Kitabı oku: «Dom Casmurro», sayfa 4

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XXII
Sensações alheias.

Não alcancei mais nada, e para o fim arrependi-me do pedido: devia ter seguido o conselho de Capitú. Então, como eu quizesse ir para dentro, prima Justina reteve-me alguns minutos, falando do calor e da proxima festa da Conceição, dos meus velhos oratorios, e finalmente de Capitú. Não disse mal della; ao contrario insinuou-me que podia vir a ser uma moça bonita. Eu, que já a achava lindissima, bradaria que era a mais bella creatura do mundo, se o receio me não fizesse discreto. Entretanto, como prima Justina se mettesse a elogiar-lhe os modos, a gravidade, os costumes, o trabalhar para os seus, o amor que tinha a minha mãe, tudo isto me accendeu a ponto de elogial-a tambem. Quando não era com palavras, era com o gesto de approvação que dava a cada uma das assersões da outra, e certamente com a felicidade que devia illuminar-me a cara. Não adverti que assim confirmava a denuncia de José Dias, ouvida por ella, á tarde, na sala de visitas, se é que tambem ella não desconfiava já. Só pensei nisso na cama. Só então senti que os olhos de prima Justina, quando eu falava, pareciam apalpar-me, ouvir-me, cheirar-me, gostar-me, fazer o officio de todos os sentidos. Ciumes não podiam ser; entre um pirralho da minha edade e uma viuva quarentona não havia logar para ciumes. É certo que, após algum tempo, modificou os elogios a Capitú, e até lhe fez algumas criticas, disse-me que era um pouco trefega e olhava por baixo; mas ainda assim, não creio que fossem ciumes. Creio antes… sim… sim, creio isto. Creio que prima Justina achou no espectaculo das sensações alheias uma resurreição vaga das proprias. Tambem se goza por influição dos labios que narram.

XXIII
Prazo dado.

—Preciso falar-lhe amanhã, sem falta; escolha o logar e diga-me.

Creio que José Dias achou desusado este meu falar. O tom não me sairia tão imperativo como eu receiava, mas as palavras o eram, e o não interrogar, não pedir, não hesitar, como era proprio da creança e do meu estylo habitual, certamente lhe deu ideia de uma pessoa nova e de uma nova situação. Foi no corredor, quando iamos para o chá; José Dias vinha andando cheio da leitura de Walter Scott que fizera a minha mãe e a prima Justina. Lia cantado e compassado. Os castellos e os parques saíam maiores da bocca delle, os lagos tinham mais agua e a «abobada celeste» contava alguns milhares mais de estrellas centelhantes. Nos dialogos, alternava o som das vozes, que eram levemente grossas ou finas, conforme o sexo dos interlocutores, e reproduziam com moderação a ternura e a colera.

Ao despedir-se de mim, na varanda, disse-me elle:

–Amanhã, na rua. Tenho umas compras que fazer, você póde ir commigo, pedirei a mamãe. É dia de licção?

–A licção foi hoje.

–Perfeitamente. Não lhe pergunto o que é; affirmo desde já que é materia grave e pura.

–Sim, senhor.

–Até amanhã.

Fez-se tudo o melhor possivel. Houve só uma alteração: minha mãe achou o dia quente e não consentiu que eu fosse a pé; entrámos no omnibus, á porta de casa.

–Não importa, disse-me José Dias; podemos apear-nos á porta do Passeio Publico.

XXIV
De mãe e de servo.

José Dias tratava-me com extremos de mãe e attenções de servo. A primeira cousa que conseguiu logo que comecei a andar fora, foi dispensar-me o pagem; fez-se pagem, ia commigo á rua. Cuidava dos meus arranjos em casa, dos meus livros, dos meus sapatos, da minha hygiene e da minha prosodia. Aos oito annos os meus pluraes careciam, alguma vez, da desinencia exacta, elle a corrigia, meio serio para dar autoridade á licção, meio risonho para obter o perdão da emenda. Ajudava assim o mestre de primeiras lettras. Mais tarde, quando o padre Cabral me ensinava latim, doutrina e historia sagrada, elle assistia ás licções, fazia reflexões ecclesiasticas, e, no fim, perguntava ao padre: «Não é verdade que o nosso joven amigo caminha depressa?» Chamava-me «um prodigio»; dizia a minha mãe ter conhecido outr'ora meninos muito intelligentes, mas que eu excedia a todos esses, sem contar que, para a minha edade, possuia já certo numero de qualidades moraes solidas. Eu, posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio, gostava do elogio; era um elogio.

XXV
No Passeio Publico.

Entrámos no Passeio Publico. Algumas caras velhas, outras doentes ou só vadias espalhavam-se melancolicamente no caminho que vae da porta ao terraço. Seguimos para o terraço. Andando, para me dar animo, falei do jardim:

–Ha muito tempo que não venho aqui, talvez um anno.

–Perdôe-me, atalhou elle, não ha tres mezes que esteve aqui com o nosso visinho Padua; não se lembra?

–É verdade, mas foi tão de passagem…

–Elle pediu a sua mãe que o deixasse trazer comsigo, e ella, que é boa como a mãe de Deus, consentiu; mas ouça-me, já que falamos nisto, não é bonito que você ande com o Padua na rua.

–Mas eu andei algumas vezes…

–Quando era mais joven; em creança, era natural, elle podia passar por creado. Mas você está ficando moço, e elle vae tomando confiança. D. Gloria, afinal, não pode gostar disto. A gente Padua não é de todo má. Capitú, apesar daquelles olhos que o diabo lhe deu… Você já reparou nos olhos della? São assim de cigana obliqua e dissimulada. Pois, apesar delles, poderia passar, se não fosse a vaidade e a adulação. Oh! a adulação! D. Fortunata merece estima, e elle não nego que seja honesto, tem um bom emprego, possue a casa em que móra, mas honestidade e estima não bastam, e as outras qualidades perdem muito de valor com as más companhias em que elle anda. Padua tem uma tendencia para gente réles. Em lhe cheirando a homem chulo é com elle. Não digo isto por odio, nem por que elle fale mal de mim e se ria, como se riu, ha dias, dos meus sapatos acalcanhados…

–Perdão, interrompi suspendendo o passo, nunca ouvi que falasse mal do senhor; pelo contrario, um dia, não ha muito tempo, disse elle a um sujeito, em minha presença, que o senhor era «um homem de capacidade e sabia falar corno um deputado nas camaras.»

José Dias sorriu deliciosamente, mas fez um esforço grande e fechou outra vez o rosto; depois replicou:

–Não lhe agradeço nada. Outros, de melhor sangue, me tem feito o favor de juizos altos. E nada disso impede que elle seja o que lhe digo.

Tinhamos outra vez andado, subimos ao terraço, e olhámos para o mar.

–Vejo que o senhor não quer senão o meu beneficio, disse eu depois de alguns instantes.

–Pois que outra cousa, Bentinho?

–Neste caso, peço-lhe um favor.

–Um favor? Mande, ordene, que é?

–Mamãe…

Durante algum tempo não pude dizer o resto, que era pouco, e vinha de cór. José Dias tornou a perguntar o que era, sacudia-me com brandura, levantava-me o queixo e espetava os olhos em mim, ancioso tambem, como a prima Justina na vespera.

–Mamãe què? Que é que tem mamãe?

–Mamãe quer que eu seja padre, mas eu não posso ser padre, disse finalmente.

José Dias endireitou-se pasmado.

–Não posso, continuei eu, não menos pasmado que elle, não tenho geito, não gósto da vida de padre. Estou por tudo o que ella quizer; mamãe sabe que eu faço tudo o que ella manda; estou prompto a ser o que fôr do seu agrado, até cocheiro de omnibus. Padre, não; não posso ser padre. A carreira é bonita, mas não é para mim.

Todo esse discurso não me saiu assim, de vez, enfiado naturalmente, peremptorio, como póde parecer do texto, mas aos pedaços, mastigado, em voz um pouco surda e timida. Não obstante, José Dias ouvira-o espantado. Não contava certamente com a resistencia, por mais acanhada que fosse; mas o que ainda mais o assombrou foi esta conclusão:

–Conto com o senhor para salvar-me.

Os olhos do aggregado escancararam-se, as sobrancelhas arquearam-se, e o prazer que eu contava dar-lhe com a escolha da protecção não se mostrou em nenhum dos musculos. Toda a cara delle era pouca para a estupefacção. Realmente, a materia do discurso revelára em mim uma alma nova; eu proprio não me conhecia. Mas a palavra final é que trouxe um vigor unico. José Dias ficou aturdido. Quando os olhos tornaram ás dimensões ordinarias:

–Mas que posso eu fazer? perguntou.

–Póde muito. O senhor sabe que, em nossa casa, todos o apreciam. Mamãe pede muita vez os seus conselhos, não é? Tio Cosme diz que o senhor é pessoa de talento…

–São bondades, retorquiu lisonjeado. São favores de pessoas dignas, que merecem tudo… Ahi está! nunca ninguem me ha de ouvir dizer nada de pessoas taes; porque? porque são illustres e virtuosas. Sua mãe é uma santa, seu tio é um cavalheiro perfeitissimo. Tenho conhecido familias distinctas; nenhuma poderá vencer a sua em nobreza de sentimentos. O talento que seu tio acha em mim confesso que o tenho, mas é só um,—é o talento de saber o que é bom e digno de admiração e de apreço.

–Ha de ter tambem o de proteger os amigos, como eu.

–Em que lhe posso valer, anjo do ceu? Não hei de dissuadir sua mãe de um projecto que é, além de promessa, a ambição e o sonho de longos annos. Quando pudesse, é tarde. Ainda hontem fez-me o favor de dizer: «José Dias, preciso metter Bentinho no seminario.»

Timidez não é tão ruim moeda, como parece. Se eu fosse destemido, é provavel que, com a indignação que experimentei, rompesse a chamar-lhe mentiroso, mas então seria preciso confessar-lhe que estivera á escuta, atraz da porta, e uma acção valia outra. Contentei-me de responder que não era tarde.

–Não é tarde, ainda é tempo, se o senhor quizer.

–Se eu quizer? Mas que outra cousa quero eu, senão servil-o? Que desejo, senão que seja feliz, como merece?

–Pois ainda é tempo. Olhe, não é por vadiação. Estou prompto para tudo; se ella quizer que eu estude leis, vou para S. Paulo…

XXVI
As leis são bellas.

Pela cara de José Dias passou algo parecido com o reflexo de uma ideia,—uma ideia que o alegrou extraordinariamente. Calou-se alguns instantes; eu tinha os olhos nelle, elle voltara os seus para o lado da barra. Como insistisse:

–É tarde, disse elle; mas, para lhe provar que não ha falta de vontade, irei falar a sua mãe. Não prometto vencer, mas lutar; trabalharei com alma. Devéras, não quer ser padre? As leis são bellas, meu querido… Póde ir a S. Paulo, a Pernambuco, ou ainda mais longe. Ha boas universidades por esse mundo fóra. Vá para as leis, se tal é a sua vocação. Vou falar a D. Gloria, mas não conte só commigo; fale tambem a seu tio.

–Hei de falar.

–Pegue-se tambem com Deus,—com Deus e a Virgem Santissima, concluiu apontando para o ceu.

O ceu estava meio enfarruscado. No ar, perto da praia, grandes passaros negros faziam giros, avoaçando ou pairando, e desciam a roçar os pés, na agua, e tornavam a erguer-se para descer novamente. Mas nem as sombras do ceu, nem as dansas fantasticas dos passaros me desviavam o espirito do meu interlocutor. Depois de lhe responder que sim, emendei-me:

–Deus fará o que o senhor quizer.

–Não blaspheme. Deus é dono de tudo; elle é, só por si, a terra e o ceu, o passado, o presente e o futuro. Peça-lhe a sua felicidade, que eu não faço outra cousa… Uma vez que você não póde ser padre, e prefere as leis… As leis são bellas, sem desfazer na theologia, que é melhor que tudo, como a vida ecclesiastica é a mais santa… Porque não ha de ir estudar leis fóra daqui? Melhor é ir logo para alguma universidade, e ao mesmo tempo que estuda, viaja. Podemos ir juntos; veremos as terras estranjeiras, ouviremos inglez, francez, italiano, hespanhol, russo e até sueco. D. Gloria provavelmente não poderá acompanhal-o; ainda que possa e vá, não quererá guiar os negocios, papeis, matriculas, e cuidar de hospedarias, e andar com você de um lado para outro… Oh! as leis são bellissimas!

–Está dito, pede a mamãe que me não metia no seminario?

–Pedir, peço, mas pedir não é alcançar. Anjo do meu coração, se vontade de servir é poder de mandar, estamos aqui, estamos a bordo. Ali! você não imagina o que é a Europa; oh! a Europa…

Levantou a perna e fez uma pirueta. Uma das suas ambições era tornar á Europa, falava della muitos vezes, sem acabar de tentar minha mãe nem tio Cosme, por mais que louvasse os ares e as bellezas… Não contava com esta possibilidade de ir commigo, e lá ficar durante a eternidade dos meus estudos.

–Estamos a bordo, Bentinho, estamos a bordo!

XXVII
Ao portão.

Ao portão do Passeio, um mendigo estendeu-nos a mão. José Dias passou adiante, mas eu pensei em Capitú e no seminario, tirei dous vintens do bolso e dei-os ao mendigo. Este beijou a moeda; eu pedi-lhe que rogasse a Deus por mim, afim de que eu pudesse satisfazer todos os meus desejos.

–Sim, meu devoto!

–Chamo-me Bento, accrescentei para esclarecel-o.

XXVIII
Na rua.

José Dias ia tão contente que trocou o homem dos momentos graves, como era á rua, pelo homem dobradiço e inquieto. Mexia-se todo, falava de tudo, fazia-me parar a cada passo deante de um mostrador ou de um cartaz de theatro. Contava-me o enredo de algumas peças, recitava monologos em verso. Fez os recados todos, pagou contas, recebeu alugueis de casa; para si comprou um vigesimo de loteria. Afinal, o homem tezo rendeu o flexivel, e passou a falar pausado, com superlativos. Não vi que a mudança era natural; temi que houvesse mudado a resolução assentada, e entrei a tratal-o com palavras e gestos carinhosos, até entrarmos no omnibus.

XXIX
O imperador.

Em caminho, encontrámos o imperador, que vinha da Escola de Medicina. O omnibus em que iamos parou, como todos os vehiculos; os passageiros desceram á rua e tiraram o chapeu, até que o coche imperial passasse. Quanto tornei ao meu logar, trazia uma ideia fantastica, a ideia de ir ter com o imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não confiaria. esta ideia a Capitú. «Sua Majestade pedindo, mamãe cede,» pensei commigo.

Vi então o imperador escutando-me, reflectindo e acabando por dizer que sim, que iria falar a minha mãe; eu beijava-lhe a mão, com lagrimas. E logo me achei em casa, á espera, até que ouvi os batedores e o piquete de cavallaria; é o imperador! é o imperador! toda a gente chegava ás janellas para vel-o passar, mas não passava, o coche parava á nossa porta, o imperador apeava-se e entrava. Grande alvoroço na visinhança: «O imperador entrou em casa de D. Gloria! Que será? Que não será? «A nossa familia saía a recebel-o; minha mãe era a primeira que lhe beijava a mão. Então o imperador, todo risonho, sem entrar na sala ou entrando,—não me lembra bem, os sonhos são muita vez confusos,—pedia a minha mãe que me não fizesse padre,—e ella, lisongeada e obediente, promettia que não.

–A medicina,—porque lhe não manda ensinar medicina?

Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade…

–Mande ensinar-lhe medicina; é uma bonita carreira, e nós temos aqui bons professores. Nunca foi á nossa Escola? É uma bella Escola. Já temos medicos de primeira ordem, que pódem hombrear com os melhores de outras terras. A medicina é uma grande sciencia; basta só isto de dar a saude aos outros, conhecer as molestias, combatel-as, vencel-as… A senhora mesma ha de ter visto milagres. Seu marido morreu, mas a doença era fatal, e elle não tinha cuidado em si… É uma bonita carreira; mande-o para a nossa Escola. Faça isso por mim, sim? Você quer, Bentinho?

–Mamãe querendo.

–Quero, meu filho. Sua Majestade manda.

Então o imperador dava outra vez a mão a beijar, e saía, acompanhado de todos nós, a rua cheia de gente, as janellas atopetadas, um silencio de assombro; o imperador entrava no coche, inclinava-se e fazia um gesto de adeus, dizendo ainda: «A medicina, a nossa Escola.» E o coche partia entre invejas e agradecimentos.

Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de Ariosto não é mais fertil que a das creanças e dos namorados, nem a visão do impossivel precisa mais que de um recanto de omnibus. Consolei-me por instantes, digamos minutos, até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus companheiros.

XXX
O Santissimo.

Terás entendido que aquella lembrança do imperador ácerca da medicina não era mais que a suggestão da minha pouca vontade de sair do Rio de Janeiro. Os sonhos do accordado são como os outros sonhos, tecem-se pelo desenho das nossas inclinações e das nossas recordações. Vá que fosse para S. Paulo, mas a Europa… Era muito longe, muito mar e muito tempo. Viva a medicina! Iria contar estas esperanças a Capitú.

–Parece que vae sair o Santíssimo, disse alguem no omnibus. Ouço um sino; é, creio que é em Santo Antonio dos Pobres. Pare, Sr. recebedor!

O recebedor das passagens puxou a correia que ia ter ao braço do cocheiro, o omnibus parou, e o homem desceu. José Dias deu duas voltas rapidas á cabeça, pegou-me no braço e fez-me descer comsigo. Iriamos tambem acompanhar o Santissimo. Effectivamente, o sino chamava os fieis áquelle serviço da ultima hora. Já havia algumas pessoas na sacristia. Era a primeira vez que me achava em momento tão grave; obedeci, a principio constrangido, mas logo depois satisfeito, menos pela caridade do serviço que por me dar um officio de homem. Quando o sacristão começou a distribuir as opas, entrou um sujeito esbaforido; era o meu visinho Padua, que tambem ia acompanhar o Santissimo. Deu comnosco, veiu comprimentar-nos. José Dias fez um gesto de aborrecido, e apenas lhe respondeu com uma palavra secca, olhando para o padre, que lavava as mãos. Depois, como Padua falasse ao sacristão, baixinho, approximou-se delles; eu fiz a mesma cousa. Padua solicitava do sacristão uma das varas do pallio. José Dias pediu uma para si.

–Ha só uma disponivel, disse o sacristão.

–Pois essa, disse José Dias.

–Mas eu tinha pedido primeiro, aventurou Padua.

–Pediu primeiro, mas entrou tarde, retorquiu José Dias; eu já cá estava. Leve uma tocha.

Padua, apesar do medo que tinha ao outro, teimava em querer a vara, tudo isto em voz baixa e surda. O sacristão achou meio de conciliar a rivalidade, tomando a si obter de um dos outros seguradores do pallio que cedesse a vara ao Padua, conhecido na parochia, como José Dias. Assim fez; mas José Dias transtornou ainda esta combinação. Não, uma vez que tinhamos outra vara disponivel, pedia-a para mim, «joven seminarista», a quem esta distincção cabia mais direitamente. Padua ficou pallido, como as tochas. Era pôr á prova o coração de um pae. O sacristão, que me conhecia de me ver alli com minha mãe, aos domingos, perguntou de curioso se eu era devéras seminarista.

–Ainda não, mas vae sel-o, respondeu José Dias piscando o olho esquerdo para mim, que, apesar do aviso, fiquei zangado.

–Bem, cedo ao nosso Bentinho, suspirou o pae de Capitú.

Pela minha parte, quiz ceder-lhe a vara; lembrou-me que elle costumava acompanhar o Santissimo Sacramento aos moribundos, levando uma tocha, mas que a ultima vez conseguira uma vara do pallio. A distincção especial do pallio vinha de cobrir o vigario e o sacramento; para tocha qualquer pessoa servia. Foi elle mesmo que me contou e explicou isto, cheio de uma gloria pia e risonha. Assim fica entendido o alvoroço com que entrára na egreja; era a segunda vez do pallio, tanto que cuidou logo de ir pedil-o. E nada! E tornava á tocha commum, outra vez a interinidade interrompida; o administrador regressava ao antigo cargo… Quiz ceder-lhe a vara; o aggregado tolheu-me esse acto de generosidade, e pediu ao sacristão que nos puzesse, a elle e a mim, com as duas varas da frente, rompendo a marcha do pallio.

Opas enfiadas, tochas distribuidas e accesas, padre e ciborio promptos, o sacristão de hyssope e campainha nos mãos, saiu o prestito á rua. Quando me vi com uma das varas, passando pelos fieis, que se ajoelhavam, fiquei commovido. Padua roía a tocha amargamente. É uma metaphora, não acho outra fórma mais viva de dizer a dôr e a humilhação do meu visinho. De resto, não pude miral-o por muito tempo, nem ao aggregado, que, parallelamente a mim, erguia a cabeça com o ar de ser elle proprio o Deus dos exercitos. Com pouco, senti-me cançado; os braços caíam-me, felizmente a casa era perto, na rua do Senado.

A enferma era uma senhora viuva, tisica, tinha uma filha de quinze ou dezeseis annos, que estava chorando á porta do quarto. A moça não era formosa, talvez nem tivesse graça; os cabellos caíam despenteados, e as lagrimas faziam-lhe encarquilhar os olhos. Não obstante, o total falava e captivava o coração. O vigario confessou a doente, deu-lhe a communhão e os santos oleos. O pranto da moça redobrou tanto que senti os meus olhos molhados e fugi. Vim para porto de uma jannela. Pobre creatura! A dor era communicativa em si mesma; complicada da lembrança de minha mãe, doeu-me mais, e, quando emfim pensei em Capitú, senti um impeto de soluçar tambem, enfiei pelo corredor, e ouvi alguem dizer-me:

–Não chore assim!

A imagem de Capitú ia commigo, e a minha imaginação, assim como lhe attribuira lagrimas, ha pouco, assim lhe encheu a bocca de riso agora; vi-a escrever no muro, falar-me, andar á volta, com os braços no ar; ouvi distinctamente o meu nome, de uma doçura que me embriagou, e a voz era della. As tochas accesas, tão lugubres na occasião, tinham-me ares de um lustre nupcial… Que era lustre nupcial? Não sei; era alguma cousa contraria á morte, e não vejo outra mais que bodas. Esta nova sensação me dominou tanto que José Dias veiu a mim, e me disse ao ouvido, em voz baixa:

–Não ria assim!

Fiquei serio depressa. Era o momento da saida. Peguei da minha vara; e, como já conhecia a distancia, e agora voltavamos para a egreja, o que fazia a distancia menor,—o peso da vara era mui pequeno. Demais, o sol cá fora, a animação da rua, os rapazes da minha edade que me fitavam cheios de inveja, as devotas que chegavam ás janellas ou entravam nos corredores e se ajoelhavam á nossa passagem, tudo me enchia a alma de lepidez nova.

Padua, ao contrario, ia mais humilhado. Apesar de substituido por mim, não acabava de se consolar da tocha, da miseravel tocha. E comtudo havia outros que tambem traziam tocha, e apenas mostravam a compostura do acto; não iam garridos, mas tambem não iam tristes. Via-se que caminhavam com honra.

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Litres'teki yayın tarihi:
11 ekim 2024
Hacim:
241 s. 2 illüstrasyon
ISBN:
4064066412357
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