Kitabı oku: «Silva Porto e Livingstone manuscripto de Silva Porto encontrado no seu espólio»
António Francisco Ferreira da Silva Porto
Silva Porto e Livingstone manuscripto de Silva Porto encontrado no seu espólio

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066408930
Índice de conteúdo
SILVA PORTO
E LIVINGSTONE
SILVA PORTO
E LIVINGSTONE
APONTAMENTOS SOBRE A OBRA
«EXAME DAS VIAGENS DO DR. DAVID LIVINGSTONE»
Sociedade de Geographia de Lisboa
SILVA PORTO
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E
LIVINGSTONE
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MANUSCRIPTO DE SILVA PORTO
ENCONTRADO NO SEU ESPOLIO

LISBOA
Typographia da Academia Real das Sciencias 1891
Sociedade de Geographia de Lisboa
SILVA PORTO
Índice de conteúdo
E
LIVINGSTONE
Índice de conteúdo
MANUSCRIPTO DE SILVA PORTO
ENCONTRADO NO SEU ESPOLIO

LISBOA
Typographia da Academia Real das Sciencias 1891
Este trabalho foi encontrado entre os papeis do illustre sertanejo portuguez que deram entrada na Sociedade de Geographia de Lisboa, depois da morte d'elle.
Foi escripto no Bihé em 1868. Convém ter sempre em vista esta circumstancia e esta data.
APONTAMENTOS SOBRE A OBRA
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DO
EX.MO SR. D. JOSÉ DE LACERDA
«EXAME DAS VIAGENS DO DR. DAVID LIVINGSTONE»
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POR
UM PORTUENSE
Leitor
Uma das testemunhas avocadas na obra do ex.mo Sr. D. José de Lacerda, devo explicações sobre muitos dos seus artigos, pois que a recusa d'ellas, seria crime de lesa-nação, em aggravo do bom nome portuguez.
O reverendo dr. David Livingstone mereceu, sem duvida, a corôa que seus concidadãos lhe votaram pelos serviços prestados n'estas partes de Africa; no entretanto, força é confessal-o, ella foi desfeita pelo illustre viajante, visto havel-a manchado com a peçonha da calumnia.
Quiz chegar aos fins importando-se pouco com os meios.
Em abril ou maio de 1853, no dia em que teve noticias minhas, um raio que lhe cahisse proximo não causaria a impressão que lhe produziu semelhante nova, porque, necessariamente havia de comprehender que, mais cedo ou tarde, teria de se achar em face de um competidor, obscuro pelo seu fraco talento, sim, mas testemunho vivo de prioridade nos mesmos logares em que o dr. se julgava com direito a chamar-se o primeiro europeu que os visitou. Ella não me pertence inteiramente, é certo, visto que outras pessoas percorreram esses mesmos logares antes de mim e muito antes do illustre viajante, mas pertence-me de facto, pois que essas pessoas eram enviadas por mim, existiam, e existem ainda, presentemente, no maior numero, ao meu serviço: umas naturaes de Loanda, outras de Golungo-alto, outras de Ambaca, outras de Pungo-andongo, outras, finalmente, do Bihé.
O illustre auctor do Exame não tem porventura provado até á evidencia que ella pertence desde epocha remota aos portuguezes?
Mas, modernamente, pelo que me diz respeito, e em relação ao illustre viajante, creio não estar em erro dizendo que, a prioridade no interior do continente Africano é minha.
Para o provar poderia reportar-me á epocha de 1840; mas como não pretendo exaggerar nem sequer allegar serviços, trarei unicamente para a arena a data de 1845, da primeira viajem ao Lui, muito anterior á apparição do illustre viajante e seus companheiros, em 1 de agosto de 1849, no lago Ngami, percorrendo então, as pessoas que acabo de designar, o Rianbeje em todas as direcções, como adeante terei occasião de mostrar.
Oppondo muitos nomes áquelles de que se serve o illustre viajante para designar coisas e pessoas, não faço mais do que servir-me dos termos empregados pelos indigenas, a fim de designar essas mesmas coisas e pessoas, visto que pela maior parte, se forem interrogados sobre o assumpto, não obstante darem por alguns, outro tanto não acontecerá em relação a outros; e nem faço mais do que servir-me da orthographia da minha lingua materna, bem assim como o illustre viajante usou da liberdade de se servir da sua. Outro tanto não direi da situação geographica dos logares aqui indicados, attendendo a que não são marcados com a bussola, mas sim segundo a posição em que nasce e se põe o sol; para me subtrahir a taes inconvenientes dirigi a carta que abaixo segue ao illustre viajante, julgando-o então em Rinhande.
Hoje mesmo, que o governo portuguez se delibere a enviar uma pessoa pratica nas sciencias naturaes e geographicas, e eu, com muito gosto me promptifico a acompanhal-a a todas as paragens d'esta parte da Africa para o indicado fim, que será o unico meio de pôr termo, de uma vez por todas, a invectivas menos justas de naturaes e estranhos.
Eis a carta a que me refiro.
| Meu illustre amigo.Bihé, 22 de setembro de 1861. Os grandes heroes que a historia proclama, a mór parte das vezes o são, assolando a terra, e devastando a raça humana. A esses, pois, tal titulo significa uma blasfemia! Em identicas circumstancias, mas por fórma diversa, que é por certo maior gloria, ao vosso zelo, perseverante vontade, e á custa de immensos sacrificios a prol das sciencias, e a favor da humanidade, ella com justiça e verdade, vos terá de acclamar de seu heroe. Poderei ser tão feliz que tenha a dita de vos tornar a vêr? Se assim se verificar desde já ponho a minha gente ás ordens do meu illustre amigo, para estas paragens, e n'ellas, ou mesmo para qualquer parte que pretenda seguir, a minha pessoa fica desde já tambem á sua disposição. Assigno-me com toda a consideração | |
| De V. S.a Amigo attencioso Antonio Francisco Ferreira da Silva Porto | |
Disse e repito que, o illustre viajante quiz chegar aos fins importando-se pouco com os meios; vejamos se assim não é.
A carta que acabo de transcrever e que lhe dirigi julgando encontral-o em Rinhande, é a confirmação plena da minha boa vontade, quando, puz os meus bons serviços á sua disposição. A tel-os acceitado, a sua missão seria completa, porque eu levava-o, facilmente, ás nascentes dos seguintes rios: Riambeje, Quango, Cubango, Cunene, Quanza, e outros que vão desaguar no atlantico ao sul de Loanda até Benguella. Regeitou, porque não quiz que uma segunda pessoa partilhasse tal gloria, muito principalmente sendo essa pessoa estranha á sua nacionalidade; preferiu occupar-se exclusivamente, e mais de espaço, em pintar com sombrias e carregadas côres, o hediondo quadro dos incorrigiveis traficantes de carne humana; da sua prioridade no descobrimento do interior do continente Africano, e finalmente na pregação da Biblia, como palavra descida do Céo.
Deixou o rio Lunga, affluente do Cabombo, e esteve na povoação do soba Machico. Devia de saber alli que d'esse local á nascente do Riambeje, apenas se contam dez dias de viagem, como affirma o actual soba do paiz, que por vezes foi á caça dos elephantes para essas partes; parece-me que valia a pena accrescentar esses dias na ambicionada viagem de Loanda, embora se tornasse mais demorada, a fim de marcar com precisão a latitude e longitude da nascente do manancial de mais longo curso, conhecido aqui em Africa, se é que o rio Cubango se não dirige para o mar, e põe termo á sua carreira no lago Ngami, como é a opinião do illustre viajante. Proseguiu ávante, deixando tudo em trevas, como quer fazer acreditar aos olhos do mundo civilisado, fazendo-nos passar por inteiramente ignorantes; e note o illustre viajante que falo em marcar com precisão, e não em descobrir o que ha muito já se acha descoberto.
Poderia eu dirigir-me ás nascentes d'esses mananciaes que ficam descriptas a fim de que se viesse no conhecimento das suas verdadeiras origens, mas attendendo a que a sciencia exige mais alguma cousa, além de uma simples descripção, por este motivo tenho desistido da empreza aguardando que de futuro pessoa competente na materia, venha resolver o problema.
Pondo remate a esta minha introducção, peço indulgencia para algumas phrases menos mal cabidas, que porventura se encontrem no decurso dos meus apontamentos; mas, sendo ellas tão amiudadas na descripção que o illustre viajante nos apresenta, seria necessaria a paciencia de um santo para deixar de respostar ao pé da lettra.
Lui, 14 de setembro de 1868
Antonio Francisco Ferreira da Silva Porto
Principiaremos pelas nossas coisas, e vem a ser que, tratando o illustre auctor do Exame a ps. 12, das missões, diz o que segue:
«A extincção das ordens religiosas, e com ella a de todas as missões, foi perda irreparavel para as nossas possessões africanas, que tanto podiam e deviam ter com ellas aproveitado. As funestas consequencias estão-se experimentando, e desde logo tinham de prever-se: de certo, porque de todo o ponto é fóra de duvida que, missões regularmente constituidas, e d'onde hajam a esperar-se effectivos e avantajados resultados, só por via das corporações religiosas podem obter-se. O que, n'este intuito, podem fazer as corporações religiosas, só ellas podem fasel-o, porque só ellas podem preparar, escolher e ter á mão, mediante os votos monasticos, os obreiros mais competentes; as condições tão especiaes, proporcionadas pelos votos, mormente pelo da obediencia, não ha nenhum outro modo de serem suppridas. É por isso que tanto fizeram outr'ora os nossos missionarios em uma e outra Africa, e na India, e na America, e na China, e no Japão, e na Cochinchina, e em toda a parte; e é por isso tambem que tão pouco têem feito quaesquer outros missionarios não pertencentes ás congregações religiosas: estes vão aonde querem ou aonde podem, aquelles aonde os mandam: para estes, tudo são estorvos e tropeços, para aquelles, sem familia, sem bolsa e sem vontade propria, não ha obstaculo, porque obdecem: estes hesitam, porque deliberam; aquelles obram, porque não carecem de resolver-se. etc.»
Assim o creio no que diz respeito ás missões, visto que os missionarios que então existiam pelas colonias nada tinham com a politica seguida na metropole, não dizendo outro tanto dos seus ultimos tempos em Portugal, porque os factos praticados pelos membros de que se compunham as differentes ordens religiosas durante o periodo de 1828 a 1833, são de todos conhecidos, e foram o que deram causa á sua extincção. Os ministros que representam Jesus Christo na terra devem occupar-se unicamente da missão sagrada do seu ministerio, e não de negocios mundanos, inteiramente em desharmonia com ella.
É indubitavel o incremento do nosso poder no interior d'este vasto continente, sob a acção das missões, e a sua decadencia depois da extinção d'ellas; o Bihé gozou dos seus beneficos effeitos tendo por capitão-mór Antonio Francisco da Conceição e Mattos, nomeado em 11 de maio de 1791, no governo de Manuel de Almeida e Vasconcellos,[1] e a missão dirigida por um barbadinho italiano, que celebrava os officios Divinos n'uma casa apropriada ao fim, na povoação do dito Mattos, baptizou grande numero de sertanejos que ao tempo existia no paiz, uns naturaes da Europa, e outros do Brazil, outros finalmente indigenas, mas todos portuguezes, ministrando egualmente o mesmo Sacramento, a grande parte do povo Bihano, o qual, na falta de sacerdote no seu territorio, tem por habito receber o baptismo na cidade de S. Filippe de Benguella.
Em 1842 conheci egualmente n'esta cidade o seu vigario (padre Manoel), que tambem exerceu o ministerio no Bihé, e em Caconda. A sua benefica influição devia de ter chegado ás terras da Lunda, Luvar e Lui, attendendo a que os habitantes d'estas regiões são tão sociaveis como o povo Bihano, não se podendo dizer outro tanto em relação a grande parte da tribu Quimbunda, a que pertence a Bihana, visto que os quimbundos se conservam no estado primittivo de selvagens, e bem assim a raça Ganguella, cuja familia se pode dizer composta de diversas tribus, como aquella.
Finalmente, venham missionarios para as nossas possessões, mas missionarios portuguezes. Com o intuito de se reparar o erro, foi restaurado o collegio de S. José do Bombarral, sendo do dever do governo lançar vistas para assumpto tão momentoso, a querer que conservemos a importancia que nos compete como nação de grande consideração colonial.
A paginas 30 e 31 o seguinte:
«Vou occupar-me do lago Ngami, um dos descobrimentos de que tão grande alardo fez o dr. Livingstone. No capitulo 3.º lê-se a pag. 65 o seguinte: Doze dias depois que nos apartámos dos wagons em Ngabisane chegamos á extremidade nordeste do lago Ngami; e no 1.º de agosto de 1849 descemos todos à bacia do lago, e, pela primeira vez, observaram europeus este magnifico lanço de agua.»
Sendo interrogado pelo illustre viajante sobre se conhecia o Cubango, respondi affirmativamente, ao que retorquiu alimentar o lago mencionado; disse eu então que não omittia opinião segura, mas que me parecia não limitar-se ao lago unicamente, visto ser um rio de grandes dimensões.
No dia 22 de maio de 1846 digo o seguinte: «Continuámos a viagem, e fomos fazer quilombo nos mattos, na margem direita do rio Cutato dos Mangoias. Caminho plano, mattos fechados, em partes, em outras despovoado de arvoredo, falta de riachos, terreno fertil. Uma hora de marcha distante d'esta paragem, existem as nascentes de dois rios caudalosos: Rio Cutato dos Mangoias, dirigindo o seu curso para o norte a desaguar no rio Quanza, e o rio Cubango, dirigindo o seu curso para o sul a desaguar no mar para o nascente.»
Ora, comprehendendo as vertentes d'este grande manancial até ao lago Ngami, não quero discutir se com effeito é ahi o seu termo, ou se segue ávante como acabo de transcrever no trecho acima da minha Viagem, no citado anno, á cidade de Benguella, o que fica para ser resolvido por pessoas competentes, mas sim fazer ver que os portuguezes de Quilengues, desde antiga data, mantem não interrompido commercio pelo interior para o sul e sueste, comprehendendo o lago em questão.
Os portugueses de Caconda, Quingollo, Galangue, e Caquingue, só mais tarde é que principiaram de transitar para esses mesmos logares; e finalmente os portuguezes do Bihé; todas as paragens do interior d'este vasto continente, desde antiga data, e até ao presente teem sido, e são por elles percorridas em não interrompido commercio com os indigenas. Em virtude do que, não teem razão de ser a pretensão do illustre viajante á descoberta do lago, visto que em setembro de 1841, achando-me na cidade de Benguella, ahi encontrei já grande movimento commercial para as terras que acabo de designar: e para que parte seguiriam essas fazendas, a não ser para esses logares que ficam indicados? Regressando ao Bihé n'esse mesmo mez e anno, o mesmo presenciei, e para que parte seguiria esse commercio, a não ser para o Ribebe, e terras circumvisinhas, Ganguellas, Luvar e Lunda, onde a concorrencia era immensa para cera, marfim e escravos, mas com especialidade para estes ultimos, pelas grandes vantagens que então se davam, mas que tinham de ter termo como todas as cousas o teem n'este vae-vem terrestre? E a concorrencia continuou de affluir á terra da Lunda, depois d'elle; porque não obstante a extincção do trafico, sempre foi um grande mercado de marfim, explorado de antiga data pelo povo de Cassange; da mesma sorte a terra já citada do Ribebe e circumvisinhas, situadas nas vertentes do Cubango; em identicas circumstancias as terras da grande familia Ganguella sob diversas denominações, que não obstante a extincção do trafico, sempre se tornaram uns grandes mercados de cera, n'umas, e d'este mesmo producto e marfim, egualmente, em outras. Finalmente, temos as diversas terras da grande familia Quimbunda, tambem sob diversas denominações, cujo commercio consta unicamente de escravos, e que em virtude da sua visinhança ao litoral, sempre foram habitadas, de antiga data, por europeus que n'ellas fixaram residencia, e hoje por seus filhos, netos e bisnetos, sobrepujando a todas, a terra do Bihé, grande centro de todo o commercio do interior, na epocha em que o trafico era licito, e annos depois por contrabando até 1845. Ellas não bastavam a abastecer o mercado do litoral, e os sertanejos á porfia procuravam e percorriam as terras que acabamos de designar para o indicado fim: acabado o trafico hediondo da escravatura, pelos principios philantropos e humanitarios, assim chamados, são da mesma fórma procuradas as terras do interior, onde apparece a cera e o marfim.
Que fosse pois até essa epocha, que o illustre viajante nos quizesse expor á censura geral como entes desmoralisados, vá: advertindo que, ainda lhe restava a presumpção do parallelo entre portuguezes e inglezes; considerando que estes depois do aprisionamento de qualquer navio negreiro, conduziam os desgraçados africanos para as suas possessões, e não os vendiam por toda a vida, e por preços fabulosos, como faziam os infames contrabandistas, mas sim por uma modica quantia e por um determinado espaço de tempo no fim do qual, o filho de Africa se tornava livre!
Mas presentemente, e tanto de espaço tratar de uma questão que se póde dizer extincta, parece incrivel que a tanto se aventurasse!
Esteve no meu estabelecimento em Catongo: quantas correntes cheias de infelizes encontrou?
Se tal se desse teria materia de sobejo para um volume.
E se me desviei do assumpto que me tinha proposto, de mostrar a prioridade dos portuguezes no lago Ngami, assim era de necessidade a fim de mostrar que para a permutação de escravos não era necessario sahir de territorio Quimbundo do anno de 1845 por deante.
A paginas 62 sobre a mosca tse-tse,—os Macorrollos dão-lhe a denominação de Zeze, o povo Lui dá-lhe a denominação de Madinda, e finalmente, o povo Bihano dá-lhe a denominação de Bisumangalla ou Apopullo,—eis o que digo a respeito d'este insecto damninho, no dia 26 de junho de 1853:
—«Continuámos a viagem, e fomos fazer quilombo nos mattos, logar denominado Maranhati. Caminho plano, mattos fechados, terreno fertil, legoas andadas 6, rumo de sul.
«Encontrámo-nos com tres grandes manadas de gado, que se dirigiam com destino a Quiceque e Rinhande, tendo sahido poucos dias antes da minha partida da capital do Lui. Seguiam pois os conductores munidos de escudos e azagaias, pelos lados do gado, este, formando o centro, carregando, sobre a cabeça, e ligado entre a armação, os couros preparados, e que servem de cobertura aos mesmos pastores; seguindo manso e vagaroso, o som do apito de um unico pastor como guia, na sua frente: os chefes da comitiva seguiam por ultimo, para que não se desgarrasse alguma creação.
«Quando chegam na margem de alguma lagoa ou rio, tiram os couros que o gado conduz, e este principia de pastar, isto pelo espaço de duas horas, pouco mais ou menos, tempo em que o geral do povo se entrega a tomar tabaco, a fumar, a comer, e finalmente ao descanço; e, ao cabo de cujo espaço tornando de pôr os utensilios em cima dos animaes, continuam a marcha encetada, que, no maior rigor, não excede jámais a cinco horas diariamente, excepto por certas e determinadas paragens, nas quaes se torna indispensavel a marcha nocturna, em consequencia de uma mosca de mordedura venenosa que, sendo em grande abundancia se torna o flagello (do gado) visto seguir-se a morte ao cabo de determinado periodo. Por estas paragens é denominada de Zeze, e pelos bihanos de Bisumangalla; é um pouco mais comprida que a mosca ordinaria, mas muito mais dura de pelle, pois que para se matar é necessario pizal-as com os pés, bem assim, andar o viajante munido de ramos nas mãos para as afugentar do corpo, pelos mesmos logares «Quando chegam na margem de alguma lagoa ou rio, tiram os couros que o gado conduz, e este principia de pastar, isto pelo espaço de duas horas, pouco mais ou menos, tempo em que o geral do povo se entrega a tomar tabaco, a fumar, a comer, e finalmente ao descanço; e, ao cabo de cujo espaço tornando de pôr os utensilios em cima dos animaes, continuam a marcha encetada, que, no maior rigor, não excede jámais a cinco horas diariamente, excepto por certas e determinadas paragens, nas quaes se torna indispensavel a marcha nocturna, em consequencia de uma mosca de mordedura venenosa que, sendo em grande abundancia se torna o flagello (do gado) visto seguir-se a morte ao cabo de determinado periodo. Por estas paragens é denominada de Zeze, e pelos bihanos de Bisumangalla; é um pouco mais comprida que a mosca ordinaria, mas muito mais dura de pelle, pois que para se matar é necessario pizal-as com os pés, bem assim, andar o viajante munido de ramos nas mãos para as afugentar do corpo, pelos mesmos logares onde se tornam abundantes.
«Verificada a occasião da marcha nocturna, um pastor na frente, servindo de guia, e tangendo uma frauta, o mais povo dos lados, e na retaguarda os chefes com tições accesos, fecham o sequito de uma numerosa manada de gado; logo que chegam no logar destinado para o curral, este é feito n'um momento, de paus e ramos das arvores, que cortam para o indicado effeito: no centro repousa o gado, em circulo, e encostado ao cerco o mais povo da comitiva para evitar qualquer assaltada do rei das selvas, e em virtude do que não deixam de velar continuamente.»
N'essa occasião, levando a cavalgadura do meu uso, por me livrar de um excesso, vim a cahir no excesso contrario: livrei-me de um, deixando de costear o Riambeje por causa dos rios seus affluentes que forçosamente tinha de passar em canoas, e cuja passagem se tornava perigosa para ella; deixando por esse motivo de visitar a catarata Chungo ou Mosioatunia cuja descoberta então teria a regalia de disputar ao illustre viajante, mas não assim aos meus concidadões, fosse qual fosse a sua côr e condição;—comtudo, visitei-a mais tarde como terei occasião de mostrar—e cahindo por consequencia no excesso contrario por causa da mosca de que acabo de falar, visto que fui obrigado a deixar ficar a cavalgadura no dia 30 d'esse mesmo mez e anno, n'uma das povoações do povo Guete, fazendo por tal motivo a jornada a pé d'esse local para Rinhande, e vice-versa, para o que me não achava preparado.
A paginas 71 o seguinte:
«Contando-nos a sua marcha para o interior do continente africano, e o seu encontro com Sebituane, celebre chefe indigena, em o esboço que desveladamente d'elle nos bosquejou, diz o dr. Livingstone: «Tendo conquistado todas as convisinhanças do lago Kumadau (Mculadau), ouvio fallar dos homens brancos, que viviam na costa occidental; e esporeado pelo que parece ter sido o sonho de toda a sua vida, o desejo de abrir communicação com os brancos, passou ao sudoeste.» Mais adeante se lê: «Sebituane (Xabitane?) formou o designo de descer o Zambeze até ás terras dos homens brancos. Tinha a idéa fixa, que não sei d'onde lhe viera, de que, se possuisse uma peça de artilharia, lhe seria possivel viver em paz. Sebituane passara a vida na guerra, e todavia ninguem mostrava desejar a paz tanto como elle. Um propheta o persuadiu a voltar de novo para oeste. Aquelle homem, por nome Tlapano, era chamado «Senoga», isto é, que trata com deuses... Tlapano apontando para o oriente, exclamou: Alli, Sebituane, vejo fogo: evita-o: é fogo que pode abrazar-te. Os deuses dizem que não vas alli.» Voltando-se para o oeste, exclamou: «Vejo uma cidade e uma nação de homens negros, homens da agua: o seu gado é vermelho: a tua tribu está a acabar, e toda será destruida: tu has de governar os homens negros, e depois que os teus guerreiros tiverem captivado o gado vermelho, não consintas que os donos d'elle sejam mortos. São elles a tua futura tribu, elles hão de formar a tua cidade. Sejam poupados, para que te obriguem a edifical-a. E tu, Ramosini, sabe que a tua aldêa será totalmente arruinada. Se Mokari se apartar d'aquella aldêa elle perecerá primeiro, e tu, Ramosini, perecerás ao depois.» Com respeito a si proprio accrescentou. «Os deuses foram causa de que outros homens tivessem agua para beber; porém a mim só me concederam a pessima bebida do chakuru (rhinoceros.) Chamam-me para si. Não posso demorar-me mais.»
Disse que para provar a nossa prioridade ao illustre viajante, traria unicamente para o caso a data de 1845 da primeira viagem ao Lui, o que passo a demonstrar.
A minha perigrinação por estas paragens data de 1840, tendo partido da Cidade de S. Paulo d'Assumpção de Loanda; porém em 1841, dirigindo-me á cidade de S. Filippe de Benguella, como já tive tambem occasião de dizer, os meus commissionados dirigindo-se pelas terras do interior que ficam designadas, passavam e repassavam o Riambeje, no dominio da Lunda, e nas terras dos Ganguellas; o ponto a que se dirigiam era para a terra do Lutembo, povo assás turbulento, e mescla das tribus Bunda e Zambueira, com o intuito de se obter passagem para a terra do Lui, já de grande nomeada pelas amiudadas incursões que fasia o seu povo ás terras circumvisinhas a fim de se assenhorear do gado que na epocha abundava por todas. Eram taes as maravilhas que circulavam d'esta California em prespectiva, que se tornava necessario lá chegar, fossem quaes tivessem de ser os sacrificios a fazer.
O soba Cabitta, então senhor da dita terra, ou porque quizesse o exclusivo do mercado do marfim que negociava com o soba do Lui (Cacoma Mulonga ou Sanduro), e permutava com sertanejos do Bihé, semelhantemente ao Jaga de Cassange, com o Matiamvo,—ou receioso de ser aggredido mais amiudadamente depois de franqueado o caminho aos da mesma procedencia, é certo que sempre se recusou a prestar o seu consenso; porém no anno de 1845, mediante extorsões inauditas, e a clausula de dois empregados que foram constrangidos de ficar comprando os generos por preços fabulosos, foram abertas as portas de par em par á comitiva para a terra da promissão, e obtida esta primeira conquista, restava ainda outra de não menos difficil empenho e vinha a ser o pôr termo as excessos do senhor de Lutembo, visto que as extorsões se foram grandes na ida, se tornaram muito maiores no regresso, exigindo-se dentes de marfim como tributo da passagem concedida para o Lui.
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