Kitabı oku: «Despedidas: 1895-1899»
António Pereira Nobre
Despedidas: 1895-1899

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066408787
Índice de conteúdo
DESPEDIDAS
ANTONIO NOBRE
Despedidas
1895-1899
SONETOS
1
Logica
2
Ao Cahir das Folhas
3
4
5
6
Apparição
7
8
9
10
11
12
Monologo d'Outubro
13
14
15
Mamã
16
17
Riquinha
18
O Teu Retrato
19
Sestança
20
Emilias
21
22
23
Adeus a Constança
24
Antes de partir
25
OUTRAS POESIAS
Ladainha da Suissa
Confissão d'uma rapariga feia
Affirmações religiosas
Ares da Andaluzia
Contas de rezar
A Ceifeira
Sensações de Baltimore
Ao Mar
Dispersos
O DESEJADO
Á LISBOA DAS NÁUS CHEIA DE GLORIA
Prefacio de José Pereira de Sampaio (Bruno)
PORTO
1902

DESPEDIDAS
Índice de conteúdo
DO MESMO AUCTOR:
Só (2.ª edição, illustrada), Paris, 1898.
NO PRÉLO:
PRIMEIROS VERSOS
Prefacio de Justino de Montalvão
D'este livro, publicado por Augusto Nobre, tiraram-se dois mil exemplares
Direitos reservados
ANTONIO NOBRE
Índice de conteúdo
Despedidas
Índice de conteúdo
1895-1899
Índice de conteúdo
Prefacio de José Pereira de Sampaio (Bruno)
PORTO
1902
A fraterna piedade de Augusto Nobre e a saudade amiga de Justino de Montalvão honraram-me com o pedido commovente de algumas linhas que acompanhassem este volume posthumo. Tendo organisado a nota que precede os fragmentos, ao deante publicados, do poema O Desejado, hesitei grandemente em acquiescer á solicitação que refiro. Temi que malignas malevolencias acaso increpassem como de impertinente intromettimento essas linhas sinceras e innocentes. E ellas seriam, de facto, com severidade condemnaveis, desde que as dictassem pedantescas pretensões de recommendação ás delicadas leituras. O nôme do poeta não é sómente conhecido; está decisivamente consagrado. Um prosador incorrecto e secco não conseguiria senão tornar-se ridiculo, quando tam improcedente estimulo fôsse a impulsional-o.
Assim meditava e quasi me resolvia por uma polida escusa, que me magoaria aliaz; porém mais se radicou em meu animo o motivo antagonico que me convidara a ceder á captivante seducção do pedido, feito pelo irmão e pelo companheiro.
Lembrava-me e lembrei-me de que fôra eu quem, sem sequer de vista o conhecer, apontou ao publico culto o original, promettedor talento d'aquelle moço ignorado então.
Concorrendo n'um effeito de beneficencia, apparecera no Porto um volumesinho de versos, collaborado principalmente por academicos, sob o titulo generico e designativo de Um bouquet de sonetos. Eu lêra as composições contidas na sympathica collecção e prestei preferente cuidado áquellas que a novos, sem notoriedade ainda, pertenciam. Entre essas, primacialmente sobresahia o soneto de Antonio Nobre, nôme que eu havia notado já, por subscrever, em revistas litterarias de collegiaes, infantilidades onde perpassava uma restea do fulgor divino. Fundára, por esse tempo, um diario de propaganda politica A Discussão; na secção litteraria da folha estampei um artigo longo ácerca do opusculo que me attrahira o reparo; Gomes Leal replicou-me, com motivo d'algumas affirmativas minhas, concernentemente á fórma e á essencia do genero artistico. E no modesto estudo com que momentaneamente quebrei, confugindo, a monotonia acre das acerbas recriminações partidarias, indiquei o nôme do joven poeta, como o de alguem que tinha personalidade e viria a ser muito.
Veio, na verdade, a ser muito: tam fino, candidamente malicioso, dôce, ingenuo era seu temperamento; tam sincera sua tristeza; tam moderno seu gosto; tam nacionalista seu sentir, na patria e na familia; tam suggestiva sua imaginação, ardorosa e melancholica!
Ora, já quando, na jubilosa plenitude da consciencia esthetica, o escriptor preparava em Paris o original definitivo do seu volume Só, como quer que ao mesmo Paris, sceptico e arisco na banalidade d'uma affectuosidade de superficie, me atirasse uma onda centrifuga do atroz redomoinho, elle mostrou-me que não esquecera as palavras do jornalista portuense, as quaes só um merito possuiam, o de se haverem coadunado com o lealismo d'uma emoção espontanea. Na escura rua de Trévise me procurou, abandonando por horas a sua preferida margem-esquerda, de que lhe era tam penoso afastar-se, Antonio Nobre, uma tarde em que eu soffria cruelmente. Esta visita sensibilisou me; como me encantou a conversação do poeta, pelo tom subtil da melindrosa reserva na consolação, a um tempo caridosa e primorosa, d'um'alma em carne viva, como a minha por então andava.
Só no Porto novamente me reencontrei, conversando, com Antonio Nobre; de volta do exilio eu, de regresso da illusão de estancias salvadoras elle. Ambos viajaramos; ambos conheceramos a glacial indifferença do homem; o poeta e o politico encontravamo-nos na identidade d'uma amarga desesperança tranquilla. Separamo-nos depois de uma hora, melhorados para um instante.
Não o tornei a vêr; sabia qua ia cada vez mais a peor, n'este rude Porto, fatal, physica e moralmente, ás naturezas susceptivelmente quintessenciadas como a d'elle. Subito entrou em minha casa Justino de Montalvão, para que eu estivesse á noite na egreja, a ajudar a conduzir o nosso amigo, no seu caixão, para a sua tarima. Eis o desfecho de tudo.
Nunca me affligiu a minha aridez verbal como agora, em que me daria um orgulho ineffavel o poder fallar do talento d'este querido morto com palavras encantadas, que embebessem a leitura n'uma idealidade sonhada.
Pouso a penna aspera; demasiado dilacerou o papel; o dever da gratidão está cumprido; mas quedaria ainda faina para a critica perspicaz e expressiva. Como indispensavel, tocante elemento informativo, tenho aqui a fazer uma referencia ao titulo do volume, Despedidas. Este titulo foi escolhido pelo poeta. Criminosa impiedade seria que d'outrem emanasse.
Em uma das crises de pungente desanimo que frequentemente o assaltavam no ultimo periodo da implacavel enfermidade a que succumbiu, pediu elle que, se viesse a morrer antes de poder publicar o seu livro, lhe dessem o titulo de Despedidas, significando este a sua retirada da vida litteraria; mas mais tarde deu a perceber claramente que assim o escolhera, por serem as suas ultimas poesias, visto que tinha perdido a esperança de cura da doença que o torturava. Ainda só quinze dias antes da data fatal do seu trespasso, quiz elle ir para a aldeia, com tenções de passar a limpo todas as suas poesias e de escrever definitivamente O Desejado, que, como se frisa na nota que lhe precede hoje os fragmentos, o poeta tinha todo in mente, mas muito incompleto nos seus cadernos de apontamentos.
D'estas linhas que acima ficam se deprehende que jámais lograram os versos que sahem agora a lume o ser corrigidos por seu auctor. Se imperfeições aqui ou alli acaso os maculem, acate-se o legitimo escrupulo que não se atreveu a sujeitar o texto a alheia revisão minuciosa. Elle foi recebido como uma herança de coração; com inquieto sobresalto, julgou-se sacrilego que ella não fosse assaz respeitada.
Todavia, esta advertencia era indispensavel, para obviar a quaesquer reparos que o livro actual podesse offerecer a uma leitura ou hostil ou sequer fria. Não é a essa especie de critica, a qual não comprehende porque não sente, que o editor confia a obra posthuma do poeta a quem amou e cuja inolvidanda memoria o penetra d'uma inexhaurivel saudade. A verdadeira critica, a critica san, fal-a-ha o leitor melhormente dotado, com apurar que o livro actual, fragmentario consoante é, confirma a gloria de Antonio Nobre, cuja figura litteraria destacará como uma das mais accentuadas d'entre as mais accentuadas da nova geração portugueza.
José Pereira de Sampaio (Bruno).
SONETOS
Índice de conteúdo
1
Logica
Índice de conteúdo
Ai d'aquelles que, um dia, depozeram
Firmes crenças n'um bem que lhes voou!
Ai dos que n'este mundo ainda esperam!
Terão a sorte de quem já esperou...
Ai dos pobrinhos, dos que já tiveram
Oiro e papeis que o vento lhes levou!
Ai dos que tem, que ainda não perderam,
Que amanhã, serão pobres como eu sou.
Ai dos que, hoje, amam e não são amados,
Que, algum dia, o serão, mas sem poder!
Ai dos que soffrem! ai dos desgraçados
Que, breve, não terão mais p'ra soffrer!
Ai dos que morrem, que lá vão levados!
Ai de nós que ainda temos de viver!
Pampilhoza, 1895.
2
Ao Cahir das Folhas
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A MINHA IRMÃ MARIA DA GLORIA
Podessem suas mãos cobrir meu rosto,
Fechar-me os olhos e compôr-me o leito,
Quando, sequinho, as mãos em cruz no peito,
Eu me fôr viajar para o Sol-posto.
De modo que me faça bom encosto,
O travesseiro comporá com geito.
E eu tão feliz! por não estar affeito,
Hei-de sorrir, Senhor! quazi com gosto.
Até com gosto, sim! Que faz quem vive
Orpham de mimos, viuvo de esperanças,
Solteiro de venturas, que não tive?
Assim, irei dormir com as crianças
Quazi como ellas, quazi sem peccados...
E acabarão emfim os meus cuidados.
Clavadel, outubro, 1895.
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