Kitabı oku: «Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа», sayfa 5

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De há muito dona Rozilda controlava com mão de ferro o parco dinheiro das comissões, entregando semanalmente ao representante comercial os estritos níqueis para o bonde e para o maço de cigarros Aromáticos – um maço cada dois dias. Pois, ainda assim, o dinheiro economizado mal deu para as despesas do enterro, das roupas de luto, para os dias de nojo. Comissões a receber das últimas vendas, quase não existiam, uma ridicularia, e dona Rozilda viu-se com o filho rapazola e ginasiano e as duas filhas mocinhas – Flor apenas adolescente – e sem fonte de renda.

Nem por ser ela quem era, agre e desabrida, de convivência desagradável e difícil, nem por isso devem-se negar ou esconder suas qualidades positivas, sua decisão e força de vontade, e tudo quanto fez para completar a criação dos filhos e para manter-se pelo menos na posição onde a deixara a morte do marido, sem rolar ladeira do Alvo abaixo para os cantos de rua ou para os sórdidos quartos dos casarões do Pelourinho.

Agarrou-se ao sobrado com toda sua violenta obstinação. Mudar-se dali para moradia mais barata significava o término de todas as suas esperanças de ascensão social. Precisava manter Heitor nos estudos até o fim do curso secundário, empregá-lo depois, e casar as meninas, casá-las bem. Para isso era preciso não descer, não deixar-se arrastar pela pobreza sem máscara, exposta e despudorada, sem pejo nem vergonha. Ela, dona Rozilda, sentia vergonha da pobreza, ah!, muita vergonha, como de um delito a merecer castigo.

Tinha de permanecer no andar da ladeira do Alvo, custasse o que custasse. Assim explicou ao cunhado quando ele viera emprestar-lhe as economias de dona Lita (pagas depois por dona Rozilda, tostão a tostão, diga-se em sua honra). Nem casa de preço razoável no fim do mundo da Plataforma, nem porão habitável na Lapinha, nem quarto e sala sublocados nas Portas do Carmo; manteve-se plantada na ladeira do Alvo, no sobrado de aluguel relativamente elevado, sobretudo para quem, como ela, não dispunha de posses, nem muitas nem poucas.

Dali, das sacadas amplas do primeiro andar, podia olhar o futuro com confiança: nem tudo estava perdido. Modificaria os planos anteriores sem desistir de suas pretensões. Se de imediato cedesse, largando a casa bem-posta, mobiliada, com tapetes e cortinas, indo para um cortiço qualquer, já não lhe seriam permitidas sequer esperanças e ilusões. Veria Heitor atrás de um balcão de secos e molhados, quando muito de uma loja, caixeirinho a vida inteira; veria as meninas com idêntico destino, se não fossem terminar garçonetes de bares ou cafés, no frete dos patrões e dos fregueses, caminho direto para a zona, para o horror das ruas de mulheres-damas. Dali, do sobrado, podia resistir a todas essas ameaças. Abandoná-lo era como render-se sem luta.

Por isso recusou oferta de emprego de balconista para Heitor, arranjado por Antenor Lima. Assim como não admitiu sequer discutir com Rosália, quando a filha lhe apareceu disposta a trabalhar, como uma espécie de recepcionista e secretária, na Foto Elegante, florescente estabelecimento da Baixa dos Sapateiros, onde Andrés Gutiérrez, espanhol moreno e de bigodinho recortado, explorava a arte fotográfica em suas mais diversas modalidades: desde os instantâneos três por quatro, para carteiras de identidade e profissionais (“entrega em vinte e quatro horas”), até as “incomparáveis ampliações coloridas, verdadeiras maravilhas”, passando pelos retratos dos mais diversos tamanhos e pelos flagrantes de batizados, matrimônios, primeiras comunhões e outros festivos eventos, dignos da amarelecida eternidade dos álbuns familiares. Onde houvesse uma fotografia a fazer, lá surgia Andrés Gutiérrez com sua máquina e seu ajudante, um chinês sem idade de tão velho, encarquilhado e suspeito. Rumores circulavam – haviam chegado aos ouvidos de dona Rozilda, sempre aguçados para esses falatórios – sobre Andrés, sua Foto Elegante, seu ajudante e a amplitude do negócio. Diziam ser de sua produção certos postais vendidos pelo chinês em envelopes fechados, supra-sumo da arte naturalista, “nus artísticos” de garantido sucesso. Para tais fotos, segundo as comadres, posavam mocinhas pobres e fáceis, em troca de uns magros mil-réis. De passagem, usufruía delas certamente Andrés, e, quem sabe?, o chinês; as beatas contavam horrores a propósito do atelier de fotografia. Não é de admirar ter dona Rozilda corrido com a filha, quando ela, entusiasmada e ingênua, lhe revelou a oferta do espanhol:

– Se me falar nisso outra vez, te arranco o couro, te dou uma surra de criar bicho…

A Andrés ameaçou com cadeia, atirando-lhe às fuças todo seu círculo de relações de prestígio: fosse se meter com sua filha e veria o resultado, galego porco de uma figa; com suas imundícies, sua devassidão; ela, dona Rozilda, iria à polícia…

Andrés, também ele de cabelo na venta, espanhol de maus bofes, revidara no mesmo diapasão. Começou dizendo que galego era o chifrudo pai de dona Rozilda: então ele, condoído com a situação da família após a morte de seu Gil, homem educado e bom, merecedor de melhor esposa, vinha oferecer um emprego à moça, a quem mal conhecia, no único intuito de ajudá-la, e a paga que obtinha era essa vaca histérica a gritar nas portas de seu estabelecimento, ameaçando Deus e o mundo, inventando histórias, calúnias miseráveis? Se ela não silenciasse aquela latrina que usava como boca, que fosse se estourar nos infernos e depressa, quem chamaria as autoridades seria ele, cidadão estabelecido, cumpridor das leis, em dia com os impostos, ele, andaluz de boa cepa, e aquela bruxa a xingá-lo de galego… Indiferente à disputa o chinês limpava com um fósforo as unhas compridas como garras, unhas que, segundo as más-línguas…

Verdade ou não aquelas excitantes histórias, dona Rozilda não criara as filhas, não as educara, prendadas e gentis, para o bico de nenhum Andrés Gutiérrez, andaluz, galego ou chinês, pouco se lhe dava… As filhas eram agora sua alavanca para mudar o rumo do destino, sua escada para subir, para elevar-se. Recusou outros empregos, mais bem-intencionados, para Rosália e Flor, não queria as moças expostas ao público e ao perigo. Lugar de donzela é no lar, sua meta o casamento, assim pensava dona Rozilda. Mandar as filhas para balcão de armarinho, bilheteria de cinema, sala de espera de consultório médico ou dentário era entregar-se, confessar a pobreza, exibi-la, chaga mais repulsiva e pestilenta! Poria as meninas a trabalhar, sim, mas em casa, nas prendas domésticas por elas acumuladas, tendo em vista noivo e marido. Se antes prendas e matrimônio eram detalhes importantes nos planos de dona Rozilda, agora transformavam-se na peça fundamental de seus projetos.

Enquanto Gil fora vivo, dona Rozilda planejara formar o filho, fazer dele médico, advogado ou engenheiro, e, apoiada no canudo de doutor, no diploma da faculdade, ascender às elites, brilhar em meio aos poderosos do mundo. O anel de grau a resplandecer no dedo de Heitor seria sua chave para abrir as portas da gente da alta, desse mundo fechado e distante da Vitória, do Canela, da Graça. Ao lado disso, e em conseqüência, os bons casamentos das meninas, com colegas do filho, doutores de linhagem e de futuro.

A morte de Gil tornava impraticável aquele plano a longo prazo: Heitor ainda estava no ginásio, faltando-lhe dois anos para terminar o secundário – se atrasara, andara sendo reprovado nos exames. Como sustentá-lo durante cinco ou seis anos na faculdade, estudos demorados e caros? Com esforço e sacrifício poderia mantê-lo no colégio – cursava ele o Ginásio da Bahia, estabelecimento estadual e gratuito – até concluir o ginásio. Possuindo curso secundário completo, ser-lhe-ia possível escapar aos míseros empregos no comércio, a vida toda marcando passo, de metro na mão. Talvez conseguisse lugar num banco ou, por que não?, uma sinecura oficial, emprego público, com garantias e direitos, gratificações e aumentos, promoções, abonos e outros adicionais. Para tanto dona Rozilda contava com suas relações influentes.

Não contava mais, no entanto, com o título de doutor – o anel de formatura a rebrilhar, esmeralda, rubi ou safira – para atingir as sonhadas alturas. Uma lástima, não tinha jeito a dar, mais uma vez o bosta do marido arruinara seus projetos com aquela morte idiota.

Já não mais podia ele, porém, arruinar seus reformulados planos, amadurecidos nos dias de nojo. Nesses novos projetos a chave mestra, a abrir as portas do conforto e do bem-estar, era o matrimônio, o de Rosália e o de Flor. Casá-las (“colocá-las”, dizia dona Rozilda) o melhor possível, com moços de nome, rebentos de famílias distintas, filhos de coronéis fazendeiros, ou com senhores do comércio – de preferência do atacadista – , estabelecidos, com dinheiro e crédito nos bancos. Se era esta a meta a alcançar, como expor as meninas em empregos vagabundos, como exibi-las pobretonas, cuja graça e juventude malvestidas iriam despertar nos ricos e importantes apenas os baixos instintos, os pecaminosos desejos, merecendo-lhes propostas, certamente, mas outras que não as honestas de noivado e casamento?

Dona Rozilda queria as filhas em casa, recatadas, ajudando-a, com o trabalho e com o comportamento, a manter aquela aparência de conforto, a afivelar aquela máscara de gente se não opulenta pelo menos remediada e de boa educação. Quando as moças saíam para visitas a famílias conhecidas, para matinês dominicais, para alguma festinha em casa amiga, iam nos trinques, bem-vestidas, no ilusório aspecto de herdeiras de fino trato. Dona Rozilda era econômica, contando os vinténs na tentativa de equilibrar as finanças domésticas e seguir adiante, mas não tolerava desmazelo das filhas no vestir, nem mesmo na intimidade do lar. Exigia-as impecáveis, dignas de acolher a qualquer momento o príncipe encantado quando ele de repente surgisse. Para isso dona Rozilda não media esforço.

Certa vez Rosália foi convidada para uma dancinha no aniversário da menina mais velha do dr. João Falcão, um graúdo: palacete, lustres de cristal, talheres de prata, garçons a rigor. Os outros convivas tudo gente fina, podre de rica, da melhor sociedade, uma lordeza, só vendo. Pois bem: Rosália fez sensação, era a mais bem-apresentada, a mais chique, a ponto de a louvar dona Detinha, a bondosa anfitrioa:

– A mais linda de todas… Rosália, um mimo, uma boneca…

Parecia, sim, a mais rica e aristocrática. No entanto, lá estavam as meninas mais afortunadas e mais nobres da nobreza local, sangue azul de bacharéis e médicos, de funcionários e banqueiros, de lojistas e comerciantes. Com sua tez mate de cabo-verde, suave e pálida, era a branca mais autêntica entre todas aquelas finíssimas brancas baianas apuradas em todos os tons do moreno; aqui entre nós, que ninguém nos ouça, mestiças da mais fina e bela mulataria!

Ninguém, ao vê-la assim tão elegante, diria ter sido aquele vestido, o mais louvado da festa, obra dela própria e de dona Rozilda, o vestido e tudo mais, inclusive a transformação de um velho par de sapatos numa obra-prima de cetim. Entre as prendas de Rosália, era a costura a mais destacada, cortava e cosia, bordava e tricotava.

Sim, eram elas, as meninas, com suas prendas, sob a férrea direção de dona Rozilda os autores daquele milagre de sobrevivência: Heitor no colégio, a concluir o ginásio, o aluguel do primeiro andar pago em dia, assim como as prestações do rádio e do novo fogão, e ainda sendo postos de parte uns miúdos para a conclusão dos enxovais, para os vestidos de casamento, os véus, as grinaldas, pois lençóis e fronhas, camisolas e combinações iam-se pouco a pouco acumulando nos baús.

Eram elas, as meninas. Rosália na máquina a pedalar, costurando para fora, cortando vestidos, bordando blusas finas. Flor, a princípio na preparação de bandejas de salgados e doces para festinhas familiares, pequenas comemorações: aniversários, primeiras comunhões. Se era a costura o forte de Rosália, era a cozinha o fraco da menina mais moça: nascera com a ciência do ponto exato, com o dom dos temperos. Desde pequena fazia bolos e quitutes, sempre rondando o fogão, aprendendo os mistérios da arte suprema com a tia Lita, uma exigente. Tio Porto não possuía outro vício, além da pintura dominical, senão os bons pratos. Era um freqüentador de carurus e sarapatéis, perdido por uma feijoada ou um cozido de muita verdura. Das bandejas de pastéis e empadas, das encomendas de almoços, partiria Flor para receitas e aulas e, por fim, para a escola de culinária.

Uma na máquina, no corte e na costura, outra na cozinha, no forno e no fogão, dona Rozilda ao leme, iam atravessando. Modestamente, mediocremente, à espera dos cavaleiros andantes a surgirem numa festa ou num passeio, cobertos de dinheiro e títulos. O primeiro arrebatando Rosália, o segundo conduzindo Flor, ambos ao som da marcha nupcial, para o altar e para o mundo alegre dos poderosos. Primeiro Rosália, era a mais velha.

Obstinada, dona Rozilda espreitava o dobrar das esquinas, aguardando esse genro de ouro e prata, cravejado de diamantes. Por vezes um desânimo a invadia, e se não acontecesse o príncipe encantado? Era tempo dele surgir, impossível esperar a vida inteira, as moças atingiam a inquieta idade do homem. Rosália, vinte anos desdobrados em suspiros na janela, fartos do pedal da máquina de costura, reclamava urgente esse duque, esse conde, esse barão – quando se propunha ele a resgatá-la? Tão larga demora, tão cansativa espera – não se visse Rosália de súbito no fundo do barricão, solteirona, empedernida donzela, com aquele fedor a azedo das virgens encruadas, ao qual se referia sorrindo o bom tio Porto a mangar dos pruridos aristocráticos da cunhada.

De quando em quando, Rosália o antevia, ao ansiado pretendente: nas festas de dança, vasqueiras; nos passeios à casa da tia, no Rio Vermelho; em matinês de cinema ou ao volante de uma baratinha, todo de branco num domingo de regatas, acadêmico trocista ou estudioso sobraçando grossos volumes de ciência ou curvado no malabarismo de um tango argentino de todo capricho; romântico ao som de uma serenata pela noite.

Dona Rozilda também esperava, ia crescendo em impaciência: quando, quando surgiria ele, esse anunciado genro, esse milionário, esse lorde, esse fidalgo, esse doutor de borla e de capelo, esse atacadista da Cidade Baixa, esse fazendeiro de cacau ou de tabaco, esse dono de loja ou mesmo de armarinho, em último caso esse suado gringo de armazém de secos e molhados, quando?

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Tanto tempo esperaram, semanas, meses e anos, tão bem-postas e arranjadas, e nenhum fidalgo apareceu; nem rapaz aristocrata da Barra ou da Graça, nem filho de coronel do cacau, nenhum senhor do alto comércio, sequer galego enriquecido no duro labor dos armazéns e padarias. Quem chegou foi Antônio Morais com sua oficina de mecânico, sua competência autodidata, seu honrado macacão negro de graxa. Chegou na hora certa e por isso foi bem recebido. Já Rosália chorava lágrimas de vitalina condenada à solidão e à beatice, dona Rozilda não teve forças para reagir. Não era o genro antevisto nas longas vigílias de trabalho no pedal da máquina ou no calor do fogão. Não mais podia prender, porém, em considerações e argumentos ou na ira ameaçadora, o fustigado ímpeto de Rosália, cujos vinte (e tantos) anos sadios ansiavam por marido.

Ao demais, se Antônio Morais não era rico nem importante, pelo menos não era empregado de patrão nenhum, tinha sua pequena oficina afreguesada, ganhava com que sustentar mulher e filhos. Dona Rozilda curvou-se ante o destino, meio a pulso mas curvou-se, que jeito?

Naquele tempo já Heitor conseguira colocação na Estrada de Ferro de Nazaré, por intermédio de seu padrinho, dr. Luís Henrique, e fora viver na cidade do Recôncavo, vindo à capital raramente. Tinha futuro no emprego, dona Rozilda não precisava preocupar-se com ele. Também Flor começara a dar cursos de cozinha a moças e senhoras, ganhando dinheiro e fama de professora competente. Agora ela carregava com a maior parte das despesas da casa, mesmo porque Rosália, amedrontada com o correr do tempo, despendia seus ganhos em enfeitar-se, em vestidos e sapatos, perfumes e rendas.

Antônio Morais reparara em Rosália na matinê do Cinema Olímpia, num dia de palco, quando, além dos dois filmes e do seriado, seu Mota, o empresário, exibia artistas de passagem na Bahia, restos de mambembes desfeitos em excursões pelo interior, famintas estrelas de embaçada luz. Enquanto “Mirabel, o sonho sensual de Varsóvia”, polaca venerável, cansada de guerra, das ribaltas e dos leitos dos castelos, rebolava uma antiga bunda emurchecida para delírio da criançada ali a educar-se, Antônio Morais divisou em cadeiras próximas dona Rozilda e as duas filhas: Rosália na excitada espera, Flor desabrochando nos peitos e nas ancas.

Não mais teve olhos o mecânico para o consumido bamboleio do “sonho de Varsóvia”. O petulante olhar de Rosália cruzou com sua mirada súplice. Na saída, o moço acompanhou, a prudente distância, mãe e filhas, localizando a moradia burguesa da ladeira do Alvo. Rosália apareceu por um instante na sacada, deixou um sorriso a esvoaçar.

No outro dia, após a janta, Antônio Morais penava ladeira acima ladeira abaixo, estagiando na calçada fronteira ao sobrado. Da janela, Rosália espreitava, animadora. O mecânico subia e descia, os olhos postos na sacada alta, assoviando modinhas. Daí a pouco, Rosália, escoltada por Flor, surgiu ao pé da escada. Num passo de urubu-malandro, Morais encostou.

Dona Rozilda, sempre alerta, ainda na matinê reparara no namoro. E, ao ver Rosália esfogueada e indócil, saiu a tomar informações sobre o sujeito; Antenor Lima o conhecia, forneceu notícias concretas e favoráveis: mecânico de mão-cheia, oficina própria, nos Galés, um monstro no trabalho. Menino de nove anos, Antônio Morais perdera pai e mãe num desastre de marinete, ficara solto nas ruas e em vez de juntar-se aos capitães da areia e sair para a aventura da vagabundagem e da má vida, metera-se na oficina de Pé de Pilão, um negro maior que a catedral, mecânico e boa-praça. Na oficina, o molecote fazia de um tudo, pau para toda obra, esperto como ele só. Sem ordenado fixo mas com o direito de ali dormir, sem falar nas gorjetas, algumas gordas. Sozinho aprendera a ler e a escrever, com Pé de Pilão aprendera o ofício, e ainda jovem começara a trabalhar por sua conta e risco, cobrando uns biscates. Tinha as mãos maneiras e a cabeça viva: os motores de automóvel não guardavam segredos para sua curiosidade. Não era nenhum doutor, certamente, nem rapaz de posses. Mas poucos mecânicos podiam competir com ele. Ganhava seu dinheiro seguro, daria um marido de primeira, que diabo a mais pretendia Rosália, se não era nenhuma princesa nem possuía roça de cacau? – perguntava o malcriado Lima à enganjenta e resmungona vizinha.

Outros conhecidos confirmaram essa extensa crônica do comerciante, e dona Rozilda, após aconselhar-se com seu compadre, dr. Luís Henrique, um ruibarbosa de sabedoria – conselhos inestimáveis – e de muito pesar os prós e os contras, decidiu a favor do mecânico.

Não era, repetia, o genro dos seus sonhos, o príncipe de sangue nobre e arcas de ouro. Sangue nobre só o herdara Morais de um ancestral distante, Obitikô, príncipe de tribo africana aportado escravo na Bahia, sangue azul a misturar-se com o sangue plebeu de degradados lusitanos e de holandeses mercenários. Resultou da mistura um pardavasco claro de sorriso fácil, simpático moreno. Quanto a arcas de ouro, o pé-de-meia com as economias do mecânico não lhe permitia sequer montar casa imediatamente. Mas Rosália trancara-se em sua babada paixão, não aceitava discutir sobre as obscuras origens, o honrado ofício e as magras poupanças do rapaz, e, ante essa Rosália espinhosa, de resposta insolente e fácil calundu, dona Rozilda baixou a cabeça. E, assim, na quinta ou sexta aparição noturna de Morais – todo engomado em branco, o chapéu quebrado sobre o olho, os sapatos de duas cores, irresistível! – , ela o interpelou.

Estavam os dois amorosos num enleio, olhos nos olhos, as mãos dadas, falando bobagens, quando, das sombras da escadaria, dona Rozilda irrompeu inesperada e inquisidora, dura voz terrorista:

– Rosália, minha filha, quer me apresentar ao cavalheiro?

Feitas as apresentações, Rosália engrolando as palavras, Morais todo sem jeito, dona Rozilda foi logo arremetendo, sem nenhuma cerimônia nem consideração:

– Filha minha não namora em pé de escada nem em canto de rua, não sai sozinha para passear com namorado, não crio filha para divertimento de gaiato nenhum…

– Mas, eu…

– Quem quiser conversar com filha minha tem de declarar antes suas intenções.

Antônio Morais afirmou a pureza matrimonial de suas mais recônditas intenções, não era moleque para abusar das filhas dos outros. Respondeu com presteza e modéstia ao minucioso interrogatório, dona Rozilda comprovando informes, sobretudo os referentes aos ingressos da oficina.

Foi o mecânico aprovado e admitida oficialmente sua presença noturna à porta do sobrado, junto à qual, a partir daquela conferência, Rosália o esperava sentada numa cadeira. Da janela, dona Rozilda, no controle da moral familiar; filha sua não era para o desfrute de nenhum vadio. Assim, quando Morais adiantava a mão terna para a terna mão da moça, ouvia-se o repreensivo pigarro de dona Rozilda caindo lá de cima:

– Rosália!

Com isso apressou o noivado, Morais ansioso de maior liberdade, de intimidade menos vigiada. Noivo, passou a freqüentar a casa, a sair com Rosália aos domingos para a matinê, levando Flor de contrapeso, com ordens terminantes de vigiar e controlar os enamorados, de impedir beijos e ternuras; dona Rozilda exigia o máximo respeito. Mas Flor não nascera para tira de polícia; compreensiva e solidária, voltava as costas para a irmã e o futuro cunhado, absorvia-se no filme, a mastigar confeitos, deixando em paz o casal e sua urgência, suas bocas e mãos atarefadas.

Durante namoro e noivado, dona Rozilda mostrou-se tão amável quanto lhe era possível, escondeu as saliências mais ásperas de sua natureza. Necessitava casar as filhas, Rosália chegara ao limite da idade; sobravam moças em busca de marido, minguavam rapazes dispostos ao matrimônio. Árdua batalha, essa de casar filhas, dona Rozilda bem o sabia. Suas conhecidas, quase todas consideravam o mecânico um bom partido. Uma delas, inclusive, uma dona Elvira, mãe de três encardidas e remelentas donzelas, destinadas ao definitivo celibato, pusera as três bruacas a cercarem o pretendente, desfeitas em sorrisos e olhares prometedores, só faltavam arrastá-lo para a cama, lambisgóias desenxavidas e audaciosas. Ao demais, era Morais trabalhador e morigerado, não seria difícil à sogra comandá-lo, dirigi-lo à sua vontade, após o casamento. Nisso se enganou, o genro iria surpreendê-la.

Assim, a completa verdade sobre Rozilda, o artesão só a veio conhecer depois de casado. Haviam decidido habitar todos no primeiro andar da ladeira do Alvo, solução econômica e sentimental, pois gastariam menos e continuariam juntos, e outra coisa não demonstravam querer Morais e dona Rozilda senão continuarem para sempre juntos. Rosália resistira a esses planos temerários, “quem casa quer casa”, recordava ela, mas como fazer frente a essa lua-de-mel da mãe e do noivo?

Não durou seis meses a lua-de-mel, desfez-se a combinação, pois, como informou o genro aos conhecidos: “Só Cristo agüentaria morar com dona Rozilda e ainda assim não era certeza, precisava experimentar para ver se o Nazareno tinha bastante competência. Pois talvez nem ele suportasse”.

Mudaram-se para o fim do mundo do Cabula, quase zona rural. Morais preferia enfrentar aquele bonde comprido e lento, viagem de nunca acabar, descarrilhando a toda hora, atrasado para sempre; preferia sair pela madrugada para chegar a tempo na oficina situada nas imediações da ladeira dos Galés; meter-se naqueles matos esconsos onde sibilavam venenosas cobras cascáveis e onde os exus dos muitos candomblés da redondeza andavam soltos pelos caminhos fazendo misérias, a tolerar o convívio cotidiano da sogra. Antes as cascavéis e os exus.

No primeiro andar da ladeira do Alvo ficaram apenas Flor adolescente, apurando em moça bonita – delicado rosto, seios altos e altaneiras ancas – , e dona Rozilda, uma dona Rozilda cada vez mais agre, limitada agora às graças e às prendas daquela filha, seus derradeiros trunfos na batalha pela ascensão social, batalha tantas vezes perdida.

Não perdera, no entanto, sua resistência, não se abalara sua firme vontade de subir, de galgar os degraus a conduzi-la ao mundo dos ricos. Nas suas noites fatigadas de insônia (dormia pouco, ficava a ruminar projetos) decidira não entregar a caçula a nenhum outro Morais. Destinava Flor a melhor partido, a rapaz de qualidade, a branco fino, a doutor formado ou a comerciante forte. Defenderia com unhas e dentes aquela última trincheira, não se repetiria o acontecido com Rosália. Não só Flor era muito mais dócil e cordata como não receava ficar solteirona, não tinha conversa de casamento, não se levantava contra a mãe quando esta lhe proibia engraçar-se com empregadinhos de escritório, caixeiros de armarinho, galegos de balcão de padaria. Obedecia sem resmungos, não se revoltava aos berros, não se trancava no quarto ameaçando suicídio, num calundu daqueles, como o fazia Rosália quando dona Rozilda, zelosa de seu futuro, lhe interditava qualquer reles namorico. Resultado: casara com aquele mequetrefe do Morais, um zé-ninguém, nem sequer caixeiro, um simples artesão, um operário, que horror! Socialmente ainda menos importante do que elas. Podia ser um colosso no trabalho, podia ganhar dinheiro, ser bom marido, alegre camarada: a verdade, porém, é que a filha, em vez de subir, descera na escala social; assim, pelo menos, amargava dona Rozilda, destinada a outras alturas. Com Flor era diferente, não iria repetir-se o equívoco.

Enquanto dona Rozilda forjava planos, Flor fazia-se conhecida professora de culinária, especialmente de cozinha baiana. Nascera com o dom dos temperos, desde menina às voltas com receitas e molhos, aprendendo quitutes, gastando sal e açúcar. De há muito recebia encomendas de pratos baianos, constantemente chamada a ajudar em vatapás e efós, em moquecas e xinxins, inclusive em famosos carurus de Cosme e Damião como o da casa de sua tia Lita e o de dona Dorothy Alves, onde se reuniam dezenas de convidados e ainda sobrava comida para outros tantos. Carurus anuais, promessas feitas aos santos mabaças, aos Ibejis. Com o tempo seu renome foi-se espalhando, vinham lhe pedir receitas, levavam-na à casa de gente rica para ensinar o ponto e o tempero desse e daquele prato mais difícil. Dona Detinha Falcão, dona Lígia Oliva, dona Laurita Tavares, dona Ivany Silveira, outras senhoras “de representação”, de cuja amizade tanto se gabava dona Rozilda, recomendavam-na a amigas, Flor não tinha mãos a medir. Foi uma dessas senhoras esnobes e endinheiradas quem lhe deu a idéia da escola, pois, tendo-lhe pedido receitas teóricas e demonstrações práticas, fez questão, ao pagar-lhe o trabalho, de esclarecer que estava remunerando a ótima professora e boa amiga, e não gratificando uma cozinheira. Sutilezas gentis de dona Luísa Silveira, sergipana fidalga toda cheia de astúcias e não-me-toques.

A sério, com escola montada, Flor só começou a lecionar depois da partida de Rosália e Morais para o Rio de Janeiro. O mecânico concluiu não ser suficiente a distância entre os altos do Cabula e a ladeira do Alvo, quis colocar entre sua casa e a sogra o próprio mar oceano, tomara sagrada aversão a dona Rozilda, “a megera”, como dizia: “Aquilo é peste, fome e guerra!”.

Logo prosperou a escola, até senhoras do Canela e do Garcia, mesmo da Barra, vieram desvendar os mistérios do azeite doce e do azeite de dendê; uma das primeiras foi dona Magá Paternostro, ricaça cheia de relações, entusiástica propagandista dos dotes de Flor.

O tempo foi passando, corriam os anos, Flor não tinha pressa em arranjar noivo, agora era dona Rozilda quem começava a preocupar-se, afinal a filha caçula já não era menina. Flor encolhia os ombros, interessada apenas na escola. O irmão, numa de suas vindas de Nazaré, desenhara um cartaz com tinta de cor – elogiavam muito seu jeito para o desenho – , pendurara sob a sacada:

ESCOLA DE CULINÁRIA SABOR E ARTE

Heitor lera nos jornais extenso noticiário sobre uma escola Saber e Arte, experiência de um fulano vindo dos Estados Unidos, um tal de Anísio Teixeira. Com a mudança de uma letra no título em moda, adaptou-o aos interesses da irmã. Ao lado das letras caprichadas, colher, garfo e faca, cruzados em gracioso tripé, completavam a obra do artista. (Se fosse hoje já podia Heitor ir pensando numa exposição individual e na venda de uns quadros a bom preço, mas era naqueles tempos, e o funcionário da ferrovia contentou-se com os elogios da irmã, da mãe e de certa aluna de Flor, uma de olhos molhados, que atendia por Celeste.)

As aulas de culinária davam o necessário para o sustento da casa, as parcas despesas de mãe e filha, e também para guardar algum dinheiro, tendo em vista os gastos de um futuro matrimônio. Mas, sobretudo, enchiam o tempo de Flor, libertavam-na um pouco de dona Rozilda a repetir-lhe quanto sacrifício lhe custara criar e educar os filhos, criar e educar aquela filha caçula, e de como lhe era necessário encontrar marido rico que as arrancasse dali, da ladeira do Alvo e do fogão, para as delícias da Barra, da Graça, da Vitória.

Flor, porém, não parecia preocupada com namoro ou noivado. Nas festinhas, dançava com uns e com outros, ouvia os galanteios, sorria agradecida, não ia além disso. Não correspondeu nem mesmo aos apaixonados apelos de um doutorando em medicina, um paraense alegre, festeiro e almofadinha. Não lhe deu corda, apesar da excitação de dona Rozilda: finalmente um estudante, e quase doutor, aspirava à mão de sua filha.

– Não gosto dele… – declarou Flor, peremptória. – Feio como o cão…

Não houve conselho nem bronca de uma dona Rozilda em fúria que a fizesse mudar de opinião. A mãe entrou em pânico: iria repetir-se o caso de Rosália, revelando-se Flor igual à irmã, obstinada, disposta a resolver por conta própria sobre noivo e casamento? Quando pensava ter na filha mais moça a repetição da natureza do finado Gil, curvada à sua vontade, lá saía ela a antipatizar com o doutorzinho às vésperas do diploma, filho de pai latifundiário no Pará, dono de navios e ilhas, de seringais, matas de castanheiros, tribos de índios selvagens e rios imensos. Recamado de ouro. Dona Rozilda partira a informar-se e, na volta, após ouvir alguns conhecidos, já se fazia na Amazônia a reinar sobre léguas de terra, a mandar e desmandar em caboclos e índios. Finalmente aparecera o príncipe encantado, não fora inútil sua espera, nem seu sacrifício mal-empregado. Num navio do rio Amazonas aportaria ela nas soberbas casas da Barra, nos trancados palacetes da Graça, os donos a cortejá-la em salamaleques e adulações.

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Litres'teki yayın tarihi:
26 şubat 2026
Yazıldığı tarih:
1966
Hacim:
640 s. 1 illüstrasyon
ISBN:
978-5-9925-2087-3
Telif hakkı:
КАРО
İndirme biçimi: