Kitabı oku: «Refém dos seus beijos»

Editado por Harlequin Ibérica.
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28001 Madrid
© 2018 Abby Green
© 2020 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Refém dos seus beijos, n.º 1837 - outubro 2020
Título original: The Virgin’s Debt to Pay
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-1348-814-1
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
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Capítulo 1
Nessa O’Sullivan nunca se considerara capaz de cometer um crime, mas ali estava, no perímetro de uma propriedade privada, entre as sombras da noite, quase a entrar e a roubar uma coisa que não lhe pertencia.
Com uma careta, segurou a chave do irmão para entrar nos escritórios do criador de cavalos de corridas, Luc Barbier. Só de pensar no dono da coudelaria, percorreu-a um calafrio de apreensão. Estava por baixo do ramo frondoso de uma árvore, perto do jardim que levava à porta principal do edifício. Deixara o seu carro velho a alguns quarteirões dali e subira por um muro para entrar.
A sua própria casa familiar não era longe, por isso, conhecia muito bem a zona. Brincara naquelas cavalariças quando era criança, quando tinham pertencido a outra pessoa.
No entanto, era tudo estranho e ameaçador e ainda mais quando o ulular de um mocho, de uma árvore próxima, a assustou. Obrigou-se a respirar fundo para se acalmar e amaldiçoou novamente o irmão impulsivo por se ter ido embora daquela forma. Ainda que a verdade fosse que não podia culpar Paddy Júnior por não ter estado à altura de Luc Barbier, o milionário francês áspero e misterioso que liderava o mundo dos cavalos de raça pura.
O seu aspeto moreno e atraente despertara rumores sobre a sua procedência. Alguns diziam que fora abandonado por uns ciganos e que vivera nas ruas, antes de se transformar numa espécie de lenda no mundo das corridas por causa da sua habilidade para domar os puros-sangues mais difíceis.
Progredira em muito pouco tempo e possuía uma das mais prestigiosas coudelarias de Paris, para além daquela quinta enorme na Irlanda, onde tinham sido treinados os melhores cavalos de corridas, sob a sua supervisão rígida.
As pessoas diziam que o seu talento era uma espécie de bruxaria proveniente dos seus antepassados misteriosos.
Outros rumores garantiam que fora apenas um pequeno delinquente que saíra das ruas graças à sua firmeza e à sua intuição para os negócios.
O mistério das suas origens era mais um enfeite para a expectativa que despertava, pois, para além dos cavalos, investira em múltiplas áreas de negócios e quintuplicara a sua fortuna em poucos anos. Agora, era um dos empresários mais ricos do país.
Desde que Barbier o contratara como capataz, há alguns anos, Paddy Júnior, irmão de Nessa, não parara de falar daquele tipo com uma mistura de admiração e respeito.
Nessa só o vira uma ou duas vezes de longe em algum mercado de cavalos de elite na Irlanda, onde costumavam participar os mais importantes nomes do mundo das corridas, xeques, a realeza e os mais ricos do planeta.
Barbier destacara-se entre todos, por causa da sua altura e do seu aspeto. O cabelo preto, espesso e indomável, comprido até ao colarinho da camisa. O rosto forte e moreno com uma expressão séria e os olhos escondidos por trás dos óculos de sol. Com os braços musculados cruzados por cima de um peito largo, observara o desfile de animais com atenção. Mais do que um comprador, parecera uma estrela de cinema imponente.
Ao contrário do resto dos participantes, não tinha guarda-costas à vista. Embora o seu ar ameaçador deixasse claro que era muito capaz de se proteger sozinho.
A única razão por que Nessa estava ali naquela noite, prestes a entrar numa propriedade privada por causa do irmão, era porque Paddy lhe assegurara que Luc Barbier estava em França. Não tinha vontade de o encontrar, é claro. Das poucas vezes que o vira, experimentara uma sensação estranha na barriga, uma excitação inesperada que não era apropriada e não devia sentir por um desconhecido.
Respirou fundo outra vez e deu um passo para a frente. O latido de um cão fê-la parar. Susteve a respiração e, quando o cão parou, continuou a andar para a porta. Passou por baixo do arco que levava ao pátio, onde eram os escritórios da equipa administrativa.
Seguiu as instruções de Paddy até aos escritórios centrais e, com o coração acelerado, usou a chave correspondente para abrir a porta. Aliviada por não ouvir um alarme, nem sequer se questionou porquê.
Estava escuro lá dentro, mas, na penumbra, conseguiu vislumbrar as escadas. Foi para o andar superior, iluminando com a lanterna do telemóvel. Depressa, encontrou o escritório do irmão. Abriu-o com outra chave e entrou sem fazer barulho, antes de fechar a porta atrás dela. Apoiou-se contra a parede por um instante, com o coração prestes a sair pela boca. Tinha as costas encharcadas em suor.
Quando se sentiu um pouco mais calma, avançou para dentro do escritório, até à secretária que devia ser de Paddy. Dissera-lhe que o seu portátil estava na gaveta de cima, no entanto, quando a abriu, encontrou-a vazia. As outras gavetas também estavam vazias. Entrando em pânico, Nessa procurou nas outras secretárias, mas não havia rasto do computador. Então, as palavras de Paddy ecoaram na sua mente: «Esse portátil é a única oportunidade que tenho de provar a minha inocência. Só preciso de seguir a pista das mensagens de correio eletrónico para descobrir o pirata informático…»
Nessa ficou imóvel no centro do escritório, mordendo o lábio.
Não ouvira nenhum barulho que pudesse denunciar que não estava sozinha nos escritórios. Por isso, quando o escritório se abriu de repente e a luz invadiu a sala, só teve tempo para se virar, espantada, para a figura imponente que enchia a ombreira da porta.
Atordoada, mal conseguiu reconhecer que se tratava de Luc Barbier. E que estivera certa ao temer encontrar-se com ele cara a cara. Era o homem mais bonito e mais impressionante que alguma vez vira.
Luc Barbier usava umas calças de ganga pretas e um polo de manga comprida que realçavam a sua energia tão puramente masculina. Os seus olhos observavam-na fixamente, escuros como dois poços sem fundo.
– Vieste procurar isto? – perguntou ele, mostrando-lhe o portátil prateado que tinha nas mãos.
A sua voz era grave e tinha um sotaque estrangeiro leve e sensual. Ao ouvi-lo, Nessa sentiu uma injeção de adrenalina diretamente no coração. A única coisa que lhe ocorreu fazer foi correr para a mesma porta por onde entrara, mas quando a abriu, encontrou um guarda com cara de poucos amigos.
A mesma voz ouviu-se atrás dela outra vez, daquela vez, num tom gelado.
– Fecha a porta. Não vais a lado nenhum.
Quando ela não se mexeu, o guarda fechou a porta, deixando-a novamente a sós com Luc Barbier. Que, obviamente, não estava em França.
Com renitência, virou-se para o encarar, consciente de que se vestira com umas calças largas e pretas, uma camisola de gola alta preta e com o cabelo apanhado num boné escuro. Devia ter o aspeto de uma ladra.
Luc Barbier fechara a outra porta. Deixara o portátil numa mesa e estava ali parado, com os braços cruzados por cima do peito e as pernas entreabertas, preparado para ir atrás dela se tentasse fugir novamente.
– Quem és tu?
Nessa cerrou os dentes e baixou o olhar, esperando que o boné escondesse o seu rosto.
Ele deixou escapar um suspiro.
– Podemos fazer isto da pior maneira, se preferires. Posso chamar a polícia e terás de lhes contar quem és e porque entraste na minha propriedade. Mas ambos sabemos que procuravas isto, não é? – indicou ele, tocando no portátil com os dedos. – O mais certo é que trabalhes para o Paddy O’Sullivan.
Nessa mal ouviu as suas palavras. Só conseguia concentrar-se nas suas mãos lindas. Grandes e masculinas, mas elegantes. Mãos capazes. E sensuais. Percorreu-a um calafrio inoportuno.
O silêncio pesou sobre eles por uns instantes, até Barbier praguejar em voz baixa, pegar no portátil e se dirigir para a porta. Então, Nessa percebeu que envolver a polícia irlandesa naquilo seria ainda mais desastroso. O facto de Barbier ainda não os ter chamado dava-lhe um pouco de esperança de salvar a situação.
– Espera! – gritou ela.
Ele parou a meio caminho, virando-lhe as costas. A sua imagem era tão imponente por trás como pela frente. Devagar, virou-se.
– O que disseste?
Nessa tentou acalmar o seu coração acelerado. Tinha medo de que lhe visse a cara, portanto, inclinando a cabeça, tentou mantê-la escondida por baixo do boné.
– Disse para esperares, por favor – repetiu ela, encolhendo-se. Como se, sendo educada, pudesse ganhar alguns pontos.
Depois de um silêncio breve, Barbier voltou a falar, com incredulidade.
– És uma menina?
A sua pergunta chegou à alma de Nessa. Sabia que estava vestida de preto dos pés à cabeça e que usava um boné. Mas o seu aspeto era assim tão andrógino? Tinha consciência de que os seus movimentos não eram demasiado femininos. Passara a infância a brincar na lama e a subir às árvores. Ergueu o queixo, ofendida, esquecendo-se da sua intenção de manter a cara escondida.
– Tenho vinte e quatro anos. Já não sou uma menina.
Observou-a com ceticismo.
– Andar pelo mato para entrar numa propriedade privada não é o tipo de atividade a que uma mulher se dedique.
Ao pensar no tipo de mulher de que um homem como ele podia gostar, Nessa ficou ainda mais nervosa. Sentiu-se vulnerável e isso fê-la ficar à defesa.
– Devias estar em França.
– Estava. Mas já não.
Quando Barbier a inspecionou com mais atenção, sentiu um interesse repentino. Sim, conseguia reconhecer que era uma mulher. Embora o seu corpo fosse esbelto e miúdo, tanto que podia parecer o de um rapaz. Contudo, conseguia adivinhar os seus seios, pequenos e perfeitamente formados, por baixo de uma camisola preta.
Também conseguiu perceber o seu queixo, demasiado delicado para ser masculino, e a sua boca carnuda. Naquele momento, estava a mordiscar o lábio inferior.
De repente, experimentou o aguilhão do desejo e a tentação de a ver melhor.
– Tira o boné! – ordenou ele, sem pensar.
Ela ergueu o queixo outra vez. Houve um momento de tensão em que Luc não soube o que ia acontecer. Então, como se tivesse percebido que não tinha escolha, ela tirou o boné.
Durante um instante, Luc só pôde ficar a olhar para ela como um parvo, enquanto uma cascata de cabelo avermelhado lhe caía sobre os ombros.
Depois, quando reparou no resto da sua cara, ficou ainda mais embevecido. Vira centenas de mulheres bonitas, algumas eram vistas como as mais belas do mundo, mas, naquele momento, não conseguia lembrar-se de nenhuma.
A mulher que tinha à sua frente era impressionante. Faces altas. Pele cremosa e pálida, impecável. Nariz reto. Olhos cor de avelã enormes com brilhos verdes e dourados. Pestanas pretas e espessas. E uma boca suculenta e apetitosa.
Imediatamente, Luc experimentou uma ereção. Confuso, pensou que não costumava reagir assim com nenhuma mulher. Talvez o motivo estivesse na situação inesperada, pensou.
– Agora, diz-me quem és ou chamo a polícia.
A temperatura de Nessa subira sob o escrutínio intenso de Barbier. Sentia-se demasiado vulnerável sem o boné. Mas estava hipnotizada com o olhar do seu interlocutor e não era capaz de desviar o olhar. Era um homem bonito, intensamente viril e atraente. Os seus traços eram duros, à exceção da boca, que era provocadora, sensual… e a distraía.
– Estou à espera.
Nessa corou. Desviou o olhar, cravando-o no quadro de um cavalo de corridas. Sabia que não tinha escolha. Devia responder, se não quisesse acabar nas mãos da polícia. Na sua pequena comunidade, depressa se saberia em toda a vila o que acontecera. Ali, não existia o conceito de privacidade.
– O meu nome é Nessa… – disse ela e, depois de hesitar por um instante, acrescentou: – O’Sullivan.
– O’Sullivan? – perguntou ele, franzindo o sobrolho. – És parente do Paddy?
Ela assentiu, incomodada pelo seu fracasso desastroso.
– Sou a irmã dele.
Barbier parou por uns segundos para processar a informação. E sorriu.
– Enviou a maninha mais nova para fazer o trabalho sujo?
– O Paddy é inocente! – exclamou ela, imediatamente.
Luc Barbier não parecia impressionado com a sua defesa veemente.
– Piorou as coisas ao desaparecer. E os factos não mudaram: Facilitou a compra de um cavalo da coudelaria do Gio Correti. Recebemos o cavalo há uma semana e o milhão de euros saiu da minha conta, mas nunca chegou à conta do Correti. Está claro que o teu irmão desviou os fundos para o seu próprio bolso.
Nessa ficou pálida ao ouvir de quanto dinheiro se tratava. Mas obrigou-se a mostrar-se firme, pelo irmão.
– Ele não roubou o dinheiro. Não foi culpa dele. Piratearam-no. De alguma forma, alguém entrou na conta do vendedor e o Paddy enviou-lhes o dinheiro, achando que o enviava para o sítio correto.
O rosto de Barbier parecia esculpido em granito.
– Se isso é verdade, porque não está aqui para se defender?
Nessa obrigou-se a não perder as forças à frente daquele homem tão intimidante.
– Disse-lhe que o prenderia. Pensou que não tinha escolha.
Então, Nessa recordou as palavras cheias de ansiedade do irmão: «Ness, não sabes do que esse homem é capaz. Despediu um dos empregados da coudelaria no ato no outro dia. Para ele, todos são culpados. Vai destruir-me. Nunca mais voltarei a trabalhar nessa área…»
Barbier cerrou os dentes.
– O facto de ter fugido depois dessa conversa telefónica só o faz parecer mais culpado.
Nessa ia defender novamente o irmão, mas engoliu as palavras. Não fazia sentido explicar àquele homem que o irmão já tivera problemas com a lei quando passara por uma fase adolescente demasiado rebelde. Paddy esforçara-se muito para virar a página, mas tinham-lhe dito que, se voltasse a infringir a lei, iria diretamente para a prisão por causa dos seus antecedentes. Essa fora a razão por que entrara em pânico e se escondera.
Luc Barbier observou a mulher que tinha à sua frente. Não compreendia porque continuava a tentar falar com ela. Mas a sua veemência e o seu desejo claro de proteger o irmão a todo o custo intrigavam-no. Na sua experiência, a lealdade era um mito. Todos agiam de acordo com os seus próprios interesses.
De repente, pensou numa coisa e praguejou. Estivera demasiado distraído com aquela cascata de cabelo avermelhado e aquela figura esbelta.
– Talvez também estejas implicada? Talvez só quisesses o portátil para te certificares de que destruías as provas.
Nessa sentiu que lhe tremiam as pernas.
– Claro que não. Só vim porque o Paddy… – começou a explicar ela e interrompeu-se, não querendo inculpar ainda mais o irmão.
– O quê? – inquiriu ele. – Porque o Paddy é demasiado covarde? Ou porque já não está no país?
Nessa mordeu o lábio. Paddy fora para os Estados Unidos para se esconder com o irmão gémeo, Eoin. Rogara-lhe que voltasse, tentando convencê-lo de que Barbier não podia ser um monstro.
– Ninguém se atreve a meter-se com o Barbier. Não me surpreenderia que tivesse antecedentes penais… – indicara o irmão.
Durante um instante, Nessa sentiu-se enjoada. Percorreu-a um calafrio. E o que aconteceria se Paddy fosse realmente culpado?
Imediatamente, repreendeu-se por duvidar da inocência do irmão. Aquele homem estava a fazê-la duvidar dela própria. Sabia que Paddy nunca faria uma coisa dessas, de maneira nenhuma.
– Olha, o Paddy é inocente. Estou de acordo contigo. Não devia ter fugido, mas isso já está feito – replicou, num tom firme. Mentalmente, desculpou-se com o irmão pelo que ia dizer depois. – Tem o costume de fugir quando há problemas. Foi-se embora durante uma semana inteira depois do funeral da nossa mãe!
Barbier ficou pensativo por um instante.
– Ouvi dizer que os irlandeses têm o costume de enrolar os outros com palavras para se safarem dos seus erros, mas isso não funcionará comigo.
– Não tento safar-me de nenhum erro – replicou ela, furiosa. – Só queria ajudar o meu irmão. Ele diz que pode provar a sua inocência com o portátil.
Barbier pegou no computador prateado e levantou-o.
– Examinámos o portátil a fundo e não há provas que apoiem a defesa do teu irmão. Não lhe fizeste nenhum favor ao vir aqui. Agora, parece ainda mais culpado e o mais provável é que te tenhas envolvido também.
Luc observou como ela ficava pálida. Aquela mulher incapaz de esconder as suas emoções era intrigante.
Mesmo assim, não conseguia acreditar que era inocente.
Nessa estava prestes a perder a esperança. Barbier era tão inamovível como uma rocha. Pousou o portátil e cruzou os braços novamente, apoiando-se na secretária que tinha atrás. Parecia um homem perigoso, sem lugar para dúvidas, pensou ela. Embora não se tratasse de um perigo físico, mas de algo mais pessoal, algo relacionado com a forma como o seu coração acelerava ao olhar para ele.
– Portanto, esperas que acredite que só vieste aqui por amor pelo teu maninho pobre e inocente – indicou ele, num tom brincalhão.
– Eu faria tudo pela minha família – replicou ela, com ferocidade.
– Porquê?
A pergunta apanhou Nessa de surpresa. Ela nem sequer questionara o irmão quando lhe pedira ajuda. Imediatamente, o seu instinto protetor encarregou-se da situação, apesar de ser a irmã mais nova.
A família sempre estivera unida nos tempos difíceis.
A irmã mais velha, Iseult, tomara conta deles depois da morte trágica da mãe, enquanto o pai se perdera no álcool. Iseult protegera os seus três irmãos dos excessos paternos, mesmo quando a sua coudelaria de garanhões fora à falência.
Contudo, Iseult não estava ali naquele momento. Tinha de ser Nessa a ajudar a família.
– Faria tudo porque nos amamos e nos protegemos entre nós.
Barbier ficou calado por um instante.
– Portanto, admites que serias capaz de te tornar cúmplice de um crime.
Ela tremeu. Sentiu-se sozinha até aos ossos. Sabia que podia ligar ao xeque Nadim de Merkazad, o marido de Iseult e um dos homens mais ricos do mundo. De certeza que ele conseguiria tirá-la daquela confusão numa questão de horas. No entanto, Paddy e ela tinham combinado que não diriam nada a Iseult e a Nadim. O casal esperava um bebé em poucas semanas e não queriam causar-lhes nenhuma tensão.
– Não entendes o conceito de família? Não farias o mesmo pela tua? – repreendeu-o ela, erguendo o queixo com um ar desafiante.
Barbier parecia paralisado.
– Não tenho família, portanto, não entendo a ideia, não.
Nessa tremeu por dentro. O que significava que não tinha família? Ela nem sequer conseguia imaginar a solidão dessa situação.
– Se a tua família está tão unida, irei falar com algum deles para que me traga o teu irmão ou o meu dinheiro.
– Isto só tem a ver com o Paddy e comigo – apressou-se a dizer ela.
Barbier arqueou uma sobrancelha.
– Falarei com quem for preciso para recuperar o meu dinheiro e para me certificar de que nada mancha a reputação do meu negócio na imprensa.
Nessa cerrou os punhos, tentando controlar o seu temperamento.
– Olha, sei que não te diz respeito, mas a minha irmã está prestes a ter um bebé. O meu pai está a ajudá-la e o marido e ela não têm nada a ver com isto. Sou totalmente responsável pelo meu irmão.
Luc sentiu uma emoção profunda no peito ao ouvir as suas palavras. Sobretudo, quando lhe era impossível entender o conceito de família, como ela dizia. Como podia, quando o seu pai argelino o abandonara antes de nascer e a mãe instável morrera com uma overdose quando ele tinha dezasseis anos?
O mais parecido que tivera com uma família fora um idoso que vivera na casa do lado… Um homem pobre e solitário que, apesar de tudo, lhe mostrara um caminho para sair do poço.
Luc obrigou-se a bloquear as suas lembranças e a concentrar-se no presente. Chamava-lhe a atenção que aquela jovem ousasse desafiá-lo, mesmo na sua posição delicada. E que não tentasse usar os seus encantos femininos com ele, pois não sabia se conseguira esconder a sua reação com ela. Odiava admiti-lo, mas sentia uma certa admiração por aquela intrusa.
Parecia obcecada com defender o irmão, mesmo quando sabia que podia chamar a polícia e, numa questão de minutos, fazer com que a levassem dali, algemada. Podia fazer com que todo o peso da lei caísse sobre ela, graças à sua equipa eficiente de advogados.
No entanto, a polícia não costumava estar entre as suas soluções para as situações difíceis. Sobrevivera nas ruas de Paris quando era criança e sabia que a vida era um teste de resistência. Também, por experiência própria, aprendera que a polícia nunca estava presente quando era preciso. Por isso, dizer que não confiava neles seria um eufemismo.
Luc gostava de tratar das coisas à sua maneira. Talvez tivesse sido por isso que os rumores o tinham transformado numa espécie de mito.
– E o que fazemos agora? Se estás disposta a tornar-te responsável pelo teu irmão, então, talvez devesses passar-me um cheque no valor de um milhão de euros.
Nessa ficou pálida. Um milhão de euros era mais dinheiro do que alguma vez veria, pensou. A menos que a sua carreira como jóquei descolasse e lhe dessem a oportunidade de montar em corridas importantes.
– Não temos tanto dinheiro – disse ela, com toda a firmeza de que foi capaz.
– Bom, não podemos ir mais longe, então. A coisa está bastante feia. Graças ao que o teu irmão fez, agora, terei de dar outro milhão de euros ao Gio Corretti para que não faça perguntas nem se inquiete por não ter recebido o pagamento.
Nessa sentiu-se enjoada. Não tinha pensado nisso.
– Porque não falas com ele e lhe explicas o que aconteceu?
Barbier riu-se.
– Não acho que seja boa ideia alimentar rumores. As pessoas dirão que invento histórias para não pagar as minhas dívidas.
A cabeça de Nessa dava voltas. Precisava de se sentar.
– Estás bem?
Ela tentou respirar, a sala tornou-se mais pequena. Barbier aproximou-se. Parecia gigantesco. E era a pessoa mais imponente que alguma vez vira.
Era demasiado rico, demasiado bonito, demasiado bem-sucedido. Nessa engoliu em seco.
– Gostaria de poder devolver-te o teu dinheiro agora. Mas não posso. Sei que o meu irmão é inocente, por muito difícil que pareça.
Não conseguira convencer Paddy a voltar para enfrentar Barbier e provar a sua inocência. Esforçando-se, tentou pensar no que podia fazer para compensar as ações de Paddy.
– A única coisa que posso fazer é oferecer os meus serviços enquanto o meu irmão não está cá. Se me tiveres, aceitarás que estou disposta a fazer tudo o que puder para provar que o Paddy não é culpado?
Durante um instante, as palavras de Nessa ficaram a flutuar no ar e ela teve a esperança de ter, finalmente, conseguido fazer com que Barbier a ouvisse. No entanto, ele endireitou-se com uma expressão sombria.
– Devia ter sabido que essa máscara de inocência não podia ser verdadeira – troçou ele, com um olhar de desdém. – Tenho de admitir que teria sido mais fácil se tivesses entrado pela porta principal vestida de uma forma um pouco mais sedutora. Ainda que, de qualquer forma, tenha de te dizer que não és o meu tipo.
Nessa tentou compreender a que se referia. Então, percebeu que interpretara mal o que dissera. Envergonhada, corou de humilhação e raiva.
– Sabes que não me referia a isso.
Ele arqueou uma sobrancelha.
– A que te referias, então?
Ela fez um esforço para manter a calma, apesar de tudo naquele homem a tirar do sério.
– O que queria dizer é que farei tudo o que estiver ao meu alcance para te convencer de que o meu irmão é inocente.