Kitabı oku: «Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа», sayfa 4

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1

Ora na missa de sétimo dia, oficiada por d. Clemente Nigra na igreja de Santa Teresa, envolta a nave esplêndida numa luz matinal azulada e transparente, chegada do mar defronte, como se o templo fora um navio prestes a largar – a simpatia e a solidariedade expressas em comentários sussurrados, dirigiam-se, a dona Flor, ajoelhada na primeira fila ante o altar, toda em negro, mantilha de rendas emprestada por dona Norma escondendo-lhe os cabelos e as lágrimas, um terço entre os dedos. Mas os cochichos não a lastimavam por haver perdido o marido e, sim, por tê-lo possuído. Dobrada no genuflexório, nada ouvia dona Flor, como se ninguém mais estivesse no santuário, apenas ela, o padre e a ausência de Vadinho.

Um rumor de beatas, de velhas ratas de sacristia, de rançosas inimigas da graça e do riso, se elevava junto com o incenso, num murmúrio ácido:

– Não valia nem um vintém de reza, o renegado.

– Se ela não fosse uma santa, em vez de missa dava era uma festa. Com dança e tudo…

– Para ela foi uma carta de alforria…

No altar, celebrando pela alma de Vadinho, d. Clemente, macerado de vigílias sobre livros antigos, sentia na atmosfera mágica da manhã apenas despertada certas perturbações, auras maléficas como se um demônio qualquer, Lúcifer ou Exu, mais provavelmente Exu, andasse solto pela nave. Por que não deixavam Vadinho em paz, não lhe permitiam descansar? Bem o conhecera d. Clemente: Vadinho gostava de vir conversar no pátio do convento, sentava-se sobre a muralha, contando histórias nem sempre as mais condizentes com aquelas venerandas paredes, mas ouvidas com atenção pelo frade, curioso e solidário com toda a ex- periência humana.

Havia no corredor, entre a nave e a sacristia, uma espécie de altar, e nele um anjo talhado em madeira, escultura anônima e popular talvez do século XVII, e era como se o artista houvesse tomado Vadinho de modelo; a mesma fisionomia inocente e desavergonhada, a mesma insolência, idêntica ternura. Estava ele ajoelhado ante a imagem, bem mais recente e barroca, de uma santa Clara, e para ela estendia as mãos. Certa ocasião d. Clemente levara Vadinho a ver o altar e o anjo, queria saber se o boêmio dar-se-ia conta da parecença. Vadinho pôs-se a rir apenas enxergou as imagens.

– Por que ris assim? – perguntou-lhe o frade.

– Que Deus me perdoe, padre… Mas não parece que o anjo está fretando a santa?

– Está o quê? Que termos são esses, Vadinho?

– Desculpe, dom Clemente, mas é que esse anjo tem uma cara manjada de gigolô… Nem parece anjo… Espie o olho dele… olho de frete…

Voltando-se no altar para dar a bênção, as mãos levantadas, o sacerdote viu as beatas a resmungarem: ali estava a perturbação, o maligno, ah!, bocas de lama e maldade, ah!, fedidas e azedas donzelices, mesquinhas e cúpidas solteironas, e a comandá-las dona Rozilda, “Deus que as perdoe, pois infinita é sua bondade!”.

– A pobrezinha sofreu na mão dele. Comeu o pão que o diabo amassou…

– Porque quis. Não por falta de conselho meu… Não fosse tão assanhada, tivesse me ouvido… Fiz o que estava em minhas mãos…

Perorava assim dona Rozilda, mãe de dona Flor, nascida para madrasta, tentando com denodo cumprir sua vocação.

– Mas ela estava com o bicho-carpinteiro, estava de pito aceso, Deus me livre, não quis ouvir nada, se revoltou… E encontrou quem apoiasse, casa para se esconder…

Disse e olhou para o lado onde rezava dona Lita, sua irmã, ajoelhada. Completou:

– Mandar dizer missa por aquele traste é jogar dinheiro fora, é só para encher o bandulho do frade…

D. Clemente tomou do turíbulo e lançou incenso contra o fétido hálito do demônio a respirar pela boca das beatas. Desceu do altar, parou ante dona Flor, colocou-lhe a mão afetuosa sobre o ombro, disse para ser ouvido pelo coro sinistro das velhas peçonhentas:

– Mesmo os anjos transviados têm seu assento ao lado de Deus, em sua glória.

– Anjo… T’esconjuro… Era um demônio do inferno… – rosnou dona Rozilda.

D. Clemente, o dorso um pouco curvado, atravessou a nave, a caminho da sacristia. No corredor, deteve-se a contemplar aquela estranha imagem onde o artista desconhecido fixara a um só tempo a graça e o cinismo. Levado por que sentimentos o fizera, que espécie de mensagem desejara transmitir? Possuído pelas paixões humanas, o anjo devorava com olhos devassos a pobre santa. Olhos de frete, como dissera Vadinho em sua linguagem pitoresca, sorriso indecente, face deslavada, sem compostura. Igual a Vadinho, tanta parecença jamais se vira. Não exagerara ele, d. Clemente, não fizera uma afirmação precipitada ao colocar Vadinho ao lado de Deus, em sua glória?

Aproximou-se da janela rasgada na pedra, fitou o pátio do convento. Ali Vadinho costumava sentar-se sobre a muralha, a seus pés o mar cortado de saveiros. Vadinho dizia:

– Padre, se Deus quisesse mostrar mesmo sua capacidade, fazia o 17 dar doze vezes seguidas. Isso é que era um milagre retado. Aí eu chegava e enchia essa igreja toda de flores…

– Deus não se mete em jogo, meu filho…

– Então, padre, ele não sabe o que é bom e o que é ruim. Aquela agonia de ver a bolinha girando, girando na roleta, a gente arriscando a última ficha, o coração disparado…

E num tom de confidência, num segredo só dele e do sacerdote:

– Como Deus não vai saber, padre?

No átrio, dona Rozilda elevava a voz:

– Dinheiro jogado fora… Não há missa que salve o desgraçado. Deus é justo!

Dona Flor, o xale a esconder-lhe a dolorosa face, surgia, ao fundo, apoiava-se em dona Gisa e em dona Norma. Na claridade azul da manhã, a igreja parecia um barco de pedra a navegar.

2

Só na terça-feira de Carnaval, à noite, a notícia da morte de Vadinho alcançara Nazaré das Farinhas onde dona Rozilda habitava em companhia do filho casado e funcionário da estrada de ferro, amargurando a vida da nora, escrava a seu mando ditatorial. Sem perder tempo, transportou-se para a Bahia na Quarta-feira de Cinzas, um dia parecido com ela, a acreditar-se em outro genro seu, Antônio Morais: “Aquilo não é uma mulher, é uma Quarta-feira de Cinzas, termina com a alegria de qualquer um”. O desejo de situar a maior distância possível entre sua casa e sua sogra era, sem dúvida, um dos motivos por que esse Morais residia, há vários anos, num subúrbio do Rio de Janeiro. Hábil mecânico, aceitou o convite de um amigo e fora tentar a vida no sul, onde prosperara. Recusava-se a voltar à Bahia mesmo a passeio enquanto “a megera empestasse o ambiente”.

Dona Rozilda, no entanto, não detestava Antônio Morais como não detestava tampouco a nora. Detestava, sim, a Vadinho, e jamais perdoara a Flor aquele casamento, resultado de vil conspiração contra sua autoridade e suas decisões. No casamento de Morais com Rosália, a filha mais velha, se não fizera gosto, tampouco dificultara o namoro, não opusera objeções ao noivado. Não se dava bem com ele ou com a nora, porque a natureza de dona Rozilda era mesmo consagrada a infernar o próximo. Quando não estava contrariando alguém, sentia-se vazia e infeliz.

Com Vadinho era diferente: tinha-lhe aversão desde os tempos do namoro com Flor, quando descobrira a rede de logros e engodos em que a enleara o indesejável pretendente. Tomara-lhe ódio para sempre, não podia ouvir-lhe sequer o nome. “Houvesse polícia nesta terra e aquele canalha estaria na cadeia”, repetia, se lhe falavam no genro, se lhe pediam notícias do valdevinos ou mandavam-lhe lembranças.

Quando visitava dona Flor, de raro em raro, era para infernar-lhe o dia, não tendo outro assunto senão as trampolinagens de Vadinho, sua existência libertina, sua vergonhosa crônica, escândalo cotidiano e permanente.

Ainda da amurada do navio desatava a boca de azedumes aos gritos para dona Norma no cais da Bahiana a esperá-la, a pedido de dona Flor:

– Enfim o excomungado bateu as botas, hein!

O paquete estava atracando, repleto de uma impaciente população de viajantes atravancados de pacotes, de cestas, de sacolas, de embrulhos os mais diversos, contendo frutas, farinha de mandioca, inhame e aipim, carne-de-sol, chuchu e abóboras. Dona Rozilda desembarcava a vociferar:

– Levou a breca, já devia ter estourado há muito tempo!

Dona Norma sentia-se derrotada, dona Rozilda possuía aquela capacidade de deixá-la sem ação, num desânimo completo. Amanhecera a prestativa vizinha no pequeno cais, transpirando consolação no rosto bondoso, pronta para animar uma sogra em luto e em lágrimas, para em dueto lastimarem a precariedade das coisas desse mundo: hoje se está vivo e saltitante, amanhã num caixão de defuntos. Recolheria as lamúrias de dona Rozilda, servir-lhe-ia o lenitivo da resignação à vontade de Deus, ele sabe o que faz!; juntas debateriam, a mãe e a amiga íntima, a propósito da nova condição de dona Flor, viúva, só no mundo e ainda tão jovem. Para isso viera dona Norma preparada: gestos, palavras, atitudes, e tudo sincero e sentido, não havia jamais em sua maneira de ser e agir a menor parcela de representação. Dona Norma sentia-se um pouco responsável por todo mundo, era a providência do bairro, uma espécie de pronto-socorro das imediações. De toda a vizinhança acudiam à porta de sua casa – a melhor casa da rua, só a dos argentinos da fábrica de cerâmica, a dos Bernabós, podia com ela comparar-se, talvez um pouco mais luxuosa – , vinham por empréstimos, do sal e da pimenta à louça para almoços e jantares e a peças de vestuário para festas:

– Dona Norma, mamãe mandou perguntar se a senhora podia emprestar uma xícara de farinha-do-reino que é para um bolo que ela está fazendo. Depois manda pagar…

Era Aninha, a filha mais jovem do dr. Ives, vizinho próximo, cuja esposa, dona Êmina, cantava canções árabes acompanhando-se ao piano.

– Mas, menina, sua mãe não foi ao mercado ontem? Eta!, mulher mais esquecida… Uma xícara basta? Diga a ela que, se quiser mais, mande buscar…

Ou bem era o moleque da residência de dona Amélia, com sua voz esganiçada:

– Dona Norma, a patroa mandou pedir a gravata preta de seu Sampaio, a de laço de borboleta, que a de seu Ruas a traça roeu…

Quando não aparecia dona Risoleta, dramática, com seu ar de macerada:

– Norminha, acuda pelo amor de Deus…

– O que é, mulher?

– Um bêbado se plantou na porta de casa, não há jeito de sair, o que é que eu vou fazer?

Lá ia dona Norma, reconhecia sorridente:

– Ora, é Bastião Cachaça, gente minha… Vam’bora, Bastião, saia daí, vá tirar uma soneca na garagem lá de casa…

E assim o dia inteiro, bilhetes pedindo dinheiro emprestado, chamado urgente para acudir um doido, atender um enfermo, e os fregueses das injeções – dona Norma fazia concorrência gratuita aos médicos e às farmácias, sem falar nos veterinários pois todas as gatas das cercanias vinham dar cria nos fundos de sua casa, ali não lhes faltando jamais assistência e alimento. Distribuía amostras de remédios – fornecidas pelo dr. Ives – , cortava vestidos e moldes – era diplomada em corte e costura – , escrevia cartas para o pessoal doméstico, dava conselhos, ouvia lamentações, secundava projetos matrimoniais, chocava namoros, resolvia os mais diferentes problemas, sempre alvoroçada, levando Zé Sampaio a concluir:

– É uma caga voando, não tem paciência nem para sentar no aparelho… – e metia o dedo grande na boca, resignado.

Preparara-se a boa vizinha para acolher uma lastimosa dona Rozilda, em seu peito a abrigar e confortar. E a outra lhe saía com aquele contra-senso absurdo, como se a morte do genro fosse notícia festiva. Lá vinha ela descendo a escada, numa das mãos o clássico embrulho de farinha de Nazaré, bem torrada e olorosa, além de uma cesta onde se movia indócil uma corda de caranguejos adquirida a bordo; na outra a sombrinha e a maleta. Ainda bem, pensou dona Norma, não era a mala grande indicativa de demora, era o pequeno baú de madeira das viagens rápidas, uns poucos dias e até outra. Adiantou-se para ajudá-la e para dar-lhe o cerimonioso abraço de pêsames, por nada no mundo deixaria de cumprir o triste dever das condolências.

– Meus pêsames…

– Pêsames? A mim? Não, minha cara, não desperdice sua civilidade. Por mim, já podia ter esticado há muito tempo, não sinto a falta. Agora posso bater no peito e dizer de novo que na minha família não tem desclassificado nenhum. E que vergonha, hein? Escolheu para morrer no meio do Carnaval, vestido de máscara… de propósito…

Parava ante dona Norma, descansava a maleta, a cesta e o pacote no chão para melhor examinar a outra, medi-la de alto a baixo, e dizer-lhe, num elogio velhaco:

– Pois, sim senhora… Não é para lhe gabar mas vosmicê engordou um bocado… Está bonitona, moderna, gorda de fazer gosto, benza-te Deus e te livre de mau-olhado…

Ajeitava a cesta de onde os caranguejos tentavam fugir, persistia renitente:

– Assim é que eu gosto: mulher que não liga para besteiras de moda… Essas que andam por aí fazendo regime para emagrecer, termina tudo tísica… Vosmicê…

– Não diga isso, dona Rozilda. E eu que pensei que estava mais magra… Fique sabendo que estou gramando um regime daqueles brabos… Cortei o jantar, tem um mês que não sei o gosto de feijão…

Dona Rozilda voltou a considerá-la com olho crítico:

– Pois não parece…

Ajudada por dona Norma, recuperou os embrulhos; embicavam para o Elevador Lacerda, dona Rozilda a matracar:

– E seu Sampaio? Sempre metido na cama? Nunca vi homem mais sem graça. Parece um cachorro velho…

Dona Norma não gostou da comparação, sorriu num protesto:

– É o gênio dele que é assim mesmo… Esmorecido…

Dona Rozilda não era mulher de desculpar as fraquezas humanas:

– T’esconjuro… Um marido enganjento como o seu deve ser um castigo. O meu… o finado Gil… Bem, não vou dizer que valesse grande coisa, não era nenhum santo… Mas, em comparação com o seu… Ah!, minha filha, eu lhe digo: se fosse eu não tolerava não… Um homem que não sai, não vai a parte nenhuma, emborcado, dentro de casa…

Dona Norma tentava repor a conversa na sua trilha lógica: afinal dona Rozilda perdera um genro, por isso viajara à capital, sobre tão palpitante e dramático assunto deviam discorrer, para tanto estava dona Norma preparada:

– Flor anda muito triste e abatida. Sentiu demais…

– Porque é uma pamonha, uma toleirona. Sempre foi, nem parece minha filha. Saiu ao pai, vosmicê não conheceu o finado Gil. Não é para me elevar, não, mas o homem da casa era eu. Ele não piava nem mugia, quem resolvia tudo era essa sua criada. Flor puxou a ele, saiu molengas, sem vontade; senão, como ia agüentar tanto tempo o tal de marido que arranjou?

Dona Norma considerou para si mesma que, se o finado Gil não fosse ele também um banana, um molengas sem vontade, certamente não teria suportado por muito tempo tal esposa, e lastimou a sorte do pai de dona Flor. E a de dona Flor, agora ameaçada de constantes visitas da mãe, capaz até – quem sabe? – de vir residir com a filha viúva, corrompendo a atmosfera cordial do Sodré e redondezas.

No tempo de Vadinho, quando dona Rozilda aparecia era às carreiras, em rápidas passagens, o indispensável para falar mal do genro e empreender o caminho de volta antes do maldito surgir com suas graçolas de mau gosto. Porque com Vadinho, dona Rozilda nunca levara vantagem, jamais o dominara, nem sequer conseguia deixá-lo nervoso e irritado. Apenas a enxergava a cochichar, era tomado de riso, demonstrando a maior satisfação, como se a sogra fosse sua visita preferida, o pulha:

– Olhe quem está aí: minha santa sogrinha, minha segunda mãe, esse coração de ouro, essa pomba sem fel. E a lingüinha, como vai, bem afiada? Sente aqui, minha santa, junto de seu genrinho querido; vamos vasculhar o lixo da Bahia…

E ria aquela sua risada sonora e alegre de homem ladino e satisfeito com a vida: se tanto título a vencer e tanta dívida espalhada, tanta apertura de dinheiro e tanta urgência de numerário para as apostas não conseguiam entristecê-lo nem exasperá-lo, como poderia dona Rozilda alimentar esperanças? Por isso o odiava, e pelo que ele lhe fizera nos primeiros tempos do namoro.

Numa rabanada raivosa abandonava o campo de batalha, tangida pelo riso de Vadinho, ia vingar-se em dona Flor, acusando-a rua afora, em agitados comícios:

– Nunca mais ponho os pés nessa casa, filha amaldiçoada! Fique com o cachorro de seu marido, deixe que ele insulte sua mãe, esqueça o leite que mamou… Vou embora antes que ele me bata… Não sou igual a você que gosta de apanhar…

Com a risada de Vadinho a persegui-la pelas esquinas, estourando nos becos, gaitada de mofa – dona Rozilda perdia a cabeça. Uma vez a perdeu por completo; esquecida de sua condição de senhora viúva e recatada, deteve-se na rua cheia de gente e, voltando-se para a janela onde o genro se torcia de rir, descascou-lhe, com o braço nu, uma penca, se não todo um cacho de bananas. Acompanhava o gesto grosseiro com pragas e insultos, a voz estrangulada:

– Tome seu sujo, seu indecente, tome e meta…

Escandalizavam-se os passantes, o grave professor Epaminondas, a pulcra dona Gisa:

– Mulher mais sem compostura…– criticava o professor.

– É uma histérica… – definia a professora.

Apesar de bem conhecer dona Rozilda, testemunha que fora daquele e de outros furores, familiar de seu caráter difícil, de seu congênito azedume, ainda assim, na fila do elevador, tornava dona Norma a surpreender-se. Nunca imaginara pudesse perdurar a quizília entre a sogra e o genro mais além da morte, não concedendo dona Rozilda ao finado sequer uma palavra de lamentação, mesmo vazia de sentimento, puramente formal, da boca para fora. Nem isso:

– Até o ar que se respira aqui ficou mais leve depois que o desgraçado esticou a canela…

Dona Norma não pôde conter-se:

– Puxa! A senhora tinha mesmo raiva de Vadinho, hein?

– Oxente! E não era para ter? Um vagabundo sem eira nem beira, pau-d’água, jogador, não valia de nada… E se meteu na minha família, virou a cabeça de minha filha, tirou a desinfeliz de casa pra viver às custas dela…

Jogador, cachaceiro, vagabundo, mau marido, era tudo verdade, considerou, pensativa, dona Norma. Como odiar, no entanto, mais além da morte? Não se deve, no carrego dos defuntos, varrer e enterrar os ressentimentos e as discórdias? Não era essa a opinião de dona Rozilda:

– Me chamava de velha xereta, nunca me respeitou, ria nas minhas bochechas… Me enganou quando me conheceu, me fez de boba, me arrastou na rua da amargura… Por que hei de me esquecer, só porque está morto no cemitério? Só por isso?

3

Ao partir desta para melhor, o relembrado Gil, o tal molengas sem vontade, deixou a família em sérias aperturas, em precária situação. No seu caso não se tratava apenas de uma frase feita – “partiu desta para melhor” – , de um lugar-comum; e, sim, da expressão da verdade. Fosse o que fosse a esperá-lo nos mistérios do além – paraíso de luz, de música e anjos luminosos; tenebroso inferno com caldeirões a ferver; o úmido limbo; as peregrinações pelos círculos siderais; ou o nada, o não-ser apenas – qualquer coisa seria melhor se comparada à vida em comum com dona Rozilda.

Magro e silencioso, cada dia mais magro e mais silencioso, seu Gil sustentava sua tribo com modestas representações comerciais, produtos de reduzida aceitação, parco lucro apenas suficiente para as despesas: a gororoba diária, o aluguel do primeiro andar na ladeira do Alvo, as roupas dos meninos, os arrotos de burguesia de dona Rozilda com seus caprichos de grandeza, a ambição de conviver com famílias importantes, de penetrar nos círculos de gente apatacada. Embirrava dona Rozilda com a maioria dos vizinhos, desprotegidos da sorte – balconistas de lojas e armazéns, empregados de escritório, caixeiros e costureiras. Desprezava essa gentalha incapaz de esconder sua pobreza; dava-se ares, carregada de bazófia, atenciosa apenas com alguns habitantes da ladeira, as “famílias de representação” como repetia irada ao finado Gil quando o pegava em flagrante chupitando uma cervejinha na pouco recomendável companhia de Cazuza Funil, bicheiro e facadista, metido a filósofo, um dos mais discutíveis locatários do Alvo. Funil não era nome de família, será necessário esclarecer? Apenas significativo apodo, caracterizando-lhe a goela sempre aberta, a sede insaciável.

Por que Gil não freqüentava o dr. Carlos Passos, médico de clientela, o engenheiro Vale, mandachuva na Secretaria de Viação, o telegrafista Peixoto, senhor de idade, às vésperas da aposentadoria, tendo alcançado o cume da carreira postal, o jornalista Nacife, ainda moço mas arrecadando um dinheirinho apreciável com O Lojista Moderno, publicação dedicada, a acreditar-se em seu expediente, “à intransigente defesa do comércio baiano”, todos eles igualmente vizinhos na ladeira, os “de representação”? O parvo do marido não sabia sequer escolher suas amizades; quando não estava com Funil no Ponto Fino, na Baixa dos Sapateiros, metia-se na casa de Antenor Lima, a jogar gamão ou damas, talvez a única alegria verdadeira de sua vida. Antenor Lima, comerciante estabelecido no Tabuão e um dos mais destacados fregueses de Gil, mereceria classificar-se na lista dos vizinhos representativos, não fosse sua pública e notória mancebia com a negra Juventina, inicialmente sua cozinheira. Instalada agora na janela da casa própria do lojista, com empregada para varrer e arrumar, insolente e respondona, seus bate-bocas com dona Rozilda fizeram época na ladeira do Alvo. Pois bem: no passeio desse rebotalho sentava-se Gil, todo cheio de salamaleques, tratando a ordinária como se ela fosse senhora casada no padre e no juiz.

De nada adiantavam os esforços de dona Rozilda na direção das amizades influentes: a família Costa, descendente de velho político, dona de imensa roça no Matatu – o político virara até nome de rua e o neto Nilson era banqueiro e industrial; os Marinho Falcão, de Feira de Santana, em cujo armazém Gil fizera seu aprendizado quando jovem – fora seu João Marinho quem lhe emprestara dinheiro para iniciar-se na capital; o dr. Luís Henrique Dias Tavares, diretor de repartição, um cabeça de ouro, assinava artigos nos jornais, nome sonoro a rolar em sua boca com um gosto de parentesco: “É meu compadre, batizou o meu Heitor”.

Ao citar tais relações de categoria, espinafrando as de Gil, interrogava dramática os interlocutores, a vizinhança, a ladeira, a cidade e o mundo: que mal fizera ela a Deus para merecer o castigo daquele esposo, incapaz de dar-lhe padrão de vida condigno, à altura de sua linhagem e de seu meio? Tudo quanto era representante comercial prosperava, ampliando freguesia e escritório, vendo crescer o montante mensal das vendas, conseguindo novas e valiosas corretagens. Muitos compravam casa própria, quando nada terreno onde mais tarde construir. Alguns davam-se até ao luxo do automóvel, como um conhecido deles, Rosalvo Medeiros, alagoano arribado de Maceió há poucos anos, as mãos uma na frente, outra atrás, ambas agora na direção de um Studebaker. Tão lorde ficara esse Rosalvo a ponto de, certo dia, indo pela rua Chile, não reconhecer dona Rozilda e quase a atropelar, quando ela, pedestre e amável, atirou-se na frente do carro na ânsia de cumprimentar o próspero colega do marido. Não só o sujeito lhe metera um susto medonho com o ruído da buzina desatada como ainda a xingara, gritando-lhe desaforos:

– Quer morrer, piolho-de-cobra?

Em três ou quatro anos, com produtos farmacêuticos, lábia e simpatia, esse grosseirão obtivera automóvel, era sócio do Bahiano de Tênis, íntimo de políticos e ricaços, um fidalgo, meus senhores, cheio de empáfia, o rei na barriga! Dona Rozilda rangia os dentes, e o toleirão do Gil?

Ah!, Gil vegetava a pé ou de bonde, com suas amostras de atilhos, suspensórios, colarinhos e punhos duros, especialista em produtos fora de moda, reduzido a uma pequena freguesia de lojas suburbanas, de antiquados armarinhos. Não saía disso, marcando passo a vida inteira. Ninguém acreditava em sua capacidade, nem ele próprio.

Um dia cansou-se de tanta queixa e reclamação, de tanto se esforçar sem resultado nem alegria. Porto, cunhado de sua mulher, marido de Lita, irmã de Rozilda, dava ele também um murro safado para viver, ensinando desenho e matemática a rapazes num estabelecimento estadual para artesãos, nas lonjuras de Paripe. De trem, todos os dias, de manhã cedinho, levantando-se com o sol, regressando ao fim da tarde. Mas aos domingos, saía pelas ruas da cidade com uma caixa de tintas e pincéis a pintar coloridos casarios e tirava daquela ocupação tanta alegria a ponto de jamais ter sido visto de mau humor ou melancólico. Também casara-se com Lita e não com Rozilda, e Lita, o oposto da irmã, era uma santa mulher, cuja boca jamais se abrira para falar mal de vivente ou criatura.

Gil nem mesmo no jogo de damas ou de gamão obtinha progressos, e Antenor Lima só o aceitava de parceiro quando outro mais forte não aparecia; quanto a seu Zeca Serra, campeão da ladeira, nem assim, nem para matar o tempo – não tinha graça disputar com tabuleiro tão medíocre, descuidado e desatento. E ainda por cima dona Rozilda exigira sua definitiva ruptura com Cazuza Funil, quando o amigo – muito por baixo, recém-saído do xilindró, perseguido e processado como contraventor – mais carecia de solidariedade. E ele, Gil, calhorda completo, cortava esquinas para evitá-lo, submisso às ordens da esposa.

Concluiu de nada adiantar sua sacrificada labuta, aproveitou uns dias de inverno mais úmido para adquirir uma pneumonia barata – “nem sequer uma pneumonia dupla”, ironizou dr. Carlos Passos – e emigrou para o astral. Silenciosamente, numa tosse discreta e tímida. Fosse outro e poderia ter escapado, ter vencido a doença, pouco mais do que uma gripe. Gil, porém, estava cansado, tão cansado!, não se dispunha a esperar doença séria e grave. Além do mais, não tinha ilusões: doença de qualidade, importante, moléstia da moda, cara, falada nos jornais, não chegaria para ele, o melhor era mesmo contentar-se com sua mesquinha pneumonia. Assim o fez e, sem se despedir, faltou com o corpo, descansou.

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Litres'teki yayın tarihi:
26 şubat 2026
Yazıldığı tarih:
1966
Hacim:
640 s. 1 illüstrasyon
ISBN:
978-5-9925-2087-3
Telif hakkı:
КАРО
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