Kitabı oku: «Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа», sayfa 7

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À noite, diante da residência em festa, os dois embusteiros apostaram com outros valdevinos: penetrariam no baile e nele seriam recebidos como se fossem convidados de honra. Penetraram e foram recebidos com todas as honras, tratados a velas de libra, pois Vadinho fez-se reconhecer pelo major e por dona Aurora como sobrinho do impedido delegado auxiliar enquanto empossava Mirandão no inexistente cargo de secretário particular de Chimbo.

– Doutor Aírton Guimarães, meu tio, teve de acompanhar o governador ao congresso de obstetrícia. Mas, como fazia questão de não faltar ao seu convite, mandou-me a mim e ao seu secretário, doutor Miranda, para representá-lo. Eu sou o doutor Waldomiro Guimarães…

O major confessou-se comovido com a gentileza do delegado, a oferecer-lhe desculpas, a fazer-se representar. Lastimava não tê-lo na festa, seu desejo seria homenageá-lo, mas recebiam, ele e sua esposa, de braços abertos, o representante de seu estimado amigo. Estendia a mão para Vadinho quando Mirandão, em êxtase e desbragado, corrigiu e pôs todas as coisas em seus lugares:

– Perdoe-me, major, a intromissão: representante do doutor delegado auxiliar é a minha modesta pessoa, eu doutor José Rodrigues de Miranda, livre-docente da escola de agronomia, requisitado pelo doutor Aírton… O meu amigo doutor Waldomiro, se bem sobrinho do delegado, não o representa e, sim, ao senhor governador…

– Ao governador? – exclamou o major, embargado com tanta honra.

– Sim – encarrilhou Vadinho. – Quando o governador ouvira o delegado auxiliar pedir a seu secretário e a seu sobrinho que fossem à festa do major, lhe ordenara (pois servia no gabinete de sua excelência) abraçar “seu bom amigo Pergentino e cumprimentar sua digna esposa”.

O major e dona Aurora, empanzinados de vaidade, abriam passagem, faziam apresentações, mandavam encher os copos, preparar os pratos, tudo era pouco para Vadinho e Mirandão.

Lá fora, embasbacados, os colegas de maroteira não podiam crer nos próprios olhos. Que patifaria teriam inventado os dois cínicos para serem assim recebidos? Não havia memória de penetra algum ter conseguido atravessar os batentes da porta do major, para quem era uma questão de honra manter a festa nos limites estritos dos seus convidados, seus amigos, que lhe garantiam a decência e o renome. Jurando por seus gloriosos galões, gabava-se: “Penetra, em minha festa, só passando sobre meu cadáver!”. E os penetras mais exímios da cidade, capazes de penetrar – e tendo penetrado – em festas de todo fechadas e imponentes, guardadas pela polícia, até em festas no palácio do governo e na casa do dr. Clemente Mariani, festas ao lado das quais a do major era simples assustado, dancinha de pobre, forrobodó de bairro, arrasta-pé, esses penetras famosos, todos eles, fracassaram em suas tentativas, cada ano renovadas, de penetrar na festa do major. Nenhum alcançara transpor os defendidos umbrais.

Nenhum, é exagero. Édio Gantois, estudante astucioso, em comparsaria com outro não menos moleque, o já anteriormente referido Lev Língua de Prata, na ocasião ainda acadêmico, conseguiram os dois, certa feita, penetrar e por meia hora, mais ou menos, manter-se na festa para serem logo depois expulsos a safanões e sopapos, o musculoso Édio em luta corporal com os convidados, o galalau do Lev trocando pontapés com o major.

Como triunfaram e, logo após o triunfo, tão lamentavelmente fracassaram? Se bem seja outra história, vale a pena contá-la para assim ainda mais valorizar-se o feito de Vadinho e Mirandão. Por aquele tempo havia aportado à Bahia, com muito reclame nas gazetas, para dois únicos espetáculos no conservatório, um extravagante concertista a manejar instrumento ainda mais singular: um serrote, tão melodioso quanto o mais afinado piano. Tratava-se de um russo, de nome estrambótico, o “russo do serrote mágico”, como anunciavam os cartazes de propaganda e as notícias nos jornais. Édio possuía velho serrote de carpina, e Lev, filho de russo, o nome estrambótico. Doidos os dois por uma boa molecagem, embrulharam o serrote em papel pardo, engoliram umas cachaças para animar, apresentaram-se na porta do major como o russo do serrote e seu empresário.

O major Tiririca possuía um sexto sentido quando se tratava de penetras: percebia-os no ar, a distância. Bateu os olhos em Lev e Édio e uma voz interior deu-lhe o alarme. Mas já os convidados, ao anúncio da presença do “russo do serrote mágico”, saudavam entusiasmados a possibilidade de ouvi-lo tocar. Em silêncio, curtido de dúvidas, o major abriu a porta, permitindo a entrada aos dois malandrins. Ficou, porém, a vigiá-los. Encostaram eles o serrote atrás de um móvel, o major comprovou a avidez com que se dirigiam à sala de jantar, a pressa em comer e beber. Trocando um olhar com dona Aurora, a quem igualmente toda aquela encenação não parecia lá muito católica, exigiu então o major, apoiado pela totalidade dos convidados ansiosos, imediata demonstração musical. Primeiro o concerto, depois a pitança. Por mais tentasse Édio, com um conversê tapeativo, adiar o momento do desastre, não o conseguiu, não obteve prazo nem apelação.

Ao demais, por qualquer estranha metamorfose, Lev sentira-se de súbito inspirado, vivia seu papel de forma tão realista a ponto de considerar-se o verdadeiro russo dos concertos. Assim, sem mais se fazer rogar, tomou do velho serrote, entre palmas e bravos. Foi tão perfeito – curvada em ângulo sua magra e comprida anatomia, a cabeleira desfeita, os olhos no astral, um autêntico maestro – que a todos enganou, fazendo vacilar mesmo o major e dona Aurora, enquanto não feriu, com uma colher de café, o bojo do serrote. Mas apenas lhe aplicou o primeiro golpe e – como depois Édio contaria – todos os presentes, sem exceção, compreenderam tratar-se de uma farsa. Só Lev persistia, cada vez mais autêntico e possuído, a vibrar colheradas no serrote, sem que o major, esposa e convidados demonstrassem a menor simpatia por tanto empenho e arte.

O major adiantou-se, seguido por alguns amigos, os mais sensíveis a tais brincadeiras de mau gosto. A travessia do corredor, a caminho da porta da rua, foi longa e épica, verdadeiramente inesquecível, Édio e Lev a recordariam vida afora. Pescoções, pontapés, esbarros e quedas. Dona Aurora desejava arrancar os olhos dos dois rapazes, o major contentou-se com atirá-los à rua, em meio ao povo do sereno (e em cima dos corpos caídos jogaram o serrote cada vez menos sonoro).

Com Vadinho e Mirandão nada disso sucedera, nem o major nem dona Aurora tiveram a mais leve suspeita. Comeram e beberam do bom e do melhor, Vadinho arrastando o pé de valsa pela sala, Mirandão a interrogar-se se devia ou não erguer, em nome de Chimbo, um brinde ao major e a dona Aurora. Sorria na cadeira, ouvindo dona Rozilda perguntar quem era o moço dançarino, cavalheiro de sua filha. Para obter maior efeito, respondeu com outra pergunta:

– O major não lhe apresentou?

– Não. Eu estava lá dentro, não vi quando ele chegou.

– Pois, estimada senhora, tenho o prazer de lhe informar. Trata-se do doutor Waldomiro Guimarães, sobrinho do doutor Aírton Guimarães, delegado auxiliar, neto do senador…

– Não me diga que é do senador Guimarães, esse tão falado…

– Desse mesmo, minha distinta. O mandachuva, o bamba, o bambambã, o deus-menino da política, esse mesmo, meu padrinho…

– Seu padrinho?

– De crisma. E avô de Vadinho…

– Vadinho?

– É o apelido dele, de menino. É o neto preferido do senador.

– É estudante?

–Não já lhe disse que é doutor? Formado, minha senhora, advogado. Oficial-de-gabinete do governador, alto funcionário municipal, fiscal…

– Fiscal do consumo? – aquela informação excedia os sonhos mais temerários de dona Rozilda.

– Fiscal de jogo, minha ilustríssima. – E em voz cochichada: – É a fiscalização que deixa mais, uma fortuna por mês, sem falar nos agrados, uma fichinha aqui outra acolá… E, agora, ainda por cima, encarapitado no gabinete do governador…

Sentia-se generoso:

– A senhora não tem algum parente pobre que deseje empregar? Se tiver, é só dizer, dar o nome… – Respirou fundo, contente consigo mesmo, prosseguiu indômito: – Está vendo ele ali, dançando? Pois não se admire se na próxima eleição ele sair deputado…

– Tão novo ainda…

– O que é que a senhora quer? Nasceu em berço de ouro, encontrou o prato feito, seu caminho é de rosas. – Mirandão sentia-se um poeta nessa noite de glória, improvisaria um discurso monumental, arrancando lágrimas à própria dona Aurora, a fera do Rio Vermelho.

Dona Rozilda acertou os olhos miúdos, uma chama de ambição, amarela, a brilhar em sua frente. Joãozinho Navarro arrematava o tango nuns floreios caprichados, Vadinho e Flor sorriam um para o outro. Dona Rozilda estremeceu de emoção: jamais vira assim a face da filha, e bem a conhecia. E o rapaz – perguntava-se ela – , fora ele também atingido e para sempre marcado? Havia na face de Vadinho um ar de inocência, uma candura, tal sinceridade; dona Rozilda sentiu-se comovida. Ah!, milagroso Senhor do Bonfim, seria aquele o genro rico e importante que os céus lhe destinaram? Ainda mais rico e importante do que o paraense Pedro Borges, com suas léguas de terra e de rio, suas dúzias de empregados. Um genro neto de senador, íntimo do governo, ele próprio governo: “Ai, minha Nossa Senhora da Capistola, valei-me! Concedei-me, meu Senhor do Bonfim, a graça desse milagre e acompanharei descalça a procissão da lavagem, levando flores e uma quartinha de água pura”.

O major aproximava-se, dona Rozilda agradeceu a Mirandão, dirigiu-se ao dono da casa, apontou o grupo formado por Vadinho e Flor, dona Lita e Porto, num canto da sala. Mirandão observou a manobra da velha lambisgóia, fez um esforço, pôs-se também de pé, foi por uma cerveja. Dona Rozilda pedia ao major:

– Major, me apresente àquele moço…

– Não conhece? Pois é um parente do doutor Aírton Guimarães, o delegado auxiliar, meu amigo do peito… – Sorria vaidoso, acrescentando: – Para os íntimos, Chimbo… Ele mesmo me disse: “Pergentino, trate-me de Chimbo, somos amigos ou não?”. Homem sem besteira, direito… Me fez um favorzão… – falava para todos, alardeando sua amizade com o delegado.

Dona Rozilda apertava a mão do jovem, Flor esclarecia:

– Minha mãe, doutor Waldomiro…

– Vadinho para os amigos…

– Doutor Waldomiro vive à sombra do nosso eminente chefe, o governador. Trabalha em seu gabinete…

– O governador gosta muito do senhor, major. Ainda hoje me disse: “Dê um abraço em meu amigo Pergentino, amigo do peito…”.

O major chegava a ficar vexado de felicidade:

– Obrigado, doutor…

Porto, a quem tal intimidade palaciana deixava um pouco tímido, comentou:

– Muita responsabilidade… Mas também muita importância…

Vadinho fazia-se modesto:

– Tolice… Nem sei se vou continuar no palácio…

– E por quê? – quis saber dona Lita.

– Meu avô – confidenciou Vadinho – , o senador…

– O senador Guimarães… – rezou baixo dona Rozilda.

Sorriu-lhe Vadinho, uma aura de candura a circundar-lhe o rosto, sorriu melancólico para Flor, tão linda:

– Meu avô quer que eu vá para o Rio, oferece-me um lugar…

– E o senhor vai aceitar? – morria Flor nos olhos de azeite.

– Nada me prende aqui… Ninguém… Sou tão sozinho…

Suspirava Flor:

– Tão sozinha…

Da sala de jantar reclamavam o major, ele não tinha momento de descanso, a atender seus convidados, perfeito anfitrião. Alguém apareceu logo depois batendo palmas, rogando silêncio, o dr. Miranda ia saudar os donos da casa. Ouviu-se o estouro de uma garrafa de champanha sendo aberta, a rolha subindo para o teto.

Vadinho e Flor andaram sorridentes para o discurso, “discurso de Mirandão”, alertou Vadinho, “não é coisa que se perca”. Dona Rozilda, o coração aos saltos, comentou para dona Lita e Thales Porto ao ver os jovens partindo para o definitivo idílio:

– Não é um par perfeito? Não parecem nascidos um para o outro? Se Deus quiser…

– Oxente, mulher! Conheceram-se hoje e vosmicê já está armando casamento? – Lita balançou a cabeça, sua irmã estava ficando mesmo doida, com aquela mania de noivo rico para a filha.

Dona Rozilda empinou o busto seco, fitou a pessimista, com arrogância. Da sala de jantar chegava, redonda, encharcada de cerveja, a voz do orador, em seu brinde de saudação. Para lá encaminhou-se a viúva, toda coberta de esperanças. Palmas saudavam uma frase feliz de Mirandão, ele prosseguia impávido:

– “Nas páginas imortais da história, senhoras e senhores, ficará gravado em fulgentes letras de ouro o nome honrado do major Pergentino, cidadão de virtudes exponenciais” (a voz ficava vibrando no ar ao dizer a palavra bonita), “e o nome de sua nobilíssima esposa, esse ornamento da sociedade da Boa Terra, dona Aurora, anjo… Sim, meus senhores e minhas senhoras, anjo de impolutas” (e repetia, a voz cantante, “impolutas”) “qualidades, esposa dedicada, virgem de bronze…”

No centro da sala, Mirandão, o penetra, o braço erguido a empunhar a taça de champanha, dominava convidados e donos da casa, todos presos à sua eloqüência. O major sorria beato; a dedicada esposa, a virgem de bronze, baixava os olhos, comovida, jamais sua festa alcançara as alturas daquele triunfo.

– “…dona Aurora, ser amorável, santa, santíssima criatura…”

As lágrimas queimavam os olhos da santa criatura.

9

O namoro de Flor e Vadinho desembocou direto no casamento, pois noivado não houve, como logo adiante se constatará, exibindo-se causa e razão dessa anomalia a romper os procedimentos habituais e consagrados em todas as famílias que se prezam. Namoro, aliás, dividido em duas etapas distintas, perfeitamente delimitadas, cada uma delas com suas características próprias. A primeira, plácida e risonha, toda azul e rosa, um céu aberto, verdadeira festa, a concórdia universal. A segunda, confusa e perseguida, clandestina, cor do vitríolo e do ódio, o inferno na terra, a malquerença, a repugnância, a guerra declarada. Durante a primeira fase, dona Rozilda esteve irreconhecível de tanta gentileza e compreensão; colaborou ativa e devotada para o sucesso do idílio. Viu-se depois dona Rozilda a espumar abominação, rancor e vingança – espetáculo talvez pitoresco mas pouco agradável – , disposta a empregar todos os recursos para impedir o matrimônio da filha com aquele tipo imundo – “verme, pústula, poça de pus”. Toda essa podridão – “verme, pústula, poça de pus” – era Vadinho, antes o mais perfeito rapaz solteiro da Bahia, o pretendente ideal, belo e simpático, coração generoso, pérola de moço, impoluto caráter, adamantino.

No ledo engano nascido da emaranhada novela posta de pé por Mirandão na festa do major Tiririca, confirmada e desenvolvida graças a imprevistas circunstâncias, permanecera feliz dona Rozilda cerca de dois meses, dois memoráveis meses quando calcou sob o tacão dos sapatos toda a ladeira do Alvo e adjacências, da negra Juventina com seus ares de senhora até o dr. Carlos Passos com a sua próspera clientela. Exibia influência, intimidade nos círculos governamentais, nas altas esferas, intimidade com o poder, personificado em Vadinho. E exibia sobretudo o moço namorado da filha, com sua elegância cafajeste, sua lábia, sua conversa bonita, sua prosopopéia. Vadinho se lhe afigurava um deus-menino, era tudo para ela. E para ele tudo era pouco, dona Rozilda agitava-se num afã de agradar, de cativar o rapaz, de amarrá-lo.

Para manter dona Rozilda enleada em cegueira assim completa, concorreu grandemente curioso qüiproquó. Entre as amigas de Flor, sua colega de escola, havia uma pobre Célia, além de pobre, aleijada, com uma perna defeituosa, manca. A duras penas, “roendo beira de penico”, como resumia dona Rozilda, cursou a escola normal e diplomou-se professora. Candidata a um lugar no ensino primário estadual, lutava há meses para obtê-lo, sem conseguir sequer ser recebida pelo diretor de Educação. Dona Rozilda tinha-lhe estima e a protegia. Talvez porque, sendo a moça tão infeliz e humilde, a seu lado ela e Flor pareciam umas ricaças. Atenta, escutava a manca queixar-se da vida e dos grandes do mundo, dizendo horrores dos funcionários, e revelando particulares sórdidos daqueles “vampiros da educação”, como sibilava por entre os dentes escuros e podres. Ali só obtinham nomeação as oferecidas, dispostas a aceitar convites para passeios à noite em Amaralina, Pituba, Itapuã, para festinhas íntimas, umas casteleiras! Moça direita não tinha chance, mofava nas cadeiras de couro da ante-sala. De tanto nelas mofar, Célia constituíra-se picante repositório de malignas anedotas sobre funcionários, chefes de seção, sem falar no diretor de Educação, invisível personagem sobre o qual, no entanto, a rejeitada postulante tudo sabia: os hábitos, os bens, as preferências, a esposa, os filhos, a rapariga; nada lhe escapava. Jamais, porém, conseguira ser por ele recebida e expor seu triste caso.

Ora, logo nos dias iniciais do namoro, certa noite, a professora em desespero – o prazo para as nomeações de novas mestras esgotava-se naquela semana – deparou com Vadinho em casa de Flor e a ele foi apresentada. Dona Rozilda gostaria de ver a moça empregada e gostaria mais ainda de afirmar perante a vizinhança o prestígio do rapaz, do pretendente a genro, dispondo de empregos e vagas, mandando na administração do estado. Prestígio a ser utilizado por ela, dona Rozilda, a seu bel-prazer.

Estava, sem dúvida, a viúva enleada numa rede de enganos sobre a personalidade do gabiru a rondar sua filha mas não cometia erro quando, ao descrever para os conhecidos aquele caráter sem jaça, elogiava-lhe o bom coração: para Vadinho todo sofrimento era injusto e odioso. Assim, apenas dona Rozilda lhe contou a história de Célia, dramatizando detalhes, valorizando-lhe o aleijão (“Mesmo se quisesse não podia aceitar os licenciosos convites dos canalhas da repartição, não tinha alicerces para tanto”), ampliando as injustiças, multiplicando a fome da moça e de seus cinco irmãos, da mãe reumática e do pai guarda-noturno, logo Vadinho simpatizou com a nobre causa e fez-se seu campeão. Decidido realmente a falar sobre o assunto com seus conhecidos de jogo, alguns dos quais tinham certa influência – jurou veemente a dona Rozilda e a Flor exigir do diretor de Educação no dia seguinte pela manhã na hora do despacho com o governador, a imediata nomeação da professora. Não passaria do dia seguinte: retornasse Célia à diretoria pela tarde e procurasse o titular, nomeação e posse eram favas contadas.

– Pode deixar comigo…

– Pode deixar com ele… – repetia dona Rozilda.

Flor nada disse, apenas sorriu, não lhe importando se Vadinho gozava ou não de tanto prestígio, preferindo até fosse ele menos influente e por conseqüência menos ocupado. Passava dias sem aparecer, sem vir conversar ao pé da escada, e quando vinha, trazia a face estremunhada, sonolenta, das noites em claro a despachar com o governo.

Tomou Vadinho nome completo da candidata e os demais dados necessários. Novamente Célia escreveu aquela fria literatura num pedaço de papel e sem esperanças: muitas vezes já o havia feito. Tantos pedidos e recomendações e nenhuma conseqüência. Por que aquele almofadinha enxerido, com um ar velhaco, de deboche, um pé-rapado certamente, por que logo ele iria lhe obter o emprego? Até o padre Barbosa lhe dera um cartão para o diretor, e, se o padre nada conseguira, quanto mais esse tal namorado de Flor; quem perdera prestígio para esse tipo achar? Boa bisca não era ele, via-se logo na cara tresnoitada. Célia acumulara ceticismo e amargura a arrastar a perna cambaia pelas salas hostis da Diretoria de Educação. A felicidade dos outros não a enternecia, nem mesmo a daqueles raros desejosos de ajudá-la, penalizados de sua sorte. Seu coração estava seco e árido e, ao rabiscar os nomes do pai e da mãe, a data de nascimento e o ano de formatura fazia-o certa de perder tempo e esforço, aquele biltre não ia tomar nenhuma providência, ela estava farta desses pinóias emproados: promessas fáceis e mais nada. Mas, que jeito? Dona Rozilda estava toda caída pelo gabola, dr. Waldomiro para cá dr. Waldomiro para lá, e ela, Célia, ia filar o jantar da velha fogueteira. Quanto ao sujeitinho bastava olhar para a cara dele e logo se via qual o seu desiderato: comer os tampos de Flor e quebrar no beco, sumir num adeus e nunca mais.

Era Célia injusta com Vadinho, pois para servi-la fez o rapaz naquela noite o roteiro completo das casas de jogo, numa dupla urucubaca: perdeu quanto tinha no bolso e não deparou com um só conhecido importante a quem expusesse o pequeno drama da professora e pedisse por ela. Nem Giovanni Guimarães, nem Mirabeau Sampaio, nem seu xará Waldomiro Lins, nenhum deles apareceu, como se todas as suas relações influentes houvessem entrado em recesso, abandonando a roleta, o bacará, o grande-e-pequeno, a ronda, o vinte-e-um. Demorou-se Vadinho noite afora, e a figura mais ilustre a aparecer foi Mirandão, com quem terminou indo cear um sarapatel de arromba em casa de Andreza, filha de Oxum e comadre do estudante de agronomia.

– A zinha é mesmo caipora… – comentou Vadinho, relatando o caso a Mirandão, a caminho do barraco da negra de Oxum. – Zambeta, mirrada, e ainda por cima, com esse azar…

Mirandão aconselhava Vadinho a não se amofinar: há gente assim, amigada com o caiporismo, não adianta se querer acudir. Ao demais, a preocupação tira o apetite, e o sarapatel de Andreza era um monumento, louvado até pelo dr. Godofredo Filho, com toda sua autoridade. No dia seguinte, Vadinho trataria do embeleco. Afinal a maçante já esperara tanto, não era um dia a mais ou a menos que a levaria ao suicídio. Quanto ao sarapatel de sua comadre Andreza, como foi mesmo a frase; a frase, não, o verso de mestre Godofredo?

E quem encontraram à mesa da filha-de-santo senão o próprio poeta Godofredo, a fazer honra à comida de Andreza, sem regatear elogios ao tempero e à cozinheira, pedaço real de negra, palmeira imperial, brisa matutina, proa de barco. Andreza sorria com toda sua prosápia e realeza, machucava pimentas para o molho.

– E olhe quem está aí! – saudou Mirandão. – Meu imortal, meu mestre, considere-me de joelhos ante sua intelectualidade.

– De joelhos estamos todos diante desse sarapatel divino – riu o poeta, apertando as mãos aos dois rapazes.

Sentaram-se e Andreza logo constatou a face preocupada de Vadinho. Ele sempre tão alegre e pícaro, cheio de astúcia e trêfego, que lhe acontecera para assim sombrear o rosto melancólico? Conte, meu santo, lave a alma, bote os dissabores pra fora. Andreza, de amarelo, colares nos braços e no pescoço, era a própria Oxum se desfazendo em dengue e formosura. Conte, meu branco, não fique jururu, sua negra está aqui para lhe ouvir e consolar.

Na mesa, a toalha cheirando a patchuli, o chão perfumado de folhas de pitanga, entre o sarapatel e a pura cachaça de Santo Amaro. Vadinho desfiou o rosário de desditas da professora primária, uma infeliz. Sentada à cabeceira, a negra Andreza sentia-se comovida com o relato, apertava com a mão o seio arfante – coitadinha da moça com seu aleijão e sua fome, com seu desejo de trabalhar e sem emprego! Será que Godô, cujo nome saía nas gazetas, ele próprio alto funcionário, não podia dar uma palavra, se mexer pela pobrezinha? Tremiam os lábios de Andreza ao suplicar, Vadinho tinha razão, como sentir-se alegre quando alguém sofria assim, tão dura vida? Por que quisera escutar essa feia história? Não poderia novamente sorrir enquanto não soubesse a moça nomeada. O poeta Godofredo prometeu interceder, quem sabe talvez obtivesse algo, quando ficara ela de voltar à diretoria? No dia seguinte… Não, naquela mesma tarde, pois já era quase manhã, assim lhe ordenara Vadinho. Pois que ela fosse, Godofredo ia ver… Não esclareceu ser parente próximo e amigo íntimo do diretor de Educação, pedido seu era ordem executada. Não gostava o poeta de exibir-se, mesmo seus poemas só de raro em raro os publicava. Queria apenas devolver o sorriso de Andreza, sem seu sorriso era triste a noite e o mundo deserto e frio.

Assim, quando na tarde seguinte, Célia, pessimista porém persistente, arrastou sua perna capenga escada acima e penetrou na ante-sala do gabinete do diretor de Educação, qual não foi sua surpresa ao ser saudada com ânsia e calor pelo secretário de sua excelência, antes seco e ríspido:

– Dona Célia, eu estava esperando pela senhora. Meus parabéns, sua nomeação já saiu, já foi assinada…

– Hein? – estremeceu a professorinha – , o quê?

Cada vez mais gentil, o secretário tornou-se confidencial:

– O que estou lhe dizendo… A primeira coisa que o diretor fez ao chegar… Alguém muito elevado deu ordens, certamente. Foi uma das últimas vagas e estavam todas reservadas… Quer um conselho? Vá logo se apresentar, não perca tempo.

Apresentou-se, tomou posse, reuniu a magra família e foi ao primeiro andar do Alvo agradecer. “Alguém muito elevado”, contou; e dona Rozilda repetia as palavras rolando-as na língua, saborosas, enchia a boca com elas, tinham um gosto de poder. Vibrava de contentamento: não esperara nomeação tão rápida, resultado tão fulminante. Com aquela urgência, tão depressa, só mesmo ordens diretas do governador. Do governador minha filha, e não de outro, Vadinho mandava e desmandava no governo.

A notícia fez seu curso na ladeira, e quando Vadinho apareceu à noite, na esperança de ficar a sós, com Flor, no escuro da escada, foi saudado pela vizinhança numa quase manifestação de apreço. Surpreendeu-se com os agradecimentos, abraços e louvores, dona Rozilda num exagero histérico. O rapaz passara o dia dormindo e quase esquecera as desventuras da inexeqüível candidata. “Oh!”, disse “não é nada, nada me devem, por favor!”

O poeta cumprira a promessa, feita mais a Andreza do que a ele, Vadinho. Mas, como explicar a verdade, desfazer o enredo? Jamais dona Rozilda e seus vizinhos, jamais a amarga professora e sua gente mirrada e encardida, cor de sujo, ali junta para lhe agradecer, jamais compreenderiam os intrincados caminhos por onde o mundo e os homens andam, jamais acreditariam dever Célia sua nomeação a uma negra cozinheira, muito mais pobre que ela, alegre num casebre de madeira na fímbria do mar de Água de Meninos, a fornecer almoços a saveiristas e a carregadores, a negra Andreza de Oxum.

A fama correu e os pedidos choveram. Implorando nomeação de professora primária somaram-se oito em menos de uma semana. De motorneiro de bonde a fiscal de rendas não houve cargo sem candidato a adular dona Rozilda, sem bater palmas na porta do sobrado na ladeira do Alvo. Até o emprego de sacristão na igreja da Conceição da Praia, a vagar segundo constava mas ainda não era certo, até esse lhe vieram pedir. Nem se Vadinho fosse ao mesmo tempo governador e arcebispo, nem assim daria abasto.

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Litres'teki yayın tarihi:
26 şubat 2026
Yazıldığı tarih:
1966
Hacim:
640 s. 1 illüstrasyon
ISBN:
978-5-9925-2087-3
Telif hakkı:
КАРО
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