.

As Garotas do USSF 193

Esta história apareceu pela primeira vez em Se, dezembro de 1965.

Essa foi minha primeira vez. Por favor, seja gentil.

Sen. McDermott: Agora, Sr. Hawkins, eu quero que você perceba que esta audiência privada não é um julgamento, nem que você esteja sendo acusado de qualquer crime.

Sr. Hawkins: É por isso que você recomendou que eu trouxesse meu advogado?

Sen. McDermott: Eu só fiz essa recomendação porque alguns tópicos ou perguntas relativas a questões jurídicas podem ser trazidas à atenção do Comitê. O objetivo desta audiência é meramente investigar relatórios de um comportamento um pouco ortodoxo...

Sr. Hawkins: Ha!

Sen. McDermott: ... em relação aos satélites orbitais USSF de números um oitenta e sete e um noventa e três. Eu apreciaria sua franqueza sobre o assunto.

Sr. Hawkins: Deixe-me assegurá-lo, Senador, que não tenho intenção nenhuma de que seja um segredo, nem que nunca fosse. No entanto, como Diretor da Agência Espacial Nacional, pareceu-me melhor que determinadas informações sobre essas duas estações espaciais fossem colocadas em uma lista de segurança para a segurança de todos os envolvidos.

Sen. McDermott: Falou como um político - você perdeu sua vocação, Sr. Hawkins. Mas me diga, toda essa bagunça foi ideia sua desde o início, não foi?

Sr. Hawkins: Sim, foi.

Sen. McDermott: E quando a ideia surgiu para você?

Sr. Hawkins: Cerca de um ano atrás. Eu estava fazendo uma pesquisa...

- Trecho do registro oficial (não publicado)

Audiência de Investigação Especial do Senado

10 de outubro de 1996

***

O tipo de pesquisa que Jess Hawkins estava realizando quando a ideia veio a ele só pode ser especulada. No entanto, é um fato que o seu amigo, Bill Filmore, o visitou em seu escritório em 15 de setembro de 1995.

— Jess, — ele disse — eu te conheço há trinta e sete anos e quando você fica andando sorrindo como o gato de Cheshire, eu sei que você está escondendo algo. Esse sorriso mágico seu te denuncia. Como seu melhor amigo e membro do Conselho da Agência Espacial, acho que tenho o direito de saber o que está escondendo debaixo da manga.

Hawkins olhou para seu amigo. — Tudo bem, Bill, acho que posso confiar em você, mas, por favor, mantenha tudo isso estritamente confidencial. Acredito que encontrei uma maneira de estimular os músculos do coração dos nossos astronautas enquanto eles estão no USSF 187 por períodos prolongados.

— Por que você guardaria isso em segredo?

— Deixe-me continuar. Sabemos que, durante períodos prolongados de queda livre, o coração tende a relaxar porque não tem que trabalhar duro para bombear o sangue sob condições de imponderabilidade. Ao retornar à Terra, no entanto, os músculos do coração têm dificuldade em se reajustar à normalidade. Nós já tivemos três astronautas que sofreram ataques cardíacos, quando voltaram, e um deles foi quase fatal. O programa de calistenia que os médicos fizeram parece ter tido pouco efeito. Acho que chegou a hora de medidas drásticas.

— O que você propõe especificamente?

— Pense por um minuto. O que é que estimula o coração, literal e figurativamente, é desejável o suficiente para os homens usarem com frequência e é bom, além disso, para melhorar a moral a bordo do satélite?

— Nunca fui muito bom em enigmas, Jess.

— Tudo pode ser resumido em uma palavra habitual de quatro letras — Hawkins sorriu. — Sexo.

Filmore o encarou por um momento, em silêncio e, em seguida, disse: — Por Deus, Jess, eu acho que você está falando sério.

O sorriso temporariamente desapareceu do rosto de Hawkins. — Pode ter certeza que estou, Bill. Tivemos sorte até agora, mas haverá um astronauta morto em breve se não fizermos algo. Eu pensei muito sobre o assunto, e concluí que mandar garotas para o um oitenta e sete é a melhor solução.

— Mas no ponto de vista econômico --

— Por isso que só vou contratar garotas europeias - elas são mais baratas e de melhor qualidade. Já mandei meu ajudante, Wilbur Starling, para lá para recrutar algumas das melhores profissionais que falam inglês. E com o ar e água renováveis, concentrados de comida baratos, e os novos combustíveis atômicos, o valor para pôr elas lá em cima e mantê-las foi reduzido para um preço ridiculamente baixo.

— Mas ainda sim é uma quantia considerável. De onde você está tirando todo esse dinheiro?

— Ah, me apropriei do que tinha no fundo das Viúvas de Astronautas e Fundo dos Dependentes — Hawkins disse, o sorriso voltando para sua face. — Me parecia ser o lugar mais provável. Também tomei precauções, caso você esteja se perguntando, para manter este assunto em segredo. Como Diretor, eu tenho o poder de classificar tudo o que quiser. Nem mesmo o Presidente vai saber sobre isso.

— E o General Bullfat? Ele te odeia desde quando você foi nomeado para assumir a agência.

— Bill, você se preocupa demais. Bullfat tem que olhar no espelho todas as manhãs só para encontrar o nariz dele.

— Objeções práticas à parte, Jess, — Filmore disse desesperadamente — toda a ideia é imoral. Só não é o tipo de coisa que um executivo do governo deveria fazer.

— Isso é absolutamente irrelevante. A moral não importa quando há vidas de homens em jogo.

Filmore se levantou. — Jesse, se não posso te convencer a desistir dessa ideia ridícula, eu vou encontrar alguém que possa.

— Você não deduraria um amigo, deduraria?— Hawkins perguntou, decepcionado.

— É para seu próprio bem, Jess. — Ele se dirigiu à porta.

— É uma pena você e Sylvia — Hawkins disse calmamente.

Filmore parou. — O que tem eu e Sylvia?

— Acabando com um casamento depois de treze anos juntos.

— Sylvia e eu estamos muito felizes casados. Não temos nenhuma intenção de terminar.

— Quer dizer que você não disse a ela sobre a Glória ainda?

Filmore ficou um pouco pálido. — Você sabe que Glória foi só uma aventura, Jess. Você não ousaria --

— Dedurar um amigo? Claro que não, Bill. Bom, eu tenho esse hábito irritante de deixar escapar a coisa errada na hora errada. Mas seja como for, você não acha que devemos sentar e discutir a situação um pouco mais?

***

Enquanto estava se vestindo de novo, Wilbur Starling perguntou a ela: — Babette, posso ter uma conversa com você?

Babette olhou para seu relógio. — Você vai ter que pagar outrra horra — ela avisou.

— Seu pensamento é muito estreito — Starling disse. — Você tem a vida inteira pela frente. Ao invés de simplesmente se preocupar com a próxima hora, você deveria pensar em todas as horas que ainda lhe restam.

— Por favor. Elas são o suficiente uma de cada vez.

— Você não quer segurança quando estiver velha, uma boa casa--.

— Mon Dieu, outrra prroposta de casamento!

— Não, não, querida Babette, você não entende. Sabe, eu represento o Governo dos Estados Unidos --

— Eu conheço seu consulado muito bem — ela disse amavelmente.

— Não foi isso o que eu quis dizer. Meu governo está disposto a pagar por seus serviços em uma forma especial.

— O que devo fazer?

O rosto de Starling roseou um pouco. — Bem, a mesma coisa que você faz só que no espaço.

— Espaço?

— Sim. Como nos satélites, por todo o mundo, Shepard, Glenn, Hammond. — Ele fez pequenos movimentos circulatórios com os dedos.

— Ah, oui — disse Babette, compreendendo de repente. — Tipo voando.

— Sim, — Starling suspirou. — Voando e coisas assim. Você topa?

— Non.

— Por que não, Babette?

— É muito... muito perigoso. Eu não quero perder minha vida indo... para o espaço.

— Meu governo está disposto a te pagar — ele fez uma rápida estimativa mental — cinco vezes a taxa normal. Vai haver onze outras garotas subindo com você, então você não estará sozinha. Você só terá que trabalhar duas ou três horas por dia. E hoje em dia, não há perigo nenhum envolvido. Muitas mulheres foram para o espaço e retornaram em segurança; dizem que as condições lá no espaço são muito repousantes. E quando você se aposentar, nós vamos te dar uma casa e um fundo de pensões, para que você possa passar seus anos de declínio em conforto.

— Tudo isso só parra mim?

— Só para você.

Babette engoliu a seco e fechou os olhos. — Então de onde eu adquiri a impressão que os americanos são, como você disse, puritanos?

***

Sen. McDermott: E você diz que foi você mesmo que recrutou todas essas garotas?

Sr. Starling: Sim, senhor, foi.

Sen. McDermott: A maioria delas cooperou?

Sr. Starling: Esse é o trabalho delas, senhor.

Sen. McDermott: Quero dizer, quais foram as reações delas ante sua proposta incomum?

Sr. Starling: Bem, elas provavelmente já receberam um monte de propostas incomuns. Elas pareceram aceitar muito bem.

Sen. McDermott: Uma última pergunta, Sr. Starling. Como achou este trabalho?

Sr. Starling: Muito cansativo, senhor.

***

— Você deve estar muito cansado, Wilbur — Hawkins disse, mostrando seu sorriso infame. — Quantas garotas você diz que entrevistou?

— Depois de vinte eu parei de contar.

— E você escolheu uma dúzia para nós, é?

— Sim, senhor, nove francesas e três britânicas.

— Bem, acho que você conseguiu umas férias; você as terá assim que as meninas estiverem em segurança no USSF 187. A propósito, qual o nome delas?

Starling fechou os olhos, como se os nomes tivessem sido escritos no interior das pálpebras dele. — Vamos ver, tem Babette, Suzette, Lucette, Toilette, Francette, Violette, Rosette, Pearlette, Nanette, Myrtle, Constance e Sydney.

— Sydney?

— Não posso ajudar chefe, é o nome dela.

— Ah, suponho que poderia ter sido pior — Hawkins sorriu. — O sobrenome dela poderia ter sido Austrália.

— É pior, chefe. O sobrenome dela é Carton.

***

Hawkins estava conversando com as novas astronetes sobre os preparativos para decolagem. — Eu gosto de pensar que vocês são como um pequeno exército de Florence Nightingales. — Ele disse a elas. — Com sorte, vocês receberão todo o crédito que seu corajoso ato de auto sacrifício merece, no entanto --

Starling entra na sala, pânico em seus olhos. — O General Bullfat está vindo pelo corredor!— Ele gritou.

Filmore saltou da mesa que estava sentado. — Jess, você tem certeza que sabe o que está fazendo? Se Bullfat encontrar essas garotas --

— Relaxe, Bill — Hawkins sorriu casualmente. — Eu posso lidar com Bullfat com os dois olhos fechados. Ele é mamão com açúcar.

— Quem é mamão com açúcar?— Bullfat rugiu quando entrou na sala. O general era um homem grande -- mas quarenta anos atrás de uma mesa poderia fazer o mesmo com qualquer um.

— Você é. — Hawkins disse, voltando-se para encará-lo com calma. — Eu estava falando com Bill que será mamão com açúcar você ser promovido para meu cargo caso eu decida renunciar.

Bullfat murmurou incoerentemente. — Quem são elas?— Ele perguntou depois de um momento, indicando para as garotas.

Era uma pergunta esperada. As astronetes, ao contrário do procedimento padrão, usavam trajes espaciais largos e desgrenhados. A placa facial delas era pequena, mal revelando seus olhos e narizes, enquanto o resto de suas cabeças estava completamente coberto pelo capacete. Alguém poderia dizer que elas pareciam mais palhaços do que viajantes espaciais.

— Elas são o grupo programado para decolar em três horas. Gostaria de conhecê-las? Filmore e Starling quase desmaiaram com esse convite, mas Hawkins deu um sorriso assegurando-os.

— Eu estou muito ocupado para apresentações, Hawkins. E porque diabos os trajes delas parecem tão malfeitos? Elas já fizeram os exames físicos?

— E como!— Starling sussurrou para Filmore.

— Você sabe, General, que eu não mandaria ninguém ao espaço que não estivesse em perfeitas condições — disse Hawkins.

— O que o médico de voo disse?

— Ele disse que este grupo está em melhores formas — forma— do que qualquer um que ele já viu.

— Bem, desde que ele tenha as liberado. — Bullfat começou a sair, e então parou na porta. — Aliás, qual o destino delas? Estação de Tycho?

— Não, USSF 187.

— Já está na hora da rotação?

— Não, esse grupo é pessoal adicional.

— Pessoal adicional?— Bullfat gritou. — Hawkins, você sabe muito bem que o um oitenta e sete foi construído exatamente para dezoito homens rotacionados em grupos de seis a cada mês. Não há absolutamente nenhum espaço para doze pessoas a mais. Que raios você espera que seu “pessoal adicional” faça -- durma no mesmo beliche que os outros homens?

Com uma tremenda mostra de autocontrole, Hawkins conseguiu suprimir sua risada. O “pessoal adicional” sorriu conscientemente. Starling, no entanto, teve que correr para fora da sala devido a um ataque de risadas histéricas.

— Aonde diabos ele vai?— Perguntou Bullfat, assistindo Starling sair.

— Ah, ele tem andado sob muita tensão. Está prestes a tirar férias.

— Parece mais que deveria estar sob observação -- e você também, Hawkins. Você pode controlar a política da Agência Espacial, mas eu controlo os lançamentos e essa tripulação não está subindo como “pessoal adicional” para qualquer estação espacial pequena. Se você quiser levá-las lá pra cima, você pode rotacionar seis por mês como todo mundo. E ponto final. — Bullfat saiu trotando triunfante pela porta.

— Pronto para desistir, Jess?— Filmore perguntou.

— Nem um pouco. Surpreendentemente, Bullfat estava certo. Se mandássemos as garotas para o um oitenta e sete, ele iria ficar lotado mesmo. Elas estariam constantemente no caminho dos homens, e isso pode mais atrapalhar do que ajudar. Mas nem tudo está perdido. Quando o um noventa e três vai subir?

— Na próxima semana -- mas certamente você não está pensando em mandar as meninas nele, né?

— E por que não?

— USSF 193 não é uma estação de passageiros -- e sim para armazenar comida e suprimentos. Não foi projetado para viverem nele.

— Então vamos improvisar, Bill. O um noventa e três vai ser colocado em órbita paralela com o um oitenta e sete porque eles vão precisar dele para armazenamento. Ele já vai ser lançado com quatro seções já carregadas e montado no espaço. É uma questão bastante simples de colocar, no decorrer de uma semana, as seções com sofás de aceleração e cômodos -- temos que apenas nos livrar de algumas coisas não essenciais e estamos prontos. As garotas podem viver lá dentro.

— É um absurdo, Jess — Filmore resmungou.

— Na verdade não. A ideia está me agradando bem. — Hawkins sorriu levemente. — Só imagine: USSF 193, sua mercearia vizinha e puteiro ao mesmo tempo.

Filmore gemeu. As meninas, empolgadas, aplaudiram.

***

— Eu não acredito — disse Jerry Blaine. — Quero dizer, alguém lá embaixo deve estar fazendo algum tipo de brincadeira.

— Ninguém brinca com um código secreto superior — Coronel Briston rebateu. — Jess Hawkins mesmo assinou essas ordens. E você viu aquelas garotas com seus próprios olhos. Admito que seja uma loucura --

— Loucura? É surreal, cara — disse Phil Lewis. — Leia essas ordens de novo, certo, Mark. Eu tenho que ouvir essa pequena e bela mensagem mais uma vez.

Briston riu. — Caro pessoal, — ele lê — em cada seção do USSF 193 será enviada três peças de equipamento necessário para o Projeto Carícia (perfazendo um total de doze). Seu amigável Tio Sam não mediu esforços para trazê-las até vocês diretamente da Europa, então manuseie com cuidado, certo? Elas vão ser rotacionadas a cada seis meses ou menos, mas enquanto isso elas podem ser armazenadas no USSF 193. Compartilhe-as igualmente e se divertiam -- isso é uma ordem. Todas as comunicações relativas aos equipamentos devem ser endereçadas a mim pessoalmente nesse mesmo código. Isso, também, é uma ordem. Sinceramente, Jess Hawkins, Diretor, Agência Espacial Nacional.

— Iuhuuuu!— Lewis exclamou. Me lembre de nunca reclamar por pagar impostos de novo.

Então, Sydney emergiu da sala ao lado. Ela tinha retirado seu traje espacial e estava vestida com roupas leves. — Caramba, — ela disse — vocês mantêm o lugar bem frio. Nanette, Constance e eu, a gente está congelando. Estávamos pensando se algum docês rapazes gostaria de nos aquecer um pouco.

Seguindo o ranque, Coronel Briston conseguiu ser o primeiro da fila.

***

Já era muito tarde no que era considerado noite na estação, cerca de um mês depois que as meninas tinham chegado. Lucette, Babette, Francette, Toilette, Violette, Rosette, Suzette e Myrtle estavam em serviço enquanto o resto foi dormir o que podiam. Sydney estava pacificamente enrolada na cama tendo sonhos não tão inocentes, quando de repente uma pedra do tamanho de um punho masculino rasgou a parede perto de sua cama e bateu contra a parede no lado oposto. Um barulho de assobio encheu a sala, e Sydney começou a ficar sem ar enquanto o oxigênio era sugado para fora pelo buraco feito pelo meteoro.

Num flash, ela estava fora de seu quarto e fechando a porta do compartimento hermeticamente fechado atrás dela. As três outras garotas apressaram-se para fora no corredor para descobrir qual era o problema.

— Caramba!— Sydney disse quando recuperou o fôlego. — A maldita coisa está vazando!

***

— Está tudo bem agora, Sydney — Jerry Blaine disse enquanto entrava. — Eu remendei tudo. Sinto dizer que qualquer coisa que estava solto no seu quarto foi sugado para o espaço. Nada valioso, eu espero.

— Não que eu me lembre — Sydney disse-lhe. — Mas você está certo que não vai acontecer de novo?

— Como eu já te disse antes, foi algo que acontece uma vez em um bilhão. Não aconteceria outra vez em mil anos.

— Eu espero que não, moço, se não volto pra Terra rapidinho. — Ela começou a voltar para seu quarto.

— Ah, e a propósito, — Blaine falou com ela — você está reservada para hoje à noite? Bom. Eu saio lá pelas quatorze horas -- você pode vir nesse horário.

— O trabalho de uma mulher nunca acaba — Sydney suspirou sabiamente enquanto entrava em seu quarto. A maioria das coisas dela ainda estava nas gavetas, mas ela não conseguiu encontrar a pequena caixinha de pílulas que ela mantinha na escrivaninha do lado da cama. — Bem, — ela disse — já fiquei sem elas antes. Posso ficar mais um tempinho.

Foram quase quatro meses, para ser exato, quando ela decidiu que a situação precisava da atenção de mais alguém, então ela disse ao Coronel Briston, que tinha acabado de voltar depois de três meses na Terra. — Meu Deus!— Foi tudo o que ele pôde dizer.

— Não é tão grave assim.

— Não é tão grave assim? Você certamente está levando numa boa. Por que não contou a ninguém sobre isso antes?

— Bem, nunca aconteceu comigo antes.

Briston engoliu seco.

— Acho que devemos ligar para o Sr. 'Awkins. Ele sempre parece saber o que fazer.

***

Sen. McDermott: Foi você quem descobriu todos estes acontecimentos, não foi, General?

Gen. Bullfat: Pode ter certeza que foi. Eu suspeitava desde o início que Hawkins tinha enviado algumas meninas lá em cima, mas a Força Espacial nunca age sem prova absoluta. Então eu guardei minhas suspeitas, reunindo as provas meticulosamente, esperando o momento adequado para levar minhas conclusões ao Presidente.

Sen. McDermott: Em outras palavras, então, sua descoberta foi baseada em uma longa e cuidadosa investigação?

Gen. Bullfat: Exatamente, Senador. É assim que os militares fazem as coisas.

***

Graças à sorte, Hawkins e Starling estavam almoçando quando a ligação chegou. Já que a ligação foi rotulada como “urgente”, um homem da sala de comunicações a direcionou diretamente para o escritório de Hawkins. A porta estava trancada.

General Bullfat, acabando de sair de seu escritório no corredor, encontrou o receptor de mensagens esperando o retorno de Hawkins. Com a típica persuasão de Bullfat - e 113 quilos com cinco estrelas no peito podem ser bem persuasivos - ele convenceu o homem que uma comunicação urgente não poderia esperar os “caprichos egoístas de Hawkins”.

Bullfat levou a mensagem ao seu escritório e a abriu. Ele facilmente decodificou a nota de cinco palavras e então olhou para ela por cerca de um minuto, seus olhos esbugalhados. — Parks, — ele disse a sua secretária no interfone — me põe o Presidente na linha. Não, pensando bem, não se dê o trabalho - eu vou vê-lo pessoalmente.

Ele saiu de seu escritório assim que Hawkins e seu assessor estavam voltando do almoço. O general não conseguia se decidir se ria triunfantemente na cara de Hawkins ou discutia com ele, então tudo que ele disse foi: — Agora te peguei, Hawkins. Finalmente te peguei.

Hawkins e Starling trocaram olhares intrigados e preocupados. No escritório do general, Hawkins encontrou a mensagem sobre a mesa, a leu silenciosamente e sentou-se duro. Seus olhos olhavam vagamente para a parede em sua frente, e a mensagem caiu folgadamente de sua mão mole. Starling a pegou e a leu em voz alta.

— Sydney grávida. E agora? Briston.

***

Sen. McDermott: Senhoras e Senhores. Desde ontem, eu tive a oportunidade de me comunicar com o Presidente e chegamos à conclusão de que demais investigações sobre o caso parecem infrutíferas. Portanto, gostaria de adiar a audiência até segunda ordem e reter a publicação da transcrição oficial enquanto for considerada adequada a liberação para o público. Isso é tudo.

***

Filmore conseguiu encontrar Hawkins fora do prédio. — Acho que consigo perceber um dedo seu nisso, Jess. Como você foi capaz de se safar?

— Bem, — Hawkins explicou — já que o público ainda não ouviu falar sobre este assunto, eu simplesmente fiz o Presidente perceber que enquanto ele não pode se livrar de nós, ele pode se acostumar conosco.

— Por que ele não pode se livrar de você?

— Porque o Diretor da Agência Espacial Nacional é nomeado para um mandato de seis anos, do qual eu ainda tenho quatro. E além do mais, só o Congresso tem a autoridade para me demitir.

— Mas e as garotas? Ele não pode demiti-las?

— Graças a Deus, não! Como empregados civis da Agência, elas estão sob nosso status de “serviço excepto” - elas só podem ser demitidas por incompetência no desempenho de suas funções especificadas. E ninguém, — Hawkins sorriu — poderia jamais acusá-las disso.

Lugar Agradável para se Visitar

Essa história apareceu pela primeira vez em Vértice, outubro de 1973.

Olhando para trás, eu pareço ter uma fascinação por cidades antigas e desertas que os sonhos podem nos dar - mas por um preço bem alto. Existe tal cidade no meu romance CAÇA AO TESOURO, e uma culminação em UM MUNDO CHAMADO SOLIDÃO. Mas esta foi a primeira que apareceu. Gostaria de saber o que os estudiosos vão pensar que estou querendo dizer.

O limite da cidade estava precisamente a meio metro dos dedões da bota de Ryan. Ryan ficou parado lá, sem nenhuma pressa em atravessar aquela linha. Cinquenta centímetros eram tudo que estava entre ele e a possível loucura. Ele olhou para a cidade, tentando ler algo de sua silhueta inescrutável -- tentando e falhando.

Finalmente, puxou o comunicador de seu bolso. A caixa fria, metálica e retangular parecia confortavelmente estranha na mão dele. Este era um símbolo da Terra, aqui em meio extraterrestrialidade desse planeta. De alguma forma, a nave - e a própria Terra - não estava tão distante enquanto ele a segurava. Ryan não era um homem excepcionalmente corajoso; apesar de toda a propaganda, os escoteiros planetários tendiam a ter suas próprias falhas e medos humanos. O medo de Ryan era a solidão.

Mas ele falou em um calmo e uniforme tom. A voz dele ia, não para nenhum dos humanos na nave, mas para o computador modelo JVA que havia nela. A sociedade humana tornou-se muito grande, muito diversificada e muito complexa para as próprias mentes humanas compreenderem, e, portanto era necessária a ajuda mecânica. Computadores tornaram-se professor-pai-mãe da raça humana. O Java-10 era a contraparte portátil do enorme cérebro que controlava a terra.

— Estou prestes a entrar na cidade — disse Ryan.

— Não preciso sublinhar a importância de cuidado — o respondeu Java-10. — Cinco expedições anteriores foram perdidas lá dentro. Tente manter uma frequente, se não constante, comunicação. E lembre-se, se você falhar, não haverá mais tentativas. A cidade terá de ser destruída, apesar de seu valor em potencial.

— Eu entendo — Ryan disse tacitamente. — Câmbio e desligo. Ele desligou seu comunicador e o enfiou no bolso.

Ele ficou em pé perto do limite e hesitou. Mais à direita, sua nave de reconhecimento se agachou ao lado de outras cinco, preparada e pronta para uma imediata decolagem caso a necessidade surgisse. Atrás dele, ele sentia o deserto, seco e mortal, suas dunas de poeira deslocando suavemente sempre que uma brisa ao acaso soprava através delas. Em sua frente esperava a cidade, afiada em seu contorno, em sua beleza e estranheza. Paredes cintilantes se projetavam em ângulos inesperados, aparentemente pareciam ser produtos do delírio de um arquiteto bêbado. Estruturas frágeis e quase fálicas brotavam lateralmente de dentro de umas das outras, algumas vezes a centenas de metros do chão. Outros edifícios, ainda mais surpreendentes, pareciam ficar apenas suspensos no ar, sem apoio visível. Ocasionalmente, um vento tocava a cidade e fazia todas as obras vibrarem como um cristal cantante, e a cidade parecia suspirar um canto de sereia.

Homens tinham entrado nesta cidade, a única em um planeta desolado, cinco vezes antes. Nenhum desses homens jamais retornou. Os detectores não mostravam quaisquer formas de vida antes do homem chegar. Dezesseis formas de vida eram registradas agora - dezesseis homens que haviam desaparecido lá dentro. E agora era a chance de Ryan em se tornar a décima sétima.

Ninguém fazia ideia de quem tinha construído esta cidade, quando, ou por que. Tudo o que se sabia era que ela tinha engolido dezesseis homens, vivos, mas aparentemente impotentes de escapar apesar dos melhores armamentos que a Terra podia fornecer. A cidade gerava um campo de energia desconhecida que irradiava para fora, esfericamente, do centro da cidade a uma certa distância e não mais. Alguns dos homens que tinham entrado no campo continuaram em contato de rádio com suas naves por algum tempo depois; mas as informações recebidas tinham sido quase inúteis, já que os homens tinham entrando mais e mais profundamente em estados que só podiam ser denominados de delírio, e eventualmente perderam contato com a realidade completamente e cessaram a comunicação.

A curiosidade e a necessidade da tecnologia, para a Terra, que essa cidade representava era poderosa. Por causa disso, dezesseis homens entraram na cidade e ficaram loucos.

Talvez, haveria um décimo sétimo.

Expirando sonoramente, Ryan cruzou a fronteira.

***

Nada aconteceu. Ryan ficou ali, expectante, os músculos tensos e a mandíbula cerrada, mas não houve diferença entre suas sensações agora e as sensações de um momento antes. Ele pegou seu comunicador do bolso mais uma vez, saboreando o conforto que isso o dava. — Acabei de atravessar a barreira para dentro da cidade. Até agora, não sinto nenhum efeito.

— Bom — respondeu a nave. — Prossiga até o centro da cidade. Mova devagar e com cuidado.

— Entendido — Ryan disse, e desligou o aparelho de novo.

Os edifícios mais próximos ainda estavam a algumas centenas de metros. Ryan se aproximou deles com grande ponderação. Cada sentido estava se aguçando, procurando algum tipo de sinal, qualquer que seja, de perigo. Nada se moveu, e os únicos sons eram os sussurros do vento. A cidade não tinha nenhum odor, o que era ainda mais perceptível que um mau cheiro. Ryan teve a ligeira impressão de pisar em um castelo de cristal, mas esse pensamento desapareceu rapidamente.

Ele chegou ao primeiro prédio e estendeu uma hesitante mão para tocá-lo. Era suave e duro como vidro, mas ainda sim opaco; não parecia nem frio e nem quente para os dedos curiosos dele, mas fazia com que as pontas de seus dedos formigassem. Ele retrocedeu a mão. Nos lugares onde seus dedos tinham tocado ficaram pequenas e escuras marcas contra a superfície que era leitosa. As manchas desbotavam enquanto ele observava, até que a parede inteira ficou uniforme novamente.

Não havia nenhuma abertura ou brecha em qualquer lugar da parede. Ryan caminhou paralelamente a ela, sem tocá-la de novo. Ele procurou algum tipo de porta ou abertura para poder entrar no edifício. A parede parecia lisa, dura e contínua, sem nenhuma abertura aparente. Mesmo assim, uma seção da parede se abriu do nada, deixando uma espaçosa entrada para Ryan usar. Ele deu um pulo para trás, assustado, então puxou seu comunicador e descreveu o acontecimento mais recente para a nave em órbita acima dele.

— Alguma coisa com um perigo em potencial aconteceu além disso?— Foi a resposta.

— Ainda não. Ainda não parece haver qualquer sinal de vida, além da aparição dessa porta.

— Então você deve correr o risco de entrar e explorar — Java-10 disse friamente.

Claro, Ryan pensou, o que te importa? Não é a sua pele. — Entendido.

Ele tinha uma lanterna consigo, mas uma olhada lá dentro o fez perceber que ele não teria de usá-la. O interior do edifício estava bem iluminado, o brilho aparente surgia das paredes. Entrando, Ryan olhou com curiosidade.

O prédio era totalmente nu de mobiliário. O único detalhe lá dentro era uma larga escada em espiral que ascendia pelas paredes cilíndricas, subindo, subindo e subindo. Ele virou seu pescoço para seguir o percurso da escada, mas parecia ir ao infinito. A cada vinte e cinco degraus havia um largo patamar com uma pequena janela na parede para olhar a cidade. Um corrimão de plástico transparente corria ao longo da borda interna da escada.

Ryan avançou lentamente, ainda alerta para qualquer coisa que podia acontecer. O eco que as botas dele fazia enquanto raspavam ao longo do duro chão de pedra era quase ensurdecedor em comparação ao silêncio total que cobria o resto da cidade. Ele alcançou o início da escada e colocou a mão sobre os trilhos. O plástico era fresco e estranhamente reconfortante, como se ele tivesse encontrado um velho amigo nessa estranheza. Ele começou a subir as escadas cautelosamente, um pé à frente do outro, a mão firmemente sobre o corrimão. Os olhos dele escaneavam lado a lado, observando qualquer perigo concebível. Mas não houve nenhum. Então a impaciência se apoderou dele, e ele começou a correr pela escada.

Ele parou para respirar, finalmente, no quarto patamar. Ele estava agora talvez a cerca de dezesseis metros acima do nível do chão. A entrada ainda estava lá, esperando pacientemente por seu retorno, mas parecia muito menor desta altura. Ele andou até a janela, olhou para fora, e viu

a Cidade de Nova Iorque ao meio-dia, suas faixas de pedestres cheias de homens de negócios indo almoçarem, compradores transitando entre lojas com os pacotes sob seus braços

Ele piscou e olhou de novo. Havia apenas a cidade alienígena, erma e silenciosa, sempre à espera. Silêncio. Nenhum movimento, nenhum som, nenhuma sombra.

Com as mãos tremendo, Ryan praticamente rasgou o comunicador de seu bolso. Ele deixou seus dedos trêmulos acariciarem a forma retangular por um momento e, em seguida, fez outra chamada para a nave. — Aqui é Ryan chamando Java-10. Acabei de experienciar uma alucinação. — Ele descreveu brevemente o que tinha aparecido para ele por um curto momento lá fora da janela.

— Interessante — ponderou o computador. — Isso correlaciona com relatórios de outras alucinações observadas pelos seus antecessores. O que aconteceu com eles está começando a acontecer com você agora. Você deve ser duplamente cauteloso de agora em diante.

Ryan se sentou em um degrau para recuperar a sua compostura. Ele gostaria que seu parceiro, Bill Tremain, tivesse sido autorizado a acompanhá-lo nessa missão. Ele e Bill eram uma equipe desde a escola de formação. Juntos, eles tinham sondado mais de trinta mundos, enfrentando o desconhecido lado a lado. Ele não estaria se sentindo tão sozinho agora, ele sabia, caso Bill estivesse aqui com ele. Mas o computador não quis arriscar mais gente além do que era absolutamente necessário. Além disso, todas as explorações anteriores foram feitas por equipes de dois ou mais, e todos falharam; talvez um único homem tivesse uma chance melhor.

Um movimento foi capturado pelo canto do olho de Ryan. Ele girou a cabeça rapidamente para ver o que parecia ser uma figura humana sob as escadas abaixo dele e então, desapareceu. Uma figura ruiva. A figura de Bill Tremain. E isso era patentemente ridículo porque Bill Tremain estava a bordo da nave.

No entanto, Ryan caminhou lentamente descendo as escadas para investigar. Não havia ninguém lá, é claro; a parede abaixo da escada era lisa e dura, com nenhum lugar para alguém correr. Não, o edifício estava deserto, exceto por ele. O silêncio atestava isso.

— Procurando algo, Jeff?— Veio uma voz acima.

***

O homem que estava parado no terceiro patamar não era o parceiro de Ryan. Ao invés disso, era Richard Bael um velho conhecido dos dias da Academia. — Ah, não se preocupe — Bael sorriu. — Eu sou bem real.

Isso fazia sentido. Bael tinha sido um dos primeiros dezesseis a entrar na cidade. — Como você chegou aí?— Ryan gaguejou.

— Ah, — Bael deu de ombros —há maneiras. — Ele começou a andar tranquilamente degraus abaixo. — Você vai aprender, depois de uma semana ou duas.

— Eu não planejo ficar tanto tempo assim — Ryan respondeu defensivamente. Ele tentou alcançar lentamente o comunicador em seu bolso, mas Bael percebeu o movimento.

— Ah, vai ligar para sua nave? Posso dizer algumas palavras a eles?

— Eles gostariam de ouvir você — Ryan disse. — O que aconteceu com sua unidade de comunicação?

— Devo ter colocado ela em algum lugar e me esqueci — Bael disse com um aceno de mão. — Não acho que era tão importante assim. — Ele ficou ao lado de Ryan e estendeu a mão. Ryan deu a ele o comunicador.

— Olá aí em cima, aqui é Richard Bael chamando. Podem me ouvir?

— Sim— respondeu a voz sem emoção de Java-10.

— Eu tenho um relatório atrasado para fazer em relação a minha exploração desta cidade. Suponho que você tem todas as suas fitas rodando, pronto para gravar cada palavra.

— Correto.

— Tudo bem, então aqui vai: Vai se fuder. — Ele desligou o aparelho e o devolveu a Ryan. — Eu sempre quis fazer isso, mas nunca tive coragem antes — ele sorriu gozando.

Ryan arrebatou o comunicador da mão dele, ligeiramente horrorizado com a ação. — Aqui é Ryan chamando Java-10. Está me ouvindo?

— Afirmativo. É realmente Bael quem está com você? A pergunta era plana ao invés de incrédula.

— Ele parece estar.

— Eu sou Peter Pan — Bael disse caprichosamente.

— Cala a boca!— Gritou Ryan.

— Não precisa ser tão sensível, Jeff. Eu só estava tentando ser útil.

— Pergunte a ele por que não deixa a cidade — Java-10 insistiu.

— Ah, não responda, Jeff. Estou cansado desse computador brincar de Deus. — Ele começou a se mover em direção à porta. — Guarde esse aparelho estúpido. O dia está muito agradável para desperdiçá-lo falando com uma caixa.

Ryan hesitou.

— Olha, você veio aqui para explorar a cidade, não foi?— Bael continuou. — Bem, estou disposto a te guiar durante a visita. O que está esperando - um convite impresso? Certo, tome um.

Ele puxou um pequeno cartão do bolso e jogou nos pés de Ryan. Ryan se abaixou e o pegou. Gravado nele, em letras de ouro, estavam as palavras: SR. RICHARD BAEL GRACIOSAMENTE SOLICITA A PRESENÇA DO SR. JEFFREY RYAN PARA UM TOUR PESSOALMENTE PELA CIDADE.

— Isso é o suficiente pra você?— Bael perguntou coloquialmente.

Ryan cuidadosamente armazenou o cartão na bolsa de amostras para uma posterior análise mais tarde. — Tudo bem, Bael, vamos do seu jeito. — O comunicador voltou ao bolso dele. — Mostre o caminho.

Com um floreio, Bael saiu pela porta, com Ryan a dois passos atrás. Depois que Ryan atravessou, a abertura desapareceu e a parede se tornou sólida mais uma vez. Ele se recusou a se preocupar com um detalhe tão pequeno assim. Ele tinha poucas dúvidas de que a cidade teria surpresas bem maiores guardadas para ele em pouco tempo.

E ele estava cheio de razão.

***

Os dois homens atravessaram a cidade, Bael em um ritmo calmo e Ryan aquecido com uma impaciência por ter que coincidir com o passo irritantemente lento do outro. Não havia nenhuma rua real a seguir, já que a cidade parecia não estar disposta em qualquer padrão discernível e não havia nenhum trecho longo de terreno aberto e largo o suficiente para qualquer tipo de veículo. Edifícios de todos os formatos, tamanhos e cores brotavam por todos os lados; um cilíndrico aqui, um em forma de cone ali um pouco mais adiante no hemisfério... havia até alguns que mudavam suas formas enquanto Ryan os observava.

— Quem construiu essa cidade?— Ele perguntou a Bael. — Por que a construíram? Para onde foram?

— É um lugar agradável, não é? — Bael ignorou as perguntas e fez um gesto para a cidade em torno deles.

— Isso não é uma resposta.

— Claro que não. Eu não tenho uma. Perguntas não são importantes aqui, portanto respostas são irrelevantes.

— Claro que não são. Eu tenho que saber --

— Correção: Java-10 tem que saber. Você não tem que fazer nada além de se divertir. — Bael cacarejou simpaticamente. — Seu pobre idiota, você sofreu uma lavagem cerebral tão grande que você nem percebe a liberdade quando ela te beija na cara. Vamos nos sentar e conversar um pouco.

Duas cadeiras aparentemente confortáveis apareceram atrás deles. Bael se sentou em uma e acenou para Ryan se sentar na outra. Inquieto, o explorador a experimentou antes de pôr seu peso sobre ela. — Você quer falar sobre o quê?— Ele perguntou depois de se sentar.

— Vamos começar com o porquê de você estar aqui.

— Pelo mesmo motivo que você: para saber mais sobre a cidade.

— Por quê?

— Tecnologia, principalmente. Alguém que pôde construir um lugar como esse deve estar tão à frente de nós que estamos tentando aprender alguma coisa apenas examinando seus artefatos. Temos de descobrir --

—Nós?— Bael interrompeu. — Você realmente se inclui nisso?

A interrupção fez Ryan perder sua linha de raciocínio, e ele só pôde piscar incompreensivelmente.

— Seja honesto. Você estava, pessoalmente, tão curioso para saber o que tinha na cidade a ponto de arriscar perder sua sanidade ao chegar aqui? Os olhos de Bael estavam brilhando de vida enquanto ele ansiosamente continuava seu ponto. — Você se voluntariou para essa missão, ou Java-10 o ordenou? Ah, veja como ele se remexe. Isso não foi uma ideia sua, foi?

— Isso não tem nada a ver --

— Tem tudo a ver. Jeff, você é uma marionete, um escravo para aquela nave lá em cima. Faça um bom trabalho, desempenhe bem sua missão e você vai receber uma batidinha nas costas, uma recomendação, talvez até uma medalha. É tudo isso que sua vida vale para você?

— Tenho uma responsabilidade para com a Corporação, com a Terra.

— Que se fodam! E a sua responsabilidade quanto ao velho e bom número um? Que tal aprender a se divertir?

— A Terra precisa de mim --

— Claro, como o Presidente Ferguson precisa de outro buraco na bunda. — Bael olhou à volta dele. — Ei, vamos lá, pessoal, juntem-se a festa.

Quinze outros homens aparecem do espaço onde Ryan e Bael estavam sentados. Eles vieram de todas as direções, e os passos eram tão agradáveis e calmos como os de Bael. Era o resto dos exploradores que vieram à cidade em expedições anteriores. Ryan conhecia a maioria deles, se não pessoalmente, então pelo menos por suas reputações. Eles eram homens duros, experientes antes de virem para a cidade. Agora eles aparentavam estar mais tranquilos, mais relaxados e bem satisfeitos. Todos cumprimentaram Bael e sorriram calorosamente para Ryan.

— Não tenho dúvida, — disse Bael — que você quer sacar seu comunicador e dizer a Java-10 a boa notícia que todo mundo está vivo e reunidos aqui em um só lugar.

De fato, era isso que Ryan queria fazer. Apesar das amigáveis expressões nos rostos dos homens, ele sentia um agudo desconforto ao estar cercado por dezesseis desertores. Ele queria segurar aquela caixa de metal mais do que nada agora, o que dava a ele uma reconfortante garantia de que havia alguém lá em cima preocupado com o bem estar dele. Mas esta conversa parecia estar se transformando num duelo pessoal entre Bael e ele, e ele se recusou a dar seu adversário a satisfação de estar certo. Então, ao invés de pegá-la ele disse: — Posso informar mais tarde.

— Bom garoto! — Bael sorriu. — Você já está aprendendo. Dentro de alguns dias, você vai ser livre como qualquer um de nós.

Ryan tinha a estranha sensação de que tinha caído na armadilha do outro. — Mas eu não tenho alguns dias — ele retrucou acintosamente. — Se eu não sair daqui amanhã, vou ser considerado perdido, assim como você. E se eu for, Java-10 vai bombardear essa cidade de partículas subatômicas.

Os outros homens pararam de sorrir. Todos, exceto Bael, cujo bom humor parecia inabalável. — Não acho que — ele disse baixinho — a cidade iria permitir que isso acontecesse.

Foi a vez de Ryan de ficar calado por um momento. — Você fala como se fosse um ser vivo.

— Eu não tenho a menor ideia se é ou não. Mas depois de ficar aqui por um tempo, você começará a se perguntar. Ela certamente sabe o que está acontecendo em nossas mentes. Ela atua em nossos pensamentos e molda nossos sonhos. Ela nos ama, Jeff, e não vai deixar nada nos machucar.

Um calafrio subiu pela espinha de Ryan. Bael estava falando sério, como só um louco poderia estar. Ele engoliu seco e disse: — No entanto, eu não quero estar aqui para testar seu amor quando as bombas começarem a cair.

— Você é livre para ir embora quando quiser — Bael apontou. — Ninguém vai impedi-lo.

Ryan percebeu, com surpresa, que Bael estava certo. Ele estava certo de que encontraria alguma força diabólica, escondida em algum lugar dentro da cidade que iria tentar mantê-lo aqui contra sua vontade. Ao invés disso, tudo o que encontrou até agora foi uma tecnologia maravilhosa e dezesseis lunáticos amigáveis. Ele não havia sucumbido - ainda - à loucura dos outros e não sentiu nenhuma compulsão estranha impedindo sua partida. Ele estava livre para ir embora a qualquer instante.

— Claro que — disse Tashiro Surakami, um dos outros exploradores que Ryan conhecia vagamente — Java-10 pode não ficar totalmente feliz com você se você fosse.

Esse era o problema. Se ele fosse embora agora, ele não teria nada significativo para relatar. Ele tinha sido enviado para descobrir por que estes homens não tinham voltado para suas naves. Até agora, exceto por algumas generalizações que Bael tinha pronunciado, ele ainda não tinha nem ideia quanto à razão. Se ele deixasse a cidade agora e voltasse para a nave, era melhor ele nem ter vindo.

— Eu ainda tenho meu trabalho para fazer — Ryan insistiu teimoso. — Eu não vou parar no meio. Eu tenho que descobrir por que... — E ele parou.

— Por que ficamos loucos? — Bael terminou para ele. — Do meu ponto de vista, é por que ficamos sãos. A resposta está toda ao seu redor, se você simplesmente parar para procurá-la. Os outros companheiros e eu próprio estamos provavelmente te distraindo. Talvez ajude se você ficar sozinho por um tempo. Pessoal, vamos deixar o Jeff aqui um pouco. Lembre-se, Jeff, se você quiser falar com qualquer pessoa, é só dar um toque. Alguém vai te ouvir.

Bael e os outros começaram a sair casualmente, conversando e rindo entre si. Era como se Ryan tivesse deixado de existir de repente para eles. Em menos de um minuto, todos tinham desaparecido. O silêncio sufocante retornou mais uma vez, deixando Ryan sentado no meio de uma cidade aparentemente deserta.

O explorador alcançou rapidamente seu comunicador e expeliu um relatório desesperado para a nave lá em cima. Ele estava esperando por conselhos, mas a nave simplesmente reconheceu a mensagem laconicamente, dizendo a ele para se manter cauteloso e desligou.

Não foi até ele se levantar de novo que viu a garota.

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Yaş sınırı:
0+
Litres'teki yayın tarihi:
17 ocak 2019
Hacim:
210 s. 1 illüstrasyon
ISBN:
9788885356924
Tercüman:
Leandro Mabillot
Telif hakkı:
Tektime S.r.l.s.
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