Kitabı oku: «Dom Casmurro», sayfa 2

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VIII
É tempo!

Mas é tempo de tomar áquella tarde de Novembro, uma tarde clara e fresca, socegada como a nossa casa e o trecho da rua em que moravamos. Verdadeiramente foi o principio da minha vida; tudo o que succedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em scena, o accender das luzes, o preparo das rabecas, a symphonia… Agora é que eu ia começar a minha opera. «A vida é uma opera,» dizia-me um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu… E explicou-me um dia a definição, em tal maneira que me fez crer nella. Talvez valha a pena dal-a; é só um capitulo.

IX
A opera.

Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha. «O desuso é que me faz mal», accrescentava. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa, ia ao empresario e expunha-lhe todas as injustiças da terra e do ceu; o empresario commettia mais uma, e elle saía a bradar contra a iniquidade. Trazia ainda os bigodes dos seus papeis. Quando andava, apezar de velho, parecia cortejar uma princeza de Babylonia. Ás vezes, cantarolava, sem abrir a bocca, algum trecho ainda mais edoso que elle ou tanto; vozes assim abafadas são sempre possiveis. Vinha aqui jantar commigo algumas vezes. Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a definição do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia sor uma opera, como uma viagem de mar ou uma batalha, abanou a cabeça e replicou:

–A vida é uma opera e uma grande opera. O tenor e o barytono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimarios, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimarios. Ha córos numerosos, muitos bailados, e a orchestração é excellente…

–Mas, meu caro Marcolini…

–Quê…?

E, depois de beber um gole de licor, pousou o calix, e expoz-me a historia da creação, com palavras que vou resumir.

Deus é o poeta. A musica é de Satanaz, joven maestro de muito futuro, que apprendeu no conservatorio do ceu. Rival de Miguel, Raphael e Gabriel, não tolerava a precedencia que elles tinham na distribuição dos premios. Póde ser tambem que a musica em demasia doce e mystica daquelles outros condiscipulos fosse aborrecivel ao seu genio essencialmente tragico. Tramou uma rebellião que foi descoberta a tempo, e elle expulso do conservatorio. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escripto um libretto de opera, do qual abrira mão, por entender que tal genero de recreio era improprio da sua eternidade. Satanaz levou o manuscripto comsigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros,—e acaso para reconciliar-se com o ceu—compoz a partitura, e logo que a acabou foi leval-a ao Padre Eterno.

–Senhor, não desapprendi as licções recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admitti-me com ella a vossos pés…

–Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.

–Mas, Senhor…

–Nada! nada!

Satanaz supplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cançado e cheio de misericordia, consentiu em que a opera fosse executada, mas fóra do ceu. Creou um theatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primarias e comprimarias, córos e bailarinos.

–Ouvi agora alguns ensaios!

–Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libretto; estou prompto a dividir comtigo os direitos de autor.

Foi talvez um mal esta recusa; della resultaram alguns desconcertos que a audiencia prévia e a collaboração amiga teriam evitado. Com effeito, ha logares em que o verso vae para a direita e a musica para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a belleza da composição, fugindo á monotonia, e assim explicam o tercetto do Eden, a aria de Abel, os córos da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razao sufficiente. Certos motivos cançam á força de repetição. Tambem ha obscuridades; o maestro abusa das massas choraes, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orchestraes são aliás tratadas com grande pericia. Tal é a opinião dos imparciaes.

Os amigos do maestro querem que difficilmente se possa achar obra tão bem acabada. Um ou outro admitte certas rudezas e taes ou quaes lacunas, mas com o andar da opera é provavel que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquellas desapparecam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste. Juram que o libretto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da lettra, e, posto seja bonita em alguns logares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contraria ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescencia para imitar as Mulheres patuscas de Windsor. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma apparencia de razão. Dizem elles que, ao tempo em que o joven Satanaz compoz a grande opera, nem essa farça nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a affirmar que o poeta inglez não teve outro genio senão transcrever a lettra da opera, com tal arte e fidelidade, que parece elle proprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiario.

–Esta peça, concluiu o velho tenor, durará emquanto durar o theatro, não se podendo calcular em que tempo será elle demolido por utilidade astronomica. O exito é crescente. Poeta e musico recebem pontualmente os seus direitos autoraes, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquillo da Escriptura: «Muitos são os chamados, poucos os escolhidos.» Deus recebe em ouro, Satanaz em papel.

–Tem graça…

–Graça? bradou elle com furia; mas aquietou-se logo, e replicou: Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror á graça. Isto que digo é a verdade pura e ultima. Um dia, quando todos os livros forem queimados por inuteis, ha de haver alguem, póde ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é musica, meu amigo. No principio era o , e o fez-se , etc. Este calix (e enchia-o novamente) este calix é um breve estribilho. Não se ouve? Tambem não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma opera…

X
Acceito a theoria.

Que é demasiada metaphysica para um só tenor, não ha duvida; mas a perda da voz explica tudo, e ha philosophos que são, em resumo, tenores desempregados.

Eu, leitor amigo, acceito a theoria do meu velho Marcolini, não só pela verosimilhança, que é muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida se casa bem á definição. Cantei um duo ternissimo, depois um trio, depois um quatuor… Mas não adeantemos; vamos á primeira tarde, em que eu vim a saber que já cantava, porque a denuncia de José Dias, meu caro leitor, foi dada principalmente a mim. A mim é que elle me denunciou.

XI
A promessa.

Tão depressa vi desapparecer o aggregado no corredor, deixei o esconderijo, e corri á varanda do fundo. Não quiz saber de lagrimas nem da causa que as fazia verter a minha mãe. A causa eram provavelmente os seus projectos ecclesiasticos, e a occasião destes é a que vou dizer, por ser já então historia velha; datava de dezeseis annos.

Os projectos vinham do tempo em que fui concebido. Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho, minha mãe pegou-se com Deus para que o segundo vingasse, promettendo, se fosse varão, mettel-o na egreja. Talvez esperasse uma menina. Não disse nada a meu pae, nem antes, nem depois de me dar á luz; contava fazel-o quando eu entrasse para a escola, mas enviuvou antes disso. Viuva, sentiu terror de separar-se de mim; mas era tão devota, tão temente a Deus, que buscou testemunhas da obrigação, confiando a promessa a parentes e familiares. Unicamente, para que nos separassemos o mais tarde possivel, fez-me apprender em casa primeiras lettras, latim e doutrina, por aquelle padre Cabral, velho amigo do tio Cosme, que ia lá jogar ás noites.

Prazos largos são faceis de subscrever; a imaginação os faz infinitos. Minha mãe esperou que os annos viessem vindo. Entretanto, ia-me affeiçoando á ideia da egreja; brincos de creança, livros devotos, imagens de santos, conversações de casa, tudo convergia para o altar. Quando iamos á missa, dizia-me sempre que era para apprender a ser padre, e que reparasse no padre, não tirasse os olhos do padre. Em casa, brincava de missa,—um tanto ás escondidas, porque minha mãe dizia que missa não era cousa de brincadeira. Arranjavamos um altar, Capitú e eu. Ella servia de sacristão, e alteravamos o ritual, no sentido do dividirmos a hostia entre nós; a hostia era sempre um doce. No tempo em que brincavamos assim, era muito commum ouvir á minha visinha: «Hoje ha missa?» Eu já sabia o que isto queria dizer, respondia affirmativamente, e ia pedir hostia por outro nome. Voltava com ella, arranjavamos o altar, engrolavamos o latim e precipitavamos as cerimonias. Dominus, non sum dignus… Isto, que eu devia dizer tres vezes, penso que só dizia uma, tal era a golodice do padre e do sacristão. Não bebiamos vinho nem agua; não tinhamos o primeiro, e a segunda viria tirar-nos o gosto do sacrificio.

Ultimamente não me falavam já do seminario, a tal ponto que eu suppunha ser negocio findo. Quinze annos, não havendo vocação, pediam antes o seminario do mundo que o de S. José. Minha mãe ficava muita vez a olhar para mim, como alma perdida, ou pegava-me na mão, a pretexto de nada, para apertal-a muito.

XII
Na varanda.

Parei na varanda; ia tonto, atordoado, as pernas bambas, o coração parecendo querer sair-me pela bocca fóra. Não me atrevia a descer á chacara, e passar ao quintal visinho. Comecei a andar de um lado para outro, estacando para amparar-me, e andava outra vez e estacava. Vozes confusas repetiam o discurso do José Dias:

«Sempre juntos…»

«Em segredinhos…»

«Se elles pegam de namoro…»

Tijolos que pisei e repisei naquella tarde, columnas amarelladas que me passastes á direita ou á esquerda, segundo eu ia ou vinha, em vós me ficou a melhor parte da crise, a sensação de um goso novo, que me envolvia em mim mesmo, e logo me dispersava, e me trazia arrepios, e me derramava não sei que balsamo interior. Ás vezes dava por mim, sorrindo, um ar do riso de satisfação, que desmentia a abominação do meu peccado. E as vozes repetiam-se confusas:

«Em segredinhos…»

«Sempre juntos…»

«Se elles pegam de namoro…»

Um coqueiro, vendo-me inquieto e adivinhando a causa, murmurou de cima de si que não era feio que os meninos de quinze annos andassem nos cantos com as meninas de quatorze; ao contrario, os adolescentes daquella edade não tinham outro officio, nem os cantos outra utilidade. Era um coqueiro velho, e eu cria nos coqueiros velhos, mais ainda que nos velhos livros. Passaros, borboletas, uma cigarra que ensaiava o estio, toda a gente viva do ar era da mesma opinião.

Com que então eu amava Capitú, e Capitú a mim? Realmente, andava cosido ás saias della, mas não me occorria nada entre nós que fosse devéras secreto. Antes della ir para o collegio, eram tudo travessuras de creanca; depois que saiu do collegio, é certo que não restabelecemos logo a antiga intimidade, mas esta voltou pouco a pouco, e no ultimo anno era completa. Entretanto, a materia das nossas conversações era a de sempre. Capitú chamava-me ás vezes bonito, mocetão, uma flòr; outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ella me passava a mão pelos cabellos, dizendo que os achava lindissimos. Eu, sem fazer o mesmo aos della, dizia que os della eram muito mais lindos que os meus. Então Capitú abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto que tinha os cabellos realmente admiraveis; mas eu retorquia chamando-lhe maluca. Quando me perguntava se sonhára com ella na vespera, e eu dizia que não, ouvia-lhe contar que sonhára commigo, e eram aventuras extraordinarias, que subiamos ao Corcovado pelo ar, que dansavamos na lua, ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, afim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos andavamos unidinhos. Os que eu tinha com ella não eram assim, apenas reproduziam a nossa familiaridade, e muita vez não passavam da simples repetição do dia, alguma phrase, algum gesto. Tambem eu os contava. Capitú um dia notou a differença, dizendo que os della eram mais bonitos que os meus; eu, depois de certa hesitação, disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava… Fez-se còr de pitanga.

Pois, francamente, só agora entendia a emoção que me davam essas e outras confidencias. A emoção era doce e nova, mas a causa della fugia-me, sem que eu a buscasse nem suspeitasse. Os silencios dos ultimos dias, que me não descobriam nada, agora os sentia como signaes de alguma cousa, e assim as meias palavras, as perguntas curiosas, as respostas vagas, os cuidados, o gosto de recordar a infancia. Tambem adverti que era phenomeno recente accordar com o pensamento em Capitú, e escutal-a de memoria, e estremecer quando lhe ouvia os passos. Se se falava nella, em minha casa, prestava mais altenção que d'antes, e, segundo era louvor ou critica, assim me trazia gosto ou desgosto mais intensos que outr'ora, quando eramos sómente companheiros de travessuras. Cheguei a pensar nella durante as missas daquelle mez, com intervallos, é verdade, mas com exclusivismo tambem.

Tudo isto me era agora apresentado pela bocca de José Dias, que me denunciara a mim mesmo, e a quem eu perdoava tudo, o mal que dissera, o mal que fizera, e o que pudesse vir de um e do outro. Naquelle instante, a eterna Verdade não valeria mais que elle, nem a eterna Bondade, nem as demais Virtudes eternas. Em amava Capitú! Capitú amava-me! E as minhas pernas andavam, desandavam, estacavam, tremulas e crentes de abarcar o mundo. Esse primeiro palpitar da seiva, essa revelação da consciencia a si propria, nunca mais me esqueceu, nem achei que lhe fosse comparavel qualquer outra sensação da mesma especie. Naturalmente por ser minha. Naturalmente tambem por ser a primeira.

XIII
Capitú.

De repente, ouvi bradar uma voz de dentro da casa ao pé:

–Capitú!

E no quintal:

–Mamãe!

E outra vez na casa:

–Vem cá!

Não me pude ter. As pernas desceram-me os tres degraus que davam para a chacara, e caminharam para o quintal visinho. Era costume dellas, ás tardes, e ás manhãs tambem. Que as pernas tambem são pessoas, apenas interiores aos braços, e valem de si mesmas, quando a cabeça não as rege por meio de ideias. As minhas chegaram ao pé do muro. Havia alli uma porta de communicação mandada rasgar por minha mãe, quando Capitú e eu éramos pequenos. A porta não tinha chave nem taramela, abria-se empurrando de um lado ou puxando de outro, e fechava-se ao peso de uma pedra pendente de uma corda. Era quasi que exclusivamente nossa. Em creancas, faziamos visita batendo de um lado, e sendo recebidos do outro com muitas mesuras. Quando as bonecas de Capitú adoeciam, o medico era eu. Entrava no quintal della com um pau debaixo do braço, para imitar o bengalão do doutor João da Costa; tomava o pulso á doente, e pedia-lhe que mostrasse a lingua. «É surda, coitada!» exclamava Capitú. Então eu coçava o queixo, como o doutor, e acabava mandando applicar-lhe umas sanguesugas ou dar-lhe um vomitorio: era a therapeutica habitual do medico.

–Capitú!

–Mamãe!

–Deixa de estar esburacando o muro; vem cá.

A voz da mãe era agora mais perto, como se viesse já da porta dos fundos. Quiz passar ao quintal, mas as pernas, ha pouco tão andarilhas, pareciam agora presas ao chão. Afinal fiz um esforço, empurrei a porta, e entrei. Capitú estava ao pé do muro fronteiro, voltada para elle, riscando com um prego. O rumor da porta fel-a olhar para traz; ao dar commigo, encostou-se ao muro, como se quizesse esconder alguma cousa. Caminhei para ella; naturalmente levava o gesto mudado, porque ella veiu a mim, e perguntou-me inquieta:

–Que é que você tem?

–Eu? Nada.

–Nada, não; você tem alguma cousa.

Quiz insistir que nada, mas não achei lingua. Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela bocca fora. Não podia tirar os olhos daquella creatura de quatorze annos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabellos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma á outra, á moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz recto e comprido, tinha a bocca fina e o queixo largo. As mãos, a despeito de alguns officios rudes, eram curadas com amor; não cheiravam a sabões finos nem aguas de toucador, mas com agua do poço e sabão commum trazia-as sem macula. Calçava sapatos de duraque, rasos e velhos, a que ella mesma dera alguns pontos.

–Que é que você tem? repetiu.

–Não é nada, balbuciei finalmente.

E emendei logo:

–É uma noticia.

–Noticia de què?

Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminario e espreitar a impressão que lhe faria. Se a consternasse é que realmente gostava de mim; se não, é que não gostava. Mas todo esse calculo foi obscuro e rapido; senti que não poderia falar claramente, tinha agora a vista não sei como…

–Então?

–Você sabe…

Nisto olhei para o muro, o logar em que ella estivera riscando, escrevendo ou esburacando, como dissera a mãe. Vi uns riscos abertos, e lembrou-me o gesto que ella fizera para cobril-os. Então quiz vel-os de perto, e dei um passo. Capitú agarrou-me, mas, ou por temer que eu acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira, correu adeante e apagou o escripto. Foi o mesmo que accender em mim o desejo de ler o que era.

XIV
A inscripção.

Tudo o que contei no fim do outro capitulo foi obra de um instante. O que se lhe seguiu foi ainda mais rapido. Dei um pulo, e antes que ella raspasse o muro, li estes dous nomes, abertos ao prego, o assim dispostos:

BENTO

CAPITOLINA

Voltei-me para ella; Capitú tinha os olhos no chão. Ergueu-os logo, devagar, e ficámos a olhar um para o outro… Confissão de creanças, tu valias bem duas ou tres paginas, mas quero ser poupado. Em verdade, não falámos nada; o muro falou por nós. Não nos movemos, as mãos é que se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se, apertando-se, fundindo-se. Não marquei a hora exacta daquelle gesto. Devia tel-a marcado; sinto a falta de uma nota escripta naquella mesma noite, e que eu poria aqui com os erros de orthographia que trouxesse, mas não traria nenhum, tal era a differença entre o estudante e o adolescente. Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.

Não soltámos as mãos, nem ellas se deixaram cair de cançadas ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam a metter-se uns pelos outros… Padre futuro, estava assim deante della como de um altar, sendo uma das faces a Epistola e a outra o Evangelho. A bocca podia ser o calix, os labios a patena. Faltava dizer a missa nova, por um latim que ninguem apprende, e é a lingua catholica dos homens. Não me tenhas por sacrilego, leitora minha devota; a limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial no estylo. Estavamos alli com o ceu em nós. As mãos, unindo os nervos, faziam das duas creaturas uma só, mas uma só creatura seraphica. Os olhos continuaram a dizer cousas infinitas, as palavras de bocca é que nem tentavam sair, tornavam ao coração caladas como vinham…

XV
Outra voz repentina.

Outra voz repentina, mas desta vez uma voz de homem:

–Vocès estão jogando o siso?

Era o pae de Capitú, que estava á porta dos fundos, ao pé da mulher. Soltámos as mãos depressa, e ficámos atrapalhados. Capitú foi ao muro, e, com o prego, disfarçadamente, apagou os nossos nomes escriptos.

–Capitú!

–Papae!

–Não me estragues o reboco do muro.

Capitú riscava sobre o riscado, para apagar bem o escripto. Padua saiu ao quintal, a ver o que era, mas já a filha tinha começado outra cousa, um perfil, que disse ser o retrato delle, e tanto podia ser delle como da mãe; fel-o rir, era o essencial. De resto, elle chegou sem colera, todo meigo, apezar do gesto duvidoso ou menos que duvidoso em que nos apanhou. Era um homem baixo e grosso, pernas e braços curtos, costas abahuladas, donde lhe veiu a alcunha de Tartaruga, que José Dias lhe poz. Ninguem lhe chamava assim lá em casa; era só o aggregado.

–Vocês estavam jogando o siso? perguntou.

Olhei para um pé do sabugueiro que ficava perto; Capitú respondeu por ambos.

–Estavamos, sim, senhor, mas Bentinho ri logo, não aguenta.

–Quando eu cheguei á porta, não ria.

–Já tinha rido das outras vezes; não póde. Papae quer ver?

E séria, fitou em mim os olhos, convidando-me ao jogo. O susto é naturalmente serio; eu estava ainda sob a acção do que trouxe a entrada de Padua, e não fui capaz de rir, por mais que devesse fazel-o, para legitimar a resposta de Capitú. Esta, cançada de esperar, desviou o rosto, dizendo que eu não ria daquella vez por estar ao pé do pae. E nem assim ri. Ha cousas que só se apprendem tarde; é mister nascer com ellas para fazel-as cedo. E melhor é naturalmente cedo que artificialmente tarde. Capitú, após duas voltas, foi ter com a mãe, que continuava á porta da casa, deixando-nos a mim e ao pae encantados della; o pae, olhando para ella e para mim, dizia-me, cheio de ternura:

–Quem dirá que esta pequena tem quatorze annos? Parece dezesete. Mamãe está boa? continuou voltando-se inteiramente para mim.

–Está.

–Ha muitos dias que não a vejo. Estou com vontade de dar um capote ao doutor, mas não tenho podido, ando com trabalhos da repartição, em casa; escrevo todos os noites que é em desespero; negocio de relatorio. Você já viu o meu gaturamo? Está alli no fundo. Ia agora mesmo buscar a gaiola; ande ver.

Que o meu desejo era nenhum, crê-se facilmente, sem ser preciso jurar pelo ceu nem pela terra. Meu desejo era ir atraz de Capitú e falar-lhe agora do mal que nos esperava, mas o pae era o pae, e demais amava particularmente os passarinhos. Tinha-os de varia especie, côr e tamanho. A área que havia no centro da casa era cercada de gaiolas de canarios, que faziam cantando um barulho de todos os diabos. Trocava passaros com outros amadores, comprava-os, apanhava alguns, no proprio quintal, armando alçapões. Tambem, se adoeciam, tratava delles como se fossem gente.

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Yaş sınırı:
0+
Litres'teki yayın tarihi:
11 ekim 2024
Hacim:
241 s. 2 illüstrasyon
ISBN:
4064066412357
Yayıncı:
Telif hakkı:
Bookwire
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