Kitabı oku: «Tempo de esperança»

Editado por Harlequin Ibérica.
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28001 Madrid
© 2002 Daphne Clair
© 2019 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Tempo de esperança, n.º 695 - setembro 2020
Título original: The Riccioni Pregnancy
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited. Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-1348-573-7
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
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Capítulo 1
Estavam a segui-la. Em silêncio, invisíveis, tinha ficado em pele de galinha com o sinal de advertência. Atrás dela, a noite escondia um caçador.
Tinha passado por aquelas ruas estreitas centenas de vezes, à luz do dia e na escuridão, e nunca tinha ficado nervosa. Até aquele momento.
A luz dos faróis era ofuscada pelos troncos das árvores que rodeavam a rua, preenchendo-a de sombras. As raízes saltavam por entre a cerca. Deveria ter mudado de sapatos antes de sair do trabalho. Os que trazia tinham um salto demasiado alto e podia ser um perigo na escuridão.
Tropeçou e, murmurando, olhou rapidamente por cima do ombro, com o coração nas mãos.
Nada. Mas seria fácil para qualquer pessoa que não quisesse ser vista, esconder-se atrás de uma árvore ou atrás de algum carro estacionado em ambos os lados da rua.
O instinto fez com que acelerasse o passo, procurando a chave no bolso.
Deteve-se por um momento na porta do vizinho, olhando novamente para trás. Estava uma sombra por baixo das árvores ou era apenas uma brisa a mover os troncos…?
Imaginou-se a bater à porta, pedindo que a abrissem, observou a alegre e frenética família Tongan a deixá-la entrar, enviando os rapazes à procura do estranho perseguidor. Mas, na casa não havia luzes, nem vozes, nem música.
E se estava enganada? E se havia um atacante invisível que apenas existia na sua imaginação?
A porta da sua casa estava apenas a alguns metros, uma casinha de dois pisos que recordava o passado colonial da Nova Zelândia.
«Não corras», pensou. Em breves segundos estaria no caminho de ladrilhos, quando finalmente tirou a chave do bolso.
Estava no terceiro degrau da entrada quando o portão chocou contra a cancela e, ao voltar-se, angustiada, viu que uma alta figura masculina se aproximava.
Aterrorizada, voltou-se para a porta, mas ficou com o salto alto preso no último degrau e perdeu o equilíbrio. Ao levantar o braço para procurar apoio, deixou cair a chave da mão.
À beira do pânico, apoiou-se na ombreira da entrada, ouviu a chave cair no chão e viu o desconhecido baixar-se para as apanhar.
Não podia fugir. Estava presa, com uma porta fechada nas suas costas. E, diante dela, um homem com a sua chave na mão.
Precisava respirar fundo para poder gritar, esperando que alguém a ouvisse, que alguém a ajudasse.
Desceu as escadas num salto e uma mão grande, enorme, tapou-lhe a boca, estrangulando o grito.
Levantou um joelho para lhe bater, mas o homem estava atrás dela. Tentou mordê-lo, mas não conseguia. Levantou o pé para lhe dar um pontapé letal, mas o canalha parecia estar preparado e apenas encontrou ar. Tentou dar-lhe uma cotovelada, mas ele segurou o seu braço e deu-lhe a volta, esmagando-a contra o seu duro corpo.
– Querida, não – murmurou ao ouvido com uma voz rouca.
Querida? Essa palavra fez com que ficasse rígida. Querida? A fúria superou o medo.
O homem deixou de a apertar e ela aproveitou para soltar-se, levantou a mão direita e deu-lhe uma bofetada na cara que se ouviu em toda a rua, foi tão forte que fez com que desse um passo atrás.
– Canalha! – gritou.
O seu rosto era invisível na escuridão, mas observou-o a dar um passo atrás. Soltou uma gargalhada.
Ela respirou profundamente para levar ar aos seus pulmões. Dava-lhe voltas à cabeça e parecia estar a flutuar no espaço, no escuro e confuso espaço. Teve que respirar novamente para poder falar:
– Dá-me a chave – disse e rangeu os dentes.
O homem apertou-lhe o nariz com dois dedos.
Ela tentou soltar-se, mas ele não a largou e os seus dedos roçaram-se. Quando finalmente conseguiu tirar-lhe a chave, deu meia volta e tentou encontrar a fechadura, mas tremia tanto que não era capaz de fazê-lo.
Então, o homem tirou-lhe a chave e colocou-a correctamente na fechadura. Depois, abriu a porta e colocou uma mão nas suas costas e empurrou-a suavemente para o interior da casa.
Quando fechou a porta ficaram na escuridão. Ela não via nada, mas conseguia ouvir a respiração do homem, cheirar a sua roupa de algodão e lã, o seu sabão e uma suave água de colónia masculina. Começou a cheirar um sedutor aroma a homem excitado.
Então, ele pegou-lhe pela cintura.
– Estás a tremer – murmurou, roçando a sua cara com o cabelo. – Lamento.
– Lamentas? – exclamou ela, furiosa, envergonhada e confusa.
Procurou o interruptor e ficou furiosa e pálida quando acendeu a lâmpada. Diante dela, um homem de cabelo escuro, olhos azuis, sobrancelhas escuras sobre um nariz magistral e uns lábios que não podiam esconder a sua poderosa sensualidade.
– Estás pálida.
– Estiveste a perseguir-me? – perguntou ela.
– A perseguir-te?
– Estavas a seguir-me. Não me digas que não tentavas esconder-te.
– Estava a tentar não te assustar.
Ela quase soltou uma gargalhada.
– O quê?
– Pensei que se ouvisses passos atrás de ti nestas ruas tão escuras terias razão em ficares assustada.
– Como diabo não ia assustar-me ao saber que tinha alguém a seguir-me? – exclamou ela, largando a mala na mesa do telefone.
– Ignorava que soubesses.
Ele pegou na sua mão e deu-lhe a chave. Depois, tentou dar-lhe um beijo, fazendo com que ficasse com a pulsação acelerada.
– Precisas de um copo – disse, olhando à sua volta.
– Não preciso…
Ele largou a sua mão para a levar até ao salão, a primeira porta aberta no corredor.
– Senta-te – ordenou, levando-a até ao sofá.
– Não preciso de um copo. E se precisasse eu próprio o servia.
Sem dizer nada, o homem aproximou-se da estante onde estavam as garrafas.
Sabendo que não faria caso aos seus protestos, ela deixou-se cair no sofá e esperou até que o homem voltou com um copo de uísque. Ao beber o primeiro gole, os seus olhos ficaram repletos de lágrimas, mas tentou disfarçar.
Ele sentou-se a seu lado. Tinha um braço apoiado nas costas do sofá e olhava para ela com intensidade.
– Bebe tudo.
Deveria dizer-lhe que fosse para o inferno, que não precisava de nenhum homem que a seguisse até à sua casa e que lhe dissesse o que tinha que fazer.
Levantando o copo, bebeu o resto do líquido.
– Vives aqui sozinha?
– Isso não é assunto teu – disse ela, sem pensar.
Por que é que não lhe tinha dito que tinha noivo, marido, namorado, qualquer coisa? Ou que vivia com mais três pessoas.
– Já sei.
– Desde quando me segues?
– Vi-te descer do autocarro na avenida Ponsonby. Costumas regressar a casa sozinha? – perguntou ele, com um tom de reprovação.
A avenida Ponsonby era muito popular pela sua ecléctica mistura de emigrantes, mulheres das ilhas Fiji com os seus lenços de cores, lojas de todo o tipo, locais de moda e galerias de arte. Mas, sobretudo, pelos seus cafés e restaurantes cheios de pessoas e bem iluminados. Apenas estava a trezentos metros da sua casa, mas para chegar ali devia atravessar várias ruas escuras.
– Nunca me tinha acontecido nada até hoje.
– E, hoje, também não te aconteceu nada. Eu assegurei-me disso.
– Muito obrigado, mas não era necessário – replicou ela, sarcástica.
– Quando te vi, apercebi-me que era totalmente necessário. Importas-te que me sirva de um copo?
– Sim, importo-me.
– Estás a ser um pouco grosseira, não? – sorriu ele.
Tontamente, sentiu-se reprovada. Como se aquele homem tivesse algum direito sobre ela.
– O que mereces.
– Queres um pouco mais?
Ela negou com a cabeça.
Sabia que não podia mandá-lo embora da sua casa. Mas aquela era sua casa e ele era um intruso.
– Não esperas que me vá embora, agora, não?
– E se te pedir?
Ele estava a olhar para o seu copo. O líquido não se mexia, as suas mãos estavam perfeitamente firmes. Ao contrário das suas. Todo o seu corpo tremia de forma quase perceptível.
– Estás a pedir que me vá embora?
Ela conteve a respiração.
«Diz».
– Sim.
Não o tinha dito com muita determinação, mas sim claramente, embora em voz baixa.
Passaram uns segundos. Então, ele levantou o seu copo e bebeu um gole. Depois, olhou-a fixamente nos olhos.
– Não.
Ela levantou-se de repente e teve que segurar-se no braço do sofá porque o movimento brusco deixou-a tonta. Além disso, não podia sair a correr. Ele poderia apanhá-la antes de dar dois passos.
O homem bebeu o resto do uísque e deixou o copo sobre a mesa.
– Não – repetiu. – Não podes continuar a fugir de mim, Roxane.
Capítulo 2
– Não estou a fugir – murmurou ela, sentando-se novamente no sofá. – Nunca fugi de ti.
– Então, o que lhe chamas?
– Foi uma decisão racional e sensata.
– Sensata?
Uma familiar mistura de sensações apoderou-se dela: desespero, tristeza, angústia, misturada com um profundo e inexplicável desejo.
– Não achas que seja capaz de fazer algo sensato. Mas foi a melhor decisão da minha vida.
Ele apertou o copo com força.
– Era necessário ser tão dramática? Cortar todo o contacto, fazer jurar os teus padres que não me dissessem onde estavas, obrigar-me a que comunicássemos através do teu advogado, como se eu te tivesse maltratado…
– Disse-lhes que não era assim – replicou ela, olhando para as mãos. – Não me trataste mal, Zito.
– Ah, pensei que nunca voltarias a pronunciar o meu nome.
O rosto de Roxane estava semi-escondido no seu longo cabelo escuro, mas tinha notado uma mudança no tom de voz do seu marido, que fez com que levantasse o olhar para os seus claros olhos verdes, interrogantes.
Apenas encontrou uma expressão rígida e indecifrável, quase indiferente.
– Não pensaste que se quisesse encontrar-te-ia de imediato?
– Eu sei.
Sabia que Zito podia pagar a vários detectives privados durante o tempo que fosse necessário.
– Mas deixaste bem claro que não querias que te encontrasse – sorriu ele, sarcástico. – Ou esperavas que fosse a correr atrás de ti para te pedir que voltasses comigo?
Às vezes fantasiava com essa ideia, que o seu marido voltaria para lhe pedir desculpas e fazer promessas… um homem diferente, um homem humilde. E que tudo, milagrosamente, iria correr bem. Este pensamento tinha-a ajudado a conciliar o sonho durante muitas noites.
Mas seria fatal admiti-lo.
– Não.
Pareceu-lhe ver um brilho de emoção nos olhos azuis dele, mas de repente desapareceu. Talvez estivesse enganada.
– Fico contente que assim seja – disse ele, metendo as mãos nos bolsos das calças.
A roupa de Zito estava sempre impecável, muito cara. Não com o intuito de impressionar os outros.
Ele estava a inspeccionar as paredes que Roxane tinha pintado de verde, com baratas reproduções artísticas.
Então, olhou, para o sofá em segunda mão. Por um segundo, a sua atenção desviou-se para o tapete antigo pelo qual Roxane tinha pago muito dinheiro. O seu único capricho.
– Não gostas da minha casa? – perguntou, desafiante.
– Não está mal. Pequena, mas agradável.
– Gosto das coisas pequenas.
Zito olhou para ela, incrédulo.
– É tua?
– Minha e do banco.
– Se precisas de dinheiro, poderias ter-me pedido. Através do teu advogado, se fosse preciso. Disse-lhe…
– Não quero o teu dinheiro. Tenho um bom trabalho e posso pagar a hipoteca.
– Hipoteca!
Tinha falado como se fosse uma palavra feia. Roxane sorriu.
– É isso o que fazem as pessoas normais para comprarem uma casa, Zito.
– Não tens necessidade de comprar uma casa. Eu posso dar-te tudo o que quiseres… dei-te tudo, se bem me lembro.
– Não tudo – disse Roxane em voz baixa. – Não me deste o que mais desejava.
– Amava-te! – exclamou ele, furioso.
– Eu sei, sei que me amavas. À tua maneira.
Zito passou uma mão pelo cabelo, irritado.
– Dei-te o meu coração e a minha alma, tudo o que tinha. Não sei que mais poderia dar-te.
Claro que não sabia. Maurizio Riccioni apenas faz as coisas à sua maneira. E quase sempre com sucesso. Por que é que iria imaginar que a sua mulher não sucumbiria a essa profunda segurança em si mesmo?
– Nem tudo foi culpa tua. Eu era demasiado jovem e deveria ter dito «não» quando me pediste em casamento.
– E disseste – recordou ele.
Sim, era verdade. A primeira vez que a pediu em casamento, demonstrou um certo bom senso. Mas a sua oposição não durou muito. De imediato, os seus medos foram dissipados perante a vontade de Zito.
Inclusive, convenceu os seus pais, apesar deles não aprovarem que a sua filha casasse aos 19 anos.
Zito esperou até que cumprisse os 20 e no dia do seu aniversário casaram na catedral de Melbourne, perante várias centenas de convidados.
Mas, o casamento era algo mais do que um vestido branco e um ramo de flores. E o seu não tinha resistido ao desafio.
– Deveria ter-te dito que não.
– Obrigado – murmurou ele. – Mas eu podia convencer-te de todas as formas.
– Estás tão seguro de ti próprio…
– Eu nunca te magoei, Roxane. Se tivesse sido um marido terrível, compreenderia que me tivesses abandonado.
Então, aproximou-se do seu escritório e olhou para os papéis.
– São coisas privadas – protestou Roxane. Ele pegou num envelope e voltou-se, interrogante.
– Roxane Fabian? – Roxane encolheu os ombros.
– É o meu apelido.
– Mas disseste que gostavas do meu.
– Não me importou… Não era tão importante.
– Para mim era.
Mas ter o seu apelido tinha sido importante para ela. Seguramente, era algo simbólico.
– Por que é que pensavas que eras o meu dono? – Zito soltou uma gargalhada.
– Se realmente pensavas assim, eras demasiado jovem.
Ou demasiado tonta, parecia insinuar.
– Então, não pensavas isso.
A reacção do homem foi notável, mas ela conhecia-o tão bem que viu como dava, sem dar, um passo atrás.
Não queria magoá-lo. Sabia que ficaria furioso, mas não o abandonou para se vingar ou castigá-lo, apenas por sobrevivência.
Na sua longa e possivelmente incoerente carta de despedida, tinha-lhe dito que não o odiava e que não devia culpar-se a si mesmo pelo que não podia evitar. Tinha tentado não o magoar.
Talvez a dor fosse mais profunda do que ela esperava. Tinha tido doze meses para a esquecer, mas não parecia tê-la esquecido.
– Lamento. Pensava que compreendias.
– Há outro homem? – perguntou ele abruptamente.
– Por favor! – exclamou Roxane. Não entendia que o tinha deixado porque queria estar sozinha. – Outro homem depois de viver contigo durante três anos? Como te atreves a sugerir que te fui infiel?
Zito ficou em silêncio durante uns segundos.
– Durante meses, torturei-me com essa ideia.
Roxane nunca tinha pensado nisso. Essa era mais uma prova de que não a conhecia, que nunca tinha tentado compreendê-la ou entender os seus desejos.
– Pois enganas-te.
Ele encolheu os ombros, como se não tivesse importância. Mas tinha. Tinha o seu orgulho ferido e essa era, seguramente, a razão pela qual não a tinha procurado através de um detective.
– Quebraste outras promessas do casamento – disse então. – Por que não essa?
– É diferente.
– Porquê?
Roxane não podia responder a essa pergunta.
– Porque sim – disse, suspirando.
– E agora?
– Agora, a minha vida privada é a minha vida privada.
Nesse momento, começou a tocar o telefone e Roxane levantou-se para ir para o corredor.
– Diga-me?
Zito ficou a olhar para ela desde o salão, enquanto ela tentava concentrar-se na chamada.
– Diz-me, Leon… No sábado? Sim, bem, tenho que ver a agenda.
Roxane abriu a mala que tinha deixado sobre a mesa do telefone.
– No sábado da semana que vem? Que género de festa? Se há muitos convidados…
Leon garantiu que não. Uma festa de boas vindas, pelos vistos, para o filho de um cliente que voltava da Europa com a sua noiva.
– É apenas uma reunião familiar. Uma centena de convidados.
– Uma reunião familiar? – sorriu ela. – Para que os familiares vejam a pobre noiva?
– É uma proeminente família de Auckland e os contactos vêm mesmo a calhar. Espero que possas organizá-la.
– Claro que sim – prometeu Roxane.
– Sei que posso confiar em ti.
Quando voltou ao salão, tinha um sorriso nos lábios. Zito estava a olhar pela janela, com um ar muito sério.
– O teu noivo?
Roxane não tinha noivo, mas a pergunta fez com que vacilasse um pouco.
– Não, uma chamada de trabalho.
– Trabalho? – repetiu Zito, incrédulo. – A estas horas?
– Não é assim tão tarde – murmurou ela, olhando para o relógio. Eram apenas dez horas.
– Uma festa no sábado à noite? A sério que tinhas que consultar a agenda ou apenas o fizeste para o deixares nervoso?
– Não sejas ridículo.
Ele afastou-se da janela, com um brilho feroz nos olhos.
– Ridículo?
– Ridículo, sim!
Talvez fosse a segurança no seu tom de voz, talvez o brilho dos seus olhos verdes, mas Zito deteve-se. Roxane nunca se tinha atrevido a repreendê-lo dessa forma.
– Quem é a noiva? Tu? Se és tu, esqueceste-te de um pequeno detalhe.
Ela ficou tão surpreendida que soltou uma gargalhada.
E, novamente, reparou que o tinha deixado nervoso.
Nunca tinha visto Zito a perder a calma no espaço de… dez minutos?
Era uma sensação muito peculiar.
– Quem telefonou foi o meu chefe. Dedicamo-nos a organizar eventos, sobretudo para grandes empresas, mas pediu-me que organizasse uma festa familiar para o filho de um cliente.
Zito olhou para ela como se estivesse a tentar decidir se devia acreditar ou não. Depois deixou-se cair no sofá, passando uma mão pelo cabelo.
Roxane sentou-se no braço do cadeirão, a seu lado, e cruzou as mãos. Umas mãos sem aliança, sem anel de comprometida.
Quando levantou o olhar, ele estava apoiado nas costas do sofá, com as longas pernas esticadas.
– Comportei-me como um idiota. Como um autêntico idiota.
Surpreendida pela confissão, Roxane ficou a olhar para ele sem dizer nada.
– Deveria ter-me aproximado de ti quando desceste do autocarro.
– Em vez de me pregares um susto de morte?
– Quando soubeste que era eu?
Quando lhe chamou «querida» com a sua inesquecível voz rouca que ela sempre tinha imaginado com o sotaque italiano dos seus antepassados, embora os seus pais tivessem nascido na Austrália.
– Antes de dar-te a bofetada – respondeu.
Ele sorriu suavemente, sem olhar para ela, despertando emoções antigas. Emoções que não devia despertar.
– Já vejo.
– O que fazes na avenida Ponsonby? Na realidade, o que fazes em Auckland?
– Estamos a pensar em abrir uma cadeia de restaurantes na Nova Zelândia. E estava a jantar no GPK.
– Vigiando a competência?
O avô de Zito tinha chegado à Austrália sem um cêntimo e lavou pratos até que abriu o seu próprio restaurante e depois outro e outro. O negócio familiar converteu-se numa instituição australiana que valia milhões de dólares.
E estavam a pensar em expandir-se na Nova Zelândia…
– Estava a misturar os negócios com o prazer – disse Zito.
– Ah, estavas com uma mulher – murmurou Roxane.
Claro que não tinha jantado sozinho. E, claro que a sua acompanhante teria sido uma mulher.
– Uma mulher que não penso ver mais.
– Não me surpreende… se a deixaste sozinha a meio da refeição – replicou ela, sentindo uns ciúmes que não tinha o direito de sentir. – Que desculpa lhe deste?
– Desculpei-me, paguei o jantar e disse-lhe que telefonaria amanhã.
Roxane quase que soltou uma gargalhada.
– Terás sorte se voltar a dirigir-te a palavra.
– Envio-lhe um ramo de flores.
– Ah, claro, e então fica tudo esquecido. Irá logo comer na tua mão.
– Já te disse que não penso voltar a vê-la. É apenas uma conhecida… nada mais.
Que seguramente esperava ser muito mais, Roxane não tinha dúvidas. Essa mulher não sabia que tinha escapado por um fio.
Mas estava a ser injusta. Uma mulher mais velha, mais sofisticada, mais segura de si própria poderia ter sido muito feliz com Zito… e poderia tê-lo feito muito feliz.
– No que pensas, Roxane?
– Em nada. Não comi nada desde o almoço. Tenho fome.
Essa resposta, que devia ter saído do seu subconsciente, por alguma razão, pareceu deixá-lo zangado.
– Quando vais aprender a cuidar de ti própria?
– Já o faço – replicou ela. – Se não me tivesses atacado estaria agora mesmo a jantar tranquilamente.
– Onde está a cozinha?
– O quê?
– É indiferente – disse Zito, levantando-se. – Eu encontro-a.
– Zito… – murmurou Roxane, seguindo-o pelo corredor. – Espera um momento, não preciso que me faças o jantar.
Ele voltou-se, com um sorriso nos lábios. Gerações de carismáticos italianos tinham produzido aquele sorriso irresistível.
Pegando-lhe no braço, meteu-a na cozinha e sentou-a numa das cadeiras de madeira.
– Eu também tenho fome. Não precisas de cozinhar. Senta-te aí e diz-me onde está tudo.
Zito tirou o casaco e a gravata, que deixou sobre uma cadeira, e arregaçou as mangas da camisa, mostrando uns antebraços morenos e fortes, enquanto lavava as mãos.
Aquilo não podia estar a acontecer. Não podia ser. Devia de ter ficado a dormir no escritório. Era um pesadelo. Zito Riccioni não estava na sua cozinha a abrir os armários para mexer nas caçarolas, perguntando-lhe se tinha tomates, cebolas, alhos…
– No cesto, ao lado do frigorífico – respondeu automaticamente.
Ele pegou num punhado de alhos e levou-os até ao nariz. Faz sempre isso, procurar a frescura dos produtos, como lhe tinha ensinado o seu avô.
Durante o dia livre dos empregados da sua mansão de Melbourne, levava-a à espectacular cozinha para fazerem o jantar juntos.
«Cheira isto», dizia aproximando algo à sua cara: pimenta recém moída, algumas especiarias exóticas ou alguma erva recém encontrada no mercado.
Cortava alguma fruta ou verdura e provava-a antes que ela a provasse.
Às vezes, Roxane mordiscava os seus dedos, convidando-o a que fizesse o mesmo. Mais tarde, ele prometia-lhe um erótico castigo, na cama.
Mas nem sempre esperava pelo fim do jantar e, às vezes, voltavam para a cozinha depois de revolverem os lençóis. Então, a comida ainda sabia melhor.
Fazer a comida tinha sido uma espécie de jogo sexual, uma arte que Zito praticava com a mesma alegria, com a mesma satisfação com que fazia amor.
Uma arte que não desaparecia com os anos, pelos vistos. Apesar da sua casa ser pequena, demonstrava a mesma competência que na sua enorme cozinha com metros e metros de comprimento e vários electrodomésticos..
Um pesadelo? Não, melhor, um bonito sonho, mas insuportavelmente nostálgico.
Uma vez disse-lhe que o seu estilo de cozinhar era como o de um bailarino russo, disciplinado e ocasionalmente extravagante.
«Nem todos são homossexuais?», tinha-lhe perguntado ele.
«Nem todos», protestou ela.
Zito fazia-se passar por ciumento, exigindo saber como sabia e, por fim, levava-a para cama para provar que ele era inegavelmente heterossexual.
Ücretsiz ön izlemeyi tamamladınız.