Kitabı oku: «O Romance da Rainha Mercedes»

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Alberto Pimentel

O Romance da Rainha Mercedes


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066411596

Índice de conteúdo

OS REIS

I OS REIS

ELLE

II ELLE

ELLA

III ELLA

O AMOR

IV O AMOR

JUBILOS

V JUBILOS

PRELUDIOS

VI PRELUDIOS

A BENÇÃO

VII A BENÇÃO

FESTAS

VIII FESTAS

PRESAGIOS

IX PRESAGIOS

NOIVANDO

X NOIVANDO

AGONISANDO

XI AGONISANDO

MORTA!

XII MORTA!

O FUNERAL

XIII O FUNERAL

LUCTO

XIV LUCTO

VIUVEZ

XV VIUVEZ

A BAZILICA

XVI A BAZILICA

OS REIS

Índice de conteúdo

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I
OS REIS

Índice de conteúdo

Que secreto mobil determina as evoluções da humanidade atravez dos tempos? Que mysteriosa lei regula os destinos das sociedades no discorrer dos seculos? Eis o grande problema que ha duzentos annos preoccupa o espirito humano. É a Providencia: diz Bossuet. As nações teem uma natureza commum; a humanidade é obra de si mesma: sustenta Giambattista Vico. É a influencia do clima: propõe Montesquieu. É a fatalidade cega: proclama Voltaire. É Sua Magestade o Acaso: teima Frederico II. É a situação geographica: aventa, por sua vez, Herder, o philosopho allemão. E todavia o problema ainda não está resolvido, a grande duvida permanece não{10} obstante os incontestaveis progressos da philosophia cada vez mais pejada de systemas...

Os acontecimentos succedem-se n'uma variedade caprichosa, que parece intencionalmente destinada a desorientar os philosophos da humanidade e da historia.

Hontem os reis eram personalidades sagradas, representavam na terra o poder divino. D'esta alliança do céo com o throno nasceu a corôa encimada pela cruz. O montante real estava ao serviço da religião; dizimava, como um vendaval de morte, os exercitos dos que não tinham a mesma crença religiosa. Beijava-se a mão dos reis como ainda hoje se beija a fimbria do vestido de uma santa. Elles eram recebidos, por toda a parte, debaixo do pallio, como uma reliquia. Os que os viam, ajoelhavam, como se faz para orar.

Hoje... Hoje os reis, no mesmo dia em que sobem ao throno, sonham com a via dolorosa do exilio. Sobre os almadraques do aposento real estão os preparativos indispensaveis para a jornada do desterro: o bordão do peregrino, e o chapeu do romeiro. No meio dos saraus da côrte ou nas horas silenciosas da meditação, elles ouvem, como um rumor sinistro, como uma voz presaga, o echo da revolução que se aproxima, como uma onda enorme, ameaçadora.{11} Olhando para seus filhos, estremecem de horror, porque se lembram de que talvez um dia aquellas mimosas creanças terão de sentar-se á mesa do sapateiro Simão. Muitas vezes, contemplando o perfil melancolico da mulher que com elles comparte os cuidados da realesa, julgarão talvez que ella está já sob a pressão de uma loucura saudosa, como a viuva de Maximiliano. Um dia, d'entre o povo que outr'ora os abençoava, ergue-se um braço regicida, o de Hœdel ou de Nobiling, de Moucosi ou Passavante. Até a vida dos reis principia a ser disputada nos clubs secretos, como se fosse de uma fera. As arvores das alamedas publicas sacodem ao vento umas folhas crestadas e crivadas, como na Avenida das tillias; passou por ellas o fogo que devia fulminar o rei. Transformação completa!

Cesar Cantu deu por base á Historia as ruinas. Assim é com effeito. Esta pyramide, que memóra os seculos, e que se chama a Historia, é feita d'escombros. A hora em que desabam os thronos, sobram portanto os materiaes para historiar, a não ser que alguem os queira aproveitar para levantar cadafalsos como no tempo de Luiz XVI.

Nós temos pelos reis, n'esta hora tão açoitada de paixões politicas, um respeito{12} melancolico, uma consideração dolorida. Vemos n'elles, desde que nascem, os escravos de uma corôa. Muitas vezes quizeramos repartir com elles a nossa obscura liberdade de fallar, de trabalhar, de viver. Desejavamos dar-lhes o nosso direito de se desafrontarem pela penna, pela palavra, pela espada. Folgavamos de lhes poder pôr no peito um coração para amar, para eleger esposa, como todos nós fazemos—menos elles. Depois, quando os vemos partir para o exilio, já velhos como Napoleão III, ainda creanças como Affonso XII, assistimos pela imaginação aos mais intimos episodios da vida de familia, que para elles deve de ter ao mesmo tempo o encanto da surpresa e o travor da amargura, o que faz com que nem no exilio sejam inteiramente felizes os reis.

Affonso XII offerece, na historia das monarchias modernas, um exemplo notavel: principiou por onde os outros acabam,—pelo exilio. Conheceu-o, sendo ainda principe. O seu coração formou-se lentamente na saudade confusa da patria, e no habito de ouvir pronunciar a palavra—destêrro. Ao passo que os mais obscuros collegiaes da provincia fallavam, no collegio de Theresianaw, em Vienna, nos bosques e nos campos da sua terra natal, o filho da que havia sido rainha de Hespanha{13} olhava melancolicamente para as arvores que a Austria lhe emprestava por compaixão, e não tinha siquer uma recordação da infancia para acrescentar áquelle poema de saudade que os seus condiscipulos estavam devaneiando.

Mas o principesinho hespanhol pôde, sem o suspeitar decerto, tirar do exilio um grande ensinamento: que um rei deve preparar-se para o exilio. Como? Obstinando-se em amar livremente. Escolhendo noiva, em vez de acceitar a que lhe escolheram. Procurando uma mulher que, pelo amor, possa supprir a patria, quando a rainha desappareça.

Por isso, depois que o golpe de estado de Martinez Campos o chamou ao throno onde porventura encontraria ainda alguma pallida flôr desprendida das tranças de uma bella italiana, a rainha Maria Victoria, e quando de repente, no meio das pompas da acclamação, cuidou ler mais uma vez n'essa flôr desbotada a triste verdade da instabilidade das monarchias modernas, Affonso XII lembrou-se de que se devia preparar para o exilio, sem mesmo poder ter a certeza de que as petalas que encontrava esparsas sobre o throno de Hespanha fossem os despojos de uma grinalda da princeza de Aosta ou da rainha Izabel, sua mãe...{14}

Desde esse momento a imagem adorada de Mercedes, a neta de um rei desthronado, fixou-se no seu coração. A imaginação peninsular do rei idealisou a desgraça do exilio, como se nunca a houvesse conhecido, tendo aquella mulher ao pé de si. Com ella, levaria a familia, para onde quer que fosse, e a patria, porque ella tambem era hespanhola. Então principiou a desdobrar-se aos olhos da Europa o formoso poema da resurreição dos grandes amores antigos e cavalheirescos.

Como nos romances da idade media, o braço descarnado da morte imprimiu n'esse poema escripto em folhas de rosa o sêllo de uma fatalidade mysteriosa, extranha. O lucto da viuvez envolveu de repente o throno de Hespanha e o coração do rei amantissimo.

É a historia d'esse grande amor e d'essa grande fatalidade o que nós intitulamos, aproveitando o doloroso colorido dos factos, O romance da rainha Mercedes.{15}

ELLE

Índice de conteúdo

{17}

II
ELLE

Índice de conteúdo

O rei de Hespanha faz lembrar estas plantas mimosas que, nascendo no topo de um outeiro batido dos ventos, se tornam fortes. Creado nos regalos da côrte, educado sob a influencia da tradição religiosa do seu paiz, parecia unicamente destinado a ser algum dia um simples rei catholico e constitucional, como os seus antecessores. Como elles, seguindo as praxes da primogenitura, depôz o seu vestido branco no altar da Virgem da Atocha, e vestiu um uniforme militar para cumprir o velho estylo tradicional, que, desde os primeiros annos da existencia, rouba toda a originalidade, annulla todas as disposições naturaes aos principes destinados ao throno.{18}

O sentimento poetico, que tanto dulcifica os costumes, e que prepara a alma para a concepção do bello, bebeu-o certamente com o leite da robusta camponeza das Asturias, a quem a sua amamentação foi confiada. Mas esse germen de poesia, tão necessario á alma de todos os homens, especialmente de um rei, devia aniquilar-se na atmosphera dos paços reaes, na temperatura abafadiça das pragmaticas anachronicas, longe do espectaculo da natureza, e das grandes correntes do pensamento humano. Um rei, como uma flôr muito resguardada, é um producto meio artificial, por um vicio de educação, que já seria tempo de banir. Faltam-lhe as commoções profundas, as eloquentes lições da sociedade, a aprendizagem casual que robustece o espirito e o torna apto para a lucta. Recebe a instrucção como recebe a luz, o sol, e o ar: em pequenas doses regradas, systematicamente, para que o não molestem. Podia ser um bello espirito, mas a tradição faz d'elle um espirito vulgar. É pouco mais ou menos como seu pai; seu filho será como elle.

Mas ao rei Affonso estavam reservados acontecimentos que deviam modificar completamente a acção enervadora da educação palaciana. Passou os primeiros annos da vida no exilio, para onde a revolução{19} arrojou sua mãe. Não viajou como um principe, como o futuro rei de Hespanha, sob as vistas de aulicos vigilantes e aduladores. Era então um simples particular, uma creança que podia vêr e ouvir, mediar e fallar, viver, n'uma palavra. Passando de paiz em paiz, esteve n'um collegio de França, depois n'outro de Vienna, por ultimo no de Sandhurst, em Inglaterra. Tratou de perto, deixem-me assim dizer, muitas ideias differentes, porque é forçoso convir em que as ideias da França não são precisamente como as da Austria, e as da Austria justamente como as da Inglaterra. A natureza, variando de contornos de paiz para paiz, varia tambem a sua lição. As creanças, que são, no fundo, a mais completa manifestação da natureza, porque são a natureza n'um estado de puresa immaculada, como que impregnam quem as conversa do espirito das nacionalidades que representam, sobretudo se quem as conversa é igualmente creança, porque n'esse caso a sua alma recebe profundamente as impressões, que ficam gravadas como caracteres alphabeticos sobre uma camada de cera. Ora o moço Affonso, em qualquer dos tres collegios, viveu sempre entre creanças, que não só representavam ideias differentes, mas tambem genios e classes differentes. Magnifica lição para qualquer{20} principe que tivesse de occupar um throno! Ao pé do alumno fidalgo, o alumno burguez: ao pé do pergaminho, a riquesa; o alumno estudioso ao pé do alumno madraço: a força ao pé da inercia; o alumno intelligente ao pé do alumno estupido: a gloria ao pé da indifferença. Cada classe e cada genio equivalia a uma nova lição, porque, por mais estupida que seja uma creança, ella sabe sempre encontrar argumentos para desculpar o estado do seu espirito. «Não sou eu que não aprendo; é o professor que ensina mal; são os livros que não prestam.» O joven filho da rainha exilada habituou-se, portanto, a conhecer as individualidades atravez de todos os veus. Estudou os homens nos homens, o que é muito differente de estudal-os nos cortezãos, que são uma contrafacção. Não aprendeu exclusivamente para rei; aprendeu a sciencia da vida, praticamente, como se fosse um simples vassallo, porque o throno era para elle uma coisa muito incerta...

Foi assim que os vendavaes do exilio fortaleceram a planta mimosa. O que nascêra principe fizera-se homem. Teve, portanto, razão o duque de Miranda, quando photographou Affonso XII com uma simples phrase: É um homem.

O maior elogio dos reis está precisamente em serem homens. Assim pensava{21} uma antiga rainha de Castella, quando, fallando de D. João II de Portugal, dizia que elle havia sido um homem. E foi.

Mais do que qualquer outro throno da Europa, o de Hespanha precisa de reis que sejam homens. Ser rei em Hespanha é luctar. A historia falla eloquentemente. Carlos IV morreu no exilio; Fernando VII atravessa vinte annos de revolução; Izabel II é ainda hoje uma illustre exilada; Amadeu I deve conservar, como a vaga lembrança de um sonho, a ideia de ter reinado em Hespanha. N'esta serie de reis falta ainda uma nodoa de sangue entre Carlos IV e Fernando VII: É José Bonaparte. O herdeiro de tão revolta monarchia precisava ser um espirito forte, um homem perseverante, energico, mesmo audacioso. «Io no soy de los reyes que se van. De muerte natural ó violenta moriré sobre el trono.» Estas palavras de Affonso XII dão a medida da justa comprehensão que elle tem do seu dever. Cesar morreu em pleno senado; Molière agonisou sobre o palco. Cada um no seu logar. A vida é uma batalha; cada soldado no seu posto.

Quando Affonso XII entrou em Hespanha para reinar, tinha aproximadamente vinte annos. Veio por mar, entregue aos caprichos da onda, porque um rei, desde{22} que principia a sel-o, precisa de se entregar cegamente ao destino. Mas, logo que desembarcou em solo hespanhol para tomar o caminho de ferro de Madrid, em vez de uma chuva de flôres, esperava-o uma chuva de balas. O desespero carlista queria enviar a D. Affonso XII uma saudação de morte. Mas o rei passou impunemente, e o carlismo continuou a debater-se nas vascas da agonia. Era uma serpente que se revolvia entre chammas.

Então a Hespanha viu sobre o throno um rei profundamente hespanhol—no animo e na physionomia. Um dextro torero, um valente caçador, um cavalleiro eximio. Figura esbelta, salerosa, rosto moreno, cabellos pretos, bocca expressiva, dentes alvissimos. Um adolescente de serenata, um trovador de vinte annos sobre um throno de seculos.

Para completar o typo peninsular, um coração amante. Toda a vida de um hespanhol está no amor ou no ciume. O rei amava. Facto verdadeiramente extraordinario e ousado: um rei amar! Para um principe de vinte annos, uma princeza de dezesete. Mercedes, sua prima, era uma creança idealisada pela formosura. O rei amava-a em segredo, com um culto sagrado. Adorava-a.{23}

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Yaş sınırı:
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Litres'teki yayın tarihi:
16 ocak 2025
Hacim:
50 s. 1 illüstrasyon
ISBN:
4064066411596
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