Kitabı oku: «Uma Orquidea Para Chandra»
Uma Orquídea para Chandra
Barbara Cartland
Barbara Cartland Ebooks Ltd
Esta Edição © 2014
Título Original: “Love in the Clouds”
Direitos Reservados - Cartland Promotions 2014
Capa & Design Gráfico M-Y Books
m-ybooks.co.uk
Nota da Autora
Ao visitar o Nepal, em 1958, voei até ao “Vale Feliz”, de Katmandu, pois a estrada que subia para as montanhas ainda era difícil e perigosa. No ano seguinte, abriram uma outra de acesso mais fácil.
Gostava daquele pequeno paraíso, lindo, envolvente, com seu povo simpático e encantador, principalmente os Gurkas. Hospedei-me em um dos belos Palácios, construído pela família dos todo-poderosos Primeiros-Ministros, falei com a “Deusa Viva”, uma menina de seis anos, e visitei os Monges do Tibete, que em minha honra, tocaram as suas trombetas de latão.
No Nepal, o “Teto do Mundo” é impossível não acreditar no sobrenatural, nas lendas que o país possui em abundância, e não sentir que o assombroso Himalaia, encerra segredos espirituais ainda desconhecidos para o mundo ocidental.
As referências feitas a sir Brian Hodgson e a Nana Sahib, são todas verídicas.
CAPÍTULO I
Ao voltar da aldeia, Chandra viu uma carruagem parada à entrada de sua casa, e apressou o passo.
Ficou aborrecida por alguém ter ido visitar seu pai sem que ela estivesse em casa, e sabia que ele não desejava ser incomodado. Reconheceu intimamente que era culpada, pois se não tivesse parado para tagarelar, teria chegado vinte minutos antes.
Sempre gostara de ir à aldeia, porque os donos das lojas modestas, que a conheciam desde menina, estavam sempre prontos a recordar os “velhos tempos” e sua mãe. A Sra. Geary, da padaria, mal a via, exclamava:
–Oh, Srta. Wardell! Cada vez que a vejo, está mais parecida com sua mãe.
–Não poderia dizer-me nada que me agradasse mais do que isso– respondia Chandra.
A Sra. Geary punha-se então a contar histórias sobre a beleza da mãe de Chandra ao chegarem à mansão senhorial, e o quanto era amada por todos na aldeia.
Chandra, reconhecia que aquela era a verdade, pois sua mãe tinha o dom de fazer amigos onde quer que fosse, e talvez se prevalecesse disso, mais do que qualquer outra mulher, para compensar as falhas sociais do seu marido.
O professor Barnard Wardell achava as pessoas maçantes e só desejava ficar a sós com seus livros. Era um dos maiores conhecedores de sânscrito de sua época. Fora eleito membro da Sociedade Real Asiática, bem como da Sociedade Real, e a Sociedade Asiática de Paris tinha-o em grande conceito.
Infelizmente, o público em geral não se interessava por seus trabalhos científicos, e portanto suas obras não eram vendidas facilmente. Por felicidade, recebia uma pequena subvenção da Sociedade Asiática de Bengala, pois de outro modo, teria que contar apenas com uma modesta quantia dos direitos autorais, enviada periodicamente por seus editores.
–O senhor não acha, papai– dissera-lhe Chandra inúmeras vezes–, que poderia escrever um livro que interessasse às pessoas comuns, desejosas de conhecer mais acerca do Oriente e dos seus tesouros literários? Há pessoas que nem sequer sabem que esses tesouros existem!
–Não desejo atirar minhas pérolas de sabedoria aos porcos!– replicara ele.
–Mas, papai, precisamos de dinheiro. Embora eu economize cada moeda que me dá, não podemos viver de brisa!
Enquanto falava, sabia que seu pai não lhe dava atenção.
Seu espírito estava distante, num lama seria, num Convento budista, no Tibete, ou em um Mosteiro no sopé do Himalaia, ou em qualquer parte do mundo onde os sábios do passado tinham escondido seus manuscritos, os quais ninguém, a não ser homens eruditos, podia decifrar.
Muitas vezes, ao ler sobre as vendas de um romance ou um livro de viagens com milhares de edições, Chandra desejava que seu pai fosse diferente. Depois, reconhecia orgulhosamente que ele era um sábio extraordinário, e não desejaria mudá-lo.
Justamente por não terem dinheiro, e ser quase impossível, ele ter uma secretária, foi que, há uns cinco anos, Chandra começara a trabalhar com o pai nas traduções.
De início, achara o serviço exaustivo, depois o julgara interessante, e na realidade muito fascinante.
Entretanto, o professor não era um homem paciente. Às vezes ele chegava a gritar com a filha, quando ela achava difícil entender palavras complicadas do sânscrito.
Mas, com o passar do tempo, e por ser muito inteligente, Chandra, se tornara cada vez mais eficiente, até que no último ano passara a fazer sozinha o esboço de um manuscrito, e seu pai, limitava-se a revisá-lo.
O professor Barnard estava envelhecendo, e devido às longas viagens que fizera por todas as partes do mundo, contraíra malária e todos os tipos de febres asiáticas. Contudo, jamais admitiria essa fraqueza, e Chandra costumava dizer-lhe:
–Papai, deixe que eu termine esta tradução. No jornal de hoje há um artigo muito interessante, e gostaria que desse sua opinião. Coloquei-o em sua poltrona.
Seu pai a obedecia, sentava-se em sua poltrona favorita, e mal começava a ler, adormecia. Chandra via nisso a prova de que, embora ele não aceitasse a sua debilidade, ela era um fato indiscutível.
Andando agora pelo jardim cheio de mato, precisando ser podado, por não poderem pagar um jardineiro, ela pensava que uma visita não só aborreceria o pai, mas o cansaria. Suspeitara, recentemente, de que ele se esforçava mais do que era prudente.
Ao aproximar-se da carruagem, viu que era puxada por dois cavalos, e na boleia encontrava-se um cocheiro muito elegante, usando um chapéu de três bicos.
Ficou imaginando quem seria o visitante, percebendo pelo estilo do carro não se tratar de um dos colegas literatos de seu pai, na maioria tão pobres quanto ele.
Só esperava que não fosse Lady Dorritt, a dona do Castelo, a quem realmente detestava. Era a esposa do Governador de província, que além de incrivelmente obsequiosa era muito tagarela.
Sabia, porém, que Lady Dorritt, só andava em carruagem fechada, por isso não devia ser ela.
Entrou no vestíbulo com painéis de carvalho, no qual havia uma escadaria no estilo Elizabetano, finamente entalhada, que subia em curva para o primeiro andar.
Ao dirigir-se para o estúdio, sabendo que era lá que seu pai devia ter recebido seu visitante, avistou uma cartola sobre a cadeira.
Sua mão já se estendera para a porta, quando ouviu uma voz grave que não reconheceu, e ficou escutando. Como não conseguisse ouvir claramente, em vez de entrar ali, correu até uma outra porta do vestíbulo, abriu-a e entrou na sala de visitas.
Esta era raramente usada desde que a mãe morrera. Suas cortinas estavam sempre fechadas para que o sol não desbotasse o tapete, e também para diminuir o trabalho de Ellen, a já idosa e única empregada.
Caminhando sem fazer ruído, Chandra foi até um armário de canto que permanecera no vestíbulo quando a sala fora reformada pela primeira vez. Descobrira recentemente que, ao abrir a porta desse armário, podia ouvir claramente o que falavam no escritório.
Supunha que, para instalar aquele armário, tinham tirado os tijolos, deixando apenas uma camada superficial de reboco na parede do quarto ao lado. Contara isso ao pai, que achara graça e lhe dissera:
–Não posso crer que esta casa, tendo pertencido à mais respeitável família do condado, até meu pai a adquirir, fosse usada para espionagem. No entanto, podemos tirar proveito desse posto de escuta…
–Como, papai?
–Quando alguns dos meus visitantes importunos demorarem demasiadamente, elevarei minha voz e você poderá vir socorrer-me…
–Tenho uma ideia, papai! Vamos inventar um código! Se disser, “está frio para esta época”, saberei que está ansioso por livrar-se deles e se falar; “sinto cheiro de fumaça”, compreenderei que devo socorrer o senhor imediatamente!
–É isso que sempre preciso, todas as vezes que você me impinge esses idiotas faladores– resmungou ele–, não consigo imaginar por que as pessoas não me deixam em paz!
Essa era a eterna queixa do professor, pois tudo que mais desejava era ficar sozinho com seus livros.
Ao abrir a porta do armário, Chandra ouviu a voz grave que escutara no vestíbulo dizer:
–Se a minha informação está certa, será a mais espantosa descoberta de todos os tempos.
–Concordo com o senhor– respondeu o professor–, mas sabe tão bem quanto eu que os informes desses manuscritos são frequentemente baseados em boatos e em geral, acabam demonstrando que são inteiramente sem valor.
–Meu informante é um homem de completa integridade, mas é natural que possa ter se enganado.
–Ele lhe foi realmente útil no passado?
–Sempre o julguei merecedor de crédito, além do quê ele se deu ao trabalho de vir para a Inglaterra,
–Certamente isso indica que ele estava convencido do valor do manuscrito, mas Lord Frome, ainda não me disse como lhe posso ser útil…
Chandra estremeceu. Sabia agora quem era o visitante. Damon Frome, era um dos homens mais interessados nos tesouros do sânscrito. Seu pai já o mencionara várias vezes.
Nos últimos dois anos o professor Barnard, realmente recebera de Damon Frome vários manuscritos, que Chandra ajudara a traduzir. Lembrava-se agora de que eram muito mais antigos e emocionantes do que todos os outros analisados por seu pai, e o melhor é, que o professor fora muito bem pago pelo tempo que gastara nessas traduções.
«Se Lord Frome trouxera algum trabalho novo para seu pai» pensou encantada, «seria justamente o que estava precisando no momento».
Há pouco, antes de sair da aldeia, o Sr. Dart, o dono do empório, avisara Chandra, que o professor estava devendo muito, e pedira-lhe para amortizar um pouco essa dívida.
O Sr. Dart, era um homem nervoso, um pouco gago, mas não do tipo explosivo e exuberante, próprio da sua profissão.
Chandra reconhecia que ele elevara a voz para lhe falar, mas sabia que a conta com o Sr. Dart vinha aumentando cada vez mais, já há meses.
–Falarei com papai– a moça respondeu–, estou certa de que ele se esqueceu dessa dívida com o senhor. Sabe o quanto ele é distraído.
–Peço que me desculpe por importuná-la, bem como ao professor– respondera o Sr. Dart–, mas sabe como os tempos estão difíceis, e nada posso encomendar ao meu atacadista, sem pagar em dinheiro.
–Compreendo, Sr. Dart. Falarei com papai mal chegue a casa– para aliviar um pouco a situação, ela lhe pedira notícias dos filhos.
Ao afastar-se do modesto estabelecimento, Chandra ficou imaginando como pagar essa dívida. Evidentemente, poderia escrever para os editores de seu pai. Já o fizera no passado e ele se zangara ao descobrir.
Tinha, porém, pouca chance de que concordassem em pagar adiantado pelos livros publicados no ano anterior, os quais, embora elogiados nas revistas eruditas, receberam pouca aceitação do público.
Ao voltar para casa, enquanto caminhava, perguntou a si mesma se ainda havia alguma coisa que pudesse vender. Mas não havia mais objetos de valor em sua casa, fora os manuscritos de seu pai.
Agora, porém, sentia-se animada. Lord Frome trouxera algum trabalho para seu pai, e tinha certeza de que no futuro tudo seria diferente.
–O que desejo nesta situação– continuou falando Lord Frome–, é o seu auxílio, professor, e de um modo diferente de tudo quanto já fizemos antes.
–Um modo diferente?– perguntou seu pai intrigado.
–No passado, trouxe-lhe manuscritos que descobri no Tibete e no Himalaia, e o senhor os traduziu com uma tal perícia, permita-me dizer-lhe, que não pode competir com nenhuma outra no mundo ocidental.
–É muita bondade sua– Chandra ouviu seu pai responder, sabendo o quanto esse elogio lhe agradara.
–Mas, como esse manuscrito é tão precioso e tão diferente de tudo que descobri anteriormente– continuou Lord Frome–, não só quero que o traduza para mim, mas que me ajude a achá-lo.
–Achá-lo?– repetiu o professor, muito surpreso.
–Isso mesmo. Para ser franco– observou Lord Frome–, não estou certo de que eu o reconheceria se o visse.
Houve um silêncio e Chandra tinha certeza da expressão perplexa de seu pai ao olhar para Lord Frome.
–O que estou querendo dizer, professor– disse o Lord, como se respondendo a uma pergunta muda–, é que o senhor tem de ir comigo para o Nepal.
–Nepal? Por quê? Julga ser lá que o manuscrito está escondido?
–Meu informante contou-me que existe uma lamaseria nas montanhas do outro lado de Katmandu. Tem quase certeza de que, nesse Mosteiro, o abade e os monges não fazem ideia do que possuem, de fato, ele julga que esses religiosos não são homens de grande cultura, mas sim donos de uma profunda piedade.
–É evidente que isso tornaria mais fácil a aquisição– observou o professor, de um modo prático.
–Foi o que pensei– concordou Lord Frome–, ao mesmo tempo, e segundo fui informado, naquele Mosteiro existem centenas, senão milhares de manuscritos! A não ser que eu, pretenda passar lá muitos anos para pesquisá-los, precisarei de seu auxílio para encontrar exatamente o que eu quero.
–Está realmente pedindo para eu o acompanhar ao Nepal? Ouvi dizer que é muito difícil entrar no país.
–Sim, é. De fato, a poucos europeus foi permitida a entrada, com exceção do residente britânico.
–O residente sir Brian Hodgson foi oficial da colônia britânica até 1842, se não me engano.
–Correto!– exclamou Lord Frome–, mas depois, lamentavelmente, devido à inabilidade de Lord Ellenborough, ele se demitiu. Tornou-se então uma espécie de ermitão em Darjeeling, onde realizou o mais espantoso trabalho nos manuscritos em sânscrito.
–Claro! Isso mesmo! Examinei a maioria dos que ele apresentou à Sociedade Real Asiática e ao Departamento da Biblioteca da Índia.
–E eu também– retrucou Lord Frome–, são coleções extraordinárias, e as gerações futuras deveriam sentir-se imensamente gratas pelas pessoas que neles trabalharam.
–Duvido!...– murmurou o professor, mas o outro continuou:
–Atualmente, existe um oficial da colônia britânica como residente britânico no Nepal. Foi uma sorte, ele ter convencido o Primeiro-Ministro, de que devia autorizar-me a entrar no país juntamente com um auxiliar. Admitindo que não pretendemos nos demorar muito, uma vez lá, creio que será possível alongar nosso limite de tempo.
–Está tornando tudo mais fácil do que eu esperava– observou o professor.
–Nada é fácil quando se está lidando com o Oriente. Teremos apenas que fazer as coisas gradualmente. O primeiro passo já foi dado, com a permissão de visitar o Nepal durante um tempo limitado.
–Os nepaleses não criarão dificuldades com a remoção de seus tesouros?– perguntou o professor.
–Duvido que saibam o valor deles, não em termos de dinheiro, naturalmente, mas a sua importância intelectual. Não preciso dizer-lhe, professor, que se encontrarmos o “Manuscrito Lótus”, conforme o chamamos, toda a humanidade inteligente se beneficiará posteriormente desse grande achado!
–Não nos resta senão rezar, para que seu informante não tenha sido iludido por informações falsas.
–Tenho um pressentimento, e costumo segui-los, de que vamos encontrar o manuscrito! E ele será trazido para cá, a fim de que o senhor possa realizar seu trabalho de pesquisa e tradução.
Lord Frome devia ter se levantado, pois Chandra ouviu o ruído de uma cadeira sendo empurrada, escutando depois:
–Parto esta noite, professor, e espero que possa juntar-se a mim, o mais depressa possível, em Bairagnia.
–Como poderei fazer isso? Não planejei nada!
–Tomei a liberdade de reservar uma cabine no navio Bezwada, que vai zarpar de Southampton, na próxima quarta-feira. Quando o senhor chegar a Bombaim, já deverei ter partido para o norte, mas o esperarei em Bairagnia.
Fez uma pausa, e Chandra presumiu que estivesse sorrindo ao dizer:
–Sei que já andou muito a cavalo, professor… espero que não tenha abandonado esse exercício ao viver aqui na Inglaterra.
–Está dizendo que precisarei montar para entrar no Nepal?
–Isso mesmo, a estrada de ferro termina em Bairagnia. Depois, leva-se dois dias cavalgando por uma região montanhosa antes de chegar à “estrada”, se é que assim possamos chamá-la, a que vai dar a Katmandu.
–Não poderá ser pior do que a viagem que fiz a cavalo para o Tibete, há dez anos. Às vezes imagino como não morri congelado ou me perdi nas tempestades de neve que quase me impossibilitavam de encontrar o caminho.
–Um passo em falso e estaria no precipício!– acrescentou Lord Frome, rindo–, o Nepal não é assim tão ruim, embora seja chamado “o teto do mundo”.
–Tranquiliza-me, milorde– observou o professor–, eu ando muito bem a cavalo.
–Aqui está sua passagem para o navio e dinheiro suficiente para as despesas da viagem. Um de meus empregados o esperará em Bombaim, com as passagens do trem. Ele vai viajar com o senhor e cuidar para que tudo lhe seja satisfatório.
–Sempre soube que o senhor é um homem prático e um viajante muito eficiente, milorde– observou o professor.
–Realmente sou– replicou Lord Frome, num tom um tanto duro.
–Faço meus planos com bastante antecedência, e se não forem impedidos por qualquer imprevisto, tudo corre calmamente.
–Vou esperar ansiosamente pela nossa grande aventura no Nepal– disse o professor–, e como o senhor sempre é bem-sucedido, milorde, espero que desta vez não se dececione.
–Duvido muito– replicou Lord Frome.
Chandra escutou os dois atravessarem o escritório dirigindo-se para o vestíbulo. Compreendeu que seu pai estava acompanhando o Lord até a porta de entrada.
Pensou em juntar-se aos dois, mas desistiu. Tinha a impressão de que ele não se interessava pela vida particular de seu pai, e tampouco fazia questão de conhecê-la.
Lord Frome não se preocupara por estar interrompendo a vida familiar do professor, se é que sabia de sua existência, ao ordenar aquela partida, quase que imediata para o Nepal.
Pela sua voz autoritária, deduziu que devia ser um homem habituado a dar ordens sem admitir réplicas. Evidentemente, sabia que o professor ficaria emocionadíssimo ao ouvir falar do manuscrito raro e até o momento desconhecido.
Contudo, poderia ter mostrado um pouco de humanidade, desculpando-se pelo transtorno que estaria causando a um homem idoso, tendo que abandonar sua casa na Inglaterra sem um aviso prévio de alguns dias.
Ao ouvir bater a porta de entrada, Chandra saiu da sala de visitas escura. O pai estava voltando para o escritório. Em seu rosto transparecia uma expressão de deslumbramento.
–Papai…– ele porém, a interrompeu.
–Pôde escutar o que foi dito, Chandra? Presumi que o fizesse na sala vizinha.
–Sim, papai. Estive ouvindo.
–Imagine! O “Manuscrito Lótus”! Sempre ouvi falar e sonhei com ele desde menino. Jamais pensei que o veria… que pudesse tê-lo em minhas mãos!
–Não pode ter certeza de que o encontrará, papai. Por favor, conte-me algo a seu respeito.
O professor deixou-se cair numa poltrona de couro desbotado e gasto, mas a mais confortável da sala.
–Segundo se supõe, o “Manuscrito Lótus”, como é conhecido na linguagem comum entre os estudiosos dos textos orientais, foi escrito por um dos discípulos de Buda enquanto ele ainda vivia. Nele estão narradas explicações, que não constam de quaisquer outros livros. Por ser tão sagrado para os adeptos de Buda, foi escondido logo após sua morte para evitar que caísse em mãos impróprias.
–Onde o esconderam?– perguntou Chandra.
–Pelo que sei, foi levado de uma lama para outra, carregado pelas montanhas e rios! Sempre foi tratado com grande reverência, contudo não permaneceu em nenhum lugar por muito tempo.
Graças aos seus estudos sobre o Oriente, Chandra sabia que isso era típico daqueles homens santos que sempre suspeitavam que algo de tão precioso pudesse ser roubado ou, o que era pior, dos inimigos de sua religião que desejassem destruir o que não compreendiam.
–Acredita realmente que uma coisa tão valiosa pudesse acabar num Convento budista do Nepal?– perguntou.
–Sabemos pela Coleção Hodgson quão inesperadamente importantes demonstraram ser as obras budistas, em sânscrito, no Nepal. Talvez esse convento, já não muito útil, pudesse ter tido no passado um abade encarregado de salvar o “Manuscrito Lótus”!
–Mas, papai, não vê que essa viagem será muito penosa? O senhor será forte o suficiente para empreendê-la? Para poder cavalgar pelas montanhas?
Como o pai não respondesse, prosseguiu:
–Sei que o senhor já fez isso no passado… mas era muito mais moço.
–Ainda não estou senil– replicou o professor, rispidamente–, não vejo nenhum motivo para não tornar a fazer o que fiz inúmeras vezes no passado.
Pela expressão do pai, compreendeu que ele estava enlevado pela ideia daquela viagem, e não adiantava tentar dissuadi-lo. Em vez disso, o melhor que teria a fazer para auxiliá-lo era supri-lo de todo amor e conforto. Aproximou-se dele e beijou-lhe a testa.
–Será muito emocionante, papai. Gostaria de poder ir com o senhor.
–Eu também, querida. Para ser franco, sentirei sua falta.
Chandra sabia que era verdade. Ele a sentiria, não só porque se habituara a ser cuidado por ela, mas por confiar no trabalho que faziam juntos.
–Sei que se arranjará sem mim– disse ela em voz alta, para inspirar-lhe confiança–, só que existe uma dificuldade… o que eu vou viver, enquanto o senhor estiver fora?
Julgou que seu pai lhe diria que não desejava ser importunado com raiz banalidades, mas ele respondeu:
–É evidente que não ouviu o que o Lord Frome me disse ao sair do escritório.
–O que foi, papai?
–Disse: “Esqueci de mencionar, professor, que insisto em pagar muito bem pelos seus serviços. Eis aqui um cheque de seiscentas libras, e haverá um outro da mesma importância para quando voltar com o manuscrito, e nele começar a trabalhar”.
–Mil e duzentas libras! Mal posso acreditar, papai!
–Parece uma quantia enorme– retrucou o professor–, mas enquanto isso… haverá despesas, e evidentemente ignoramos quanto tempo levarei para traduzir o manuscrito.
No momento, Chandra estava disposta a dispensar tudo aquilo como desnecessário. O que importava era poder pagar as contas na aldeia, e também que Ellen e ela sobreviveriam enquanto seu pai estivesse fora. Enlaçou o pescoço dele, dizendo muito animada:
–Isso é realmente maravilhoso, papai! Estive justamente pensando, ao voltar da aldeia, como poderia dizer-lhe que o Sr. Dart, pediu-me para que pagasse alguma coisa por conta de nossa dívida tão antiga.
–Agora pode pagar tudo!– respondeu ele–, e também aos outros negociantes aos quais estamos devendo.
–Temos muitas dívidas– observou Chandra com um sorriso, sabendo o quanto seu pai era desligado dessas coisas–, mas agora está tudo ótimo. Vou correndo contar a Ellen.
Ellen fora criada de sua mãe. Depois que ela morrera, passara a cuidar dos dois. No momento encontrava-se na cozinha preparando sanduíches de pepino, os prediletos do professor, e fervendo água para o chá. Sua expressão demonstrava que ela estava preocupada com os problemas domésticos.
– Ellen, o que pensa disso?– perguntou Chandra, ao entrar na cozinha.
–O que penso, Chandra? Que está atrasada para o chá, e que temos uma visita.
–A visita já foi, mas deixou um cheque de seiscentas libras!
–Ora, Chandra. Não quero saber de suas brincadeiras. A falta de dinheiro não é assunto para caçoadas.
–Não estou brincando! Estou rindo porque é verdade, Ellen! Quem nos visitou foi Lord Frome, e deixou um cheque de seiscentas libras como pagamento, para que papai vá com ele para o Nepal.
Ellen largou a faca de pão e olhou para Chandra, como se ela tivesse perdido o juízo. Disse, logo em seguida:
–Ir para o Nepal? Sabe que isto é impossível!
–É verdade, Ellen. Papai concordou em ir. Aliás, é o que ele mais deseja na vida! Você acha que será demais para ele esta viagem?
–Não só é demais, como poderá até provocar a morte dele… isso é o que vai acontecer! Não concorda comigo?
Como Chandra não respondesse, ela continuou:
–Sua mãe me disse, inúmeras vezes, que essas viagens demoradas para os países bárbaros acabariam por matar o professor antes do tempo. Como pensa que ele possa sair por aí vagabundeando, nesta época de sua vida?
Chandra pareceu ficar impressionada.
–Bem que pensei que pudesse ser demais para ele, mas está tão emocionado com a ideia, e decidido a ir. Imagine só, Ellen. Agora podemos pagar todas as dívidas. Ainda esta tarde, o Sr. Dart perguntou-me se poderia dar alguma coisa por conta, e eu lhe disse que falaria com papai, mas sabia que não havia nenhuma esperança de saldar essa dívida. E agora temos dinheiro!
–O dinheiro não é tudo, Chandra!– observou Ellen, tornando a cortar fatias de pão–, seu pai é um homem doente, embora não queira admiti-lo.
Chandra sentou-se perto da mesa.
–Se ele não for, teremos que devolver o dinheiro a Lord Frome, e então como vamos viver?
–Não sei, e isso é um fato. Sei que seu pai não está bastante forte para subir montanhas. Sua mãe sempre me disse que aquelas febres o haviam deixado tão fraco quanto uma criança, e que atacaram o coração dele.
–Você está me assustando, Ellen.
–Alguém tem que ter a cabeça no lugar nesta casa!– assim falando, colocou as sanduíches num prato e pegou a bandeja já arrumada com uma toalha de renda e um lindo aparelho de chá. Ellen sempre fazia tudo como quando a mãe de Chandra era viva.
Carregando a bandeja, Ellen foi na frente e Chandra a seguiu. Foi só quando chegaram ao vestíbulo que ela se adiantou para abrir a porta do escritório.
Seu pai estava sentado do mesmo modo como quando o deixara, e um sorriso pairava em seus lábios demonstrando o quanto estava feliz por tudo aquilo.
–Aqui está seu chá, professor– disse Ellen, colocando as coisas numa mesa ao lado dele.
–Obrigado, Ellen. Espero que Chandra já lhe tenha contado as notícias emocionantes.
–São realmente emocionantes– respondeu ela–, mas já imaginou o quanto exigirão de suas forças?
–Estive pensando que será uma das viagens mais excitantes que empreendi em toda a minha vida– disse satisfeito.
–Estive calculando, professor– continuou Ellen, como se ele não tivesse falado–, que há quase dez anos, o senhor partiu numa viagem desse tipo. Caso se lembre, foi para Sikkim.
–Lembro-me perfeitamente! Foi uma excursão muito interessante, mas não muito compensadora– ergueu o olhar para Chandra, dizendo–, deve estar lembrada de que eu trouxe algumas pequenas obras budistas, que atualmente estão no Departamento da Biblioteca da Índia. Não eram, porém, tão antigas quanto eu esperava.
–Quando eu as li há alguns anos, não eram bastante antigas para serem realmente valiosas. Pelo menos, segundo a opinião de um colecionador.
–Isso foi há dez anos– insistiu Ellen.
–Está bem, Ellen! Há dez anos!– concordou o professor–, mas ainda estou bastante jovem para ir até o Nepal.
–Espero que pense assim, quando chegar lá, professor, àquela terra perigosa e sem conforto!
Ellen manifestou-se asperamente, e como se não pudesse continuar a falar sem dizer coisas das quais se arrependeria, depois retirou-se impulsivamente.
–Coitada da Ellen...– disse o professor sorrindo–, sempre quis mimar-me, tal qual sua mãe. Você é mais razoável, querida. Compreende que esta é a oportunidade de minha vida e nada me fará perdê-la.
–Entendo, papai, e devo admitir que eu mesma me sinto entusiasmada com o tal “Manuscrito Lótus”.
–Você vai traduzi-lo! Talvez ele venha ser a única obra em sânscrito que realmente conquiste o espírito do mundo moderno!
Chandra sabia quão insignificante era o interesse despertado pelo trabalho de seu pai. Para ela significava beleza, pensamentos inspiradores, que poderiam estimular e enaltecer as mentes daqueles que o compreendiam. Para muitos, suas obras representavam apenas “velhos livros empoeirados”.
Acariciando a cabeça de Chandra, ele falou:
–Tem sido uma boa filha para mim, desde que sua mãe morreu. Ter você comigo me ajudou muito.
–Estou muito contente com isso, e apesar do que Ellen possa dizer, o senhor deve fazer a viagem. Vai se sentir tal qual Jasão à procura do Velocino de Ouro, pois mesmo que não o encontre, haverá a emoção da busca.
Chandra observou um novo brilho no olhar do pai, e ele pareceu-lhe mais jovem. Pensou, então, que ao envelhecer, o que importa é a esperança; ela é melhor do que qualquer tônico que possa ser receitado.
Beijou o pai e disse:
–Vou até o sótão buscar as coisas que mamãe e eu guardamos quando o senhor voltou da viagem a Sikkim. Devem estar perfeitas, pusemos bastante naftalina. As roupas devem servir, afinal, o senhor não engordou tanto assim.
–Não. Ainda sou magro e não será difícil para um cavalo carregar-me pelas montanhas.
–Quero que o senhor faça um diário durante a viagem. Embora tenha sido deixada para trás, eu vou sentir que viajei com o senhor quando ler suas memórias.
–Está bem. Você não poderia ir mesmo. Não é o tipo de viagem conveniente para uma mulher.
–Não foi o que disse quando mamãe insistiu em acompanhá-lo a Sikkim. Não se esqueça de que também fui com você à Índia, e aquele verão estava quentíssimo.
–Sim, apesar da idade, você esteve ótima.
Já na porta, ela parou e disse baixinho:
–Suponho que não adianta perguntar a Lord Frome se posso acompanhá-lo? Afinal, alguém tão importante quanto o senhor tem o direito a um auxiliar. Se quiser, posso ser sua criada particular…
–Passei a vida inteira sem nenhum!– respondeu ele rindo–, gostaria muito de ter você como auxiliar, mas seria uma perda de tempo perguntar isso justamente a Frome.
–Porquê… justamente a Frome?
–Por ter a reputação de inimigo das mulheres. Já ouvi várias histórias a esse respeito. Dizem que começou a viajar pelo mundo por sofrer de um mal de amor.