Kitabı oku: «O Duque Sem Coração»
O Duque sem Coração
Barbara Cartland
Barbara Cartland Ebooks Ltd
Esta Edição © 2014
Título Original - “The Chieftain without a Heart”
Direitos Reservados - Cartland Promotions 2014
Capa & Design Gráfico M-Y Books
m-ybooks.co.uk
CAPÍTULO I
1822
–Graças a Deus, estamos em águas tranquilas!
Lord Hinchley serviu-se de uma dose de conhaque, que bebeu num golo só.
–Você até que teve sorte!– retrucou o amigo dele–, o mar sempre esteve bem pior do que tem estado nesta viagem!
–Então, pode ficar certo de que nunca mais voltarei a esse fim de mundo! Aliás, eu acho mesmo que esse é um país do demônio, povoado só por bárbaros!
–Um conceito muito comum e errôneo que os ingleses têm da Escócia!– disse o Duque de Strathnarn, com cinismo.
Hinchley deixou-se cair numa cadeira do confortável salão do bar do navio mas felizmente a embarcação parara de balançar, pois já fazia sete dias que enfrentavam águas turbulentas no mar do Norte.
–Se quer saber– disse ele, em tom confidencial–, eu acho que fez muito bem quando sacudiu dos sapatos a terra da Escócia e resolveu vir para o Sul. Só errou quando resolveu voltar, Taran, como já disse antes.
O rosto do Duque ficou sombrio. Ele foi até a escotilha e ficou olhando a terra coberta de árvores que se avistava do navio, em seu caminho pelo estuário de Tay.
Não tinha a menor intenção de explicar, nem mesmo para seu amigo mais íntimo, que estava revoltado com a ideia de ter que voltar à terra que ele deixara, cheio de rancor e fúria, há doze anos.
Tinha só dezasseis anos naquela época, e a crueldade do pai, que não só ferira seu corpo mas também seu orgulho, humilhando-o, fizera-o jurar que não teria mais nada a ver com a Escócia e seu povo, até o fim da vida.
Lembrava-se bem de como havia se enfiado a bordo do primeiro navio disponível no porto de Perth. Tinha pouco dinheiro e só pudera comprar a passagem mais barata, tendo que suportar a acomodação abafada e malcheirosa no porão.
Entretanto, os parentes de sua falecida mãe, em Londres, haviam-no recebido de braços abertos.
Matricularam-no em uma famosa escola particular e depois mandaram-no para a Universidade de Oxford e, mais tarde, com o título de Marquês de Narn, recebido do avô, e estando a serviço do Príncipe Regente, a vida lhe era refinada e agradável.
Na verdade quase havia se esquecido de que a Escócia existia.
Quando o avô morrera, deixara-lhe uma vasta propriedade e muito dinheiro, além de que gozava da amizade do regente, agora Rei George IV. Dessa forma Londres oferecia–lhe tudo o que queria e mais lhe agradava.
Há três meses tinha chegado como uma bomba a notícia de que seu pai morrera e, com isso, ele se tornara não apenas o Duque de Strathnarn mas também o chefe do Clã McNarn.
De certa forma, sempre tinha imaginado o pai como sendo indestrutível. Quando pensava nele, o que não era muito frequente, ele lhe parecia sem idade e aterrador, como um dos antigos gigantes descritos nas baladas que ouvira os bardos cantarem, quando criança.
O Duque tinha ficado tanto tempo em silêncio que Lord Hinchley, ao se levantar para pegar outra dose de conhaque, disse:
–Você parece deprimido, Taran. Com essa carranca severa, vai amedrontar os homens do seu Clã.
–Acho bom mesmo que eles fiquem amedrontados, porque assim me obedecerão.
Disse isso apenas por dizer, pois sabia que os McNarn sempre obedeceram a seus chefes, na verdade lembrou-se até de que seu pai uma vez falara:
–Um chefe de Clã, é um intermediário entre seu povo e Deus.
Em todo caso. não pôde deixar de pensar que aqueles dias de ser vidão haviam terminado, e agora que um chefe de Clã, não mais detinha o poder de vida e morte sobre seu povo, evidentemente, o sentimento que teriam por ele não seria o mesmo.
–Bem, eu lhe digo uma coisa– comentou Lord Hinchley, bebericando seu conhaque–, se eu tiver que fazer a viagem de volta no Royal George, com Sua Majestade, vou ficar deitado em minha cabine, bebendo até ficar inconsciente, enquanto não chegarmos a Tilburv.
–Na volta será mais calmo– falou o Duque automaticamente, como se estivesse com o pensamento distante–, e como o Rei, é bom marinheiro, ele vai querer você sóbrio, dizendo o quanto os escoceses gostaram da visita dele.
–Esta é a questão… será que vão gostar?– perguntou Lorde Hinchley–, a culpa é de Walter Scott, que foi despertar no Monarca esse desejo urgente de visitar Edimburgo. Se os escoceses tivessem juízo, eles o fariam em pedaços, com suas espadas e punhais!
O Duque não disse nada e Lord Hinchley continuou:
–Meu avô serviu no Exército de Cumberland, que participou da Batalha de Culloden, e o que ele descreve sobre como os escoceses foram massacrados e as crueldades infligidas aos sobreviventes deveria fazer todo inglês pensar duas vezes, antes de se atrever a desafiar o sentimento de vingança que ainda deve ferver no peito deles!
–Isso foi há muito tempo.
–Pois eu aposto com você como eles não esqueceram.
–Acho que você tem razão.
–É claro que tenho!– disse Lord Hinchley, enfático–, todo povo bárbaro tem suas rixas entre feudos, suas vendettas, suas pragas e maldições, que passam de geração a geração.
–Você está versado no assunto– comentou o Duque.
–Quando Sua Majestade me disse que eu deveria vir para cá, antes, e providenciar para que ele fosse recebido devidamente, quando chegasse em Edimburgo, eu me dei ao trabalho de me informar sobre a Escócia e os escoceses.
Lord Hinchley fez uma pausa e acrescentou:
–Para você eu posso dizer, Taran, acho que os ingleses comportaram-se muito mal com o povo que conquistaram apenas por serem mais organizados e disporem de mosquetes.
O Duque não respondeu nada e, depois de alguns instantes, Lord Hinchley continuou:
–Meu avô costumava me contar, quando eu era pequeno, como os Clãs foram exterminados em Culloden, enquanto os homens marchavam, famintos e molhados, depois de terem passado a noite ao relento. Eles estavam atravessando um terreno difícil e os chefes os conduziram direto para a linha de fogo.
O Duque ergueu-se, num gesto de raiva.
–Pelo amor de Deus, William, pare de tentar me horripilar com essas batalhas que aconteceram muito antes de termos nascido! Nós dois fomos obrigados a vir nesta viagem, e quanto mais rápido fizermos o que temos que fazer e voltarmos para nossa terra, melhor!
Havia tanta ira na voz do Duque que o amigo olhou para ele, intrigado, e depois disse:
–Eu pensei que sua terra, na verdade, fosse esta.
Ele viu o Duque crispar os dedos, como se tivessem lhe tocado na ferida, e então como gostava muito do amigo, quis abrandar o tom da conversa.
–Tome outra dose. Não há nada como um bom conhaque francês para fazer o mundo parecer bem melhor!
O Duque pegou a bela garrafa de cristal, que tinha o fundo bem mais largo que o gargalo, para não cair da mesa com o balanço do navio, e serviu-se.
Quando sentiu o líquido abrasador espalhar calor por seu corpo, entendeu que, em vez de acalmá-lo e trazer –lhe algum conforto, a bebida simplesmente acentuaria sua raiva e apreensão em relação ao que estava por vir.
Nem quando seu pai morrera ele havia tido a menor intenção de voltar para a Escócia. Ele havia se desligado completamente dos McNarn, desde o dia em que fugira, com as costas ainda sangrando e cheias de vergões, das chicotadas do pai.
Se quisessem considerá-lo um renegado, eles que o considerassem! Não pretendia, de forma alguma, preocupar-se com sentimentos e opiniões dos outros, só com os seus.
Depois de ter terminado a faculdade, ele sentira que, com bastante dinheiro para gastar e com a bela aparência que tinha, as mulheres gravitariam em torno dele como mariposas em redor da luz, deixando-o sem tempo para pensar em qualquer outra coisa que não fosse seu próprio prazer.
O Príncipe Regente gostava de cercar-se de jovens dândis, incentivando-os quanto à extravagância no vestir que ele próprio adotava.
A moda que tinha sido lançada por seu amigo Beau Brummell e que ele ainda mantinha, mesmo depois de terem brigado e Brummell ter morrido no exílio.
Era, assim, com o entusiasmo desmedido de uma criança que vai à sua primeira festa, que o Rei estava agora planejando chegar â Escócia usando kilt, a saia escocesa tradicional da região montanhosa, ao norte.
Ele havia ordenado a todos que fossem ficar a seu serviço em Edimburgo que usassem seus tartãs e que passassem em revista seus Clãs, numa cerimônia que teria lugar em Portobello Sands, dia 23 de agosto, sexta-feira.
O Duque não havia pensado que sua presença seria requisitada nessa ocasião, mas o Rei deixara bem claro que ele deveria estar presente e ele não encontrara desculpa plausível para recusar.
Na verdade, o pedido de Sua Majestade, que era uma ordem, chegara justamente quando o Duque estava ponderando se devia ou não voltar à Escócia, depois de ter recebido um chamado urgente de seu administrador de bens, o Sr. Robert Dunblane.
O comunicado tinha sido feito logo, mas levara um tempo considerável para chegar até suas mãos.
Robert Dunblane era o administrador de bens de seu pai e o Duque lembrava-se de que, quando era pequeno, ele era a única pessoa com quem podia conversar.
Fora Dunblane quem o informara da morte do pai, há três meses, em uma carta em que deixava claro estar esperando que o Duque fosse a Edimburgo o mais breve possível.
O Duque lera a carta e jogara-a de lado. Por ele, seu Clã, seu Castelo e as terras que possuía podiam apodrecer!
Aceitava usar o título a que tinha direito agora, mas, fora isso, quanto menos ouvisse falar do Norte, melhor! E acabara afastando do seu pensamento a sugestão de Robert Dunblane.
A segunda carta, entretanto, fora diferente e a expressão do Duque anuviara-se, ao ler o que continha. Ao terminar, exclamara:
–Maluco! Ah, esse jovem maluco! Como pôde fazer uma loucura dessas?
Do sobrinho Torquil McNarn ele só se lembrava como uma criança de colo, que tinha nascido em 1808, dois anos antes de ele ir embora de casa, mas da irmã Janet lembrava-se bem, com carinho e afeição.
Ela era muito mais velha do que ele e assumira o lugar de sua mãe, que morrera quando ainda era muito pequeno.
Casara-se com um primo, também de sobrenome McNarn, e infelizmente fora embora do Castelo, deixando-o à mercê da tirania implacável do pai deles.
As únicas recordações felizes que o Duque tinha da Escócia eram de Janet e, há seis anos, desde que ela morrera, ele sentira que se perdera o último elo que o ligava àqueles que era obrigado a chamar de parentes e amigos.
A carta de Robert Dunblane tinha despertado nele, ainda que com relutância, um senso de responsabilidade em relação ao filho de Janet, e deixara bem claro o que se esperava que ele fizesse.
“Torquil McNarn não é apenas sobrinho de Vossa Alteza”, escrevia Robert, “mas também o herdeiro do título e de sua posição de chefe do Clã , até que nasça um filho seu.”
O Duque havia se esquecido de que a sucessão escocesa dava-se tanto através da linha feminina quanto da masculina.
Ficou imaginando como seria o filho de Janet e se o sobrinho não daria um chefe de Clã bem melhor do que ele próprio. Depois, com certo cinismo, pensou que, se o menino estivesse contando com isso, estaria muito enganado, pois ele pretendia casar-se, mais cedo ou mais tarde, embora no momento não tivesse intenção de fazê-lo.
Havia muitas mulheres encantadoras com as quais ocupava seu tempo e quando não andava às voltas com os desportos, para que não sentisse necessidade, de escolher uma única companheira permanente. Tinha a impressão de que se o fizesse, logo sentiria um tédio mortal.
O Duque achava divertido conquistar mulheres. Gostava muito, desde que elas fossem esquivas e difíceis, que ele tivesse de persegui-las e disputá-las, como se fossem animais de caça ou um troféu de competição.
Tão logo as conquistava, o mistério que as envolvia cessava e ele perdia o interesse e o desejo por elas.
Partia então na perseguição de outra presa, pois, segundo ele, não havia maior perda de tempo do que se manter um romance que houvesse perdido a força e o sabor picante.
Até o Rei, já o havia recriminado por sua insensibilidade e crueldade para com as mulheres, que deixava de coração partido.
–O que há com você, Taran?– perguntara Sua Majestade um dia–, o número de romances que você tem durante um ano, é maior do que o de cavalos que eu tenho em meu estábulo!
–É que eu também estou à procura de um vencedor– retrucara o Duque.
O Rei sorrira e acabara admitindo que ele também se deixava seduzir por um rostinho novo e bonito.
–Por outro lado, Taran– continuara ele–, você não pode se esquecer de que essas frágeis criaturas têm sentimentos e você deixa muitas delas chorando, desesperadas…
–Uma mulher só chora quando não consegue o que ela quer– contra-argumentara o Duque, com cinismo–, elas têm que aprender a aceitar o inevitável… eu sou inacessível!
O Rei sorrira de novo, mas quando, mais tarde, o Duque contara a história para seu amigo William, estava furioso.
–O que ele espera que eu faça? Que me case com toda mulher com quem faço amor?– perguntara ele, indignado.
–Não, é claro que não– respondera Lord Hinchley–, mas é que você é cruel demais com todas elas, Taran. Será que nenhuma toca seu coração?
–Eu não tenho coração– afirmara o Duque, categórico.
Lord Hinchley sorrira.
–Isso é desafiar o destino. Um dia você vai se apaixonar e aí. então, vai entender como é angustiante e terrível ver alguém que você adora olhando por sobre seu ombro, à procura de alguém melhor do que você!
O Duque apenas sorrira, com cinismo, e o amigo exclamara, exasperado :
–Que diabo, Taran, você é muito convencido! Você está achando que isso é impossível, porque se considera o melhor! Pois bem, continue assim, que um dia vai ter sua retribuição, sem dúvida!
–Mesmo que isso aconteça, o que é pouco provável, ainda assim vou achar que gastei bem o meu dinheiro!
O Duque divagava, pensando em todas essas coisas, quando a voz de Lord Hinchley interrompeu-o, trazendo-o de volta ao presente:
–O que vai acontecer quando chegarmos?
–Não tenho a menor ideia– respondeu o Duque–, eu enviei uma mensagem ao meu administrador de bens, dizendo o nome do navio em que viajamos e a data aproximada em que devemos atracar em Perth. Suponho que ele providenciará um meio de nos levar até o Castelo. Senão, vamos ter que andar!
Lord Hinchley expressou seu desagrado com um gemido.
–São só uns três quilômetros e meio! Mas as montanhas são muito íngremes, principalmente para quem não está acostumado.
–Sei que você está zombando de mim!– disse o Lord–, por outro lado, neste país inculto, a ficção pode acabar se transformando numa realidade bastante desagradável! Por Deus do céu, Taran, vamos ao menos esperar pelo melhor!
Foi uma surpresa agradável quando, depois de o navio ter atracado, Robert Dunblane subir a bordo.
Era um homem alto, bem-apessoado, de mais de cinquenta anos, e sem dúvida causava impressão em seu kilt, com o boné de lado na cabeça de cabelos grisalhos e a capa xadrez, presa ao ombro por um enorme broche de pedras.
O Duque estendeu a mão para eie.
–Eu o teria reconhecido em qualquer lugar, Dunblane!
–Infelizmente, não posso retribuir o cumprimento de Vossa Alteza– retrucou ele.
O sorriso dele, entretanto, exprimia agrado e aprovação ao ver o Duque .
Sem dúvida, seria difícil para Robert reconhecer nesse homem alto e bonito, que agora estava diante dele, o rapaz franzino de olhar tempestuoso e rebelde, que fazia força para reprimir as lágrimas, como quando o vira pela última vez.
A calça justa em baixo e bufante, o fraque, a brancura impecável da gravata bem ajeitada acentuavam o corpo atlético do Duque, de ombros largos e quadris estreitos.
Robert Dunblane percebeu também as características dos McNarn; o nariz reto, aristocrático, e a boca firme, autoritária, severa.
–Suponho– disse o Duque, depois da troca inicial de gentilezas– que você tenha um meio de conduzir Lord Hinchley e eu ao Castelo. Não é?
Robert Dunblane sorriu.
–Há cavalos à sua disposição, Alteza, ou, se prefere, uma carruagem, mas permita que eu lembre, caso tenha esquecido, que as estradas são muito empoeiradas nesta época do ano, e é bem mais rápido atravessar-se a charneca em linha reta.
–Pois então iremos a cavalo– disse o Duque–, está bem para você assim, William?
–Estou pronto para qualquer tipo de viagem– retrucou Lord Hinchley–, desde que não seja por mar!
–Fizeram uma viagem difícil, milord? – perguntou Robert Dunblane, solícito.
–Terrivelmente difícil!– respondeu Lord Hinchley–, se eu não tivesse conseguido afogar o sofrimento do modo tradicional, sem dúvida já estaria numa sepultura no fundo do mar!
O Duque riu.
–O Lord está exagerando!– disse ele–, o mar estava um tanto encapelado, é verdade, mas felizmente pegamos vento de popa, senão teria sido bem pior!
–Impossível!– exclamou Lord Hinchley, e eles todos riram.
Estava um dia ensolarado e uma ventania forte, capaz de arrancar indivíduos franzinos de suas montarias, quando partiram nos cavalos que Dunblane providenciara para eles.
Deixaram para trás a cidade de Perth e rumaram para o norte, passando pelo Palácio Real de Scone, onde tinha havido várias coroações.
O Duque ficou imaginando se Lord Hinchley estaria interessado em saber que o Parlamento e o Conselho Geral reuniam-se em Scone, no período entre a ascensão de Alexander I, que nasceu em 1106, e a morte de Robert III, em 1406.
Mas logo disse para si, com um sorriso cansado, que os ingleses não se impressionavam com a história escocesa e aliás, faziam o possível para destruir tudo o que desse prestígio ou importância àquela que, para todos os efeitos, era uma colônia conquistada.
Percebeu então, surpreso, que estava pensando como um escocês e, talvez pela primeira vez em muitos anos, sentiu-se melindrado com o costume inglês de desmerecer os escoceses e de considerá-los selvagens e incultos.
Acreditava que, em grande parte, a hostilidade, a indiferença e até a crueldade deles eram ditadas pelo medo.
Havia alguma razão para isso, pois, há apenas trinta anos, as tropas inflamadas por propaganda sediciosa, em Register House, Edimburgo, haviam gritado:
–Abaixo o Rei!
Lembrou-se também de que, por todo o campo, à medida que chegavam as notícias das vitórias dos franceses, comandados por Napoleão, os escoceses iam plantando pinheiros como símbolos de liberdade.
Mas agora tudo isso estava terminado. George IV estava para visitar a Escócia e dizia-se que era um gesto de amizade.
–Não sei se Sua Alteza lhe falou– disse Lord Hinchley a Robert Dunblane, enquanto cavalgavam–, mas devo partir para Edimburgo dentro de um dia ou dois, para os preparativos da visita de Sua Majestade.
–Imagino que milord vá preferir ir pela estrada– comentou Robert.
–Com toda a certeza!– respondeu Lord Hinchley–, por muito tempo não vou conseguir olhar o mar sem estremecer.
–Espero que uma das carruagens de Sua Alteza seja mais confortável– disse Dunblane, cortesmente.
O Duque, entretanto, estava pensando que, se seu amigo tivesse bom senso, iria a cavalo.
Era muito agradável cavalgar montanha acima, avistando-se a cidade e seu largo rio prateado, contemplando-se a charneca, com seus urzais azul-violáceos e, lá ao longe, os grandes picos das montanhas Grampian.
Recortadas contra o céu, ainda com vestígios de neve, elas eram muito bonitas.
Um bando de perdizes alçou voo, à passagem do Duque, dirigindo-se para um lugar mais seguro no vale.
Os três continuaram subindo por algum tempo ainda, até que finalmente, no topo da charneca, Dunblane fez parar seu cavalo para que os visitantes apreciassem a magnífica vista.
O estuário descrevia um desenho azul brilhante à luz do sol, as Torres e tetos de Perth espalhavam-se às margens do rio e as urzes silvestres davam uma sensação de liberdade.
Ao contemplá-las, o Duque sentiu-se como se tivesse fugido de um cativeiro e essa era uma sensação para a qual não achava explicação.
Começou a lembrar-se da expressão dos rostos dos criados que estavam à espera deles, quando desembarcaram do navio.
Dunblane apresentara a Taran o homem encarregado de cuidar deles, um escocês enorme e rude, cujos olhos fitaram o Duque com inegável devoção.
«Depois de todos estes anos, será que ainda represento algo para essa gente que usa o mesmo nome que eu?» perguntou-se o Duque.
Gostaria de ter perguntado a Dunblane, mas concluiu que ficaria embaraçado, porque Lord Hinchley sem dúvida riria de sua curiosidade.
Lembrou-se do quanto havia reclamado de fazer aquela viagem e de quantas vezes repetira que detestava a Escócia,
–Se você a detesta tanto assim, por que vai voltar?
–Por questões de família– retrucara o Duque sucintamente.
Sabendo que seria invadir a privacidade dele, Lord Hinchley não perguntara mais nada ao amigo.
Contudo não pudera deixar de pensar que Taran era uma criatura estranhamente imprevisível.
Tinha grande afeição por ele e era impossível não admirá-lo como desportista, mas ao mesmo tempo, sentia no escocês certa reserva que não encontrara em nenhum outro homem que conhecia.
Ele achava que, como eram amigos íntimos, não haveria nada sobre o que não pudessem conversar; nada seria assunto tabu.
Mas logo descobriu que o Duque não gostava de falar sobre qualquer coisa referente aos McNarn.
Dunblane, afastara-se deles e agora, cavalgando no topo da montanha, podiam locomover-se bem mas rápido.
Tanto o Duque quanto Lord Hinchley estavam acostumados a passar longas horas sobre uma sela. Iam às corridas de Newmarket sem achar fatigante e já haviam disputado páreos entre si, tentando quebrar o recorde do Rei, varias vezes em Brighton.
Entretanto, Lord Hinchley sentiu alívio quando, duas horas mais tarde. Dunblane disse:
–Agora estamos a pouca distância, dentro de cinco minutos avistaremos o Castelo .
O Duque conhecia-o bem desde a infância, contudo, quando, depois de contornarem um penhasco, viu o Castelo adiante, foi impossível não achá-lo maior, mais impressionante e imponente do que ele se lembrava.
Uma enorme construção em pedras cinzentas, com Torres, janelas e portas alongadas, no estilo do século XVII, o Castelo Narn, era um dos mais importantes e certamente o mais suntuoso das Highlands.
Lord Hinchley ficou boquiaberto, fitando-o com indisfarçada admiração.
–Meu Deus do céu, Taran!– disse ele–, você nunca me disse que possuía algo tão maravilhoso quanto o Castelo Windsor!
–Alegra-me que tenha gostado– disse o Duque secamente.
Entretanto, não pôde evitar uma sensação de orgulho.
Ele tinha chegado a odiar o Castelo , que fora uma sombra em sua infância, tão ameaçador e opressivo, que quando fugira dele, no meio da noite, pensara que nunca fosse voltar.
Contudo, ao vê-lo assim, com o sol batendo nas janelas, a bandeira tremulando ao vento na Torre mais alta, a posição de domínio sobre as terras que o circundavam, o Duque sentiu que o Castelo realmente era digno do chefe dos McNarn.
Olhou para trás, para ver se os criados da estrebaria que os acompanhavam ainda estavam à vista.
A bagagem estava seguindo pela estrada e eles tinham sido escoltados por seis homens a cavalo, que agora estavam se aproximando bastante deles, não mais mantendo a distância que haviam respeitado durante o percurso todo.
O Duque virou-se para a frente de novo e Robert Dunblane disse calmamente:
–Eles estarão esperando do lado de fora do Castelo, para cumprimentar Sua Alteza.
–Eles?– perguntou o Duque–. Quem?
–Os homens do Clã. Somente, é claro, aqueles que moram nas vizinhanças do Castelo. Os outros virão das montanhas amanhã ou depois.
O Duque ficou em silêncio por instantes e depois perguntou:
–Para quê?
Foi uma pergunta sem rodeios, na qual ele mesmo sentia haver um certo toque de apreensão.
Dunblane franziu as sobrancelhas e olhou para ele imediatamente.
–Há uma cerimônia tradicional para dar as boas-vindas a um novo chefe de Clã e eles estão esperando ansiosos por sua volta.
O Duque não respondeu.
Era impossível dizer a Dunblane que, ate receber a segunda carta, ele não tinha tido a menor intenção de voltar.
Lembrava-se vagamente do pai, presidindo reuniões do Clã, das quais Taran não participava, e conduzindo festas de Natal, das quais participava.
Agora estava percebendo quão importante um chefe era para seu povo e, embora tivesse tentado se convencer, ainda em Londres, de que essas coisas estavam fora de moda, sabia agora que se enganara.
Desejou ter dito claramente em sua carta a Dunblane, quando anunciara sua chegada, que ele não queria alarde, nada de cumprimentos especiais, nada de membros do Clã prestando homenagens.
Depois, achou que, mesmo que tivesse feito isso, ninguém faria caso de seu pedido.
Um chefe era o pai de seu Clã e, se antigamente detivera o poder de vida ou morte sobre seu povo, era também responsável por seu bem-estar.
Como era mesmo aquilo que tinha lido num livro, quando estava em Oxford? Era um texto que visava explicar a posição dos chefes de Clã , e dizia:
“Como senhorio, patriarca, símbolo, juiz e general, seu poder era total e absoluto, mas de vez em quando discutia questões de grande importância com os membros de sua família e os membros líderes de seu Clã ”.
«Uma coisa é certa», pensou o Duque, «eu não tenho parentes próximos com quem discutir, nem planos imediatos. Meu pai morreu, graças a Deus e, infelizmente, minha irmã Janet também».
Só restava Torquil, e fora justamente aquele jovem desmiolado, seu herdeiro presuntivo, quem o havia trazido de volta à Escócia, arrancando-o do conforto e divertimentos de Londres.
Devia haver, ainda, outros parentes dos quais não se lembrava. Em tom deliberadamente casual, o Duque perguntou a Dunblane:
–Há alguém morando no Castelo ?
–Só Jamie, Alteza.
O Duque ficou confuso.
–Jamie?
–O filho mais novo de Lady Janet.
–Ah, é claro!
O Duque havia-se esquecido do nome do sobrinho e só se lembrou dele quando Dunblane falou.
Tinha sido justamente por ocasião do nascimento desse segundo filho que Janet morrera de parto.
–Ele é mesmo muito engraçado– disse Dunblane–, corajoso e ousado, um verdadeiro McNarn em todos os sentidos!
–Ousadia não é um atributo que eu deseje encontrar em meu sobrinho precisamente agora!
Disse o Duque, com certa rispidez. Dunblane sentiu-se repreendido e ficou um tanto nervoso, mas não disse nada.
Depois, tão repentinamente que Lord Hinchley e o Duque se sobressaltaram, surgiram homens de entre as urzes e precipitaram-se para eles, cercando-os.
Estavam todos de braços erguidos, em saudação, e bradavam em conjunto o que o Duque reconheceu ser o grito de guerra, o lema dos McNarn.
Era uma exaltação entusiástica e selvagem, que tanto fazia lembrar um passado heroico quanto incitava a matar o inimigo.
O Duque lembrou-se de que aquilo fazia parte da identidade do Clã , tal como a insígnia de urze ou murta que os homens usavam no boné.
O lema foi gritado várias vezes; em seguida, o som doce das gaitas de fole fez-se ouvir e os homens desmontaram, marchando ao lado de seus cavalos, em direção ao Castelo .
E, antes mesmo que se desse conta, o Duque viu-se cavalgando sozinho à frente deles, enquanto Dunblane e Lord Hinchley seguiam um pouco atrás, junto com a escolta de seis homens.
Um instante depois, o som das gaitas foi abafado por centenas de vozes, aclamando, e o Duque viu os homens de seu Clã esperando por ele, formando um corredor até a entrada do Castelo.
Eram estranhos, rudes e pobres, contudo havia orgulho em suas posturas, e os ombros largos e os braços fortes mostravam que eles eram homens para se respeitar.
As aclamações eram fortes e não havia possibilidade de falar com alguém individualmente, ou responder às saudações, a não ser com um aceno de mão e uma inclinação de cabeça.
Então, quando chegou à porta do Castelo o barulho, o vozerio e a música das gaitas cessaram de repente.
Os homens do Clã ficaram observando-o em silêncio, e o Duque pôde ver as esposas e os filhos deles, mais distantes, sem participarem, espiando por trás dos arbustos.
Taran tinha tido intenção de entrar direto no Castelo, mas algo mais forte do que sua vontade, um instinto de fazer o que era certo e que ele não podia ignorar, fez com que parasse e virasse de frente para os homens que haviam lhe dado as boas-vindas.
–Obrigado– disse ele, numa voz que empolgava–, obrigado e que a boa fortuna esteja convosco!
Foi um cumprimento que lhe veio à mente, surgindo de seu passado, mas o mais estranho foi que ele proferiu a frase em gaélico, a língua que não falava há doze anos!
Um grande viva ergueu-se da multidão, espontâneo e sincero. O Duque levantou de novo o braço em saudação, depois virou-se e entrou no Castelo.
–Agora, diga-me o que meu sobrinho fez– disse o Duque.
Eles haviam terminado de jantar e Lord Hinchley passara para outro aposento, enquanto o Duque levava Dunblane para a biblioteca, onde seu pai sempre tinha ficado.
Quando entrou, chegou a ter impressão de que ia ver a sombra escura do homem que tanto detestara, sentado à escrivaninha, perto da janela que dava para o vale.
O Duque sempre pensara no pai como uma estátua grotesca, olhando sinistra e ameaçadoramente para as terras que possuía.
Para seu espanto, a sala estava bem diferente da caverna escura e triste de que ele se lembrava.
A biblioteca, magnificamente mobiliada, tinha sido projetada por William Adam com simetria e beleza indescritíveis.