Kitabı oku: «Idyllios á beira d'agua»
Alberto Pimentel
Idyllios á beira d'agua
Romance original

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066412739
Índice de conteúdo
Prologo da 1.ª edição
Prologo da 2.ª edição
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
XXI
XXII
XXIII
XXIV
XXV
XXVI
XXVII
XXVIII
XXIX
XXX
XXXI
XXXII
BIBLIOTHECA HORAS ROMANTICAS
Prologo da 1.ª edição
Índice de conteúdo
Subi em julho d’este anno á montanha umbrosa do Bom Jesus do Monte e repousei o meu espirito, d’umas fadigas em que andava trabalhado, á sombra d’aquellas arvores seculares que ou não envelhecem nunca ou remoçam cada noite para verdejar novas galas ao romper da madrugada...
Quando o romeiro crava o seu bordão n’algum relvoso céspede do ermo sagrado, e sente subitamente embriagados os ouvidos n’aquella primavera inextinguivel chilreada de maviosos trinados, experimenta a influencia benefica d’um elixir mysterioso que se lhe está filtrando no coração, e vae acalmando como por encantamento as tempestades que lá se revolviam momentos antes. Este dulcissimo consôlo experimentei-o eu e experimentam n’o todos os que, na solidão amena, vão desfadigar-se de canseiras intimas.
Na solidão amena disse eu, e quero demorar-me um momento n’este ponto. A solidão profundamente triste e silenciosa quer-me parecer um como remedio heroico para organisações robustas, e só para ellas.
Para as almas que não podem disputar com estas extremos de coragem, e não saem incolumes d’uma procella, a solidão medonha dos desertos seria o mesmo que a morte lenta e desesperada d’um criminoso recluso em carcere cellular.
Subi, pois, a montanha e ia procurando com a vista as arvores que já me tinham dado sombra em romagens anteriores, as fontes cujo suspirar cadenciado eu já tinha escutado, e umas e outras encontrei, as arvores bracejando as mesmas frondes, as fontes suspirosas como d’antes, e concentrei-me então para vêr a minha alma retratada no espelho interior.
Mezes antes, á hora em que eu, longe d’alli, sentia fugir-me a vida e a mocidade, e lançava um como olhar de despedida ás arvores que sacudiam as ultimas folhas, a essa hora, dizia, murmuravam as fontes do Bom Jesus as saudosas queixas de que me lembrava ainda, tranquillas como sempre, e diziam os troncos annosos da montanha ao outomno que se approximava:
«Amarellece, devasta, anniquila, que não entrarás aqui...»
Fui subindo, subindo e remoçando a cada passo que dava, a cada momento que fugia.
Demorei-me tres dias na estancia suavissima do Bom Jesus do Monte, que tanto era preciso para lograr um remoçamento completo, e, na tarde do segundo dia, afigurou-se-me vêr, a distancia, na alameda da Mãe d’Agua, um homem que me inspirara a maxima sympathia quando pela primeira vez lhe falei em Braga—o padre Eduardo Valladares.
O leitor, que não exige que o romancista venha expôr a face do martyr á luz do sol, para que todos o conheçam e o apontem, permitte-me decerto este pseudonymo com que me corre obrigação de velar a verdadeira personagem do mundo real.
Ia o padre Valladares caminhando placidamente, absorto em seus pensamentos, quando commetti a indiscreção de lhe bater no hombro. O padre voltou-se de golpe e extendeu-me os braços alegremente, posto que eu conhecesse que a minha approximação havia quebrado uma serie de pensamentos dolorosos...
Fomos juntos conversando pela alameda acima, até que veiu de geito o dizer-me elle:
—Por que não ha de escrever do Bom Jesus do Monte? Estas arvores sabem tantos segredos, que, se as interrogar, tirará assumpto que farte para muitos livros verdadeiros. Já li o que escreveu do Bussaco[1] e casos tristes, como aquelle, não ha em toda esta montanha um unico torrão que os ignore...
Ia-se alterando a pouco e pouco o semblante do padre, e a sua figura, respeitavel e distincta, parecia contrahir-se como se um espinho agudissimo lhe estivesse atravessando o coração.
Demorou em mim o seu olhar por um momento, e rompeu n’esta apostrophe:
—Se não lamenta ter de perder algum tempo debruçado sobre o abysmo do passado, confie á sua memoria os apontamentos que lhe vou dar.
Até aqui o padre Valladares. Agora duas palavras mais:
O leitor que gostar do romance trabalhosamente architectado, feche o livro e não leia. Aqui não se referem casos tenebrosos, nem se borda a teia, de si mesma singella, com debuxos artisticos. Opulencia, se ha n’este romance, é toda da natureza. O proscenio, o estrado scenico onde as personagens se nos devem mostrar, na maxima parte das vezes outro não ha de ser senão o saudosissimo retiro da Mãe d’Agua assombreado de carvalheiras seculares, cujo sussurro se casa saudosamente com o murmurar da agua que desliza.
Não se reclinam pois os actores em suaves frouxeis; ottomanas não as ha ahi, como todos sabem. Contentem-se com dois canapés rusticos, dois bancos de pedra, que guarnecem a mesa, de pedra tambem.
Alli, na amenidade dulcissima d’um arvoredo frondente, á beira d’agua, a coberto do sol, haveis de encontrar as personagens scismando embevecidas nos idyllios ora tristes ora radiosos do coração e do amor.
D’aqui o titulo do romance.
Porto, 1870.
Prologo da 2.ª edição
Índice de conteúdo
Foi este o meu primeiro romance. É pois um fructo verde, uma tentativa, um ensaio, e mais nada.
Mas quero-lhe como a uma doce recordação do passado, que conservasse um tenue aroma de sachet antigo.
Havia n’elle alguma esperança, alguma promessa de futuro? Esse futuro que eu esperava, cheio de fé, e que já hoje é tambem passado, pode ter produzido cousa melhor, mas eu com certeza a estimo menos do que este romance quasi infantil.
Com que saudade o reli eu agora, sem poder reprimir um affectuoso sorriso de desdem!
É que eu, como todos os novos, presumia-me velho quando era moço.
Parecia-me que vinha de longe, cansado de viver, muito instruido na sciencia do mundo.
E, comtudo, iniciava apenas a minha jornada de escriptor, com a cabeça doudejante de illusões e de sonhos.
Depois... trabalhei e soffri.
Mas a felicidade que me trasbordava do coração quando escrevi este romancesinho, nunca mais voltou.
É que a mocidade não volta.
Lisboa—1903.
I
Índice de conteúdo
Sebastião Valladares tinha carta de bacharel em leis pela Universidade de Coimbra e abrira banca no Porto ao tempo de contrahir casamento com uma senhora bracharense. E certo é que os créditos juridicos de Sebastião Valladares estrondearam em Coimbra durante os cinco annos do seu curso de leis.
Manda, porém, a verdade dizer que a nomeada do talentoso advogado não encontrou entre os demandistas portuenses o écho que remurmurava ainda nos salgueiraes do Mondego. A levada dos clientes, sempre tumultuosa, não affluira á banca do moço bacharel.
João Nicolau de Brito, proprietario em Braga, conheceu que á mediania suada do genro pesava a educação do unico filho que tinha, e chamou á sua companhia o neto, de dezeseis annos d’edade.
—Parece que já não estamos tão sós! dizia João Nicolau de Brito a sua mulher D. Maria d’Assumpção, revendo-se jubiloso no rapazinho de dezeseis annos.
—Pois que! respondia D. Maria d’Assumpção. É sempre consoladora a companhia d’uma pessoa da nossa familia, ainda que seja uma creança.
—Creança! atalhava o esposo. Já não é tão creança como isso. Olha que tem dezeseis annos!
—O que é preciso, porém, é tratar de alliviar ao rapaz as saudades dos paes. Ou elle de si é triste ou se resente da ausencia.
—Tens razão, accrescentava João Nicolau.
—Isso tenho. Já me lembrou combinarmos com as Machados um passeio ao Bom Jesus para o distrahirmos.
—Lembras bem.
—Se lembro! E ellas que hão de gostar. O Eduardo precisa realmente d’uma distracção qualquer. Esta rua do Carvalhal é só e triste. O rapaz passa as tardes á janella por não querer sahir. Tambem tem razão. Não conhece ninguem!
—É isso. Não conhece ninguem—concordou João Nicolau, muito reflexivo.
E accrescentou passados momentos:
—Olha cá! Dá-me da secretária a carta que o pequeno nos trouxe. Ha n’essa carta do Sebastião um periodo que me inquieta. É aquelle em que nos diz que o Eduardo lhe sahira com sua tendencia á poesia!...
—Ora!—proferiu D. Maria d’Assumpção, abrindo a secretária e entregando a carta ao marido.
João Nicolau de Brito montou os oculos, endireitou-se na cadeira e começou a lêr em voz alta:
«... O Eduardo ahi vae; penso que lhes não será rebelde, porque é humilde de si. Amolda-se ás vontades de quem o dirige e parece attentar gravemente no que lhe dizem. Ensinei-lhe tudo o que sabia e podia. Creio que com mais um anno d’estudos preparatorios estará habilitado para entrar n’um curso superior. O destino de meu filho já me não pertence, porém. Pesa me todavia que me sahisse poeta aos dezeseis annos e como por magia! Conheci em Coimbra um rapaz de muitissimos talentos e de seu natural poeta, que por se dar do coração á leitura d’amenidades e aborrecer de morte os alfarrabios da sciencia, teve que luctar com a vontade da familia, que o obrigava a estudar, e com a sua natureza, que o fazia detestar os compendios. Como, porém, não pudesse renunciar á espontanea inclinação, e como não tinha bens de fortuna, succumbiu a uma gravissima affecção moral, que o levou á sepultura, com grande magua de todos os que sabiam aquilatar-lhe a alma e a intelligencia. Desvaneçamos, porém, estas suspeitas; não quero que me chamem visionario. Ahi vae, pois, o pequeno...»
João Nicolau de Brito abanou a cabeça com um gesto solemne e descahiu a scismar.
Atalhou-o, porém, a esposa, batendo lhe no hombro e dizendo ao mesmo tempo:
—Deixa-te de visões! Tratemos de distrahir o rapaz. Iremos domingo ao Senhor do Monte.
—Olha! disse de subito João Nicolau de Brito, como se houvesse despertado d’um somno momentaneo. Ha, porém, um inconveniente n’esse passeio...
—Qual?
—A convivencia com as Machados.
—Ora!
—Ora que!? Tu parece que não sabes o que é ser novo! Eu não me refiro á Rosa Machado. Falava da Maria Luiza, da irmã, que é outra doida por versos, que ha de conversar de poesia com o rapaz, e que por fim ha de vir a falar d’amor como quem se deixa ir ao som d’agua corrente...
—Ora ahi está o que eu approvo, atalhou D. Maria d’Assumpção. Essas práticas lyricas entre os dois ajustavam-se á occasião e vinham de geito. Ainda que o lyrismo do espirito descambasse em lyrismo do coração, ainda que a poesia se transformasse em amor, que inconvenientes poderiam vir d’ahi? Eram verduras da mocidade, que distrahiam o rapaz e que por fim de contas haviam de acabar no momento em que elle se aborrecesse.
—Tambem me parece... Que lá padre, dê por onde der, quero eu que elle seja. Sahiu dado a poesias? Melhor! Será um prégador de fama.
—Ha de ser tudo o que tu quizeres... Mas supponhamos até que o Eduardo começava a arrastar a aza á Maria Luiza. Travava-se o namorico, carta d’aqui, versos d’alli, uma semana d’ataque, outra semana d’aborrecimento, e por fim o rapaz curado da sua nostalgia em quinze dias.
—Mas não falaste ahi em aborrecimento? ponderou gravemente João Nicolau de Brito.
—Falei, respondeu com convicção a sogra de Sebastião Valladares. Mas refiro-me ao aborrecimento que de si mesmos trarão uns amores pueris. Depois, para curar esse aborrecimento, principia-se novo galanteio a nova estrella, e ahi começa a chrysalida a tornar-se borboleta e a perseguir as flores.
—Olha que as flores teem espinhos... atalhou João Nicolau de Brito meneando a cabeça.
—Cala-te! replicou D. Maria. Os espinhos das mulheres são... os alfinetes. Em nome do sexo, agradeço-te a amabilidade.
—Não tens que agradecer, disse João Nicolau rindo e batendo as palmas de contente.—Sim, senhora! Vossa excellencia está hoje espirituosa! Receba os meus parabens. Iremos ao Bom Jesus quando quizer e mande convidar as familias do nosso conhecimento para nos fazerem companhia esta noite. Solemnizemos a recepção do rapazinho. Se queres que te diga—accrescentou mudando de tratamento—tive hontem pena d’elle. Eram dez horas e já tinha somno. Tambem não sei o que fazes do piano! Já és avó, é verdade, mas a velhice ainda não te immobilisou os dedos. Pois venham lá as Machados, e haja ao menos musica uma noite...
—Então queres?
—Quero. Manda convidar. Que lá padre ha de elle ser. Ainda lhe hei de ouvir um sermão...
—Se não fôr seccante, disse D. Maria d’Assumpção sahindo da sala.
II
Índice de conteúdo
Thomaz Ignacio Machado tinha sido um homem dinheiroso. Abriu, em Lisboa, os salões do seu palacete á flor da aristocracia olyssiponense, deu bailes esplendorosos, pompeou em cavallos e trens, teve aventuras com dansarinas de S. Carlos, jogou o monte com a sobranceria d’um homem que não joga para ganhar e... achou-se arruinado no dia em que pensou no futuro que o estava esperando.
O Creso, apeado do seu pedestal de ouro, emboscou-se nas moitas verdejantes d’uma quinta proxima a Braga, e ahi veiu descansar das saturnaes esplendidas de Lisboa com o intuito de bemfeitorisar as propriedades obrigadas ao dote da mulher e de velar por tres innocentes meninas, suas filhas, salvas da tormenta na arca sagrada do coração materno.
Chamava-se Emilia a mais velha, que morreu aos vinte e dois annos tisica, se não victima d’uns amores desventurosos, que não fazem ao nosso proposito.
Rosa e Maria Luiza viviam ainda, como o leitor inferiu do capitulo anterior.
A custo de muitas economias pôde Thomaz Machado rehabilitar a casa consideravelmente esbanjada e obter os rendimentos necessarios, não para a vida faustosa de Lisboa, mas para uma decencia estimavel então, e invejavel ainda hoje.
Veiu, pois, Thomaz Machado residir em Braga, e, após dois annos de apartamento na quinta do Prado, alugou casa na rua de Santo André.
A mallograda Emilia morrera na quinta do Prado, ao cabo d’um anno de tão melancholico exilio.
Rosa, no tempo a que somos obrigados a remontar, tinha vinte e um annos; Maria Luiza, dezenove.
Rosa não era uma belleza. Tinha, porém, um trato tão suave e delicado, um quê de meiguice e de ternura, que diffundia encanto. Maria Luiza, ao contrário da irmã, era um demonio bonito. Conversava com os homens mais do que com as senhoras, valsava com delirio, tinha a ironia prompta e o epigramma certeiro, tocava piano e recitava versos, cantava seguidillas e desvelava um vaso d’alecrim do Norte que tinha ao canto da janella. Era trigueira e possuia uns olhos negros que nadavam em luz. Parecia que não andava; voava. Ouvia-se um ruflar de azas; olhava-se... era ella. Não houve ainda mulher mais flexivel, nem mais elegante. Era quasi uma columna de fumo, que ondulava no espaço e que desapparecia com um sôpro. Lembra-me comparal-a áquella creatura aerea, vaporosa, que nós conhecemos d’um livro d’Octavio Feuillet. Maria Luiza tinha seus laivos da condessinha do escriptor francez. Era porém mais intelligente e menos desenvôlta. Ainda assim com que salero, puramente andaluz, não batia ella as mãos, correndo do seu alecrim para o seu piano e entoando a meia voz um fragmento de seguidilla:
El amor que te tengo
parece sombra;
quanto mas apartado
mas cuerpo toma.
La ausencia es aire
que apaga el fuego chico
y enciende el grande.
Depois, se a irmã se sentava ao piano e voejavam ao longo da sala notas de suavissima tristeza, como um bando de rôlas viuvas que se andassem carpindo, Maria Luiza, para se furtar á impressão dolorosa da musica, batia o pésinho no chão e começava, saltando, a cantar.
Havia só um nome, só uma palavra, que a fazia entristecer subitamente. Era o nome de sua irmã Emilia. Tinham sido duas irmãs extremosas, que viviam uma para a outra.
Ás vezes, n’um momento de dolorosissima saudade, dizia a inquieta donzellinha:
—Quem sabe se virei a morrer da morte de minha irmã? Talvez. Eramos tão amigas!...
Estavam na quinta do Prado, como já se disse, quando Emilia morrera. Os tisicos enganam até ao ultimo momento; ninguem esperava que ella passasse n’aquelle dia. Rosa tocava, na sala proxima, umas variações da Norma; Maria Luiza falava com a doente a respeito das andorinhas e do sol, das flores e das borboletas, das noites de luar e dos rouxinoes. De repente a irmã interrompera-a, para segredar-lhe:
—Ouves? É a musica do noivado. O meu noivo espera-me. Has de me dar um ramo de lirios para levar no seio. Eu gosto tanto dos lirios! Os rouxinoes são meus amigos. Esperava este momento com anciedade; elle já me espera ha dois annos e devia ter saudades de mim. Morreu tão novo! Ouves, minha irmã? A musica continua. São as andorinhas, que chilriam... Dá-me um beijo; as borboletas são irmãs das flores e tambem se beijam.
Ouviu-se o frémito d’um beijo e o som agudo d’um grito. Era a voz de Maria Luiza. Sua irmã tinha morrido a beijal-a, como se quizesse transmittir-lhe a vida n’um beijo.
Ao grito de Maria Luiza acudiu o pae, a mãe e a irmã. Já chegavam tarde, porém.
Desde aquelle dia, Maria Luiza entristecia-se quando lhe falavam d’essa hora amargurada. Tornou-se amiga de todos os que eram amigos de sua irmã e ia todos os domingos ao cemiterio d’aldeia poisar um ramo de flores sobre o tumulo fechado havia pouco tempo. Quando vieram habitar em Braga, Maria Luiza soffreu muito com a falta da visita ao cemiterio, ou com a ausencia de sua irmã, como ella dizia. Aos domingos, todavia, era quando mais cantava o
El amor que te tengo
parece sombra...
e dizia a Rosa que se via obrigada a cantar para reprimir as lagrimas no seio.
Thomaz Ignacio Machado morreu em Braga, dezoito mezes depois de ter sahido da quinta do Prado. Chorou-o a esposa, choraram-n’o as filhas estremecidas e choraram-n’o todos os que viam n’elle um homem remido das faltas do passado por um longo soffrimento.
III
Índice de conteúdo
João Nicolau de Brito e sua mulher receberam, como tinham combinado. Concorreram á soirée as familias de mais intimo trato n’aquella casa. Abriu-se o piano, n’essa noite, e desterrou-se o loto, que era já então o maximo divertimento dos serões bracharenses e continua a ser para eterna semsaboria das noites de Braga.
A dansa, a alegria, a musica tomaram a vez ao jôgo. Eduardo era a machina motora de tão notaveis reviramentos na casa de dois velhos amolestados de rheumatismo e outros gravames da velhice. Abriu-se a soirée com uma quadrilha. Eduardo fez o milagre de tentar a avó e conseguiu que a pobre senhora figurasse no—en avant—a par de tres raparigas, incluindo as irmãs Machados. João Nicolau de Brito jubilou com a delicadeza do neto e apresentou-o, finda a dansa, como poeta, ás pessoas que estavam na sala.
O amor proprio tem d’estes paradoxos. João Nicolau desestimou a qualidade de poeta na pessoa do neto; agora, lisonjeado da muita delicadeza d’elle, folga de que o rapaz se extreme dos outros com merecimentos distinctos.
As senhoras festejaram a denuncia de um talento precoce, que não tinham avaliado ainda, do filho do bacharel.
Correu n’esse momento ao longo da sala um sussurro de vozes: era o cochichar de meia duzia de raparigas tentadiças com poetas, sob o commando de Maria Luiza, idealista por excellencia.
—É dever teu, Eduardo—disse de golpe D. Maria d’Assumpção—comprovares a opinião antecipada, que de ti formamos. Recita-nos alguma coisa.
—De boa vontade, minha senhora—respondeu elle—se não receasse a indelicadeza d’incommodar v. ex.ᵃˢ e não me conhecesse com o vezo de ser horrivelmente desmemoriado.
—Vá o que lembrar—accrescentou João Nicolau.
—Mas coisa da tua lavra—tornou D. Maria d’Assumpção.
—Folgamos d’ouvil-o—disse Maria Luiza.
Eduardo percebeu que seria indelicadeza imperdoavel o desculpar-se mais.
—Ahi vão, disse elle, seis quadras que não valem nada. Intitulam-se:
Frémitos
Quando tu vaes á janella,
Á noite, e pensas em mim,
Ha uma voz que diz—Ella!
—São os lirios do jardim...
Se d’um livro sobre a folha
Te pende a cabeça e o véo,
Ha uma voz que diz:—Olha!
—É o mar chamando o céo...
Quando esse teu olhar mede
Todo o horizonte do sul,
Ha uma voz que diz:—Vêde!
—Talvez seja a voz do azul...
Se, ao fim da tarde, á janella,
Olhas, nem sabes o que,
Ha uma voz que diz: Bella!
—É a voz do que se não vê...
Mysterios que eu não abranjo!
No jardim, ao pôr do sol,
Ha uma voz que diz:—Anjo!
—A voz d’algum rouxinol...
Quando ha luar e te chamo
Entre as moitas d’alecrim,
Se ha uma voz que diz:—Amo!
Penso que a voz sae de mim...
Estrondearam na sala freneticos applausos.
O moço poeta, de dezeseis annos, agradecia a ovação espontanea e unanime com mostras de modestia e ingenuidade estimaveis.
Merecidos eram sem dúvida taes applausos.
Nos versos do filho do bacharel Valladares havia poesia, se poesia se pode chamar este alar-se da alma para um mundo phantastico onde se ama já uma mulher que ainda se não viu.
Os que entendem que a poesia é uma coisa que elles mesmos não entendem, o nebular a phrase de modo a encobrir a carencia d’uma idéa aproveitavel, esses, apostolos do germanismo transmontado, rir-se-hão da futilidade d’um poetar singello cadenciado na lyra incorrecta dos dezeseis annos.
Maria Luiza Machado, como enthusiasta por versos, pediu ao poeta a cópia dos seus. Isto bastou a travar-se conversação.
—Bem me parecia—disse ella—que o seu coração devia, para cantar mavioso aos dezeseis annos, sentir um raio de sol que o inspirasse.
—Peço desculpa para redarguir a v. ex.ᵃ Os meus versos são talvez uma prophecia. A alma, ainda não adestrada para luctar com as procellas do mundo real, cria para si uma região phantastica.
—Seja como fôr, tornou ella. Desejo possuir os seus versos. Quando m’os dá?
—Amanhã.
Pactuou-se, no fim da soirée, o primeiro passeio ao Bom Jesus, no domingo proximo.
Recordações d’essa noite ficaram muitas e immarcessiveis na alma de Eduardo Valladares. Depois da ultima quadrilha, quando os convidados retiraram e a sala ficou deserta, é que foi o escurecer-se subitamente aquella alma, que mergulharia em profundas trevas, se a imagem esplendida de Maria Luiza lhe não rareasse, a instantes, as sombras interiores. Um olhar e uma phrase d’ella fôram as ultimas impressões d’essa noite.
—Seja como fôr. Desejo possuir os seus versos, disse-lhe ella.
E abriram-se-lhe os labios n’um sorriso de fada.
—Mas, dizia de si para si o filho do bacharel Valladares, tenho apenas dezeseis annos e deixo-me assim embalar nos braços de uma esperança dulcissima que me pode fugir amanhã!
Durante os dois dias que decorreram desde essa noite até o domingo seguinte, annuviou-se o semblante de Eduardo a ponto de João Nicolau fazer reparo na extranha tristeza do rapaz. Quedou-se o velho a scismar no visivel desgôsto do neto e não lhe rasteou origem. Isto inquietara-o sobremaneira. Revelou á esposa as suspeitas e dúvidas que o embaraçavam; conchavaram-se os dois no proposito de dar finalmente com a chave mysteriosa do enigma.
Passadas algumas horas depois d’este secreto colloquio dos dois velhos, D. Maria da Assumpção foi dar com o neto emboscado na ramaria d’uma olaia que sombreava o angulo do quintal. Estava o moço d’olhos pregados no horizonte recortado pelas arvores verdejantes dos quintaes da rua de Santo André.
D. Maria d’Assumpção seguiu por alguns momentos a direcção do olhar do neto e o mesmo foi despeitorar-lhe os mais intimos segredos do coração. Subiu as escadas precipitadamente e chamou o marido a uma das janellas sobranceiras ao quintal.
—Olha, disse-lhe ella apontando para o neto. O coração—o coração dos dezeseis annos sobretudo—ha de ter sempre d’estas contradicções. O excesso da felicidade acarreta d’estas maguas. O que elle deseja é o momento de tornar a vêl-a... São chuveiros d’abril, que não inspiram cuidado.
—Olha que a mocidade d’agora começa muito cedo a tresnoitar-se! O amor dos dezeseis annos! Lêsse-se este caso n’um livro a ver se alguem o acreditava! No nosso tempo não se vivia tanto em tão poucos annos.
—Ahi estás tu a denunciar a edade que tens! É sestro dos velhos andar a reprehender os novos, e o que elles pensam e fazem. Não se vivia tanto em tão poucos annos! disseste tu. Já te não lembras da historia d’uns amores em que falas quando vem de geito citar façanhas da mocidade...
—É uma historia que tem graça. Da janella do meu quarto, no collegio onde me eduquei, andava eu a espreitar nas horas de recreio para a janella d’um terceiro andar onde morava uma costureirinha d’olhos negros...
—Uma costureirinha! O teu neto revela mais fidalgos e poeticos instinctos. Ama romanescamente. Tu andavas mais terra a terra. Não tens que vêr. Iremos domingo ao Bom Jesus.
—Iremos se quizeres. Não sei que systema teem ás vezes as mulheres!
—O meu systema é o do jardineiro experimentado. É preciso cuidar da flor, dar-lhe sol, para que desabrochem depois todas as galas que a Providencia lhe der.
—Anda lá, anda lá, quero ver se a theologia lhe ha de dar tempo para andar com a cabeça á roda!