Kitabı oku: «O Vegetarismo e a Moralidade das raças»
Jaime de Magalhães Lima
O Vegetarismo e a Moralidade das raças

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066407513
Índice de conteúdo
I
II
III
Livros indispensáveis aos Naturistas
Edições da Sociedade Vegetariana de Portugal
BIBLIOTECA VEGETARIANA
O vegetarismo e a moralidade das raças
Índice de conteúdo
I
Índice de conteúdo
Tem os seus pergaminhos o vegetarismo. Não é uma doutrina nascida de ontem. Tem títulos autênticos de nobreza prolongada durante gerações sem número, respeitada nas mais altas civilizações em cujas superiores aspirações colaborou, definindo-as eloquentemente pela voz das suas mais belas e autorizadas individualidades e corroborando-as ardentemente pelo exemplo dos seus mais devotados apóstolos.
Sem nos afastarmos da nossa propria civilização, sem sairmos d'este fóco de cultura chamado o ocidente da Europa onde nos criamos e onde os nossos mais remotos avós se criaram e educaram, legando-nos um espólio de sentimentos e ideias que constituem toda a nossa alma e que nos cumpre cultivar e aperfeiçoar para o transmitirmos aos nossos filhos acrescentado em formosura e benefícios, emendado, corrigido e depurado em seus vícios e insuficiências; dentro dêste círculo devéras estreito relativamente aos largos espaços em que fóra dele outras raças e outras condições naturais formaram sociedades que igualmente engrandeceram e honram a humanidade pelas concepções da vida que realizaram e de que foram veiculo e sublime instrumento no mundo; limitando-nos à exígua mancha do globo que é o nosso berço e o nosso lar e fazendo-o, não porque além dele não conheçamos corações iguais aos nossos, vivendo do mesmo alento, crentes na mesma fé e enamorados da mesma elevação mas sómente porque para o fim muito restrito que neste instante temos em vista convêm não distrair a atenção do que de mais nos toca e por isso será mais claramente demonstrativo: neste cantinho que acendeu seus fachos de luz em volta do Mediterraneo e de lá a fez irradiar através das montanhas até aos mares do norte, o vegetarismo foi e é uma das caracteristicas do zenit moral das civilizações, e como tal o aceitaram, proclamaram e praticaram os gênios que mais fundamente as compreenderam e mais brilhantemente as serviram.
O reconhecimento deste facto é hoje uma verdade corrente. O mais rudimentar estudo do vegetarismo não deixará de o apontar. Por certo somarão milhões as folhas impressas em que se encontram os nomes de vegetarianos que foram na história dos povos da Europa como signais da sua grandeza e juizes e farois do seu tempo e dos tempos futuros. Mas nem é justo que se invoque o seu valor moral sem lembrar os que por uma sublimada inspiração no-lo mostraram, nem tão pouco seria prudente que, sómente porque uma verdade se tornou indiscutivel e porventura banal entre homens cultos, deixássemos de a repetir tão inumeráveis vezes quantas necessárias fossem para que ela se propague e produza todos os bens que só pela sua larga disseminação poderá produzir. E o vegetarismo, tendo já os seus altares e o seu heróico punhado de fieis em todos os paises que atingiram a sensibilidade moral e religiosa, está infelizmente longe de ter penetrado na concepção vulgar das obrigações humanas, como é mister para a redenção de tantos e tão dolorosos males que nos afligem e perseguem por culpa da nossa cegueira e obscuridade.
Recordemos pois muito de passagem as lições dos profetas e mestres. É dever e é utilidade. E pena é que não possamos agora fazê-lo com a pausa que o encanto das suas palavras nos pede e que o proveito da própria educação imperiosamente nos aconselha.
De Pitágoras a Shelley ou a Wagner ou a E. Réclus ou a Tolstoi que arautos não teve o vegetarismo, que divinos clamores não fez ouvir às multidões ignorantes da própria fortuna, escravas da primitiva animalidade ou ensandecidas e aviltadas em sórdidos prazeres!... Desde que a nossa civilização pôde gravar seu rasto na história, a tradição do vegetarismo jámais se interrompe completamente. Em mais de vinte e cinco séculos a sua taça passa de mão em mão, e ora se expõe à luz de sol erguida por austeros e hercúleos sacerdotes cuja rectidão e fôrça nos subjugam, ora é guardada devota e humildemente em solitárias ermidas, mas jámais se partiu ou sequer arrefeceu desamparada do alento de lábios que nela busquem beber a essencia do vigor do corpo e do espírito.
A escola de Pitágoras cujas tradições de superioridade moral são memoráveis e cuja profunda e duradoura influência na filosofia, na sciência e na teologia antiga, se alargaram desde os tempos pre-socráticos até aos tempos do império romano, na Itália, na Grécia e na Alexandria, seis séculos antes de Cristo, já reivindicava para a vida de pureza moral a abstinência de alimentação carnívora, assim como de todo o derramamento de sangue, ainda que pretendesse justificar-se pelo sacrifício aos deuses. Outros eram os seus altares e, seja qual fôr a estreiteza de informação escrita que do profeta de Samos e seus discípulos nos houvesse ficado, o vigor da tradição por tal modo se acentua neste ponto de regime dietético que não nos póde restar a menor duvida de que nas origens da nossa civilização se encontra imposta, como preceito fundamental, a abstinência de carne aos que pretenderem seguir na vida o caminho da dignidade.
Cinco séculos mais tarde, essa tradição vive por tal forma na memória e nas paixões íntimas dos grandes espíritos da época que Ovídio, o poeta, no-la repetirá nestes termos:
«Havia em Crotona um homem da ilha de Samos que se exilara da pátria pelo ódio que tinha aos tiranos... Tinha com os deuses aturado comércio... O que sabia comunicava-o a uma multidão de discípulos que em um grande silêncio o admiravam...
«Foi o primeiro que condenou o uso de comer a carne dos animais: doutrina sublime, e tão pouco apreciada, cuja paternidade se lhe atribuia.
«Deixai, mortais», dizia, «deixai de vos servir de manjares abomináveis: dão-vos os campos searas abundantes; para vós vergam de frutos as árvores com os mais belos pomos e produzem uvas as vinhas. Tendes legumes dum suave gôsto, excelentes alguns quando cozidos. O mel e o leite não vos são defesos. Enfim para vós, a terra é pródiga de suas riquezas e oferece-vos toda a espécie de alimento sem que necessiteis para sustentar-vos de recorrer à morte e à carnagem.
«Só aos animais convêm o comer carne, e ainda nem todos se sustentam dela. Os cavalos, os bois e as ovelhas vivem só de ervas; apenas as feras, os tigres, os liões, ursos e lobos fazem da carne seu sustento habitual.
«Que crime horrível lançar em nossas entranhas as entranhas de seres animados, nutrir na sua substância e no seu sangue o nosso corpo! Para conservar a vida a um animal, porventura é mister que morra um outro? Porventura é mister que em meio de tantos bens que a melhor das mães, a terra, dá aos homens com tamanha profusão, pródigamente, se tenha ainda de recorrer à morte para o sustento, como fizeram ciclopes, e que só degolando animais seja possível cevar a nossa fome?
«Procedia diferentemente a idade de ouro, ditosos tempos que nós assim chamamos. Contente com as plantas e os frutos que a terra produz, o homem não manchava a sua bôca com o sangue dos animais. As aves voavam sem temor no meio dos ares... O universo tranqùilo desconhecia laços e ciladas. Tudo era paz.
«Aquele, seja quem fôr, que para desgostar os homens dos alimentos inocentes com que se alimentavam, criou o costume de comer a carne dos animais, abriu na mesma hora a porta a crimes de todo o gênero; porque foi sem dúvida pela carnificina dêsses animais que o ferro começou a ser ensanguentado. Na verdade, é permitido tirar a vida aos animais que nos atacam, mas não nutrir-nos com a sua carne. Todavia, fomos mais longe ainda; quizemos sacrifical-os aos deuses...
«Que crime tinheis cometido, ovelhas inocentes, rebanhos tranqùilos, que dais aos homens um nectar delicioso, que para os cobrir vos deixais despojar do vosso manto e que enfim lhes sois mais úteis quando vos deixam viver do que quando vos matam? Que mal faz o boi, doce animal, incapaz de vos prejudicar e que não é senão para o trabalho?
«É necessario ser ingrato, desnaturado, de todo indigno dos bens que nos dá a terra, quando vamos tirar da charrua esse animal tranqùilo, o melhor dos nossos obreiros, para o conduzir ao altar a receber o golpe fatal nessa cabeça que tantas vezes gemeu sob o jugo e, por um trabalho duro e penoso, tantas vezes nos renovou as searas.
«Não bastava aos homens cometerem tão grandes crimes, precisavam ainda da cumplicidade dos deuses, crendo que lhes podia ser agradavel o sacrificio d'um animal tão útil... Levam assim a vitima ao altar; lá, recitam sôbre ela orações que ela não ouve; põe-lhe entre as pontas, que foram doiradas, um bolo feito d'aquele mesmo grão que ele cultivou, e afunda-se-lhe no seio a lâmina sagrada...
«Logo lhe tiram as entranhas ainda palpitantes, para as consultarem e lerem n'elas os segredos dos deuses. Dizei-me, homens insaciáveis, d'onde vem esta avidez que só póde fartar-se em carnes proìbidas. Deixai tão criminoso uso. Segui os conselhos que vos dou. Sabei que, quando comeis a carne do boi que acabais de degolar, comeis aquele que vos lavrou o campo. Pois que é um deus que me inspira, só falo segundo a sua vontade...
«As nossas almas são sempre as mesmas, embora tomem formas diferentes conforme os corpos que animam. Que a piedade não seja sacrificada à vossa gula, que para vos saciar não expulseis dos seus corpos as almas dos vossos pais nem vos alimenteis do seu sangue...
«É acostumar-nos a derramar o sangue humano degolar animais inocentes e ouvirmos sem piedade seus tristes gemidos. É desumanidade não nos comovermos com a morte do cabrito, cujos gritos tanto se assemelham aos das crianças, e comermos as aves a que tantas vezes démos de comer. Ah! quão pouco dista d'um enorme crime!
«Funesta aprendizagem! Deixai tranqùilamente o boi lavrar a terra e seja a sua morte o termo natural da sua velhice. Contente-nos o velo do rebanho que nos livra da atmosfera agreste, e o leite que as cabras dão para nos nutrir: parti os vossos laços e as redes, não mais o visco engane a ave crédula. Não mais se leve ao cêrco o tímido veado, perturbado com as penas que o espantam, e que não mais se oculte o anzol em traiçoeiro engôdo. Matai os animais que podem fazer mal; mas contentai-vos em só lhes dar a morte e não os comer, e que só vos sirvam alimentos legitimos.»
Assim se compreendia a doutrina de Pitágoras cinco séculos depois de haver deixado a terra o seu fundador e assim a compreendia e traduzia o talento d'um dos espíritos mais cultos duma grande época.
A vitalidade da doutrina e a superioridade do interprete são garantia de que não se tratava de qualquer coisa passageira, d'uma tendencia que só as circunstâncias de determinado momento haviam originado e desenvolvido, mas antes nos encontravamos em presença de problemas morais e soluções que se mostravam capazes de afrontar diverssíssimas situações históricas e de lhes sobreviverem, representando por conseguinte elementos essenciais à existência das comunidades cultas.
De resto, a doutrina dietética de Pitágoras atravessava êsse longo e acidentado período dos primeiros séculos da nossa civilização refazendo-se, alargando-se e confirmando-se na meditação dos homens cujas lições de sabedoria ficariam nos evangelhos eternos da nossa raça. Não foi estranha à prodigiosa obra de Platão. E Sêneca, o filósofo, lembra-a nestes termos de simpatia:
«Desde que comecei a contar-vos com que vivo ardor entrei a estudar a filosofia na minha mocidade, não devo envergonhar-me de confessar a afeição que Focion me inspirou pelo ensino de Pitágoras. Instruiu-me dos motivos por que ele mesmo, e depois dele Séxtio, resolveu abster-se da carne dos animais. Cada um tinha a sua razão, mas em ambos os casos era magnífica. Focion sustentava que o homem póde encontrar alimento bastante sem o derramamento do sangue e que a crueldade se torna habitual quando uma vez a pratica da carnificina se aplicou ao prazer do apetite. Acrescentava ele que é nosso dever limitar os materiais da luxúria. Que, todavia, a variedade de alimentos é nociva à saúde e não é natural ao nosso corpo. Se estas máximas (da escola de Pitágoras) são verdadeiras, então abster-nos da carne dos animais é animar e promover a inocência; se mal fundadas, ensinam-nos ao menos a frugalidade e a simplicidade de vida. E que perdeis vós perdendo a nossa crueldade? Apenas vos privo do alimento dos liões e dos abutres.
«Levado por êstes e semelhantes argumentos, resolvi abster-me de carne, e ao fim dum ano o hábito da abstinência não só me era fácil mas delicioso. Creio firmemente que as faculdades do meu espírito eram mais activas... Perguntais-me porque é que eu voltei atrás e abandonei esse sistema de vida? Ao que eu respondo que a sorte dos meus primeiros dias foi lançada no reino do imperador Tibério. Certas religiões estranhas tornaram-se objecto das suspeitas imperiais, e entre as formas de adesão aos cultos ou superstições estranhas, estava o de abstinência de carne dos animais. Daí por instancias de meu pai, que na realidade não tinha medo de que essa pratica se tornasse motivo de acusação, mas que odiava a filosofia, fui induzido a voltar aos meus antigos hábitos dietéticos, e não teve ele maior dificuldade em me persuadir a voltar a refeições mais suntuosas»...
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