Kitabı oku: «O poeta Chiado (Novas investigações sobre a sua vida e escriptos)»

Yazı tipi:

Alberto Pimentel

O poeta Chiado (Novas investigações sobre a sua vida e escriptos)


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066407032

Índice de conteúdo

I

II

III

IV

V

VI

Reverendo frei Chiado de Virtude grande imigo, sente tua alma comtigo e verás se estas desculpado d'isto que agora te digo. AFFONSO ALVARES.


LISBOA

Empreza da Historia de Portugal.

Sociedade editora LIVRARIA MODERNA R. Augusta, 95 TYPOGRAPHIA 35, R. Ivens, 37 1903


I

Índice de conteúdo

As relações de amizade entre os vivos e os mortos são menos quebradiças e ephémeras do que as dos vivos uns com outros.

E a razão é facil de explicar: quem vai, não volta.

Os mortos não falam, não intrigam, não atraiçôam, não desmerecem, por isso, da estima e consideração em que uma vez os tomamos.

Affeiçôa-se a gente a um escriptor, a um maestro, a um pintor ou a um estatuário, que morreu ha muitos annos ou ha longos seculos, e não deixamos apagar nunca a lampada do seu culto: colleccionamos-lhe as obras sem olhar a dinheiro, por mais raras que sejam; conservamol-as em grande veneração como thesouros que um avarento aferrolha a sete chaves; e estamos sempre promptos a combater de ponto em branco pela gloria e belleza de suas producções, quando apparece algum zoilo a menosprezal-as com azedume.

E se nas relações com os vivos fazemos selecção do caracter d'elles para estabelecer convivencia e amizade, pouco nos importa a condição e procedimento dos mortos quando os estimamos em suas creações artisticas ou literarias com intransigente fanatismo.

O meu fallecido amigo visconde de Alemquer, que era um gentleman distinctissimo, primoroso em maneiras e acções, além de ser um biblióphilo digno de apreço e consulta, tomou tanto gosto pelas obras do padre José Agostinho de Macedo, que passou a maior parte da existencia a colleccional-as por bom preço e a muito custo.

Comtudo, havia tanta disparidade entre o caracter de um e do outro, porque o auctor dos Burros foi o mais atrabiliario, inconstante e perigoso homem de letras de todo o nosso Portugal, que o visconde de Alemquer, se houvesse sido contemporaneo do padre José Agostinho, nunca teria podido ser seu amigo, nem seu defensor, nem jámais o quereria vêr em intimidade de portas a dentro.

Pela minha parte, tambem sou obrigado a confessar um similhante fraco, não pelo mesmo padre, mas por outro que, sob o ponto de vista da disciplina monastica e da dignidade sacerdotal, não valia mais. Refiro-me ao franciscano Antonio Ribeiro o Chiado, que tambem despiu o habito e foi tunante irrequieto, sendo egualmente homem de letras.

Até 1889, anno em que logrei dar a lume as suas obras, quasi perdidas, e geralmente desconhecidas[1], custou-me o Chiado bom trabalho e canceiras para resuscital-o aos olhos do grande publico em toda a sua individualidade literaria.

[1] Obras do poeta Chiado, colligidas, annotadas e prefaciadas por Alberto Pimentel. Na officina typographica da Empreza Literaria de Lisboa, calçada de S. Francisco, 1 a 7.

D'então para cá não deixei de pensar n'elle a investigar-lhe a biographia, que é das mais obscuras e complicadas, e a procurar aquellas de suas obras que até 1889 não consegui haver á mão por mais que as desejasse e buscasse.

Alguma coisa achei n'este lapso de onze annos. Não é tudo ainda. Mas não perdi o tempo, nem parei, porque me repugna a inercia, e porque, verdade-verdade, tomei gosto ao Chiado, que não foi um vulto preeminente nas letras, mas que tem relevo como bohemio e dizedor, como trovista alegre e zombeteiro, farçante popularissimo, que a praça publica applaudia e que os escriptores mais notaveis não desconsideravam.

Outros meus contemporaneos teem consagrado todo o seu tempo ao Chiado rua, e talvez esses se riam de mim, que prezo mais o literato do que o Regent Street alfacinha.

Todavia, cumpre advertil-os de que a rua lembra o escriptor, e de que foi elle, como julgo poder demonstrar agora, que deu nome á rua.

Eu já em 1889 pendia para esta opinião, comquanto, n'essa epocha, só houvesse encontrado vestigios de que a rua tinha aquella denominação no seculo XVIII.

Depois d'isso, alguem lembrou que já era assim chamada na primeira metade do seculo XVII (1634) como se reconheceu por um documento digno de fé[2].

[2] Elementos para a historia do municipio de Lisboa, tomo IV, pag. 41. Ahi se vê que o conde de Atouguia morava «ao Chiado».

E eu proprio li, posteriormente, uma referencia mais antiga, porque é relativa á primeira década do mesmo seculo XVII: «Outras casas do bairro do Marquez ficavam situadas ao Chiado, quando se entra na rua Direita da Porta de Santa Catharina (1610)[3]»

[3] Archivo Nacional. Chancellaria de D. Filippe II. livro XIX, fol. 269.

Mas hoje cuido trazer prova convincente de que foi o poeta que, por consenso espontaneo do povo, deu o nome de Chiado á antiga rua da Porta de Santa Catharina ou a parte d'ella.

O povo baptiza melhor do que a camara municipal, porque baptiza com mais acerto, quasi sempre com inteira razão de ser; por isso, nome que elle ponha, péga, fica, perdura.

E, não obstante a camara municipal mudar em 1880 o nome á rua, de Chiado para Garrett, o povo não quiz saber de reviravoltas de letreiros nas esquinas: continua a chamar-lhe Chiado; Chiado é que é, porque o povo quer que seja assim.

As novas descobertas que hoje tiro a lume sobre a vida azevieira do poeta Chiado, anecdotas passadas entre o povo e com o povo, das quaes resulta que elle foi um bohemio tão acabado e popular no seculo XVI como Bocage o veiu a ser no seculo XVIII, essas novas descobertas, dizia eu, acodem a reforçar a prova, que em documentos colhi, de haver sido elle que celebrizou a rua em que morava e que por esse facto, sem que ninguem o decretasse, mas porque todos assentiram, ficou a alcunha do poeta tradicionalmente ligada á rua como um padrão de celebridade local[4].

[4] De todas as ruas de Lisboa o Chiado é a mais cantada e decantada. Na literatura, além de infinitas referencias, tem fornecido o titulo de algumas obras: Do Chiado a Veneza por Julio Cesar Machado (1867); Viagens no Chiado por Beldemonio (Ed. de Barros Lobo) 1857; A campanha do Chiado, scena comica; Trez ao Chiado, cançoneta. No principio do anno de 1868 começou a publicar-se em Lisboa um periodico com o titulo O Chiado, em formato grande e excellente papel. Teve ephémera existencia. No no 5. correspondente a 6 de fevereiro, inseriu um artigo do sr. Brito Rebello sobre o poeta Chiado. D'esse artigo recortamos os seguintes periodos:

«Mas d'onde lhe veiu a alcunha: Eis os eruditos em duvida. A opinião correntia até alguns annos era de que esta lhe proviera da rua onde habitava, que era a parte da subida desde o Espirito Santo, hoje palacio da casa de Barcellinhos, até á rua de S. Francisco (Ivens). Ha porém um contra: em monumento ou documento algum anterior ao seculo XVI, se encontra tal designação. É pois mais natural a hypothese do sr. Alberto Pimentel, de que do poeta veiu o nome á rua.»

A hypothese, formulada em 1889, é hoje uma these documentada.


II

Índice de conteúdo

Eu conjecturei em 1889 que--Chiado--era alcunha popular e nao appellido de familia. Hoje possuo provas de ter havido no districto de Evora, d'onde o poeta era natural, uma familia de appellido Chiado, anterior ao poeta.

Bem pode ser que o appellido proviesse de alcunha, no sentido em que a tomei[5], o que muitas vezes acontece. Mas não ha duvida que já no seculo XV existiam Chiados no baixo Alemtejo.

[5] Ver Obras do poeta Chiado, pag. XXVIII a XXX.

Perante D. João II queixaram-se João Lopes Chiado e Francisco Lopes Chiado, ambos eborenses e irmãos, contra a perseguição judicial que lhes moviam Ayres Gamito e Gonçalo d'Elvas, serviçaes d'el-rei.

Por carta regia, datada de Evora, D. João mandou annullar-lhes a culpa deixando-os illibados[6].

[6] Archivo Nacional. Chancellaria de D. João II, liv. 17, fl. 89, v.

No seculo XVI havia em Montemor-o-Novo um Antonio Fernandes Chiado, homem muito pobre, a quem D. João III perdoou o delicto (em 11 de setembro de 1553) de ter caçado perdizes com boiz, contra o que dispunham as Ordenações[7].

[7] Archivo Nacional. D. João III. Perdões e legitimações, liv, 19, fl. 398, v.

Mas nenhuma d'estas noticias vale tanto como a de ter existido ao tempo do poeta, no anno de 1567, em Lisboa, uma Catharina Dias, «dona viuva», mulher que foi de Gaspar Dias o Chiado, a qual residia «na rua Direita da Porta de Santa Catharina.»

Colhi esta noticia n'um documento authentico[8].

[8] Archivo Nacional. Collegiada de São Julião de Lisboa, maço unico no 14. Instrumento lacerado no fim. Transcrevemos apenas o começo, por ser a parte que mais nos interessa:

«Em nome de deus amem sajbam quãtos este estromento de emnouacão de prazo e nouo emprazamento vyrem que no Anno do nascymento de nosso senhor Jesus Christo de myll e quinhentos e sesemta e sete Aos tres dias do mes de Junho na cydade de llixboa demtro da parochiall Igreya de sam Gjão estãdo ahy de presente o senhores lljonardo nardez de cyxo (sic) prior da dita Igreya e guomcallo diaz e Jorge Rebejro e pedro ortyz e ffrancisquo de lhãnes beneffyciados em ella todos presentes e Imtaresemtes na dita ygreya e todos jumtos e cõgregados por som de campam tãgjda em cabido e cabydo ffazemdo ffazemdo (sic) especyallmente sobre o auto de que abayxo ffara memçam e todos de huã parte e da outra estamdo a esto presente cateryna diaz dona veuua molher que ffoy de gaspar diaz o chyado dalcunha vynhateyro que deus aja e ella vyue hora nesta cidade na Rua derejta da porta de samta cateryna e lloguo por elles senhores pryor e majs beneficiados ffoy dyto que amtre os majs bens e propriadades que A dita Sua Igreja pertemce e de que ella esta de pose como derejto senhoryo asy sam huas cassas que estão nesta cydade no topo da callcada de pay de nabays na Rua derejta da porta de samta cateryna as quoajs pessue hora como vtill senhoryo A dyta caterina diaz por as nomear em ellas por segunda pessoa o dito gaspar diaz chyado que nellas hera a primeira pessoa comfforme ao emprazameto que dellas lhe ffoy ffeyto por A dyta Igreya pryor e benefficiados della e pagua de fforo myl e trezemtos e cimquoenta reis em cada num Anno com galljnhas e tudo e com outras majs comdjcões e obrigações de seu comtrato, etc.»

Ora ahi se diz textualmente a respeito d'aquella Catharina Dias: «molher que ffoy de gaspar diaz o chyado dalcunha vynhateyro que deus aja.»

A falta de pontuação nos documentos antigos dá origem a muitas escuridades e equivocos. Assim, na phrase que deixamos transcripta, poderiam caber duas interpretações: que Gaspar Dias tinha a alcunha de Chiado ou tinha a alcunha de Vinhateiro. Mas a anteposição do artigo á palavra--Chiado--reforçaria por si mesma a hypothese de ser alcunha, se a não confirmasse plenamente esta passagem que se encontra no texto do documento:

«Aos seys dias do mes de junho de myll e quynhemtos e sesemta e sete Annos na cydade de llixboa Rua derejta da porta de ssamta cateryna nas cassas de caterina diaz A chiada dalcunha donna veuua etc.»

Assim, pois, ficamos seguros de que o Gaspar Dias da rua Direita da Porta de Santa Catharina não tinha o appellido de Chiado, como alguns individuos do Alemtejo, mas sim a alcunha, e de que exercia a profissão de «vinhateiro» por ser viticultor ou negociante de vinhos. Bem poderia succeder que os vendesse a retalho na propria casa de residencia, especie de estalagem talvez, onde admittisse hospedes.

Ücretsiz ön izlemeyi tamamladınız.

Türler ve etiketler

Yaş sınırı:
0+
Litres'teki yayın tarihi:
15 ocak 2025
Hacim:
55 s. 10 illüstrasyon
ISBN:
4064066407032
Yayıncı:
Telif hakkı:
Bookwire
İndirme biçimi: