Kitabı oku: «Esperanças ocultas - Amores e mentiras»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

N.º 62 - março 2021

© 2009 Heidi Rice

Esperanças ocultas

Título original: Public Affair, Secretly Expecting

Publicada originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

© 2012 Dolce Vita Trust

Amores e mentiras

Título original: The Wayward Son

Publicada originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2013

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Harlequin Desejo e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença. As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1375-286-0

Table of Content

Créditos

Esperanças ocultas

Capítulo Um

Capítulo Dois

Capítulo Três

Capítulo Quatro

Capítulo Cinco

Capítulo Seis

Capítulo Sete

Capítulo Oito

Capítulo Nove

Capítulo Dez

Capítulo Onze

Capítulo Doze

Capítulo Treze

Capítulo Catorze

Capítulo Quinze

Capítulo Dezasseis

Capítulo Dezassete

Capítulo Dezoito

Capítulo Dezanove

Capítulo Vinte

Capítulo Vinte e um

Epílogo

Amores e mentiras

Capítulo Um

Capítulo Dois

Capítulo Três

Capítulo Quatro

Capítulo Cinco

Capítulo Seis

Capítulo Sete

Capítulo Oito

Capítulo Nove

Capítulo Dez

Capítulo Onze

Capítulo Doze

Capítulo Treze

Capítulo Catorze

Capítulo Quinze

Volta


Capítulo Um

No alvoroçado aeroporto de Heathrow, Juno Delamare tentava controlar os nervos enquanto procurava no mostrador o voo 155 vindo de Los Angeles. Mas ao verificar que já tinha aterrado, o seu coração disparou.

«Por favor, miúda, acalma-te»

Juno enfiou as mãos nos bolsos das suas novas calças de ganga, que já tinham aberturas no joelho, e respirou fundo. Tinha de acalmar-se, pensou. Precisava de levar a cabo uma missão muito importante e estava sem tempo para um ataque cardíaco.

Quando Mac Brody, a estrela de Hollywood, aparecesse no átrio das chegadas, devia estar pronta e em plena posse das suas faculdades mentais para lhe entregar o convite para o casamento de Daisy Dean, a sua melhor amiga, e assegurar-se de que ele iria.

Daisy ia casar-se com o milionário construtor Connor Brody dentro de duas semanas e ela decidira juntar os dois irmãos, que não se viam há anos. Logo, a sua missão era garantir que Mac Brody fosse ao casamento, quisesse ou não.

Como ia fazê-lo não sabia, mas estava disposta a tentar. Daisy tinha-a ajudado a pôr a sua vida em ordem, seis anos antes, quando pensou que já nada nem ninguém lhe importava. E estava em dívida para com ela.

Infelizmente, não tinha pensado na logística e naquele momento, prestes a vê-lo aparecer pela porta de chegadas no imponente terminal de Heathrow, a logística começava a perturbá-la.

E se fracassasse? E se Mac Brody viajasse com um exército de guarda-costas e não conseguisse aproximar-se dele? E se recusasse aceitar o convite? E o golpe de misericórdia: quando fora a última vez que se aproximara de um estranho para tentar convencê-lo do que quer que fosse? A sua capacidade de persuasão não era propriamente lendária com os homens.

Não tinha jeito para seduzir, não era bonita o suficiente nem tinha roupa para isso. O que significava que teria que apelar à natureza generosa de Mac Brody, supondo que a tivesse.

Não o conhecia e nunca tinha visto um filme com ele, mas ela estava na casa de Daisy duas semanas antes, quando chegou a carta... e isso dissera-lhe tudo o que precisava de saber sobre a personalidade de Mac Brody, superestrela de Hollywood e rapaz rebelde irlandês.

Era muito bonito, sim... para quem gostava de homens altos, morenos e de aspeto perigoso. Mas sob toda aquela virilidade havia um tipo arrogante, superficial e egocêntrico.

Juno irritou-se ao recordar o tom grosseiro da carta.

Daisy estava tão emocionada, tão certa de que seriam boas notícias, mas dentro do envelope estava o convite para o casamento que lhe tinham enviado, com um recado do seu agente dizendo que o senhor Cormac Brody não iria ao casamento do irmão e pedindo-lhes, além disso, que não voltassem a entrar em contacto com ele.

O recado fizera Daisy chorar e a sua amiga nunca chorava. Connor passara-lhe um braço pelos ombros, dizendo que não ficasse triste, que Mac tinha o direito de tomar as suas próprias decisões e não podiam pressioná-lo. Mas Juno percebera a dor que ele tentava dissimular.

Que direito tinha Cormac Brody de magoar o irmão? E nem sequer tivera a coragem de escrever ele próprio a mensagem!

Juno abriu caminho por entre as pessoas e apoiou os braços na barreira. Ignorando o louco bater do seu coração, analisou os passageiros que iam saindo. Tinha que dissimular a sua hostilidade contra Brody se quisesse convencê-lo a ir ao casamento, mas acontecesse o que acontecesse, não ia dar-lhe a satisfação de mostrar-se nervosa só porque ele era uma estrela de Hollywood. E também não ia suplicar-lhe.

Observou então um tipo muito alto. Ao contrário dos restantes viajantes, a roupa daquele homem era informal até ao ponto de ser foleira: umas velhas calças de ganga de cintura descaída, uma velhíssima e descolorida t-shirt dos Dodgers que deixava a nu os seus bíceps e um boné que praticamente ocultava todo o rosto.

Juno conseguiu também ver a sombra da barba e o escuro cabelo ondulado que lhe chegava quase até aos ombros...

Seria Brody? Se era ele, não era o que esperava de todo. Com a cabeça baixa, aquele homem parecia querer passar despercebido.

E estava a resultar, porque ninguém se tinha dado conta de quem era.

Juno abriu caminho entre as pessoas, com o coração a bater descompassado.

Com o olhar no chão, Mac Brody tentava esquecer o ruído do terminal enquanto girava os ombros para controlar a tensão e a fadiga da viagem.

Nunca gostara de aeroportos e Heathrow trazia-lhe más recordações. Da última vez que tinha estado ali, três anos antes, os paparazzi tinham-lhe armado uma emboscada. Isso a menos de uma semana após o fim da sua relação com a top model Regina St. Clair e dois dias depois de Gina vender a história à imprensa, contando que era viciado em cocaína e que dormia com uma mulher diferente cada noite.

As fantasias de Gina podiam ter graça, não fosse muita gente ter acreditado. Desde então, era perseguido por essa reputação de «mau rapaz», algo que o punha fora de si, pois não era verdade.

Gina vingara-se dele contando essas mentiras porque se sentia traída e Mac aprendera a lição. A partir de então, cada vez que saía com uma rapariga deixava bem claro desde o princípio que não queria uma relação séria.

Mac observou o mostrador das chegadas e ao ver que não havia fotógrafos soltou um suspiro de alívio. Podia suportar os paparazzi quando não havia outro remédio, mas depois de um voo de onze horas estava exausto. Felizmente para ele, tinha aprendido a misturar-se com as pessoas sem chamar a atenção e não costumavam reconhecê-lo a não ser que ele quisesse ser reconhecido.

Mas quando se dirigia para a porta do terminal, uma rapariga saiu de trás de uma coluna e interpôs-se no seu caminho.

– Você é Cormac Brody? – perguntou-lhe.

– Baixe a voz – disse ele, olhando em volta.

– Lamento incomodá-lo, mas tenho que falar consigo. É muito importante.

– Muito importante, hein?

Tinha ouvido aquilo muitas vezes, mas quando estava prestes a dizer-lhe que não tinha tempo, olhou-a nos olhos e, por algum motivo, não recusou.

Fosse quem fosse aquela rapariga, era uma beleza.

As calças de ganga e a camisa deveriam dar-lhe um ar de rapazote, mas ficavam-lhe muito bem, acentuando uma cintura estreita e uns seios pequenos mas empinados.

E depois, havia o impacto daquela carinha oval e daqueles olhos...

Nem verdes nem azuis, mas algures entre as duas cores, transparentes e enormes. Foram os seus olhos que mais lhe chamaram a atenção. E se acrescentasse o cabelo loiro escuro, a pele limpa e a estrutura óssea perfeita, tinha de admitir que o efeito era fabuloso.

Mas perguntou-se se seria uma fã. Esperava que não.

– O que é assim tão importante? Não tenho muito tempo, querida.

Ela fulminou-o com aqueles olhos que não eram verdes nem azuis e Mac teve que dissimular um sorriso.

– Não seja condescendente, senhor Brody.

– Agradecia-lhe muito que não dissesse o meu nome em voz alta. Não quero que ninguém repare em mim.

Bonita ou não, aquela rapariga começava a ser uma chata.

Mac olhou em volta para verificar que ninguém reparava neles e deparou-se com a pessoa que menos queria ver. Pete Danners, o seu maior inimigo, o paparazzo que o tinha perseguido como um rottweiler três anos antes.

– Maldição! – Mac atirou para o chão a mala de viagem para se ocultar atrás de uma coluna.

– Pode-se saber que...?

– Não se mexa – interrompeu-a ele. – Se esse homem me vê, esta viagem será uma catástrofe.

Juno ficou tão surpreendida que quase se esqueceu de respirar.

Que se estava a passar?

Um segundo antes, estava a olhar para os olhos azuis de Cormac Brody e a pensar que era muito mais bonito em pessoa do que nas fotos e, de repente, ele empurrava-a contra uma coluna. Estavam tão apertados um contra o outro que conseguia sentir a fivela do seu cinto a furar-lhe o estômago.

– O que está a fazer’

Não estava assim tão perto de um homem há uns seis anos e deveria começar a gritar. Mas, além da surpresa, sentia um calor pouco familiar, um formigueiro estranho.

– Foi-se embora, graças a Deus – disse, então. – Devo-lhe uma, minha linda.

– Não consigo respirar...

Mac tirou o boné e cravou nela os seus olhões azuis.

– Que se passa? – perguntou-lhe Juno, mas não conseguia dizê-lo em voz alta.

– Acalme-se, querida – disse ele, pondo-lhe uma mão no pescoço. Juno tentou dizer algo, o que fosse, mas só lhe saiu um gemido. – Que tal tentarmos isto?

Então, de repente, inclinou a cabeça para beijá-la. E assim que aqueles lábios roçaram os seus, a pulsação de Juno enlouqueceu.

Devia empurrá-lo mas, sem dar por isso, abriu os lábios e ele aproveitou para deslizar a língua para dentro da sua boca. E essa invasão despoletou um rio de lava entre as suas pernas, um formigueiro que nunca tinha sentido.

As suas línguas travavam um duelo, enquanto ele metia uma mão sob a t-shirt para acariciar-lhe as costelas... mas quando se apertou mais contra ela e sentiu o duro membro masculino a roçar o seu ventre, Juno afastou-se, assustada.

– Ena, isto foi uma surpresa – murmurou ele, com um sorriso nos lábios. – Mas será melhor pararmos antes que percamos o controlo.

Juno olhou para ele, espantada.

Que tinha feito? Depois de seis anos de celibato, beijara um completo estranho no aeroporto de Heathrow. Um estranho de que nem sequer gostava.

– Poderia afastar a mão? – urgiu, envergonhada, ao reparar que continuava a acariciá-la.

– Que tal procurarmos um sítio para continuarmos isto em privado?

Juno endireitou a camisa com as mãos a tremer, sentindo as faces a arder. Pensaria que era uma prostituta ou coisa parecida?

– Passa-se alguma coisa? – perguntou-lhe ele, olhando-a com surpresa.

«Claro que se passa algo, uma ninfomaníaca acaba de apoderar-se do meu corpo»

– Não se passa nada.

– De certeza? Está a agir de um modo algo estranho.

«Nem imaginas».

– Tenho que ir-me embora.

E era verdade. Tinha que afastar-se daqueles olhos azuis e daquele rosto tão atraente antes que se transformasse numa ninfomaníaca.

Mas ele segurou-lhe o pulso.

– Espere aí um instantinho.

– Não, a sério, tenho que ir-me.

– Não se beija um homem assim para depois deixá-lo plantado. Além disso, não tinha algo importantíssimo para me dizer?

O convite de casamento.

Como podia ter-se esquecido do casamento de Daisy?

– Largue-me a mão – disse-lhe. Tenho algo para si.

– Sim, isso já eu sei – brincou ele.

Juno sentiu as faces arderem ainda mais. Maldito fosse. Por que a afetava daquele modo?

– É um convite para o casamento do seu irmão – insistiu Juno. Celebrar-se-á em Nice e ...

O sorriso de Mac Brody desapareceu.

– De que está a falar?

– É da parte da minha amiga Daisy, a noiva do seu irmão – insistiu Juno, dando-lhe o envelope.

Pareceu-lhe ver um brilho estranho nos olhos, mas desapareceu em seguida, portanto não podia ter a certeza.

– Eu não tenho nenhum irmão – disse ele, amarrotando o envelope.

– Claro que tem – replicou Juno, perguntando-se que raio teria acontecido entre ele e Connor.

Tinha prometido a si mesma que não suplicaria mas depois do que se tinha passado, suplicar-lhe já não lhe parecia assim tão horrível.

– Por favor, tem que ir ao casamento. É muito importante.

– Para mim, não é, por isso pode dizer à sua amiga que não estou interessado.

– Como pode ser tão indiferente?

– E que tem a ver com isso?

– Já lhe disse que Daisy é minha amiga, a minha melhor amiga.

– Ah, claro. E o beijo foi ideia sua ou da sua amiga?

– Você sabe perfeitamente que o beijo foi coisa sua!

– Ah, sim?

– Sabe uma coisa, senhor Brody? O facto de ser rico e famoso não lhe dá o direito de tratar a sua família como se fosse lixo. Daisy e Connor são duas pessoas maravilhosas e merecem alguém melhor do que o senhor. Francamente, não sei por que querem que vá ao casamento.

De repente, Mac Brody soltou uma gargalhada.

– E se pareço assim tão horrível, por que me beijou?

Se não parassem de falar do maldito beijo, dava-lhe uma bofetada.

– Nessa altura, não o conhecia. Agora sim, já o conheço.

– Ah, mas ainda não viu o melhor.

Juno voltou a corar, mas ergueu os ombros, recusando-se a reconhecer aquele estranho formigueiro no ventre.

– Acho que sobrevaloriza os seus encantos, senhor Brody.

Ele riu-se novamente.

– Mas nunca terá a certeza, pois não?

Juno não dignificou a pergunta com uma resposta. Que ser tão arrogante, imbecil, convencido...

Ia largando fumo enquanto saía do terminal, com o coração a bater ao ritmo dos seus passos. Não estava enganada sobre Mac Brody, aquele homem não merecia uma família tão maravilhosa como a de Daisy, Connor e o seu belo filho, Ronan. Felizmente, não iria ao casamento. Que alívio não ter que voltar a ver aquele tipo insuportável em toda a sua vida.

Mac parou de sorrir enquanto via a rapariga sair do aeroporto... ou melhor, enquanto admirava a curva do seu traseiro.

Não deveria gozado com ela, mas parecera-lhe irresistível. Como o fora o desejo de beijá-la. Embora não soubesse muito bem porquê.

Ao ver uma faísca de desejo nos seus olhos, o instinto apoderara-se dele. E quando começou a beijá-la, a sua inocente reação parecera-lhe embriagante.

Mas a espontaneidade era uma coisa, a temeridade outra muito diferente.

Mac olhou em volta. Felizmente, não parecia haver nenhum paparazzi em lado algum. Se Danners o tivesse visto a beijar aquela rapariga, poderia ter-lhe tirado uma dezena de fotos e ele não teria dado por nada.

Suspirando, agarrou a mala do chão e dirigiu-se para a porta. Só então se deu conta de que continuava a ter o convite para o casamento na mão e aproximou-se de um caixote do lixo. Como tinha dito à rapariga, já não tinha irmão, não precisava da sua família e não pretendia ir a nenhum casamento. A última coisa de que precisava era reviver coisas que andava há muito tempo a tentar esquecer.

Mas quando ia deitar fora o convite, levou o envelope ao nariz e respirou o aroma da rapariga no papel... e sentiu algo, uma emoção que há muito não sentia.

Desejava-a. Depois daquele beijo, era evidente. Não era tão sofisticada ou tão complacente como as raparigas com que costumava sair em Hollywood, mas tinha-o cativado. E ele não era pessoa de cativar-se facilmente.

Mac observou o envelope. Talvez ela o atraísse tanto precisamente por ser diferente. A sua roupa de maria-rapaz; a pele suave; a reação irritada, representavam a única coisa que não tinha há muito tempo: um desafio.

E nem sequer sabia o seu nome.

Murmurando um palavrão, Mac guardou o envelope no bolso das calças.

Capítulo Dois

Enquanto voltava para casa de metro, Juno ia recordando, em detalhe, o seu desastroso encontro com Mac Brody.

E quando saiu da estação de Ladbroke Grove vinte minutos depois para se dirigir a Portobello, teve finalmente que admitir a verdade: Mac Brody era um imbecil arrogante que fazia com que Casanova parecesse um monge, mas ele não era o único culpado. Também ela tivera alguma culpa naquele desastre.

Às duas e um quarto de uma quinta-feira, Portobello parecia uma cidade fantasma, as bancas fechadas deprimiam-na ainda mais. Um par de turistas desconcertados, que evidentemente não tinham lido bem o guia de Londres, davam voltas por ali, mas a rua do famoso mercado estava deserta.

Juno chegou à loja de Daisy, Funky Fashionista, da qual era gerente, e olhou para a montra que estivera a montar durante quatro horas no dia anterior, orgulhosa de si mesma... e de repente sentiu remorsos.

Como podia ter sido tão irresponsável?

Nervosa, passou uma mão pelo rosto, onde a barba de Mac Brody lhe tocara. Sabia muito bem porquê: assim que a beijou, o bom senso dela desapareceu completamente.

Beijá-lo fora como entrar num raio de sol. Mas por que motivo o corpo dela o escolheu a ele, precisamente a ele, de entre todos os outros homens? Era incrível.

Esquece o estúpido beijo, ordenou a si própria.

Não era importante, não ia permitir que o fosse. O atraente Mac Brody deixaria louca qualquer mulher a duzentos metros de distância e ela estivera bem mais perto. Afinal de contas, era uma estrela de cinema, pensou ela. A sua reação fora um... acidente. Um acidente de proporções nucleares, sim, mas um acidente. Não significava nada porque não tencionava encontrar-se novamente com Brody.

Juno suspirou quando chegou ao edifício da senhora Valdermeyer, que parecia o parente pobre do maravilhoso edifício georgiano onde viviam Daisy e Connor.

Naquele momento, tudo o que queria era esconder-se no quarto dela e passar o resto do dia a rever a contabilidade da loja e a convencer-se a si mesma de que não acontecera nada.

Mas não podia fazê-lo porque seis anos antes prometera que enfrentaria as situações sempre de frente. Naquela manhã, cometera um erro e desiludira duas pessoas de quem gostava muito.

Fossem quais fossem as circunstâncias, tinha que contar a verdade a Daisy e pedir-lhe desculpa.

– Estou muito feliz por teres vindo – Daisy segurava-lhe um braço enquanto a levava pelo corredor. – O tecido do vestido de noiva chegou finalmente de Nova Deli. É maravilhoso, vem vê-lo.

– Fantástico – murmurou Juno, tentando mostrar entusiasmo enquanto entrava na ensolarada cozinha. – Onde é que está o Ronan?

– A dormir a sesta – Daisy suspirou enquanto enchia o biberão de água. – Acreditas que nos acordou às quatro da manhã? Enfim, vamos deixar o meu pequeno monstro, temos que falar do teu vestido de dama de honor – disse depois, pondo o biberão a aquecer. – Não pretendo deixar que vás ao meu casamento de calças de ganga... mas o que é que te aconteceu à cara? É uma alergia?

Juno levou uma mão à cara.

– Pois... não sei.

– Espera, vou procurar um creme de aloé vera, é muito bom para as erupções cutâneas.

– Não, não é preciso, não me dói – disse Juno, engolindo em seco. – Daisy, tenho que falar contigo. Fiz algo muito irresponsável e...

– Tu, irresponsável? – interrompeu-a a amiga. – Não acredito. És a pessoa mais sensata que conheço.

Sim, bom, até àquele dia...

– Vi o Mac Brody no aeroporto – começou a dizer Juno – e tentei dar-lhe o convite.

– Viste o Mac, o irmão do Connor?

– Foi uma ideia absurda tentar convencê-lo a ir ao casamento, mas eu sabia que vocês iriam ficar encantados e...

– Espera aí – voltou a interrompê-la Daisy. – Estás a dizer que foste ao aeroporto de Heathrow esta manhã para procurar o Mac Brody?

– Sim.

A amiga soltou uma gargalhada.

– Mas isso é fantástico. Conta-me todos os detalhes, por mais insignificantes que te pareçam. É realmente tão bonito como nos filmes?

Juno corou.

– A verdade é que não vi nenhum filme dele, mas é tão bonito como nas revistas. E tu não deverias dizer essas coisas, agora que és praticamente uma mulher casada.

Nenhuma mulher era imune aos encantos de Mac Brody?, perguntou-se, irritada.

– Posso ser praticamente casada, mas não sou cega – respondeu Daisy. – Além disso, é natural que o ache bonito porque o Connor e ele são muitíssimo parecidos.

Juno assentiu com a cabeça. O rosto de Mac Brody estava-lhe gravado na memória para sempre.

Os dois irmãos eram realmente muito parecidos. As feições de Mac Brody eram menos duras do que as de Connor e a cor dos olhos mais pura, mais azul, mas ambos eram altos, morenos e de clara ascendência celta. As maçãs do rosto salientes, as sobrancelhas bem definidas, o físico atlético e aquele ar de perigo... como podia não se ter apercebido até Daisy o mencionar?

Talvez porque quando olhava para Connor o coração dela não disparava como lhe acontecia com o irmão dele.

– O aspeto dele é indiferente, a questão é que se recusa a ir ao casamento. Disse-me até que não tinha irmão nenhum. Mas então perdi a paciência com ele... e queria pedir-te desculpa porque agora não há nenhuma possibilidade de que ele vá ao teu casamento.

– Porque é que tens que me pedir desculpas? Já sabíamos que não iria. Na verdade, eu fui muito otimista ao escrever-lhe aquela carta. O Connor era igualmente teimoso quando o conheci, mas sabendo o que lhes aconteceu quando eram pequenos, não é surpresa nenhuma que o Mac renegue a família – Daisy soltou um longo suspiro.

O que acontecera à família de Mac Brody?

Juno esteve prestes a perguntar, mas conteve-se. Talvez houvesse algo mais do que ela pensara. Mas Mac Brody tinha razão sobre uma coisa, não era assunto dela e já se tinha metido em problemas suficientes.

– Imagino que o Mac precise de uma família tanto quanto o Connor – continuou Daisy. – Mas provavelmente ainda não se apercebeu disso. Bom, conta-me, o que é que te pareceu?

– O que é que isso importa?

Talvez Mac Brody não fosse um imbecil como ela pensara, talvez tivesse razões para tratar Connor daquela maneira. Mas não importava o que pensava dele porque não fazia tenção de voltar a vê-lo.

– A revista Blush nomeou-o o homem mais sexy do planeta e, segundo dizem, neste momento não tem namorada – continuou Daisy. – Imagino que seja um homem ao qual nem sequer tu és imune.

Então, Juno viu a armadilha. Desde que se apaixonara por Connor, a amiga tentava, por vezes subtilmente outras vezes nem tanto, convencê-la a voltar a sair com alguém. E convidou Mac Brody para o casamento para que o conhecesse...

– Aconteceu algo! – exclamou Daisy então. – Eu sei, vejo-o na tua cara.

– Não aconteceu nada...

– Beijaste-o!

Juno olhou para ela, perplexa. A sua amiga era vidente?

– Isso que tens na cara não é uma erupção, é o toque de uma barba... O Mac deve ter vindo diretamente de Los Angeles, pelo que imagino que não tenha tido tempo de se barbear – disse Daisy, com uma precisão aterradora.

Ah, então não só era capaz de ler-lhe os pensamentos, como também era uma Sherlock Holmes.

– Foi um erro, não sei como é que aconteceu – começou a dizer Juno. – Tinha que se esconder de um fotógrafo e então...

Então o quê? O beijo queimara-lhe os neurónios?

– Não teve a menor importância.

– Mentira – disse Daisy. – É o primeiro homem que beijas desde o Tony. E isso significa que existe alguma coisa.

Juno fez uma careta ao ouvir o nome de Tony.

– Isto não tem nada que ver com o Tony. Esqueci-me dele há anos.

– Sim, eu sei, mas estás há seis anos a penitenciar-te por isso.

– Não sei do que estás a falar.

– Sabes sim – a amiga suspirou. – Quando foi a última vez que usaste um vestido?

– Não gosto de vestidos, não me ficam bem.

– Por favor... quando foi a última vez que pintaste os lábios? Ou que saístes de Londres? Ou que namoriscaste um rapaz? Porque é que tens vergonha de ter beijado Mac Brody? É o sonho de todas as mulheres... – Daisy inclinou a cabeça, como quem aguça o ouvido. – Ah, o Ronan acordou. Mas não te vás embora, assim que lhe der de mamar, continuamos a falar sobre o teu vestido de dama de honor. E quando finalmente conhecer o Mac vou dar-lhe um abraço por ter feito a minha melhor amiga sentir-se uma mulher outra vez.

Juno resmungou enquanto Daisy saía da cozinha para cuidar do filho.

Como se o beijo de Brody não fosse suficiente, as palavras da amiga faziam-na sentir-se como se tivesse um problema psicológico.

Suspirando, enterrou o rosto entre as mãos e fechou os olhos enquanto ouvia Ronan a chorar pelo monitor. Juno imaginou Daisy sentada na cadeira de balouço branca enquanto o amamentava e, de repente, sentiu o coração encolher-se.

O que se passava com ela? De onde saíra aquele ridículo anseio, aquela sensação de vazio?

E se Daisy tivesse razão? Sobreviveu ao que aconteceu seis anos antes, mas como podia dizer que o tinha superado se se estava a esconder desde então?

Por isso beijar Mac Brody fora tão espetacular. Após seis anos a fingir que não sentia o menor interesse pelo sexo oposto, com um único beijo tinha recordado o que estava a perder. E, ao mesmo tempo, foi confrontada com a sua própria vida. Não apenas sensata, prudente e ordenada, mas também terrivelmente vazia e aborrecida.

Juno olhou para os restos do pequeno almoço que Connor e Daisy tinham partilhado na mesa do pátio, à sombra de um salgueiro. E, de novo, voltou a sentir uma pontada de inveja.

Mantivera-se à margem durante o último ano, vendo Daisy encontrar o amor da vida dela, e talvez estivesse na altura de dar um passo em frente e admitir que sobreviver já não era suficiente, que vestir-se como um rapaz e tornar-se uma freira deixara de ser útil. Seria assim tão terrível admitir que queria algo mais?

Ouviu então Daisy cantar uma canção de embalar ao filho e sentiu um calafrio de emoção.

Podia continuar a ser prática e sensata, mas por que motivo não iria deixar que Daisy lhe desenhasse o vestido de dama de honor? Até então resistira, porque temia que lhe fizesse algo exageradamente feminino... claro que dada a propensão de Daisy para os vestidos exagerados e a esperança que tinha de que ela voltasse a sair com algum homem, a precaução de Juno era perfeitamente justificada.

Mas já não havia justificação possível. Tinha que parar de ser uma covarde e começar a viver novamente.

E se podia beijar uma estrela de Hollywood no aeroporto de Heathrow e sobreviver a isso, também podia deixar que a melhor amiga lhe desenhasse um vestido. Especialmente se lhe deixasse claro que queria um vestido simples e discreto.

Na verdade, o que poderia acontecer?