Kitabı oku: «Hamlet»

Yazı tipi:

William Shakespeare

Hamlet

Edição Portuguesa - Drama em cinco Actos


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066408053

Índice de conteúdo

INTERLOCUTORES

ACTO PRIMEIRO

SCENA I

SCENA II

SCENA III

SCENA IV

SCENA V

ACTO SEGUNDO

SCENA I

SCENA II

ACTO TERCEIRO

SCENA I

SCENA II

SCENA III

SCENA IV

ACTO QUARTO

SCENA I

SCENA II

SCENA III

SCENA IV

SCENA V

SCENA VI

SCENA VII

ACTO QUINTO

SCENA I

SCENA II

INTERLOCUTORES

Índice de conteúdo

CLAUDIO—Rei de Dinamarca.

HAMLET—Filho do defunto Rei e sobrinho do Rei reinante.

POLONIO—Camareiro mór.

HORACIO—Amigo de Hamlet.

LAERTE—Filho de Polonio.


VOLTIMANDO CORNELIO ROSENCRANTZ GUILDENSTERN OSRICO Cortezãos dinamarquezes.

UM OUTRO CORTEZÃO.

UM PADRE.

REINALDO—Creado de Polonio.

MARCELLO E BERNARDO—Officiaes.

FRANCISCO—Soldado.

UM EMBAIXADOR.

A SOMBRA DO REI HAMLET.

FORTIMBRAZ—Principe de Noruega.

GERTRUDES—Rainha de Dinamarca, mãe de Hamlet.

OPHELIA—Filha de Polonio.

Senhores, damas, officiaes, soldados, actores, padres, coveiros, marinheiros, mensageiros, creados, etc.

A scena passa-se em Elsenor

ACTO PRIMEIRO

Índice de conteúdo

SCENA I

Índice de conteúdo

Elsenor, a explanada do castello

FRANCISCO de sentinella, BERNARDO vem encontrar-se com elle

BERNARDO

Quem vem lá? viva quem?

FRANCISCO

Responde tu primeiro, faze alto, deixa-te reconhecer.

BERNARDO

Viva o rei.

FRANCISCO

Bernardo?

BERNARDO

Eu mesmo.

FRANCISCO

És pontual.

BERNARDO

Acaba de dar meia noite; vae descansar, Francisco.

FRANCISCO

Agradeço-te de me teres vindo render; faz um frio glacial, e começava a sentir-me incommodado.

BERNARDO

Não houve novidade emquanto estiveste de sentinella?

FRANCISCO

Nem sequer ouvi correr um rato.

BERNARDO

Então boas noites; se vires Horacio e Marcello, que tambem estão de guarda, dize-lhes que se aviem.

Chegam HORACIO e MARCELLO

FRANCISCO

Creio ouvil-os, façam alto, quem vem lá?

HORACIO

Amigos da patria.

MARCELLO

Subditos do rei de Dinamarca.

FRANCISCO

Santas noites.

MARCELLO

Viva, meu valente soldado, quem te rendeu?

FRANCISCO

Bernardo está agora de sentinella. Boa noite. (Retira-se.)

MARCELLO

Olá, Bernardo?

BERNARDO

Não é Horacio que eu vejo?

HORACIO

Elle mesmo em corpo e alma.

BERNARDO

Bemvindo sejas, Horacio, e tu tambem, amigo Marcello.

MARCELLO

Dize-me, já viste a apparição esta noite?

BERNARDO

Ainda nada vi.

MARCELLO

Horacio diz que é effeito da minha imaginação, e nega-se a acreditar na visão temerosa, de que já por duas vezes fomos testemunhas; pedi-lhe portanto que viesse comnosco, para que se o phantasma de novo apparecer, elle possa testemunhar a verdade do que afiançâmos e dirigir-lhe a palavra.

HORACIO

Historias, qual apparecer!

BERNARDO

Sentemo-nos um instante, e vamos repetir-te a narração do que temos presenceado duas noites consecutivas e a que prestas tão pouco credito.

HORACIO

Com todo o gosto, e deixemos fallar Bernardo.

BERNARDO

A noite passada, á hora em que esta estrella que vêem ao poente do polo descreve o seu giro e vem illuminar esta parte do firmamento, em que ora brilha, no momento em que na torre soava uma hora, Marcello e eu...

MARCELLO

Silencio, eil-o que apparece.

Apparece a sombra do REI

BERNARDO

Assimilha-se ao defunto rei.

MARCELLO

Tu que estudaste, Horacio, falla-lhe.

BERNARDO

Não é verdade que se parece com o defunto rei? Observa bem, Horacio.

HORACIO

A similhança é espantosa; a surpreza e o terror paralysaram-me.

BERNARDO

Parece esperar que lhe fallem.

MARCELLO

Falla-lhe, Horacio.

HORACIO

Quem quer que és, que a esta hora da noite usurpas a fórma magestosa e guerreira, debaixo da qual se mostrava o meu defunto soberano, em nome do céu, falla, ordeno-to eu!

MARCELLO

Parece descontente.

BERNARDO

Eil-o que se afasta, caminhando lenta e gravemente.

HORACIO

Detem-te, falla, falla, intimo-te a que falles. (A sombra afasta-se.)

MARCELLO

Foi-se sem responder.

BERNARDO

Então, Horacio, que é essa tremura e pallidez; não haverá alguma cousa mais do que um effeito de imaginação, que dizes agora?

HORACIO

Pelo Deus do céu, não o acreditava sem o testemunho positivo e irrecusavel dos meus proprios olhos.

MARCELLO

Não se parece com o rei?

HORACIO

Como tu te pareces comtigo mesmo, era a armadura que usava quando combateu o ambicioso norueguez; tinha aquelle ar ameaçador, no dia em que no seu proprio carro, atacou, por causa de uma acalorada porfia, o guerreiro polaco, e o prostrou no gêlo para nunca mais se levantar. É assombroso!

MARCELLO

Assim é que elle já duas vezes passou pelo nosso posto de observação com o seu caminhar grave e marcial.

HORACIO

Com que designio, ignoro-o, mas em minha opinião é um presagio para o estado de alguma grande catastrophe.

MARCELLO

Pois bem, sentemo-nos, e aquelle d'entre vós todos que o souber, diga porque fatigam, com guardas vigilantes e rigorosas, os subditos d'este reino; para que esta fundição diaria de canhões de bronze, estas compras de armamentos e munições no estrangeiro; para que se enchem de operarios os nossos arsenaes maritimos; porque este augmento de trabalho, que nem os dias santos são respeitados; para que esta actividade de dia e de noite? O que será? Qual de vós m'o poderá dizer?

HORACIO

Posso eu, ao menos, referir os boatos. Nosso ultimo rei, cuja imagem ainda ha pouco vimos, foi, segundo dizem, convocado a campo fechado por Fortimbraz de Noruega, que um cioso orgulho tinha levado a esse acto. N'esse combate o nosso valente Hamlet, e era justa a sua reputação, matou a Fortimbraz. Ora em virtude de uma declaração authentica, sanccionada pelas leis da cavallaria, se Fortimbraz succumbisse, todos os seus estados pertenceriam ao vencedor. Por sua parte o nosso rei tinha empenhado da mesma fórma a sua palavra; e no caso de elle ser vencido, uma igual porção de territorio pertenceria a Fortimbraz. Assim, em virtude d'este pacto reciproco, a successão do vencido pertencia de direito a Hamlet. Comtudo o joven Fortimbraz, ardente e sem experiencia, reuniu nas fronteiras de Noruega um exercito de aventureiros, promptos e resolvidos pela soldada aos mais audaciosos commettimentos. O seu projecto, segundo o nosso governo está informado, é nada menos do que retomar á viva força e de mão armada esse territorio que seu pae perdeu com a vida: eis-aqui, na minha fraca opinião, a rasão principal dos preparativos que fazemos, das guardas a que somos obrigados, e d'esta actividade tumultuosa que se nota em todo o paiz.

BERNARDO

Tambem eu julgo ser esse o motivo; isto explica-nos porque vemos passar diante dos postos de guarda a sombra do rei, com a sua armadura e com o seu porte magestoso, d'esse rei que foi e é o causador d'esta guerra.

HORACIO

É um argueiro nos olhos da intelligencia para lhes perturbar a vista. Nos tempos mais gloriosos e florescentes de Roma, pouco antes da morte do grande Julio, abriram-se os tumulos, e os mortos, nas suas mortalhas, divagaram pela cidade, soltando gritos ameaçadores; viram-se estrellas deixar após si rastos luminosos, choveu sangue, desastrosos signaes appareceram no céu, e o astro humido, sob cuja influencia está o imperio de Neptuno, eclipsou-se; todos julgavam ser o fim do mundo. Estes mesmos signaes precursores de acontecimentos terriveis, correios de maus destinos, preludios de grandes catastrophes, o céu e a terra os fizeram apparecer nos nossos climas, aos olhos impressionaveis dos nossos compatriotas.

A sombra reapparece

HORACIO continuando

Mas silencio, olhem, eil-o que volta. Vou interpellal-o, embora elle me fulmine. Pára. Illusão. Se tens o dom da palavra, se pódes articular sons, falla; se ha alguma boa acção cujo cumprimento te possa alliviar e contribuir para a minha salvação, responde-me: se és sabedor de alguma desgraça que ameace a tua patria, e que um aviso opportuno possa desviar... Oh falla! ou se em tua vida confiaste ás entranhas da terra riquezas mal adquiridas; e a maior parte das vezes é por isso que vós, os espiritos, divagaes depois da morte, dil-o. (O gallo canta.) Detem-te e falla. Veda-lhe o caminho, Marcello.

MARCELLO

Devo servir-me da minha partazana?

HORACIO

Serve-te se não parar.

BERNARDO

Para cá?

HORACIO

Por acolá. (A sombra afasta-se.)

MARCELLO

Partiu!—que presença magestosa!—são desacertadas estas demonstrações violentas! é invulneravel como o ar, e os nossos golpes não são senão o ridiculo esforço de uma colera impotente.

BERNARDO

Ia fallar quando cantou o gallo.

HORACIO

Estremeceu como um culpado que uma intimação subita aterra. Ouvi dizer que o gallo, que é o clarim da aurora, acorda o Deus da manhã com a sua voz sonora e penetrante, e que a esse signal todos os espiritos errantes no mar, no fogo, na terra ou no ar se apressam em voltar aos seus respectivos dominios. A prova está no que acabâmos de presencear.

MARCELLO

O gallo cantou, e elle desappareceu. Algumas pessoas dizem que na vespera do dia em que se celebra a natividade do Salvador do mundo, o arauto da manhã canta toda a noite sem interrupção; pretendem então que nenhum espirito ousa saír da sua mansão, que as noites são salubres, que nenhuma estrella exerce influencia maligna, nenhum maleficio surte effeito, que nenhuma feiticeira exercita os seus feitiços, tanto esse dia é bento, e está sob o imperio de uma graça celeste.

HORACIO

Assim o ouvi dizer, e acredito-o. Mas eis que no oriente, acolá no fundo, por detrás dos outeiros, surge a manhã, vestida de purpura por entre o orvalho. Demos fim á nossa vigilia, e vamos dar parte ao joven Hamlet do que vimos esta noite; porque, por vida minha, creio que este espirito, mudo para todos, lhe fallará. Approvam esta confidencia, que nos impõe o nosso dever e a nossa affeição?

MARCELLO

Vamos sem detença; sei onde o acharemos, e onde lhe poderemos fallar sem constrangimento. (Retiram-se.)

SCENA II

Índice de conteúdo

Uma sala apparatosa no castello

Entram o REI e a sua comitiva, a RAINHA, HAMLET, POLONIO, LAERTE, VOLTIMANDO, CORNELIO e CORTEZÃOS

O REI

A morte de Hamlet, nosso amado irmão, ainda é tão recente, que pareceria justo, que nossos corações estivessem immersos na tristeza e saudade, e que uma nuvem de dor cobrisse o solo d'este reino; comtudo, a rasão combateu os impulsos da natureza, tanto que enfreámos a nossa dor, e embora ainda esteja bem viva a recordação, pensâmos tambem em nós. Portanto, com um prazer incompleto, confundindo os sorrisos com as lagrimas, a alegria com o luto; unindo o dobrar dos sinos aos canticos nupciaes, tomámos por esposa aquella que outr'ora era nossa irmã, e fizemol-a compartir comnosco a corôa d'este bellicoso paiz. N'esta conjunctura ouvimos primeiro os vossos illustrados conselhos, livremente enunciados. Somos-lhes gratos. Quanto ao joven Fortimbraz, fazendo seguramente uma fraca idéa do nosso poder, ou imaginando que a morte de nosso chorado irmão lançasse o estado na dissolução e na anarchia, embalando-se em chimerica esperança, ousou mandar-nos mensagem após mensagem, intimando-nos a restituir-lhe o territorio perdido por seu pae, e legalmente adquirido por nosso valoroso irmão; isto por o que lhe respeita. Fallemos agora de nós e do motivo d'esta reunião. O motivo é este. Pelas presentes escrevemos ao rei de Noruega, tio do joven Fortimbraz, que jazendo enfermo n'um leito, mal conhece os projectos de seu sobrinho, pedindo-lhe que ponha o seu veto á empreza, porque é de entre os seus subditos que se fazem as levas de soldados e os alistamentos. Encarregámo-vos, Cornelio e Voltimando, de apresentar as nossas saudações ao idoso monarcha norueguez, e é nossa vontade, que nas negociações vos conformeis adstrictamente ás instrucções que junto com a nossa carta recebereis. Adeus; a celeridade do resultado prove a dedicação dos negociadores.

CORNELIO e VOLTIMANDO

Senhor, a nossa dedicação e obediencia não tem limites.

O REI continuando

Nem o duvidâmos. Recebam um cordeal adeus. (Cornelio e Voltimando sáem.) Agora, tu, Laerte, que pretendes? Disseram-nos que nos querias fazer uma supplica? Qual é? Tu não podes fazer ao monarcha dinamarquez um pedido que não seja rasoavel, e não recorres a elle em vão. Que poderias desejar, Laerte, a que não estejamos promptos a annuir, mesmo antes de conhecer a pretensão. A cabeça não é mais sympathica ao coração, a mão não é mais prompta em servir a bôca do que o throno de Dinamarca é dedicado a teu pae. Que desejas pois, Laerte?

LAERTE

Meu augusto soberano, a vossa licença e o vosso consentimento, para voltar a França. Gostosamente vim a Dinamarca para assistir á vossa coroação, mas, cumprido esse dever, confesso-o, os meus desejos e a minha vontade me chamam a França, e supplico a vossa magestade que me conceda partir.

O REI

Já alcançaste o consentimento de teu pae? o que diz Polonio?

A RAINHA

Arrancou-me o meu consentimento, tanto me importunou; acabei por ceder, mau grado meu, aos seus desejos. Supplico-lhe, pois, senhor, que lhe conceda a licença pedida.

O REI

Podes partir quando te aprouver, Laerte; deixo-te a liberdade de dispores do teu tempo e da tua pessoa. Então, Hamlet, meu primo, meu filho?

HAMLET á parte

Aindaque mui proximos parentes não somos primos.

O REI

Porque essas nuvens que pesam sobre a tua fronte?

HAMLET

Engana-se, senhor, como póde haver nuvens, quando brilha o sol.

A RAINHA

Querido Hamlet, despe essas roupas de dó, e lança um olhar amigavel para o rei de Dinamarca. Descrava os teus olhos do chão; pareces procurar as pegadas do teu glorioso pae. Sabes bem que é um destino invariavel; tudo quanto vive ha de morrer, e este mundo é uma ponte para a eternidade.

HAMLET

Sim, senhora, é um destino commum.

A RAINHA

Se é assim, o que te parece a ti tão extraordinario?

HAMLET

Senhora, não me parece, é-o na verdade. O parecer para mim nada vale. Minha mãe, não são nem esta capa negra, nem estas vestes obrigadas nos lutos solemnes, nem os suspiros que mal póde soltar um peito opprimido, nem torrentes de lagrimas, nem o semblante macerado, nem todas as manifestações de uma dor pungente, que podem exprimir e revelar o que eu sinto. Todos estes signaes podem parecer dor; é um papel facil de representar, mas não são verdadeira dor, são como o fato para o comediante; mas eu (pondo a mão sobre o coração) sinto aqui, o que não ha palavras que o expressem.

O REI

Nada ha na verdade, Hamlet, mais commovente e louvavel do que os deveres funebres prestados á memoria de um pae. Mas lembra-te que teu pae já perdêra o seu, e que esse tambem já perdêra o pae. E para o sobrevivente um dever de piedade filial, dar durante um certo praso provas de uma dor respeitosa; mas perseverar n'uma afflicção obstinada, é mostrar uma teima impia; é uma dor cobarde, é a prova de uma vontade rebelde aos decretos da providencia, de um coração sem energia, de uma alma incapaz de resignação, de uma intelligencia pobre e limitada. Porque nos deve impressionar a tal ponto um acontecimento, que sabemos ser uma necessidade, e que se repete tão frequente, quanto as occorrencias mais vulgares; é uma triste indocilidade. Que!! É uma offensa a Deus, uma offensa aos finados, uma absurda offensa á natureza, que não tem em seus fastos mais vulgar acontecimento, que a morte de um pae; a qual, desde o primeiro cadaver até ao homem que hoje se finou, nunca deixou de nos clamar: Assim estava escripto. Supplico-te, portanto, abandona essa afflicção impotente, e vê em nós um segundo pae; porque queremos que todos saibam que tu és o mais proximo ao nosso throno, e que a affeição mais terna que um pae tem a seu filho, tenho-a eu a ti. Quanto á tua intenção de voltar a Wittemberg, para continuares os teus estudos, nada ha mais opposto aos nossos desejos; conjurâmos-te que fiques aqui, sê o prazer de nossos olhos, o primeiro da nossa côrte, nosso sobrinho, nosso filho.

A RAINHA

Hamlet, far-te-ha tua mãe uma supplica baldada? peço-te fica comnosco, não vás para Wittemberg.

HAMLET

Farei o que podér, para em tudo vos provar obediencia.

O REI

Eis emfim uma resposta affectuosa e comedida. Serás na Dinamarca um segundo Eu. (Á rainha) Venha, senhora, este acto de deferencia de Hamlet, cumprido tão naturalmente e sem esforço, enche de jubilo o meu coração. Para o celebrar o rei de Dinamarca não libará uma taça, sem que a voz do canhão o transmitta ás nuvens. A cada taça quero que o céu o annuncie, repercutindo o estrondo dos raios da terra. Vamos agora. (Todos sáem excepto Hamlet.)

HAMLET só

Ah! porque não poderá esta carne tão solida fundir-se e tornar-se orvalho. Ah que se o Eterno não tivesse fulminado como reprobo o suicida... Senhor Deus, meu Deus, como são insipidos, fastidiosos e vãos os gosos do mundo. Que pena! Elle é um jardim inculto que só tem plantas grosseiras e maleficas. Pois será possivel que ousassem tanto? Morto ha dois mezes! que digo? Nem dois mezes ainda. Um rei tão bom, que tanta similhança tinha com este como Hyperion com um Satyro, todo ternura para minha mãe, a ponto de não querer que uma brisa mais fresca açoutasse o seu rosto! Céus e terra! e deverei eu recordar-me? Parecia que a vida de um era a vida do outro! Comtudo, passado apenas um mez—não posso nem quero pensal-o—, fragilidade é synonymo de mulher. Só um mez, sem ainda ter gasto o calçado que usava acompanhando o feretro do marido, banhada em lagrimas como uma Niobe, ella mesma, essa mulher, oh céus! um animal privado do soccorro da rasão teria prolongado o seu luto; essa mulher desposou meu tio, o irmão de meu pae, mas que tem tanto de meu pae como eu de Hercules. No fim de um mez, antes que seccassem as suas hypocritas lagrimas, casou. Oh criminosa precipitação! Voar com tanto afan a um leito incestuoso, é horrivel! E será possivel que o céu o tolere? Despedaça-te coração, já que forçoso é calar.

Chegam HORACIO, BERNARDO e MARCELLO

HORACIO

Deus guarde a Vossa Alteza.

HAMLET

Quanto folgo de te ver de boa saude. És tu, Horacio, não me engano.

HORACIO

Eu mesmo, o vosso servo fiel até á morte.

HAMLET

Queres dizer amigo; de hoje em diante dar-te-hei este nome. Mas que fazes tu longe de Wittemberg, Horacio? Marcello.

MARCELLO

Meu principe!

HAMLET

Alegro-me de te ver, bons dias. (A Horacio.) Mas, francamente, que motivo te obrigou a voltar de Wittemberg?

HORACIO

Tudo dissipei.

HAMLET

Nunca consentiria que um teu inimigo assim fallasse a teu respeito; e não me obrigarás a forçar a minha rasão a crer no que o meu coração se nega a acreditar. Accusares-te d'esta maneira a ti mesmo... tu não és dissipador. Que motivo tão forte te pôde pois trazer a Elsenor, tu m'o contarás mais tarde, entre dois copos de vinho generoso, antes da tua partida.

HORACIO

Senhor, vim prestar a ultima homenagem a seu augusto pae.

HAMLET

Peço-te, meu camarada de estudos, que não zombes; creio antes que vieste assistir ao casamento de minha mãe.

HORACIO

Verdade é que não houve quasi intervallo.

HAMLET

Por alvitre economico, Horacio. O banquete funerario ainda subministrou as iguarias e as viandas para o festim nupcial. Antes quizera encontrar no céu o meu mais encarniçado inimigo, do que ter visto despontar um tal dia, Horacio. Meu pobre pae, parece-me que o estou vendo!

HORACIO

Onde, senhor?

HAMLET

Na minha imaginação, Horacio.

HORACIO

Recordo-me de o ter visto, era um grande rei.

HAMLET

Era um homem que, bem considerado, não tinha rival na terra.

HORACIO

Julgo tel-o visto a noite passada.

HAMLET

Viste, quem?

HORACIO

Alteza, vi o rei seu pae.

HAMLET

O rei meu pae?

HORACIO

Senhor, acalme esta agitação e espanto, e preste attenção, emquanto eu, fundado no testemunho ocular d'estes senhores, vou relatar esse prodigio.

HAMLET

Falla, pelo amor de Deus, sou todo ouvidos.

HORACIO

Durante duas noites consecutivas, no meio das trevas e do silencio, emquanto estes senhores estavam de sentinella, eis o que lhes aconteceu. Uma figura parecida com seu pae, armada da cabeça aos pés, lhes appareceu caminhando lenta e magestosamente. Tres vezes, atemorisados e attonitos, o viram passar á distancia do bastão de commando que empunhava, emquanto elles, fulminados pelo terror, ficaram mudos, nem ousaram fallar. Confiaram-me, debaixo de segredo, tremulos ainda, o que tinham presenceado. Na noite seguinte entrei com elles de sentinella, e confirmando a verdade das suas palavras, á hora por elles indicada, debaixo da fórma por elles descripta, voltou a apparição. Reconheci seu pae; as minhas duas mãos não são mais parecidas.

HAMLET

Mas em que sitio appareceu?

MARCELLO

Senhor, na explanada, onde estavamos de sentinella.

HAMLET

Fallaram-lhe.

HORACIO

Fallámos, mas não respondeu. Comtudo uma vez pareceu-me que movia a cabeça, como quem quer fallar; mas n'esse momento cantou o gallo matinal; ao som do canto afastou-se o espectro apressadamente, e nós perdemol-o de vista.

HAMLET

Na verdade é incomprehensivel.

HORACIO

Senhor, juro-lhe pela minha vida que é verdade, e julgámos nosso dever informar Vossa Alteza.

HAMLET

Não posso dissimular a minha inquietação! Estão de guarda esta noite?

TODOS

Sim, Alteza.

HAMLET

Armado, disseram?

TODOS

Armado, meu senhor.

HAMLET

Da cabeça aos pés?

TODOS

Tal qual.

HAMLET

Viram-lhe as feições?

TODOS

Vimos, tinha a viseira levantada.

HAMLET

Tinha physionomia carregada?

TODOS

A expressão era antes triste que colerica.

HAMLET

Pallido ou córado?

TODOS

Muito pallido.

HAMLET

O seu olhar fixou-se em algum de vós?

TODOS

Constantemente.

HAMLET

Queria lá ter estado.

HORACIO

O seu espanto teria sido igual ao nosso.

HAMLET

É mais que provavel. Demorou-se muito?

HORACIO

O tempo necessario para contar até um cento, sem parar.

MARCELLO e BERNARDO

Muito mais, muito mais.

HORACIO

Não a vez que o vi.

HAMLET

A barba era grisalha, não é verdade?

HORACIO

Era, como em sua vida, de um negro prateado.

HAMLET

Velarei tambem esta noite, talvez que volte.

HORACIO

Sem duvida alguma.

HAMLET

Se se me apresentar debaixo da figura de meu pae, fallar-lhe-hei, embora o inferno me ordenasse o silencio, pelas suas horrendas fauces. Peço-vos, portanto, que se até hoje tendes guardado um segredo tal a respeito da apparição, de hoje em diante sejaes ainda mais cautelosos em conservar o sigillo; e aconteça o que acontecer esta noite, reflexão e silencio: serei grato a esta prova de affeição. Assim, pois, adeus, encontrarme-hei comvosco na explanada entre as onze horas e a meia noite.

TODOS

Os nossos respeitos, principe.

HAMLET

Sempre amigos, adeus. (Horacio, Marcello e Bernardo sáem.) (Continuando.) A sombra de meu pae, porque apparece armada? Haverá algum perigo. Suspeito alguma traição. Espero impacientemente a noite. Até então, socega coração. Não ha crimes tão occultos, que o homem não possa descobrir. (Sáe.)

SCENA III

Índice de conteúdo

Um quarto em casa de Polonio

Entram LAERTE e OPHELIA

LAERTE

Já embarcaram os meus creados e roupas. Adeus, minha irmã; quando ventos propicios encherem as vélas ao navio que me leva, espero que com a minha ausencia não esfriará a tua amisade, e que me darás novas tuas.

OPHELIA

Duvídas porventura, irmão?

LAERTE

Quanto ao que respeita a Hamlet e á sua frivola amisade, considera-a como uma moda ephemera, um capricho dos sentidos, uma violeta da primavera, precoce mas passageira, suave mas fenecendo ao desabrochar, e cujo perfume dura um minuto apenas.

OPHELIA

Só um minuto?

LAERTE

Só, acredita-me, porque o teu desenvolvimento não é só nos musculos e no corpo; á medida que o templo toma proporções mais vastas, tambem se expande o espirito e a alma. É possivel que te ame agora, que nenhuma macula, nenhuma deslealdade offusque a pureza dos seus sentimentos; mas acautela-te, porque na posição que occupa é-lhe vedada a propria vontade, é escravo do seu nascimento. Não póde, como os outros homens, escolher só por affeição, porque á sua escolha estão ligados o bem-estar e a salvação do estado; por isso deve subordinal-a ao voto e á approvação da nação de que é chefe. Se, pois, te fallar de amor, assisadamente usarás, não acreditando senão o que a sua posição lhe permitte offerecer, vistoque a sua vontade deve ser a vontade da nação. Pensa bem, que mancha para a tua reputação, se prestasses ouvidos por demais credulos, ao encanto das suas fallas, se envenenasses tua alma, se abrisses o cofre da castidade ás suas audaciosas instancias. Acautela-te, Ophelia, acautela-te, querida irmã, luta com a tua affeição para vencer as settas e os perigos dos desejos. A virgem prudente já é assás prodiga se patenteia a sua belleza aos raios lunares; a propria virtude não escapa aos golpes da calumnia; o verme roe as filhas predilectas da primavera, antes das flores desabrocharem; e é na aurora da vida, regada pelo puro e limpido orvalho, que ha mais perigo para a flor da castidade. Sê, pois, circumspecta, a melhor protecção é o receio do perigo; a juventude é para si mesma um perigo, se não trava luta com outros maiores.

OPHELIA

Em meu coração encerrarei, como um preservativo, a tua salutar lição. Mas, querido irmão, não sejas tu, como certos pastores sem virtude, que indicam ás suas ovelhas o caminho escarpado e espinhoso que conduz ao céu, emquanto elles, libertinos, fogosos e sem pudor, trilham o caminho das flores, da licença, e são a antithese das suas palavras.

LAERTE

De mim não te arreceies: já devia ter partido; eis meu pae.

Entra POLONIO

Uma dupla benção é um beneficio duplo; abençôo a occasião de me despedir segunda vez de ti.

POLONIO

Ainda aqui, Laerte? para bordo, para bordo. Não te envergonhas? Teu navio só te espera para velejar. Recebe a minha benção, e grava na tua memoria os seguintes preceitos. Guarda para ti o pensamento, e não dês execução apressadamente aos teus projectos; medita-os maduramente. Sê lhano sem te esqueceres de quem és. Quando tomares um amigo cuja affeição tenhas experimentado, liga-o a ti por vinculos de aço; mas não dês confiança irreflectidamente. Faze por evitar questões; mas se o não podéres conseguir, conduze-te de maneira que fiques sempre superior ao teu adversario. Ouve a todos, mas sê avaro de palavras; escuta o conselho que te derem, forma depois o teu juizo. No teu trajar sê tão sumptuoso, quanto t'o permittam os teus meios, mas nunca affectado; rico, mas não offuscante; o porte dá a conhecer o homem, e n'esse ponto, as pessoas de qualidade em França revelam um gosto primoroso, e o mais fino tacto. Não emprestes, nem peças emprestado: quem empresta perde o dinheiro e o amigo, e o pedir emprestado é o primeiro passo para a ruina. Mas sobre tudo sê verdadeiro para a tua consciencia, e assim como a noite se segue ao dia, seguir-se-ha tambem, que o teu coração jamais abrigará falsidade. Adeus, que a minha benção selle em teu coração os meus conselhos.

LAERTE

Despedindo-me, humildemente vos beijo a mão, meu pae.

POLONIO

Não tens tempo que perder, teus creados esperam-te.

LAERTE

Adeus, Ophelia, recorda-te das minhas palavras.

OPHELIA

Fechei-as no meu coração; dou-te a chave, guarda-a.

LAERTE

Adeus. (Sáe.)

POLONIO

Que te disse elle, Ophelia?

OPHELIA

Com licença de meu pae, fallou-me a respeito de Hamlet.

POLONIO

Folgo que o fizesse. Disseram-me que ultimamente Hamlet tem tido comtigo frequentes entrevistas, e que tu não te esquivas ás suas frequentes visitas. Se assim é, e creio na informação que me deram, devo dizer-te que não encaras a tua posição com a lucidez que convem a minha filha, e que a tua honra exige. Dize-me a verdade, o que ha?

OPHELIA

Protestos de amor.

POLONIO

De amor! como inexperiente fallas, conservas as illusões todas. Dás tu porventura credito aos seus protestos, como tu lhe chamas?

OPHELIA

Nem sei, senhor, o que devo pensar.

POLONIO

Pois bem, eu t'o digo. É necessario que sejas bem creança para crer uma realidade os seus protestos, de cuja sinceridade devéras duvido. Não te deprecies assim; seria uma loucura.

OPHELIA

O seu respeito foi inseparavel das suas phrases de amor.

POLONIO

E tu acreditas, pobre louca.

OPHELIA

Firmou as suas palavras com os juramentos mais sagrados.

POLONIO

Assim arma o caçador os laços á avesinha innocente e incauta. Sei que, quando o sangue ferve, a nossa bôca nunca se nega a protestos e juramentos. Minha filha, estes lampejos que dão mais luz que calor, e cujo brilho é ephemero, nunca os tomes por verdadeira chamma de amor. A datar de hoje, não malbarates tanto a tua presença virginal; difficulta mais as entrevistas, que não baste pedir para as obter. Quanto ao sr. Hamlet e á confiança que n'elle podes ter, considera que é joven, e que póde tomar liberdades de que depois tenhas que te arrepender. N'uma palavra, Ophelia, descrê dos seus juramentos, porque não são verdadeiros; interpretes de desejos profanos, revestem-se da linguagem da mais santa sinceridade. Uma vez por todas, e franqueza, filha, prohibo-te toda e qualquer conversa com o sr. Hamlet. Pensa bem. Ordeno-t'o.

OPHELIA

Obedecerei, meu pae. (Sáem.)

SCENA IV

Índice de conteúdo

A explanada do castello de Elsenor

Chegam HAMLET, HORACIO e MARCELLO

HAMLET

Que frio horrivel, gélo.

HORACIO

O ar está devéras glacial.

HAMLET

Que horas são?

HORACIO

Não deve tardar a meia noite.

MARCELLO

Está dando meia noite.

HORACIO

Já! não ouvi, em todo o caso approximâmo-nos da hora a que costuma apparecer o phantasma. (Ouvem-se ao longe tangeres de instrumentos, e o troar de artilheria.) Que rumor é este?

HAMLET

O rei consagra esta noite ao prazer, está bebendo, e a cada copo de vinho do Rheno, os timbales e clarins proclamam o brinde que levantou.

HORACIO

Isso é costume?

HAMLET

Sim é, mas apesar de eu ter nascido n'este paiz, e estar acostumado a estes usos, ha emquanto a mim mais gloria em infringil-os, do que em observal-os. Estas orgias abjectas trazem-nos, do oriente ao occidente, o desprezo das outras nações, que nos qualificam de ebrios, e juntam aos nossos nomes os epithetos mais grosseiros. Este defeito embaça as nossas mais brilhantes qualidades, e tira-lhes todo o valor. O mesmo acontece aos individuos. Se ao nascerem, receberam da natureza alguma macula original, de que não são culpados, poisque o nascimento é independente da nossa vontade; se os afflige algum vicio de temperamento contra o qual todos os esforços da rasão são impotentes, algum costume que desagrade nos seus modos destruindo-lhes o encanto; acontece a esses homens, tendo o estigma de um defeito unico, libré da natureza, sêllo da sua estrella, acontece, digo, que todas as suas virtudes, fossem ellas puras como a graça celeste, infinitas quanto comporta á humanidade, ficariam manchadas na opinião, publica por esse defeito unico. Basta uma mollecula de liga para depreciar esse metal.

Apparece a sombra

HORACIO

Senhor, eil-o.

HAMLET

Anjos do céu, poderes misericordiosos, protegei-nos. Genio bemfazejo, ou demonio infernal, que exhalas os perfumes celestes, ou as emanações do averno; que sejam sinistras ou caridosas as tuas intenções, appareces-me debaixo de uma fórma tão grata que te quero fallar. Interrogo-te, Hamlet, senhor, meu pae, rei de Dinamarca, oh! responde-me, não me deixes, na ignorancia, morrer de emoção; mas dize-me, porque teus bentos ossos encerrados no ataude romperam os sellos; porque te levantaste do tumulo em que te haviamos depositado; porque se ergueu a lapide sepulchral para te lançar a este mundo? Como, cadaver inanimado, vestindo a tua armadura de aço, vagueias tu á duvidosa claridade da lua, imprimindo á noite um caracter de horror, lançando-nos, fracos ludibrios da natureza, nas ancias do terror; e fazendo surgir em nossas almas pensamentos que excedem o nosso alcance? Responde. Porque? Com que fim? Que exiges?

HORACIO

Faz-vos signal de o seguir, como se quizesse fallar-vos a sós.

MARCELLO

Veja, principe, o gesto cheio de cortezia e dignidade, com que o convida a seguil-o a logar mais remoto; mas não vá.

HORACIO

Senhor, pelo amor de Deus.

HAMLET

Quer-me fallar, pois bem, seguil-o-hei.

HORACIO

Não faça tal, senhor.

HAMLET

Porque? que tenho eu a receiar, importa-me tanto a vida, como se fosse um alfinete; quanto á minha alma, nada póde contra ella, porque é immortal, como elle é. Repete o signal, vou seguil-o.

HORACIO

E se elle vos attrahisse ao Oceano ou ao pincaro escarpado de algum rochedo saliente e sobranceiro ao mar; e se tomasse alguma fórma horrivel, cuja vista vos varresse a rasão tornando-vos demente? Pensae bem, senhor, não receiaes alguma vertigem ao contemplar de alto a immensidade debaixo de vossos pés?

HAMLET

Continua a fazer-me signal. Caminha, sigo-te.

MARCELLO

Não ha de ir, senhor.

HAMLET

Ninguem me detenha.

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Türler ve etiketler

Yaş sınırı:
0+
Litres'teki yayın tarihi:
11 ekim 2024
Hacim:
120 s. 1 illüstrasyon
ISBN:
4064066408053
Yayıncı:
Telif hakkı:
Bookwire
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