Kitabı oku: «Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа», sayfa 3

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No outro dia, às dez da manhã, saiu o enterro, com grande acompanhamento. Não havia bloco nem rancho naquela manhã de segunda-feira de Carnaval capaz de comparar-se em importância e animação com o funeral de Vadinho. Nem de longe.

– Espie… pelo menos espie pela janela… – disse dona Norma a Zé Sampaio, desistindo de arrastá-lo ao cemitério – …espie e veja o que é o enterro de um homem que sabia cultivar suas relações, não era um bicho-do-mato como você… Era um capadócio, um jogador, um viciado, sem eira nem beira, e, entretanto, veja… Quanta gente e quanta gente boa… E isso num dia de Carnaval… Você, seu Sampaio, quando morrer não vai ter nem quem segure a alça do caixão…

Zé Sampaio não respondeu nem olhou pela janela. Metido num pijama velho, na cama, com os jornais da véspera, apenas gemeu um fraco gemido e meteu o dedo grande na boca. Era um doente imaginário, tinha um medo desatinado da morte, horror de visitas a hospitais, de sentinelas e enterros, e naquele momento encontrava-se à beira do enfarte. Assim vinha desde a véspera, desde que a esposa lhe informara ter o coração de Vadinho estourado de repente. Passara uma noite de cão a esperar a explosão das coronárias, rolando na cama em suores frios, a mão comprimindo o peito esquerdo.

Dona Norma, colocando sobre a cabeça de formosos cabelos castanhos um xale negro, apropriado para a ocasião, completou, impiedosa:

– Eu, se não tiver pelo menos quinhentas pessoas em meu enterro, vou me considerar uma fracassada na vida. De quinhentas para cima…

Partindo desse princípio, Vadinho devia considerar-se plenamente vitorioso e realizado. Pois meia Bahia viera a seu funeral e até o negro Paranaguá Ventura abandonara seu soturno covil e ali estava, o terno branco brilhando de espermacete, gravata negra e negro laço na manga esquerda, rosas vermelhas na mão. Preparava-se para segurar uma alça do caixão e, ao dar os pêsames a dona Flor, resumiu o pensar de todos na mais breve e bela oração fúnebre de Vadinho:

– Era um porreta!

INTERVALO. Breve notícia (aparentemente desnecessária) da polêmica travada em torno da autoria de anônimo poema a circular, de botequim em botequim, no qual o poeta chorava a morte de vadinho – revelando-se aqui e por fim a verdadeira identidade do ignoto barbo, à base de provas concretas (o inumerável Robato Filho a declamar)

Não, não se transformaria certamente, com o passar do tempo, em indecifrável mistério das letras, em mais um obscuro enigma da cultura universal, desafiando, séculos depois, universidades e sábios, estudiosos e biógrafos, filósofos e críticos, e convertendo-se em matéria de pesquisas, comunicações, teses a ocupar bolsistas, institutos, catedráticos, historiadores e velhacos variados em busca de existência fácil e regalada. Não seria um novo caso Shakespeare, não passaria de dúvida tão insignificante quanto o pequeno acontecimento a servir-lhe de tema e inspiração: a morte de Vadinho.

Nos meios literários de Salvador, no entanto, elevou-se a interrogação e em torno dela nasceu a polêmica: qual dos poetas da cidade compusera – e fizera circular – a “Elegia à definitiva morte de Waldomiro dos Santos Guimarães, Vadinho para as putas e os amigos”? Cresceu rápida a discussão, não tardou a azedar-se, a ser motivo de inimizades, retaliações, epigramas, e até uns tapas. Circunscritos, porém, debates e rancores, dúvidas e certezas, afirmações e negações, xingamentos e tabefes às mesas dos bares, onde, em torno de geladas bramotas, reuniam-se noite adentro os incompreendidos talentos jovens (a demolirem e a arrasarem toda a literatura e toda a arte anteriores ao feliz aparecimento dessa nova e definitiva geração) e os subliteratos tenazes, empedernidos, resistindo a todas as inovações, com seus trocadilhos, seus epigramas, suas frases retumbantes; empunhando uns e outros – gênios imberbes e beletristas de barba por fazer – , com a mesma violenta disposição de leitura, suas últimas produções em prosa e verso, cada uma delas e todas elas destinadas a revolucionar as letras brasileiras, se Deus quiser.

Nem por se limitar ao âmbito do estado da Bahia (do estado e não somente da capital, pois repercutiu o debate em municípios da região cacaueira. Nos anais da Academia de Letras de Ilhéus encontram-se seguras referências a um sarau dedicado ao estudo do problema); nem por não ter obtido espaço nos suplementos e revistas, desvanecendo-se em discussões orais; nem por tudo isso o curioso e por vezes ácido debate pode deixar de merecer atenção e interesse, quando se narra a história de dona Flor e de seus dois maridos, na qual Vadinho é personagem importante, herói situado em primeiro plano.

Herói? Ou será ele o vilão, o bandido responsável pelos sofrimentos da mocinha, no caso dona Flor, esposa dedicada e fiel? Esse já é outro problema, desligado da questão literária a preocupar poetas e prosadores; talvez até mais difícil e grave, e ficará a vosso cargo dar-lhe resposta, se obstinada paciência vos conduzir até o fim destas modestas páginas.

Da elegia, sim, não havia dúvidas, era Vadinho herói indiscutível, “jamais outro virá tão íntimo das estrelas, dos dados e das putas, mágico jogral”, badalavam os versos, numa louvação sem tamanho. E se o poema – a exemplo da polêmica – não obteve espaço nas folhas literárias, não foi por falta de merecimento. Um certo Odorico Tavares, poeta federal pairando acima dos disse-que-disse dos vates estaduais – ademais todos eles comendo em sua mão, de rédea curta, pois o déspota controlava dois jornais e uma estação de rádio – , ao ler cópia datilografada da elegia, lastimou:

– Pena não se poder publicar.

– Se não fosse anônimo… – considerou outro poeta, Carlos Eduardo.

Esse Carlos Eduardo, moço tira do a bonito, entendido em antigüidades, era sócio do Tavares num negócio, um tanto escuso, de santos antigos. Os subliteratos mais frustrados e os gênios juvenis mais veementes, aqueles sem nenhuma esperança de estampar seus nomes no suplemento dominical de Odorico, acusavam-no e a Carlos Eduardo de receptadores de velhas imagens de santos, afanadas nas igrejas por um grupo de gatunos especializados, sob a chefia de um tipo de reputação duvidosa, um cochichado Mário Cravo, aliás amigo e companheiro de Vadinho. Magro e bigodudo, vivia o astucioso Cravo às voltas com peças de automóveis, chapas de ferro, máquinas avariadas, a entortar e a remendar toda aquela tralha, atribuindo valor artístico ao resultado, sob os aplausos dos dois poetas e de outros entendidos, unânimes em rotularem aquele ferro velho de escultura moderna e em apontarem o biltre como revelação de artista notável e revolucionário. Eis outro problema cuja discussão não cabe nessas páginas, o do valor real de mestre Cravo, não vamos aqui analisar-lhe a obra. Adiantemos apenas, como matéria de informação, o fato de ter a crítica posteriormente consagrado seu trabalho, objeto, inclusive, de estudos de foliculários estrangeiros. Naquele tempo, no entanto, não era ele ainda artista conceituado, apenas começava, e se já possuía certa notoriedade, devia-a sobretudo à sua discutível atuação nas sacristias e altares.

O próprio Vadinho, segundo consta, participara, em ocasião de extrema penúria, de sigilosa peregrinação noturna a vetusta igreja do Recôncavo, romaria organizada pelo herético Mário Cravo. O saque da igreja deu o que falar, pois uma das peças surrupiadas, um são Benedito, era atribuída a frei Agostinho da Piedade, e os frades botaram a boca no mundo. Hoje a imagem valiosa encontra-se num museu do sul, a acreditar-se nos maldizentes subliteratos, por obra e graça dos dois então magros sócios de musa lírica e devoto comércio.

Naquela manhã, antes do almoço, conversavam na redação, falando de santos e de quadros, quando Carlos Eduardo tirou do bolso cópia da elegia e a deu a ler ao poeta Odorico.

Lastimando não poder publicá-la – “não por causa do anonimato, meteríamos um pseudônimo qualquer…”, mas por causa dos palavrões – Tavares repetiu: “Uma pena…”, e releu em voz alta mais um verso:

Estão de luto os jogadores e as negras da Bahia.

Perguntou ao amigo:

– Descobriste logo o autor, não?

– Tu pensas que seja dele? Pareceu-me, porém…

– Está na cara… Ouve: “Um momento de silêncio em todas as roletas, bandeiras a meio pau nos mastros dos castelos, bundas em desespero, a soluçar”.

– É capaz…

– É capaz, não. É, com certeza. – Riu: – Velho sem-vergonha…

Aquela certeza não a possuíam os meios literários. A elegia foi atribuída a diversos poetas, vates conhecidos ou jovens estreantes. Deram-na como de Sosígenes Costa, de Carvalho Filho, de Alves Ribeiro, de Hélio Simões, de Eurico Alves. Muitos indicaram Robato como o mais provável autor. Não a declamava ele, entusiasmado, rolando a voz rica de modulações?

Com ele partiu a madrugada cavalgando a lua.

Não podiam entender como Robato recitaria versos de outro, gesto pouco habitual naqueles meios; esqueciam-se da natureza generosa do sonetista, de sua capacidade de admirar e aplaudir obra alheia.

Pode-se inclusive marcar o início do sucesso da elegia e da polêmica por ela suscitada a partir da alegre noite no castelo de Carla, a “gorda Carla”, competente profissional aportada da Itália, cuja cultura extralimitava do métier (no qual, aliás, “excelia” segundo Nestor Duarte, cidadão de renomada inteligência e viajado, um conhecedor), lida em D’Annunzio, doida por umas rimas. “Romântica como uma vaca”, assim a classificava o bigodudo Cravo, com quem ela andara metida uns tempos. Carla não podia passar sem uma paixão dramática e navegava de boêmio em boêmio, suspirando e gemendo, dilacerada de ciúmes, com seus tremendos olhos azuis, os seios de prima-dona, as coxas espantosas. Vadinho, igualmente, lhe merecera as boas graças e uns trocados, se bem ela preferisse os poetas, versejando ela própria na “doce língua de Dante com muito estro e inspiração”, como adulava Robato.

Todas as quintas-feiras à noite, Carla reunia uma espécie de salão literário em seus amplos aposentos. Compareciam poetas e artistas, boêmios, algumas figuras gradas, como o desembargador Airosa, e as raparigas do castelo prontas a aplaudir os versos e a rir das anedotas. Serviam bebidas e docinhos.

Carla presidia a soirée, reclinada num divã repleto de coxins e almofadas, vestindo túnica grega ou pedrarias, ateniense de figurino ou egípcia de Hollywood, recém-saída de uma ópera. Os poetas declamavam, trocavam frases de espírito, epigramas, cruzavam-se trocadilhos, o desembargador sentenciava um axioma preparado durante a semana, num duro labor. O momento culminante da tertúlia acontecia quando a dona da casa, a grande Carla, alçava-se por entre os travesseiros, toda aquela tonelada de carne branca recoberta de pedraria falsa, e, num fio de voz, extravagante em mulher tão monumental, declamava, em açucarados versos italianos, seu amor pelo último eleito. Enquanto isto, o artista Cravo e outros materialistas grosseiros aproveitavam-se da semi-obscuridade reinante na sala – a luz velada para assim, na meia-sombra, melhor ouvir-se e sentir-se a poesia – e, sem respeitar ambiente de tão alta espiritualidade, de tão excelsos sentimentos, bolinavam descarados as raparigas, tratando de obter-lhes favores gratuitos, lesando a caixa do castelo, uns calhordas.

Os saraus terminavam sempre decaindo da poesia para a anedota pornográfica, no fim da noite. Brilhavam então Vadinho, Giovanni, Mirandão, Carlinhos Mascarenhas, e, sobretudo, Lev, arquiteto em começo de carreira, filho de imigrantes, um galalau comprido como uma girafa, dono de inesgotável repertório, bom narrador. Carregava um sobrenome russo impronunciável, as raparigas haviam-no apelidado de Lev Língua de Prata, devido talvez às anedotas. Talvez.

Num desses “elegantes encontros da inteligência e da sensibilidade”, declamou Robato, com sua voz trêmula, a elegia à morte de Vadinho, introduzindo-a com algumas palavras comovidas sobre o desaparecido, amigo de todos os freqüentadores daquele “delicioso antro do amor e da poesia”. Referiu-se de passagem ao fato de ter o autor preferido “as névoas do anonimato ao sol da publicidade e da glória”. Ele, Robato, recebera cópia do poema das mãos de um oficial da Polícia Militar, capitão Crisóstomo, também fraterno amigo de Vadinho. Não soubera, no entanto, o militar dar-lhe informação precisa sobre a identidade do poeta.

Muitos atribuíram os versos ao próprio Robato, mas, ante sua recusa sistemática em aceitá-los, andaram apontando como autor quanto poeta versejava na cidade, especialmente aqueles de condição noturna e de boêmia conhecida. Houve, porém, quem jamais acreditasse nas negativas de Robato, levando-as à conta de modéstia, e persistiram em seu nome. Ainda hoje há quem pense serem de sua lavra as estrofes da elegia.

O debate azedou-se a ponto de, em certa ocasião, romper os limites da literatura e da civilidade e descambar num conflito a bofetões, quando o poeta Clóvis Amorim, língua viperina solta numa boca de epigramas, a mamar permanente e fedorento charuto do Mercado Modelo, negou ao bardo Hermes Clímaco qualquer possibilidade de ser autor dos debatidos versos, faltando-lhe para tanto gênio e gramática.

– De Clímaco? Não diga besteira… Aquele, com muito esforço, obra uma quadrinha em sete sílabas. Um poeta endefluxado…

Por cúmulo do azar, o poeta Clímaco surgia na porta do botequim, com seu eterno traje negro, a capa de borracha e o guarda-chuva, também eternos. Levantou o guarda-chuva e arremeteu, em cólera:

– Endefluxado é a puta que o pariu…

Atracaram-se, entre xingos e sopapos, com vantagens evidentes para o Amorim, melhor versejador e atleta mais robusto.

Curioso também e digno de relato o sucedido com um fulano, autor de dois magros cadernos de versos, a quem algumas pessoas menos avisadas conferiram a autoria do poema. Primeiro ele a negou com firmeza, depois, como perseverassem, foi menos pertinaz em suas negativas e, por fim, reagia de maneira tão confusa e tímida que a negativa parecia acanhada afirmação.

“É dele, não há dúvida”, diziam, ao vê-lo esfregar as mãos, baixando os olhos, a sorrir num murmúrio:

– Que parecem versos meus, isso parecem. Mas, não são…

Negou sempre, mas, ao mesmo tempo, não admitiu jamais atribuíssem a outrem as discutidas estrofes. Se o faziam, desdobrava-se a provar a impossibilidade de tal hipótese. E se algum obstinado persistisse a argumentar, resmungava definitivo e misterioso:

– Ora, quer dizer a mim?… Tenho razões para saber…

E, quando a ouvia declamar, acompanhava atentamente o recitativo, corrigindo-o se alguma palavra era trocada, ciumento do poema, zeloso como de obra sua. Só mais tarde, com a revelação do nome do verdadeiro autor, veio ele a despir-se da glória indevida. Passou então, e imediatamente, a dizer horrores da elegia, negando-lhe qualquer mérito ou beleza – “Poesia prostibular e estercorária”.

Em meio a tanta discussão, a elegia fez sua carreira, lida e decorada, dita nas mesas dos bares pela madrugada, quando a cachaça desatava os sentimentos mais nobres. Os declamadores mudavam-lhe adjetivos e verbos, por vezes baralhavam ou engoliam estrofes. Mas, correta ou deturpada, molhada de cachaça, caída no chão dos cabarés, lá ia ela fazendo o elogio de Vadinho, sua louvação.

Quem quer que a houvesse composto refletia um sentimento geral naquele submundo onde Vadinho se movimentara desde a adolescência e do qual terminou sendo uma espécie de símbolo. A elegia foi o ponto mais alto no desparrame de louvores ao moço jogador. Se lhe fosse dado ouvir tanta palavra de elogio e de saudade, Vadinho não acreditaria. Em vida jamais fora alvo de encômios e loas, muito ao contrário: viviam a lhe martelar os ouvidos com repreensões e conselhos, sermões a propósito de sua má vida e de seus maus sentimentos.

Aliás, a indulgência para com seus malfeitos, para com essa exibição pública de suas pretendidas qualidades, a transformarem-no em herói de poema e em figura quase lendária, durou pouco tempo. Uma semana após sua morte já as coisas começavam a ser repostas em seus lugares, a opinião das classes conservadoras, responsáveis pela moral e pela decência, passou a manifestar-se pela boca das comadres e das vizinhas, tentando sobrepor-se ao anárquico e dissolvente panegírico estabelecido pela subversiva ralé dos castelos e cassinos, na criminosa tentativa de solapar os costumes e o regime.

Criava-se assim novo e apaixonante problema, como se já não bastasse o da lavra dos versos. De referência a este último, provas foram prometidas da verdadeira identidade do autor, por fim agora revelada e para sempre inscrita no livro de ouro das letras pátrias.

Quando, anos depois da morte de Vadinho, o poeta Odorico recebeu seu exemplar das Elegias impuras – um dos três únicos oferecidos de graça pelo poeta – , magnífica edição de luxo, tiragem reduzida a cem volumes autografados, ilustrada com xilogravuras de Calasans Neto, voltou-se para Carlos Eduardo, estendendo-lhe o livro precioso.

Estavam os dois amigos sentados na mesma sala de redação na qual, num dia distante, juntos haviam lido e discutido a elegia. Apenas agora eram senhores gordos e respeitáveis – e ricos, muito ricos, proprietários de coleções e de imóveis.

Odorico recordou:

– Eu não te disse naquela ocasião? Era dele. – E concluiu com o mesmo sorriso e com as mesmas palavras de outrora: – Velho sem-ver- gonha…

Também Carlos Eduardo riu seu riso cordial, de homem realizado e tranqüilo, e admirou a edição primorosa. Na capa, em letras cavadas na madeira, o nome do poeta: Godofredo Filho. Devagar, foi passando as páginas, a interrogar-se (com certa inveja): “Que ruas e ladeiras esconsas, que obscuras sendas de crepúsculo, que negras olorosas grutas, haviam juntos descoberto e amado o poeta ilustre e o pobre vagabundo, a ponto de entre eles desabrochar a rara flor da amizade?” Devagar, a refletir nesses enigmas, Carlos Eduardo tocava o papel como se acariciasse suave epiderme de mulher, quem sabe pele negra, noturno veludo? A quarta elegia, das cinco a comporem o volume, é dedicada à morte de Vadinho, “a ficha azul esquecida no tapete”.

Resolveu-se assim um problema, como prometido fora. Outro, porém, surge e se impõe, e quem sabe será possível encontrar-lhe solução? À vossa perspicácia fica ele entregue, esse mistério de Vadinho.

Quem era Vadinho? Qual sua verdadeira fisionomia? Quais suas exatas proporções? Era banhada de sol ou coberta de sombra sua face de homem? Quem era ele, o jogral da elegia, o porreta da frase de Paranaguá Ventura, ou o desprezível malandro, o mordedor incorrigível, o mau marido na voz da vizinhança, das amizades de dona Flor? Quem melhor o conhecera e melhor agora o definia: as piedosas freqüentadoras da missa das seis na igreja de Santa Teresa ou os irrecuperáveis habitués do Tabaris, “a bola girando na roleta, o baralho e os dados, a última parada”?

Capítulo II
Do tempo inicial da viuvez, tempo do nojo, do luto fechado, com as memórias de ambições e enganos, de namoro e casamento, da vida matrimonial de Vadinho e dona Flor, com fichas e dados e a dura espera agora sem esperança
(e a incômoda precença de dona Rozilda) (com Edgard Cocô ao violino, Caymmi ao violão e o dr. Walter da Silveira com sua flauta encantada)

Escola de culinária sabor e arte Moqueca de siri-mole

(receita de dona Flor)

Aula teórica

Ingredientes (para oito pessoas): uma xícara de leite de coco, puro, sem água; uma xícara de azeite de dendê, um quilo de siri-mole. Para o molho: três dentes de alho; sal ao gosto; o suco de um limão, coentro, salsa, cebolinha verde; duas cebolas; meia xícara de azeite doce; um pimentão; meio quilo de tomates. Para depois: quatro tomates; uma cebola; um pimentão.

Aula prática

Ralem duas cebolas, amassem o alho no pilão; cebola e alho não empestam, não, senhoras, são frutos da terra, perfumados. Piquem o coentro bem picado, a salsa, alguns tomates, a cebolinha e meio pimentão. Misturem tudo em azeite doce e à parte ponham esse molho de aromas suculento.

(Essas tolas acham a cebola fedorenta, que sabem elas dos odores puros? Vadinho gostava de comer cebola crua e seu beijo ardia.)

Lavem os siris inteiros em água de limão, lavem bastante, mais um pouco ainda, para tirar o sujo sem lhes tirar porém a maresia. E agora a temperá-los: um a um no molho mergulhando, depois na frigideira colocando um a um, os siris com seu tempero. Espalhem o resto do molho por cima dos siris bem devagar que esse prato é muito delicado.

(Ai, era o prato preferido do Vadinho!)

Tomem de quatro tomates escolhidos, um pimentão, uma cebola, tudo por cima e em rodelas coloquem para dar um toque de beleza. No abafado por duas horas deixem a tomar gosto. Levem depois a frigideira ao fogo.

(Ia ele mesmo comprar o siri-mole, possuía freguês antigo, no mercado…)

Quando estiver quase cozido e só então juntem o leite de coco e no finzinho o azeite de dendê, pouco antes de tirar do fogo.

(Ia provar o molho, a todo instante, gosto mais apurado ninguém tinha.)

Aí está esse prato fino, requintado, da melhor cozinha, quem o fizer pode gabar-se com razão de ser cozinheira de mão-cheia. Mas, se não tiver competência, é melhor não se meter, nem todo mundo nasce artista do fogão.

(Era o prato predileto de Vadinho, nunca mais em minha mesa o servirei. Seus dentes mordiam o siri-mole, seus lábios amarelos do dendê. Ai, nunca mais seus lábios, sua língua, nunca mais sua ardida boca de cebola crua!)

Yaş sınırı:
0+
Litres'teki yayın tarihi:
26 şubat 2026
Yazıldığı tarih:
1966
Hacim:
640 s. 1 illüstrasyon
ISBN:
978-5-9925-2087-3
Telif hakkı:
КАРО
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