Kitabı oku: «Doce rendição»

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28001 Madrid
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© 2019 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Doce rendição, n.º 687 - agosto 2020
Título original: Sweet Surrender
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-1348-542-3
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
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Capítulo 1
Kate estava a despedir-se dos seus alunos antes de começar a «Semana Branca», quando o director a chamou.
– Podes fazer-me um grande favor? – perguntou-lhe Bill Vincent.
– Claro que sim. O que se passa?
– Poderias ficar um pouco com Abby Cartwright? O seu pai está ao telefone, do hospital…
– A mãe de Abby já teve o bebé?
– Ainda não, mas está em trabalho de parto.
– Mas faltavam-lhe algumas semanas…
– Daí o pânico. Felizmente, os avós chegam hoje. O tio de Abby foi ao aeroporto de Heathrow e vem buscá-la quando estiver de volta.
– Então suponho que vai demorar muito – suspirou Kate.
– Eu ficaria com ela, mas tenho uma reunião…
– Não te preocupes, levo-a para minha casa.
O director sorriu, aliviado.
– Muitíssimo obrigado. Não te importas de o dizer a Tim Cartwright? Eu fico com a tua turma.
Suspirando, Kate dirigiu-se ao escritório para falar com o preocupado senhor Cartwright.
– Estou numa cabina do hospital, menina Dysart, de modo que serei breve. A Julia está muito preocupada com Abby e quer que eu vá para casa, mas não quero deixá-la sozinha…
– Não, claro que não.
– O senhor Vincent disse-me que a senhora tomaria conta da minha filha, mas provavelmente o meu cunhado chega tarde. Importa-se?
– Claro que não, senhor Cartwright. O senhor fique com a sua mulher, que eu levo a Abby para minha casa. É a casa Laurel, no fim da vila… por favor, diga-o ao seu cunhado.
Depois de desligar, voltou para a sua sala para dizer a Bill Vincent que estava tudo resolvido.
Enquanto os outros meninos saíam ruidosamente para começarem as férias, Kate sentou-se na mesa de Abby. A menina olhou-a, com os olhitos azuis cheios de ansiedade.
– O teu pai não pode vir buscar-te. Acaba de levar a tua mãe para o hospital e…
– Mas o meu irmão ainda não pode nascer, menina Dysart! É muito cedo! – exclamou a menina.
– Não te preocupes. O menino tem um pouco de pressa, mais nada. O teu tio virá buscar-te, quando voltar do aeroporto.
– Foi buscar os meus avós?
– Penso que sim.
– Mas então terei que esperar no colégio até que chegue.
– Não, levo-te para minha casa.
Depois de guardar as suas coisas na pasta e comprovar que não ficava nenhum menino escondido debaixo de alguma mesa, Kate levou Abby pela mão até ao seu carro. O colégio era tão pequeno que não tinha parque de estacionamento, de modo que o deixava na rua.
Quando estava a tirar as chaves, um homem saiu de um carro estrangeiro estacionado ali perto.
Kate olhou-o, atónita, convencida de que estava a ter visões.
Mas Alasdair Drummond, mais alto do que se lembrava, era uma figura demasiado sólida para ser uma visão.
– Olá, Kate.
– Alasdair, que grande surpresa. O que estás aqui a fazer?
– Vim ver-te – respondeu ele. – Sei que deveria ter-te telefonado, mas venho de um funeral e ocorreu-me passar pelo colégio para ver se te via.
Kate voltou-se para a menina.
– Porque não entras no carro enquanto eu falo com este senhor, Abby? Não me demoro.
Depois de apertar o cinto de segurança, voltou-se para Alasdair Drummond, muito séria. Há tempos teria dado qualquer coisa para o ver, mas isso tinha sido há muito tempo.
– É uma das tuas alunas?
– Sim, por isso não posso demorar-me muito tempo. Nem sequer posso pedir-te que venhas a minha casa tomar um café.
– Eu esperava mais do que um café – suspirou ele, olhando-a nos olhos. – Tem piedade de um velho amigo, Kate. Janta comigo esta noite.
– Desculpa, Alasdair. Tenho muitas coisas para fazer. Amanhã vou a casa dos meus pais e…
– Eu sei. O teu irmão disse-me.
– Viste o Adam?
– Está a arranjar uns móveis para mim.
E Adam não lhe tinha contado?
Kate viu então a carita angustiada de Abby pela janela.
– Desculpa, tenho que me ir embora.
– Telefono-te mais tarde – disse ele, apertando-lhe a mão. – Adam deu-me o teu número de telefone.
Kate murmurou uma despedida e entrou no carro, tentando manter a calma.
– Desculpa, Abby.
– Não faz mal, menina Dysart.
Mas tinha-o dito com os olhos cheios de lágrimas.
– O que foi, querida?
– Dói muito ter um filho, menina Dysart?
– Não posso falar por experiência própria, mas os meus sobrinhos chegaram ao mundo sem problemas. Não te preocupes, Abby. Vai tudo correr bem.
A casa de Kate ficava na periferia da vila. Na província de Herefordshire, Foychurch era um local muito agradável, com pessoas tão acolhedoras que logo se sentiu como se estivesse em sua casa.
Quando chegaram, abriu a porta e fez um sinal à sua pequena convidada para entrar.
– Que casa tão bonita, menina Dysart.
– Está bem para uma pessoa sozinha – assentiu ela, pegando no casaco da menina. – Vou fazer um chá, apetece-te?
O telefone tocou quando estava na cozinha.
– Menina Dysart? Sou Jack Spencer, o tio de Abby.
– Olá, senhor Spencer.
– Estou no aeroporto e, pelos vistos, o voo está atrasado.
– Não se preocupe. Abby e eu iamos agora tomar um chá.
Kate desligou depois de lhe dar a sua direcção.
– Era o meu tio?
– Sim. Vai demorar um pouco, porque o avião em que vêm os teus avós atrasou-se.
– Lamento incomodá-la – desculpou-se a educada menina.
– Não me incomodas nada.
– O tio Jack é irmão da minha mãe. Dedica-se à construção.
Aquela palavra invocou uma imagem de calças de ganga e peito musculoso, que combinava muito bem com a voz que tinha ouvido pelo telefone.
– Tenho que telefonar à minha mãe. Fica a vigiar a cafeteira, está bem?
– Está bem.
Kate subiu para o seu quarto, para explicar à sua mãe porque não chegaria a Stavely à hora prevista.
– Se vierem buscar Abby muito tarde, não posso levantar-me cedo.
– Pobre mulher – suspirou Frances Dysart. – Espero que o parto corra bem.
– Eu também o espero. É verdade, esta não foi a única surpresa do dia, mamã. Não imaginas quem estava à minha espera à porta do colégio. Alasdair Drummond.
– Ah, sim, Adam disse-me que se tinham encontrado.
– Sabias? A sério, mamã, podias ter-me dito.
– Alasdair queria fazer-te uma surpresa.
– E fez.
– Vais jantar com ele?
– Não, tenho outros planos. Abby, lembras-te?
– E Alasdair ficou desiludido, suponho.
– Não acho. Desenrascou-se muito bem sem mim durante todos estes anos – replicou Kate.
– Tenho que dizer-te uma coisa… Adam pediu-lhe para vir ao baptizado.
– O quê?
– Querida, o teu irmão pensou que ficarias feliz.
Kate esboçou um sorriso.
– Não te preocupes. Não serei muito dura com o novo papá. Como está Gabriel?
– Muito bem. O seu filho deixa-a dormir de vez em quando…
– Suponho que Adam muda as fraldas.
– Sim, sim, está dependente do menino. Bom, querida, liga-me amanhã quando saíres de casa.
Kate ficou a olhar para o telefone, aborrecida com Adam por ter convidado Alasdair para o baptizado do filho.
Alasdair tinha sido o seu primeiro amor e, depois de tantos anos, continuava a incomodá-la. Mas negava-se a jantar com ele assim, de repente, quando decidia estalar os dedos. Sempre tinha sido um homem muito seguro de si mesmo e, nesse aspecto, não parecia ter mudado nada.
Mas ela sim. E depressa se daria conta de que Kate Dysart já não era a estudante apaixonada que tinha sido no passado.
– Menina Dysart? – Ouviu uma voz trémula. Kate desceu as escadas a correr.
– Desculpa, Abby. Estava a falar com a minha mãe.
– Posso ir ao quarto de banho?
– Sim, claro. A cafeteira já apitou?
– Há um bocadinho.
– Muito bem. Enquanto vais ao quarto de banho, eu vou mudar de roupa e depois faremos o jantar. Está bem?
– Está bem.
– Não demoro nada.
Kate correu de novo para o piso de cima. Gostaria muito de tomar um longo banho de espuma, mas… Cinco minutos depois, de calças de ganga e blusa, desceu de novo para a sala. Abby olhou-a, admirada.
– Menina Dysart, que bonita fica com o cabelo solto.
– Tirei o puxo, gostas?
– Tem um cabelo tão bonito…
– Muito obrigada – sorriu Kate. Na verdade, estava muito orgulhosa do seu comprido cabelo escuro. – Que tal se tomarmos o chá enquanto fazemos o jantar?
– Muito bem.
– Gostas de cozinhar?
– Às vezes ajudo a minha mãe – sorriu a menina.
– E gostas de massa?
– Adoro! Posso ralar o queijo?
– Claro.
Tim Cartwright telefonou pouco depois para dizer que estava tudo bem, mas o parto demoraria horas. Falou durante um pouco com a sua filha e, quando desligou, Abby deixou escapar um suspiro.
– O meu pai disse-me para lhe agradecer por me deixar ficar em sua casa.
– De nada – sorriu Kate, tirando uma colherada da panela. – Prova o molho de tomate, para ver se gostas.
– Está muito bom. Igual ao da minha mãe.
– Obrigada, Abby. Temos que o comer todo, porque só tenho queijo e fruta para depois.
Jantaram na sala, falando sobre o colégio e os professores.
– Onde vai passar as férias, menina Dysart?
Kate explicou que iria a Stavely durante uma semana para estar com a sua família.
– Vou ao baptizado do meu sobrinho. Sou a madrinha, de modo que serei eu a pegar-lhe enquanto o padre lhe deita a água benta.
– Mas vai chorar.
– Se isso acontecer, devolvê-lo-ei imediatamente à sua mãe.
– Como se chama?
– Henry Thomas, mas chamam-lhe Hal.
– Já o conheceu?
– Não, foi por isso que o meu irmão decidiu que o baptizado fosse durante as férias.
– Menina Dysart, posso perguntar-lhe uma coisa?
– Sim, claro.
– A senhora acha que a minha mãe continuará a gostar de mim da mesma forma, quando nascer o meu irmão?
– Garanto-te que sim, Abby. Eu tenho três irmãs e um irmão e a minha mãe gosta de nós da mesma forma.
A menina pareceu tranquilizar-se um pouco depois de ouvir aquilo e Kate decidiu que uma dose de televisão era o melhor para esquecer as preocupações.
Dispuseram-se a ver uma comédia, mas antes que terminasse soou a campainha. Era um homem alto, de ombros largos, cabelo loiro e expressão simpática.
– Boa noite, é aqui que vive a menina Dysart?
– Eu sou Katharine Dysart…
– Tio Jack!
– Desculpe ter chegado tarde – riu-se ele, tomando a menina nos braços. – Sou Jack Spencer. Falámos pelo telefone.
– Sim, claro. Entre, por favor.
– Agradeço-lhe muito por ter ficado com a minha sobrinha.
– Não foi nada. Estivemos muito bem, não foi, Abby?
A menina assentiu.
– Ajudei-a a ralar queijo para o jantar e depois vimos televisão. E o papá telefonou, mas disse que o bebé ainda não nasceu…
– Está bem, palradora. Depois contas-me. Vamos?
Enquanto Abby foi ao quarto de banho, Kate aproveitou a oportunidade para falar com Jack Spencer.
– Pensa que a sua mãe não vai gostar dela quando nascer o bebé. Talvez devesse comentá-lo com a sua irmã… já sabe, para falar com ela.
– Estes miúdos… – riu-se o homem. – Não se preocupe, assim farei.
– Obrigada.
Abby apareceu nesse momento.
– Obrigada por me ter dado de jantar, menina Dysart.
– De nada. Foi um prazer. Vemo-nos para a semana que vem no colégio.
Jack Spencer meteu a sua sobrinha no jipe e apertou o cinto de segurança.
– Muito obrigado, menina Dysart. Não sei o que faríamos sem a senhora.
– De nada. Posso pedir-lhe um favor?
– Claro.
– Importar-se-ia de me telefonar quando nascer o bebé?
Jack Spencer sorriu.
– Não sei se gostaria que a acordassem de madrugada. Será melhor que lhe telefone de manhã… supondo que o bebé tenha nascido.
– Assim o espero – sorriu Kate.
– A senhora é muito nova para ser professora, menina Dysart. É o seu primeiro trabalho?
– Não.
– Então deve ser mais velha do que parece… Bom, tenho que me ir embora. Obrigado outra vez.
Kate fechou a porta, pensativa. O tio de Abby não era o que tinha esperado. Imaginava-o mais jovem, mas parecia tão capaz de colocar azulejos e levantar cimento como qualquer um.
O telefone soou quando se ia deitar.
– Sim…? Ah! és tu, Alasdair.
– Desculpa desiludir-te. Parece que estavas à espera de outro telefonema.
– Não, não estava à espera de outro telefonema.
– A menina já se foi embora?
– O tio dela veio buscá-la há meia hora. E eu ia-me deitar.
– Tão cedo?
– Hoje foi um dia muito cansativo para os professores e depois tive que consolar uma miúda preocupada com a sua mãe – disse ela, sem a preocupação de dissimular um bocejo.
– Não queria roubar-te mais tempo, de modo que vou directo ao assunto. Que prenda compro para o bebé?
– Não tens que comprar nada. Adam não está à espera de nenhum presente.
– Disse-me que tu és a madrinha. O que é que compraste?
– Pedi-lhe que procurasse algo de prata antiga no antiquário do meu pai.
Kate esperou, sabendo que Alasdair tinha outra razão para lhe telefonar.
– Poder-nos-íamos ter encontrado depois, quando a menina se tivesse ido embora.
– A verdade é que não me dava jeito. Aliás, disseram-me que nos vamos ver no baptizado.
– Não te parece bem, não é?
– Não é assunto meu.
– Se não queres que vá…
– Porque não? Podemos falar dos velhos tempos – disse ela então.
– Eu esperava fazer isso esta noite. É verdade, estou de volta a Inglaterra definitivamente. Uma promoção.
Kate encolheu os ombros, mesmo que ele não a pudesse vê-la. Que Alasdair Drummond vivesse em Inglaterra ou nos Estados Unidos era-lhe indiferente.
– Parabéns. Descobriste alguma droga milagrosa?
– Mais ou menos. Conto-te quando nos virmos.
– Alasdair, deveria ter-te perguntado isto há mais tempo… De quem era o funeral a que foste esta tarde?
– Da minha avó.
– Ah, os meus pêsames.
– Obrigado. Podemos ver-nos amanhã, Kate?
– Não, desculpa. Vou para Stavely depois do almoço. Boa noite, Alasdair. Vemo-nos no Domingo…
– Não desligues, por favor. Se esperar até Domingo, não poderei ver-te em particular. E estou mais curioso do que nunca para resolver o mistério.
– Que mistério? – perguntou ela, apesar de saber de que é que ele estava a falar.
– Vá, Kate… tu sabes a que mistério me refiro. Eras a estudante de física mais brilhante de Cambridge. O que aconteceu para decidires desperdiçar o teu talento dando aulas numa vila isolada?
Capítulo 2
Kate conteve-se a muito custo.
– Olha, Alasdair, já falámos disto na última vez que nos vimos e a resposta continua a ser a mesma. Eu não penso que esteja a desperdiçar o meu talento. E Foychurch não é uma vila isolada. É uma comunidade com pessoas encantadoras, de modo que estou muito bem. Eu sou uma rapariga do campo, lembras-te?
– Lembro-me muito bem. É por isso que o que dizes não responde à minha pergunta. Os teus tutores de Cambridge pensavam que tinham encontrado uma nova madame Curie – recordou-se ele.
– Pois enganaram-se. E agora que esclarecemos isso, boa noite.
– Kate, escuta…
– Não quero ouvir. Boa noite.
Kate desligou e ficou a olhar para o céu escuro pela janela, inquieta e incomodada pelos comentários de Alasdair Drummond.
As suas irmãs mais velhas, Leonie e Jess, eram duas pessoas muito seguras de si mesmas. Como o seu irmão Adam. Mas Kate, três anos mais nova e muito menos extrovertida, tinha compensado a sua falta de confiança com uma grande ética profissional e um cérebro que lhe conseguiu lugar na Universidade de Cambridge.
E ali conheceu Alasdair Drummond, licenciado na Universidade de Edimburgo e pós-graduado em Harvard, fazendo trabalhos de investigação no Colégio de Trinity em Cambridge.
Para sua surpresa, depois de se terem encontrado pela primeira vez, Alasdair tornou-se o seu protector. Isso aumentou a confiança em si mesma e inclusive fez com que, em seguida, muitos dos seus colegas se interessassem por ela. Mas Kate era indiferente às suas atenções, porque se tinha apaixonado loucamente por Alasdair Drummond.
Demasiado inteligente para se enganar a si mesma, sabia desde o princípio que ele não estava apaixonado. Alasdair, cinco anos mais velho do que ela e um homem experiente, tratava-a como uma irmã mais nova, nada mais. Kate apoiava-o durante os jogos de rugby e ele convidava-a para tomarem uma cerveja de vez em quando. Mas durante todo esse tempo, o máximo que conseguiu foi algum beijo na face.
Loucamente apaixonada pela primeira vez, estava tão frustrada que as suas notas baixaram. Então, exactamente antes de ele se ir embora de Cambridge, Kate fechou-se no seu quarto, negando-se a sair com alguém.
Alasdair tinha encontrado trabalho numa grande empresa farmacêutica e escreveram-se durante algum tempo. Depois foi para os Estados Unidos e as cartas tornaram-se mais escassas. Só a visitou uma vez, quando Kate estava prestes a ocupar o seu lugar em Foychurch.
Alasdair mostrou a sua decepção por aquela eleição profissional, dizendo que era um terrível erro, que não podia desperdiçar o seu talento dando aulas a miúdos da primária… e Kate descontrolou-se.
Disse-lhe que o que fazia com a sua vida não lhe dizia respeito e expulsou-o de casa.
E não o tinha voltado a ver até esse dia.
Alasdair Drummond, o brilhante licenciado em Física e Química, tinha tido uma carreira exemplar. E isso, em combinação com a sua maturidade era, seguramente, um afrodisíaco para a maioria das mulheres. Mas não o era para ela.
O telefone acordou-a às sete da manhã e Kate atendeu, meia a dormir.
– Desculpe se a acordo, menina Dysart – ouviu a voz de Jack Spencer. – Mil desculpas.
– Não faz mal. Já nasceu o bebé?
– Jonh Spencer Cartwright nasceu há um par de horas e é um bebé perfeito. A minha irmã está muito bem, mas Tim quase teve um ataque de ansiedade.
– Obrigada por telefonar – sorriu ela. – Como está Abby?
– No sétimo céu. Ainda não viu o irmão, mas está louca para o ver.
– Imagino.
– Menina Dysart, a minha sobrinha disse-me que vai passar as férias com a sua família.
– Pois, sim…
– Quando se vai embora?
– Depois do almoço.
– Posso perguntar-lhe para onde vai?
Kate fez um gesto de surpresa.
– Para Stavely. A quarenta quilómetros de Pennington.
– Ah, um local estupendo. Espero que se divirta.
– Assim farei. Obrigada por telefonar, senhor Spencer.
Não fazia sentido continuar na cama, de modo que tomou um banho, desceu para a cozinha para fazer o pequeno-almoço, limpou um pouco a casa, fez a mala e, depois, saiu para dizer ao senhor Reith, o seu vizinho, que estaria fora durante uma semana.
Mais tarde, depois de comer, alguém bateu à porta.
Era Jack Spencer, de calças de ganga, com um gigantesco ramo de flores silvestres na mão.
– Bom dia, menina Dysart. Isto é para lhe agradecer.
– Ah, que amável – sorriu ela, surpreendida. – Entre, por favor.
– Não a incomodo?
– Nada. Sente-se… quer um café?
Spencer negou com a cabeça, deixando-se cair sobre o assento junto à janela.
– Não tenho tempo, mas obrigado. Vou comprar um presente e depois vamos ao hospital para conhecer o novo herdeiro.
Kate sorriu.
– Suponho que Abby está ansiosa.
– Esta manhã está diferente, menina Dysart.
– Quer dizer que agora pareço uma professora? É porque tenho o cabelo apanhado?
– Sim, suponho que sim. É uma pena esconder esses caracóis tão bonitos… Desculpe, talvez esteja a ser indelicado.
– Já não tenho idade para deixar o cabelo solto.
– Se a senhora o diz… – sorriu ele. – Mas ontem à noite parecia uma rapariguinha.
– Não o sou, mas obrigada, senhor Spencer.
– Chame-me Jack.
– Penso que não seria apropriado.
– Porque é professora de Abby?
Ela assentiu.
– O director do colégio trata por tu toda a gente, mas os professores continuam a chamar senhores aos pais.
– Mas eu não sou um pai. Os tios não contam.
Kate deixou as flores sobre a mesa.
– Por favor, agradeça aos senhores Cartwright pelas flores.
– Na verdade… são minhas, menina Dysart – sorriu ele então. Ao fazê-lo, apareceram umas ruguinhas à volta dos olhos e isso dava-lhe um ar muito simpático.
– Então, obrigada. É muito amável.
– Vim porque queria vê-la outra vez – suspirou Jack Spencer, levantando-se. – Mas tenho que me ir embora.
– Adeus, senhor Spencer.
– A sério que não me quer chamar Jack?
– Não é que não queira…
Kate não terminou a frase. Na rua da sua casa, além do jipe havia um Maserati azul-escuro.
E Alasdair Drummond aproximava-se com uma expressão furiosa.
Não tinha os ombros tão largos como Jack, mas era mais alto. Também trazia umas calças de ganga, mas isso era a única coisa que tinham em comum. Alasdair calçava mocassins de pele, uma polo branca de mangas compridas e um casaco cor-de-rosa que um homem menos másculo não se atreveria a usar.
Mas dessa vez pôde observá-lo de forma mais objectiva. O seu cabelo escuro estava, como sempre, bem cortado, e parecia mais magro. Mas os olhos cinzentos eram tão penetrantes como sempre.
– Adeus, menina Dysart.
– Eh… ah, adeus senhor Spencer.
Os dois homens encontraram-se no caminho, fazendo um gesto de saudação com a cabeça.
– Olá outra vez, Kate.
– Não esperava ver-te hoje. Não me digas que estavas de passagem…
– Não. Pensei que pudéssemos almoçar juntos.
– Desculpa, já almocei.
– Com o tipo que saiu de tua casa?
Kate não se incomodou em responder.
– Já que vieste até aqui, convido-te para um café – disse, olhando para o relógio. – Mas tenho que me ir embora daqui a meia hora.
– Obrigado – murmurou ele, olhando para as flores. – Se tivesse trazido um ramo de rosas, a recepção teria sido mais acolhedora?
– Sou antipática? Desculpa, Alasdair.
– Eu sei que estou a incomodar.
– Não me incomodas nada. Vou fazer café.
– Ajudo-te?
– Não, senta-te. Fazes com que a minha casa pareça pequena.
– E é pequena. Parece uma casa de bonecas – sorriu Alasdair, percorrendo-a com o olhar. – Não cresceste nada desde a última vez que nos vimos.
– Não em estatura, mas sim em maturidade – replicou ela, entrando na cozinha.
Pouco depois, voltou à sala com uma bandeja.
– Tomo-o simples e sem açúcar. Suponho que te recordas, porque o fizeste muitas vezes.
– Tinha-me esquecido – disse Kate.
E era verdade. Tinha tentado esquecer-se de tudo sobre Alasdair Drummond e, pelo menos, conseguira esquecer-se de algumas coisas.
Como a sua anterior visita, sentou-se no assento junto à janela, com as suas longas pernas estendidas para a frente.
– Acendes a lareira todos os dias?
– Não, só aos fins-de-semana.
– O homem que vi sair daqui… é importante, Kate?
– Sim – respondeu ela sem hesitar.
Não era de todo mentira. Jack Spencer era importante… para a sua sobrinha e a sua mãe. E seguramente para várias mulheres. Talvez até para a sua esposa. E Alasdair não ficaria magoado por acreditar que era importante para ela.
– Ah, percebo.
– E tu? Suponho que também haverá alguém importante na tua vida.
Alasdair negou com a cabeça.
– Já não. Vivi com uma rapariga até há pouco tempo, mas acabámos.
– Porquê?
– Poderíamos dizer que me deixou. Amy gosta de viver em Nova Iorque e não queria vir para Inglaterra.
– Ah, que pena. Onde estás a pensar ficar?
– Em Gloucester. A minha avó deixou-me a sua casa – respondeu ele, tomando o café de um trago. – Bom, vou-me embora. Já te incomodei o bastante.
Kate acompanhou-o à porta.
– Desculpa por não podermos almoçar juntos.
– Talvez tenha mais sorte amanhã. Aliás, tenho a impressão de que a tua família me receberá melhor do que tu.
– Olha, não quero ser grosseira…
– Aquele homem… também vai ao baptizado?
– Não. Os meus pais não sabem nada dele.
Alasdair agarrou-a pelos ombros.
– Fria recepção ou não, gostei muito de te ver.
– Eu também gostei – murmurou Kate, tentando dissimular a reacção que lhe produzia o contacto.
– Ah, sim? Eu preferiria mais um pouco de entusiasmo – disse ele, inclinando a cabeça para lhe dar um beijo na face. Mas então pareceu pensar melhor e beijou-a nos lábios.
– Até amanhã, Kate.
Ela fechou a porta bruscamente e sentou-se no sofá, nervosa. Quanto tinha desejado que a beijasse… há uns anos atrás. Então deu-lhe vontade de rir. Normalmente, aos sábados de manhã só via o carteiro e o senhor Reith, o seu vizinho. Mas aquele sábado tinha sido bem diferente.
Jack, como ele queria que lhe chamasse, era novidade na sua experiência. Comparado com o elegante Alasdair, parecia pouco sofisticado e, no entanto, parecia-lhe muito agradável.
E tinha deixado claro que a achava atraente. Kate sorriu, enquanto guardava a mala no carro.
Pela forma como a beijara, Alasdair Drummond também parecia achá-la muito atraente.
Mas não lhe valeria de nada.
As janelas de sua casa, uma casa que estava na família Dysart há quatro gerações, brilhavam sob a pálida luz do entardecer, quando estacionou debaixo do castanheiro das Índias.
O jardim estava a começar a encher-se de cores depois do rígido Inverno. Narcisos em botão, ramos rodeados de primaveras amarelas… Kate subiu os degraus do alpendre, com aquela sensação tão agradável que sentia sempre que voltava a casa.
Os seus olhos iluminaram-se quando Adam abriu a porta com o bebé nos braços.
– Está na hora de conheceres a tua madrinha, Hal – sorriu o seu irmão. – Olá, anã. Queres pegar no teu afilhado?
– Claro que sim! – exclamou ela, largando a sua mala. – Olá, sobrinho… que lindo que és. Felizmente, parece-se com a sua mãe.
– Isso não é verdade – replicou Adam, indignado. – Parece-se comigo.
Kate soltou uma gargalhada.
– Sim, claro. Apesar do cabelo loiro e dos olhos azuis de Gabriel, é a tua cara chapada.
– Querida! Não tinha ouvido a campainha – exclamou a sua mãe.
– Não tocou. Vi-a pela janela.
Kate abraçou toda a família, feliz por estar com eles novamente.
– Gostas do meu filho? Fi-lo muito bem, não é verdade? – sorriu Gabriel, a sua cunhada.
– Não poderias tê-lo feito sem mim – recordou-lhe Adam.
– Pois. Mas eu fiquei com a pior parte.
Pouco depois chegou o seu pai, depois de passear o cão, e Kate teve que controlar o excitado retriever, que não deixava de saltar à sua volta. Sentada no sofá, acariciou a cabeça de Pan enquanto contava à sua família os últimos acontecimentos.
– Ah! é verdade. Deixei as flores no carro…
– Que maravilha – exclamou Frances Dysart, sua mãe, quando entrou com o enorme ramo. – De quem são?
– De um amigo.
– Pus flores na igreja para amanhã, mas não fiquei com nenhuma para a casa. Importas-te que as ponha, Kate?
– Não, claro que não. Foi para isso que as trouxe.
– A propósito, ouvi dizer que recusaste jantar com Alasdair – disse então Adam.
Kate franziu o nariz.
– Tinha outros compromissos.
– Sabes que o convidei para o baptizado, não sabes?
– Sim. Ainda que não entenda porquê.
O seu irmão encolheu os ombros.
– Levou vários móveis da sua avó para o antiquário e convidou-me para almoçar no Chesterton.
– E é por isso que vem ao baptizado?
– Não sejas tonta. Foi amigo teu durante muitos anos… Perguntei-lhe se queria vir e disse-me imediatamente que sim. Pensei que ficarias contente.
– Fê-lo com boa intenção – sorriu Gabriel.
Kate assentiu, resignada.
– Eu sei. Mas já chega de Alasdair Drummond. Quem mais vem ao baptizado?
– Leonie e Jonah, claro – disse a sua mãe. – Mas sem as crianças. Os pais de Jonah levaram-nos à Disneyland Paris este fim-de-semana.
– E Jess?
– Temo bem que não. Acabam de lhe confirmar que está outra vez grávida.
– E Lorenzo envolveu-a numa redoma! – sorriu Kate, olhando com certa inveja para Gabriel, que embalava o seu filho com expressão jubilosa.
Mas não deveria sentir inveja. Entre Jess e Adam havia tantas crianças que o melhor seria não acrescentar mais nenhuma por enquanto.
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