Kitabı oku: «Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа», sayfa 9

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Ao pé da ladeira, detiveram-se por uns minutos; o violino de Edgard Cocô soluçou os primeiros acordes, dilacerantes. Entraram a seguir o cavaquinho, a flauta, o violão – e Caymmi abriu o eco, soltou a voz em dueto com Vadinho, cujos gorjeios não valiam lá grande coisa. Grande era sua causa, sua paixão proibida: o desejo de desagravar a namorada, curar suas tristezas, apaziguar seu sono, trazer-lhe o consolo da música, prova de seu amor:

 
Noite alta, céu risonho
a quietude é quase um sonho
e o luar cai sobre a mata
qual uma chuva de prata
de raríssimo esplendor…
Só tu dormes, não escutas
o teu cantor…
 

A modinha de Cândido das Neves subia a ladeira mais depressa do que eles, apareciam cabeças curiosas, demoravam-se à janela presas ao fascínio da música, à voz de Caymmi. A negra Juventina batia palmas aplaudindo, era do partido de Flor e de Vadinho e doida por serenatas. Alguns despertavam com raiva, na idéia de protestar, mas a doçura da canção os vencia, adormeciam ouvindo o chamado de amor. Dr. Carlos Passos foi um desses: saltou da cama numa sanha assassina, seu dia era trabalhoso, começava no hospital às seis da manhã e por vezes só volvia à casa às nove da noite. Mas entre o quarto e a janela foi-se aplacando sua ira e trauteava a melodia ao debruçar-se no beiral para ouvir mais cômodo.

 
Lua, manda tua luz prateada
despertar a minha amada…
 

Estavam parados agora embaixo da luz de um poste, bem na esquina fronteira ao sobrado. Vadinho destacara-se um pouco do grupo para melhor situar-se sob o foco elétrico e mais facilmente ser visto por Flor. Os sons da flauta do dr. Silveira subiam pela parede, os ais do cavaquinho penetravam na sacada, o violino de Edgard Cocô abria as janelas do quarto da moça, ia arrancá-la da cama num estremecimento. “Deus do Céu, é Vadinho!” Correu para a janela, suspendeu a veneziana, lá estava ele sob a luz, os loiros cabelos, os braços estendidos para o alto:

 
Quero matar meus desejos
sufocá-la com meus beijos…
 

Alguns notívagos juntavam-se a escutar, Cazuza Funil saíra vestido num velho pijama, atraído pela música e pela possibilidade de alguma garrafa em mão dos seresteiros.

Na sacada do primeiro andar, surgindo da escuridão, apareceu dona Rozilda, sua cólera cortou a música e a poesia:

– Vadios! Vagabundos!

Mais alta a canção, a voz de Caymmi subia para as estrelas:

 
Canto…
e a mulher que eu amo tanto
não me escuta, está dormindo…
 

Onde encontrara Flor aquela rosa de tão vermelha quase negra? Vadinho a recolhia no ar, noite romântica de namorados, no céu a lua amarela e um perfume de alecrim, toda a ladeira a cantar em coro para Flor presa em seu quarto:

 
Lá no alto a lua esquiva
está no céu tão pensativa
e as estrelas tão serenas…
 

Desembocava dona Rozilda na porta da rua, escancarando-a, desfeito o coque, envolta numa bata enxovalhada e em ódio. Varou para o grupo, num desvario de fúria:

– Fora, fora daqui! – gritava em desespero. – Chamo a polícia, dou queixa na delegacia, cachorros!

Tão inesperada e violenta aparição – por instantes eles perderam o aprumo, sustiveram o canto. Dona Rozilda ergueu-se vitoriosa na rua em silêncio:

– Fora! Cambada de cachorros, fora!

Mas foi só um instante. Logo a flauta do dr. Silveira fez ouvir um som como um riso de mofa, como o assovio de um moleque, musiquinha mais de deboche e de sotaque:

 
Iaiá me deixe
subir nessa ladeira…
 

Então todos viram Vadinho adiantar-se em direção a sua futura sogra e diante dela, ao som da flauta, executar com perfeição e donaire, num catado de pés e num gingo de corpo, o passo do siri-boceta, o difícil e famoso passo do siri-boceta. Sufocada, em pânico, sem voz, dona Rozilda recolheu suas últimas forças, o suficiente para correr escadas acima.

A serenata reconquistou a noite e a rua, prosseguiu rumo à madrugada. Notívagos mais ou menos bêbados reforçaram o coro, o guarda-noturno surgiu em sua ronda e foi ficando por ali, a escutar e aplaudir. A garrafa pressentida por Cazuza Funil apareceu, o repertório era vasto. Cantaram Vadinho e Caymmi, cantou Jenner Augusto, cantou dr. Walter com voz profunda de baixo, cantou o guarda-noturno, seu sonho era cantar na rádio. Cantava a rua inteira na serenata de Flor, Flor reclinada em sua alta janela, vestida de babados e rendas, coberta de luar. Lá embaixo, Vadinho, galante cavalheiro, na mão a rosa de tão vermelha quase negra, rosa de seu amor.

12

No lar e no carinho de tia Lita e de seu marido Thales Porto, no Rio Vermelho, procurou e obteve abrigo a perseguida Flor, quando fugiu de casa para desposar Vadinho.

Porto ainda vacilara: não queria encrencas com dona Rozilda, mulher de cabelo na venta e ousada; era homem de bom viver. Tranqüilo em seu canto, com seu pequeno emprego e sua mania de pintura. A cunhada já o acusara, e a dona Lita, de se oporem os dois ao namoro da sobrinha, isso quando, nas férias, ela enxergava em Vadinho um poço de virtudes, um deus-me-acuda, um jesus-menino, só lhe faltando, para santo de igreja, o resplendor. Uma tola metida a sabichona, enganjenta, cheia de birras e calundus: eis, dona Rozilda; Porto não queria embeleco com mulher tão confusa e petulante. Mas que fazer, se Flor aparecera descabelada e em prantos, trazendo de escolta um Vadinho sério e solene, muito cônscio de suas responsabilidades? Vinham confessar o irremediável; ele tinha lhe tirado os tampos, comido o cabaço, necessitavam casar. Quisesse ou não dona Rozilda, com ou sem maioridade, tinham de casar, Flor deixara de ser moça donzela e só o matrimônio lhe restituiria a honra agora no bucho de Vadinho.

Flor, num pranto deslavado, pedia perdão aos tios. Se a tanto chegara, desprezando os rígidos princípios familiares, rompendo o medo e o pudor, entregando sua virgindade ao pertinaz fiscal de jardins, a única culpada verdadeira era dona Rozilda, com suas artimanhas, sua intransigência, a proibir-lhe qualquer contato com o namorado, aferrolhando-a dentro de casa, como se ela, mulher-feita, quase de maior, pouco faltava, fosse uma criança. Até bater lhe batera, quem suportaria tanto carrancismo? Afinal Vadinho não era nenhum celerado, nenhum facínora, foragido da justiça ou cangaceiro do grupo de Lampião; nem ela Flor, tinha quinze anos, inocente de tudo, sem nada saber da vida. E as despesas da casa não era Flor quem as assegurava, pagando aluguel e comida? A mãe pouco contribuía, sem Rosália o atelier de costura se reduzira a uma ou outra encomenda. Em compensação, desenvolvera-se a escola de culinária, dela viviam mãe e filha. Por que então se arrogava dona Rozilda o direito de resolver sozinha, de condenar sem apelação? Recusando-se a ouvir pessoas sensatas como tia Lita, seu Antenor Lima e o próprio dr. Luís Henrique, padrinho de Heitor, cuja opinião sempre acatara antes. Dessa vez repelira seus conselhos com veemência. Thales Porto sacudia a cabeça: a parenta perdera de todo a tramontana.

Nem Flor nem Vadinho podiam suportar tal situação. Para o rapaz o caso se transformara em definitiva e emocionante parada. Como na roleta ou nos dados, de frente para o azar. Um desejo de Flor o possuía por completo, da cabeça aos pés, turvando-lhe o juízo, como se não existisse outra mulher no mundo, como se ela – com seu corpo rechonchudo e suas bochechas redondas – fosse a mais bela e apetecível fêmea da Bahia, única capaz de saciar sua fome e sua sede, de conter sua solidão. “Não, nunca, jamais, enquanto eu tiver vida”, repetia dona Rozilda repelindo as renovadas propostas de casamento de Vadinho, transmitidas por parentes e amigos.

A própria tia Lita tinha intervindo dias antes, como lembrava Flor. A outra saíra com quatro pedras nas mãos e uma ladainha de pragas:

– Enquanto Deus me der vida e saúde esse canalha não casa com minha filha. Não que ela mereça esse cuidado, é uma sonsa, uma ingrata, nasceu para sujeitinha. Mas eu não consinto, enquanto estiver na minha dependência. Prefiro ver ela morta do que casada com esse vagabundo…

Lita quisera argumentar, convencer a irmã, romper aquela parede de ódio: o amor fazia milagres, por que não admitir a regeneração de Vadinho? Dona Rozilda rosnava acusadora:

– Basta o desgosto que você deu à família, quando casou com Porto. Depois ele consertou, mas se não consertasse? Se continuasse na descaração a vida toda? – pronunciava “descaração” com todas as letras, tornando a palavra ainda mais pesada de vício e de culpa.

Referia-se ao passado de Porto, cuja mocidade decorrera no Rio de Janeiro, no meio teatral, com excursões pelo interior do país, varando cidades, cenarista e coreógrafo de mambembes, tendo sido também, por força das circunstâncias, ator e ponto, diretor e figurinista. Depois do casamento, assentara a cabeça, obtivera colocação na Bahia. De sua vida na ribalta restaram apenas um álbum de recortes e um punhado de anedotas. Não perdia ocasião de exibir o álbum e de contar as anedotas.

– E não deu certo? – reagia dona Lita, no fundo orgulhosa do passado boêmio do marido. – Você sabe de casamento mais feliz? Ademais não tenho nenhuma vergonha do trabalho dele no teatro. Não estava roubando ninguém, nem enganando, nem deflorando donzelas…

– E como havia de deflorar, se era tudo umas meretrizes tudo de fiofó arrombado. Onde ele ia arranjar donzelice pra comer? Vontade não havia de lhe faltar, boa bisca ele não era…

Amigueira e bondosa, sob certos aspectos o contrário da irmã, dona Lita não suportava, no entanto, insultos ao esposo e, se a esporeavam, subia-lhe o sangue às narinas:

– A senhora faça o favor de meter sua língua no rabo e não falar mal de meu marido, não vim aqui para ouvir desaforo seu…– Dona Rozilda, obediente, enfiava a língua no rabo, a resmungar desculpas. Dona Lita era a única pessoa no mundo por quem nutria estima e respeito, com ela jamais brigava.

– Vim aqui porque quero bem a Flor, como se ela fosse minha filha… Por que diabo você não deixa a menina casar, ela gosta do rapaz e ele está caído por ela. Porque ele não é um todo-poderoso como você se meteu na cabeça?

– Não meti nada na cabeça, você está cansada de saber, eles abusaram de mim, os miseráveis. – A lembrança do monstruoso debique a enfurecia. – E sabe de uma coisa? É melhor a gente dar essa conversa por finda. Com aquele traste ela não casa enquanto estiver sob minha guarda. Depois dos vinte e um anos, se ainda quiser, pode ir embora e se desgraçar. Antes eu não deixo e acabou-se.

– Tu tá procurando sarna pra se coçar… Tu vai ver…

E assim era, pois, ante o fracasso dessa derradeira embaixatriz, Flor resolveu atender à voz da razão. Ou seja: aos cochichados argumentos de Vadinho a tentar convencê-la da única solução prática, viável, possível, e ao mesmo tempo deliciosa, terna e doce prova de amor e confiança. Convencida, precipitou-se a atender: abriu as coxas e deixou que ele a comesse como há muito lhe pedia e suplicava. Para referir toda a verdade, sem escamotear detalhes (nem mesmo escamoteando-os na simpática intenção de manter íntegros aos olhos do público a inocência e o recato de nossa heroína, fazendo-a ingênua vítima de irresistível dom-juan), deve-se dizer que Flor estava doidinha para dar, para dar e dar-se, entregar-se por inteira, um fogo a queimar-lhe as entranhas e o pudor, desatinada labareda.

Um amigo endinheirado, Mário Portugal, solteiro e estróina naquele tempo, emprestou a Vadinho oculta casinhola para os lados de Itapuã. A viração desatava os cabelos lisos e negros de Flor, punha-lhe o sol azulados reflexos. No marulho das ondas e no embalo do vento, Vadinho arrancou-lhe a roupa, peça a peça, beijo a beijo. A lhe dizer, rindo, enquanto a despia e dela se apoderava:

– Não sei vadiar nem coberto de lençol quanto mais vestido com roupa. Tu tem vergonha de quê, meu bem? A gente não vai se casar, não é para isso mesmo? E mesmo que não fosse, a vadiação é coisa de Deus, foi ele quem mandou que se vadiasse. “Vão vadiar por aí, meus filhos, vão fazer neném” que ele disse e foi das coisas mais direitas que ele fez.

– T’esconjuro, Vadinho, não seja herege… – Flor enrolava-se numa colcha vermelha. Tudo naquele quarto era excitante; quadros de mulheres nuas nas paredes, reproduções de desenhos onde faunos perseguiam e violentavam ninfas, um espelho imenso em frente ao leito, o tal Mário era um lorde, criara uma atmosfera pecaminosa, perfumes na penteadeira, bebidas no gelo. Flor sentia um frio no ventre.

– Se ele quisesse que a gente não vadiasse, fazia logo o povo todo capado e os meninos nasciam órfãos de pai e mãe… Não seja tola, deixa essa coberta…

Suspendeu o trapo vermelho, Flor desabrochou na brancura do lençol, Vadinho teve uma exclamação de alegre surpresa:

– Mas tu é pelada, meu bem, quase pelada… Que coisa doida e mais linda…

– Vadinho…

Com o seu corpo cobriu-lhe o pudor, ela cerrou os olhos. Rompeu a aleluia sobre o mar de Itapuã, a brisa veio pelos ais de amor, e, num silêncio de peixes e sereias, a voz estrangulada de Flor em aleluia; no mar e na terra aleluia, no céu e no inferno aleluia!

Na manhã daquele dia Flor saíra a ajudar dona Magá Paternostro, aquela ricaça sua antiga aluna, num almoço de aniversário, rega-bofe para mais de cinqüenta pessoas e ainda mesas de doces e salgados pela tarde. Dali partiu para encontrar-se com Vadinho e aconteceu o que tinha de acontecer. Dona Rozilda a fazia no fogão de dona Magá, ela estava empernada com Vadinho em Itapuã.

Daquele dia em diante a vida de Flor foi inventar pre-textos para voltar com Vadinho à casinhola da praia. Recorria a amigas e a alunas: “Se mamãe perguntar se eu saí com você, diga que sim”. Diziam, todas lhe tinham afeição e muitas simpatizavam ativamente com sua causa. Após a aula, uma delas anunciava:

– Vou levar Flor comigo à matinê, a pobre precisa esquecer…

Parecia estar esquecendo, rejubilava-se dona Rozilda. Nos últimos dias Flor já não mantinha a cara tão amarrada, desistira de ficar metida no quarto à espera de vê-lo surgir na rua – ao cafajeste – para então assumir ostensiva a janela, em franca provocação. O não-sei-que-diga demorava-se a tirar prosa no passeio da negra Juventina. Aquela peste e outras descaradas da vizinhança serviam de espoleta para o namoro, de leva-e-traz, dona Rozilda as tinha de olho, um dia lhe pagariam com juros. Flor atirava bilhetes a Vadinho, beijos com a ponta dos dedos. Até dona Rozilda perder a cabeça e explodir em desaforos contra a filha e o tratante, o patife a rir na esquina.

Nos últimos dias, no entanto, dona Rozilda sentira prenúncios de mudança. A atitude de Flor já não era a mesma, já não cantava modinhas tristes, não tinha na boca o tempo todo o asqueroso apelido do namorado, e ele deixara de mostrar-se na rua. Reaparecera o sorriso de Flor, voltara a dar bom-dia e boa-tarde, a responder quando dona Rozilda lhe dirigia a palavra.

Na Baixa dos Sapateiros a eventual amiga recomendava despedindo-se:

– Juízo, hein! – e ria cúmplice.

Riam-se também Flor e Vadinho, enfiavam-se num táxi – sempre o mesmo, pertencia ao Cigano, chofer de praça e velho companheiro de Vadinho – , a toda velocidade no rumo de Itapuã, as mãos agarradas, roubando-se beijos pelo caminho. Cigano ia buscá-los de volta ao crepúsculo, vinham sem pressa, a cabeça de Flor repousando no ombro de Vadinho, os negros cabelos ao sabor da brisa, e uma lassidão, uma ternura – o desejo de continuarem juntos, por que se despediam?

Vadinho, numa exigência crescente, reclamava passar uma noite inteira com ela, não mais lhe bastando tê-la a seu lado e possuí-la; queria adormecer em sua respiração, dormir em seu sono. Também Flor desejava essa noite completa, essa posse mais além dos limites do relógio, da hora contada e cada vez menor para seu anseio.

– Mas… – disse-lhe uma tarde quando ele novamente reclamou – …se eu passar a noite fora não posso mais voltar para casa…

– E para que voltar? A gente se amarra e acabou-se. Tu é que não quis ainda botar tudo em pratos limpos… Não sei por quê.

– E onde vou ficar até o casamento?

Fixaram-se em tia Lita e tio Porto, a casa do Rio Vermelho era um segundo lar para Flor. Tendo assim resolvido, ela, no dia seguinte, após a aula, trancou-se no quarto e arrumou seus teréns, encheu duas malas e um baú. Depois fechou a porta, pôs a chave na bolsa e saiu dizendo que ia até o Mercado de Iansã, na Baixa dos Sapateiros. Ali, Vadinho a esperava com o táxi, mais uma vez Cigano os conduziu mas, dessa vez, só na manhã seguinte retornou a buscá-los.

A uma conhecida, vinda por novidades e costuras, dona Rozilda contou:

– Flor saiu para fazer compras, volta já. Felizmente não fala mais do tipo, anda menos assanhada…

– Acaba esquecendo… É sempre assim…

– Tem de esquecer, queira ou não queira…

A visita demorou-se, a conversar, dona Rozilda contando coisas de uma família recente na ladeira, uma gente de Amargosa.

– Bem, Flor está tardando, vou embora. Lembranças para ela.

Sozinha, dona Rozilda à espera. Primeiro levemente em dúvida, logo inquieta, pela noite sabendo de certeza absoluta que Flor perdera o juízo e fugira de casa. Forçou com um canivete a fechadura do quarto, viu as malas feitas, o baú repleto. A fingida estivera a enganá-la, comportando-se como se houvesse rompido com o canalha, para poder sair desatinada a desgraçar-se. Dona Rozilda ficou de luz acesa a noite toda, a taca ao alcance da mão. Ah!, se ela tivesse a audácia de voltar…

Quando, no outro dia, antes do almoço, a irmã e o cunhado apareceram, Porto todo cheio de dedos, ela fez uma cena daquelas, arrancando os cabelos, fora de si:

– Não quero saber de nada… Aqui não entra mulher-dama, lugar de puta é em castelo…

Dona Lita subiu nos azeites:

– Faça o favor de me respeitar. Flor está em minha casa e minha casa não é castelo. Se você não se importa com a felicidade de sua filha, isso é com você. Eu e Thales nos importamos e muito. Vim aqui para lhe dizer que Flor vai se casar. Se você quiser, o casamento sai daqui, tudo direito e em ordem como deve ser. Se você não quiser, sai de minha casa e com muito gosto.

– Rapariga não casa, se ajunta…

– Escuta, mulher…

De nada adiantaram a dialética de tia Lita e a silenciosa presença de tio Porto. Não assistiria nem daria seu acordo ao casamento, conseguissem autorização com o juiz, se quisessem, revelando toda a bandalheira, exibindo a desonra da ingrata. Não contassem com ela para encobrir a patifaria, para tapar o rombo da descarada.

No dia seguinte viajou para Nazaré, onde o filho a recebeu sem entusiasmo. Ele próprio, Heitor, pensava em casar-se e só não o fizera ainda por não lhe permitir o ordenado.

Disposto a fazê-lo, no entanto, apenas fosse promovido e pudesse economizar alguns mil-réis. Já tinha noiva em vista: uma ex-aluna de Flor, aquela de olhos molhados, que atendia por Celeste.

13

Indo correr no Sodré uma casa anunciada para alugar, Flor deparou com outra ex-aluna sua, dama de realce, esposa de comerciante da Cidade Baixa, dona Norma Sampaio, pessoa muito alegre e novidadeira, bonitona, de cuja bondade natural e generoso coração já se deu notícia anterior. Residia ela nas vizinhanças.

A casa estava na medida das necessidades de Flor, para morada e escola, sendo, ao demais, de aluguel relativamente barato. Pois então se considerasse desde logo inquilina, garantiu-lhe dona Norma; o proprietário do imóvel era seu conhecido, dar-lhe-ia a preferência, com certeza. Deixasse a seu cuidado, não precisava preocupar-se.

Foi dona Norma de muito conforto e consolo em todo aquele transe. Apoderou-se dos diversos problemas da moça e concorreu para a solução de todos eles, a todos deu jeito.

Para começar, levantou-lhe a moral abatida. De quanto se passara Flor lhe fez minucioso relato. Dona Norma saboreava os detalhes, não lhe viessem com história contada às carreiras, pulando pedaços. Flor sofria com a impressão que o mundo inteiro tivera conhecimento de seu mau passo (“mau passo” era a expressão usada por tia Lita, delicadamente), como se ela trouxesse o estigma da mentira estampado no rosto: mulher sem-vergonha, conhecedora de homem e a bancar moça solteira.

– Ora, menina, deixe de ser tola… Quem é que sabe que você deu? Quatro ou cinco pessoas, meia dúzia, se muito e acabou-se… Se você quiser, pode até casar de véu e grinalda e quem é que vai reclamar? Sua mãe viajou; ela, sim, era capaz de vir fazer escândalo na porta da igreja…

Flor não podia ocultar a vergonha, agira mal, mas não tivera outro jeito. Para dona Norma todo aquele horror reduzia-se a nada:

– Isso de dar um pouquinho antes de casar sucede a três por dois e com gente muito boa, minha cara…

Desfiava vasto e curioso noticiário, consoladores exemplos. A filha do dr. fulano, aquele da faculdade, não dera a um amigo do noivo às vésperas do casamento, rompendo o compromisso, fugindo com o outro, casando com ele às pressas? E atualmente não era a nata da sociedade, com o nome nos jornais: “Dona fulana recebeu os amigos… etecétera e tal…”? E aquela outra fulaninha, filha do desembargador, não foi pega dando ao noivo – essa pelo menos dava ao próprio noivo – por detrás do Farol da Barra? O guarda os surpreendeu em flagrante, só não levou os dois para a delegacia porque o diligente cavalheiro soltara a gorjeta alta. Mas exibira a meio mundo a calcinha da sapeca, aliás uma lindeza de rendas negras. Nem por isso, com todo esse desfile de roupa íntima, ela deixou de casar de véu e grinalda, um vestido por sinal belíssimo, a fulana tinha gosto e dinheiro. E aquela outra sicrana – o pai um mata-mouros que nem dona Rozilda, trazendo as filhas num cortado, esbregues medonhos, presas em casa – surpreendida em Ondina, nos matos, a dar a um homem casado, a um compadre de seus pais? Casara depois com um pobre-diabo e agora dava quanto podia, “quanto mais melhor” era seu lema; dava a solteiros e casados, a conhecidos e indiferentes, a ricos e pobres. “Muita gente, minha filha, só não dá antes de casar porque não sabe que é tão bom ou porque o noivo não pede. Afinal, antes ou depois, que diferença faz, me diga?”

Não apenas minimizou sua falta, devolvendo-lhe o ânimo, como a assistiu e dirigiu nas compras indispensáveis para tornar a casa habitável, móveis e utensílios. Inclusive a cama de ferro, com as cabeceiras e os pés trabalhados, adquirida em segunda mão a Jorge Tarrapp, leiloeiro com loja de antigüidades e velharias à rua Rui Barbosa e, como não podia deixar de ser, amigo de dona Norma. Um bom sujeito, esse Jorge, sírio alto e vermelho, quase apoplético; ao saber do próximo casamento de Flor, ofereceu-lhe de quebra e presente meia dúzia de cálices para licor. Dona Norma concorreu com um par de toalhas de banho e de rosto, toalhas alagoanas, de primeira. E lhe cedeu, pelo preço antigo de custo ou seja quase de graça, sensacional colcha de cetim azul-hortênsia com ramos de glicínias, estampados em lilás, um monumento de chique. Dona Norma a levara em seu pomposo enxoval, peça de resistência, presentão de uns tios residentes no Rio. Pois bem; o maníaco do Zé Sampaio tomara birra da colcha, segundo ele o lindo azul-hortênsia era um roxo funéreo e aquele trapo só servia para cobrir esquifes. Por causa da maldita colcha quase brigam na própria noite do casamento. Não fosse dona Norma estar morta de curiosidade pelo que se iria passar, e teria reagido aos resmungos e às má-criações de Zé Sampaio. Não se conformara ele enquanto a coberta não foi guardada e para sempre. Nunca mais teve uso, nova em folha, na rua Chile, custava um dinheirão.

Por falar em colcha, a contribuição única de Vadinho para o enxoval constou de colorida colcha de retalhos. Obra coletiva das raparigas do castelo de Inácia, todas elas admiradoras do noivo, a começar pela nobre Inácia, mulata de cara picada de bexiga, a mais jovem casteleira da Bahia, nem por isso menos experiente. De quando em quando Vadinho aportava em seu leito, nele em xodó se demorando dias e semanas.

Não lhe cabia culpa de comparecer com tão pequena cota no total desses intermináveis gastos onde as economias de Flor, economias de anos de trabalho, se consumiam rápidas. Muito desejara Vadinho arcar com todas as despesas ou com a maior parte, para tanto muito esforço despendera. Nunca os amigos o haviam visto assim nervoso e persistente nas mesas de roleta, mas o 17 – seu número – andava escasso, era como se houvesse sido retirado da numeração. Tentou igualmente no grande e no pequeno, na ronda e no bacará; a sorte estava arredia contra ele, urucubaca das miúdas. Esforçou-se a ponto de já não ter a quem morder e esfaquear, a quem pedir empréstimo, obrigado a recorrer à própria noiva, afanando-lhe uma pelega de cem.

– Não é possível que o azar continue hoje, meu bem. Vou amanhecer aqui com uma carroça de dinheiro, tu compra meia Bahia sem esquecer uma dúzia de champanha para o dia do casório.

Não trouxe nem dinheiro nem champanha, estava mesmo azarado, até quando iria chorar a má sorte?

Assim, só houve champanha no casamento civil, realizado em casa dos tios. Thales Porto abriu uma garrafa e o juiz brindou com os nubentes e a família. Também o ato religioso foi simples e rápido, compareceram apenas algumas amigas íntimas de Flor e seu Antenor Lima, além de tia Lita e tio Porto (e dona Norma, é claro). Dona Magá Paternostro, a milionária, não pôde vir mas mandou pela manhã uma bateria de cozinha, esse sim, um presente útil. De parte de Vadinho, apenas o diretor do Departamento de Parques e Jardins da prefeitura – a quem o relapso funcionário, aproveitando o matrimônio como pretexto, esfaqueara, assim como aos colegas – , Mirandão e esposa, senhora magra e loira, avelhantada, e Chimbo. A presença do delegado auxiliar levou Thales Porto a comentar para dona Lita: nem tudo era balela na história tramada pelos capadócios para debicar de dona Rozilda. O parentesco de Vadinho com o importante Guimarães, isso pelo menos não era invenção.

Celebrou a cerimônia religiosa d. Clemente, capelão de Santa Teresa, graças a um pedido de dona Norma. Vadinho exibia sua vistosa elegância de cabaré, Flor toda em azul e em sorrisos, os olhos baixos. Dona Norma não conseguira convencê-la a ir de branco, com véu e grinalda, a boba não tivera coragem. As alianças foram as de Mirandão, emprestadas na hora. Na véspera, no Tabaris, haviam feito uma coleta e juntado o dinheiro necessário para Vadinho pagar as alianças já escolhidas na joalheria de Renot. Meia hora mais tarde Vadinho perdeu até o último tostão em casa de Três Duques. Ainda assim poderia tê-las obtido fiado, se as tivesse ido buscar. O joalheiro, se bem com fama de esperto, não conseguia resistir à lábia de Vadinho, por mais de uma vez lhe emprestara dinheiro. Tresnoitado, porém, o noivo dormira toda a manhã, saindo às carreiras para o Rio Vermelho no táxi do Cigano.

Quando já deixavam a igreja, surgiu o banqueiro Celestino empunhando um ramalhete de violetas. Foi apresentado a Flor – dona Flor, a partir de agora, como compete a uma senhora casada. Beijou-lhe a mão, desculpou-se pelo atraso, acabara de saber, nem tivera tempo de comprar uma lembrança. Passou discreto uma cédula a Vadinho, os convidados, a começar por Chimbo e d. Clemente, vinham pressurosos cumprimentar o mandachuva português.

Os recém-casados despediram-se no pátio do convento, apenas dona Norma os acompanhou até a nova residência em cuja fachada já fora suspensa a tabuleta da Escola de Culinária Sabor e Arte. Na porta de casa, dona Flor convidou a vizinha:

– Entre pra conversar um pouquinho…

Dona Norma riu, maliciosa:

– Só se eu fosse bronca… – apontou as nuvens escuras no mar. – Está chegando a noite, é hora de dormir…

Vadinho concordava:

– Falou pouco e disse tudo, vizinha. Aliás, para esse assunto eu tenho disposição a qualquer hora, com sol ou de noite, não faço diferença e não cobro extraordinário… – Abraçou dona Flor pela cintura, saiu andando com ela pelo corredor e, numa pressa, a ia desabotoando e despindo.

No quarto, derrubou-a em cima da colcha azul-hortênsia, arrancava-lhe combinação e calça. Dona Flor nua, estendida no leito, as primeiras sombras de crepúsculo caindo-lhe sobre os seios erguidos.

– T’esconjuro! – disse Vadinho – Essa coberta que tu arranjou, meu bem, parece mortalha de defunto. Tira isso da cama, minha peladinha, traz aquela de retalhos, em cima dela tu vai parecer ainda mais porreta. Essa, a gente guarda pra botar no prego, deve dar um dinheirão…

Sobre a colorida colcha de retalhos, muda em seu recato, coberta apenas com a meia-sombra de crepúsculo, dona Flor finalmente casada. Dona Flor com seu marido Vadinho; ela mesma o escolhera sem dar ouvidos aos conselhos das pessoas experientes, contra a expressa vontade de sua mãe, e, mesmo antes de casar-se, a ele se entregara sabedora de quem ele era. Podia estar a fazer uma loucura, mas, se não a fizesse, não tinha motivo para viver. Um fogo a consumia, vindo da boca de Vadinho, de seu hálito, e seus dedos queimavam-lhe a carne como chamas. Agora, casados, com todo o direito ele a despia, e a seu lado, no leito de ferro, a olhava a sorrir. Seu marido bonito, penugem doirada a cobrir-lhe braços epernas, mata de pêlos loiros no peito, a cicatriz da navalhada no ombro esquerdo. Estendida junto a ele, dona Flor parecia uma negra, negra e pelada. Nua por dentro também, amargando de desejo, fremente, com pressa, muita pressa, como se Vadinho lhe despisse a alma. Ele dizia coisas, maluquices.

Vadiaram até não mais poder, quando ela então puxou a colcha, se cobriu, adormeceu. Vadinho sorria e lhe catava cafuné, Vadinho seu marido. Belo e másculo, terno e bom.

Pela madrugada dona Flor acordou, o despertador à cabeceira marcava duas horas da manhã. Vadinho não estava na cama, dona Flor pôs-se de pé, saiu a procurá-lo pela casa. Vadinho sumira, fora arriscar com certeza os cobres dados pelo banqueiro. Na própria noite de núpcias, era demais. Dona Flor chorou suas primeiras lágrimas de casada, rolando no colchão, roída de desgosto, rangendo os dentes de desejo.

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Yaş sınırı:
0+
Litres'teki yayın tarihi:
26 şubat 2026
Yazıldığı tarih:
1966
Hacim:
640 s. 1 illüstrasyon
ISBN:
978-5-9925-2087-3
Telif hakkı:
КАРО
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