Kitabı oku: «Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа», sayfa 8
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Tocava dona Rozilda os cimos do poder, sentia o gosto sem igual da fama; Vadinho tocava os seios rijos de Flor no escuro da escada, sentia o gosto sem igual da boca medrosa e sedenta da moça, mordia-lhe os lábios. Revelava-lhe um mundo apenas suspeitado de prazeres proibidos, ganhando a cada noite de namoro uma parcela de sua resistência e de seu corpo, de seu pudor, de sua oculta emoção. O desejo a consumia numa fogueira de altas labaredas, ardiam brasas em seu ventre, mas Flor buscava conter-se e coibir-se. Sentindo-se, entretanto, dia a dia menos senhora de sua própria vontade, de recusa frágil, de relutância débil, submissa escrava do rapaz audacioso, que já se apoderara de quase todo o seu corpo queimado de uma febre sem remédio, ai, sem remédio.
Insolente Vadinho! Não lhe declarara amor, não fizera praça de sentimentos apaixonados, não lhe pedira sequer autorização para namorá-la. Em vez de frases poéticas, de termos alambicados, ela ouvia duvidosos conceitos, insinuações mal-intencionadas. Subindo a ladeira do Alvo, na pista de Flor (cujo retorno da casa de tia Lita, no Rio Vermelho, dera-se dias após a festa de Pergentino), o petulante, ao ler o anúncio da escola de culinária, murmurou-lhe ao ouvido, num sussurro romântico de quem lhe fizesse inocente galanteio:
– Escola de Culinária Sabor e Arte… – Repetiu: – Sabor e Arte… – Baixou a voz, o bigodinho roçando a orelha da moça: – Ah!, quero saborear-te… – não apenas um trocadilho de mau gosto mas também franco aviso de suas intenções, deslavada plataforma, claro programa de namoro.
Flor nunca tivera um namorado assim, tão diferente dos outros, nem imaginara namorar daquele jeito. Como não o mandou imediatamente embora?
Não era Flor uma dessas debochadas janeleiras, de idílio escandaloso nos cantos de rua, nos pés de escada, no esconso das portas. Jamais gaiato algum fora além de tímido beijo, Pedro Borges apenas aflorou-lhe a face, ela não admitia intimidades. Bastava o atrevido estender a mão na ousadia de tocá-la, e Flor enchia-se de indignação e o expulsava, como a guardar-se por inteiro para aquele a quem realmente amasse. A esse, sim, nada recusaria, e esse era Vadinho; eis por que não o despachou como aos outros, sem grosseria nem escândalo mas firme e inflexível.
Não o repeliu sequer da primeira vez e, no entanto, conheciam-se apenas há algumas horas, pois foi no domingo do Bando Anunciador, no dia seguinte ao da festa em casa do major Tiririca. Em companhia de amigas, viera Flor apreciar os blocos, Vadinho apareceu e encostou. As outras afastaram-se, entre risinhos, certamente chegara a hora da indispensável declaração (declaração mais ou menos veemente e florida conforme o temperamento e a veia do pretendente; alguns mais timoratos preferiam fazê-la em carta, utilizando, quando necessário, a ajuda do Secretário dos amantes). Elas vinham mesmo comentando o chamego do rapaz: não largara Flor sozinha na festa, seu par constante. Ia agora declarar-se, era um momento grave: cabia à moça logo conceder o sim ou pedir tempo para melhor reflexão, em geral vinte e quatro horas. Flor anunciara às amigas seu propósito de deixar Vadinho padecer uns dias mas as outras duvidaram, teria ela coragem para tanto?
Não abriu ele a boca para fazer declaração alguma, a conversa girou divertida em torno de motivos diversos, um doudivanas esse Vadinho! Dois animados blocos carnavalescos, em desafio, juntos se encontraram no oitão da igreja de Santana e, aproveitando-se do atropelo estabelecido quando o povo acorreu e ali se comprimiu, Vadinho a apertou contra si, abraçando-a por detrás, cobrindo-lhe os seios com as mãos, beijando-lhe sôfrego o cangote. Ela estremeceu apenas, semicerrou os olhos, deixou-o fazer, quase morta de medo e de alegria.
Os dias iniciais desse namoro sem declaração formal e sem formal consentimento, foram inesquecíveis. Todos os anos, no verão, na oportunidade das festas do bairro, costumava Flor passar uns tempos com os tios, aos quais era muito afeiçoada. No mês de fevereiro a escola de culinária não funcionava.
Vinha para a procissão do presente a Iemanjá, a 2 de fevereiro, quando os saveiros cortam as ondas carregados de flores e dádivas para dona Janaína, mãe das águas, da tempestade, da pesca, da vida e da morte no mar. Ofertava-lhe um pente, um frasco de perfume, um anel de fantasia. Iemanjá habita no Rio Vermelho, seu peji ergue-se numa ponta de terra sobre o oceano.
Em companhia das moças do bairro, divertia-se em intenso e festivo programa: pela manhã banho de mar; passeios à tarde no Farol da Barra e em Amaralina, por vezes iam até a Pituba; a organização e os ensaios da prancha de Carnaval – alegre trabalheira; piqueniques em Itapuã, em casa do dr. Natal, médico amigo de tio Porto, ou na lagoa do Abaeté, com violas e cantigas; batalhas de confete. À noite circulavam no largo de Santana ou na Mariquita, por entre as barracas coloridas, quando não havia dança programada em residência de família amiga ou elas próprias não invadiam e ocupavam uma sala de visitas, improvisando um assustado.
A casa de Porto, florida de trepadeiras e acácias, ficava na ladeira do Papagaio, e aos domingos, invariável, o tio saía com outro amante da pintura, residente no largo, um senhor sergipano, acanhado como ele só, um certo José de Dome; saíam a desenhar casarios e paisagens. Uns dois anos antes, quando da partida de Rosália e Antônio Morais para o Rio, Flor, sozinha e triste, chegara a sentir uma vaga inclinação pelo pintor, já homem maduro, de seus quarenta anos se bem aparentasse menos, caboclo rijo e seco. Propusera-lhe ele um dia, vencendo a extrema timidez, pintar-lhe o retrato e o iniciara, numa tela de ocres e amarelos lancinantes onde a cor mate de Flor ressaltava transfigurada. “Negócio de maluco, um disparate, aliás esse fulano é leso”, definiu dona Rozilda, que em matéria de arte não ia além do cromo das folhinhas, ao ver aquela explosão de tinta e luz. Nunca chegaria José de Dome a concluir o retrato, no entanto. Não houvera tempo, Flor retornara à ladeira do Alvo, e, se bem prometesse vir posar aos domingos, jamais o fez; tampouco ela entendia a pintura do sergipano. Simpatizava, sim, com seu sorriso e sua solidão. Mas aquele sentimento nem chegara a ser namoro, pois não se pode chamar namoro aos longos silêncios e aos breves sorrisos das horas de pose. Não passara de efêmera inclinação a durar apenas os dias de veraneio, incapaz sequer de romper o acanhamento do artista. Ao voltar ao Rio Vermelho, Flor reencontrou o amigo do tio com a mesma cordialidade, mas fora quebrado o encanto daquelas férias anteriores, era como se nada houvesse acontecido entre eles. Quanto ao retrato por acabar está até hoje na parede do atelier do pintor, no terceiro andar de um velho sobradão, na esquina do largo de Santana; quem quiser pode vê-lo, é só tomar coragem e subir as carunchosas escadas.
Tão diferente com Vadinho… Como se irrefreável avalanche a arrastasse, ele a dominou e decidiu de seu destino. Flor compreendeu, ao fim daqueles perfeitos e rápidos dias do Rio Vermelho, não lhe ser mais possível viver sem a graça, a alegria, a louca presença do rapaz. Fez quanto ele lhe pediu: nas festinhas não dançou com nenhum outro, de mãos dadas com ele por entre a quermesse do largo, desceu à praia escura para no negrume da noite melhor se beijarem, como ele sugeriu; sentindo num arrepio a mão de carícias a subir por baixo de seu vestido, acendendo-lhe as coxas e as ancas. Dona Rozilda, quem jamais poderia imaginá-la assim democrática, de tamanha liberalidade? Fechava os olhos aos evidentes abusos daquele namoro tão sem controle e desassuntado, a ponto de tia Lita, pouco afeita a carrancismos, no entanto, estranhar e advertir:
– Você não acha, Rozilda, que Flor está dando corda demais a esse moço? Saem juntos por toda parte como se fossem noivos, nem parece que se conheceram noutro dia…
Dona Rozilda reagia brava, em tom de briga:
– Não sei que diabo você e o seu marido têm contra Vadinho… Só porque o rapaz é rico e ocupa posição de destaque, é um zunzunzum contra ele, não sei por que vocês tomaram esse abuso dele… Com a porcaria desse pobretão metido a pintor vocês ficaram influídos até demais, se dependesse de vocês faziam o casamento na hora, como se eu fosse dar minha filha a esse vira-bosta. Com Vadinho vocês só pensam maldade. Não vejo nada de mais que ele namore com Flor, ela já está em tempo de casar, e quando o Senhor do Bonfim, ouvindo minhas preces, envia um partido como esse, você e Porto fazem uma zoada medonha, a achar isso e aquilo… Me deixe, mulher, se assunte…
– Eu não acho nada, minha santa, se assunte você. Estava só falando… Porque você é toda cheia de melindres, toda não-me-toques. Basta ver qualquer moça passeando sozinha com um rapaz e logo diz que é uma perdida… E agora mudou da água pro fogo, largou a menina de mão…
– Tu acha ela uma perdida? É isso que tu acha? Diga logo…
– Se assunte, Rozilda, tu sabe que eu não disse isso…
Dona Rozilda encerrava a discussão:
– Eu sei o que estou fazendo, a filha é minha e, assim Deus ajude, ainda este ano eles se casam…
– Possa ser, queira Deus…
– Possa ser? Vai ser e com certeza… Não me venha com cantiga de sotaque, vocês têm é má vontade com Vadinho…
Não, ninguém demonstrava má vontade com Vadinho, ele a todos seduziu com sua lábia e sua fantasia, primeiro aos conhecidos do Rio Vermelho, depois aos da ladeira do Alvo. Dona Lita e Porto já lhe haviam tomado amizade e bem o desejavam para marido de Flor. Quanto a dona Rozilda, parecia viver exclusivamente para satisfazer-lhe as vontades, adivinhar-lhe os caprichos.
Capricho mesmo, ele tinha apenas um: estar a sós com Flor, tomá-la nos braços, vencer sua resistência e pudicícia, ir-se apossando dela pouco a pouco, a cada encontro. Amarrando-a nas cordas do desejo mas amarrando-se ele também, preso a esses olhos de azeite e espanto, a esse corpo fremente e arisco, ávido de vontade, contido de pudor. Preso sobretudo à mansidão de Flor, à atmosfera doméstica, ao ambiente de lar próprio da graça simples da moça, de sua quieta beleza, atmosfera a exercer poderoso fascínio sobre Vadinho.
Jamais vivera ele vida de família, não chegara a conhecer a mãe morta de parto, e o pai cedo desaparecera de sua existência. Produto de ocasional ligação entre o primogênito de pequenos burgueses remediados e a copeira da casa, dele ocupara-se o pai, o tal parente longe dos Guimarães, enquanto solteiro. Mas, ao fazer um casamento afortunado, tratou de livrar-se do bastardo a quem sua esposa, devota ignorante, consagrava um santo horror – “filho do pecado!”. Internou-o num colégio de padres onde, aos trancos e barrancos, Vadinho chegou ao último ano do curso secundário, não o tendo concluído por haver-se apaixonado, num domingo de visitas, pela mãe de um colega, distinta quarentona, mulher de comerciante da Cidade Baixa, considerada naquele tempo a mais fácil puta da alta sociedade da capital – paixão devoradora e correspondida.
Paixão romântica, também. A preclara punha-lhe olhos langorosos, suspirava, Vadinho a rondá-la no pátio das visitas do colégio, triste como uma prisão, lúgubre prisão de meninos. Ela lhe dava chocolates e biscoitos, do embrulho trazido para o filho. Vadinho ofertou-lhe uma orquídea às escondidas, roubada à estufa do jardim dos padres. Num dia de saída (o primeiro domingo do mês e Vadinho jamais saía, ninguém o vinha buscar, não tinha para onde ir) ela levou-o a almoçar em sua casa, palacete no largo da Graça, apresentando-o ao marido:
– Colega de Zezito, órfão, não tem família…
Zezito era meio debilóide, criava preás e nos domingos de saída todo seu tempo era pouco para atender, no porão da casa, aos pequenos roedores. O comerciante a roncar a sesta, Vadinho viu-se arrastado a um quarto de costura, envolto em beijos e carinhos, possuído. “Meu menino, meu colegial, meu aluno, sou tua professora, ai, meu donzelo”, e, consciente de sua condição de mestra, ela lhe ensinava – e como ensinava! Cresceu a paixão, insaciável e brutal. Ela desfeita em ais e juras – nunca amara ninguém, repetia-lhe cínica e tranqüila, Vadinho era seu primeiro amante, e nada no mundo almejava senão partir com ele para viverem os dois aquele grande amor, ocultos num recanto qualquer. Pena estar ele interno num colégio…
– Se eu saísse do colégio você vinha mesmo viver comigo?
Fugiu do colégio, apareceu no princípio da noite para buscá-la, para libertá-la do “bestial burguês” que tanto a fazia sofrer e a humilhava possuindo-a. Obtivera mísero quarto numa pensão de última ordem, comprara pão, mortadela (adorava mortadela), uma zurrapa vendida como vinho e um buquê de flores. Ainda lhe sobraram alguns mil-réis, os colegas mais íntimos, a par do caso e solidários, haviam-se reunido para financiar-lhe a fuga e o amor. Para eles, Vadinho era um retado.
A prezada senhora quase morre de susto quando ele lhe invadiu o lar onde o marido na outra sala palitava os dentes e lia jornais. Vadinho endoidara com certeza – disse ela, indignada. Não era uma aventureira para largar casa, esposo e filho, seu conforto e seu conceito na sociedade, para ir viver amásia de uma criança, na miséria e na desonra. Vadinho não tinha juízo, voltasse para o colégio, talvez nem se houvessem dado conta de sua escapula, e no próximo domingo de visitas, ah!, ela lhe prometia…
Não quis Vadinho ouvir a promessa, estava possesso de ira e de vexame, fora ludibriado. Sem levar em conta a proximidade dos cornos do comerciante, agarrou a madame pelos cabelos longos e oxigenados, aplicou-lhe uns tabefes na cara, gritou-lhe nomes, num esbregue de tamanhas proporções a ponto de reunir, em animada assistência, não apenas o esposo e os criados, mas também os vizinhos do elegante largo da Graça. Segundo o testemunho ulterior de Vadinho, naquele dia se fizera homem, e homem para sempre escarmentado.
Pela mão desse escândalo penetrou Vadinho na vida noturna da cidade, rapazola de dezessete anos, ao qual se afeiçoara Anacreon, batoteiro afamado, carteador de fino estilo. Ninguém melhor para revelar ao moço inexperiente as sutilezas e as finuras da ronda, do vinte-e-um, do bacará, do pôquer, para introduzi-lo na dialética das mesas de roleta e na mística dos dados, pois Anacreon não era apenas competente, era também um coração leal, de frente para a vida, um tanto quixotesco. Com o pai teve Vadinho breve encontro no qual se recusou a volver ao internato, recusando-lhe em troca o salafrário Guimarães a bênção e qualquer ajuda financeira, “não tinha recursos para sustentar desordeiros”. Com a riqueza da mulher ficara somítico e moralista. Aliás, nessa altura da vida, quando seu nome era citado nas colunas sociais, passara a conceber sérias dúvidas a respeito da paternidade de Vadinho. Seria mesmo seu filho? A falecida Valdete acusava-o, entre beijos, de tê-la deflorado e engravidado. Mas será documento a merecer crédito a palavra de uma doméstica? Jamais conhecera outro homem, além dele, segundo depunham suas amigas chorosas, junto ao corpo. Mas a palavra dessas outras amas, sem eira nem beira, pode constituir prova seja lá do que for? Tudo aquilo sucedera há tanto tempo, confusas memórias da juventude, numa adolescência falta de responsabilidade, insensata. Talvez fosse seu filho, talvez não o fosse, quem podia vir de público prová-lo, onde estava a certeza? Certeza mesmo era ser Vadinho filho-da-puta e um filho-da-puta dos piores: ainda menino e querendo “estuprar honesta senhora, bondosa mãe de um colega, em cujo lar fora recebido como filho…”. Esse pai de Vadinho era um Guimarães da “banda podre”, como o classificara Chimbo, não lhe coubera o ímpeto e a generosidade da família.
Desde então não mais provara Vadinho o perfume de um sentimento familiar, não mais tivera um interesse complexo e profundo. Sua vida sentimental, numerosa e diversa, pois as múltiplas amantes variavam na idade, na posição social e na cor, decorrera em grande parte nos castelos e cabarés, em xodós com raparigas, amigações, além de umas poucas aventuras com mulheres casadas; sem que nenhum desses laços tivesse a força do amor. Nunca um enrabichamento o fez sentir a vida plena e luminosa, jamais uma ausência feminina, uma briga, o término de um caso, o tornou gris, vazio e suicida. Partia para outro corpo de mulher como mudava de mesa na sala de jogo quando o 17, seu número, fazia-lhe falseta.
O encontro com Flor, na festa do major, veio reacender-lhe de súbito aquela necessidade antiga de lar, de vida de família, mesa posta, cama de lençóis limpos. Ele não tinha sequer endereço estável, mudando de pensão barata a cada mês por falta de pagamento. Como esbanjar dinheiro em aluguel quando sobrava tão pouco para o jogo?
Flor trazia um novo sabor à sua vida, uma quietude, uma placidez, um gosto de ternuras familiares:
– Gosto de você porque você é mansa como um bichinho, meu bem…
De tal forma seduzido por ela, a ponto de suportar-lhe a mãe, velha mais terrível e paulificante, ridícula e desfrutável. Amava a singeleza da moça, sua mansidão, sua alegria sossegada, e sua compostura. Lutando diariamente para derrubar-lhe a resistência e romper-lhe a castidade, sentia-se, no entanto, contente e orgulhoso com ela ser assim recatada e séria. Porque só a ele competia domar esse recato, reduzir a prazer aquela pudicícia. Os amigos de Vadinho descobriam um brilho em seus olhos, acontecendo-lhe ficar parado ante a roleta, esquecido de depositar a ficha, sonhador.
E os íntimos, como Mirandão, já não se surpreenderam quando, pelo Carnaval, o viram integrando a prancha dos Alegres Gazeteiros, prancha organizada pelas famílias do Rio Vermelho, decoração do tio Porto, moças e rapazes fantasiados de vendedores de jornal, mercando o Diário da Bahia e A Tarde, o Diário de Notícias e O Imparcial. Um Carnaval de confete e mamãe-sacode, de serpentina e canções, onde lança-perfume era para consumir nas namoradas e não para aspirar-se, um Carnaval sem cachaça. O oposto dos Carnavais de Vadinho, que emendavam do sábado à terça-feira num porre só. Integrando blocos de mascarados, às voltas com as raparigas, a sambar no meio da rua, a bebida a la vontê. Caindo de bêbado nos fins das noites num fovoco qualquer da zona; assim nos quatro dias.
“Olhe quem vai ali, naquela prancha, de pandeiro na mão, é Vadinho saindo em prancha, quem diria!”, admiravam-se passantes habituados a vê-lo em deboche completo na folia do Carnaval. Lá estava Vadinho, ao lado de Flor, a cobri-la de confetes e ternura.
Nada disso o impedia, no entanto, de chafurdar na mais baixa gandaia, de ingerir uma cachaça absurda, após ter-se despedido de Flor, à meia-noite. Saía direto para o Tabaris, o Meia-Luz, o Flozô. Na segunda-feira pretextou trabalho urgente em palácio, foi-se às dez da noite, não podia chegar tarde ao grande baile da Gafieira do Pinguelo onde Andreza e outras reais crioulas fantasiavam-se de damas da corte de Maria Antonieta, gastando cetins e veludos, alvas cabeleiras de algodão.
Nem mesmo no momento de paixão mais alta, de maior doçura familiar, de pensamentos mais domésticos, Vadinho imaginou sequer mudar sua vida, modificá-la, adquirir novos hábitos, regenerar-se. Mirandão ameaçava fazê-lo, de quando em vez:
– Seu mano, vou me regenerar… De amanhã em diante…
Vadinho jamais falou nisso. Apaixonado por Flor, projetando casar-se com ela, mas nem assim disposto a fugir a seus solenes compromissos, a seu cotidiano de jogo e malandragem, de bebedeiras e arruaças, de cassinos e castelos.
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Mar de rosas, francos horizontes, azul cerúleo, a paz do mundo e sua doçura, Flor e Vadinho namorados. De súbito, a borrasca, o temporal, céu de chumbo, guerra sem quartel, a abominação, Flor e Vadinho proibidos.
Um tanto encafifado por sentir-se com culpa nos acontecimentos – não fora ele quem começara a montar aquele castelo de cartas, incapaz de resistir ao sopro da menor sindicância? – , Mirandão, moralista com fumaças de filósofo, considerou:
– Aí está… Que garantia a gente tem? Nenhuma… Até motor de caminhão, quando se conserta, tem garantia de seis meses… A gente, quando pensa que está instalado na vida, que as coisas finalmente se acertaram, aí emboceta tudo, o santo cai do andor e vira lixo…
No opinar de Mirandão, Vadinho caíra do andor, o santo virara lixo, os restos espalhados nos monturos, e não havia remendo capaz de restaurar o conceito do demissionário oficial-de-gabinete ante dona Rozilda. Conceito aliás igualmente comprometido junto a Flor, como haveria ela de ainda aceitar o potoqueiro que a engabelara? Mirandão conhecia essas pessoas mansas e suaves: quando abusadas em sua confiança, crescem em obstinado orgulho, não voltam atrás.
– Quando empombam, empombam de vez… – concluía pessimista.
Vil, ordinário, abjeto, infame sujeito! Dona Rozilda achava a língua pobre de expressões suficientemente varonis e vigorosas para rotular tão baixo espécime humano – ainda na véspera o pretendente ideal, santo no andor todo enfeitado de elogios. Sua filha podia casar até com um soldado de polícia, até com um criminoso de morte, de sentença passada no júri, cumprindo pena na cadeia, jamais com o miserável canalha. Recolhendo pelas imediações do Alvo essas cruas opiniões, Mirandão balançara a cabeça pesaroso e realista: se Vadinho pensava em prosseguir o namoro é porque não entendia nada de mulheres. Sempre tão ladino, agora cego pela paixão, não se dava conta da realidade: desbundara tudo. Mirandão, aflito, reclamou um novo trago no Bar Triunfo: para suportar tanta comoção.
A Vadinho pouco importava restaurar seu conceito ante dona Rozilda, aplacar sua fúria, velha levada dos diabos, bruaca intolerável, um purgante. Não admitia, porém, romper com Flor, perder seu riso manso, sua quieta ternura, seu machucado suspiro. Ao contrário, agora decidira casar-se com ela. Afinal, em tudo aquilo, só havia de sério o carinho, a compreensão, o bem-querer, aquele amor dos dois; o resto não passava de tola brincadeira. De quem gostava Flor: dele, Vadinho, de sua pessoa, ou do cargo inventado, da posição que não exercia, do dinheiro que não tinha?
Naquela história só uma coisa o desgostava: haver sido desmascarado por Célia, sua protegida, aquela perneta agora professora pública devido à sua interferência. Fora ela a fazer todo o fuzuê, a desenrolar o novelo, a denunciá-lo a dona Rozilda. Chegara ofegante ao primeiro andar, numa excitação tamanha a ponto de quase perder a voz. Num tal contentamento, só se vendo.
“Alguém muito elevado?” Jamais subira o vigarista sequer as escadas do palácio, o único palácio que ele conhecia, e a esse conhecia bem, era o Pálace, antro de jogo e perdição, assim de mulher-dama… Prestígio? Só se fosse nas ruas do meretrício mais baixo, junto às casteleiras e aos escroques… Oficial-de-gabinete do governador? Se ele se atrevesse a entrar no gabinete do governador seria tomado preso, metido no xadrez. Sua nomeação de professora? Era melhor nem pensar nisso, quem sabe dos estrupícios e tratantadas postos em prática pelo patife?
E como fora Célia, insignificante professora primária, descobrir toda aquela rede de enganos, pondo a claro todos os detalhes da farsa, não deixando persistir uma sombra sequer de dúvida, um pode-ser-quem-sabe ao qual se agarrasse dona Rozilda, náufraga no mar da porca existência? Por que tamanho empenho em desmascarar e denunciar o trapaceiro, o barato sedutor?
Vadinho se surpreendeu, magoado:
– Logo quem… Não fiz mal nenhum a essa moça, ao contrário…
Por isso mesmo, talvez. Quando Vadinho lhe arranjou o emprego, Célia sentiu-se ao mesmo tempo grata e ofendida. No fundo, não lhe perdoava ter-se enganado a seu respeito, não ser ele o gigolô pressentido por seu faro de azedume e maldade: a existência reles fizera-a invejosa e ruim. A cada dia, menos grata e mais ofendida – aquele indivíduo não tinha jeito de prestar… Por acaso, deram-lhe uma pista e ela tanto futucara, tanto xeretara até descobrir em todas as minúcias a teia de mentiras iniciada por Mirandão em casa do major e por cujo crescimento era mais responsável a vida do que o próprio Vadinho. Refeitos os capítulos daquele imaginoso folhetim, Célia sentiu-se realizada: não a enganavam assim facilmente, tinha olho e faro, para tapeá-la fazia-se necessário mais do que emprego, nomeação e posse. Satisfeita, feliz com sua torpeza, nem lhe pesava a perna manca ao subir a escada do primeiro andar onde dona Rozilda e Flor costuravam peças do enxoval. “Não passava o almofadinha de um mísero gigolô, ela, Célia, jamais tivera dúvidas.” Resplandecia seu encardido semblante, poucas vezes se sentira assim alegre, muita gente ia chorar naquele dia, arrenegar o diabo, ranger os dentes. E existe no mundo algo tão esplêndido e excitante, espetáculo comparável ao do sofrimento alheio? Para Célia não existia nada igual. Jamais um homem olhara para seu corpo com olhos de desejo, jamais alguém lhe sorrira com amor, e as crianças da escola tinham-lhe medo, fugiam dela.
Dona Rozilda, em faniquito, propunha-se a matar e a morrer, gemia por um copo com água. Flor não lhe deu importância, não ouviu seus ais, ocupada com Célia:
– Puxe daqui, sinhá cachorra, não volte mais…
– Eu, Flor? Você está falando sério? Por quê?
– Mesmo que ele fosse o que você diz, você não podia vir fuxicar, ele lhe empregou… Você devia era esconder o que soubesse contra ele, estava morrendo de fome e ele lhe arranjou o lugar…
– E eu sei lá se foi ele… Quem viu ele arranjar? Pra mim, foi a carta do padre Barbosa…
Flor quase não elevava a voz mas suas palavras cuspiam nojo e desprezo:
– Puxe daqui antes que eu lhe ensine a não se meter na vida dos outros, cadela vagabunda…
– Pois fique com ele, que lhe faça bom proveito, tu nasceu mesmo pra descarada…
Baixou a escada a clamar contra a ingratidão humana.
Guerra, sim; que outro nome, que outra designação usar?, e guerra sem misericórdia – a guerra entre dona Rozilda e Flor teve começo ali mesmo, naquela mesma hora. Ao ruído da porta batendo na cara de Célia, dona Rozilda recolheu seus melindres, desistiu do desmaio, clamou pela professora, queria continuar a conversa sobre Vadinho, remexendo na ferida:
– Célia! Célia! Não vá s’embora…
Flor disse, a voz pesada:
– Botei ela pra fora…
– Ela veio fazer um favor e você enxota ela, em vez de agradecer.
– Essa fuxiqueira nunca mais me põe os pés aqui.
– Desde quando tu manda nesta casa?
– Se ela entrar, eu saio…
Mirandão acertara ao descrever o baixo crédito de Vadinho junto a dona Rozilda. Errou, porém, e por completo, quanto à reação de Flor. Não ficara contente, é claro, tivera um desaponto: Vadinho mais sem jeito, para que essas mentiras? Em nenhum momento, entretanto, pensou em romper com ele, em terminar o namoro. Amava-o, pouco lhe importando seu ofício ou emprego, sua posição na sociedade, sua importância na política.
Assim lhe disse quando, naquela noite, num desafio impudente às ordens de dona Rozilda, foi conversar com o namorado numa esquina próxima. Ouviu e aceitou suas explicações, derramou algumas lágrimas, a chamá-lo de “maluco, sem juízo, meu doido lindo”. Pela primeira vez Vadinho lhe falou de amor, de como esfomeado e sequioso a queria e desejava – e para esposa a queria e desejava. E isso para Flor valeu todo o aborrecimento, a mágoa dele lhe ter mentido e enrolado sem necessidade.
Teriam de esperar com paciência, disse-lhe Flor. Pelo menos os dez meses que faltavam para os seus vinte e um anos; era ainda menor, sob o mando materno, e nem pensasse Vadinho em obter o impossível consentimento de dona Rozilda. Nunca vira a mãe tão exaltada e em fúria. Mesmo os encontros não iam ser fáceis, tinham de estudar a melhor maneira de se avistarem sem que a velha suspeitasse. O namoro – aquele namoro com tantas facilidades, tão bem-aceito e apadrinhado por dona Rozilda – passara aos subterrâneos da ilegalidade, estava proibido em definitivo, a cotação de Vadinho na ladeira do Alvo não valia a poeira da rua. Vadinho enxugou-lhe as lágrimas com beijos, ali mesmo na esquina, sem ligar aos passantes.
Bufando, dona Rozilda a aguardava de taca na mão, pedaço de couro cru para exemplar animais e filhos desobedientes. Não era usada há muito, quem dela fizera gasto fora Heitor, relapso estudante. Rosália levara suas tacadas, Flor algumas surras quando menina. Suspensa na parede da sala de jantar, a primitiva chibata agora valia apenas como símbolo cruel da autoridade materna, caído em desuso. Quando Flor transpôs a porta, dona Rozilda ergueu a taca, a primeira chicotada a atingiu no colo e no pescoço deixando-lhe um lanho vermelho, marca de guerra a perdurar por mais de uma semana.
Apanhou sem chorar, defendendo o rosto com as mãos, reafirmando seu amor. “Comigo viva tu não casa com ele”, rugia dona Rozilda. No outro dia, Flor quase não pôde levantar-se, o corpo todo doído, o lapo roxo no pescoço. A ladeira em peso comentava os acontecimentos, a negra Juventina, soberana em sua janela, a distribuir detalhes, dr. Carlos Passos criticando os métodos educacionais de dona Rozilda, se bem não lhe negasse razão para desgosto e zanga.
Vadinho compareceu na hora costumeira; todo o primeiro andar mantinha-se fechado, a sacada vazia, a porta da escada de ferrolho e tranca. A janela do quarto de Flor dava sobre a rua transversal, por entre as venezianas fugiam réstias de luz. Logo houve quem contasse da surra da véspera, segundo as comadres, Flor suspirava presa no quarto, de chave passada.
Vadinho concordou com a negra Juventina quando a amásia de Antenor Lima definiu dona Rozilda com justeza e literatura: “Uma hiena bestial, é o que ela é, seu Vadinho”; ouviu as notícias em silêncio, disse até logo, foi-se embora.
Para volver depois de meia-noite e abrir todas as janelas das redondezas, acordar a ladeira e as ruas próximas com a mais maviosa serenata, tão maviosa e apaixonada como muito poucas até hoje se fizeram nessa ou em qualquer outra cidade. Quem a escutou guarda sua lembrança imperecível nos ouvidos e no coração.
Também, pudera! Vadinho reunira para Flor o melhor de quanto existia. Trouxera o magrelo Carlinhos Mascarenhas, o cavaquinho de ouro; fora buscá-lo no castelo de Carla, no aconchegado leito de Marianinha Pentelhuda. Ao violino, via-se a figura popular de Edgard Cocô, o non plus ultra, igual só no Rio de Janeiro ou nas estranjas. Soprava a flauta – e com que dignidade e maestria! – o bacharel em direito Walter da Silveira; Vadinho o arrancara de cima dos livros, pois, recém-formado, preparava-se a fundo para concurso de magistrado; em breve, escolhido meritíssimo juiz, não mais exibiria em público sua insigne flauta, privando as massas de celestial deleite. Quanto ao violão, dedilhava-o um moço querido de toda a gente por sua educação e alegria, seu jeito modesto e ao mesmo tempo fidalgo, sua competência no beber, sua finura de trato, e sua música: a qualidade única de seu violão, dele e de mais ninguém, e sua voz de mistério e picardia. Um retado. Aparecera ultimamente a tocar e a cantar no rádio, e já o sucesso o cercava. Repetia-se seu nome, Dorival Caymmi, e os íntimos exaltavam suas composições inéditas; no dia em que fossem divulgadas, o moreno ficaria célebre. De Vadinho era amigo do peito, juntos haviam tomado os primeiros tragos e varado as primeiras madrugadas. Traziam de reserva a Jenner Augusto, pálido cantor de cabaré, e de quebra a Mirandão, já bêbado.
