Kitabı oku: «Vingança Do Coração»
Vingança do Coração
Barbara Cartland
Barbara Cartland Ebooks Ltd
Esta Edição © 2014
Título Original: “Revenge of the Heart”
Direitos Reservados - Cartland Promotions 2014
Capa & Design Gráfico M-Y Books
m-ybooks.co.uk
Nota da Autora
Durante o reinado do Czar Alexandre 111, da Rússia, os judeus foram perseguidos cruelmente. Outra perseguição desse porte, só se deu cinquenta anos mais tarde, quando Adolf Hitler assumiu o Poder, na Alemanha. O Czar ordenou que um terço dos judeus fosse exterminado. Um terço deveria emigrar e o outro terço deveria ser assimilado.
Tal programa de terror resultou na morte de milhares de judeus, na confiscação de seus bens e na emigração de 225.000 deles para a Europa Ocidental.
Em 1892 o irmão do Imperador, o Grão-Duque Serge, provocou o terror entre pequenos artesãos e comerciantes judeus, que viram suas casas cercadas pelos cossacos durante a noite. Tirados de suas camas enquanto dormiam, foram expulsos ou mortos, acusados de traição ou de outros crimes.
Em meados de 1894 o Czar ficou gravemente enfermo, com hidropisia. Essa doença foi consequência de um desastre de trem que afetou seus rins. Depois de sofrer horrivelmente, o Czar morreu a 11 de novembro de 1894.
O Príncipe Nicolau, filho do Czar Alexandre II1, foi coroado como Czar Nicolau II e reinou até 1917. Em 1918 ele e sua família, foram assassinados pelos bolchevistas.
CAPÍTULO I
1894
Warren Wood entrou no Hotel Maurice e se apresentou ao rececionista. Warren havia estado ausente da Europa durante quase um ano e somente depois de o rececionista encaminhá-lo para o gerente é que ele foi reconhecido.
–Que prazer vê-lo novamente, monsieur Wood!– disse o gerente em um inglês perfeito–, espero que tenha apreciado sua viagem para o exterior.
“Viagem” não seria bem o termo que Warren usaria para descrever sua ida ao norte da África, onde ele havia experimentado momentos de grande prazer mas, também, muito desconforto e por inúmeras vezes, perigo de vida.
Entretanto, ele estava contentíssimo por estar de volta a Paris e não queria perder tempo com conversas. Perguntou apenas se havia quarto para ele, de preferência o mesmo onde sempre costumava ficar. Depois pediu que sua bagagem, que havia ficado guardada no Hotel durante quase um ano, fosse mandada para seu quarto.
O gerente prometeu-lhe providenciar tudo imediatamente, com toda a gentileza que caracteriza os franceses.
Como Warren fizesse menção de se afastar, o gerente disse-lhe:
–Há correspondência para o senhor. Quer que eu a apanhe agora ou prefere que seja mandada daqui a pouco para seu quarto?
–Posso pegá-la agora se estiver à mão.
O gerente entrou em um pequeno cômodo e voltou com uma porção de cartas amarradas com um cordão, formando um grande pacote.
Warren Wood apanhou o pacote e esperou que um dos pajens trazendo sua mala fosse à sua frente para indicar-lhe seu quarto.
O quarto, apesar de não ser o mesmo onde ele sempre costumava ficar, era idêntico e ficava também no quarto andar, dali tinha-se uma vista maravilhosa dos telhados das casas e das árvores de Paris.
Enquanto esperava pelos carregadores com sua bagagem, Warren ficou à janela, achando que não podia haver algo mais lindo que Paris banhada pelos raios do sol da tarde.
Bem acima das casas com suas janelas cinzentas erguia-se, majestosa, a Torre Eiffel, com seus trezentos metros de altura. A Torre havia sido concluída cinco anos antes, para uma exposição. Quando viera da estação, Warren havia admirado a Torre , um marco inconfundível da cidade luz.
Toda aquela estrutura rendada de metal, era para os franceses, orgulhosos de sua pátria, o símbolo da criatividade, do vigor e do brilhantismo da França.
No momento, entretanto Warren estava interessado em seus próprios sentimentos de frustração e desespero.
Como se a Torre , cujos contornos se delineavam contra o céu, o fizesse lembrar de algo que ele estivesse determinado a esquecer, Warren afastou-se da janela. Deu gorjetas aos carregadores que esperavam à porta, sentou-se em uma poltrona e começou a olhar a correspondência.
Para surpresa dele, havia tantas cartas que ficou pensando em quem poderia se preocupar em escrever-lhe, desde que deixara a Inglaterra, além de sua mãe.
Depois de desamarrar o cordão, rasgou também a tira de papel que envolvia as cartas, olhou para uma delas no alto da pilha e ficou rígido. Não podia acreditar no que estava vendo!
Mas não havia engano, a letra floreada, o envelope azul-claro, o suave perfume de magnólias, tudo lhe era tão familiar, tudo refletia tão bem a personalidade da remetente!
Warren ficou com o envelope em suas mãos, fitando demoradamente, como se estivesse fascinado.
«Por que iria Magnólia, justo ela, escrever para mim e ainda aqui para Paris?”» ele se perguntava.
Naturalmente, havia conseguido o endereço dele com sua mãe, que era a única pessoa a saber onde ele se hospedaria ao voltar da África e antes de ir para sua casa, na Inglaterra. Porém, se havia uma pessoa de quem ele não queria nem ouvir falar naquele momento era Magnólia.
Então, franzindo levemente as sobrancelhas e apertando os lábios, abriu o envelope.
Warren Wood era um homem excessivamente atraente. Sua aparência, entretanto, não era mais aquela de antigamente, que o qualificava de elegante, frequentador de altas rodas e presença obrigatória em todos os eventos sociais importantes. Agora desaparecia o dândi para ceder lugar a outro Warren mais másculo, mais duro e insensível e até mais cruel.
Teria sido impossível viver todas as experiências que partilhara com Edward Duncan sem ter aprendido que a vida não é apenas uma sucessão de prazeres e diversões, como havia sido para ele no passado. Sua vida, doravante, jamais voltaria a ser a mesma.
Às vezes, na África, Warren havia pensado que não suportaria viver sem conforto, mas devia admitir que o Warren dândi, havia sido derrotado pelos elementos, pela comida intragável e sobretudo, pelos camelos.
Ah, os camelos! Que animais desagradáveis, difíceis de lidar e fedorentos! Os camelos cheiravam tão mal, que até acostumar-se mais com eles, Warren sentia náuseas.
Só depois de meses de sofrimento ele aprendera a dominar os horríveis animais, mas eram os cavalos que ele amava e não podia imaginar sua vida sem eles ou sem cachorros.
Warren pensava até que os camelos faziam-no lembrar de alguns amigos e conhecidos. Uma vez ele dissera a Edward:
–Certamente, no futuro, vou fugir dessas pessoas sempre que puder!
Edward rira daquela observação tão zombeteira. Quando os dois amigos se separaram, na manhã anterior, em Marselha, Edward dissera:
–Adeus, Warren! Não tenho palavras para lhe dizer o quanto apreciei sua companhia e que grande prazer foi tê-lo comigo.
Havia tanta sinceridade na voz de Edward que Warren se sentiu ligeiramente embaraçado, pensando em quantas vezes ele havia maldito sua sorte por ter aceito o convite de Edward. Entretanto, sabia, ao repassar na memória os longos meses ao lado do amigo, que aquele tempo todo servira para enriquecer seu caráter, alargar-lhe os horizontes de maneira inimaginável.
Todavia, ali estava ele, de volta á Europa, diante de uma carta de Magnólia. Sim, a mesma Magnólia que ele procurara esquecer quando partira para a África.
Como se lembrava daquela tarde em que estava sentado em seu clube em St. James’s, com um copo de brandy na mão! Edward se aproximara e sentara-se numa cadeira a seu lado, dizendo:
–Alo, Warren! Não o tenho visto há tanto tempo! E verdade que também estive no campo.
–Alô!
O tom de voz de Warren fez Edward olhar para o amigo seriamente, mostrando sua preocupação.
–O que está acontecendo? Há quanto tempo não o vejo assim deprimido! Acho que desde aquela vez em que foi derrotado no campeonato de salto, no colégio, em Eton!
Warren não respondeu, apenas olhou para seu copo e Edward insistiu:
–O que o aborrece, homem? Se eu puder fazer alguma coisa…
–Não. Não pode fazer nada por mim, a não ser que possa me ensinar qual é o melhor modo de dar um tiro nos miolos.
Edward não escondeu o espanto e analisou a expressão do amigo detalhadamente antes de perguntar:
–Está falando sério mesmo?
–Muito sério! Só penso que se der um tiro nos miolos vou deixar minha mãe muito triste, e é ela a única pessoa em que posso confiar neste mundo maldito, nojento, imundo, onde só há mentiras e falsidades!
Falou com tamanha violência e ódio e tão alto que Edward olhou ao redor para certificar-se de que não havia ninguém por perto.
Felizmente havia apenas dois sócios já idosos, sentados em suas poltronas e pareciam estar tirando uma soneca, esquecidos de tudo e de todos.
–Não estou reconhecendo você! O que é que aconteceu?
Warren deu uma risada amarga e Edward, que conhecia o amigo desde o tempo de escola, em Oxford, observou que ele havia bebido muito mais do que costumava, o que não era comum. Warren começava a ficar tagarela.
–Vamos, Warren, diga-me o que está acontecendo!– ele insistiu.
Como se estivesse alegre por ter com quem partilhar seus sentimentos, Warren respondeu:
–Não é uma história muito original, mas acabo de ter certeza de que a única coisa que conta neste mundo é o que um homem possui e não o caráter dele.
–Você não pode estar falando de Magnólia!
–E de quem mais poderia ser? Quando a levei para Buckwood para passarmos uns dias lá, jamais me passou pela cabeça que não estivesse apaixonada por mim. Ela sempre havia jurado que me amava!
Fez uma pausa, enquanto apertava com força o copo que tinha na mão. Depois disse com ímpeto:
–Eu a amava, Edward! Amava-a com todas as forças de meu ser! Era tudo o que eu mais queria na vida! A mulher perfeita com que eu sonhara para ser minha esposa.
–Sim, sei disso– respondeu Edward com calma–, mas o que aconteceu?
Novamente Warren deu a mesma risada amarga e desagradável antes de responder:
–Você nem pode imaginar! Ela conheceu Raymond!
Edward encarou o amigo demonstrando seu espanto.
–Você quer dizer… o seu primo? Mas meu Deus! Ele é pouco mais que uma criança!
–E o que importa isso, se ele é muito rico, o único herdeiro de todos os bens do Marquês de Buckwood?– o tom de voz de Warren era sarcástico–, meu caro Edward, você deve compreender o que eu, por ser muito idiota, só compreendi tarde demais o homem, ou seja, o ser humano não vale pelo que é, mas pelo que tem. Não é o caráter que importa.
Edward quis dizer alguma coisa para confortar o amigo, mas Warren continuou, amargo:
–Um homem pode ter pernas tortas, ser estrábico, ter verrugas no nariz, mas se está para se tornar um Marquês, seus defeitos desaparecem. Arranja uma linda noiva que até diz que está apaixonada por ele! Pode uma coisa dessas ser verdade? Me diga se pode! O que não faz uma mulher ambiciosa para se tornar uma Marquesa!
As últimas palavras foram ditas com a voz estrangulada e Warren bebeu o brandy que restava em seu copo e relanceou os olhos pelo salão à procura do garçom. Felizmente não havia nenhum por ali naquele momento e Edward disse:
–Antes que você fique bêbado demais, Warren, conte-me toda a história. Estou não só interessado, mas também solidário com você.
–Muito obrigado, amigo velho! Suponho que posso confiar em você. Acho que não vai me desapontar. Entretanto, juro que jamais confiarei em uma mulher novamente! Jamais!
–Ora vamos!– protestou Edward–, e… Magnólia não pretende se casar com Raymond?
–Mas é claro que sim! Agora que penso sobre o assunto e começo a analisar friamente, vejo que ela estava determinada a conquistar Raymond desde que pôs os pés em Buckwood! Acho mesmo que meu primo nem mesmo teve a chance de escapar assim que Magnólia pôs sobre ele aqueles seus olhos lindos e feiticeiros.
Edward sabia que isso era mais que provável.
Magnólia Keane era não só linda, mas tinha também o poder de fascinar os homens. Podia exercer uma influência quase hipnótica sobre qualquer pessoa que desejasse dominar.
Edward conhecia Magnólia muito bem antes de ela conhecer seu amigo Warren. Quando os viu juntos pela primeira vez, ele havia pensado que o envolvimento do amigo com uma mulher daquelas era um grande erro.
Vindo de uma boa família do interior, Magnólia mudara-se para Londres com o firme propósito de encontrar um marido rico e importante. Teria sido muito fácil, Edward pensou, considerando que era lindíssima. Seu pai, um famoso treinador de cães caça-raposa, tinha uma matilha desses belos animais e inúmeros amigos nos círculos desportivos.
Todavia, o pai de Magnólia não era um homem rico. Havendo economizado muito e sendo até sovina, o Coronel Keane conseguiu juntar o suficiente para alugar uma casa em Londres.
O Coronel e sua esposa sonhavam com a filha participando dos bailes da temporada. Era costume retribuir aos convites e os pais de Magnólia não tinham condições de oferecer festas e bailes à sociedade londrina.
Assim o Coronel, a Sra. Keane e Magnólia, não foram convidados para nenhum baile importante, com isso, Magnólia, viu bem reduzidas as chances de conhecer um futuro marido rico e influente.
Durante a primeira temporada ela não recebera uma única proposta de casamento, apesar de muitos homens se interessarem por ela. Infelizmente a maioria deles era casada.
Como consequência disso, as senhoras mais velhas, dadas a mexericos, faziam comentários maldosos sobre Magnólia e seu nome foi riscado de uma porção de listas de convidados que as senhoras da sociedade londrina faziam questão de manter e seguir meticulosamente.
No ano seguinte, Magnólia brilhou como uma estrela, em sua cidade, em uma porção de bailes da temporada de caça.
Foi a inúmeras corridas de cavalo e vivia cercada de admiradores jovens e velhos.
Então ela voltou a Londres com os pais, mas dessa vez ela estava determinada a ter um anel de noivado em seu dedo!
Não houve anel de noivado algum, mas ela encontrou um distinto baronete dezoito anos mais velho que ela, o qual se tornou seu par constante em todos os eventos e, quando estavam a sós, ele a perseguia sem descanso como um cão persegue uma raposa.
Magnólia brincava com ele como um pescador brinca com um peixe que já sabe estar bem preso ao anzol. Todavia, o que parecia ser um peixe bem fisgado, escapou no último momento, deixando Magnólia frustrada, quando já começava a pensar, realmente, no enxoval.
Mal pôde acreditar no que ouvia quando o baronete lhe disse que havia feito alguns investimentos extremamente altos e infelizmente, perdera muito dinheiro, assim, seria impossível para ele conservar sua casa, suas propriedades, a menos que, para dizê-lo de modo mais vulgar, ele se casasse por dinheiro, ou seja; que desse o “golpe do baú”.
Magnólia decidiu que o melhor a fazer era levantar a cabeça e com determinação, ignorou o que fora ela, na verdade, um desastre e uma humilhação.
Assim que compreendeu que havia perdido seu o baronete, disse às amigas, de maneira mais do que convincente, que era impossível casar-se com um homem bem mais velho que ela. Além disso, não o amava, portanto o melhor que poderia fazer era mandá-lo “passear”.
–Seria idiotice de minha parte– ela dizia–, casar-me com um homem que não amo. Quero ter um marido que eu possa amar e com ele aproveitar a vida. O pobre James já nem ânimo tem, coitado!
Algumas pessoas logo perceberam a verdade, a maioria, porém, concordava em que Magnólia, linda e jovem que era, teria muito tempo para encontrar alguém que fosse realmente digno dela.
Somente Magnólia sentia que o tempo estava passando e, se não fosse esperta, acabaria ficando “encalhada”.
Ela sabia muito bem que muitos homens preferiam casar-se com uma jovem inocente, pois acreditavam que tornavam-se esposas perfeitas. Era alguém assim que Magnólia queria conquistar.
Outros homens preferiam algo mais que uma “jovem inocente” para esposa e procuravam as belas e sofisticadas mulheres que frequentavam Marlborough House. Elas viviam nas colunas sociais e eram aplaudidas e admiradas principalmente nos círculos masculinos.
Quando Magnólia conheceu Warren estava desesperada, pois logo completaria vinte e um anos.
Warren Wood reunia o que ela mais apreciava em um homem. Ele era belo, muito bem-educado e frequentava os mais altos círculos sociais.
O pai de Warren, Lord John Wood, era o irmão mais jovem do Marquês de Buckwood e, Magnólia sabia, não podia haver em todo o Reino Unido família mais respeitada e admirada do que a do Marquês .
A casa da qual o primeiro Marquês havia tirado seu nome ficava em uma propriedade imensa, presente da Rainha Elizabeth a sir Walter Wood, em reconhecimento por ele haver afundado três galeões espanhóis.
Sir Walter Wood havia trazido para a rainha não somente os espólios da vitória, mas também pérolas finíssimas que ele havia tirado de seus prisioneiros.
Assim que Magnólia viu Warren, disse a si mesma que aquele homem seria seu.
Todavia, mesmo quando se certificou de que ele não tinha muito dinheiro, pensou em como todas as portas se abririam para ela e em como seria um sucesso socialmente falando. Casando-se com Warren seria também uma das beldades que frequentavam Marlborough House.
Warren, com vinte e oito anos, havia tido muitos romances com as mais lindas mulheres e era considerado por elas um homem encantador. Entretanto, ao conhecer Magnólia ficou estonteado com a beleza dela.
Havia em Magnólia, ele pensava, algo irresistível. Seus olhos escuros e expressivos, sua pele clara e macia faziam-na muito semelhante à flor que lhe emprestava o nome.
Infelizmente, para Magnólia, quando Warren pensou em que deveriam ficar noivos oficialmente, a mãe dela morreu. Seria considerado muito impróprio se eles anunciassem seu noivado estando Magnólia de luto. Deviam esperar, também, depois do noivado, mais uns meses para anunciar o casamento.
Magnólia queria fazer tudo conforme os costumes da sociedade e o noivado de ambos ficou sendo um segredo precioso dos dois.
–Compreendo suas razões, minha querida– disse Warren–, mas só quero que saiba que não vejo a hora de torná-la minha esposa.
–Eu o amo muito! Muito!– Magnólia respondeu–, se é difícil para você esperar, para mim é muito mais!
Ele pensava, ao beijá-la apaixonadamente, que ninguém podia ser mais adorável, principalmente quando se mostrava ligeiramente tímida.
Depois de se libertar dos braços de Warren, mas ainda segurando-lhe a mão, ela disse, parecendo encabulada:
–Devemos ser cautelosos e evitar que nos vejam assim nos beijando. . . por causa dos comentários. Também queria lhe dizer, querido e adorável Warren, que seria maravilhoso se eu pudesse conhecer sua família.
Ele sorriu.
–Acho que está ansiosa para conhecer Buckwood! É a propriedade mais linda do mundo! Só sinto que não seja minha, pois você é mais do que digna de viver em um lugar como aquele!
Então Warren explicou a Magnólia, que apesar de Buckwood pertencer ao tio, este, um homem boníssimo, adorava a presença do sobrinho na propriedade.
Warren podia montar os cavalos do tio, cavalgar por toda a propriedade e caçar nos bosques. A mãe de Warren morava em uma encantadora mansão antiga, também nas terras do tio. Essas terras eram divididas em diversas fazendas, mas a principal delas era Buckwood.
–Nossa família é muito unida– disse Warren–, tenho certeza de que tio Arthur vai ficar encantado com você, como meu pai também ficaria se estivesse vivo.
Lord John morrera há quinze meses e Warren sentia desesperadamente a falta dele; instintivamente ele havia posto o tio no lugar do pai.
Tinha certeza de que o tio iria achar Magnólia tão encantadora e adorável como ele mesmo a achava. Ao mesmo tempo, queria que o tio aprovasse seu casamento. Assim, na primeira oportunidade levou Magnólia para Buckwood.
Eles ficaram, claro, na mansão com Lady John, mãe de Warren.
Ele notara que Magnólia estava mais fria e reservada com ele, ali em Buckwood, mas atribuiu isso ao fato de ela estar um pouco tímida e talvez ansiosa demais por estar conhecendo a família do homem que iria tornar-se seu marido.
O Marquês, como Warren havia esperado, encantou-se com Magnólia.
Como o noivado era mantido em segredo, Warren disse ao tio apenas, que estava pensando em um compromisso mais sério com Magnólia e que gostaria de ouvir a opinião dele a respeito.
–Magnólia é uma encantadora moça, meu caro rapaz! Só espero que ela goste do campo, pois se não gostar, não serve para você.
–Ela foi criada no interior e o seu pai cria e treina cães de raça.
–É, você me disse mesmo. Acho que conheci o pai dela… sim, conheci-o. Ótima pessoa. Então a filha dele deve, certamente, saber seguir os cães numa caçada.
–Claro que sabe!– disse Warren com entusiasmo.
Ao mesmo tempo pensava consigo mesmo, embora detestasse admiti-lo, que, quando vira Magnólia montando um cavalo, não ficara bem impressionado como pensou que ficaria.
Naquele dia havia atribuído a falta de jeito dela ao seu nervosismo.
Jamais lhe passara pela cabeça que ela estava com medo de cair e ferir seu lindo rosto.
Todavia, ele nem se preocupava se Magnólia sabia ou não cavalgar. Isso era uma falta muito pequenina em uma pessoa que parecia ser perfeita em tudo.
Como de costume, havia muitos hóspedes em Buckwood, todos amigos do Marquês. Logo depois que Warren e Magnólia chegaram, Raymond também chegou com mais três colegas de escola.
Os quatro vinham diretamente de Oxford, eram muito alegres, barulhentos e sempre dispostos a se divertirem.
Suas brincadeiras incluíam desde descer escorregando pelo corrimão da escada, sentando-se sobre bandejas de chá, até a pregar peças nas pessoas, inclusive em Magnólia.
Ela participava das brincadeiras de um modo que fez Warren admirá-la ainda mais. Ficou encantado com o espírito esportivo de Magnólia, que se divertia com os rapazes, sorria das provocações que lhe faziam, como se ela fosse um gatinho, e preferia a companhia deles à das pessoas mais velhas.
Estava muito frio e, no dia seguinte, quando o gelo sobre o lago já estava bem sólido e espesso, todos foram patinar. Surpreso, Warren constatou que Magnólia era uma excelente patinadora.
Ela era uma figura maravilhosa que se destacava das demais por seu porte elegante, seu corpo ágil e esguio. Um gorro de pele de raposa prateada emoldurava-lhe o rosto. Magnólia estava corada pela atividade intensa que o esporte exigia, e seus grandes olhos escuros, de longos cílios, brilhavam de alegria.
Os rapazes brigavam entre si, pois todos queriam patinar com Magnólia. Os que não conseguiam tê-la como par, contentavam-se em ficar patinando perto dela.
Warren apenas olhava os jovens com complacência e se orgulhava da graça e comunicabilidade da noiva. Apesar de adorar patinar sobre o gelo, não gostava de fazê-lo com aqueles garotos ruidosos que gostavam de acrobacias e tinham mais prazer nas competições do que no esporte em si. Por isso Warren deixou a companhia dos mais jovens e foi cavalgar com o tio.
O Marquês, devido à idade, preferia esportes mais suaves. Enquanto cavalgava, o velho nobre ia contando ao sobrinho a situação de suas terras e de seus bens.
Falou sobre as providências que já havia tomado para deixar tudo em ordem para Raymond poder administrar com eficiência o que por herança lhe caberia.
Entretanto, o Marquês sabia que o filho era ainda muito irresponsável e não se interessava pelos negócios do pai.
Assim, o Marquês resolveu abrir-se com o seu sobrinho e pedir sua ajuda.
–Gostaria que Raymond fosse um pouco mais ajuizado e tivesse maior interesse pelo patrimônio que herdará de mim. Por favor, converse com ele. Faça-o ver que propriedades enormes como as minhas só podem ser administradas se o dono controlar tudo que está sendo feito e todos os empregados que trabalham para ele.
–Tenho certeza de que Raymond compreende tudo isso, tio Arthur, mas ainda é jovem. Esta manhã, por exemplo, ele e seus companheiros pareciam um bando de crianças brincando uns com os outros. Com o tempo vai ficar mais ajuizado e será um ótimo administrador destas terras e de todos os seus bens. Será assim como o senhor.
–Queira Deus! Sinceramente, é o que desejo– murmurou o Marquês.
Depois, mudando de assunto, ele continuou:
–Agora quero lhe falar sobre o nosso novo capataz. Parece que o homem não está se ajeitando muito bem com o tipo de serviço…
E lá foram os dois conversando enquanto cavalgavam até que, vendo que entardecia, retornaram a Buckwood.
Já escurecia e os patinadores haviam voltado do lago. Estavam todos ao redor da mesa de bilhar. Continuavam com suas brincadeiras, piadas e a algazarra costumeiras. Warren os observava e se enternecia olhando para Magnólia.
Ela parecia muito feliz e estava linda com as faces coradas e os cabelos agora soltos, levemente desalinhados.
Queria tomá-la nos braços e beijá-la, mas quando tentou tirá-la da companhia dos jovens, ela lhe disse baixinho que talvez fosse um erro se desaparecesse do salão.
–Amo-o demais querido, mas devemos ser muito, muito cautelosos– ela disse com ternura.
Ele compreendeu e foi até a biblioteca para ler os jornais recém-chegados de Londres.
Enquanto se dirigia para a biblioteca, pensava em como Magnólia era adorável e como se adaptava bem a cada situação. Sem dúvida, ela seria uma esposa perfeita.
Somente quatro dias mais tarde, quando os dois voltavam para Londres foi que a bomba explodiu.
Depois de saber a verdade, Warren pensou melhor em tudo que havia acontecido e viu como havia sido um perfeito idiota por não perceber o que acontecia diante de seus próprios olhos.
Todas. as noites, em Buckwood, havia bailes. Para essas festas vinham rapazes e moças das fazendas vizinhas, a convite de Raymond. A mansão vivia dias alegres e movimentados.
Raymond organizara tudo com muita habilidade. Primeiro tocavam valsas, bem do agrado dos mais velhos e Warren as dançava com Magnólia.
Depois era a vez das barulhentas e vivazes quadrilhas, além de lancers e reels, estas duas danças escocesas, as quais eram dançadas em ritmo alucinado, rapazes e moças rodopiando entre gritos de alegria e risos descontraídos.
Tudo parecia próprio dos jovens e era muito divertido, o que fez Warren pensar que estava ficando velho para tanta agitação e barulho. Todavia, alguns anos antes, o próprio Príncipe Charles havia lançado a moda das brincadeiras e dos chistes nas festas, nas quais ele próprio se divertia a valer.
Agora Warren percebia que apreciava bem mais uma partida de bridge.
Foi somente quando vira Raymond conversando baixinho com Magnólia na véspera de voltarem para Londres, que estranhou aquela intimidade, mas atribuiu ao fato de os dois terem ficado tão bons amigos, e na verdade, até se alegrara com isso.
Porém, quando voltavam para Londres em um vagão particular, estando a criada de Magnólia no compartimento ao lado do deles, foi que a moça falou, com alguma hesitação:
–Preciso lhe dizer uma coisa, Warren…
–O que é minha querida?
–Quero que compreenda que, apesar de eu amá-lo demais, não posso me casar com você.
–Mas o que está dizendo?– a voz dele soou ríspida pois ele ficara atônito e até pensou que ouvira mal.
Ela ergueu os olhos suplicantes, dizendo:
–Por favor, não fique zangado comigo!
–Claro que não me vou zangar com você! E por que deveria? Não estou entendendo nada do que está falando!
–Estou dizendo, meu querido Warren, que, apesar de amar você, vou me casar com Raymond!
Warren apenas olhou fixamente para ela, os olhos muito abertos, sentindo a cabeça girar, sem poder atinar com o significado daquelas palavras cruéis.
Depois, com uma voz que não parecia a sua, ele disse num ímpeto:
–Vai casar-se com Raymond? Como?! Ele mal atingiu a maioridade!
–Ele quer se casar comigo e eu lhe pedi para esperar claro, até eu poder tirar o luto…
–Então está pensando mesmo em… em fazer isso comigo?– suas palavras saíram trêmulas de indignação.
–Sinto, realmente, muitíssimo, meu querido Warren, mas tem que compreender.
–Tenho que compreender o quê?
Ela hesitou, porém nem precisava dizer nada. Warren pressentiu a verdade.
–O que está querendo me dizer, é que Raymond vai tornar-se o Marquês de Buckwood!
–Você mesmo disse que eu era digna de viver em um lugar como aquele!
–E você fez o possível para conseguir isso, não?
Ele se sentiu zonzo, parecia que o trem estava dando voltas e mais voltas. Percebeu então que já se aproximavam da estação de Paddington. Magnólia havia calculado até o tempo para fazer aquela revelação horrível coincidir com a chegada deles a Londres.
Um minuto mais tarde a porta do vagão foi aberta por um carregador, a criada de Magnólia apareceu e não houve mais tempo nem oportunidade de eles continuarem o assunto.
Uma carruagem fechada estava esperando por Magnólia. Warren ajudou-a a subir, deu-lhe o chapéu e se afastou, caminhando. A carruagem seguiu para o lado oposto.
Desde que haviam saído do trem não haviam trocado uma palavra. Warren tomou uma carruagem de aluguel e ordenou ao cocheiro que o levasse até seu clube. Estava até trêmulo de ódio.
Ao mesmo tempo, uma desesperadora sensação de perda irreparável o dominou. Era como se o mundo desabasse sobre sua cabeça.
Ele havia amado Magnólia como jamais amara mulher alguma!
Havia acreditado que ela sempre fora sincera quando jurava amá-lo também.
Agora farrapos soltos de conversas vinham à sua mente.
–Receio que jamais seremos ricos, minha querida– ele dissera uma vez apesar de meu pai ter deixado uma ótima renda para minha mãe, jamais terei uma fortuna sólida como a do meu tio.